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30 agosto 2021

McDilmo


O Excrementíssimo Presidento disse que há “três alternativas” para o seu futuro:

“Estar preso, ser morto ou a vitória. Podem ter certeza, a primeira alternativa, preso, não existe. Nenhum homem aqui na terra vai me amedrontar.”

Então são apenas duas alternativas, asno, e não três. É um Dilmo, não resta dúvida. Mas um Dilmo hidrófobo.

O último tiranete, facínora, assassino, que bradou "a morte ou a vitória", pelo que me lembro, foi Macbeth. "Homem nascido de mulher não poderá me matar" - repetiu para Macduff a profecia das bruxas. Macduff tinha nascido de cesariana, então não era considerado "nascido de mulher".

MACBETH:
Fuggi! Nato di donna
Uccidermi non può.

MACDUFF:
Nato non son; strappato
Fui dal seno materno.

No caso do presidento, "Nenhum homem aqui na terra vai me amedrontar". Atroz semelhança. Recomendo que não embarque em avião comercial. Poderá ficar amedrontado.

Sabemos como terminou Macbeth. Abaixo, o link para a ópera de Verdi no ponto certo: 2h 23m 29s)



Eu acho que há a alternativa "todas opções acima": Ele morto numa prisão (de velhice mesmo) e a vitória dos brasileiros.

30 março 2021

Lincha! Lincha! Lincha!

 

Assistimos de camarote, comendo pipoca, o coronavírus partindo da China, chegando aos países vizinhos, ao Oriente Médio, encalhando em Suez por algum tempo (ok; não vimos isto), chegando à Europa e aos Estados Unidos, assistimos à devastação que causou, aos corpos insepultos na Itália, quais tebano Polinices, aos freezers nas ruas de Nova Iorque.

E chegou nossa vez. Enquanto europeus e americanos receberam milhares de infectados de uma só vez, até em cidades com turismo não tão expressivo, por aqui recebemos uns gatos pingados em alguns poucos aeroportos, e continuamos a assistir tudo comendo pipoca. Como na lenda do xadrez, na qual o ministro inventor do jogo pede ao Rei Shirham, que lhe prometera tudo quanto desejasse como prêmio pela criação que acabara com seu tédio, um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira, numa progressão geométrica de razão dois que resultaria em todo o trigo produzido no planeta por milhares de anos, de modo parecido assistimos nossos dois infectados virarem quatro, seis, quinhentos, enquanto europeus e americanos já iniciaram seu problema muitas casas além, no tabuleiro da transmissão.

Não havia motivo para pânico, diziam. Nosso clima é muito diferente e o vírus não sobreviveria muito bem por aqui, apesar de a temperatura do corpo saudável ser de 37 graus tanto aqui quanto no Himalaia e de o vírus ficar pouco tempo no ar entre um infectado e outro, e de migrar diretamente surfando em perdigotos, ou de ficar em suspensão no ar de ambientes fechados. Diziam que o brasileiro é mais forte, por nadar no esgoto e comer comida que caiu no chão. Um Ministro da Saúde interino chegou a dizer que o clima do Nordeste do Brasil era mais próximo ao temperado, do Hemisfério Norte, e por isso o pior já havia passado. Um empresário que se veste de verde e amarelo por ser muito patriota convenceu o presidente de que não havia motivo para pânico porque a densidade populacional da Itália é muito maior do que a brasileira, graças à Amazônia, ao Pantanal, à Caatinga, ao Cerrado, ao Pampa, às florestas, plantações e outras regiões desabitadas, o que impede que o vírus se propague, uma vez que todas festas, salas de aula, reuniões familiares obedecem também a essa densidade de 24 pessoas por quilômetro quadrado.

Países que tiveram sucesso em conter a disseminação do vírus fizeram muitos testes, isolaram os infectados, sua população usou máscara e respeitou as medidas de combate ao vírus, numa união nacional promovida quase sempre pelo líder da nação. E os brasileiros resolveram fechar o comércio, mas sem testes e quase sempre sem máscaras. E em todo o Brasil de uma vez. Isso enquanto os hospitais de campanha não ficavam prontos.

Foi aí que surgiu o falso dilema: saúde ou economia? O presidente optou por esta em detrimento daquela. Decretou que toda atividade era essencial, até mesmo as de barbeiro e motorista, barbeiro ou não. Ele e seus asseclas defendiam veementemente o isolamento vertical. Trancar-se-ia os velhos e pessoas com comorbidades enquanto o resto da população viveria normalmente. Hoje, com milhares de jovens morrendo diariamente de COVID, abandonaram essa ideia, aparentemente.

O STF interveio e disse que a responsabilidade era concorrente, entre prefeitos, governadores e presidente, e que as medidas mais restritivas vigorariam. Assim, tiravam do presidente o poder de boicotar o combate à pandemia, não o de ajudar a combatê-la. Poderia apenas ter lavado as mãos, como Pilatos, mas preferiu militar contra todas medidas sanitárias. Provocou aglomerações, falou contra máscara, contra isolamento, denunciou que hospitais de campanha estavam vazios e estimulou as pessoas a invadi-los para filmarem leitos desocupados, negou o número de mortos, militou contra a vacina, jogou a população contra governadores, prefeitos, Congresso e STF - não se fala aqui dos crimes que vários cometeram, dos desvios de recursos, dos inquéritos autoritários e ilegais - , participava de manifestações dominicais nas quais se pedia por intervenção militar, nas quais chegou de helicóptero, cavalgou com o cabelo ensebado ao vento e a pança a balançar, como um bom mau militar expulso da corporação há mais de trinta anos, por terrorismo. Zombou abjetamente dos mortos, cuspiu em seus caixões, chamou de "frouxidão", de "mimimi" o sofrimento dos enlutados. Seus defensores diziam que era apenas o jeitão dele, que, na prática, passava aos estados o dinheiro que estes primeiro enviaram à união, dava o auxílio emergencial imposto pelo Congresso. Maximilian I, do Sacro Império Romano-Germânico, acabou com as revoltas que eclodiam em todo o território, no reinado de seu pai, aprendendo a falar o húngaro, o tirolês, o flamengo, o francês - sete idiomas ao todo -, e, vestido sempre como os habitantes das províncias que visitava, conversava com o povo e demonstrava por todos o mais profundo respeito. Mas os seguidores incondicionais de nosso Incitatus querem crer que o comportamento do líder, suas falas e exemplos pouco importam. O presidente parou de agir como rainha louca depois que prenderam Fabrício Queiroz, ao qual sua família está ligada por crimes de peculato, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. 

E então apareceu a alquímica cloroquina, ideia saída de Marselha para o Brasil após passar pela Casa Branca, onde pouco antes a injeção de desinfetante no infectado fora descartada, sem quaisquer testes, apesar de ser uma solução etimologicamente correta. Esse remédio para a malária fixou-se no imaginário panaceico do presidente brasileiro, no lugar outrora ocupado pela pílula do câncer, pelo nióbio e pelo grafeno. E nosso líder supremo, mesmo sem ter CRM, passou a recomendar a droga para quem estava desenganado, nas últimas. Era uma esperança, dizia. Contudo, uma vez que o remédio era a solução, independentemente de resultados, já que seu objetivo principal era dar segurança à população para que esta baixasse a guarda e voltasse a trabalhar, depois que testes mundo a fora demonstraram que o risco de morte após ingerir cloroquina era maior para quem estava em estado grave, passou a defender esse remédio para todos que porventura se infectassem, numa bela defesa “ad hoc”. A droga salvaria a vida de 99% das pessoas contaminadas pelo vírus cuja letalidade era de 1%, grosso modo - maior hoje, no cenário de colapso do sistema de saúde. O presidente, como Lair Ribeiro em relação ao curry, afirmou que africanos acorriam aos postos de saúde com COVID e malária, recebiam medicamento para esta e se curavam de ambas. Lair Ribeiro disse que pessoas que consomem curry não desenvolvem Alzheimer porque nos países em que esse mix de temperos é comum a doença degenerativa acomete pouquíssimos. O fato de a expectativa de vida ser baixa nesses locais nem deve passar pela cachimônia desses gênios. Simplesmente não há muitos velhos para sofrerem de males que acometem principalmente os velhos. Quem se banha duas vezes por ano na lama de Vanua Levu, nas ilhas Fiji, tem uma vida mais longa e feliz. Porque só milionários podem ir duas vezes por ano ao Pacífico Sul para se banhar em lama medicinal.

Médicos mercenários começaram a fazer “lives” com jornalistas e com o próprio presidente, passaram a defender o “Tratamento Precoce”, mero eufemismo para “cloroquina goela abaixo”. Milhares de vídeos passaram a circular no Whatsapp, no Youtube, espalhando desinformação. Redes de rádio e TV passaram a dar uma "cara oficial" às mentiras. Participavam das "lives" patéticas, de quinta - no dia da semana e também no nível. Cidades passaram a distribuir ivermectina e cloroquina, até em drive-thrus. Quando analisávamos os alegados sucessos, não víamos em gráficos qualquer mudança nas curvas de mortos, a partir do momento em que se adotou o procedimento. Nem em Belém, nem em Marselha, Porto Feliz ou Itajaí. Esta cidade, por exemplo, tem letalidade duas vezes maior do que a média de Santa Catarina. É a cidade da ivermectina e do ozônio retal. Estudos e mais estudos internacionais passaram a confirmar a completa ineficácia do “kit COVID”. Independentemente disso, o governo continuou a promover o procedimento. Criou um aplicativo que receitava cloroquina até para recém-nascidos com febre e diarreia. Membros do Ministério da Saúde levaram o kit COVID para Manaus enquanto esta cidade implorava por oxigênio. 

