Uma das minhas músicas preferidas é Geração Coca-cola do Legião Urbana. Além de ser uma música divertida para festas também é retrato da Geração posterior à famosa Geração 68. Talvez a Geração Coca-cola no Brasil tenha sido a primeira geração a se afastar da cultura européia e trocar as aulinhas de francês por inglês.
“Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.”
A Geração 68 é a que está no poder hoje no Brasil. Como já disse anteriormente, os heróis desta geração no Brasil foram Fidel Castro e os seus inimigos foram os militares. Antes que eu me esqueça, o critério que eu estou escolhendo na definição de geração são os fatos que marcaram a transição de adolescentes para a fase adulta. Um expoente da Geração 68 é o famigerado José Dirceu(1946-?).
“Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”
A Geração Coca-Cola ainda era criança quando os militares chegaram ao poder. Renato Russo (1960-1996) foi membro desta geração. Diferente da engajada Geração 68, que sonhava com o mundo dos ‘camaradas’, a geração coca-cola, identificada com o movimento punk, apregoava uma nova revolução dos costumes.
Se o Aécio Neves (1960-?) for eleito nosso próximo presidente, teremos uma troca de poder e de geração. Por outro lado, se a Dilma Roussef (1947-?) for nossa próxima mandatária, então a Geração 68 conseguirá reter o poder. Nos Estados Unidos, mais precisamente no Partido Democrata assistimos a uma luta entre a Hillary (1947-?) portanto, da geração 68 versus o Obama (1961-?).
“Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola”
Embora esta música esteja dialogando com a geração que deu o golpe de 64 e não a que lutou contra ele, podemos reinterpretá-la a partir da nossa atual experiência. Assim, a Geração Coca-Cola está preparada depois de assistir a Geração 68 mostrar “todas as manhas do jogo sujo”, depois de ter sacrificado todos os ideais juvenis no altar da obsessão do poder total. Quando vejo o Lula abraçado ao Chavez e tratá-lo por ‘pacificador’, não consigo conter o meu nojo. É o encontro de dois populistas carismáticos, um militarista e outro da Bolsa Família. Graças a Deus, o Brasil é maior que a Venezuela...
“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser”
Depois da Geração Coca-Cola, tivemos a Geração que assistiu a queda do Muro de Berlim e ao desaparecimento do mundo bipolar. Esta geração viveu com grande ceticismo a retomada da democracia, a primeira eleição direta, o governo Collor, além de ter pego os militares em uma fase mais light.
“Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis”
Por fim, tivemos a Geração FHC que assistiu ao nosso grande intelectual marxista tentar extirpar o corporativismo e o patrimonialismo do estado brasileiro, promovendo a amputação de algumas partes. Para estes jovens, o diagnóstico do velho professor marxista convertido ao liberalismo de que o maior inimigo do Brasil não eram os EUA, mas o estado corporativista no estilo Vargas, era por demais complicado para que eles pudessem digerir e muitos deles foram presas de um bando de professores preguiçosos e ressentidos tipicamente de esquerda. As gerações vão e vem e não há progresso. Também não devemos de ter vergonha por não querer carregar os valores da geração anterior. Pessoalmente, acho que o Brasil precisa ficar livre da Geração 68, pois esta já deu o que tinha que dar e já roubou o que tinha que roubar. Bye bye Geração 68.
27 março 2008
23 março 2008
Lula e os Menores Infratores
Recentemente, um amigo teve a sua casa assaltada em São Paulo. Ele faltou vários dias ao trabalho para resolver questões como o registro de ocorrência, seguros e outros. Quando ele nos contou como a coisa se deu não fiquei surpreso da quadrilha contar com um menor. Segundo ele, uma mulher tocou a campainha e pediu para falar com um dos moradores pelo nome, o que fez a empregada abrir a porta. Em seguida, dois adultos e um adolescente invadiram a casa.
Felizmente, era uma quadrilha profissional que apenas roubou tudo o que havia de valor e amarrou os moradores no banheiro enquanto levava o carro com tudo o que podia levar. O chefe da quadrilha era um meliante na casa dos quarenta anos e nenhum deles estava chapado. Brinquei com ele que ele tivera sorte que os caras eram profissionais, que tinham ate mesmo um menor para segurar a bronca caso algo mais violento se sucedesse.
Não é uma brincadeira de bom gosto, mas é uma realidade inegável. Hoje e sempre, o Estatuto da Criança e da Adolescência serve para garantir o ingresso das crianças e adolescentes no crime. Esta quadrilha tinha uma vaga garantida para um menor exatamente para ele assumir a responsabilidade por qualquer violência que fosse cometida.
Lembrei-me dos meus tempos de Vara da Infância, quando cuidava dos processos dos menores infratores. Naquele época, a prisão temporária era de 45 dias e o processo tinha que correr rapidamente para impedir que o adolescente fosse liberado. O mais impressionante dos monstrinhos tinha mais de dez assassinatos, incluindo o massacre de um casal de namorados que havia sido surpreendido em uma carro. Quando anunciaram que o jovem iria vir para uma audiência foi um alvoroço, eu mesmo estava curioso em conhecer o autor de tantos crimes cujos detalhes eu conhecia de ler os processos.
Confesso que foi um pouco decepcionante, pois ele parecia um adolescente absolutamente normal. A origem socioeconômica dele era a classe media e nada em sua aparência sugeria o perigo que ele representava. A gente brincava que um menor podia entrar em um restaurante, metralhar todo mundo, se sentar e esperar a polícia. porque ele seria liberado quando completasse 21 anos, e com a ficha limpa.
Entretanto, o processo mais aterrorizante que eu já tive acesso foi o de uma dupla de garotos que estuprara uma conhecida em um terreno baldio apos se encontrarem com ela em uma lanchonete. Depois de a matarem, arrancaram o seu útero pela vagina. As fotos estavam lá no processo, que corria em segredo de justiça.
Nestas horas, eu me lembro do Mercadante, que se opôs à redução da maioridade penal e do Lula, na ocasião da morte do João Hélio, arrastado durante o roubo do carro da sua mãe, que afirmou que estes jovens não podiam ser punidos pois eram vitimas de problemas sociais. De fato, graças à imunidade garantida pelo Estatuto da Criança e Adolescência, se está garantindo o primeiro emprego de muitos jovens em boas quadrilhas. O Lula devia estar feliz pois o seu programa do primeiro emprego pelo menos está tendo algum efeito, além de engordar a sua base eleitoral.
Felizmente, era uma quadrilha profissional que apenas roubou tudo o que havia de valor e amarrou os moradores no banheiro enquanto levava o carro com tudo o que podia levar. O chefe da quadrilha era um meliante na casa dos quarenta anos e nenhum deles estava chapado. Brinquei com ele que ele tivera sorte que os caras eram profissionais, que tinham ate mesmo um menor para segurar a bronca caso algo mais violento se sucedesse.
Não é uma brincadeira de bom gosto, mas é uma realidade inegável. Hoje e sempre, o Estatuto da Criança e da Adolescência serve para garantir o ingresso das crianças e adolescentes no crime. Esta quadrilha tinha uma vaga garantida para um menor exatamente para ele assumir a responsabilidade por qualquer violência que fosse cometida.
Lembrei-me dos meus tempos de Vara da Infância, quando cuidava dos processos dos menores infratores. Naquele época, a prisão temporária era de 45 dias e o processo tinha que correr rapidamente para impedir que o adolescente fosse liberado. O mais impressionante dos monstrinhos tinha mais de dez assassinatos, incluindo o massacre de um casal de namorados que havia sido surpreendido em uma carro. Quando anunciaram que o jovem iria vir para uma audiência foi um alvoroço, eu mesmo estava curioso em conhecer o autor de tantos crimes cujos detalhes eu conhecia de ler os processos.
Confesso que foi um pouco decepcionante, pois ele parecia um adolescente absolutamente normal. A origem socioeconômica dele era a classe media e nada em sua aparência sugeria o perigo que ele representava. A gente brincava que um menor podia entrar em um restaurante, metralhar todo mundo, se sentar e esperar a polícia. porque ele seria liberado quando completasse 21 anos, e com a ficha limpa.
Entretanto, o processo mais aterrorizante que eu já tive acesso foi o de uma dupla de garotos que estuprara uma conhecida em um terreno baldio apos se encontrarem com ela em uma lanchonete. Depois de a matarem, arrancaram o seu útero pela vagina. As fotos estavam lá no processo, que corria em segredo de justiça.
Nestas horas, eu me lembro do Mercadante, que se opôs à redução da maioridade penal e do Lula, na ocasião da morte do João Hélio, arrastado durante o roubo do carro da sua mãe, que afirmou que estes jovens não podiam ser punidos pois eram vitimas de problemas sociais. De fato, graças à imunidade garantida pelo Estatuto da Criança e Adolescência, se está garantindo o primeiro emprego de muitos jovens em boas quadrilhas. O Lula devia estar feliz pois o seu programa do primeiro emprego pelo menos está tendo algum efeito, além de engordar a sua base eleitoral.
21 março 2008
Jesus Salva...e Marx também
Hoje é sexta-feira santa e, talvez por ser um dia religioso, observei vários carros com inscrições como Jesus Salva ou Ele é o Caminho, ou coisas do tipo. Vi um grupo de moças bem vestidas que, ao passarmos por elas, nos entregaram um folheto dizendo que todo o sofrimento cessaria se fossemos para a igreja delas. Na hora, confesso que me lembrei de Buda e as Nobres Verdades.
Ontem, um 'quase doutorando' em Economia, bastante erudito, com quem eu conversava me disse que quando os trabalhadores tomarem o poder e impuserem a ditadura dos trabalhadores, cessará todo o conflito de classes e a verdadeira história da humanidade comecará ... Não pude deixar de retrucar que esta era um idéia messiânica, ou mesmo escatológica.
A realizacão da profecia marxista depende da vitória dos 'trabalhadores' na guerra de classes. Gramsci propôs então a atualização de Maquiavel, substituindo o príncipe pelo partido, ou seja, a estratégia seria fortalecer o partido, englobando a sociedade civil e substituindo as instituições pela hegemonia do partido.
O futuro construído pelos companheiros trabalhadores seria marcado pela substituição da propriedade privada e da livre iniciativa pela submissão a instâncias burocráticas de coordenação política da produção. Curiosamente, o Partido Comunista Chinês, o partido mais poderoso do mundo, age justamente na direcão contrária: monopoliza o poder e libera a livre iniciativa, além de caminhar na direção da propriedade privada. E que Império terrível é o chinês: a colônia tibetana que o diga.
Curiosamente, o marxismo se alimenta da burguesia como o próprio Marx, que passou a vida sendo sustentado por um milionário. A idéia de uma sociedade de iguais criada com a queda do Antigo Regime e o consequente fim dos privilégios da fidalguia é uma concepção burguesa e liberal. Uma das mais remotas fontes desta idéia é o próprio cristianismo com seu ideal da formação da comunidade dos irmãos em Cristo. As doutrinas religiosas monoteístas fizeram muito pela unificação política dos estados. O cristianismo, para muitos, teria criado a Europa a partir da idéia de cristandade. No marxismo, os irmãos em Cristo se tornam os companheiros trabalhadores e, certamente, quando os companheiros trabalhadores dominarem o mundo, cessará todo o sofrimento . Quem conhece minimamente um sindicato não alimenta tantas esperanças.
A propriedade privada é uma instituição recente, com uns duzentos anos ou menos na maioria dos países. Assim, quando d. Joao VI expropria casas no Rio para o corte, estava em seu direito. No feudalismo, se podia até comprar uma propriedade, mas não se podia retirar os servos que estavam ligados à terra e não necessariamente aos senhores dela. Somente com a Revolução Industrial, e mais intensamente no século XIX, foi possível expulsar os servos das propriedades.
