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29 setembro 2010

Brasil não merece uma lágrima

Janer Cristaldo


Domingo que vem é meu dia de protesto cívico. Como faço há já vinte anos, não vou votar. Há quem defenda a idéia de votar no candidato menos pior. Discordo. Menos pior também é pior. Sem falar que me parece absurdo, em regime democrático, ser obrigado a votar. Em todo o Primeiro Mundo, o voto é facultativo. Só nesta América Latina, que vai a reboque da História, é obrigatório.

Obrigatório em termos. Você sempre pode anular seu voto. Mas tem de comparecer às urnas. É o que tenho feito de 1990 para cá. Meu título continua em Florianópolis. No domingo, perto de meio-dia, vou justificar a ausência de meu domicílio eleitoral. E depois vou para meu boteco, aperitivar. Hoje, em São Paulo, pode-se beber em dia de eleições. Quando não se podia, meu garçom me servia um uísque e punha ao lado do copo uma garrafa de guaraná.

Não quero ser radical. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso não pode votar nestas eleições. De um lado, a candidata preferencial é uma ex-guerrilheira que participou de um grupo terrorista e até hoje se orgulha disto. O segundo colocado não pode sequer acusá-la de terrorista, pois militou em outro grupo terrorista. Os três candidatos mais cotados são todos de extração marxista. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, no Brasil o fundo do ar ainda é vermelho.

O mais patético – para não dizer pateta – dos candidatos é sem dúvida José Serra. Não ousa dizer uma palavrinha contra seu adversário, o patrocinador de Dilma Rousseff. Pelo contrário, o colocou em sua campanha eleitoral. Ao dar-se conta que isto era um tiro no pé, retirou-o de sua publicidade. Mas acabou fazendo pior. Mais adiante, alertou o eleitorado: se vocês querem Lula em 2014, têm de eleger-me agora. Se Dilma vencer, Lula não emplaca. Traduzindo em bom português, o que disse Serra? Disse que sem ele seu adversário não será eleito. Com oposição assim, o PT não precisa de base aliada.

Os políticos viraram bonecos de ventríloquo. Quem fala é o marqueteiro. O candidato repete. Mais ainda: para cúmulo do ridículo, o PSDB contratou para fazer sua campanha um guru indiano sediado nos Estados Unidos. A dez mil dólares por dia. Pode? Recorrer aos serviços de um vigarista estrangeiro para conduzir uma campanha eleitoral? Edir Macedo faria melhor. Ao constatar a mancada, os tucanos mandaram o guru de volta aos States. Teria sido mais barato enviar o Serra para fazer meditação transcendental em um ashram em Poona.

Os tucanos têm em mãos farto material para desmoralizar o PT. Desde o mensalão, dólares na cueca, o assassinato de Celso Daniel, os escândalos da Casa Civil, desde Zé Dirceu a Erenice, os cinco milhões de reais dados de mão beijada a Lulinha, e por aí vai. Não usaram esta munição. Serra, já que vai perder, podia ao menos perder com dignidade. Vai morrer humilhado.

Marina da Silva, sem comentários. Lanterninha, insiste no discurso surrado de meio-ambiente, cultua também Lula e põe-se em cima do muro ante qualquer questão polêmica. É boa alternativa para os petistas que admitem existir corrupção no governo do PT. Votam na morena Marina no primeiro turno e no segundo voltam ao redil. Como não vai ter segundo turno, vão acabar mesmo votando no primeiro no PT.

Almas ingênuas ainda acreditam numa virada. Recebo não poucos e-mails de coronéis de pijama que ainda acreditam em milagre. Coronel, quando veste pijama, vira valente. Quando na ativa, é cachorro que enfia o rabo entre as pernas com medo da voz do dono. Outro que alimenta esperanças é o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo da Veja. Que tenha suas preferências políticas, vá lá. Que acredite que o PSDB possa levar é ingenuidade atroz. Ou subserviência de jornalista vil. A última chance de Serra seria uma recidiva de linfoma. Mas estamos a uma semana das eleições e a recidiva não ocorreu. Se ocorrer mais tarde, será tarde demais.

Dona Dilma está com todas as chances de ganhar no primeiro turno. Serra que se dê por feliz se não levar capote. Quando um candidato deposita suas esperanças em chegar ao segundo turno, como faz o tucano, é porque já deu as eleições por perdidas. Pior ainda: antes mesmo do primeiro turno, Serra está lançando sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Como pode um eleitor votar em um candidato que já pensa em receber um docinho pela derrota? Pelo jeito, Serra ainda não percebeu que estas eleições significam seu enterro político.

Dias piores esperam o Brasil. Nada de melhor se pode esperar de uma terrorista – que eu saiba, a candidata ainda não se penitenciou de seu passado – dominada pela atrabilis e mandonismo. E que consegue falar um pior português que o Supremo Apedeuta. País inacreditável, este nosso: pelo jeito ainda sentiremos saudades de Lula.

De minha parte, tanto faz como tanto fez. Desde há muito não deposito esperança nenhuma neste Brasil. Quando um presidente que acoberta crimes durante dois mandatos tem ainda 80% de aprovação do eleitorado, nada mais se pode fazer. Lasciate ogni speranza voi che entrate!

Vou cuidar de meu jardim. Tratar de bem viver os dias que me restam. E o Brasil que se lixe. Povinho que elege Lula ou Dilma não merece sequer uma lágrima.

05 janeiro 2010

Ateus x Crentes ou Comunistas x Sacerdotes?

Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?

A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.

Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.

Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).

Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.

Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.

A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.

Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.

Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.

Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!

11 julho 2007

Frases de Luminares

Há poucas semanas, enviei a um primo algumas frases de luminares céticos a respeito da crença em deuses, de seus supostos ensinamentos, do papel desempenhado pelos sacerdotes e agremiações religiosas.

Ele, um católico fervoroso e muitíssimo inteligente, contestou cada uma delas, fiz minhas tréplicas, com algum cuidado para não o ofender, e a partir delas fez suas últimas objeções. A discussão prosseguiu ao vivo, quando ele esteve em Brasília, e, embora não tenhamos nem de longe chegado aos "finalmentes", como quase aconteceu entre o Heitor e seu amigo petista, fato descrito no post anterior, não nego que tivemos de mudar de assunto quando o mal-estar típico desses embates verbais se avizinhou. De fato, a discussão por escrito é a alternativa viável quando não há um mediador que impeça um argüente de cortar a exposição do raciocínio do outro e que discurse além do tempo conveniente. Nas caixas de comentários de blogs, passamos ao comentário seguinte quando percebemos que o debatedor perdeu-se dourando a pílula ou repetindo algo que já havia escrito.

Inspirado no conflito entre amizade e ideologias/filosofias incompatíveis, colo aqui uma pequena amostra da discussão, adiantando que não há muita novidade na maioria dos argumentos, de ambos os lados.

George Smith: “Se não há um deus, estamos corretos; se há um deus indiferente, não sofreremos; se há um deus justo, não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade; mas, se há um deus injusto, temos muito a temer – assim como o cristão.”

Primo: Realmente não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade. A crença em Deus não é anti-racional. É extra-racional. Quem entende corretamente o cristianismo, não teme a Deus, mas O ama. Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião, assim como um mau cientista não serve de base para se condenar a ciência.

Eu: Extra-racional? Que diabos vem a ser isto?
" Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião,..."
Entre os religiosos que detiveram algum tipo de poder - portanto agora não estou falando da massa de prosélitos - o abuso de autoridade não apenas não foi exceção mas quase uma regra.