Ainda no início da pandemia, o presidente brasileiro incomodou-se com a popularidade de seu Ministro da Saúde e com sua resistência em condenar a quarentena e em promover a cloroquina, e o demitiu. Aquele que o substituiu saiu por motivo idêntico um mês depois de assumir o posto. O presidente colocou em seu lugar um general três estrelas que não seria sargento em qualquer exército do mundo, exceto no de Brancaleone. Era o mesmo general que disse que o Nordeste era, climaticamente, ligado ao hemisfério norte. Disse não conhecer o SUS. Era um especialista em logística que esteve à frente do Depósito Nacional de Munições quando vinte e cinco toneladas de artefatos bélicos foram desviados. Meses depois, já como preposto oficial do verdadeiro ministro da saúde – o presidente -, enviou vacinas por engano a uma cidade distante mil quilômetros do destino almejado.

E na medida em que o Brasil avançava em número de mortos, os malabarismos estatísticos começaram a aparecer. Parte da mídia passou a ser criticada por divulgar o número de óbitos e não o número de sobreviventes, apesar de estes se contarem sempre em um número dezenas de vezes maior do que o de mortos, independentemente do que se faça. Passou-se a comemorar os mortos por milhão de habitantes. Não éramos os piores! Nos rankings divulgados nos grupos de Whatsapp, a lista era encabeçada por países como San Marino, Liechtenstein – ambos com menos de 40 mil habitantes -, Bélgica e outros. Num campeonato brasileiro, seria o 18º colocado comemorando por não ser o 20º. Para eles, um atentado que mata mil em Nova Iorque é um sucesso em comparação a outro que mata número idêntico em Miami, afinal aqui há mais “mortos por milhão”. Isso faz sentido quando comparamos acidentes de carro, assassinatos, vítimas de doenças cardiovasculares, mas não faz sentido quando temos uma doença contagiosa que começa apenas em alguns indivíduos e sua disseminação deve ser contida a todo custo, obviamente. O que importa se fora da cidade em que o primeiro caso surgiu há 1 bilhão ou 200 milhões de habitantes? Cada avanço da doença é uma derrota idêntica. Termos chegado a este ponto começando da “primeira casa do tabuleiro” é ainda mais grave do que a Itália ter chegado aonde chegou após ter recebido milhares de infectados de uma vez, ter começado “na décima casa do tabuleiro” – voltando à analogia com a lenda do xadrez.

Depois, passaram a negar que tantos morriam de COVID. Pessoas morreriam COM COVID e os óbitos seriam reportados como DE COVID. A Transparência do Registro Civil colocou por terra mais esse engodo. 60 mil mortos a mais de causas naturais, de um ano para outro, nos seis primeiros meses. 200 mil a mais no ano inteiro de 2020, em relação a 2019. Não estou contando, obviamente, estes três primeiros nefastos meses.

E as vacinas despontaram no horizonte, em meados de 2020. O chanceler fanático e sem experiência, que anos atrás louvara a luta de Dilma contra a ditadura que hoje nega que tenha existido, e que foi indicado pelo Astrólogo da Virgínia, militou para que o Brasil não participasse do consórcio Covax-facility para a aquisição de vacinas, pois não queria fortalecer a OMS, entidade ligada ao “globalismo”, segundo suas crenças. Foram contra a vacina do Butantan, contra qualquer vacina. Era muito pouco tempo para se desenvolver uma, diziam. “E os efeitos colaterais?”, “E por que insistem em negar a cloroquina e a ivermectina?”, “Querem mais mortos?” – diziam. E criaram a falsa questão da obrigatoriedade da vacina, em nome de uma suposta defesa da liberdade, isso quando não havia vacinas suficientes para quem as quisesse.

Aos 48 minutos do segundo tempo, sem vacinas, com a pandemia fugindo mais ainda do controle e novas cepas mais contagiosas surgindo, o governo desesperou. Tentou confiscar até mesmo as seringas de São Paulo. Hoje há alguma vacinação graças à vacina de São Paulo, do Dória, do Butantan. Agora, o presidente e seus asseclas comemoram os números absolutos da vacinação. Não o percentual de população vacinada. Análise dos números muito conveniente. A questão é que se tenta conter ao máximo o avanço de uma doença contagiosa que se iniciou com poucos infectados. Medimos aqui o fracasso do governo pelo número absoluto de mortos. Já no caso da vacinação a meta é vacinar 100% da população. Assim, Israel é um sucesso ao aplicar 9 milhões de vacinas. O Brasil um fracasso por ter vacinado apenas 16 milhões, num mesmo intervalo de tempo. Cada país deve se programar de acordo com sua realidade. Quando perdermos até no quesito "mortos por hectare", os bolsonaristas incluirão os 22 km de Mar Territorial, ao longo de toda nossa costa. Dar-nos-ão uma vantagem em relação ao Paraguai e à Bolívia.

O Brasil, sem vacinas e com altíssima taxa de transmissão, não tem alternativas a não ser adotar medidas restritivas. A doença vai avançando exponencialmente. Já estamos na metade do tabuleiro. Aqueles que criticavam a construção de hospitais de campanha e diziam que estavam vazios, agora perguntam por que foram desativados. Mas a questão não é o número limitado de leitos de UTI. A doença avança a galope. Não é possível criar leitos de UTI no mesmo ritmo. E, ainda assim, não há profissionais da saúde suficientes. O único jeito agora, sem termos vacina, é o isolamento. Bolsonaristas chamam qualquer restrição de “lockdown”. Dizem que ele mata. Mais do que o vírus.

Os bolsonaristas erram feio em absolutamente tudo. Na cloroquina, ivermectina, máscara, número real de mortos, isolamento vertical, vacina, quarentena. Mas não têm vergonha. Como seu líder, não reconhecem qualquer erro. E continuam a apoiar o presidente, a ver nele um paladino do combate à corrupção, um paladino da liberdade, da verdade, do liberalismo econômico, da civilização ocidental, da Justiça, acreditam que a história da rachadinha é intriga da oposição, que a ligação com o Centrão é Realpolitik, que os fins justificam os meios e que, no fim das contas, tudo é válido para se combater o “globalismo” e o “marxismo cultural”.

Já começo a perceber, em várias reses, o discurso de "era uma doença nova", "ninguém sabia muito sobre ela", "o culpado era o coronavírus", para se vacinarem de críticas pela postura insana ao longo do último ano. Tarde demais. Isso poderia ter sido dito em abril, maio do ano passado. Não hoje. Mas, claro, normalmente insistem em velhas mentiras, para vencer pelo cansaço, desestimular mesmo o debate: "Bolsonaro foi impedido de agir pelo STF. O presidente não foi contra as vacinas; queria que fossem antes aprovadas pela Anvisa. OMS falou contra o lockdown. Angela Merkel pediu desculpas pelo lockdown. Este mata mais do que o vírus. Ivermectina é excelente profilático". Há vídeo em que Bolsonaro diz que não compraria a Coronavac nem com aprovação da Anvisa, ele negociou com a Astrazeneca antes da aprovação da Agência e nos mesmos termos que disse serem abusivos na oferta da Pfizer. A OMS disse que lockdown não deveria ser usado como medida primária. Angela Merkel pediu desculpas por cancelar o lockdown da Páscoa, porque não houve tempo hábil para implantá-lo. Bolsonaristas adoram fazer a Brutta Figura!

Bolsonaro deve ser afastado imediatamente do cargo. E depois disso deve ser julgado por assassinato em massa. Deliberado. Os bolsonaristas também são culpados? São aqueles que gritaram “lincha!, lincha!, lincha!" no pogrom. Que convivam com a própria consciência!

14 março 2021

Democracia - resposta a C. Mouro

 Comentando comentários de C. Mouro:


“Estamos vendo o stf respeitar as leis perfeitamente.” (em tom de ironia)


 Para um país ser considerado uma democracia, atualmente, não deve haver apenas a vontade da maioria. Deve haver princípios pétreos universalmente aceitos e não passíveis de serem alterados pelo voto. Um país em que é possível que 51% da população vote uma lei que autorize a escravidão dos demais 49% não é considerado uma democracia. Mas, claro, nada impede que se crie uma “democracia” comunista, com sovietes e outros conselhos populares decidindo inclusive por marchas forçadas de povos, e outras atrocidades.

