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19 março 2013

Papa Paco VIº

"Toda unanimidade é burra" é obviamente uma frase de efeito, porque se todos concordassem com Nelson Rodrigues seria então burrice acreditar que a unanimidade é burra. O mesmo vale para "toda regra tem exceção". Então deve haver uma exceção para esta regra, ou seja, uma regra sem exceção?

O Papa Francisco é praticamente uma unanimidade, como Lula quando foi eleito pela primeira vez presidente. Falar mal do eneadáctilo foi, até o Mensalão, um pecado imperdoável. A imprensa venera este Papa. É um oximórico argentino humilde - e o demonstra publicamente* -, foi genial ao escolher o nome "Francisco" (ou seja: Paco, nos países hispânicos), é mais bonito do que Bento XVI, o primeiro Papa a sair vivo do cargo em 600 anos, a quem agora estão proibidos as sapatilhas vermelhas e o camauro, espera-se que ele faça uma limpa na Igreja Católica e coloque em seu devido lugar o maligno Cardeal de Richelieu, digo, Bertone. Comentemos algumas de suas frases recentes, em negrito e entre aspas:


“Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético.“

A Igreja endossou no Concílio de Viena a posição de São Tomás de Aquino, de que a alma só era inoculada no feto quando este tivesse forma humana. Não havia impedimentos para que o Espírito Santo inspirasse os altos dignitários de 1311 a afirmar o mesmo que Bergoglio, uma vez que desde o homem-macaco sabe-se que aquilo que avoluma o ventre materno invariavelmente se torna um ser humano, se o processo não for interrompido, natural ou deliberadamente. Esta constatação óbvia depende dos avanços científicos?

Na verdade, o aborto passou a se tornar pecado, em qualquer estágio de desenvolvimento do feto, apenas em 1869, após um acordo entre o papa Pio IX e o imperador Napoleão III. A baixa natalidade na França atrapalhava os planos de industrialização do governante francês.

Desde a democracia moderna e o fim dos monarcas investidos de poder divino, a relação entre governantes e religiosos passou a ter um intermediário: o povo. A consciência deste passou a ter um preço alto, e desde então os primeiros muitas vezes dependem dos segundos. Mantendo-se no centro de discussões polêmicas, muitas vezes em contradição com asserções passadas - o Espírito Santo também muda de opinião -, apelando a valores que tenta fazer crer que inventou, a Igreja Católica passa a ser peça importante no jogo democrático de dezenas de países. Assim, o último estado teocrático da Europa apita desavergonhadamente nas questões internas dos países onde sua faceta religiosa conta com prosélitos, porque, camaleônico, é estado e igreja. Núncios são recebidos mundo afora como embaixadores de um estado europeu, para tratarem sobre questões religiosas. Para os governantes, é um excelente atalho. Ao invés de lidarem com 50 milhões de consciências, acertam tudo com seis ou sete procuradores destas. Os líderes evangélicos aprenderam bem tal mecanismo, o aperfeiçoaram, e seu arrojo torna o serviço ainda mais fácil para os políticos.


“Não pretendo fazer proselitismo — eu as respeito (pessoas ateias) e me mostro como sou (...) Não diria que um ateu está condenado porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar sua honestidade — sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas.”

Conseguiu matar dois versículos do Capítulo 16 de São Marcos com uma única tolice politicamente correta:

Marcos 16:
15: E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.
16: Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.

Após a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II (link), Jesus deixou de ser o único caminho. Vale agora até adorar Baal, porque se está tateando por uma divindade nas sombras, e este impulso de adoração já basta àquele mesmo deus ciumento do Velho Testamento. Afirmar que não pretende fazer proselitismo quando se encontra com ateus diz muito sobre o novo Papa. É como ouvir às vésperas de eleições um candidato dizer que não quer convencer ninguém a votar nele. Mas esta é justamente a tática proselitista de conquistar prosélitos entre os que odeiam proselitismo.


“Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem com o transcendente."

Envolver-se com o transcendente é, porventura, invadir o terreno da metafísica? Se esta dimensão - seja lá o que for - fosse falseável, seria do campo científico. Se detectarmos sistematicamente almas saindo de pessoas recém falecidas, a metafísica não ganhará força; o mundo natural é que terá adquirido uma nova dimensão.