Assim, o marxismo depende da idéia burguesa e cristã da igualdade, da ética burguesa e protestante do trabalho, sobre a qual ele baseia toda a sua teoria do valor-trabalho que afinal vem de Adam Smith. Disto Marx deduziu que a existencia da propriedade privada é fruto da exploracao de classe por meio da extracao da mais-valia. Como disse Lenin, Marx se apoiou na economia politica inglesa, na filosofia alemã "invertida" e na teoria política francesa.
Não podemos nos esquecer que no século XIX emergia o Estado como uma instituição de controle de toda a sociedade. Anteriormente, o mais poderoso Rei 'absolutista' jamais sonharia com o poder que o Estado teria a partir do século XIX. Antes, um Rei distribuia justiça e fazia a guerra, enquanto que o Estado de polícia iniciado nos finais do antigo regime ampliou-se progressivamente, atuando na disciplinarização dos corpos para a promoção do bem-comum.
O que o futuro nos reserva? Será que o PT e aliados conseguirão se fortalecer em detrimento das demais instituições até passarem a exercer a hegemonia? Será que as novas igrejas que pregam o sucesso e a felicidade substituirão a velha Igreja Católica? Será que as pessoas entregarão a responsabilidade pela sua felicidade e bem-estar ao Estado? Aguardem na próxima semana, na mesma BatHora, no mesmo BatCanal!
Ontem, um 'quase doutorando' em Economia, bastante erudito, com quem eu conversava me disse que quando os trabalhadores tomarem o poder e impuserem a ditadura dos trabalhadores, cessará todo o conflito de classes e a verdadeira história da humanidade comecará ... Não pude deixar de retrucar que esta era um idéia messiânica, ou mesmo escatológica.
A realizacão da profecia marxista depende da vitória dos 'trabalhadores' na guerra de classes. Gramsci propôs então a atualização de Maquiavel, substituindo o príncipe pelo partido, ou seja, a estratégia seria fortalecer o partido, englobando a sociedade civil e substituindo as instituições pela hegemonia do partido.
O futuro construído pelos companheiros trabalhadores seria marcado pela substituição da propriedade privada e da livre iniciativa pela submissão a instâncias burocráticas de coordenação política da produção. Curiosamente, o Partido Comunista Chinês, o partido mais poderoso do mundo, age justamente na direcão contrária: monopoliza o poder e libera a livre iniciativa, além de caminhar na direção da propriedade privada. E que Império terrível é o chinês: a colônia tibetana que o diga.
Curiosamente, o marxismo se alimenta da burguesia como o próprio Marx, que passou a vida sendo sustentado por um milionário. A idéia de uma sociedade de iguais criada com a queda do Antigo Regime e o consequente fim dos privilégios da fidalguia é uma concepção burguesa e liberal. Uma das mais remotas fontes desta idéia é o próprio cristianismo com seu ideal da formação da comunidade dos irmãos em Cristo. As doutrinas religiosas monoteístas fizeram muito pela unificação política dos estados. O cristianismo, para muitos, teria criado a Europa a partir da idéia de cristandade. No marxismo, os irmãos em Cristo se tornam os companheiros trabalhadores e, certamente, quando os companheiros trabalhadores dominarem o mundo, cessará todo o sofrimento . Quem conhece minimamente um sindicato não alimenta tantas esperanças.
A propriedade privada é uma instituição recente, com uns duzentos anos ou menos na maioria dos países. Assim, quando d. Joao VI expropria casas no Rio para o corte, estava em seu direito. No feudalismo, se podia até comprar uma propriedade, mas não se podia retirar os servos que estavam ligados à terra e não necessariamente aos senhores dela. Somente com a Revolução Industrial, e mais intensamente no século XIX, foi possível expulsar os servos das propriedades.
Assim, o marxismo depende da idéia burguesa e cristã da igualdade, da ética burguesa e protestante do trabalho, sobre a qual ele baseia toda a sua teoria do valor-trabalho que afinal vem de Adam Smith. Disto Marx deduziu que a existencia da propriedade privada é fruto da exploracao de classe por meio da extracao da mais-valia. Como disse Lenin, Marx se apoiou na economia politica inglesa, na filosofia alemã "invertida" e na teoria política francesa.
Não podemos nos esquecer que no século XIX emergia o Estado como uma instituição de controle de toda a sociedade. Anteriormente, o mais poderoso Rei 'absolutista' jamais sonharia com o poder que o Estado teria a partir do século XIX. Antes, um Rei distribuia justiça e fazia a guerra, enquanto que o Estado de polícia iniciado nos finais do antigo regime ampliou-se progressivamente, atuando na disciplinarização dos corpos para a promoção do bem-comum.
O que o futuro nos reserva? Será que o PT e aliados conseguirão se fortalecer em detrimento das demais instituições até passarem a exercer a hegemonia? Será que as novas igrejas que pregam o sucesso e a felicidade substituirão a velha Igreja Católica? Será que as pessoas entregarão a responsabilidade pela sua felicidade e bem-estar ao Estado? Aguardem na próxima semana, na mesma BatHora, no mesmo BatCanal!
Marcadores:
Heitor,
propriedade privada,
PT,
Socialismo
17 março 2008
O que são os EUA?
Em DST's, sexo, moraleiros&negócios, o autor diz:
"A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !"
O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois "eram muito cristãos". O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.
Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.
Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é "mais", o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei... Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, "liberdades". Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de "hipocrisia".
Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas... "Como aqui pode ser chamado de 'país da liberdade' se não me deixam andar na rua?" Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos "cidades carolas" como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.
Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: "Como? A droga não é proibida?" Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou "inferindo", chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido a existência da 2ª...
Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos... Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?
A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente... De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois uma certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo "raciocínio organicista" que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianômami.
Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a "liberdade de proibir", o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta "ditadura da maioria", como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.
Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.
Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico - ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda...). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais "burocratizadamente" porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.
O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de "engenharia social" típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.
Em suma (baita pretensão...), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.
Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um "equilíbrio perfeito", harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, "o troço" acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.
____________
PS: Quanto aos "30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST", nada encontrei, por enquanto... Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve...
"A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !"
O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois "eram muito cristãos". O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.
Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.
Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é "mais", o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei... Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, "liberdades". Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de "hipocrisia".
Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas... "Como aqui pode ser chamado de 'país da liberdade' se não me deixam andar na rua?" Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos "cidades carolas" como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.
Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: "Como? A droga não é proibida?" Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou "inferindo", chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido a existência da 2ª...
Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos... Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?
A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente... De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois uma certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo "raciocínio organicista" que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianômami.
Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a "liberdade de proibir", o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta "ditadura da maioria", como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.
Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.
Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico - ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda...). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais "burocratizadamente" porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.
O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de "engenharia social" típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.
Em suma (baita pretensão...), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.
Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um "equilíbrio perfeito", harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, "o troço" acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.
____________
PS: Quanto aos "30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST", nada encontrei, por enquanto... Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve...
06 março 2008
Os Últimos Dias de Bush
Bush ganhou uma eleição roubada por um juiz da Suprema Corte indicado por seu pai que mandou suspender a recontagem dos votos a pedido de uma procuradora indicada por seu irmão. Na verdade, ele somente conseguiu ser governador do Texas e o indicado do Partido Republicano para a presidência porque seu pai foi um homem extraordinário. O velho Bush foi piloto de mais de uma centena de missões na Segunda Guerra Mundial, tornou-se milionário no Texas, senador, diretor da CIA, embaixador na China, presidente do Comitê das Forças Armadas no Senado, vice-presidente e presidente dos EUA e ainda é o nome do aeroporto do Texas. Por fim, deu porrada no velho Saddam quando ele tentou conquistar o Kwait.
No 11 de setembro, os EUA são atacados por sauditas que haviam sido outrora treinados para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Bush atacou o Afeganistão e devastou os Talibãs, seus antigos aliados em busca de Bin Laden, mas falha completamente ao enviar poucas tropas e ao assistir o ressurgimento das guerrilhas. Novamente, os gringos falharam e não terminaram o serviço, afinal, quando os soviéticos foram derrotados com o apoio americano, o Afeganistão estava devastado e foi entregue a uma população composta em sua maioria por menores de 18 anos e as armas estavam em poder de fanáticos religiosos muito úteis na luta contra os soviéticos mas absolutamente incapazes de entender um mundo não tribal.
O ataque ao Iraque foi no sentido de completar o serviço iniciado por seu pai, que quando derrota Saddam abandona os oposicionistas do regime, que são massacrados pelo ditador quando as tropas americanas decidem não invadir o Iraque. Isto e conquistar muito petróleo. O problema é que hoje os EUA não podem sair do Iraque sem que ele caia sob a influência do Irã. Por outro lado, os democratas querem deixar o serviço feito pela metade. Os republicanos compreendem que, ou se estabiliza o Iraque ou os EUA sofrerão uma derrota de proporções imprevisíveis que junto com a crise econômica e o festival de massacres nas universidades poderiam lançar os EUA em uma profunda depressão.
Bush é um cara simpático, na High School americana devia ser aquele sujeito boa praça que levava os amigos para brincar na mansão do pai e ainda deve ter sido o Rei do Baile de Formatura. Mais tarde se tornou um alcoólatra, falido e salvo por Deus e seu pai do vício e da pobreza. Acho que desde a Revolução Francesa não houve um “Imperador” tão desmoralizado como o Bush. Na TV, ele já tem duas séries de humor dedicadas a ridicularizá-lo e tem fornecido material para os comediantes há anos. A desmoralização do Rei é sempre perigosa, como pode ser atestado pela Revolução Francesa. Fidel Castro mesmo é extremamente intolerante contra a crítica ou o ridículo do governante porque como um revolucionário prático ele conhece o seu poder. Para ele, lugar de comediante é apodrecendo na prisão.
Enfim, já que o Bush fracassou completamente em termos geopolíticos e mais recentemente econômicos com o avanço da China, ressurgimento da Rússia, desvalorização do dólar, recessão, fracasso no apoio ao golpe contra Chávez, e ainda temos o ressurgimento do socialismo na América Latina, então ele talvez pudesse nos fazer um favor e jogar uma bomba no Palácio Presidencial de Chávez. Com isto, ficaríamos livre de uma corrida armamentista e uma possível guerra. Quanto aos efeitos colaterais, seriam mínimos pois tenho certeza que Chávez não conseguiria se tornar um mártir, afinal, Che fica bem melhor em uma camiseta.
No 11 de setembro, os EUA são atacados por sauditas que haviam sido outrora treinados para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Bush atacou o Afeganistão e devastou os Talibãs, seus antigos aliados em busca de Bin Laden, mas falha completamente ao enviar poucas tropas e ao assistir o ressurgimento das guerrilhas. Novamente, os gringos falharam e não terminaram o serviço, afinal, quando os soviéticos foram derrotados com o apoio americano, o Afeganistão estava devastado e foi entregue a uma população composta em sua maioria por menores de 18 anos e as armas estavam em poder de fanáticos religiosos muito úteis na luta contra os soviéticos mas absolutamente incapazes de entender um mundo não tribal.
O ataque ao Iraque foi no sentido de completar o serviço iniciado por seu pai, que quando derrota Saddam abandona os oposicionistas do regime, que são massacrados pelo ditador quando as tropas americanas decidem não invadir o Iraque. Isto e conquistar muito petróleo. O problema é que hoje os EUA não podem sair do Iraque sem que ele caia sob a influência do Irã. Por outro lado, os democratas querem deixar o serviço feito pela metade. Os republicanos compreendem que, ou se estabiliza o Iraque ou os EUA sofrerão uma derrota de proporções imprevisíveis que junto com a crise econômica e o festival de massacres nas universidades poderiam lançar os EUA em uma profunda depressão.