 

 O STF agir desrespeitando as leis, num inquérito em que é vítima, investigador, advogado de acusação e juiz, é a prova de que nesta democracia há uma falha grave nos “checks and balances”. Era para o Senado colocar um freio no STF. Na verdade, no início da legislatura atual havia uma grande onda, respaldada pela sociedade, para se promover impeachment de ministro do Supremo e para ser instalada a tal CPI da Lava-Toga. Mas isto não prosperou depois que Toffoli suspendeu todas as investigações baseadas em dados obtidos do COAF sem autorização judicial – o que beneficiava o Willy Wonka, o 01, e outros culpados de peculato, no eufemismo no diminutivo chamado de “rachadinha”. A famiglia presidencial conseguiu sufocar todos os movimentos do Senado contra o STF. Este ficou mais forte, com menos freios, mais confiante, menos democrático – do jeito talvez que o nobre Mouro goste. Vivemos, assim, numa quase “undecarquia” – um governo de onze monarcas.

 

Não endeuso a democracia. Não acho que seja o melhor regime para qualquer país. Ela não funcionaria em muitos países árabes nos quais uma Irmandade Islâmica pode subir democraticamente para depois implantar uma teocracia e perseguir rivais, minorias. Como no Iraque. Americanos impõem a democracia. A maioria xiita ganha as eleições, extingue o exército sunita de Saddam, e uma força militar desempregada como essa acaba virando o Estado Islâmico – grosseiramente foi isso. Em casos assim, o melhor é um governo que garanta pela força que haja algum respeito a algumas cláusulas pétreas comuns a outras democracias. Nos Emirados Árabes: Talvez uma democracia teria feito com que o país fosse vítima da maldição do petróleo, a commodity sob cuja fronde nada nasce. E na China? Talvez fosse um perigo, um bilhão e meio de pessoas em debates democráticos, grupos separatistas... Apesar de hoje haver por lá algum respeito a contratos, cidadãos poderem sair do país se quiserem, haver uma certa liberdade - desde que não se faça oposição ao regime ditatorial -, apesar disso, acho que seria melhor que lá houvesse mais liberdade, inclusive a possibilidade de se colocar alguém ruim, mentiroso, pelo voto, desde que isso não implicasse guerras intestinas, conflitos, miséria, milhões de mortes.  A democracia é quase um luxo para poucos.

 

Quanta destruição a democracia não evitou na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial? Em quase oitenta anos? Já houve um período assim antes, na Europa? Acho que nunca houve uma guerra entre duas grandes nações democráticas. Malvinas, por exemplo, foi entre a democracia inglesa e a ditadura argentina. Na História teríamos, talvez, a Guerra do Peloponeso, a Segunda Guerra Púnica (Cartago era então uma democracia oligárquica), a guerra hispano-americana no século XIX e pequenos conflitos no século XX, como a Guerra dos Seis Dias, uma vez que Líbano e Israel eram democracias.


" ...a democracia é o Paraíso lá no futuro sem data. Exatamente igual qq Paraíso prometido ou profetizado: a cenoura na ponta da vara amarrada ao corpo do cavalo."

 

A democracia é muitas vezes implantada a partir de uma tirania, de uma ditadura, muitas vezes com a permissão do ditador, por sua vontade. Ou é implantada com um golpe, uma revolução – os quais não são nem um pouco democráticos.
E muitas ditaduras nascem na democracia, muitas vezes com o apoio do povo. Já era um pouco assim no mundo antigo, onde havia democracia direta. Lemos em “A Cidade Antiga”, de Fustel de  Coulanges, que devido a constantes guerras e a morte de nobres e de soldados, acabavam por armar as classes inferiores. Estas acabavam implementando a democracia. A democracia acabava degenerando num populismo, o populismo na tirania, a tirania era combatida por aristocratas exilados, que depois implantavam uma aristocracia, uma plutocracia que despertava inveja no povo, que queria democracia, etc. Mais recentemente, houve uma espécie de democracia monárquica por mais de mil anos em Veneza – a República Sereníssima. Napoleão pôs fim a ela; ele, um revolucionário contra o Ancient Regime... Há lugares em que talvez jamais haverá democracia. Há lugares em que é natural que haja. Há lugares em que ela vai e depois volta. Nela não se vende um fim, um ponto ideal de perfeição, para se justificar os torpes meios, como acontece em regimes como o comunista. Todos sabemos que ela é frágil e imperfeita, fruto de longas conquistas, pode desvanecer-se a qualquer momento. Ela tem suas vantagens e desvantagens. E ela tem que evoluir. Deve haver isonomia na Justiça, a representatividade pode variar, pode ser por colégios eleitorais, voto distrital misto, pode ser parlamentarismo, semipresidencialismo, etc.

 

“A Venezuela é absolutamente democrática e Maduro, tanto qto Chaves, foi eleito.”

 

Sim. E a Síria de Hafez Al Assad também era democrática. Estive lá em 1992. A votação era “sim” ou “não” para ele continuar no poder. Ganhou com 99,9% dos votos... rsrs

Quem ousa afirmar que a Venezuela não é uma ditadura porque Chávez subiu democraticamente e até porque, vá lá, o povo em algum momento votou para continuar sendo governado por um tirano, o qual dissolve parlamento, prende juízes, muda a Constituição? Isso é uma democracia? Se 51% do povo desejarem tirar Maduro no próximo pleito, isso será possível? Não? Então não é uma democracia.

 

“Sob Pinochet havia mais liberdade para a população do que atualmente as democracias européias(...)”

“NOS USA a fraude foi gritante(...)”

"As FARC na Colombia mataram mais de 50 mil pessoas. Viraram concorrentes politicos defendidas pelos mesmos que queriam punição aos corruptos milicos que mataram e terroristas."


A lista de burrices, autoritarismos, injustiças na democracia é grande.

Mas se começarmos a listar o que foi feito em regimes nada democráticos como os de Mao, Stalin, Fidel, Pinochet, Hitler, Franco, Salazar, etc., a lista será 1000 vezes maior. Entrando no mérito de um de seus exemplos: O Bolsonaro disse que tinha provas da fraude nos EUA. Mas não as apresentou. E disse que tinha provas da fraude nas eleições de 2018 no Brasil, mas nunca as apresentou. As alegações de fraude por lá não se sustentam. E eu achando que nunca havia visto nada mais ridículo do que democratas chorando e esperneando após a vitória de Trump em 2016... Mas Trump e seus seguidores conseguiram superá-los no ridículo. E que povinho aquele que invadiu o Congresso... hahaha... uma caterva de imbecis!

 

 Sobre as sanções internacionais e danos ao governo totalitário, não foi minha intenção afirmar que isso sempre ocorre. Claro que quando falamos de potências econômicas e militares violando Direitos Humanos, há rugidos inócuos da ONU, denúncias impotentes de outras democracias, etc. Mas há um consenso de que em uma democracia há temas não passíveis de serem votados, como, por exemplo, se um grupo étnico deve ou não ser exterminado em Campos de Concentração.

 

“A democracia não só pode defenestrar os maus, mas também os bons.”

 

Sim. A democracia pode elevar bons e maus ao poder. E pode defenestrar maus e bons. Só o poder de defenestrar os maus já vale. Se tal poder não existe, não se está em uma democracia. Simples assim. E é mais difícil se livrar de ditadores. É o caso da Venezuela, uma democracia para petistas, psolistas e para o C. Mouro. rsrs

 

“Numa ditadura pode haver mais liberdade para a população do que numa democracia.”



Sim. Alguém que fuma inveteradamente pode viver mais do que alguém que cuida muito da saúde. E daí? Eu mesmo escrevi que leis justas podem ser promulgadas numa ditadura, e leis injustas numa democracia. O fato de poder haver, eventualmente, mais liberdade em uma ditadura, não quer dizer que a ditadura seja o regime mais propício à liberdade das gentes.



“Aburdo que digam que a democracia defende as minorias, quando POR DEFINIÇÃO a democracia é exatamente a IMPOSIÇÃO DA VONTADE DA MAIORIA. Não cabendo qualquer direito as minorias eleitoralmente derrotadas.”

 

Os americanos elegeram Bush, Obama, Trump e agora Biden. Lula saiu com 90% de aprovação. Bem grosseiramente, na melhor das hipóteses 4/5 dos que votaram no Bolsonaro já foram lulistas em algum momento. Muitas vezes as “minorias eleitoralmente derrotadas” foram maioria eleitoral poucos anos antes. Os petistas derrotados em 1994 tiveram direito de fruir das vantagens do Plano Real. Um partido derrotado por uma margem pequena de votos ganha, numa democracia, o poder de ser uma forte e livre oposição. Obstrui pautas, força negociações, pode ganhar força para o próximo pleito.

 

“Porém um elito com 74 mil votos, seu voto no congresso tem o mesmo valor de um eleito com mais de um milhão de votos.”

 

Sim. Acho que nossa democracia deve evoluir muito. Parlamentarismo, voto distrital misto. De fato, a baixa representatividade do eleitor paulista em relação ao acreano é um absurdo.