Primo: Extra-racional, supra-racional, mas não irracional. Os sentidos, que captam as informações sobre o mundo, podem fazê-lo de modo direto – através de sensações “em primeira mão” – ou indireto – através de relatos, testemunhos etc. Os que tiveram experiências extraordinárias “em primeira mão”, quando não são doentes mentais, têm menos dificuldade em aceitar a existência de uma realidade que não fica óbvia no quotidiano. Os outros, que ouvem dizer, usam seus próprios recursos de filtragem, seu pensamento, seu sentimento, suas intuições, o conjunto de seus próprios recursos, conscientes e inconscientes, para aceitarem ou rejeitarem o lhes narram. É fácil rejeitar uma história do “Chicó” e seu “não sei... só sei que foi assim...”. Já não é tão fácil rejeitar os fenômenos vistos no sol em Fátima. Os dois tipos de relato parecem partilhar o “absurdo”. Só que um é engraçado e ninguém em sã consciência levaria a sério; o outro entra numa categoria diferente.
Um indivíduo que possuísse apenas a razão seria um “aleijado”, assim como aquele que dela não dispusesse.

Nem um mau religioso, nem bilhões, sejam eles do povo ou dos governos, servem de base para condenar a religião (não esta ou aquela forma de viver a religião, não este ou aquele uso da religião, mas a religião). Dezenas de reis corruptos ou milhares de religiosos sanguinários não tornam a religião ruim. Mas um só Jesus, uma só Teresa de Lisieux, um só Padre Pio ... serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade. Este argumento se aplica a diversas frases aqui citadas, por isso não voltarei a repeti-lo.

Eu: Extra-racionais deviam ser as provas da existência de Júpiter para muitos devotos romanos. Por si só aquela fé não teria sucumbido tão facilmente; foi necessário o cristianismo para sepultá-la - ou adaptá-la. Da mesma maneira, só foi possível quebrar, em uma grande parcela dos cristãos, o reforço comunal da intercessão dos santos com uma dissidência que surgiu com "pureza", força, "verdade" e, teoricamente, poucos podres no currículo: o protestantismo.
O embuste de Fátima necessita de uma discussão à parte.

Reforço Comunal é o nome do processo pelo qual uma afirmação se torna uma crença profunda pela repetida confirmação pelos membros de uma comunidade. Robert T. Carroll explica que o processo é independente de a afirmação ter sido investigada ou de existirem dados que dêem suporte a ela. Muitas vezes os meios de comunicação contribuem para este processo, divulgando a afirmação sem qualquer suporte factual, como a larga cobertura que a imprensa deu (e dá) a Chico Xavier e a histórias de assombração, etc.
Outros exemplos abundam: ET de Varginha, Caso Roswell, raptos por extraterrestres, projeções astrais, idéias racistas, influência da lua cheia no corte de cabelo, o sexo com virgem para se livrar da AIDS - os supostos casos de êxito alastraram a prática em algumas regiões da África -, etc. Muitos cristãos costumam rir dessas coisas, sem atinarem que existem aqueles que acham a mesma graça das estátuas que choram, das aparições, dos milagres que acontecem com hora marcada no Grupo de Oração das cinco, da Renovação Carismática.

Sem falar na alucinação coletiva.
“Muitas testemunhas de milagres concordam nos seus relatos porque têm as mesmas expectativas. E mais, relatos distintos convergem para a harmonia quando o tempo passa e o relato vai sendo recontado. Os que nada vêem de extraordinário e o admitem são postos de lado por não terem fé. Outros, sem dúvida, não vêem nada mas em vez de admitirem que falharam... imitam o relato dos outros e, subseqüentemente, acreditam que de fato observaram o que inicialmente fingiram que observaram" (Rawcliffe).

“...uma só Teresa de Lisieux (...) serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade.”

Então apenas um comunista bom serve para demonstrar o que o comunismo pode significar para a humanidade? Aquele comunismo soviético?

Schopenhauer : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.”

Primo: Sim, e daí, Schopenhauer? Se a proclamação anunciasse a anulação de todas as leis criminais, também não seríamos protegidos pela ética, nem pela filosofia etc. Isto quer dizer que a ética e a filosofia são supérfluas?

Eu: Ninguém acredita que a ética, a moral e a filosofia existam independentemente do homem, muito menos que interfiram conscientemente nos acontecimentos naturais. E ninguém reza a elas por proteção. Pelamordeseudeus!

Primo: Achar que o fundamento da religião é eu merecer mais do que os outros por ser religioso não corresponde aos ensinamentos de Jesus. Ele já nos dizia: “Acreditais por acaso que aqueles homens mortos pelo desabamento da torre de Siloé eram piores do que vós?” Corremos o risco de aplicar às relações com Deus nossos vícios políticos (somos amigos do chefe, então teremos privilégios sobre os outros). Eu acredito na proteção divina para aqueles que confiam em Deus. Se existem catástrofes, crimes e acidentes, prefiro não usá-los para julgar a Deus ou para decidir se Deus existe. Entendo que o amor a Deus sobre todas as coisas junto ao amor ao próximo como a nós mesmos ou – aperfeiçoamento trazido por Jesus – o amor aos outros com o tipo de amor pelo qual Jesus nos amou substitui a disputa de privilégios pela solidariedade espontânea, essa sim, capaz de melhorar o mundo. O fato de não podermos contar com essa solidariedade espontânea para sairmos à noite pelos becos das favelas não invalida o princípio da solidariedade.

Eu: Mais uma vez: solidariedade também não é uma entidade consciente à qual podemos pedir qualquer coisa. Já a um deus podemos pedir e ele responderá com um "sim", um "não" ou um "espere". Do mesmo modo, se rezarmos a um bule de chá as suas respostas serão sempre "sim", "não" ou "espere". Você poderá receber o que pediu imediatamente, em algum tempo ou jamais receber. Claro que o consolo, a segurança e a paz interior que a oração propicia aos inseguros e medrosos são bem reais.

Antigamente, as pessoas rezavam mais por chuva do que hoje, com tantos satélites fotografando nosso planeta e com a miríade de meteorologistas a analisar os dados e a transmiti-los à população por canais como o Weather Channel. Da mesma maneira, quem perde tempo expulsando demônios de epiléticos, se qualquer pessoa sem autoridade divina pode ministrar o remédio adequado e controlar a crise?

Bertrand Russell: “Afirma-se – não sei com quanta veracidade – que um certo pensador hindu acreditava que a Terra estava apoiada em um elefante. Quando lhe perguntaram no que o elefante se sustentava, respondeu que se sustentava numa tartaruga. Quando lhe perguntaram sobre o que a tartaruga se sustentava, ele disse ‘Estou cansado disso. Vamos mudar de assunto’. Isso ilustra o caráter insatisfatório do argumento da Causa Primeira.”

Primo: Isto é válido para os que acham que é possível provar racionalmente a existência de Deus, mediante o argumento de que, se o universo existe, alguém deve tê-lo criado. Russell poderia usar o mesmo raciocínio para Deus: se Deus existe, alguém deve tê-lo criado. A razão não se presta para provar a existência de Deus e muito menos para provar a não-existência de Deus. Simplesmente esse assunto está fora de sua alçada.

Eu: "Provar a não existência": Você nunca conseguirá provar que algo não existe. No máximo posso provar que não existe um triângulo de quatro lados, he he.
Provar que o seu deus existe seria quase possível; bastaria que uma boca do tamanho da abóbada celeste surgisse e, tonitruante, pronunciasse “Eu sou o deus de Abraão”. Ainda assim poderia ser um Micrômegas de Voltaire a nos pregar uma peça. De fato, na lista de probabilidades, quase tudo vem antes de um demiurgo onisciente, onipotente e onipresente.