Bush é um cara simpático, na High School americana devia ser aquele sujeito boa praça que levava os amigos para brincar na mansão do pai e ainda deve ter sido o Rei do Baile de Formatura. Mais tarde se tornou um alcoólatra, falido e salvo por Deus e seu pai do vício e da pobreza. Acho que desde a Revolução Francesa não houve um “Imperador” tão desmoralizado como o Bush. Na TV, ele já tem duas séries de humor dedicadas a ridicularizá-lo e tem fornecido material para os comediantes há anos. A desmoralização do Rei é sempre perigosa, como pode ser atestado pela Revolução Francesa. Fidel Castro mesmo é extremamente intolerante contra a crítica ou o ridículo do governante porque como um revolucionário prático ele conhece o seu poder. Para ele, lugar de comediante é apodrecendo na prisão.
Enfim, já que o Bush fracassou completamente em termos geopolíticos e mais recentemente econômicos com o avanço da China, ressurgimento da Rússia, desvalorização do dólar, recessão, fracasso no apoio ao golpe contra Chávez, e ainda temos o ressurgimento do socialismo na América Latina, então ele talvez pudesse nos fazer um favor e jogar uma bomba no Palácio Presidencial de Chávez. Com isto, ficaríamos livre de uma corrida armamentista e uma possível guerra. Quanto aos efeitos colaterais, seriam mínimos pois tenho certeza que Chávez não conseguiria se tornar um mártir, afinal, Che fica bem melhor em uma camiseta.
02 março 2008
A Esquerda e a Guerra na América do Sul
Recentemente, foi morto um dos sete membros do secretariado das FARC, cujo acampamento estava 2 quilômetros dentro do território do Equador. Diante deste incidente, Chávez respondeu que se algo semelhante ocorresse na Venezuela, poderia ser a razão para uma guerra. Diante destes eventos, lembrei-me das minhas professorinhas do ensino médio e da sua mania de dizer que vivíamos em um lugar de paz eterna na América do Sul e que, portanto, não havia sentido em gastar dinheiro com armas em um país onde as pessoas passavam fome.
A Colômbia está em guerra civil há quarenta anos com esta guerrilha do Partido Comunista Colombiano que conta com simpatizantes pelo mundo afora, inclusive o mais popular historiador marxista, o Eric Hobsbawm, que criticou as injustiças do estado colombiano, a quem nega legitimidade. Enfim, agora sabemos como a elite das FARC sobrevive: alguns estão na floresta venezuelana, outros na equatoriana, e talvez haja alguns em território brasileiro. Depois da declaração de Chávez, podemos ter certeza de que parte do secretariado das FARC está escondida na Venezuela.
Apesar de não vivermos no Brasil em uma guerra civil declarada, entre 1996 e 2006 foram assassinados meio milhão de brasileiros. Os esquerdistas culpam a existência de armas de fogo e a injustiça social por isso. De fato, creio que boa parte destas mortes é explicada pela ação das quadrilhas de traficantes de drogas e pela existência de grupos de extermínio. O nível atual de organização das quadrilhas de traficantes de drogas deve muito aos antigos presos políticos da esquerda. Quanto aos grupos de extermínio, são a solução encontrada pela comunidade e por comerciantes, que pagam a policiais para exterminar jovens criminosos. De fato, a eliminação destes jovens pode até ser um fator de redução do número de assassinatos. Enquanto isto, os esquerdistas vêm com este papo furado politicamente correto defendendo a proibição da venda de armas e com campanhas para desarmar os cidadãos corretos, que pagam os impostos que sustentam a corja dos companheiros ,como vimos detalhadamente no escândalo do Mensalão, dos Cartões e das ONGs.
Mas voltando à questão da segurança sul-americana, temos agora uma possibilidade de guerra real à vista, caso o governo colombiano mate algum membro da elite das FARC na fronteira com a Venezuela. Uma guerra na floresta amazônica iria obrigar a mobilização do exército brasileiro na floresta para evitar que ela fosse usada pelas forças em conflito. A simples presença das forças brasileiras, por outro lado, aumenta o risco de “acidentes”. Levando em consideração os nossos atuais governantes, o peso das nossas forças poderia ser colocado ao lado dos venezuelanos, enquanto os Estados Unidos perfilariam ao lado da Colômbia... E poderíamos dar adeus à longa paz sul-americana. Mas o que alguém poderia esperar destas odiosas doutrinas marxistas que explicam a história pelo conflito entre opressores e oprimidos?
Devemos agradecer muito disso ao grande Fidel Castro; em um artigo surpreendente do Mino Carta ele se pergunta o que teria acontecido na América do Sul se a Geração 68 não tivesse se deslumbrado com a Revolução Cubana e desejado adotar o seu modelo. Talvez a história tivesse sido diferente e os americanos tivessem reagido menos histericamente os governos populistas que aos seus olhos se tornavam um foco de comunistas ansiosos por se aliar à União Soviética. Em certo sentido, tudo começa com a reação exagerada dos EUA diante da perda da sua influência em Cuba, o que acabou jogando Castro no colo dos soviéticos.
Fidel fez um grande estrago, as repercussoes da Crise dos Misseis mataram Kennedy, derrubaram Kruchev e lançaram os americanos em um Cruzada contra os seguidores dos grandes heróis cubanos na America do Sul. Neste ponto, uno-me à saudação de John McCain, que, a respeito da saída de Fidel do poder, desejou-lhe uma partida breve para o inferno para se encontrar com Karl Marx.
A Colômbia está em guerra civil há quarenta anos com esta guerrilha do Partido Comunista Colombiano que conta com simpatizantes pelo mundo afora, inclusive o mais popular historiador marxista, o Eric Hobsbawm, que criticou as injustiças do estado colombiano, a quem nega legitimidade. Enfim, agora sabemos como a elite das FARC sobrevive: alguns estão na floresta venezuelana, outros na equatoriana, e talvez haja alguns em território brasileiro. Depois da declaração de Chávez, podemos ter certeza de que parte do secretariado das FARC está escondida na Venezuela.
Apesar de não vivermos no Brasil em uma guerra civil declarada, entre 1996 e 2006 foram assassinados meio milhão de brasileiros. Os esquerdistas culpam a existência de armas de fogo e a injustiça social por isso. De fato, creio que boa parte destas mortes é explicada pela ação das quadrilhas de traficantes de drogas e pela existência de grupos de extermínio. O nível atual de organização das quadrilhas de traficantes de drogas deve muito aos antigos presos políticos da esquerda. Quanto aos grupos de extermínio, são a solução encontrada pela comunidade e por comerciantes, que pagam a policiais para exterminar jovens criminosos. De fato, a eliminação destes jovens pode até ser um fator de redução do número de assassinatos. Enquanto isto, os esquerdistas vêm com este papo furado politicamente correto defendendo a proibição da venda de armas e com campanhas para desarmar os cidadãos corretos, que pagam os impostos que sustentam a corja dos companheiros ,como vimos detalhadamente no escândalo do Mensalão, dos Cartões e das ONGs.
Mas voltando à questão da segurança sul-americana, temos agora uma possibilidade de guerra real à vista, caso o governo colombiano mate algum membro da elite das FARC na fronteira com a Venezuela. Uma guerra na floresta amazônica iria obrigar a mobilização do exército brasileiro na floresta para evitar que ela fosse usada pelas forças em conflito. A simples presença das forças brasileiras, por outro lado, aumenta o risco de “acidentes”. Levando em consideração os nossos atuais governantes, o peso das nossas forças poderia ser colocado ao lado dos venezuelanos, enquanto os Estados Unidos perfilariam ao lado da Colômbia... E poderíamos dar adeus à longa paz sul-americana. Mas o que alguém poderia esperar destas odiosas doutrinas marxistas que explicam a história pelo conflito entre opressores e oprimidos?
Devemos agradecer muito disso ao grande Fidel Castro; em um artigo surpreendente do Mino Carta ele se pergunta o que teria acontecido na América do Sul se a Geração 68 não tivesse se deslumbrado com a Revolução Cubana e desejado adotar o seu modelo. Talvez a história tivesse sido diferente e os americanos tivessem reagido menos histericamente os governos populistas que aos seus olhos se tornavam um foco de comunistas ansiosos por se aliar à União Soviética. Em certo sentido, tudo começa com a reação exagerada dos EUA diante da perda da sua influência em Cuba, o que acabou jogando Castro no colo dos soviéticos.
Fidel fez um grande estrago, as repercussoes da Crise dos Misseis mataram Kennedy, derrubaram Kruchev e lançaram os americanos em um Cruzada contra os seguidores dos grandes heróis cubanos na America do Sul. Neste ponto, uno-me à saudação de John McCain, que, a respeito da saída de Fidel do poder, desejou-lhe uma partida breve para o inferno para se encontrar com Karl Marx.
27 fevereiro 2008
A Herança Maldita da Esquerda
O presidente Luiz Inácio “Não sabe de Nada” da Silva costumava dizer que tinha recebido uma herança maldita de Fernando Henrique. Dizia que a venda das empresas de telecomunicação pelo dobro do preço do mercado como ficou demonstrado um ano depois havia sido “entreguismo”. No fundo, nós sabemos o que incomoda a cambada petista, foi a eliminação de mais de 200 cargos de diretores que havia no Sistema Telebrás que teria permitido a nomeação de muitos “companheiros”.O crime organizado deve muito aos antigos presos políticos que ajudaram a formar várias grandes organizações criminosas. No Rio de Janeiro, houve a gestão Brizola que proibiu a polícia de subir o morro e com isto destruiu a ação do Estado na acepção weberiana de monopólio da violência nestas regiões. O padrão histórico da expansão da cidade do Rio de Janeiro havia sido o de expulsar os pobres ocupantes de áreas não regularizadas para a periferia. Graças a Brizola ficou marcado uma inversão deste paradigma. Mas o Brizola ainda está alguns níveis acima desta cambada petista graças a sua preocupação com educação e a atuação de Darci Ribeiro. Recentemente, tivemos a denúncia de envolvimento do secretário da ex-prefeita Marta “Relaxa e Goza” Suplicy com o PCC por ele ter pedido emprego para seis dos seus membros. Ele quase foi eleito presidente do PT, mas aí ia ser muita bandeira.
O maior legado da gestão Lula foi a destruição do Bolsa Escola, este programa que havia sido bolado pelo ex-companheiro Cristóvam Buarque e que tinha como meta tirar as crianças da rua e colocá-las na escola. O companheiro Lula percebeu que este plano era um programa de estado mas não gerava voto afinal estudante não vota. Preferiu transformar este plano em um Bolsa Família e expandi-lo para o atendimento de pessoas com direito a voto. Graças a sua jogada ele conseguiu se reeleger com o apoio de mais de 80%¨dos votos do Nordeste. Lula se tornou o grande coronel que substituiu as cestas básicas dos coronéis nordestinos pelo cartão do governo federal. E falando em coronelismo chegamos ao patrimonialismo desta gestão.
Os companheiros pensam que a administração pública é a casa deles, ou seja, patrimonialismo, como ficou bem claro pelas notícias acerca do uso do cartão corporativo do governo que andou sendo usado em tudo, inclusive manicura e padaria. Curiosamente, os dois usuários denunciados cuja utilização do cartão escandalizou as pessoas normais estão ligados ao tema das quotas raciais. A ministra das Quotas, gastou mais de R$ 100.000 com aluguel de carro somente em um ano, cá entre nós, acho que ela estava tentando ser ressarcida da “dívida histórica”. E, por fim, tivemos o reitor gringo da UnB, o Mulholland que liderou a implantação das quotas raciais na UnB e que gastou quase R$ 500 mil na reforma do apartamento funcional além de ter facilitado a contratação de consultorias para duas prefeituras petistas.