20 fevereiro 2021

Abusus Non Tollit Usum

 


O termo “abusus non tollit usum” aplica-se a quase tudo nesta vida, às redes sociais, ao instituto da delação premiada, à democracia, à liberdade de imprensa e de expressão, à ingestão de bebida alcoólica, ao uso de faca de cozinha, à imunidade parlamentar, ao uso de automóveis. Aplica-se também no combate à pandemia. Desvios de recursos para respiradores, superfaturamentos, lockdowns malfeitos, nada disso é, obviamente, motivo para não combatê-la com todas as armas de que dispomos. No caso dos automóveis, é consenso que o fato de haver quem dirija embriagado, participe de rachas, durma ao volante, mexa em celular enquanto conduz o veículo, não deve ser motivo para se reduzir a velocidade máxima permitida para 10 km/h, ou para a limitação drástica do número de carros nas estradas. Ainda que saibamos que todo ano dezenas de milhares morrerão em acidentes; velhos, adultos e crianças. É importante sim que haja pardais, pistas duplicadas, sinalização adequada, blitz, campanhas de conscientização, airbags, cintos de segurança. Não se deve simplesmente proibir as pessoas de andar de carro, para se evitar mortes.


No vídeo deste post, Rodrigo Constantino compara os mortos pelo coronavírus aos mortos em acidentes de carro. Segundo ele, não devemos momentaneamente fechar o comércio não essencial e dizer às pessoas para ficarem em casa, nem que seja apenas em locais onde a pandemia ganha terreno, onde o vírus se espalha de modo descontrolado. Se não agimos assim em relação aos carros, por que o excesso de zelo em relação à pandemia de coronavírus? Sabemos que, em ambos os casos, dezenas de milhares morrerão. Temos que continuar a andar de carro, ainda que muitos morram. Temos que continuar a viver normalmente, ainda que muitos morram após se contaminarem pelo vírus. Simples assim.


Haver quem faça metáforas desonestas, comparações obtusas, analogias inconvenientes, não deve servir como proibição à retórica e ao uso de figuras de linguagem. Falácias de uns não depõem contra o uso da lógica. Pensamento asnático não depõe contra o uso do cérebro. Mas denunciemos os abusos.


Grosso modo, sabemos que umas 30 mil pessoas morrerão todos os anos no trânsito, no Brasil – número que pode ser reduzido, claro; o sistema de saúde está mais ou menos adaptado ao grande contingente de hospitalizados, afinal os acidentes de trânsito não aumentam exponencialmente, por contágio. Mas quantas teriam morrido na pandemia se tivéssemos apenas levado a vida normalmente, no máximo com isolamento vertical aliado ao uso de máscara e álcool gel? Quantas estariam vivas se tivéssemos feito muitas testagens aliadas a fortes quarentenas localizadas, onde a doença estivesse se disseminando mais? Quantas estariam vivas se tivesse havido união nacional em torno ao problema, enfrentamento ao invés de negação? Quanto está “bom”? 50 mil mortes? 200 mil? Como saberemos quando a contagem cessará? E se for no 1 milhão? E se for mais? É a vida? O sistema de saúde estará preparado? Bebês prematuros morrerão sem oxigênio, pessoas morrerão nas calçadas por falta de atendimento, seus corpos irão para aterros sanitários? Para quem nega que haja um problema, se o número de mortos for baixo tem-se a prova de que tudo foi alarmismo. Se for alto, tem-se a prova de que nada do que foi feito adiantou. Se o confinamento começa a fazer efeito, quem é contra aponta seu sucesso como prova de que não era necessário. E se ainda por cima a economia vai mal, tem-se a prova de que a medida desnecessária causou muitos males econômicos, além de ter atentado contra a liberdade de ir e vir. Ignora-se o cenário hipotético, já que não se dispõe de dados históricos e o exemplo internacional não importa, uma vez que os líderes mundiais ou não são tão inteligentes quanto o Guilherme Fiuza ou estão a serviço de uma causa oculta que quer o lockdown para que a economia seja destruída, sabe-se lá a troco de quê. Suicídio de lemingue, talvez.


Se fizéssemos uma comparação entre as mortes no trânsito e aquelas causadas pelo coronavírus, o cenário deveria ser bem diferente. Imaginemos que todos os carros em circulação têm um pequeno computador de bordo. Um vírus no sistema faz com que um carro acelere ou freie de repente, gire abruptamente o volante. Esse vírus digital é transmitido, para outro carro distante poucos metros, por Bluetooth, estando ele ligado ou não. O aumento dos carros infectados passa a ser exponencial. E, proporcionalmente, o número de mortes. Os hospitais estão lotados, pessoas com câncer e pneumonia morrem por falta de atendimento. Logicamente, passaremos a evitar engarrafamentos, estimularemos o uso de bicicletas, reduziremos os carros nas ruas, tentaremos implantar o home office, tudo isso até acharmos uma solução definitiva para o problema. O problema com os carros seria temporário, portanto, como o que enfrentamos com o coronavírus. Esta é uma comparação mais adequada.


O amor-próprio, o amor ao trabalho e à família têm também seus abusos. Encontraremos sempre aqueles que desligam o bom senso e o pensamento lógico de outrora em troca da pecúnia ou do cacife profissional que no fim das contas a fará fluir para seus bolsos. Depois não os conseguem mais ligar, tamanho é o estrago que aquilo, pensado para ser temporário, causa permanentemente no espírito. E ficam presos a posturas pregressas, sempre passíveis de serem evocadas na internet por adversários ávidos por acusá-los de incoerentes e vendidos; não mudarão para não dar armas a seus detratores. Assim, o melhor a fazer é escolher a “realidade” em que se quer viver e pronto. O importante é se ater a ela. Outras “realidades” devem ser negadas veementemente. Até mesmo a realidade, sem aspas, aquela que não está nem aí para o que dizem dela.

Eis um caso de “abusus non tollit usum”. Que haja comentaristas políticos internet afora. Mas que seus abusos sejam denunciados.

08 fevereiro 2021

MÍDIA-LIXO

A Mídia-Lixo - doravante designada "ML" - deve, logicamente, ser comparada ao lixo convencional. Este pode ser objetos descartados ainda apropriados para uso, como sofás e cadeiras velhos, objetos cujas partes podem eventualmente ser reaproveitadas, como eletrodomésticos avariados, itens facilmente recicláveis, como latas de alumínio, caixas de papelão, sacos plásticos, garrafas, e também rejeitos orgânicos, os quais podem servir como adubo e até mesmo biogás. E há a Mídia-Resíduo-Hospitalar-Tóxico - doravante designada "MRHT" -, que deve ser comparada aos expurgos contaminados raramente recicláveis, incluindo o ameaçador Césio 137, neste caso quando, raríssimas vezes, têm alguma cor e brilho próprio. 

A ML é aquela que não pode alterar seu Nome Fantasia, do qual depende para viver, e é por isso que até hoje responde perante a opinião pública por posições políticas adotadas 50 anos atrás, é aquela cujos jornalistas são de carne e osso, que tem algo a perder e por isso não pode dar tantas largas a seu viés político-ideológico, sob risco de perder credibilidade, é aquela que pode dar muita ênfase a um lado da história, jogar holofotes sobre opiniões fruto do oportunismo ou de julgamento tendencioso, mas é obrigada a se retratar quando necessário, a citar a defesa dos acusados e réus, ao menos para dar impressão de confiabilidade, já que pretende manter seu Nome Fantasia por mais outras tantas décadas.

A ML é uma hidra de umas poucas cabeças com nome e sobrenome. Uma conquista da Civilização, é um monstro cujos tumores são dificilmente extirpáveis sem um remédio pior do que a doença. Já a MRHT é fruto de um grande efeito colateral da tecnologia, capaz de amplificar ad surditas zumbidos de pernilongos, roçar de pernas de carrapato e empódios de ácaros, e o sorver de varejeiras. Não há inseticidas disponíveis para combater seus excessos, e estes são sua essência; aqui, o câncer é o próprio sujeito; são miríades de microcéfalos em displicente trabalho involuntário de alastrar a contaminação. Cada um, quando decepado, faz eclodir um sem-número de ovinhos, sementes para cabecinhas mais ousadas, mais mendazes, mais tóxicas. Se não são combatidas, multiplicam-se de igual modo, sofrem mutações e se adaptam aos ambientes mais hostis.

A ML é citada como fonte pela MRHT, muitas vezes falsamente, para auferir credibilidade a alguma leitura oportunista que faz dos fatos, para dar peso a alguma opinião. Citar outra cabecinha não convence. E há, claro, algumas delas que são confundidas como parte da ML por transitarem na larga fronteira entre esta mídia e a outra. Através dos tempos, a ML sempre gerou desempregados, aposentadorias forçadas, ostracismo. Mas não hoje. Invariavelmente, o expurgo profissional que produz, incluindo rejeitos senis, empresta seu nome, currículo, cãs e rosto manjado para a MRHT, a qual precisa desesperadamente de alguma credibilidade semelhante à da ML. E assim nos deparamos às vezes com algum aparelho de raio-x abandonado contendo Césio 137, brilhante como purpurina, tão Lixo-hospitalar quanto pedaços descartados de um intestino extirpado, tomado por uma superbactéria. Mas muito mais perigoso.