Há outro problema. O milagre envolve intervenção do transcendente no físico e é peça fundamental na religião. Esta depende, de certo modo, da ciência, e sem milagres é apenas "fé cega", conforme lemos no catecismo católico:

"...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'".(§156)

É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais frequentes em locais de baixo IDH. Ademais, deveria haver um milagre incontestável por habitante, uma vez que a mera narração de um prodígio volta a demandar confiança, "fé cega".


“O que não é bom é o laicismo militante, aquele que toma uma posição antitranscendental ou exige que o religioso não saia da sacristia.”

O laicista militante é tão nefasto quanto o republicano militante, o democrata militante. Não conheço laicistas que tentam impedir padres de opinar sobre quaisquer assuntos. Reclama-se de financiamento público para visitas de religiosos, para festas religiosas, reclama-se de símbolos religiosos em repartições públicas. O laicismo existe no papel, assim como a probidade administrativa. Milita-se pela aplicação daquilo que já está previsto em lei.


“Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilômetro quadrado.”

Ah, sei. O país criado por Mussolini. A Igreja possui 20% dos imóveis da Itália. E trilhões de euros em imóveis ao redor do mundo. A Igreja não possui mais nada.


“Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre.”

Digamos que, em determinado país, criaturas de hábito - padres, freiras e monges - constituam 0,1% da população (na verdade, esta é a porcentagem italiana, a maior proporção de padres e religiosos em relação à população, entre todos países) mas sejam responsáveis por 7% dos abusos documentados a menores. A chance de encontrar um pedófilo entre padres seria, portanto, 70 vezes maior do que entre os não padres, não? Estas porcentagens não são fictícias. São aproximações a partir de dados oficiais da Irlanda. E estou levando em consideração apenas a população adulta.

A porcentagem de padres pedófilos na Irlanda chegou a 10%. Não há nenhuma outra profissão que atinja tal marca. Algumas estimativas chegam a uma chance 200 vezes maior de um padre católico ser pedófilo do que uma pessoa normal, não padre (link).

Por terem desvios sexuais, muitos procuram a batina, talvez até inconscientemente, porque o sacerdócio é um bom álibi social. Não precisam casar, serem vistos com uma mulher, muitos pais baixam a guarda quando lhes confiam os próprios filhos, para tardes de catequese, como coroinhas, cantores, noites em acampamentos. Creio que os crimes contra crianças praticados por sacerdotes se devam, muitas vezes, ao fato de ser mais fácil ameaçá-las e calá-las. A profissão exige celibato e extrema retidão moral. Não é bom arriscar com amantes adultos, que um dia poderão dar com a língua nos dentes, não? Todos padres que abusam sexualmente de menores cometeriam os mesmos crimes fora da igreja? Ou seriam pedófilos não criminosos – aqueles que não consumam suas preferências sexuais, apenas sentem atração por crianças? Bispos e cardeais acobertaram crimes de pedófilos, para protegerem sua instituição. É difícil acreditar que acobertariam crimes por aí, de vizinhos ou de colegas de trabalho. Denunciariam às autoridades ainda que anonimamente. Os crimes de acobertamento por parte de superiores são o terreno fértil para germinarem os crimes dos padrecos.

THE SAVI REPORT - Sexual Abuse and Violence in Ireland

Vejamos os EUA, por exemplo: Leiam The Nature and Scope of the Problem of Sexual Abuse of Minors by Priests and Deacons - Relatório comissionado pela “Conference of Catholic Bishops”(link).

E imaginemos como era antigamente, quando a Igreja não era obrigada a se reportar à justiça comum. Como era a situação nos internatos e orfanatos conduzidos pela Igreja? E nos seminários, onde os aspirantes entravam com 7, 8 anos? E nas paróquias?

O Papa Francisco ou é safado ou pacóvio. Fico com a segunda opção, apesar de parecer que se aproveita do senso comum entre os fiéis católicos, de que são casos isolados os de pedofilia clerical e que a mídia é que faz estardalhaço, para jogar insidiosamente os dados de que 70% dos abusos são cometidos por familiares e vizinhos. Ora, se 0,1% dos crimes de pedofilia fossem cometidos por padres, o problema não seria alarmante, uma vez que estaria, bem ou mal, em harmonia com a proporção de religiosos em relação à população geral. Mas não é isto o que se percebe.