Sempre achei que este papo de vítima e de coitadinho acaba dando nisso pois se a pessoa se sente credora e tem a oportunidade de meter a mão, então ela pode fazer isso sem dor na consciência. Isto é, se tiver consciência. Por fim, chegamos ao terrível Mensalão que transformou o Estado e seus recursos em instrumento do Partido dos Trabalhadores no exercício da sua vocação totalitária e gramsciana. Hoje, temos dezenas de ONGs se locupletando com os recursos dos contribuintes incluindo a que foi fundada pelo próprio Delúbio que aparentemente os companheiros não deixaram na mão considerando a sua aparência sorridente.
25 fevereiro 2008
Putin, o Czar da Rússia
Com o fim da União Soviética, a Rússia decidiu aderir ao capitalismo. As máfias existentes em seu país se aliaram a antigos burocratas do partido para privatizar os principais ativos e deixar o povo na miséria. Este processo expoliatório fez o PIB russo encolher mais de 50%, superando as perdas sofridas na Segunda Guerra Mundial. Para completar, o país era governando por um alcoólatra, em processo de perda das faculdades mentais. O último ato de Boris Ieltsin foi nomear um ex-oficial da KGB para assumir o seu cargo.Vladímir Vladímirovitch Putin foi diretor para assuntos externos da KGB até 1991, passando a diretor de política externa de Ieltsin em 1996 e principal ministro em 1999. Assumiu como presidente interino e foi eleito presidente da Federação da Rússia em 2000. Desde que chegou à presidência, 13 jornalistas que faziam oposição a seu regime foram eliminados, já viram que lá jornalista chato não tem vez.
Com o aumento do preço do petróleo, a partir de 2000 e com uma política de nacionalização de ativos, Putin conseguiu iniciar a retomada da economia russa e começar a colocar a União Européia em uma posição de grave dependência de seu gás.
De acordo com Robert Amsterdã, a estratégia russa está muito ligado à sua estatal de gás, a Gazprom, cujo presidente, Dmitry Mdvedev, deverá ser o futuro presidente da Rússia, enquanto o próprio Putin deverá ser o próximo presidente da Gazprom.
“A estratégia da Gazprom apóia-se em três táticas: cooptação - cultivando parcerias com determinados países, líderes políticos e companhias, como alavancas de seus interesses; preempção - usando as mais altas esferas de poder e a diplomacia russa para manipular condições de mercado e arrebanhar ativos; e desagregação - cindindo a UE mediante acordos bilaterais.”
Na União Européia, a Rússia usa sua parceria preferencial com a Alemanha para dividir os interesses dos países europeus, usando e abusando de acordos bilaterais. A concorrência iraniana é dificultada pela própria ação americana, que reduz a capacidade de investimento daquele país. Quanto à Ucrânia, recentemente a Rússia cortou o fornecimento de energia devido ao povo ter eleito um governo considerado não alinhado aos interesses russos.
Enfim, a poderosa Shell teve investimentos multibilionários expropriados por meio de intimidação, enquanto empresas privadas do país sofrem pressão de uma coalizão de mafiosos, ex-agentes da KGB e de agentes do governo, que obriga os concorrentes da Gazprom a buscar parcerias com a gigante estatal.
Por fim, no plano da política externa, a Gazprom mostra ambição em ampliar a sua influência por meio da troca de ativos com a Argélia, uma das maiores produtoras de gás do mundo. Com isto, a influência russa poderia ser estendida a todo o planeta. Os Estados Unidos, tentam incentivar a Turquia e as ex-repúblicas soviéticas a montar suas próprias infra-estruturas de fornecimento, mas até o momento a política russa tem triunfando.
23 fevereiro 2008
De como voltei a ser feliz
Entre meus prazeres diletos estão as óperas. Nem todas, é claro. Wagner me afasta do gênero. Der Ring des Nibelungen me assusta. Fora isto, curto Verdi, Puccini, Rossini, Donizetti, Bizet. E Mozart, obviamente. Há pelo menos três óperas que revejo umas três ou quatro vezes por ano. Don Giovanni, Die Zauberflöte e Carmen. Tenho várias interpretações de cada uma, pois cada encenação é uma outra ópera. As melhores destas três são:
- a de Don Giovanni, pela Wiener Philharmoniker, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel do personagem-título e Otto Edelman fazendo um magnífico Leporello.
- a de Die Zauberflöte, com coro e orquestra do Ludwigsburger Festspiele 1992, regida por Wolfgang Gönnenwein, com Deon Van deer Walt como Tamino e Ulrike Sonntag como Pamina. Papageno e Papagena são interpretrados por Thomas Mohr e Patrícia Rozario.
- quanto a Carmen, não é uma ópera encenada, mas filmada, com exteriores de Sevilha e Ronda. O filme é de Francesco Rosi, Plácido Domingo faz Don José e a Carmencita é interpretada por Julia Migenes. Entre as várias Carmens que tenho – uma inclusive cantada em italiano, e o efeito é ótimo – a de Rossi é a mais divina. O momento em que a gitana tenta seduzir Don José é de uma sensualidade – como direi? – espeluznante. De arrepiar.
Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.
Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du role, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.
Foi também em Paris que vi uma molecagem divina feita pela Tereza Berganza. Em Don Giovanni, quando Zerlina canta:
Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!
Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo.
Há grandes momentos em todas as grandes óperas. Mas um outro que me fascina, por seu humor, é a famosa listina de Leporello, em Don Giovanni, quando o criado enumera, a uma apaixonada e perplexa Dona Elvira, as conquistas de seu amo:
Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che che amo il padron mio
Un catalogo egli è che ho fatt' io;
Osservatte, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Allemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia; in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son gia mille e tre.
V'han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V'han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse
E v'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma, d'ogni eta.
Nella bionda egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza
Nella bruna la constanza
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estare la magrotta;
E la grande maestosa,
La piccina è cognor vezzosa
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista
Sua passion predominante
E la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
Se sia brutta se sia bella
Purchè porte la gonnella,
Voi sapete quel che fa.
Saindo de minhas três diletas, uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.
ALFREDO
Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.
TUTTI
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.
VIOLETTA
Tra voi sapro' dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto e' follia nel mondo
Cio' che non e' piacer.
Godiam, fugace e rapido
E' il gaudio dell'amore;
E' un fior che nasce e muore,
Ne' piu' si puo' goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.
TUTTI
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo di'.
Em suma, foi em Paris que descobri o mundo da ópera. Dito isto, vivi ultimamente uns seis meses de infelicidade. Ocorre que encontrei aqui em São Paulo um restaurante dos mais charmosos, senti que ali havia espaço para música mais sofisticada, e levei a suas proprietárias dois DVDs, para que tirassem uma cópia. Um, o Don Giovanni da Wiener Philharmoniker. Outro, a Carmen, do Francesco Rosi. Confesso que levei os DVDs com certa apreensão. Eram obras muito valiosas para mim e tinha medo de perdê-las.
Não deu outra. A Carmen – a mais fascinante de minhas Carmens – foi extraviada. As moças se propuseram a encontrar uma outra. Inviável. O DVD está esgotado. Procurei tanto na Amazon como na Fnac de Paris. Nada feito. Indisponible. Vivi então estes últimos meses como se estivesse mutilado. Não seria feliz enquanto não tivesse minha Carmen de volta.
Dichosos dias estes de Internet – como diria Alonso Quijana. Em um grupo de discussões, Antonio Bemfica, um internético amigo do Canadá ouviu minhas lamúrias. Descobriu a ópera em uma biblioteca e fez uma cópia. Eu a recebi na semana passada e voltei a ser feliz.
- a de Don Giovanni, pela Wiener Philharmoniker, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel do personagem-título e Otto Edelman fazendo um magnífico Leporello.
- a de Die Zauberflöte, com coro e orquestra do Ludwigsburger Festspiele 1992, regida por Wolfgang Gönnenwein, com Deon Van deer Walt como Tamino e Ulrike Sonntag como Pamina. Papageno e Papagena são interpretrados por Thomas Mohr e Patrícia Rozario.
- quanto a Carmen, não é uma ópera encenada, mas filmada, com exteriores de Sevilha e Ronda. O filme é de Francesco Rosi, Plácido Domingo faz Don José e a Carmencita é interpretada por Julia Migenes. Entre as várias Carmens que tenho – uma inclusive cantada em italiano, e o efeito é ótimo – a de Rossi é a mais divina. O momento em que a gitana tenta seduzir Don José é de uma sensualidade – como direi? – espeluznante. De arrepiar.
Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.
Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du role, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.
Foi também em Paris que vi uma molecagem divina feita pela Tereza Berganza. Em Don Giovanni, quando Zerlina canta:
Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!
Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo.
Há grandes momentos em todas as grandes óperas. Mas um outro que me fascina, por seu humor, é a famosa listina de Leporello, em Don Giovanni, quando o criado enumera, a uma apaixonada e perplexa Dona Elvira, as conquistas de seu amo:
Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che che amo il padron mio
Un catalogo egli è che ho fatt' io;
Osservatte, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Allemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia; in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son gia mille e tre.
V'han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V'han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse
E v'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma, d'ogni eta.
Nella bionda egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza
Nella bruna la constanza
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estare la magrotta;
E la grande maestosa,
La piccina è cognor vezzosa
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista
Sua passion predominante
E la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
Se sia brutta se sia bella
Purchè porte la gonnella,
Voi sapete quel che fa.
Saindo de minhas três diletas, uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.
ALFREDO
Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.
TUTTI
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.
VIOLETTA
Tra voi sapro' dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto e' follia nel mondo
Cio' che non e' piacer.
Godiam, fugace e rapido
E' il gaudio dell'amore;
E' un fior che nasce e muore,
Ne' piu' si puo' goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.
TUTTI
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo di'.
Em suma, foi em Paris que descobri o mundo da ópera. Dito isto, vivi ultimamente uns seis meses de infelicidade. Ocorre que encontrei aqui em São Paulo um restaurante dos mais charmosos, senti que ali havia espaço para música mais sofisticada, e levei a suas proprietárias dois DVDs, para que tirassem uma cópia. Um, o Don Giovanni da Wiener Philharmoniker. Outro, a Carmen, do Francesco Rosi. Confesso que levei os DVDs com certa apreensão. Eram obras muito valiosas para mim e tinha medo de perdê-las.
Não deu outra. A Carmen – a mais fascinante de minhas Carmens – foi extraviada. As moças se propuseram a encontrar uma outra. Inviável. O DVD está esgotado. Procurei tanto na Amazon como na Fnac de Paris. Nada feito. Indisponible. Vivi então estes últimos meses como se estivesse mutilado. Não seria feliz enquanto não tivesse minha Carmen de volta.
Dichosos dias estes de Internet – como diria Alonso Quijana. Em um grupo de discussões, Antonio Bemfica, um internético amigo do Canadá ouviu minhas lamúrias. Descobriu a ópera em uma biblioteca e fez uma cópia. Eu a recebi na semana passada e voltei a ser feliz.
Rodízio Democrático no Poder
Como dizem os teóricos, partido não feito para ficar na oposição mas para chegar ao governo. E quando chega ao governo nenhum partido fica satisfeito em governar. Ele quer sempre propor alterações na Constituição porque todo partido quer mudar o estado e a Constituição é ao mesmo tempo estruturada pelas instituições e estruturante do Estado.Tudo na vida é dirigido por pessoas, inclusive os partidos. Como disse Churchill quando estava sentado no parlamento, os adversários sentam-se à frente mas os inimigos estão atrás e ao nosso lado. Neste sentido, em todos os partidos, muitas pessoas e grupos sonham em exercer o poder. Mas uma vez que um grupo consiga controlar um partido e uma pessoa consiga controlar um grupo ele tentará se manter pelo maior tempo que puder apesar dos líderes terem estatisticamente uma expectativa de vida menor que os cidadãos. O poder garante uma dose embriagante de atenção para velhos que de outra forma seriam esquecidos.