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Caiu-me em mãos, recentemente, “O Bem e o Mal”, do português Camilo Castelo Branco. Quase não abro romances desde que saí da adolescência, mas achei que a leitura poderia ser mais leve e adequada a uns dias de férias que tirei com a família na praia do que páginas de Nietzsche ou Tocqueville.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Deparei-me com o seguinte trecho, em nosso belo idioma em sua versão oitocentista portuguesa:


A Vedeta da Liberdade, jornal portuense, publicou uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em grypho: que um estudante militar, appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, insultára. E accrescentava: O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costellas quebradas.

O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.

Casimiro leu a correspondencia em voz alta.

E Ladislau perguntou:

—Que é isso?

—É uma gazeta—disse o vigario.

—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.

—Sim.

—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?

—Isso que, meu irmão?

—Como se estampam esses insultos?

—Estampam-se.

—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?

—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.

Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:

—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!

Casimiro sorriu, e disse:

—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.



Roma: Estátua de II Pasquino, do séc. III a.C.

 

 O ódio à Mídia-Lixo é uma característica do extremismo à direita e à esquerda. É uma característica da barbárie, não da civilização.

27 setembro 2020

De Horácio para Constantino

Quintus Horatius Flaccus  nasceu 337 anos antes de Constantino, o Grande, o unificador do Império Romano, e 2041 anos antes do Pequeno Constantino, o Grande Passapanista, que tentou unificar a direita brasileira com o livro Panaceia, seu worst seller menos vendido, por meio do qual tentou debalde fazer as pazes com o desafeto que cunhou o apelido "Cocô Instantâneo", que, segundo o próprio homenageado, é sua alcunha preferida. Não obstante as distâncias temporal, intelectual e moral que o separam de Horácio, este lhe escreveu umas linhas, involuntariamente:

"Como há de voltar mais forte à peleja o soldado remido a peso de ouro? À vergonha acrescentareis o dano. A lã, tinta de púrpura, não pode readquirir a cor antiga, nem o verdadeiro valor, uma vez perdido, refazer-se em aviltados peitos. Será mais forte aquele que se entregou ao pérfido inimigo, como reagirá a corça escapa às redes do caçador.* Como rebaterá em outra luta os golpes do inimigo quem já provou nos torcidos braços os grilhões do cativeiro? Por isso, não sabendo como proteger a vida, confunde a guerra com a paz."

* apenas reproduzo a tradução de Leopoldo Pereira.

08 abril 2019

Olavo de Carvalho: Analfabeto Funcional




Olavo confunde tudo quando acusa o Gen. Mourão de contradição e confusão.
O Regime Militar não foi democrático, ainda que em determinado momento houvesse pluripartidarismo com eleições diretas para governador e senador.

Mas o regime foi Legal. Quase nunca o Legal é plenamente justo. Muitas vezes é completamente injusto.Uma lei democrática pode ser injusta e uma feita por um déspota pode ser justa. O contrário é o mais comum, logicamente. Mourão não disse que o Regime Militar foi ilegal. E quando disse "Fui eleito e Geisel não", aí fica subentendido o Sufrágio Universal, não uma eleição presidencial indireta na qual os candidatos são indicados por um Regime Autoritário.
Ao colocar como uma vantagem a democracia que o elegeu como vice de Bolsonaro, não está "achincalhando" o "regime de cujo prestígio ele se beneficiou para ser eleito". Os próprios militares fizeram a transição para a democracia, por ser melhor. Simples assim, como diria a Bettina.

Olavo reconhece que Mourão foi eleito. Mas beneficiou-se mesmo do prestígio do Regime Militar? E quanto ao forte repúdio ao PT? E quanto ao voto útil dos que em princípio queriam Amoêdo, Alckmin, Álvaro Dias, mas acabaram por votar em Paulo Guedes? Este foi "mais eleito" do que o Mourão. Se o governo não apoiar Paulo Guedes, comete Estelionato Eleitoral.

Mourão não tinha por que se comparar a um vice, uma vez que na pergunta do repórter em Harvard a comparação era entre ele, Mourão, e Geisel. Perguntemos ao Olavo: "Quem é mais honesto: você ou Sarkozy?". Tanto faz a resposta. Nossa tréplica será "Você tinha que se comparar a um astrólogo, não a um presidente, ainda por cima francês".
As orelhas de jumento aparecem, às vezes mais às vezes menos, por baixo da pele de glorioso leão.




25 outubro 2016

Abbott & Cortella: Stand-up Philosophers

A filosofia já esteve perante um sol nascente siciliano, com Pitágoras; sob um pórtico pintado, com o estoico Zenão; sentada em um banquete, com o socrático Sócrates; num barril, com o cínico Diógenes; caminhando, com o estagirita peripatético; e agora, com os patéticos Karnal e Cortella, de pé com um microfone na mão.

Não inventaram a modalidade. O primeiro stand-up philosopher aparece em A História do Mundo, de Mel Brooks. A filosofia stand-up moderna incorporou traços do Bobo da Corte a entreter sua pequena audiência, de Tartufo, do otimista leibniziano Pangloss, do médico Hermes (Zadig), de Falstaff, Polônio e outros pomposos sacos de vento (pompous windbags) shakespereanos, de Dale Carnegie e seus subprodutos. Nos seus ingredientes vemos também consultas a dicionário etimológico – tal palavra não tem o significado corrente mas aquele do radical grego -, apropriação de memes internéticos anônimos, citações do Pensador UOL, piadinhas anônimas de Whatsapp, cadernos de filosofia escolar, conhecimentos científicos, econômicos, geográficos, históricos e artísticos superficiais, muitas datas e muitos nomes, principalmente em alemão, anedotas, frases de efeito, trocadilhos, críticas a conceitos como esquerda e direita, aos exageros da tecnologia. Acrescente um falar pomposo e peculiar que beire o ridículo, e voilá: teremos Abbott (Karnal) e Cortella, os maiores filósofos brasileiros vivos. Às vezes dão shows como “Os Três Filósofos”, quando a eles se junta Felipe Pondé, uma figura respeitável, na minha opinião. Com ressalvas, obviamente. E com Clóvis de Barros, para quem "a moral é aquilo que você não faria de jeito nenhum" e ética é "como devemos agir no sentido de não prejudicar muito a convivência do grupo ao qual pertencemos", fazem a cabeça dos jovens, segundo a revista IstoÉ.

E há o filósofo de Varginha, ou o ET da Virgínia. Um Brancaleone com sua armata de olavetes em busca de Aurocastro, o reino que tomará das garras da Nova Ordem Mundial. Não faz um stand-up mas um sit-down. Os ingredientes incluem tom profético, apelos à autoridade, falácias diversas, rampas escorregadias, palavrões, especialmente aqueles relacionados ao ânus, desqualificação de adversários por não terem lido certo livro que é imprescindível para qualquer aspirante a estudante de filosofia, e muitos outros já descritos na categoria anterior.

A seguir, Cortella e Karnal falam sobre Ética. Cortella:




Cortella: “Ética é o conjunto de valores e princípios que você e eu usamos para decidir as três grandes questões da vida, que são “quero, devo, posso”. Isso é ética. Quais são os princípios que eu uso? Tem coisa que eu quero mas não devo, tem coisa que eu devo mas não posso, tem coisa que eu posso mas não quero. Quando que você tem paz de espírito? Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.”


De acordo com o Pai dos Burros, Ética é a parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral. E o Conjunto de regras de conduta.

As três grandes questões da vida não são “quero, devo, posso”, e tampouco as costumeiras "de onde viemos", "para onde vamos" ou "existem deuses", uma vez que ela simplesmente não tem questões, evidentemente. Nós fazemos as indagações, as quais variam ao sabor dos tempos, dos povos e dos indivíduos. Quanto mais medíocres são os primeiros, mais ignaros os segundos e mais se é um pomposo saco de vento, mais estúpidas provavelmente serão suas "grandes questões". No caso de Cortella, uma delas é questionar-se acerca de ele próprio querer ou não querer algo. Já deve ter se cagado nas calças várias vezes. 

Ética não envolve eu querer ou não querer algo, eu poder (ser capaz) ou não poder algo. Apenas se devo ou não devo. Ou melhor: se devo, apenas, uma vez que sempre podemos trocar os verbos: “Devo preservar animais do sofrimento desnecessário” é mais ou menos o mesmo que “não devo impor aos animais sofrimento desnecessário”.

Por fim, Ética não tem nada a ver com você ter paz de espírito. O facínora pode cometer os piores crimes e estes não lhe tirarem o sono. Heróis podem perdê-lo diante de um dilema atroz. 

E agora Karnal:






Etienne de la Boétie escreveu um texto, um discurso sobre a Servidão Voluntária, não “um livro”. A peça, realmente preciosa e lapidar, dá pouco mais de 20 páginas.

Amizade não é o tema da obra, mas La Boétie de fato diz que “Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apoiam-se uns aos outros mas temem-se reciprocramente. Não são amigos, são cúmplices”.

