20 fevereiro 2021

Abusus Non Tollit Usum

 


O termo “abusus non tollit usum” aplica-se a quase tudo nesta vida, às redes sociais, ao instituto da delação premiada, à democracia, à liberdade de imprensa e de expressão, à ingestão de bebida alcoólica, ao uso de faca de cozinha, à imunidade parlamentar, ao uso de automóveis. Aplica-se também no combate à pandemia. Desvios de recursos para respiradores, superfaturamentos, lockdowns malfeitos, nada disso é, obviamente, motivo para não combatê-la com todas as armas de que dispomos. No caso dos automóveis, é consenso que o fato de haver quem dirija embriagado, participe de rachas, durma ao volante, mexa em celular enquanto conduz o veículo, não deve ser motivo para se reduzir a velocidade máxima permitida para 10 km/h, ou para a limitação drástica do número de carros nas estradas. Ainda que saibamos que todo ano dezenas de milhares morrerão em acidentes; velhos, adultos e crianças. É importante sim que haja pardais, pistas duplicadas, sinalização adequada, blitz, campanhas de conscientização, airbags, cintos de segurança. Não se deve simplesmente proibir as pessoas de andar de carro, para se evitar mortes.


No vídeo deste post, Rodrigo Constantino compara os mortos pelo coronavírus aos mortos em acidentes de carro. Segundo ele, não devemos momentaneamente fechar o comércio não essencial e dizer às pessoas para ficarem em casa, nem que seja apenas em locais onde a pandemia ganha terreno, onde o vírus se espalha de modo descontrolado. Se não agimos assim em relação aos carros, por que o excesso de zelo em relação à pandemia de coronavírus? Sabemos que, em ambos os casos, dezenas de milhares morrerão. Temos que continuar a andar de carro, ainda que muitos morram. Temos que continuar a viver normalmente, ainda que muitos morram após se contaminarem pelo vírus. Simples assim.


Haver quem faça metáforas desonestas, comparações obtusas, analogias inconvenientes, não deve servir como proibição à retórica e ao uso de figuras de linguagem. Falácias de uns não depõem contra o uso da lógica. Pensamento asnático não depõe contra o uso do cérebro. Mas denunciemos os abusos.


Grosso modo, sabemos que umas 30 mil pessoas morrerão todos os anos no trânsito, no Brasil – número que pode ser reduzido, claro; o sistema de saúde está mais ou menos adaptado ao grande contingente de hospitalizados, afinal os acidentes de trânsito não aumentam exponencialmente, por contágio. Mas quantas teriam morrido na pandemia se tivéssemos apenas levado a vida normalmente, no máximo com isolamento vertical aliado ao uso de máscara e álcool gel? Quantas estariam vivas se tivéssemos feito muitas testagens aliadas a fortes quarentenas localizadas, onde a doença estivesse se disseminando mais? Quantas estariam vivas se tivesse havido união nacional em torno ao problema, enfrentamento ao invés de negação? Quanto está “bom”? 50 mil mortes? 200 mil? Como saberemos quando a contagem cessará? E se for no 1 milhão? E se for mais? É a vida? O sistema de saúde estará preparado? Bebês prematuros morrerão sem oxigênio, pessoas morrerão nas calçadas por falta de atendimento, seus corpos irão para aterros sanitários? Para quem nega que haja um problema, se o número de mortos for baixo tem-se a prova de que tudo foi alarmismo. Se for alto, tem-se a prova de que nada do que foi feito adiantou. Se o confinamento começa a fazer efeito, quem é contra aponta seu sucesso como prova de que não era necessário. E se ainda por cima a economia vai mal, tem-se a prova de que a medida desnecessária causou muitos males econômicos, além de ter atentado contra a liberdade de ir e vir. Ignora-se o cenário hipotético, já que não se dispõe de dados históricos e o exemplo internacional não importa, uma vez que os líderes mundiais ou não são tão inteligentes quanto o Guilherme Fiuza ou estão a serviço de uma causa oculta que quer o lockdown para que a economia seja destruída, sabe-se lá a troco de quê. Suicídio de lemingue, talvez.


Se fizéssemos uma comparação entre as mortes no trânsito e aquelas causadas pelo coronavírus, o cenário deveria ser bem diferente. Imaginemos que todos os carros em circulação têm um pequeno computador de bordo. Um vírus no sistema faz com que um carro acelere ou freie de repente, gire abruptamente o volante. Esse vírus digital é transmitido, para outro carro distante poucos metros, por Bluetooth, estando ele ligado ou não. O aumento dos carros infectados passa a ser exponencial. E, proporcionalmente, o número de mortes. Os hospitais estão lotados, pessoas com câncer e pneumonia morrem por falta de atendimento. Logicamente, passaremos a evitar engarrafamentos, estimularemos o uso de bicicletas, reduziremos os carros nas ruas, tentaremos implantar o home office, tudo isso até acharmos uma solução definitiva para o problema. O problema com os carros seria temporário, portanto, como o que enfrentamos com o coronavírus. Esta é uma comparação mais adequada.