Quando um partido chega ao poder ele pretende tornar a máquina administrativa do estado em um instrumento do seu poder. Ele nomeia milhares e apadrinha outros milhares e garante que ninguém ligado a grupos que não façam parte da sua coalizão possa exercer cargos na sua administração. Todo partido desviará recursos dos cidadãos para fortalecer as suas ONGs que por sua vez fortalecerá o partido. E no fim, todo partido acredita que tudo é justificado porque o seu interesse é o interesse da sociedade, e, portanto, roubá-la é para o seu próprio bem.
A maior tolice cometida por Fernando Henrique foi o crime cometido contra a democracia ao permitir a reeleição de uma pessoa para um cargo majoritário. Este tipo de instituição favorece o poder carismático criado entre indivíduos que consigam hipnotizar grandes multidões. Além disso, ele legislou em causa própria, mais um dos grandes vícios dos governantes .
Uma instituição que poderia favorecer o aperfeiçoamento da democracia seria a proibição da reeleição e ainda a proibição de um partido permanecer na coalizão que controla um governo majoritário por mais de dois períodos. Ao se proibir um partido de concorrer a um terceiro mandato estaríamos libertando a máquina administrativa do Estado dos vícios instaurados e se estaria fazendo uma faxina na rede clientelar instalada. Uma medida desta ainda teria a vantagem de garantir leis mais justas porque todo partido saberia que não lhe interessaria fortalecer demasiadamente o governo porque com certeza de tempos em tempos ele iria ter de ficar na oposição.
22 fevereiro 2008
A Estabilidade no Emprego para os Maus Empregados
O presidente Lula continua embriagado com a sua popularidade assustadora, apesar dos recorrentes escândalos do seu governo. Hoje, anunciou que irá encaminhar ao Congresso proposta no sentido de proibir a demissão imotivada e ontem defendeu a ministra que tentou tirar do cartão corporativo toda a “dívida histórica” da sociedade para com os negros.Nunca na história deste país houve tanta corrupção. Antes quem roubava era a elite. Agora milhares de companheiros encontram-se espalhados pela administração pública e montados cada um no seu cartãozinho corporativo, que lhe faculta algumas despesas pessoais com o dinheiro dos contribuintes. Para o povo fica o cartão Família dado pelo "pai Lula".
Quanto à proposta de estabilidade dos empregados, acho preocupante porque quem irá decidir se um empregador poderá demitir um empregado será um juiz do trabalho. E como todos sabemos, de bumbum de neném e de cabeça de juiz nunca se sabe o que sairá. De fato, o empregador terá o ônus da prova, ou seja, será culpado até que se prove o contrário.
Existem várias maneiras de se tentar resolver os problemas criados por esta lei e a cultura do jeitinho brasileiro existe exatamente por isso, para lidar com leis criadas por bandidos em gentezinha bem intencionada. Os bandidos sabem que se estará criando milhares de empregos para advogados, criando mais centenas de vagas para juízes do trabalho e aumentando o poder dos sindicatos que poderão interferir nestas questões. Em Brasília está sendo construída mais um gigantesco palácio para os juízes do trabalho e este ano os sindicatos estão comemorando recordes de arrecadação do imposto sindical.
Conheço empresários que já estão acostumados a ser extorquidos por sindicalistas e que agora terão de pagar, além das indenizações previstas para a demissão, ao empregado um extra pelo menos igual ao custo de uma ação trabalhista. Vamos ter situações ridículas de empregados dispensados do trabalho, sendo remunerados e aguardando a decisão da justiça.
Para as pessoas sensatas, entre as quais espero me incluir, isto simplesmente significa o aumento dos custos para o empregador, o que pode resultar em salários menores, menos contratações, e perda de dinamismo para a economia. Talvez para os socialistas do governo, tudo isto seja uma vitória, porque eles provavelmente acharão que os coitadinhos dos trabalhadores estarão sendo tutelados pelo sindicato e pela justiça e protegidos contra o demoníaco capitalista. Enfim, os serviços vendidos por eles estarão com uma demanda garantida. Quanto ao bom empregado, bem educado, bem qualificado que não precisa de nada disso, caberá a ele financiar a boa vida desta turma toda.
Marcadores:
demissão imotivada,
Heitor,
Política,
PT,
Socialismo
17 fevereiro 2008
O Pecado Original da Propriedade Privada
Como já disse inúmeras vezes Paulo Francis, marxismo é religião. Vindo de um ex-trotskista, isto pode não ser grande coisa. Arnold Toynbee escreveu que o comunismo é uma heresia cristã. Seria uma doutrina adequada aos homens cientificistas e positivistas do século XIX. O fato é que temos alguns paralelos bastante interessantes nas duas doutrinas.Um das principais questões teológicas é o pecado original, que explicaria porque o homem é um ser imperfeito, que não desfrutaria da comunhão com Deus, a partir da sua expulsão do paraíso. Rousseau, um dos pais do socialismo, acreditava que o pecado original se deu quando alguém disse que algo lhe pertencia.
Engels se baseia neste acontecimento de natureza econômica, o advento da propriedade privada, para explicar o nascimento do Estado moderno, que seria algo equivalente à expulsão do homem do paraíso. Para ele, o nascimento da propriedade privada enseja a divisão do trabalho, a formação das classes, o surgimento do Estado de polícia para proteger o status quo.
Marx, por sua vez, se propunha a ser um novo apóstolo João ao propor o Apocalipse do estado moderno e do capitalismo. Em seu Evangelho sobre o capitalismo ele explica que as contradições materiais do sistema levarão à sua queda.
Marx conseguiu transformar o sistema de produção capitalista em pecado por meio da invenção da mais-valia. Grosseiramente, o produto vale mais que os insumos necessários para a produção e o único insumo que pode ser remunerado com menos valor do que vale seria o insumo trabalho, porque o insumo equipamentos sofre depreciação. A partir deste raciocínio, ele considera que o capitalista é um ladrão e que os verdadeiros donos de tudo são os trabalhadores. Ele menospreza questões como risco, complexidade da produção, poder de mercado e se refugia na produção média em equilíbrio para sustentar este argumento.
Marx era um economista clássico como o pastor Adam Smith que definia as pessoas pelo trabalho e considerava que se estas tinham perdido parte do seu valor e não controlavam as condições nas quais elas produziam, então elas haviam perdido a graça. Para recuperar a graça perdida era preciso tomar consciência e escapar de um estado de alienação. Mais religião, as pessoas estavam cegas e perdidas na ilusão. A verdade era a consciência de classe.
Por fim, após a expiação dos pecados com o sacrifício dos inocentes que morreriam na Revolução, o homem retornaria ao seu Estado original, no qual a comunhão com os outros homens seria restabelecida com o fim do estado e com o desaparecimento da propriedade privada. Seria o fim da história e início do paraíso na terra, onde todos os homens seriam irmãos trabalhadores, teriam segundo as suas necessidades e produziriam segundo as suas possibilidades.
No comunismo real, como toda a religião, as punições para os descrentes foram terríveis, condenados pela Inquisição, tivemos: o banimento de milhões para os gulags da União Soviética, o envio de outros tantos para o campo na Revolução Cultural Chinesa, que buscava restabelecer a pureza dos camponeses na corrupta população urbana, e o assassinato de praticamente todas as pessoas alfabetizadas do Camboja pelo Khmer Vermelho. As pessoas morrem mas as utopias assassinas são eternas.
Marcadores:
Cristianismo,
Heitor,
propriedade privada,
Religiao,
Socialismo
16 fevereiro 2008
O Público e o Privado
Temos assistido recentemente como os conceitos de público e privado não estão claros na cabeça de vários petistas. A ministra Matilde alegou em sua defesa que não compreendia as regras de uso do cartão corporativo do governo federal, tendo efetuado as despesas* por ter sido mal orientada por dois assessores, que já haviam sido desligados: pelo menos para estes o “justiçamento” foi rápido.Esta não é mesmo uma questão trivial. Para Toffoli – advogado de campanha do Lula, do Dirceu e da República –, as informações privadas dos cidadãos que o Estado reuniu devem ser disponibilizadas entre os seus vários órgãos, ampliando o seu uso em benefício do bem-comum. Assim, a declaração de renda, movimentação bancária e outros circulariam entre os órgãos do governo.
No Antigo Regime, quando tivemos Reis Absolutistas, que governavam sem um contrato social e sem constituições, nunca houve tamanho controle sobre a população. Um Rei podia muito, mas estava limitado pelas tradições, pelas corporações e pela sua ignorância sobre seus súditos. Enquanto isto, a democracia petista se debate entre ter que prestar contas à sociedade dos gastos feitos pelos seus agentes que ocupam posições importantes no governo, mas não titubeia quanto a impor aos cidadãos uma total transparência diante dos órgãos do Estado.
Este é um problema que não se circunscreve ao Brasil. Na Venezuela, hoje considerado o país mais corrupto da América Latina, temos a “boli”, a elite bolivariana, formada de militares, membros do partido e servidores públicos que tornaram a república socialista bolivariana no maior consumidor per capita de uísque escocês da América Latina. Lula bem que poderia ser um bom garoto propaganda da nossa cachaça, junto a esta nova elite...
Na UnB, a separação entre o público e privado também anda confusa. O professor Timothy Mulholland, americano naturalizado brasileiro e um dos maiores responsáveis pela implementação da política de quotas raciais na UnB, morava até recentemente em uma cobertura duplex da universidade, dispunha de um carro executivo de luxo pago não pela universidade, mas por uma instituição dedicada ao financiamento da pesquisa, além de uma lata de lixo de R$ 990,00. Em sua defesa, ele alegou que não desviou nada mas que era apenas usuário daqueles bens pertencentes a universidade.
Estas constatações estão alinhadas com as percepções de Roberto Campos, que afirmava que o Brasil havia descoberto um novo tipo de capitalismo, pelo qual o Tesouro e os contribuintes são explorados por uma nova classe, os burgueses de estado.
Enfim, onde ficamos? Esta nova elite brasileira de petistas e altos tecnocratas, como o reitor Mulholland, será capaz de promover a felicidade do povo e criar aqui um estado de bem estar social ou está apenas se servindo de utopias que os legitimem como nova classe dominante?
* Gastos da ministra: 126 000 reais: aluguel de carros;35 700 reais: hotéis e resorts;4 500 reais: bares, restaurantes e padaria;460 reais: free shop;4 800 reais: despesas diversas.
Marcadores:
Corrupção,
Democracia,
Heitor,
Política,
PT,
Socialismo
15 fevereiro 2008
Existe o que se chama “democracia radical”?
– Comentário ao Liberdade de Imprensa, DEMOCRACIA e Liberdade de Expressão[i] de Ralf RickliPrelúdio
O que significa, exatamente, uma “democracia expandida até seu limite máximo”? Se algo é radical, isto é, se vai até suas raízes, uma democracia radical não seria plutocrática, tal qual a ateniense?
Se definirmos democracia como algo mais que a ordem da maioria, mas algo que pressupõe a existência de uma minoria, então a democracia é mais do que um fazer valer majoritário. Além de seu fim, ela depende de um meio, processo dir-se-ia que consiste numa “regulação de conflitos”. Se “a guerra nada mais é que a continuação da política por outros meios”, como poderia atestar Clausewitz, a democracia é a possibilidade da política sem a guerra.
Informação democrática
Podemos concordar que a imprensa, para aqueles que defendem alternativas a sua relação com a democracia, não é democrática. Sim, mas a alternativa não passa por uma regulação (estatal) da própria imprensa. Assim como segue o raciocínio de que para a democracia se faz necessário “mais democracia”, uma “democracia radical”, para a imprensa vale a mesma medida, mesma posologia. A solução para a tendenciosidade, desinformação, manipulação não é um controle sobre a imprensa existente, mas justamente, “mais imprensa”, mais veículos de informação discrepantes que venham a traçar uma salutar competição interna que expresse os dissensos externos.