Então refere-se a maus praticando juntos a crueldade, a deslealdade, a injustiça. É mais do que comum pessoas más terem amigos verdadeiros que não sabem de suas ações, ou sabem mas não se envolvem, ou que tentam mudar seu comportamento. O sujeito acima de qualquer suspeita pode ser um celerado que mantém no porão a menina raptada. Outro tem escravos, caça raposas e bate na mulher, mas vai à guerra pelo país e daria a vida por um amigo. Karnal erra feio ao afirmar que só pessoas éticas têm amigos. E é muita presunção dizer “a ideia não é nem minha nem de Aristóteles”. A “fama” de fato lhe subiu à cachola. No seu caso, a mente brilhante se deve aos cabelos que desertaram de sua cabeça.

É de um asnático simplismo seu teste “eficaz e infalível” para descobrir se estamos diante de um amigo: Falar com entusiasmo do próprio sucesso e prestar atenção na sua reação.

Por isso tantos Iagos ganharam a confiança de tantos Otellos, desde que os homens aprenderam a simular. E o teste parte do umbigo, está no singular. Desejo, com ele, confirmar se fulano é MEU amigo. Somos falíveis, ora pois. Não é raro, em sólidas amizades, o sorriso amarelo daquele que, perante o imenso sucesso exposto pelo outro, se confronta momentaneamente com a própria incapacidade de ter chegado lá. Mas se não for algo que almeje – o amigo conta exultante que finalmente chegou a chefe dos escoteiros -, muito dificilmente não dará os parabéns com entusiasmo proporcional àquele com que a notícia lhe foi dada. Se formos muito exigentes com nosso "humano demasiado humano" amigo, acabaremos trocando-o por um cachorro. Cabe à parte plena de sucesso, infelizmente, não alardeá-lo mui estrepitosamente perante os infelizes e inseguros. Que conversem sobre política, futebol, mulheres, filosofia, que debatam as grandes "questões da vida" - inclusive as do Cortella -, que lembrem dos velhos tempos. Pois amigos, no fundo, são aqueles que gostam de se encontrar, de conversar, de beber, aqueles cuja opinião interessa, que na amizade investem pensamento, tempo, energia, cujas "almas" se atraem, pela afinidade, pela curiosidade. São aqueles que já dividiram um quilo de sal, como se diz. Que têm um passado comum, envolto naquela aura de confiança e esperança comuns à juventude. Ou que percebem, após cinco minutos de uma primeira conversa, que já são amigos e o serão enquanto puderem. Tudo isso sem viadagem, obviamente.

Mas se ele AINDA for petista, depois de tudo, depois do Mensalão e do Petrolão, se usar a palavra "Golpe", aí complica... Deve haver algum grau de admiração mútua, poxa...

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Foram dois pequenos trechos. Grãos de areia no Saara. Karnal e Cortella abundam, na internet, em palestras, debates, entrevistas, aulas, discursos. Apesar das informações enciclopédicas, igualmente interessantes se lidas na Barsa, os disparates fluem ininterruptamente, dia e noite, em novos vídeos. Já atingiram a sabedoria há algum tempo. Não precisam e não têm mais tempo de ler, de estudar, de refletir - exceto a careca de Karnal -, agora só falam e suas equipes escrevem (isto é palpite).

E como se não bastasse, sob a lanosa pele de isenção com que se apresentam percebemos sempre a ponta da cauda peluda de seu esquerdismo rançoso (pleonasmo).

21 maio 2014

Leitura sobre a mesa-redonda: Cidades Transnacionais

Segundo Marcelo Teixeira, doutorando em sociologia pela UnB, obras grandiosas assinadas por arquitetos como Zaha Hadid são verdadeiras máscaras de modernidade criadas para ditaduras se justificarem perante o mundo civilizado. "Urbanismo Transnacional" é como chama o processo de criação de cidades espetaculares que abrigam a arquitetura do espetáculo. Critica o fato de tais cidades serem todas parecidas, talvez como Cesareia e Palmira se assemelhavam a Roma, e de abrigarem obras de grande visibilidade e que superam limites técnicos, quem sabe como o Farol de Alexandria e o Colosso de Rodes, e, mais recentemente, a Torre Eiffel.

Ele organizou com Lucas Brasil uma mesa-redonda, na UnB, intitulada "Urbanismo Transnacional: Ásia, África, Brasília - Que conexões haveriam entre Dubai, Brasília, Singapura e Kinshasa?", da qual participaram importantes catedráticos cujos currículos, se enfileirados, dariam várias voltas ao redor da Terra. Na plateia havia alguns professores de arquitetura e funcionários de órgãos licenciadores e de planejamento urbano de Brasília, estudantes e arquitetos. A mesa-redonda foi sua tentativa de popularizar a teoria de que "o comprometimento com o neoliberalismo, em tese, traria mais legitimidade a regimes autoritários frente a uma comunidade internacional pós-Consenso de Washington" - nas suas palavras -, que corporações multinacionais de construção civil e investimentos imobiliários constroem destrambelhadamente cidades mundo afora, com apoio de bancos e governos, como estratégia "de acumulação de capital em curto prazo", e que o planejamento urbano, sob tais atores, "privatiza-se e pulveriza-se crescentemente, reduzindo poderes municipais e cidadãos em definir os rumos de suas cidades, cada vez mais decididos além das fronteiras nacionais e inseridos na 'racionalidade neoliberal' e pró-mercado". Neoliberal deve significar "qualidade daquilo que é atual, 'neo', e está em harmonia com o pensamento de Smith, Mises e Friedman", ou um mero sinônimo de "Satanás". A fina flor da arquitetura mundial, como Norman Foster e Daniel Libeskind, seria o selo-modernidade de que os governos e corporações imobiliárias necessitariam para dar à determinada cidade um status global, como ocorreu com a ditadura de Bilbau, na Espanha, que se perpetuou no poder após contratar Frank Gehry para o projeto-espetáculo do museu Guggenheim.

Destarte, na sua tese, os governos ditatoriais, controladores e centralizadores por definição, pulverizam os poderes de seu país em definir o rumo de suas cidades, mesmo as criadas "ex nihilo", do nada, usam o urbanismo transnacional para mascararem o caráter plenipotenciário de suas ditaduras, onde tudo pertence ao estado há décadas, como na China, privatizando o país em nome de uma "racionalidade neoliberal". É o fortalecimento do Estado mediante o enfraquecimento do Estado, em prol da iniciativa privada, algo até hoje impensável. E assim nunca mais veremos a beleza daquelas centenas de milhões de camponeses famintos na China pós-Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. E o modelo agora chega à África, preocupa-se Teixeira, e as corporações imobiliárias construirão, no lugar das ocas graciosas e modestas em cuja proximidade se podia expor a poética magreza humana em fotos preto e brancas de engajados como Sebastião Salgado, odiosos arranha-céus de vidro cingidos por lagos contornados por tamareiras, idênticos aos de Singapura, Xangai, e Dubai. A tese culmina no alerta de que, via GDF, a sombra desse grupo sem rosto acerca-se de Brasília, apesar de ela não ter relevância econômica mundial, de o Brasil ter impostos acachapantes e infraestrutura precária suficientes para afugentar os mais vorazes tubarões neoliberais sem a ajuda dos Urbanistas por Brasília e de outros heróis locais. Ele acredita que o crescimento urbano é causa, não consequência. Por isso há cidades fantasmas na China. Para ele, metrópoles modernas como Singapura não fizeram primeiro uma revolução econômica e educacional, priorizando o comércio exterior, para só então terem um desenvolvimento urbano. O reboque empurra o carro para onde o motorista não deseja ir, enquanto sabemos que, na realidade, este conduz o automóvel atrelado ao qual está o reboque. Mas fora com a "racionalidade neoliberal", não?

A China foi uma ditadura comunista por mais de 50 anos. A abertura econômica gerou mais liberdade e riqueza, e desde 1980, a população urbana ganhou 700 milhões de pessoas e hoje já é mais de metade do país. As cidades precisaram crescer a toque de caixa. Cidades ditas fantasmas, como Ordos, na verdade passam um tempo subocupadas porque recebem os migrantes aos poucos, quando estes têm condições de comprar as residências, ainda que com subsídios, e equipá-las com vasos, luminárias e outros itens domésticos essenciais. Para o doutorando, a China apenas copia o modelo de Singapura. Cria cidades do nada, amplia cidades de poucas centenas de milhares de habitantes para monstros urbanos de dezenas de milhões de pessoas, as quais, para ele, devem brotar do barro. Ao contrário do que crê Teixeira, a abertura comercial obrigou paulatinamente o governo a sacralizar contratos e a aumentar a transparência de suas próprias ações. A abertura é o começo do fim da ditadura chinesa, não uma tentativa desesperada de mantê-la.