Primo: Ou seja, Catellius*: nenhuma demonstração de natureza científica PROVA a existência de Deus. Portanto, não cabe ao cientista, como tal, dizer se Deus existe ou não. Fazendo um paralelo, nenhuma mulher poderia provar cientificamente que ama um homem. Se ela der sua vida por ele, alguém pode levantar a hipótese de que ela estava mesmo pensando em suicídio e aproveitou a oportunidade para impressioná-lo ou fazê-lo sentir-se culpado... que ela era louca... e milhares de outras opções que os romancistas se encarregariam de levantar. Se ela lhe fizer surpresas, pode ser vista como interessada em retribuição; se ela recusar retribuição, pode ser vista como orgulhosa; se ela for meiga, é perigosamente insinuante; se ela não der nenhum sinal ambíguo, é uma farsante extremamente hábil. Conclusão do “cientista”: quem acredita no amor é um idiota!

Pode parecer brincadeira, mas há psicólogos, entre os adeptos do determinismo absoluto como explicação para o comportamento humano, que tentam traduzir o amor em termos de simples condicionamento respondente e operante. Essa corrente advoga a idéia de que o amor é só uma forma de condicionamento, uma resposta automática. Eles de fato ajudam a entender alguns fenômenos relacionais (afinal, o condicionamento existe), mas essa explicação não deixa nada fora? Ela dá conta de todos os fatos? Se for assim, então um supersistema de controle poderia ser exercido, no sentido de condicionar alguns cidadãos a ficarem junto com suas respectivas cidadãs, ter um determinado número de filhos – e só o número determinado – e outros cidadãos a permanecerem desacompanhados e a não reproduzir para não aumentar a população. Você acredita que amor existe?

Feuerbach: “Sempre que a moralidade baseia-se na teologia, sempre que o correto torna-se dependente da autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e estabelecidas.”

Primo: Feuerbach faz aqui uma constatação aplicável a muitos fatos da história humana, porém não a todos. Novamente a armadilha do “sempre”. Quando alguém “raciocina” com indignação, corre um risco maior de cair no estereótipo, como é o caso aqui, mesmo tratando-se de um filósofo respeitado.

Eu: Ele usou o "sempre" mas concluiu com o "podem".
Não disse que as coisas mais infames são sempre estabelecidas. Disse que podem ser estabelecidas.
O afã de achar erros naquilo que já a princípio (ou por princípios) somos contra, nos arma armadilhas como essa.

Primo: O afã de achar erros? Você está enganado. Se eu tivesse atentado para esse “podem”, não teria feito objeções à frase, como não fiz em outras situações. Provavelmente, você está me interpretando de forma preconcebida. Quando leio as várias declarações e os vários argumentos seus, estou aberto à possibilidade de estar de acordo ou de estar em desacordo com o todo ou parte do que foi dito. Caso contrário, que sentido haveria nessa troca? Ela seria um eterno discutir palavras, inócuo e nem mesmo divertido.

Eu: Independentemente da ação dos religiosos, as religiões contêm preconceitos, verdades absolutas, uma moral absoluta que é a mãe do moralismo e da intolerância, e conferem autoridade de juízes e de representantes divinos a determinado grupo de homens. Aí está a receita perfeita para o desastre. Concordo com Carlos Esperança quando escreve que "a fé e a intolerância são irmãs gêmeas. As Igrejas odeiam-se com uma veemência que estarrece as pessoas civilizadas e transmitem o ódio dos seus líderes à multidão de crentes que as seguem. Faz parte da sua natureza. A fé, em o que quer que seja, virou um problema mundial".

Bakunin: “As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de sua miséria, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes.”

Primo: “As pessoas”... Note o insidioso termo “todas” subentendido! Muitas pessoas realmente podem usar a religião como ópio. Vamos proibir o vinho porque “as pessoas” fazem bebedeiras com vinho. Eh, Bakunin!

Eu: Quando um número significativo de pessoas mata sob efeito do álcool, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser restringido sim, e o rótulo deve conter “proibida para menores” (no outro caso: proibida para ignorantes), “consuma moderadamente” (no outro caso: não acredite no que lhe dizem os representantes de deus).

A restrição veio em bom tempo. Uma espécie de lei seca limitando o poder dos alcoólatras de deus. A religião católica foi então domesticada pelo laicismo europeu. Como os muçulmanos ainda estão apenas domados, alguns em estado feral, os cristãos olham para eles com desdém, esquecendo que há pouco tempo eles eram os chacais com a boca encharcada de sangue, apesar de suas escrituras serem as mesmas de hoje, e apesar do imenso poder que os religiosos já tiveram para estabelecer a paz no mundo. Espero que não tenham uma nova oportunidade para promover o seu ideal de justiça e liberdade...

Primo: O que pretendo dizer é que se pode usar um remédio como veneno. A culpa não é do remédio, mas do uso.

Carl Sagan: “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”

Primo: Então a crença de Carl Sagan de que Deus não existe baseia-se numa profunda necessidade dele de acreditar que Deus não existe? “Um crente” = “todo crente”. Generalização subentendida! Tenho certeza de que o próprio Carl Sagan acreditava em muitas coisas porque faziam sentido e não porque tinha necessidade de acreditar.

Eu: Segundo as palavras do físico, “Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo autocorretivo. Para serem aceitas, novas idéias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio."
Carl Sagan morreu aceitando a teoria do Big Bang como verdadeira. Hoje uma parcela significativa dos cientistas já a está descartando.
Mas Carl Sagan mudou suas crenças científicas várias vezes durante a vida, obviamente devido a novas evidências, a debates, a pesquisas e a experiências ao redor do mundo. E nenhum “supercientista” o excomungou por isso.

Jason Stock: “A ciência está aberta à crítica, que é o oposto da religião. A ciência implora para que você prove que ela está errada – que é todo o conceito – enquanto a religião o condena se você tentar provar que ela está errada. Ela te diz aceite com fé e cale a boca.”

Primo: Organizações religiosas até podem condenar que as contradiz. Não a religião. A religião é uma conexão, uma busca, um encontro. Quem diz “aceite e cale a boca” é uma pessoa, não a religião, é uma pessoa que está tendo uma atitude arrogante. Além disso, como já foi falado, ciência e religião buscam coisas diferentes! Podem-se auxiliar mutuamente, mas não há como se contradizerem.

Eu: É claro que quando ele diz "religião", não se refere a uma entidade consciente que mandará quem quer que seja calar a boca. São sempre os protetores das crenças religiosas que o fazem, principalmente aqueles que falam em nome dos fiéis.

Não há como religião e ciência se contradizerem? Aí temos um belo postulado, daqueles que você classificaria como generalização. Só se a religião fosse restrita ao que "não tem nada a ver com ciência". Mas temos os milagres, as aparições, a cosmologia, os anacronismos históricos...

Mil anos atrás a origem do homem era assunto metafísico, no máximo especulação de filósofos. Mas quando a ciência, em sua caminhada natural, contradisse a religião nesta questão, os religiosos negaram em um primeiro momento, aceitaram com ressalvas em um segundo (passaram a chamar o Gênesis de "simbólico") e agora descobriram que podem recrutar cientistas mercenários ou eles mesmos se formarem em física para "provarem", respaldados por credenciais, que sempre tiveram razão.

Primo: No meu ponto de vista, não há como religião e ciência se contradizerem, embora seja possível um cientista contradizer um religioso e vice-versa. São ambas perfeitamente válidas, complementares, e cada uma tem sua área específica.

Xenófanes: “Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pitariam os deuses sob forma de bois.”