Didaticamente falando, soluções para o oligopólio da informação brasileira, rádio e TV não consistem no monopólio da informação tal como se vê na Venezuela de Chávez.
Seguindo a mesma lógica, se os “detentores de capital” têm maior liberdade que os não detentores, qual a solução? Ou se estatiza ou se privatiza? Esta é uma falsa questão e o mundo não acaba aí. Evidentemente que nossas privatizações, não raro, substituíram modelos monopolistas públicos(sic) por modelos oligopolistas privados, o que significa trocar seis por meia dúzia. Por outro lado, se não há gradação entre o que é publico (ou se é estatal ou não é), o mesmo não vale para a esfera privada. Podemos ter 51% das ações de uma empresa nas mãos de um único grupo ou podemos ter seu capital “esfarelado” por mais acionistas. Da mesma forma podemos ter várias empresas descentralizadas competindo num mercado de informações e é aí que reside alguma “democratização da informação” como produtor da mesma e não meramente como consumidor desta.
Somos indivíduos, somos opressores
Forças armadas também são públicas. Por seu turno, civil não é militar. Trocando em miúdos, se “ser civil” é um atributo público (e privado), nem tudo que é público pode ser civil. A questão é de como se estrutura o “público” e de como se é civil. Mas, isto depende do meio de cultura em que se insere. Evidentemente, em um país como o Brasil, “público” não quer dizer, necessariamente, propriedade comum ou bem de todos, ainda mais quando levamos nossa tradição patrimonialista em consideração, na qual ocorre uma apropriação (não capitalista) de um bem coletivo de forma ilegítima e por vezes ilícita. Já “civil” em paises como os EUA incluem tantas obrigações quanto direitos. Diferentemente daqui, civil não é passe livre para um “deixa estar” ou “deixa sangrar”... Ser civil inclui ter ordem. Muitos tomam esta palavra como o oposto de liberdade, o que não é verdade. Podemos ter uma ordem livre que se oponha a um caos livre. Isto não significa um simples jogo de palavras, uma mera discussão semântica. Como exemplos teríamos a discrepância entre uma ideologia anarco-punk e o pensamento liberal.
Se “o Estado tem sido mesmo (...) uma força opressora da população” e “o poder econômico não-estatal nunca foi menos”, então, com a permissão do sofisma, a opressão é um meio de relacionamento normal. “Estado”, “poder econômico” são categorias analíticas coletivas e se pautar por elas implica em adotar um método onde a esfera da ação individual fique imersa nestas próprias categorias anulando os indivíduos, sua existência e ações reais. As categorias coletivas só existem porque existem indivíduos e não o contrário. Quando se fala em “estado”, “poder econômico” se suprime o que há de real, a saber: indivíduos, ações e interações. Reitero, o que temos que focalizar não é a categoria coletiva, que não passa de um efeito, mas sim suas causas, isto é, a ação e interação individuais. A partir desta premissa podemos ver que há sim dominação, opressão, luta, guerra e toda sorte de manipulações, mas também há cooperação, parcerias, associativismo, concorrência etc.
Quando descemos das nuvens da abstração para a concretude do chão, quando deixamos de falar em nomes que representam grandes números e vagas imagens para o aqui e agora, pessoas e lugares, datas e episódios é que compreendemos que o mais simples nos leva a entender o mais complexo e, não o contrário. A história da humanidade não é uma história da luta de classes, nem uma história de opressão, opressores e oprimidos. É uma história de indivíduos em que opressão e libertação caminharam juntas e, não raro, de mãos dadas. Luta é a palavra tomada como intermezzo, enquanto que na verdade é a própria perenidade.
Definições e equivalências
A “invenção democrática” não foi implantada, efetivamente, em nenhum lugar? O socialismo, tal qual concebido, também não o foi. So what? O que propomos? Que se pense a democracia não enquanto projeto ideal, mas enquanto realidade. Ao invés de partirmos de uma análise lamuriosa, com um wishful thinking pessimista da “democracia que poderia ser”, tal qual se faz com o socialismo, o que deveríamos fazer é analisar a democracia que aí está, tal qual se faz com o capitalismo. O projeto utópico implica em revolução, que sempre nega o dissenso. O realismo reformista parte do pragmatismo com um plano viável e objetivos exeqüíveis. Melhor seria pecar pela humildade da construção social tentando adequar interesses muitas vezes díspares do que pelo excesso, cujas externalidades podem nos colocar sete palmos abaixo do chão.
Não se pode contribuir para o objeto de paixão com argumentos, igualmente, passionais.
Democracia não é antônimo de Liberalismo, mas de Ditadura. Liberalismo é sim antônimo de Socialismo, dada a conjuntura histórica entre os séculos XIX e XX. A primeira oposição parece óbvia, a segunda nem tanto, mas se nos atermos a questão da Propriedade Privada vs. Propriedade Estatal fica claro entender por que. A propriedade privada evoluiu historicamente, mas não num sentido linear. Vez por outra seu direito reflui, como foi o caso do Medievo e das Revoluções Socialistas. Daí que toda sorte de totalitarismos, seja teocrático ou marxista corrobora para o ataque a liberdade, inclusive a de ter propriedade.
Voltando a questão da informação, a propriedade de “manipular cabeças” é a mesma liberdade de manipulação existente entre humanos, seja num clã, tribo ou agrupamento mais complexo. Esta “tirania” não tem “fim” senão pelo próprio contrapeso de outras “manipulações” dadas democraticamente. Como uma doença crônica, ela nunca tem fim, mas pode ser administrada, controlada até. A questão é menos do sentido de manipular do que do direito de manipular, exceto se alguém acredita em total isenção de valores. Crer em um mundo de pessoas neutras e com o mesmo sentido de valores me parece mais um sonho de uma “sociedade técnica”, algo que agradaria Comte ou Spencer.
(Continua...)
[i] Itens 1 e 2.
14 fevereiro 2008
A Geopolítica de Chávez
Os analistas comentam que depois da derrota no referendo que limitou por enquanto a sua reeleição indefinida, Chávez estaria menos agressivo na sua política externa. Não foi isso que observamos na semana passada, quando ele reagiu ao congelamento dos bens da PDVSA no exterior pela Exxon em represália pelas expropriações sofridas na Venezuela, ameaçando suspender as exportações para os EUA, de cujas importações seu país representa 16% e onde a PDVSA tem a sua operação mais lucrativa. O fato é que o negócio do Chávez não é dinheiro e sim poder, portanto sua sensibilidade a prejuízos financeiros fica em segundo plano.Oficial graduado em 1975, engenheiro, em 1992 ele comandou cerca de 300 homens contra o presidente Carlos Andrés Perez, em um golpe de Estado fracassado, inaugurando este expediente na Venezuela. A elite estava “podre” e manifestações populares espontâneas já estavam acontecendo; faltava apenas alguém que se pusesse à frente da multidão para surfá-la.
Passou dois anos na cadeia e foi indultado, assim como a Dilma e outros guerrilheiros que hoje se encontram no poder. Foi eleito em 1999, daí seguiu a receita da Revolução Francesa e convocou uma Constituinte para a qual seu partido obteve 120 das 131 cadeiras. Fez isso rapidamente, enquanto a sua popularidade estava elevada. Com a Constituinte, aumentou os poderes presidenciais e enfraqueceu o Congresso com a eliminação do Senado.
Chávez até obteve da Constituinte poderes para governar por decreto por um ano. Nesta ocasião, o coronel nacionalizou o petróleo e realizou uma reforma agrária. A sociedade reagiu e Chávez demitiu cerca de 16.000 empregados da PDVSA que fizeram greves contra o governo, substituindo-os por gente da sua confiança. Em seguida, sofreu um golpe articulado com participação dos EUA, do qual escapou.
Reeleito em 2006, unificou os partidos que o apoiavam e diante da ausência de oposição, consolidou o poder de um partido único, portanto totalitário. Ganhou também o direito de governar em 11 áreas por decreto por 18 meses. A questão diante desta estonteante trajetória é: o que ele pretende fazer?
Já sabemos que ele apoiou a Bolívia na nacionalização dos hidrocarbonetos, que prejudicou particularmente a Petrobras e o Brasil. Nesta ocasião, a Petrobras teve um prejuízo de uns US$ 5 bilhões de dólares enquanto as receitas de petróleo do estado boliviano saltaram de uns US$ 200 milhões para cerca de US$ 2 bi ao ano. Sabemos que ele apoiou financeiramente a campanha da Kirchner na Argentina. Sabemos que hoje ele tem a maior capacidade militar da América Latina (caças russos, uma fábrica de Kalichnikhov,...). Sabemos que ele apóia as FARC com armas e facilitação para o escoamento das drogas. Sabemos que ele gostaria de construir um gasoduto ligando-o à Argentina, através do Brasil, consolidando uma política de influência na América do Sul ao estilo da Rússia na Europa.
Diante da descoberta do super campo de Tupi, a influência de Chávez diminuiu um pouco, particularmente em relação ao Brasil. Entretanto, os analistas projetam que em 2010 a Argentina perderá a auto-suficiência e será véspera da reeleição da Kirchner, logo Chavez passará a ter uma influência decisiva sobre a Argentina por ser sua alternativa de fornecimento, pois provavelmente só ele terá petróleo ao preço que os argentinos estarão dispostos a pagar.
Os analistas acham que a PDVSA não tem recursos suficientes para bancar o famoso gasoduto Transpinel, investir na já declinante produção e distribuir o Bolsa Família Venezuelano. Entretanto, nosso amigo Chávez é criativo e tem buscado o apoio do Irã e da China. Os analistas acham que a China não estaria disposta a patrocinar os projetos geopolíticos de Chávez, por não ter interesse em aumentar o grau de confrontação com os EUA, ao menos neste momento. Quanto ao Irã, este poderia ter disposição, mas não tem o caixa chinês.
No Brasil, alguns grupos ligados à ministra Dilma continuam estudando o gasoduto Transpinel e buscando alternativas para viabilizá-lo. A Argentina gostaria muito da sua construção, mas não tem os recursos disponíveis para patrociná-lo. Eu diria então que os planos de Chávez dependem enormemente do Brasil e, considerando que ele gastou dinheiro na Argentina, imagine o quanto ele não se empenhará para que algum petista chegue ao poder em 2010.
12 fevereiro 2008
A República dos Sindicalistas Ladrões
O melhor roubo é o roubo legalizado porque o crime só é crime se for tipificado como tal; então se o trabalhador está tendo sua “mais-valia” roubada pelos sindicatos e o estado de direito reconhece como legítimo o direito do sindicato a esta fração da renda do trabalhador, então temos o melhor dos roubos, o roubo legalizado. Para este, não tem prisão; talvez uma temporada em Paris ou em Cuba de férias para os responsáveis.No começo do ano começa a temporada de extorsão sindical, neste ano as entidades representativas de classe aumentaram as suas taxas até o valor do rendimento bruto 1/30 do salário do trabalhador. Hoje, um colega me enviou uma nota técnica do Ministério do Trabalho informando que a empresa iria recolher um dia do trabalhador independente dele já recolher para o sindicato da sua profissão e também para o conselho de classe.
Ano passado, o deputado Augusto Carvalho conseguiu aprovar na Câmara que o imposto sindical passasse a ser facultativo, ou seja, se o trabalhador percebesse benefícios do sindicato então ele se disporia a pagar. O governo permitiu que este projeto passasse para que a sua Central entrasse no bolo avaliado em R$ 1 bilhão e ainda adquirisse poder para fechar acordos nacionais em detrimento dos sindicatos locais. Mais poder à central, ao partido e ao estado petista como criticou a deputada Luciana Genro. Quem perde, porque sempre alguém perde, são os recursos do FAT que o governo passa a dividir com as centrais.