Em muitos países árabes há ditadura. Nos países ricos em petróleo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, há ditadura e riqueza, e esta, aliada à localização geográfica entre Ocidente e Oriente, possibilita a transformação de cidades em pólos de serviços onde há baixos impostos alfandegários e tributação, e as ajuda a voltarem a ser a escala entre um canto e outro do planeta, a voltarem a realizar a vocação de entreposto comercial, de grande caravançará que tiveram nos tempos áureos. Mas, para Marcelo Teixeira, estas ditaduras não poderiam mais se sustentar sem uma tal máscara neoliberal, apesar de terem se mantido sem ela por décadas, como a da Coréia do Norte, de Cuba, Síria e de tantos outros países.

Dubai, shopping e residenciais Medinah Jumeirah: "idêntico" a Singapura


Quanto à descaracterização urbana, a cidade de Dubai, por exemplo, tal qual a conhecemos, foi criada sobre a areia. Não obstante seu caráter "transnacional", lá é corrente o uso de torres de captação de vento, típicas da região, há shoppings com aspecto de "suqs" (mercados persas), elementos estéticos árabes, mocárabes em mesquitas, azulejos, jardins internos e fontes, tapetes, tamareiras, generoso uso de pedras da região, arabescos, microcidades árabes dentro da cidade, e a preocupação cada vez maior em criar edifícios e cidades sustentáveis. Brasília, como as já citadas Cesareia e Palmira em relação a Roma, também seguiu cânones internacionais da época em que foi criada, mais precisamente da Carta de Atenas. Os panos de vidro do Congresso Nacional e dos ministérios são inadequados ao nosso clima, há uma nítida priorização do carro em relação aos pedestres, a estética não tem traços comuns à arquitetura tradicional brasileira, apesar dos esforços quase teológicos dos catedráticos em dar ao modernismo de Niemeyer uma inspiração barroco-colonial.

Após a exposição do tema a ser debatido, projetou em um telão os vídeos promocionais das cidades de urbanismo transnacional e, em determinado momento, proferiu um imparcial "vejam que absurdo". E então tiveram início os discursos dos integrantes da mesa. O primeiro não largou o microfone por quase uma hora, disse que todas grandes cidades são réplicas uma das outras, para a elite sempre se sentir em casa. Assim, segundo ele, um executivo sai do aeroporto, vai para o hotel, deste para o museu e para o restaurante no shopping. Os dois primeiros são iguais aos do resto do mundo, no museu, segundo ele, se vê as mesmas obras vistas no resto do mundo - quem viu um Tiziano viu todos, deve imaginar -, e, por fim, no restaurante se come comida chinesa, italiana, japonesa, como no resto do mundo. E o doutor concluiu que, enquanto isso, a classe trabalhadora sofre nas favelas e cortiços para manter essa elite transnacional. É óbvio! E Steve Jobs não deve ter ficado multibilionário porque o mundo inteiro desejava seus produtos Apple, mas porque ele explorava, no início, uma ou duas centenas de funcionários na Califórnia e, posteriormente, algumas dezenas de milhares ao redor do mundo, sendo a mais-valia de cada um dos vendedores, faxineiros e montadores de aparelhos estimada em milhões de dólares. Os demais debatedores, com uma honrosa exceção, seguiram a mesma linha. Ao menos até o ponto em que assisti.

O ar do anfiteatro estava viciado, quente, porque o ar-condicionado neoliberal não fora ligado pelos grevistas, o que acabou por compor bem o cenário de falta de arejamento intelectual do meio acadêmico brasileiro, umbilicalmente ligado ao esquerdismo mais ressentido, antes por hábito do que por reflexão.

As universidades públicas brasileiras são pesadas barcaças sem leme, há décadas distantes da terra firme, nas quais o alimento disponível é o marxismo vencido, o que explica o escorbuto ideológico que acomete a pobre tripulação.

Talvez passar um tempo em Singapura aumente a vitamina C no organismo...

06 abril 2014

Se houvesse democracia no Brasil do século XIX

Texto mui levemente adaptado de comentário anônimo em A democracia é uma M*, atribuído ao misterioso C. Mouro:

Se no século XVIII e XIX houvesse democracia como a que se pratica, sobretudo no Brasil, até hoje haveria escravidão dos negros.

Os escravos poderiam votar, mas os candidatos seriam escolhidos pelas cúpulas partidárias. Para se formar um partido teria-se que ser senhor de engenho com apoio de certa porcentagem da população, e tudo deveria ser conferido pelos mandantes vigentes: os brancos altamente beneficiados pela escravidão democrática dos negros.

Tudo que dissessem os escravocratas moderados - sim, porque abolicionistas jamais conseguiriam criar partidos - contra os escravocratas seria considerado ofensivo pelo TRE e assim haveria multas e proibição de uso do tempo pelos moderados.

As verbas e tempo de propaganda, mesmo que os brancos escravocratas se dissessem igualitários, seriam muitíssimo maiores para os grandes partidos escravocratas, que facilmente, através de seus filiados e quadrilheiros, criariam inúmeros partidos escravocratas para comporem apoio aos grandes e se beneficiarem de ainda mais verbas e tempo de propaganda.

Brancos receberiam promessas de vantagens com a escravidão dos negros, alguns negros seriam privilegiados como feitores, haveria regras partidárias com boa estratégia para inibir novidades e favorecer o de sempre, toda a apuração das urnas ficaria sob a tutela dos senhores de engenho.

Assim (salvo talvez por pressão externa - eu, Catellius, observo), se houvesse democracia nos seculos XVIII e XIX, até hoje os negros seriam escravos de brancos, e mesmo de alguns negros, e tudo na forma democrática e popular tão defendida por pavões que invocam a rota bandeira da democracia para abafar a bandeira da liberdade. A velha confusão de palavras, a manipulação semântica tão utilizada pela política.

Depois de a palavra "igualdade" ser exigida entre indivíduos perante as leis, sem hierarquia social e privilégios, imediatamente usaram a mesma palavra "igualdade" mas com o sentido de igualdade material, a fim de confundir e manter a diferença entre os indivíduos. Assim, igualdade já não correspondia à ausência de privilégios legais para indivíduos numa sociedade hierarquizada, mas exatamente ao oposto: indivíduos com privilégios de ação e imunidades legais ilegítimas, sob pretexto de imporem uma igualdade material - injusta, com o mérito desprezado.

Para se combater clamores pela liberdade, confunde-se esta com democracia, como se fossem sinônimos. Ninguém mais defende a liberdade, mas apenas a democracia para eleger os Senhores da Sociedade, os quais sobre esta impõem suas vontades, caprichos, subjetividades e, sobretudo, impõem o custeio de seus luxos e manias à sociedade que trabalha e produz.

Enfim, os senhores democraticamente eleitos criam as regras democráticas que permitem que as mudanças só aconteçam para que tudo permaneça o mesmo.

16 setembro 2013

Que mérito há?

Baal, um exemplo de deus de pedra
Jesus disse, conforme se lê em Mateus 5, 47: “Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?” É aquele tão famoso quanto nocivo e antinatural "amai vossos inimigos", que, por ser impraticável, é útil para produzir pecadores, muitos dos quais submeter-se-ão de rastros aos administradores da salvação, os representantes de Deus na Terra.

Elencarei os meus “que mérito há”, ressalvando, com palavras de José Ingenieros, que “as verdades gerais não são irreverentes; deixam entreaberta uma frincha, por onde escapam as exceções particulares”.

Antes gostaria de assinalar a diferença entre mérito e aptidão, mérito e qualidades dele independentes. Exemplos: parti do zero e hoje tenho 100 milhões de reais, menos portanto do que alguém que herdou 200 milhões e nunca trabalhou. Determinado romano conhecia mais do latim, em todas suas nuances, do que um PhD nesse idioma, nos dias de hoje. Este tem mais méritos do que aquele, que poderia ser um retardado mental de toga. Já a palavra "meritocracia" relaciona-se a "aptidão"; talvez fosse etimologicamente apropriado usar "meliocracia". Mas agora que o termo já existe, fiquemos com ele.

Que mérito há em ser bom, puro, quando se é criança e não se tem mais maldade que um bichinho irracional qualquer? Mérito há em ser bom quando se conhece o mal e se é capaz de praticá-lo, de preferência sem prejuízo imediato para si. Todos facínoras foram crianças puras. Quantas crianças puras serão adultos probos? Adão e Eva só passaram a ter mérito em serem bons depois de aceitarem a sugestão da serpente e comerem o fruto proibido.

Que mérito há em gostar de uma sinfonia de Schubert, da Carmen de Bizet? Isso lá demanda empenho, sabedoria, denota nobreza? Pessoas muito menos distintas que cachorras de baile funk já se deleitaram, no século XIX, com Verdi e Rossini. Mérito há em ter composto suas óperas, em saber executar a parte de um instrumento, ao menos em ser um grande connoisseur. Julgo que haja demérito em não se apreciar Beethoven, em não conhecer o pensamento de Nietzsche, em ser incapaz de compreender seus livros, ainda que se viesse a divergir de tudo. Entretanto, o demérito de uns não implica em mérito dos outros. Muitos serem desonestos não faz de mim um herói merecedor de medalhas, se apenas cumpro com meu dever. Escrevi um post sobre isso. Saber quem foi Aristóteles, conhecer o que os pináculos de nossa espécie fizeram pela nossa evolução - não darwinianamente falando - é obrigação de homo sapiens. Mas o mérito é de Aristóteles, não de quem o compreendeu. Poderão me questionar: "então posso afirmar que é nosso dever ser bom. Demérito há em ser mau". Discernir o bem do mal, ser justo, nem sempre é fácil. É necessário empenho constante, que se medite, filosofe, que se arque com eventuais prejuízos imediatos. Não furtar é obrigação.