O amor-próprio, o amor ao trabalho e à família têm também seus abusos. Encontraremos sempre aqueles que desligam o bom senso e o pensamento lógico de outrora em troca da pecúnia ou do cacife profissional que no fim das contas a fará fluir para seus bolsos. Depois não os conseguem mais ligar, tamanho é o estrago que aquilo, pensado para ser temporário, causa permanentemente no espírito. E ficam presos a posturas pregressas, sempre passíveis de serem evocadas na internet por adversários ávidos por acusá-los de incoerentes e vendidos; não mudarão para não dar armas a seus detratores. Assim, o melhor a fazer é escolher a “realidade” em que se quer viver e pronto. O importante é se ater a ela. Outras “realidades” devem ser negadas veementemente. Até mesmo a realidade, sem aspas, aquela que não está nem aí para o que dizem dela.

Eis um caso de “abusus non tollit usum”. Que haja comentaristas políticos internet afora. Mas que seus abusos sejam denunciados.

08 fevereiro 2021

MÍDIA-LIXO

A Mídia-Lixo - doravante designada "ML" - deve, logicamente, ser comparada ao lixo convencional. Este pode ser objetos descartados ainda apropriados para uso, como sofás e cadeiras velhos, objetos cujas partes podem eventualmente ser reaproveitadas, como eletrodomésticos avariados, itens facilmente recicláveis, como latas de alumínio, caixas de papelão, sacos plásticos, garrafas, e também rejeitos orgânicos, os quais podem servir como adubo e até mesmo biogás. E há a Mídia-Resíduo-Hospitalar-Tóxico - doravante designada "MRHT" -, que deve ser comparada aos expurgos contaminados raramente recicláveis, incluindo o ameaçador Césio 137, neste caso quando, raríssimas vezes, têm alguma cor e brilho próprio. 

A ML é aquela que não pode alterar seu Nome Fantasia, do qual depende para viver, e é por isso que até hoje responde perante a opinião pública por posições políticas adotadas 50 anos atrás, é aquela cujos jornalistas são de carne e osso, que tem algo a perder e por isso não pode dar tantas largas a seu viés político-ideológico, sob risco de perder credibilidade, é aquela que pode dar muita ênfase a um lado da história, jogar holofotes sobre opiniões fruto do oportunismo ou de julgamento tendencioso, mas é obrigada a se retratar quando necessário, a citar a defesa dos acusados e réus, ao menos para dar impressão de confiabilidade, já que pretende manter seu Nome Fantasia por mais outras tantas décadas.

A ML é uma hidra de umas poucas cabeças com nome e sobrenome. Uma conquista da Civilização, é um monstro cujos tumores são dificilmente extirpáveis sem um remédio pior do que a doença. Já a MRHT é fruto de um grande efeito colateral da tecnologia, capaz de amplificar ad surditas zumbidos de pernilongos, roçar de pernas de carrapato e empódios de ácaros, e o sorver de varejeiras. Não há inseticidas disponíveis para combater seus excessos, e estes são sua essência; aqui, o câncer é o próprio sujeito; são miríades de microcéfalos em displicente trabalho involuntário de alastrar a contaminação. Cada um, quando decepado, faz eclodir um sem-número de ovinhos, sementes para cabecinhas mais ousadas, mais mendazes, mais tóxicas. Se não são combatidas, multiplicam-se de igual modo, sofrem mutações e se adaptam aos ambientes mais hostis.

A ML é citada como fonte pela MRHT, muitas vezes falsamente, para auferir credibilidade a alguma leitura oportunista que faz dos fatos, para dar peso a alguma opinião. Citar outra cabecinha não convence. E há, claro, algumas delas que são confundidas como parte da ML por transitarem na larga fronteira entre esta mídia e a outra. Através dos tempos, a ML sempre gerou desempregados, aposentadorias forçadas, ostracismo. Mas não hoje. Invariavelmente, o expurgo profissional que produz, incluindo rejeitos senis, empresta seu nome, currículo, cãs e rosto manjado para a MRHT, a qual precisa desesperadamente de alguma credibilidade semelhante à da ML. E assim nos deparamos às vezes com algum aparelho de raio-x abandonado contendo Césio 137, brilhante como purpurina, tão Lixo-hospitalar quanto pedaços descartados de um intestino extirpado, tomado por uma superbactéria. Mas muito mais perigoso.

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Caiu-me em mãos, recentemente, “O Bem e o Mal”, do português Camilo Castelo Branco. Quase não abro romances desde que saí da adolescência, mas achei que a leitura poderia ser mais leve e adequada a uns dias de férias que tirei com a família na praia do que páginas de Nietzsche ou Tocqueville.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Deparei-me com o seguinte trecho, em nosso belo idioma em sua versão oitocentista portuguesa:


A Vedeta da Liberdade, jornal portuense, publicou uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em grypho: que um estudante militar, appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, insultára. E accrescentava: O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costellas quebradas.

O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.

Casimiro leu a correspondencia em voz alta.

E Ladislau perguntou:

—Que é isso?

—É uma gazeta—disse o vigario.

—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.

—Sim.

—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?

—Isso que, meu irmão?

—Como se estampam esses insultos?

—Estampam-se.

—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?

—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.

Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:

—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!

Casimiro sorriu, e disse:

—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.



Roma: Estátua de II Pasquino, do séc. III a.C.

 

 O ódio à Mídia-Lixo é uma característica do extremismo à direita e à esquerda. É uma característica da barbárie, não da civilização.

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