Sobre homossexuais e casamento gay: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Aqui o Papa Paco se iguala ao Silas Malafaia e ao Pastor Feliciano, com a diferença de ser incensado pela mídia, enquanto estes são execrados. A cada dia que passa vem sendo corroborada a tese de que o homossexualismo tem forte peso genético. O Silas Malafaia expôs os dados corretamente no De Frente com Gabi mas os analisou do modo estúpido que se espera de um pastor homofóbico: em várias pesquisas com milhares de gêmeos univitelinos separados no nascimento houve concordância na orientação sexual em aproximadamente 52% dos homossexuais. O Silas afirmou, então, que, se fosse genético deveria ser 100%. Ora, se não houvesse influência genética os números deveriam respeitar a porcentagem de homossexuais em relação à população, de 4 a 8% (link).

O que o pastor não levou em conta foram os genes alelos e também gatilhos ambientais. Porcentagens semelhantes foram encontradas ao se analisar em gêmeos a incidência de esquizofrenia, por exemplo, comprovadamente genética.

Assim, o Papa Paco VIº (pacóvio) faz do demônio co-criador do homem, uma vez que parte de suas características genéticas vem do Coisa-Ruim. Se o homossexualismo é natural, e também é natural a união civil entre seres humanos que têm um projeto comum de vida, e o Papa vê nisto "jogada" do Pai da Mentira (Deus mente e a Serpente diz a verdade aos sem-umbigo, no Gênesis, mas fiquemos com a versão oficial), então não consigo enxergar a coisa de modo diverso. Deus é nosso pai. Satã também. Teria sido a primeira união homossexual da história?

Casamento gay é uma ameaça à família, aos planos de Deus? E os adultos que jamais se casam? E quanto aos padres celibatários? Celibato é natural? É genético, como o homossexualismo? E o problema da superpopulação? Ela está nos planos de Deus? Quanto à questão moral, o que dois adultos fazem consensualmente entre quatro paredes não me diz respeito. Por que os religiosos se importam tanto com isso? Um grupo de pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade da Georgia, nos EUA, realizou um estudo em que se verificou que homens homofóbicos ficam excitados quando assistem à pornografia gay (link).

E aí chegamos a um ponto interessante: Qual é a porcentagem de padres gays? Segundo várias estimativas, está na faixa de 30% (link). Tomemos um exemplo: se na Irlanda a porcentagem de padres pedófilos já é maior do que a de gays na população geral, e a esmagadora maioria dos crimes de pedofilia é contra meninos, imagina-se que a porcentagem de homossexuais seja muito maior entre padres católicos do que na população como um todo.


Cristina Botox kirchner, a bruxa peronista, está acabando de afundar a Argentina com seu populismo irresponsável, seu desejo de exterminar a imprensa livre e a oposição, a la Chávez, enquanto sua família enriquece, e por isso simpatizantes liberais do Papa, como o Reinaldo Azevedo, veem a inimizade entre os dois como mais um sinal de que o pontífice é sensato. Ora, ela se deve, principalmente, a divergências em temas como o casamento gay, aprovado na Argentina em 2010. Parecem estar em harmonia no resto.

Ou seja, na estupidez.

Em 2012, Bergoglio disse que as Malvinas "pertencem à Argentina". Disse que as ilhas foram usurpadas pelos britânicos. Não é preciso dizer que a escolha do Papa não foi bem recebida no Reino Unido, não pela sua nacionalidade mas pelas suas declarações enquanto cardeal.

Após o almoço que o Papa teve com Cristina, esta disse: “(…) O papa me falou da Pátria Grande, da América Latina e do papel que estão cumprindo os diferentes governantes da América Latina. Disse que era formidável o que estavam fazendo esses governantes, trabalhando unidos para a Pátria Grande — empregou esse termo, o que definitivamente me comoveu. Era o termo que empregavam San Martín e Bolívar”.