Primo: Perfeito! Se os cavalos tivessem o poder da reflexão e liberdade, o Verbo Eterno poderia encarnar-se sob essa forma, para ajudar tais seres pensantes a viver na matéria em harmonia com o espírito.

Eu: Acho que não foi isso que ele quis dizer. O filósofo jônico ficou famoso por combater o antropomorfismo. Ele acreditava em um deus único, onipotente, "com clarividência perfeita, justiça infalível" e sem forma humana. Mas a frase serve para ilustrar que os homens criam deuses à própria imagem e não o contrário. Viam reis com mensageiros e tratavam de criar anjos, viam assessores e "burocratas" e tratavam de criar santos, instâncias entre eles e as divindades.

Primo: O antropomorfismo também é combatido pela religião católica. Não é Deus que tem a imagem do homem, mas o homem que é imagem de Deus. É óbvio que imagem, aqui, não se refere a olhos, nariz, boca, pescoço, barriga, pernas etc.

Justin Brown (Será James Justin Brown?): “Se a bíblia está errada ao nos dizer de onde viemos, como podemos confiar nela ao dizer pra onde iremos?”

Primo: Para quem literaliza Adão e Eva não é difícil literalizar também um céu com anjos de harpa sobre nuvens. Novamente, religião não é ciência e ciência não é religião. Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência. Várias dessas frases combatem a religiosidade estúpida como se ela constituísse a essência da religião.

Eu: O Gênesis só deixou de ser literal quando Darwin entrou em cena. Hoje quem enxerga nessa crença de três mil anos, ainda aceite por muitos, um exemplo de obscurantismo, está sendo maldoso, está literalizando...

A idéia de pecado original surgiu para explicar o mal no mundo; dois indivíduos seriam os primeiros pecadores. Isto é literal. A crença no poligenismo pode levar alguém à excomunhão. Só o monogenismo é aceito pela Igreja Católica.

"Anjos nas nuvens" também já foi algo literal. Acreditava-se que o deus abraâmico, de seu trono, via toda a humanidade, a qual habitava uma terra chata. Acreditava-se que o firmamento era uma espécie de concreto cheio de furinhos através dos quais as "águas superiores" caiam para cá. Alguém que tivesse levantado a hipótese da evaporação poderia até ter sido morto a mando de um Eliseu da vida.

"Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência". Como isto não é falseável, não é do campo da ciência.

H. L. Mencken: “Para mim, um homem rezando e outro portando um pé de coelho para lhe dar sorte são igualmente incompreensíveis.”

Primo: Se a expressão “são igualmente incompreensíveis” for uma abertura para a investigação, parabéns para Mencken! Se for uma forma de dizer que o homem que reza é estúpido, pelo menos ele iniciou a frase com um “para mim”.

Eu: A descoberta dos micróbios e dos germes, a assepsia, a penicilina, a vacina e o antibiótico conseguiriam salvar a maior parte dos dois terços de cristãos cujas vidas foram ceifadas pela Peste, no fim da Idade Média. Certamente eles oraram muito. Os padres sobreviventes culparam os pecados das vítimas pelo ocorrido, já que tinham catástrofes como o Dilúvio Universal nas quais se espelhar. Pés de coelho, da mesma maneira, não teriam adiantado muito, já que a ira do deus bíblico exigia sangue humano...

Primo: Logo, não se deve rezar: é anticientífico! É isso?

Anatole France: “Se 5 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa continua sendo estúpida.”

Primo: É difícil imaginar 5 bilhões de pessoas acreditando numa coisa estúpida. Isto só seria possível com Anatole France pairando sobranceiro acima de todas elas. Mas, brincadeiras à parte, entendi o argumento dele: Mais vale um bom cientista pesquisando uma vacina do que uma multidão de pessoas misturando a esmo as mais diferentes melecas, sem qualquer formação científica, na esperança de debelarem a doença. Também poderíamos dizer: Não é sensato fazer uma eleição para decidir se Deus existe.

Eu: Vide a crença na reencarnação. Se os chineses e indianos nela crêem e, por acaso, reproduziram-se mais do que os europeus, daria para afirmar que a crença deles passou a ser a correta?

Primo: A recíproca também é verdadeira. Cinco bilhões de falsos milagres não invalidam um único milagre autêntico. Basta um para fazer ruir todo esse sistema baseado no pressuposto de que só existem truques, engodos e ilusões. E quem quiser realmente investigar, que investigue. Material não falta.

26 maio 2007

Elemental, meu caro Watson

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Helder Sanches pelo convite para participar deste primeiro debate interblogs, cuja questão é “Será o agnosticismo mais racional que o ateísmo?” - Clique aqui para acessar o post com a exposição do tema e das regras para a discussão.

Provas da Existência de Deus

Para o filósofo (afinal estudou filosofia) Olavo de Carvalho, se analisarmos um livro com a postura da ciência em relação ao universo, reconheceremos a celulose e o nanquim mas ignoraremos sua essência, aquilo que faz dele um livro. Para ele e a maioria dos crentes, uma analogia passa a ser a prova de algo, assim como uma evidência anedótica. Dentro do espírito desta analogia, pergunto se após uma mosca cerrar seu mosaico de olhos, genufletir quatro perninhas perante um exemplar do Rei Lear e juntar as outras duas em prece para que o Bardo de Avon lhe faça sentir o abnegado amor de Cordélia pelo injusto pai, passará a ter o inseto alguma gnose da tragédia?

Orlando Fedeli, o católico taliban responsável pelo site-bomba Montfort.org.br que acusa Olavo de Carvalho de grave heresia gnóstica - logo o nobre filósofo que sacrificou a própria credibilidade em prol da causa católica - diz provar a existência de seu deus usando os desgastados argumentos contidos na Suma Teológica de Tomás de Aquino (de Aristóteles, na verdade). Especialmente a IVª Via - Dos graus de perfeição dos entes – demonstra que Orlando e Olavo desconsideram totalmente a Seleção Natural e a Mutação das Espécies.

De acordo com o catecismo, os milagres seriam provas da existência de deus: "...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'". (§156) É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais freqüentes em locais de baixíssimo IDH.

Para muitos teístas, a evidência da existência de um deus está no gosto de uma uva suculenta, na imensidão do mar, na majestade das montanhas. Como disse Ariex, Se lhe ensinassem que os elfos causam a chuva, toda vez que chovesse você veria a prova dos elfos.” A evidência da existência do deus das moscas - se elas fossem capaz de criá-lo -, estaria no saboroso gosto de excremento, na beleza de uma ferida aberta, na majestade de um cachaço enlameado.

Também dizem que a prova de que deus existe é você poder encontrá-lo dentro de si mesmo, no mesmo lugar onde as vestais encontravam Vesta e os vikings encontravam Odin. Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para "simbologias".

Alguns crentes tentam convencer o cético garantindo-lhe que dobrará a língua quando chegar a oximórica vida após a morte. Ou "Quando Jesus voltar você verá!". Ou usam a Aposta de Pascal como argumento de que deus existe porque é melhor acreditar nele, já que só teríamos algo a perder se, ele existindo, não lhe tivéssemos dado crédito. Se Pascal tivesse levado em conta a possibilidade da existência dos deuses de todas as civilizações, inclusive anteriores à nossa era, sua aposta teria sido bem mais arriscada. É o que os participantes deste debate mais têm enfatizado: Por que ser agnóstico em relação a deus se não o somos em relação a fadas? Sujeitos inteligentes como Conan Doyle - não tanto quanto sua mais famosa criatura, o racional Sherlock Holmes - possuíam motivos suficientes para crer na existência de elementais. Acessem por aqui o livro completo de Doyle intitulado "The Coming of the Fairies" e decidam se são "a-fádicos" ou agnósticos em relação às pequeninas.

