A exaltação ostensiva de porcarias, do fácil, do feio, do sujo, do fraco, do pobre, do pulha, é consequência da inveja, uma vingança contra a virtude.
Uma estúpida desforra por parte daqueles que em si somente reconhecem o vício,
e então se unem para exaltá-lo, ansiosos por fazerem da opinião mais visível a “verdade”
consensual. Querem uma "realidade" artificial na qual se sintam mais
confortáveis.
Considero que ainda se está na fase binária da razão e assim
tudo é julgado por "antagonismos justificadores", de forma que o feio
existe porque há o belo, e o admirável só pode existir porque existe o
desprezível. Há então a necessidade de inventar antagonismos postiços, na
tentativa de elevar vícios à categoria de virtude. É um mecanismo mental de
auto-alimentação ou, mais propriamente, de auto-alienação mútua.
Não é fácil criar algo belo, não está ao alcance de qualquer
um. Então se exalta ostensivamente o lixo para relegar o belo, o difícil, o
forte, o reto, o orgulhoso, o admirável a uma avaliação menor, numa oposição
artificial pretensamente esclarecedora. As dicotomias, maniqueísmos e simetrias diversas ainda são
usadas para se fabricar polarizações facilitadoras para inculcação. Os tolos apreciam a facilidade das polarizações, para
definirem-se perante plateias através do mínimo comum.
É absurdo, mas de fato a larga maioria humana se interessa
mais pela opinião alheia sobre si do que pela própria. Sinto-me forçado a
homenagear Schopenhauer ao citá-lo nessa sua constatação sobre o desejo de
honra (opinião alheia favorável).
Claro que tudo é vaidade e esta constatação é milenar. A
vaidade é o desejo pela opinião alheia favorável e é ela que faz da tal espiral
do silêncio uma estratégia infalível para conduzir rebanhos humanos.
Acredito que a fabricação de valores anti-natureza (algo bem
apontado por Nietzsche, que aproveito para homenagear) foi a forma de oferecer
a um povo, cada vez mais explorado por seus governantes, uma compensação moral
pelas perdas materiais que lhe seriam impostas.
Assim uma ideologia justificou, no fantasioso futuro sem
data e incerto que prometia, as novas virtudes, fáceis de simular e ostentar,
que fariam das antigas virtudes, difíceis, os novos vícios.
Tal oferta imediatamente seduziu tudo que não prestava e,
ante a ostentação de tão confortável "asinus asinum fricat", acabou
por seduzir até parcelas ansiosas não tanto pelos novos valores, mas exatamente
pelo "asius asinum fricat". Daí o convívio irracional com as
contradições. Afinal a verdade e o interesse, ao entrarem em conflito, induzem
à opção pela "realidade irreal"; o absurdo como expressão da
"convivência entre contrários".
Assim, o orgulho sincero foi considerado um vício, defeito
ou pecado, por ostentar satisfação consigo mesmo, enquanto outros dele não poderiam
desfrutar. A humildade, que por definição só pode expressar falsidade ou
resignação, se tornou uma virtude a ser simulada como ostentação de virtude, razão
para orgulho (no caso postiço). Não há como subverter a realidade, pois ela se
manifesta menos perceptível, mas estará lá.
Pela mesma “ilógica” a riqueza foi amaldiçoada e a pobreza
elevada à virtude individual. Porém somente para ostentação, já que intimamente
não há razão para a fácil pobreza ser considerada uma virtude do indivíduo.
A fragilidade, a servidão, a fraqueza, o mal viver e etc.
igualmente foram feitos virtudes novas oferecidas como vingança contra as
velhas.
Assim se deu com os valores preconizados pela ideologia da anti-natureza.
Por fim, até as artes foram contaminadas, e meros rabiscos
feios e ao alcance das habilidades de qualquer animal se tornaram "obras
de arte". Assim se deu com lixos ditos esculturas e mesmo com grunhidos e
palavras soltas e acordes desconexos.
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| Cabanel: Nascimento de Vênus. Arte tida como decadente pelos cubistas, abstracionistas, dadaístas, críticos de arte, catedráticos, etc. |
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| Cabanel: Nascimento de Vênus. Detalhe |
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| Picasso: Mulher com Colar. "Arte" "genial", um consenso entre os de "gosto superior". |