O Cardeal Bergoglio disse, no final de 2011, que (link):

"A crise econômico-social e o conseguinte aumento da pobreza tem suas causas em políticas inspiradas em formas de neoliberalismo que consideram as ganâncias e as leis de mercado como parâmetros absolutos em detrimento da dignidade das pessoas e dos povos. Neste contexto, reiteramos a convicção de que a perda de sentido de justiça e a falta de respeito pelos demais pioraram e nos levaram a uma situação de iniquidade".

Depois falou em "igualdade de oportunidades" dos danos das "transferências de capital ao estrangeiro", em "distribuição da riqueza", etc.

A riqueza não é um processo de soma zero, como creem os socialistas. Steve Jobs não ficou bilionário explorando uma centena de trabalhadores na Califórnia, mas despertando o desejo da população terrena por seus aparelhinhos Apple. A riqueza pode ser criada, multiplicada, e a história demonstra que quanto mais os países têm mercado livre, baixa intervenção estatal e regras claras, menor a pobreza.

A demonização do mercado e dos imperialistas, a utilização de termos como "neoliberalismo", a defesa da tal "igualdade de oportunidades" (sabemos que inexiste na própria família, por uma série de motivos) o traem, a ponta da orelha peluda aparece por baixo do solidéu branquinho:

É mais um perfeito idiota latino-americano.

Glórias ao Papa Paco VIº, o Pacóvio!


*Acho ótimo que preparasse a própria comida e andasse de transporte público enquanto arcebispo de Buenos Aires. Já acho que muitas demonstrações de humildade como Papa ofendem o antecessor e servem para que seja exaltado a todo instante. Vejamos a rainha Elizabeth II da Inglaterra: passa uma humildade desafetada, sem "São Francisco" e outros ranços piedosos. Nenhuma coroa que usa é sua. Nenhuma joia sairá da realeza. Ela própria é quase uma peça do Madame Tussauds ambulante, que mal fala, uma exposição itinerante de indumentária real. Humilde é o príncipe Charles, que poderia exibir-se com espécimes femininos muito mais vistosos que Camila, Duquesa da Cornualha, mas ama esta górgona e a assume publicamente.
Exibir-se humilde na Basílica de São Pedro é engraçado. Que transfira provisoriamente a sede do papado para alguma tenda nos jardins do Vaticano, então, ou extramuros. As sapatilhas vermelhas são ridículas, claro, assim como as sotainas enfeitadas. Usá-las é que é sinal de humildade...

Créditos:
Carlos Esperança: "1º Papa a sair vivo do cargo em 600 anos"
Orlando Tambosi: "Bruxa peronista"
Janer Cristaldo: Informou-me que "Papa Paco" é como Bergoglio é chamado na Argentina.

15 março 2013

Habemus Papam Franciscum

Conheci um ou dois religiosos que tinham horror do cardeal Ratzinger e da forma como ele enquadrou o pessoal da Teologia da Libertação. O Leonardo Boff não aguentou o castigo e pediu para sair, como diria o capitão Nascimento. Pessoalmente, acredito que Ratzinger deixou um grande legado para a Igreja ao rejeitar o marxismo inerente à doutrina da Teologia da Libertação em sua atuação como Inquisidor Mor.

O marxismo é uma teoria que surge no contexto da filosofia alemã e da economia inglesa e nada tem a ver com a religiosidade semita que deu origem ao cristianismo. De fato, como disse o atual papa Francisco, sem a crença em Cristo Salvador a Igreja não passa de uma ONG piedosa. Portanto, diferente do que pensam os rahnerianos, a salvação não vem dos pobres nem o cristianismo é imanente à luta contra a desigualdade. Acho que com isto a Igreja está superando a sua crise de identidade e se assumindo como um corpo de fiéis unidos na crença em Jesus que morreu pelos pecados daqueles que acreditam nele.

Agora com Francisco chega ao papado o primeiro jesuíta da história. A Ordem Jesuíta é uma ordem fundada por um militar espanhol meio delirante e sem muito amor à vida que foi gravemente ferido em uma batalha. Na convalescênça dos ferimentos leu a Vida de Santos e enfrentou febres e delírios que teriam matado a maioria das pessoas. Recuperado, decidiu dedicar suas energias não mais às glórias em batalhas, mas à imitação de Cristo.