E há os quase duzentos argumentos bobos para a existência de deus, como os Ontológicos:
Eu defino Deus como algo X. Já que eu posso conceber na minha mente o X, então o X deve existir. Então, Deus existe.
Ou: Deus existe. Já que Deus existe, então ele é perfeito. Aquilo que é perfeito tem que existir. Então, Deus existe.

Sou Agnóstico em relação a Agnósticos

Apesar do termo "agnóstico" ter sido criado por Thomas Henry Huxley, as bases do agnosticismo estão em Hume e Kant. Este afirmou ser impossível a matéria ser eterna e também ser impossível ter surgido do nada. A partir daí, desiste da metafísica por não poder especular sobre ela. Acho que a questão da causa primeira, porém, tem a ver com a Navalha de Ockham. Concordamos que o universo ter sempre existido soa absurdo. Mas criar uma instância a mais, transferindo meramente a questão para “um deus ter sempre existido”, não é nada econômico. E quem criou deus?

O agnóstico é aquele que diz ser impossível que o homem possa ter o conhecimento da existência de deus. Ele não se convenceu das provas listadas acima, mas isto não obrigatoriamente o impediria de crer em um deus impessoal, descrer nos deuses mitológicos, de não se importar com tudo isso, de fingir não se importar, de sentir deus como o amputado sente seu membro fantasma, de sentir culpa por descrer e de estar ligado a toda sorte de superstições. Eu diria até que a esmagadora maioria dos crentes é formada por agnósticos teístas, já que alguém não pode crer ou descrer de algo que sabe. “Crença e descrença sugerem a possibilidade de erro; conhecimento implica em que o erro esteja além das probabilidades razoáveis”, diz Robert T. Carroll. E isto também é válido se substituirmos “crença” por “confiança”.

Os agnósticos ateístas, por sua vez, não teriam um deus mas considerariam a possibilidade de acreditar em um caso lhes fosse provada sua existência. Pensando desta maneira, praticamente todos os ateus são agnósticos, uma vez que poucos são dogmáticos a ponto de, mesmo perante provas irrefutáveis, insistirem em refutá-las sem argumentos, como os criacionistas radicais fazem em relação ao evolucionismo. Eu, por exemplo, se me deparasse com o Mickey dançando sobre minha mesa, matasse-o a garfadas, analisasse seu interior e confirmasse não se tratar de um boneco, acreditaria plenamente na sua existência. Mas afirmo que ele não existe, e meu erro está além das probabilidades razoáveis. E conheço seu criador, Walt Disney.

Conhecemos também o criador de deus. O homem tomado pelo medo e ansiedade fez um deus onipresente porque necessitava de um espantalho para manter seus pares afastados dos frutos proibidos, para não dar ao assassino a sensação de completo anonimato, o homem fez um deus onisciente para poder ser ouvido, para que fossem conhecidas suas íntimas angústias, para que a divindade lhe desse presciência por meio de sonhos e visões, e, por fim, fez um deus onipotente por não dominar senão limitadamente o mundo natural, principalmente por estar à mercê da morte e dos acidentes. E o deus onipotente é movido pelas preces, o volante do motor, que fazem com que o homem compartilhe da onipotência divina, com que possa alterar a quantidade de lava expelida pelo Krakatoa apenas juntando as mãozinhas e tendo fé. Deus, o amiguinho imaginário dos medrosos, também ajuda a lidar com a solidão e a desesperança.

A grande questão que envolve os agnósticos, ao meu ver, é: eles não aceitam as alegadas evidências da existência de deus apontadas pelo teísta dogmático, as quais calham de ser o motivo pelo qual a idéia de deus existe. Um exemplo: Blondlot, no início do século passado, disse ter descoberto um novo raio, a que chamou Raio-N, e demonstrou com aparente sucesso sua tese por meio de experiências, que foram confirmadas por dezenas de outros cientistas. Mas posteriormente foi provado que todas evidências da existência dos tais Raios-N eram ilusórias. Assim, as falsas provas que alegadamente confirmavam a existência de Raios-N confundem-se com as falsas evidências ou razões que por primeiro levaram Blondlot a pesquisá-los e até a batizá-los. Ser agnóstico em relação a Raios-N é completamente irracional. Admitir a possibilidade da existência de algo como deus ou Raios-N, como faz o agnóstico, sendo que até mesmo a possibilidade nasceu de supostas evidências ou provas que o próprio agnóstico rejeita, não é algo racional, ao meu ver.

Conclusão: os agnósticos ou são ateus que não querem muita confusão ou são crentes cheios de dúvidas. Se é que existem agnósticos...

Update: o C. Mouro comentou - e concordo com ele - que nada impede que raios que não conhecemos existam e sequer venham a ser descobertos, bem como vida inteligente hoje desconhecida. Mas o erro daquele que afirma que o mundo natural que conhecemos não sofre interferências de um deus criador movido ou não por preces está além das probabilidades razoáveis. Se há um deus criador indiferente e não há como comprovarmos sua existência, tanto faz ele existir ou não. Então, por economia, não existe. Na verdade, a idéia de deus é uma questão secundária; o que interessa realmente é se existe ou não a oximórica vida após a morte. Tudo leva a crer que não existe, mas aí entramos em outra discussão. Sem vida após a morte o conceito de deus perde todo o sentido. Não quero, com este update, dar mais visibilidade à minha resposta ao comentário do Mouro. Desejo, ao contrário, evidenciar a sua pertinente colocação. Mas o termo "agnóstico" não pode ser estendido até aí, pois seríamos todos agnósticos em relação ao que não conhecemos - o que é uma boa de uma redundância. Usei o agnóstico para fadas e Raios-N apenas como analogia.

23 fevereiro 2007

Não Creio

O presente texto é um tanto longo, então apelo à vossa paciência para que o leiais inteiro. Pensei em publicá-lo em cinco posts mas mudei de idéia para não dispersar o conteúdo. Meu intento é mostrar àqueles que usam o discurso "os crimes dos humanos não invalidam o amor de Cristo" que existem discussões totalmente distintas neste objeto. E também expor meu pensamento - não apenas meu - a respeito dos tópicos abaixo:

I - Deuses
II - Deus Bíblico
III - Sobrenatural
IV - Moral e Cristianismo
V - Religiões

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Parte I - Deuses (índice)
Para mim, é impossível que eu não exista. Meus semelhantes e as coisas em meu derredor até poderiam ser produção de meu cérebro, mas como não tenho domínio mental sobre eles, nem se me esforçar por anos a fio, prefiro acreditar que existem independentemente de mim. É impossível que Deus ou deuses não existam? Claro que não. É impossível que existam? Não vejo motivos para crer, e a maior parte dos crentes praticamente concorda comigo; cristãos e muçulmanos são ateus em relação às divindades dos outros, incluindo profetas, santos e outros semideuses.

Acho que os deuses nasceram de nosso medo da morte após tomarmos consciência dela, de nossa ansiedade em relação ao porvir, da necessidade de explicar a origem das coisas, de uma causa primordial (o universo ter sempre existido é menos absurdo que Deus ter sempre existido?), da necessidade de se ter um sentido transcendental para a vida, de haver uma justiça post mortem para os criminosos inimputáveis aqui da Terra - os poderosos, os anônimos - e alguns deuses funcionaram como espantalhos onipresentes que vigiavam os atos do homem e o mantinham longe das plantações de frutos proibidos. Acho que esta crença foi fundamental em determinado momento e ainda pode ser benéfica, principalmente para os irreligiosos como o Onildo (visite seu blog), já que não estarão sujeitos aos representantes divinos com poderes temporais e suas verdades absolutas reveladas, perniciosas de per se, independentemente de seu teor.