Que mérito há em ser humilde quando não se tem do que se orgulhar? Muitas vezes o sábio, que poderia jactar-se de seus conhecimentos, descortina a infinitésima parte de um universo diante do qual se sente um grão de areia, daí adota uma postura humilde. Não perante os homens; é-o para si mesmo e para o universo. Como Sócrates, diz "só sei que nada sei". Há o humilde como mero sinônimo de pobre, que pode ser orgulhoso, cheio de brios. Se tem um amigo bem de vida e seu fausto o incomoda - ainda que não o admita -, aguarda uma brincadeira inocente do amigo, um pretexto qualquer para, mui ofendido, mostrar que é pobre, mas tem honra e dignidade, e então priva-o de sua companhia. E há o que se humilha para ser exaltado, porque a humildade passou a ser um valor em si, desde que a moral do escravo (cristianismo) passou a viger.

Que mérito há em perdoar quando não se pode retaliar? Hoje perdoa-se como terapia, para não se intoxicar com a bílis corrosiva da revolta, para não se prejudicar o sono, para se tirar um fardo das costas e voltar a viver. Portanto, pela própria saúde, perdoa-se os poderosos que nos prejudicaram e que estão acima do bem e do mal, os facínoras foragidos ou mortos. Há aqueles que perdoam sem pensar no próprio bem-estar, por boa índole, ou por cacoete cristão, talvez contraído por obediência contumaz ou pela promessa dos galardões celestiais - a inatingível cenoura suspensa diante de seus olhos. E, por fim, há aqueles que querem e podem retaliar, mas perdoam magnanimamente, talvez com uma pitada de desprezo. Ter a oportunidade para retaliar impunemente talvez já funcione como a própria desforra, não?

Que mérito há em fazer caridade sem ela representar algum tipo de sacrifício, se é feita com o dinheiro alheio, ainda mais quando o efeito colateral é o proselitismo religioso ou o político-partidário, no caso de esmolas estatais? A liberalidade com o dinheiro de outrem é fácil, principalmente quando temos nossos altos custos missionários pagos por ele. Mérito há em doar do próprio bolso. O generoso, como o herói, desfaz-se de algo que é seu e de que necessita, em prol de outros. Aristóteles já defendia a propriedade privada porque, entre outras razões, as pessoas somente podem ser generosas se têm algo para dar.

Não há mérito em ser casto quando não se é mais atormentado por hormônios sexuais. Muitos velhos que já aproveitaram sua juventude, agora enfastiados, meio amargurados pela morte cada vez mais próxima, ressentem-se da juventude, do sexo, da vida desfrutada inconsequentemente por seres imaturos de pele viçosa, cheios de energia e de paixões. O velho preconiza veementemente que cuidem do espírito, que não incorram nos erros que ele próprio cometeu. Ora, maior é o mérito do jovem bonito casado torturado pelos próprios hormônios, sem medo de represálias divinas, em terra estrangeira e sem testemunhas, assediado pelo belo sexo, e que mesmo assim mantém o contrato de monogamia com a esposa. Se a ama muito e não pensa em mais ninguém, o mérito diminui um pouco. Poderão me questionar: "não disseste que o demérito de uns não implica no mérito de outros?". Sim, mas são outros quinhentos quando a carne tiraniza... Enfim, se o sujeito é feio, não é assediado, tem medo do inferno, não é vítima dos próprios hormônios, não vejo muito mérito em sua castidade. Que mérito há no único homem de uma ilha não ter querelas com outros seres humanos? É evidente que a velhice suscita mil méritos, pelo cenário de decadência física e consequentes provações, pela tendência ao pessimismo e à casmurrice. Montaigne produzir aqueles profundos, deliciosos e otimistas ensaios sob as atrozes dores de parto de suas pedras nos rins aumenta, definitivamente, seu mérito em tê-los escrito.

Que mérito há em ser ateu quando se tem saúde e dinheiro? Não existe ateu em aviões caindo, dizem. Muito pelo contrário. Quando eu voltava do Japão, o avião sofreu uma violenta turbulência. Olhei para os lados e reparei nas expressões dos passageiros. Praticamente todos estavam de olhos fechados e balbuciavam orações. Fiquei com vontade de rir e minha esposa censurou-me com um empurrão, com medo de que eu gargalhasse. O voo normalizou e todos devem ter agradecido a Deus pela graça alcançada, porque certamente o avião teria caído se ninguém tivesse rezado. Eu, por meu turno, confio nas estatísticas. Voltando, o mérito em ser ateu pode ser menor, mas não confio tanto no juízo de quem perdeu a frieza de raciocínio, cultivada nos tempos em que pensava livre de ameaças e de medos, por temor da morte.

Logo após o jejum de quarenta dias e quarenta noites, superado pelo carioca Erikson Leif, que ficou comprovadamente 52 dias sem comer, Jesus foi tentado pelo demônio. Que mérito há em rejeitar os reinos terrestres que o diabo oferece quando se é o próprio cocriador de tudo o que existe e de tudo se pode dispor quando bem entender? O C. Mouro bem disse: "É como alguém querer subornar o filho do Bill Gates oferecendo-lhe uma cópia pirata do Windows 95".

Que mérito há em realizar profecias como "entrar em Jerusalém montado num jumentinho", quando é tão fácil roubar um para cumpri-las? Para aqueles "lírios do campo", difícil seria trabalhar para conquistar o próprio meio de transporte, isso sim. Ok, Jesus ordenou aos discípulos que, se o dono dos animais reclamasse, lhe dissessem que necessitava da jumenta e do jumentinho e que sem demora os devolveria.

Que mérito há em dar a vida pela humanidade sabendo que se ressuscitará no terceiro dia? O herói que dá a própria vida ou que a arrisca por outros que não conhece – sacrificar-se pelos familiares demanda menos heroísmo – sabe que a terá perdido irremediavelmente, com todos os encantos que pode proporcionar. Quantos não pulariam do alto de penhascos se soubessem que voltariam a viver depois de 36 horas? Creio que haveria parques de diversões “radicais” onde viciados em adrenalina morreriam em acidentes de avião para sentirem na pele toda a emoção do desastre. Esbaldar-se-iam em uma festa de arromba de lápide, chamada por exemplo de “Ressurrection Rave”, após letargias de 36 horas em sepulcros de luxo como o de José de Arimatéia, amigo de Jesus que lhe emprestou sua tumba com a condição de que a desocupasse em pouco tempo.

Ah, e que mérito há em ter seus erros resgatados por outrem?

Que mérito há em um deus onipotente criar todas as coisas? Deve ter-lhe custado menos que a tartaruga ganhar a corrida da lebre, na fábula de Esopo, dado menos trabalho do que um bezerro recém parido equilibrar-se sobre os cambitos. Além do mais, um ser perfeito não age senão do melhor modo possível, nunca se vê no dilema de escolher entre duas ou mais opções, não precisa de discernimento porque não escolhe, não tem livre-arbítrio; se não o possui, não tem mérito, não é inteligente, é uma engrenagem natural, é como uma pedra. Baal não era de pedra e, não obstante, era deus? Pensando bem, as palavras gravadas no tambor cilíndrico da base da cúpula da Basílica de São Pedro, retiradas de Mateus 16, 18, são bem verdadeiras se as considerarmos direcionadas para Javé: "Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam mean" - Tu és Pedro (pedra) e sobre esta pedra edificarei minha igreja.

No Gênesis, Javé parecia-se mais com um deus vivo. Até mesmo descansou no 7º dia... Na verdade, aquele era o primeiro dia em que o homem criava deus, e este era ainda mal acabado, recém saído do barro. Cometia erros e arrependia-se. De moral torta, afogava crianças em dilúvios, sua onisciência e onipresença não estavam plenas e ele precisava perguntar às criaturas o que faziam, descer de seu trono para ver de perto a torre construída em Babel, era ciumento, iracundo. Hoje, no sexto dia da criação, seus atributos presentes retroagiram e ele sempre foi um onipotente, onisciente, onipresente e bondoso deus cristão panteísta zen-budista, que salvará até mesmo os ateus malvados, porque não sabem o que fazem e portanto devem ser perdoados, como pediu Jesus enquanto estava pregado na cruz - pregado mas divinamente anestesiado, imagino.

Concluo este post com uma última pergunta retórica, sob a premissa, claro, de que somos regidos por um deus capaz de tomar decisões: Se devemos amar os inimigos, porque não há mérito em amar os que nos amam, que mérito há em salvar apenas os crentes bondosos? Qualquer deus é capaz disso. Mérito há em destinar ao paraíso ateus irônicos que se riem das sagradas histórias da carochinha contadas por aqui desde que passamos a ter medo da morte...
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