Mas tudo não passou apenas de uma armadilha do governo petista que no Senado tornou novamente obrigatória a contribuição. Na ocasião, além da Câmara também o Senado estava infestado de petistas incluindo o seu presidente Tião Viana que sugeriu aos mais de 100 sindicalistas presentes que fizessem corpo a corpo pressionando os senadores a se submeter, o que eles acabaram fazendo.
Quanto ao Conselho de Classe, é uma coisa curiosa, todo final de ano vc recebe uma cartinha informando a data da eleição e a chapa única que foi escolhida por alguém e pedindo para se votar, uma verdadeira palhaçada. Mas este negócio de sindicato, conselho e coisas do gênero parecem se reduzir a velha estória do condomínio onde as pessoas normais evitam participar das reuniões porque este é o lugar dos ladrões, dos chatos, dos malucos e dos preguiçosos. Afinal, alguém conhece algum sindicalista trabalhador, esta é uma verdadeira contradição.
Se um petista estiver me lendo ele irá me considerar um elitista e egoísta, afinal eu só estou pensando em mim enquanto eu deveria estar pensando no desenvolvimento do país, no combate à pobreza e no desenvolvimento social que virá com o aumento do poder dos representantes dos trabalhadores. A ele, eu diria o seguinte, se é para termos uma elite prefiro uma elite que tenha méritos e capacidade para promover o desenvolvimento, a justiça e a riqueza do país e dos seus indivíduos e não uma bando de gente à toa que são o verdadeiro excremento da política.
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO
SECRETARIA DE RELAÇÕES DO TRABALHO
COORDENAÇÃO-GERAL DE RELAÇÕES DO TRABALHO
Assunto : Contribuição Sindical – Aplicação da Nota Técnica SRT nº 05/2004 para os
profissionais liberais com vínculo de emprego.
NOTA TÉCNICA/CGRT/SRT Nº 60 /2005
Trata-se de esclarecimentos sobre a aplicabilidade do art. 585 da Consolidação das Leis
do Trabalho para os profissionais liberais que possuem vínculo empregatício em face do
entendimento expresso na Nota Técnica nº 05/2004, que dispõe sobre o recolhimento de
contribuição sindical devida pelos profissionais liberais e autônomos.
Sobre o assunto, cumpre-nos destacar que a Nota Técnica nº 05/2004 foi elaborada com
base na legislação constitucional e ordinária que regula a matéria, e expressa tão somente o entendimento do órgão quanto à interpretação da norma. Isso porque este Ministério do Trabalho e Emprego não possui competência para alterar dispositivos legais por meio de instruções normativas ou qualquer outro ato administrativo, ficando restrita a sua atribuição a orientar os administrados quanto a melhor interpretação e aplicação do texto legal.
Com efeito, o art. 585 da CLT é expresso ao possibilitar ao profissional liberal empregado optar por recolher a contribuição sindical para o sindicato representativo da profissão liberal ao invés do sindicato da atividade preponderante da empresa:
“Art. 585. Os profissionais liberais poderão optar pelo pagamento da contribuição sindical unicamente à entidade sindical representativa da respectiva profissão, desde que a exerça, efetivamente, na firma ou empresa e como tal sejam nelas registrados.
Parágrafo único. Na hipótese referida neste artigo, à vista da manifestação do contribuinte e da exibição da prova de quitação da contribuição, dada por sindicatos de profissionais liberais, o empregador deixará de efetuar, no salário do contribuinte, o desconto a que se refere o art. 582.”
Da leitura do dispositivo legal acima transcrito, extrai-se que os profissionais liberais
empregados que não exerçam a função em uma empresa não detêm o poder de opção pelo
pagamento diretamente a entidade representativa. A excepcionalidade atinge tão somente os
empregados que sejam profissionais liberais, e exerçam efetivamente a respectiva atividade
liberal dentro da empresa.
Infere-se, entretanto, que mesmo optando por contribuir para o sindicato específico da
profissão liberal, o trabalhador terá que contribuir como empregado, ou seja, com um dia de
salário, e não pelo valor devido pelos profissionais liberais, conforme disposto na Nota Técnica
nº 05/2004, pois se assim o quisesse, o legislador teria explicitado. No entanto, apenas concedeu
ao profissional liberal com vínculo de emprego o direito de optar pelo pagamento diretamente à
entidade representativa da profissão e não por meio de desconto em folha de pagamento.
Diante do exposto, conclui-se que o profissional liberal que exerça sua profissão como
empregado, deve recolher a contribuição sindical da mesma forma que os empregados
assalariados em geral, nos termos do § 1º, do art. 582 da CLT, independentemente de qual
entidade sindical ele escolha, pois o art. 585 da CLT facultou apenas a opção para qual entidade
recolher, bem como o procedimento necessário para que não ocorra pagamento em duplicidade
pelo empregado.
Brasília, 12 de agosto de 2005.
(Assinado o Original)
Ione Rocha Torres Mendes
Mat. 0161053 – CGRT/SRT
De acordo.
Ao Senhor Secretário de Relações do Trabalho.
(Assinado o Original)
Isabele Jacob Morgado
Coordenadora-Geral de Relações do Trabalho
De acordo. Encaminhe-se ao interessado.
Brasília/DF, 12 de agosto de 2005.
(Assinado o Original)
Osvaldo Martines Bargas
Secretário de Relações do Trabalho
11 fevereiro 2008
Ratzinger e Habermas
A discussão da relação entre a Igreja e o Estado é antiga e ensejou em 2004 um debate entre o prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e o celebrado professor que personifica o pensamento secular liberal e individual, Habermas. A questão girava em torno da legitimização do Estado Liberal Democrático em si mesmo considerando que a sua origem está ligada à Igreja Romana e valores religiosos como os direitos humanos cuja origem pode ser ligada ao direito canônico.Talvez o primeiro desses valores seja o monoteísmo, que pode ser visto como um projeto de poder da XVIII dinastia egípcia passando pelo seu uso, pelos judeus como forma de afirmação sobre seus inimigos. A própria criação do Ocidente e da Europa foi construída sobre a matriz monoteísta da Igreja Romana. Em paralelo tivemos o desenvolvimento do monoteísmo maometano que unificou a Arábia, expandiu seu Império e se não fosse pelos Khans teria conquistado o mundo. Alguns consideram que a própria democracia contemporânea não vem dos gregos mas das assembléias de protestantes que escolhiam seus pastores.
De fato, Legendre considerava que: “Uma transferência do Império teve lugar e o soberano pontífice aparece na cadeia dos signos como um duplo imperador romano, a ponto de receber as mesmas fórmulas simétricas.” Preocupado com questões freudianas, ele comenta que: “A obrigação sacerdotal de castidade retira o clérigo do universo laico, marcado pelo tema da mulher e da punição. Desse modo, o soberano pontífice – enquanto representa a onipotência e a privação sexual – resolve a antinomia: é o pai, mas castrado.”
A legitimidade do poder do Estado não é assunto trivial, como podemos ver na indagação de La Boetie, em 1548: “Como é possível que tantos homens, tantas cidades, tantas nações suportem algumas vezes um único Tirano, que apenas tem o poder que eles lhe atribuem...?” Mas vamos às colocações dos dois campeões da suas causas.
Habermas: “Será que o Estado liberal secularizado se alimenta de pressupostos normativos que ele próprio não é capaz de garantir?”Ele responde a esta questão afirmando que: “Caso o processo democrático não seja entendido de modo positivista, e sim como método para produzir legitimidade a partir da legalidade, não resulta nenhum déficit de validez que tenha de ser preenchido pela 'moralidade'... Entre cidadãos, qualquer solidariedade abstrata e juridicamente intermediada só pode surgir quando os princípios de justiça conseguem imiscuir-se na trama mais densa de valores culturais... A permeação mútua do cristianismo e da metafísica grega não produziu apenas a forma espiritual da dogmática teológica e a helenização – nem sempre benéfica – do cristianismo... A concepção de tolerância de sociedades pluralistas de constituição liberal não exige apenas dos crentes que entendam, em suas relações com os descrentes e os crentes de outras religiões, que precisam contar sensatamente com a continuidade de um dissenso, pois numa cultura política liberal exige-se a mesma compreensão também dos descrentes no relacionamento com os religiosos... A neutralidade ideológica do poder do Estado que garante as mesmas liberdades éticas a todos os cidadãos é incompatível com a generalização política de uma visão do mundo secularizada. Em seu papel de cidadãos do Estado, os cidadãos secularizados não podem nem contestar em princípio o potencial de verdade das visões religiosas do mundo, nem negar aos concidadãos religiosos o direito de contribuir para os debates públicos servindo-se de uma linguagem religiosa...”
Com a palavra, o sucessor de Pedro e de Nero, o Imperador da Igreja Romana, Ratzinger: “O que mantém o mundo unido: fundamentos morais pré-políticos de um estado liberal.” Reparem que não é uma pergunta! “...como as culturas em contato entre si podem encontrar bases éticas que levem sua convivência ao caminho correto, de modo que seja possível construir uma forma comum de responsabilidade jurídica para submeter o poder ao controle e à ordem? ... A mim me parece óbvio que a ciência como tal não é capaz de produzir um etos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos.... Afinal de contas, a bomba atômica também é um produto da razão, assim como a criação e seleção de seres humanos foram engendrados pela razão. Não seria,...o caso de colocar a razão sob tutela?... A idéia do direito natural pressupõe um conceito de natureza em que a natureza e a razão se entrosam de tal maneira que a própria natureza se torna racional. Essa visão da natureza se desfez com a vitória da teoria da evolução... A doutrina dos direitos humanos talvez devesse ser complementada hoje com a uma doutrina dos deveres humanos e dos limites do ser humano...Qual a conclusão que se pode tirar disso tudo? Em primeiro lugar, parece-me inegável que a universalidade das duas grandes culturas do ocidente, ou seja, a da fé cristã e a da racionalidade secular, de fato não existe, por mais que ambas exerçam sua influência, cada uma a sua maneira, no mundo todo e em todas as culturas... Não há dúvida de que a fé cristã e a racionalidade secular do ocidente são os parceiros principais... Isso pode e deve ser dito sem falto eurocentrismo. Ambas determinam a situação do mundo como nenhuma das forças culturais.”
Os dois filósofos alemães se enfrentam com elegância permitindo que se extraiam algumas conclusões. Acredito que Ratzinger esteja certo com relação aos limites da razão e da racionalidade, um argumento racional pode não ser razoável. Vejamos a própria questão do aborto, do ponto de vista da mulher pode representar controle sobre o seu corpo mas do ponto de vista da sociedade pode representar uma ameaça ao direito à vida. Quando for possível clonar um homem teremos então um homem criando outro homem rompendo o monopólio divino. Surgiriam novas questões como, qual o direito de um clone à vida, seria maior que o de um feto? Por outro lado, Ratzinger não hesita em exibir claramente suas visões eurocêntricas e chamá-las disto, diferente de outros que preferem mistificar e tornar politicamente bonitinhas as suas posições. Quanto ao Habermas confesso que me decepcionei um pouco com o seu formalismo legal...Por outro lado, ele reconhece que em uma sociedade laica as posições dos crentes devem ser toleradas em nome da pluralidade. Agora, a grande questão, a razão em si não parece capaz de gerar a solidariedade necessária para manter uma sociedade funcionando sem que haja um deslize em direção ao totalitarismo em que o Estado se proponha a educar, a orientar e a desenvolver a solidariedade. Assim, a solidariedade não seria filha da razão mas da submissão, isto seria solidariedade?