"A ciência não pode provar que Deus não existe", dizem. É verdade. Mas o ônus da prova, se raciocinarmos nestes termos infantis, cabe ao fulano que afirmou que existem deuses e não àquele que não acreditou no fulano. O mundo parece funcionar muito bem sem eles. Não adianta classificar como divino tudo o que não compreendemos (falácia divina), como bem alertou Epicuro. Anhangüera colocar fogo na aguardente, idêntica à água, foi um ato mágico para os índios Goiá, mas para nós do século XXI é o esperado quando associamos comburente, combustível e ignição.

A contemplação da natureza, dos mistérios do universo, a exaltação de valores não materiais, o altruísmo, o amor, a fantasia saudável, o envolvimento com a arte, a meditação, a filosofia, tudo isto pode dar mais "transcendência" à vida do descrente do que o materialismo do crente que só trabalha, só fala de dinheiro, de notícias do JN - e que não é nem um pouco raro, convenhamos. Não podemos confundir descrença com materialismo ou descrença com vida destituída de sentido.

Claro que há também a questão utilitarista. Na revista X aparece que a fé e os rituais de fé fazem bem ao indivíduo. Eu gosto de ver como alguns analisam dados estatísticos. Chegam a conclusões como "o europeu que se banha na lama das Ilhas Fiji vive mais ", e esquecem que só o europeu desestressado e rico é capaz de viajar até lá para testá-lo. Do meu ponto de vista, quando o homem tinha pouco mais do que fé para recuperar a saúde, vivia em média metade do que hoje. Pelo menos a penicilina, o antibiótico, a assepsia, os exercícios físicos, a vida sem stress, a educação, o amor e os avanços cirúrgicos estão ao alcance do descrente, para que ele também viva mais. Mas minha fé nos benefícios tangíveis da fé é tanta que criei uma oração para meu cérebro: "Ó suprema massa cinzenta que regeis meu ser, guardai-me de ser mesquinho com o próximo, sede minha inteligência e curai-me de meus males enviando vossos anticorpos-da-guarda, com a intercessão de são bulbo, são cerebelo e de santo hipotálamo, o supremo organizador do caos cerebral. Que a vossa serotonina sagrada conduza meu coração, meu sono e meu apetite, e dai-me a endorfina de cada dia, amém".

Parte II - Deus Bíblico(índice)

Porque está na Bíblia" não é satisfatório para mim, "porque eu sinto e o experimento" não é satisfatório. As vestais deviam "sentir" a deusa Vesta durante os rituais. "Porque ele faz milagres" não é satisfatório - talvez quando a humanidade se unir em oração e conseguir de Jeová que regenere um membro amputado, a falangeta do dedo mínimo que seja. Mas Deus não cura amputados, não é mesmo?

Os escritos canônicos bíblicos não batem com os apócrifos. E o cânon - ou a relação dos livros bíblicos - foi estabelecido por concílios. Tudo por decisão humana. Nenhum livro bíblico diz quais livros devem ser parte do cânon, e se dissessem seria apenas, no fim das contas, a Bíblia dizendo que a Bíblia está correta. E esses concílios não são inspirados por Deus, para mim, mas por interesses mundanos. Se não fosse assim, o de Nicéia, de Trento e do Vaticano I ainda seriam plenamente válidos, mas contêm um punhado de porcaria anacrônica.

Não vejo sentido em Deus criar homens e mandá-los para o inferno porque não creram nele, ou em mantê-los longe sem puni-los quando é a sua fonte única de prazer, não vejo sentido em pecado original, e se o pecado original é tão somente um impulso para o mal inerente ao homem, por que Deus nos criou com ele para em seguida tirá-lo de nós após um ritual de batismo, e por que foi imperativo que viesse ao mundo como homem para isso? Estamos falando de um criador onipotente ou de um oniburocrata? Não vejo sentido em Deus não querer vir ao mundo a partir de uma cópula porque o sexo de duas criaturas é imundo demais para ele, em Maria ter ascendido aos céus simplesmente porque o Papa Pio IX quis que todo Papa fosse infalível quando fala ex-cathedra - sei, evangélicos, vosso Deus não falou isto.

Mas gosto da Bíblia. Também gosto de suas historinhas legais e na maior parte das vezes educativas. Leio a fábula de Sansão e Dalila, ouço a fantástica ópera homônima de Saint-Säens, assisto ao filme com o canastrão Victor Mature e a bela Hedy Lamarr, e me emociono. A ópera Nabucco, as comoventes Paixões de Bach. Comovo-me também com Romeu e Julieta, com a mitologia grega, mas se visse uma comunidade vivendo de acordo com os ensinamentos de Dionísio, julgando-o um deus de fato, eu falaria o mesmo que falo da Bíblia, esta bela peça de mitologia (e História): boa como literatura, apesar de inferior a Sófocles, Shakespeare e uma miríade de outros, redundante nos bons ensinamentos, pródiga em maus exemplos. A propósito, Eliseu amaldiçoar as crianças que o chamaram de careca e Deus comprar sua indignação enviando ursos para matá-las é simbólico, dureza de corações, mistério bíblico, mentira ou crueldade divina? Se a Bíblia é tão dependente da interpretação e esta varia radicalmente com o tempo, o céle(b)re conjunto de livros não é um canal de comunicação aceitável ente nós e o suposto criador. Melhor seria se suas páginas estivessem em branco. Voltando: Gosto também da historinha do vociferante João Batista, talvez pela ópera de Richard Strauss, pelo drama de Fagundes Varela e pela peça de Oscar Wilde. E também porque estive nas escavações do Templo de Herodes em Maqueronte, na Jordânia. Os túmulos do Egito Antigo emocionam mais até mesmo que o Santo Sepulcro em Jerusalém (certamente falso), contudo, não creio que aqueles homens com cabeça de cachorro sejam deuses.

Parte III - Sobrenatural (índice)

É impossível que inventem uma máquina que registre almas deixando os corpos e que possibilite que conversemos com elas? Acho que até seria possível. Teríamos então, caso fossem detectadas nas mesmas circunstâncias, apenas uma nova dimensão para o mundo natural. Para muitos crentes, contudo, o sobrenatural estaria comprovado cientificamente. Mas acho muito difícil tal máquina ser inventada, pois todas as descobertas ligadas ao funcionamento do cérebro indicam que tudo o que atribuímos à alma é, na verdade, química, eletricidade. Tanto que, dependendo dos hormônios, da química do cérebro, de alguma área afetada por algum tumor ou mesmo extirpada, um sujeito pode variar do manso São Francisco ao sádico Calígula. Para que alma então? Para mim, o que é real é a sensação de alma e de imortalidade que nosso infinito ego produz.

Todos os animais captam e enviam informações externas por órgãos externos, e elas passam a ser interpretadas pelo cérebro. É o mesmo que acontece em um computador. O som entra pelos microfones, o texto pelo teclado, a imagem pela webcam, o som sai pelas caixas de som, a imagem pelo monitor. Gritar para um processador convencional uma tarefa seria estúpido. Do mesmo modo, acreditar que o cérebro possua capacidade para enviar ou receber informações sem o auxílio dos órgãos adaptados para estas tarefas é insano, mas amplamente aceito pelos que crêem em paranormais. Falando nestes embusteiros, não entendo como apreciam tanto a pecúnia mas não descobrem um jeito de convencer James Randi a lhes dar US$ 1 Milhão demonstrando-lhe seus poderes. Na hora "H" sempre apelam para o "platéia hostil" para desistirem das demonstrações.

Eu não vejo evidências suficientes da existência de almas penadas, vidência, domínio sobre os elementos (Cacique Cobra Coral), e outras coisas. Então parto do pressuposto que não são verdade. Outras pessoas partem do pressuposto que podem ser verdade. Cada um com a sua postura. A minha é de acreditar quando uma coisa faz sentido e deixar de acreditar quando perde o sentido. Em meio aos bilhões que aceitam o "sobrenatural" sem pestanejar e exigir provas, que acreditam piamente no velhinho que disse que viu um fantasma (afinal, velhos e crianças não se enganam e tampouco mentem), acho que pessoas que duvidam e explicam as suas razões não podem ser maléficas para a sociedade. Já do lado dos crédulos pode estar também o maria-vai-com-as-outras, que é, amiúde, inofensivo. Mas é fácil de ser manipulado por espertalhões, por governantes inescrupulosos. Como escreveu a Clarissa, a grandeza de uma nação está diretamente ligada ao espírito crítico da população, em relação à política, à religião, a tudo.

Parte IV - Moral e Cristianismo(índice)

"Se as pessoas abrirem mão de Deus, tudo será permitido, até matar e roubar", é o que os crentes mais ignorantes dizem. Pagãos como Aristóteles e Marco Aurélio - ainda que seus sistemas não nos sirvam mais - produziram tratados éticos muito avançados, de sofisticação raramente igualada por moralistas cristãos. E seus deuses eram meras comparações de virtude.

"Mas tinham a centelha divina", dizem os leitores do catecismo. Então mudemos de exemplo. O comportamento social dos nossos primos mais próximos não é caótico. Em comunidades de chimpanzés, na África, vemos cordialidade, cooperação, afeto, hierarquia, lideranças desafiadas, assassinos expulsos pelo bando, usurpadores, macaquinhos honrando os pais, os pais dando a vida pela prole, um membro alertando os demais para perigos iminentes. Alguns subgrupos sequer recorrem à violência para resolverem seus problemas, como é o caso dos Chimpanzés Bonobos. Mas... Sem terem alma? Claro, isso é comum a todos animais sociais: Cooperação. Dentre os animais sociais, parece que apenas bandos errantes de jumentos do Sinai precisam receber do próprio criador do universo um “não matarás" sulcado na pedra ... Vemos comportamento altruísta em babuínos. Muitas vezes, em bandos atacados por leopardos, machos foram observados retardando-se para enfrentar a fera, em uma luta quase suicida. Enquanto o macho, normalmente mais velho, atrasa a perseguição do leopardo sacrificando-se, as fêmeas e os mais jovens conseguem escapar e “seguir seu destino”. O heroísmo que nós vemos, de tempos em tempos, em nossos semelhantes é muito anterior às nossas enfeitadas religiões e seus deuses.

Do outro lado, os ateus Warren Buffet e Bill Gates, os demônios capitalistas, são os maiores filantropos da história. Não porque são ateus mas porque são seres humanos, como o Heitor escreveu no post Populismo Étnico do PT. Aliás, 10% dos americanos são ateus, mas apenas 0,2% da população carcerária de seu país é atéia. Isto quer dizer que os ateus são os bonzinhos da história? Talvez segundo a análise da estatística feita pela revista X, mas para mim estes números indicam apenas que os ateus estão em melhores condições financeiras, são menos ignorantes e menos dependentes das orações para resolver seus problemas. É aquela velha questão: Nossa Senhora da Saúde só existe onde há doença. A santa se alimenta dela. Invente um jeito de curar todas doenças e os santos perecerão pela falta delas.

Entre os de nossa espécie, emoções são contagiosas, e são raros os que podem ser felizes em uma sociedade triste. É de nossa natureza sermos felizes em meio à felicidade e tristes em meio à infelicidade. É de nossa natureza, "graças a Deus", almejar a felicidade para nossos semelhantes ao mesmo tempo em que a desejamos para nós próprios. Ela é maior quando compartilhada.

Se Jesus representou um avanço moral, não quer dizer que não haja moral fora do teísmo ou fora do cristianismo. Os Franceses não inventaram a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Além disso, o inferno que existe na doutrina de Cristo põe o cristianismo em um patamar inferior ao de algumas outras filosofias. O "amar ao próximo como eu vos amei" é inútil, já que Jesus, se fosse mesmo Deus, teria nos amado infinitamente, o que tornaria o mandamento impossível de ser seguido, portanto inútil para nós mortais. Quanto a libertar escravos, todos serem iguais, amar o inimigo, fazer ao próximo o que gostaríamos que fizessem por nós, tudo isso é maravilhoso, mas não obrigatoriamente divino. E pode ser encontrado em outras culturas mais antigas. Quanto à singularidade de Jesus, Mitra, um deus persa adorado também em Roma e que sumiu após o advento do cristianismo, também recebeu ouro, incenso e mirra por ocasião de seu nascimento, venceu o mal, ressuscitou, criou um ritual que envolvia pão e vinho (estou questionando a singularidade de Jesus e não afirmando que o cristianismo veio do mitraísmo, como fazem alguns autores sensacionalistas), e vemos a virgem com um menino representada em outras mitologias, na figura de Isis. Prometeu era representado em uma cruz, e foi um deus que sofreu horrores pelo homem. Por fim, como escrevi acima, acho este método de Deus tirar o pecado original (tirou? não fiquei sabendo), ou o pecado inerente ao ser humano, virando homem algo muito mitológico. Não sei por que tanta gente ainda acredita nisso. Assim como a transubstanciação, que é tão absurda que nenhum católico crê nela de fato. O próprio Papa Leão X, o santo que construiu a Basília de São Pedro com dinheiro de venda de indulgências e que viu o protestantismo nascer, teria dito, segundo John Bale: "Quantum nobis prodeste haec fabula Christi..." E Santo Agostinho: "Não creria nos Evangelhos, se a isso não me visse obrigado pela autoridade da Igreja".

Parte V - Religiões(índice)

Na Internet tem de tudo. Certamente muito mais blogs e sites que promovem os nobres valores cristãos e que ensinam orações para pedinchar aos santos ou para agradecer os "privilégios" – muitas vezes para não perdê-los - do que sites criticando a Igreja Católica. É importante mostrar aos que não estão muito familiarizados com a história como ela se portou com os reis absolutistas, com as ditaduras fascistas, com a escravidão no Brasil, com os protestantes, sua postura atual em relação a preservativos, laicismo, liberdade religiosa, divórcio, etc.

Os crentes abraçaram uma igreja supostamente santa e criada pelo próprio Deus que quando acerta é divina e quando erra é humana. Para mim, quando acerta é humana e quando erra é humana. Por que haveria de ser diferente? Será que todos esses santos católicos se converteriam ao cristianismo se tivessem nascido na China? No máximo seriam sábios budistas, isso sim, defensores do bem, da ética, dos bons costumes, da moral. Religião é cultural, ao contrário da espiritualidade, que aparentemente é genética. E isto foi fácil de ser percebido no estudo de gêmeos univitelinos separados após o nascimento. O grau de espiritualidade é quase sempre semelhante, mas a religião varia de acordo com o meio cultural, com pouquíssimas exceções. Por isso vemos mais santos cristãos na Itália do que nos EUA e China. Para a maioria a religião é pouco mais do que um time de futebol ou uma escola de samba do coração.