Marcadores:
Cultura,
Democracia,
Heitor,
Igreja Católica,
Religiao
10 fevereiro 2008
Sem ter o que dizer
Isto é mais sincero se o critério for o aumento da audiência.Muito se fala da ignorância da periferia, dos "manos" que ostentam medalhões bregas com dourados da mesma forma que sua ignorância sobre quase tudo. Não acho que seja um estereótipo injusto, não. Mas, acho injusto que não se focalize igualmente outros 'ambientes' onde a ignorância aliada a um querer parecer cool não seja tão evidenciada quanto. Um bom exemplo do que digo se encontra nos programas "Saia Justa" da GNT e "GNT Fashion".
No primeiro temos um bando de mulheres querendo se passar por inteligentes, 'descoladas', modernas ou seja lá o que isso signifique. Quando as moças entrevistadoras se perdem por não terem o que dizer, é a parte mais interessante do programa. No segundo, hoje, pude assistir a um festival de besteirol que me arrancou sorrisos de escárnio, como há um bom tempo não conseguia.No GNT Fashion de hoje:
- Você sabe o que é uma 'shopping bag'?
- Eu não uso 'shopping bag' - para, após uma série de comentários do porquê de sua não utilização, a mesma entrevistada arremata com um... "o que é uma 'shopping bag'?"
Segundo nossas experts em moda "ecologicamente correta", uma shopping bag é aquela bolsa grande para guardar todas as compras dispensando assim as sacolinhas de plástico que levam 200 anos para se decompor na natureza.
- Excelente idéia! - diz outra, extasiada com a informação reveladora que irá ajudar a "salvar o planeta".
200 ou 100 anos, já ouvi de tudo... Pouco importa na questão. O que importa é o simplismo na abordagem que tem o mérito de vender algo caro como "solução" pra qualquer coisa. Por que não uma sacola de feira com "bordados 'exclusivos' feitos em uma linha de produção fordista"?
Prefiro assistir ao Bruno no "Da Ali G Show", personagem de uma imaginária TV austríaca, um gay extremamente afetado que se apresenta como especialista em moda, dance music e mundo clubber, o da música 'bate-estaca'.
Em um de seus episódios entrevista um desenhista de moda e pergunta como faz para sua moda ser tão 'pesada'? Ao que o entrevistado argumenta que serve para as pessoas se aperceberem de sua 'densidade'.
Mais tarde indaga porque sua moda é tão 'leve'? Ao que o mesmo tipinho contempla que é para as pessoas 'se soltarem'... Perfeito!'Bruno', um dos personagens interpretados pelo comediante britânico Sacha Baron Cohen
No mesmo programa GNT Fashion de hoje, outro estilista evoca a essência de sua moda baseada em quadrinhos de super-heróis para que o homem descubra seu 'homem imaginário'.
Prefiro o quadro do Bruno no Ali G
Eu sou a lenda
O filme, muito elogiado por críticos como Isabela Boscov, da Veja, e por jornalecos e blogs de cristãos - nestes casos pela semelhança com as histórias da Arca de Noé e do sacrifício de Jesus, e também por manter vivos nos crentes seus desejos escatológicos (éschatos) -, parte da interessante visão de uma Nova Iorque deserta aparentemente habitada por apenas um homem e uma cadela, para terminar como um filme B de zumbis-vampiros alucinados por carne e sangue humanos.O filme começa em flashback. Dra. Krippin – nome que lembra Dr. Crippen, um monstro do início do séc. XX, o que não pareceu incomodar Emma Thompson – anuncia em um programa televisivo, sem muito entusiasmo, ter descoberto a cura para o câncer.
Will Smith disse recentemente, perante solidéus erguidos por cabelos arrepiados: "Até Hitler não acordava dizendo: 'deixe-me fazer a coisa mais malévola que é possível fazer hoje'. Eu acho que ele acordava de manhã e, usando uma lógica invertida, tentava fazer o que pensava ser o 'bem'".
Também com a melhor das intenções - a de livrar a humanidade do câncer -, Dra. Krippin cria sem querer um vírus que se alastra pelo ar e pelo contato, que ou mata, ou não faz nada, ou transforma os infectados – mesmo os cachorros - em zumbis-vampiros doidos por carne e sangue de humanos sadios, em bestas-feras dotadas de força extraordinária, capazes de escalar prédios com a rapidez do homem-aranha, mas sem muita inteligência e vulneráveis à luz do dia, porque os raios UV os matam em instantes (maldito vírus); sobe até fumacinha de seus corpos pelados, pálidos e translúcidos, se não tomarem cuidado (usem filtro solar, lhes diria o Pedro Bial). A perda de pêlos é um efeito colateral esperado em vários tratamentos de câncer; até aí nada de mais. Mas este é um vírus impressionante. Ao invés de debilitar o corpo ele o dota de poderes inimagináveis, apenas ao custo de redução de inteligência. No filme, os católicos deixam de ser os únicos canibais hematófagos do séc. XXI. Como sabemos, católicos literalmente comem carne humana aos domingos – pelo menos é no que acreditam.
A ciência, em sua sanha de desafiar Deus, é a grande responsável pelos males da humanidade. Não fossem os homens tão curiosos, não teriam mordido o fruto proibido e ainda viveriam no paraíso; não fossem tão audazes, não teriam construído a Torre de Babel e assim despertado a ira de Javé, que violou os seus cérebros ao neles implantar idiomas diferentes do hebraico, o único que existia até então, visando boicotar suas aspirações, dispersar aqueles que estavam unidos, confundir aqueles que se entendiam, aniquilar seu potencial.
Gênesis, 11: “Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram. E disseram uns aos outros: ‘Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.’ Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa. Depois disseram: ‘Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.’
Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens. ‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.’
Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra.”
Em sua famosa apologia da vadiagem, Jesus diz:
“Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”
Dra. Krippin tenta adicionar alguns côvados além dos incontáveis já acrescentados à duração da vida humana pela torpe medicina, ciência de pagãos que ousam se preocupar com o amanhã. Cirurgias, antibióticos, vacinas? Torres de Babel que só causaram confusão, só prolongaram o sofrimento nesta falsa vida, só retardaram o grande encontro com o estilista dos lírios, na verdadeira vida. “Don't worry about the things”, ouve-se pela voz de Bob Marley a todo momento, no filme; esqueçamos da ciência e confiemos na providência, caso contrário perderemos nossas almas e viraremos seres das trevas, zumbis-vampiros malditos.
08 fevereiro 2008
Judeus, os Escolhidos de Moisés
Como diria Freud, os judeus foram o povo escolhido de Moisés, a quem eles assassinaram no deserto. Em seu livro “Moisés e o Monoteísmo” (leia o post Moisés de Freud), ele afirma acreditar que o monoteísmo havia sido uma doutrina egípcia que servia para aumentar o poder do faraó, sumo-sacerdote do Deus único.Os sacerdotes, em oposição a esta tentativa, derrotaram o faraó em uma Guerra Civil. Um irmão do faraó, Tut Moses, general-governador do norte, escolheu os escravos semitas como o povo sobre o qual restauraria a glória de sua dinastia, apoiado no monoteísmo. Aparentemente, a carga de Moses fora excessiva e os escravos se livraram dele no deserto, mas o séquito egípcio e monoteísta de Moisés sobreviveu e se tornou a tribo dos levitas.
Para Freud, não existiam judeus antes do Egito; aliás, o hábito da circuncisão é egípcio. De fato, ele afirma que o patriarca Abraão seria apenas uma invenção, ou uma revalorização do imaginário semita que permitiria a eles restaurar um pouco do orgulho de terem sido salvos pelos seus senhores. Mais que isto; todo o esforço para tentar transformar Moisés em judeu, por meio do mito do bebê no cesto descendo o Nilo, contraria todos os mitos de Reis da Antiguidade, incluindo o mito arturiano. Enquanto todos se esforçavam para nobilitar os seus salvadores, os judeus se esforçavam para dizer que apesar de príncipe egípcio criado no Palácio, Moisés não era nobre nem egípcio.
Ainda segundo Freud, a fundação do cristianismo por João está ligada à insuportável culpa judaica de ter assassinado dois messias, Moisés e o próprio Jesus. Com João, a seita judaico-cristã se separa do judaísmo ao afirmar a divindade de Cristo. Aliás, os bispos da linhagem de João do “patriarcado” do Egito acabaram impondo a versão final da Bíblia, selecionando os três Evangelhos Sinóticos interpretados a partir de João e condenando os demais Evangelhos, especialmente o de Tiago. Isto só foi possível graças à sua aliança com o Imperador Constantino, que reconheceu o poder do monoteísmo como força política, e que viria a contribuir para manter a unidade do Império, decadente por mais dois séculos.
Israel se mostrou ingovernável e os romanos o destruíram, espalhando os judeus pelo mundo. Enquanto isto, após a queda do Império Romano do Ocidente, a Igreja Romana espalha o cristianismo por toda a Europa, cristianizando os conquistadores bárbaros. De certa forma, a idéia de Europa foi forjada a partir do cristianismo, na medida em que não havia uma unidade política.
Quando Paulo decidiu levar a heresia judaico-cristã aos não-judeus, ele deu origem à inflexão histórica que tornaria a crença minoritária de Cristo na religião dominante na Europa. A antiga maioria judaica se viu exilada nas terras de sua antiga heresia: e a história revela mais uma de suas ironias. Os conflitos seriam inevitáveis.
A fórmula do Deus único também funcionou para a unificação da Arábia sob a liderança de Maomé. A fórmula do poder divino servia bem aos Reis cristãos até recentemente, como podemos ver neste trecho de Bossuet:
“Deus encarna em Cristo; o Cristo, na Igreja; a Igreja, no Papa.”
Ou na sua releitura marxista-leninista:
“as massas se encarnam no proletariado; o proletariado, em “seu” partido; o partido, em seu secretário-geral”
Com a hegemonia cristã na Europa, a presença judaica se tornou algo incômodo, o que resultou na conversão forçada dos judeus em Portugal, por ocasião do casamento de D. Manoel com a princesa espanhola. Aliás, os espanhóis queriam a expulsão dos judeus e os portugueses deram o seu jeitinho convertendo-os à força. Os judeus só tiveram a opção de sair do território português após populares lisboetas, liderados por dominicanos, promoverem três dias de fogueira de judeus.
Como já disse alguém, os judeus eram o estrangeiro próximo; de fato, em um texto de Hannah Arendt, ela menciona impressionada ter conhecido um judeu alemão em Israel que em sua vida na Alemanha não se lembrava de ter dirigido a palavra a um não-judeu. Proudhon, o socialista utópico, expressou a intolerância européia com a presença judaica:
“O judeu é o inimigo do gênero humano. É preciso fazer com que essa raça volte para a Ásia ou teremos de exterminá-la.”
De fato, os judeus são considerados como agentes do capitalismo por Edouart Drumont que afirma:
“O semita é negociante por instinto, tem vocação para o tráfico, a genialidade para tudo o que for troca, para tudo o que for oportunidade de enganar o semelhante.”
De fato, alguns ressentimentos são inevitáveis. Conversando com alguns conhecidos, eles me garantem que as FARC não seqüestram judeus porque parte do contrabando de armas é feito por ex-militares israelenses. Talvez, com Chávez isto tenha mudado.
Um conhecido descendente de judeus alemães me contou uma vez que seus antepassados escaparam da Alemanha em um navio que um grupo de famílias conseguiu comprar e, ainda segundo ele, na crise vivida pela Alemanha, os laços de solidariedade judeus não se estenderam ao restante do povo alemão que era demitido primeiro das fábricas. Havia preços diferentes para membros da comunidade judaica e para alemães. Isto tudo alimentou ressentimentos....E Hitler teria escolhido os judeus para Cristo.
Assinar:
Postagens (Atom)