Podem me dizer que a França é divina (no sentido literal). Eu lhes falarei de Napoleão e dos milhares guilhotinados durante o Terror, e ouvirei que só pego exemplos ruins, que os franceses são contra Bush e a invasão do Iraque, que nos legaram grandes filósofos, que belas construções como o Palácio de Versalhes mostram que realmente a França é divina. Boa parte dos católicos que conheço não quer saber se os maus ensinamentos do Alcorão são “simbólicos”, se a maioria dos muçulmanos é boa, se foram mais tolerantes do que os cristãos séculos atrás. Deliciam-se com livros que expõe sua misoginia, como se ela não tivesse sido combatida na Europa apesar do catolicismo. Acham graça quando vêem mulás ensinando em atrasadas madrassas sauditas que o mundo é plano, esquecendo-se que já queimaram cientistas por afirmarem o contrário. Há meio século domesticado, o catolicismo se considera a religião perfeita, e quem falar dos 1600 anos anteriores está agindo de má fé, está “pegando fatos pontuais alheios à sua essência”.

Jesus não amenizou as críticas aos fariseus com elogios por eles serem bons pais, por eles darem esmola, mesmo que arrogantemente, do mesmo modo não queremos saber, enquanto estamos julgando os crimes de uma pessoa, se dias antes ela beijou a esposa e os filhos ou se distribuía sopão aos sábados. O réu é julgado pelos seus crimes. E a punição, ao contrário do inferno bíblico, deve servir para prevenir que o crime se repita, para reeducar o criminoso, se for o caso, e como exemplo ao resto da sociedade. Então os religiosos (líderes) não devem mais se imiscuir em política, não devem mais interferir em questões de saúde pública, devem ter seu poder temporal extremamente reduzido, devem ser enjaulados, do padre ao Papa, quando cometem crimes, principalmente de intolerância e sexuais. Se dermos as condições e o poder que a Igreja Católica almeja recuperar, o passado se repetirá. Duvidam? Vejam como é hoje a quasi-teocracia nas Filipinas e a atuação da Igreja na África, onde o povo é desinformado e supersticioso como nenhum outro. Mais de 50% dos quenianos acreditam que o preservativo ajuda a espalhar a AIDS. Uma instituição tão gigantesca quanto a Igreja Católica passa quase a ter vida própria, e a lutar selvagemente para se perpetuar no poder, apesar dos homens que a integram serem, essencialmente, bons. O documentário "The Corporation" mostra isto muito bem (apesar dos inúmeros exageros).

Como escrevi anteriormente, é extremamente penoso para o católico ver os seus religiosos no banco dos réus quando sempre estiveram no posto de juízes. E não são poucos.

Minha intenção não é que as pessoas abandonem sua religião mas que questionem absolutamente todos os dogmas e que vigiem absolutamente todas as ações dos religiosos. O mundo só tem a melhorar. Poder temporal aliado a verdades absolutas nas mãos de representantes divinos NÃO FUNCIONA!
Precisamos de uma sociedade civil organizada, de opinião pública, de meios de comunicação livres, poderes separados, Estado laico, impostos bem aplicados, informação disponível a todos, religiões domesticadas, principalmente as três monoteístas (considerando o cristianismo e seus três deuses, deusa e semideuses como monoteísmo). Este é o único jeito, inclusive, para elas sobreviverem aos desmandos de alguma religião hegemônica. Pessoalmente, acho mais saudáveis religiões com poucos fiéis e pouco poder.

Enquanto não inventarem um "Index Blogorum Prohibitorum”, continuaremos a atirar pedras contra nossos monstruosos moínhos de vento. Aos católicos incomodados que desejem reforçar suas crenças eu recomendo o Catecismo Online.

15 dezembro 2006

Cristo e a Eva Mitocondrial

A crença em um Cristo Redentor e o poligenismo são incompatíveis. No poligenismo a humanidade descende de vários casais. No monogenismo descende de apenas um.

Primeiro demonstrarei, por meio de quatro citações bíblicas, três cânones do Concílio de Trento e um trecho da Encíclica Humani Generis, o motivo pelo qual são incompatíveis. Depois mencionarei a "quase prova" do monogenismo - a Eva Mitocondrial - e explicarei por que esta pequena tábua não impedirá o náufrago criacionismo de se afogar.

"Foi a Sabedoria que guardou o primeiro homem, formado por Deus para ser o pai do gênero humano, o único criado.” (Sab 10,1)

“De um só (homem) fez (Deus) todo o gênero humano, para que habite sobre a face da Terra.” (At 17,26)

“Foi por um só homem que o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, que atingiu todos os homens etc.” (Rom 5,12.17-9)

“Assim como a morte veio por um homem, é também por um homem que veio a ressurreição dos mortos. Pois, como todos morrem em Adão, todos também recuperarão a vida em Cristo.” (1 Cor 15,21s.)

De acordo com o Concílio de Trento, Sess. 5, can. 1: “o primeiro homem, Adão, transgrediu o mandamento de Deus”; can. 2: “o pecado de Adão afetou toda a descendência deste, à qual comunica culpa e morte”; e can. 3: “o pecado de Adão é um ato único; transmite-se por geração, não meramente por imitação”.

O trecho da encíclica Humani Generis de Pio XII:
“Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles. [cf. Rom 5, 12-19

Voltemos à realidade.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia concluíram que todos os humanos vivos são descendentes de uma única mulher que viveu na África há cerca de 150 mil anos, e passaram a chamá-la de "Eva Mitocondrial". Eles se basearam na análise do DNA retirado das mitocôndrias, que é transmitido apenas pela linhagem feminina.

Segundo artigo publicado na Nature, o "Adão Científico" viveu na África há 59 mil anos e a "Eva Mitocondrial" nasceu 84 mil anos antes, há 143 mil anos.. Para o casal ter se conhecido, os 1000 anos de idade daqueles primeiros homens do Gênesis não seriam suficientes, não é mesmo? "É desconcertante descobrir que o registro de Eva é mais antigo e, portanto, que ela não poderia ser a mulher de Adão", afirmou o geneticista Luca Cavalli-Sforza, da Universidade Stanford.

O fato de existir uma Eva Mitocondrial não significa que ela foi a única mulher existente em sua época, mas que foi a única que produziu uma linhagem direta de descendentes que persiste até hoje. "O problema do entendimento da história da Eva Mitocondrial é um problema no entendimento de como a estatística da probabilidade se aplica a problemas de hereditariedade", disse Frank R. Zindler. A perda de uma linhagem mitocondrial tem semelhanças próximas à perda dos sobrenomes em sociedades patriarcais. A única diferença é que esses sobrenomes são passados pela descendência masculina, enquanto as mitocôndrias são transmitidas pelas mulheres.

A figura abaixo mostra o caso hipotético de uma ilha deserta povoada, inicialmente, por seis pessoas de sobrenomes diferentes. Em apenas três gerações, apenas um sobrenome restou. (Os retângulos são homens, as elipses mulheres, conforme legenda)


Todas as pessoas na ilha são "Silva" e todas descendem de um único "Silva Científico".

Muito dificilmente o monogenismo vingará. Como não sou cientista, não posso opinar sobre o futuro do monogenismo e do poligenismo. Mas o certo é que se chegar ao ponto de ninguém mais acreditar no primeiro, os exegetas suarão dia e noite para montar uma justificativa para a vinda de Cristo, para o Pecado Original, para o Batismo que o purga, para a necessidade de uma "Imaculada Conceição". Pena que todas essas descobertas não tenham sido feitas a.G. - antes de Gutenberg - porque até seria simples fazer um recall das cópias existentes da Bíblia, para "pequenas modificações"...

Tire o Pecado Original e o castelo de cartas colapsará.
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