Fez longas peregrinações e reflexões que aparentemente o levaram a um estado qualquer de clareza mental que acabaram o tornando um grande pregador do cristianismo. Isto incomodou a Inquisição da época, que exigia uma educação teológica formal para este tipo de pregação e ele acabou tendo que cursar um curso de Teologia no qual curiosamente era considerado um aluno medíocre.

Mais tarde desenvolveu um método que ele chamava de Exercícios Espirituais, a partir da sua própria experiência de conversão. Ele havia percebido que a leitura da Vida de Cristo lhe dava uma sensação de paz, enquanto os pensamentos em torno de glórias em batalhas, embora excitantes, depois se mostravam vazios de algo. A partir daí ele desenvolveu um método que buscava treinar os praticantes na aplicação deste discernimento em suas vidas. A Ordem Jesuíta surge a partir desta prática. Portanto, é natural que o Papa Francisco, um jesuíta, entenda que a piedade e a luta contra a desigualdade no contexto da Igreja Católica sejam consequências de uma prática religiosa.

27 dezembro 2012

Código do Bento

O Papa Bento XVI inaugurou presépio no Vaticano incluindo diversos personagens inexistentes na mais famosa manjedoura da história, entre eles o burro e a vaca.

Conforme o recém lançado livro "A Infância de Jesus", que o pontífice escreveu após mui importantes e exaustivos estudos, orações e a votação do Colégio Cardinalício, esses animais não estavam na manjedoura no momento exato do nascimento de Jesus. Os pastores mantinham as bestas no presépio de dia e as levavam para pastar à noite quando a estrebaria fazia as vezes de hotel para divindades, em anos de recenseamento. O jumento que Maria montou de Nazaré a Belém também foi barrado. A confusão nasceu provavelmente do relato de um pastor, que teria avistado no santo sítio um animal com chifres, mas talvez fosse apenas um comentário relacionado à reputação de Maria, que naqueles tempos ainda não era imaculada. Não se sabe se o verdadeiro pai estava no local, porque não foram avistados nem pombas nem o soldado romano Pantera, famoso em Nazaré por encomendar 20 mesas para o carpinteiro José e de nunca as ter apanhado.

A primeira representação do presépio no Natal foi feita em 1223 por São Francisco de Assis, com personagens vivos. Contudo, devido a cacoete adquirido na juventude, Herr Ratzinger considera, no livro, que a ideia de encher o presépio de animais foi dos judeus, no século VII.

Lemos em Mateus, 2,1: "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.". B16 afirma, no entanto, que os magos vieram da Andaluzia, na Espanha. Como a Bíblia não pode estar errada, historiadores já estão pensando em retirar de Fernão de Magalhães o crédito pela primeira viagem de circunavegação da Terra.

Ainda no mesmo capítulo de Mateus, no versículo 9, lemos: "Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.". Contudo, após assistir a vários documentários do Discovery Channel, B16 chegou à conclusão, também exposta no livro, de que a Estrela de Belém era, na verdade, uma supernova. Contra aqueles que querem enxergar no Papa uma visão por demais materialista do evento, pode-se argumentar que uma supernova ir precedendo magos espanhóis vindos do oriente e parar sobre um estábulo sem animais em Belém é um milagre ainda mais assombroso do que aquele em que até ontem cria a cristandade.

Jesus Diaz, da Gizmodo australiana, disse tudo: Como Dan Brown, o Papa esclarece vários mistérios bíblicos por apenas US$ 13!

08 janeiro 2008

Unidos contra a liberdade

Os muçulmanos da Europa multiplicam-se como ratos e passam o dia com o traseiro voltado para Alá, o mesmo deus de Abraão, e a oca cachimônia para Meca, a usufruir do bem-estar social de que as esquerdas tanto gostam, e com as bênçãos do Papa. O que é realmente prejudicado com o crescente fanatismo bovino dessa desocupada massa de manobra de mulás (sem acento) raivosos?

Segundo a jornalista e escritora italiana Oriana Fallaci, uma das principais críticas do Islã na atualidade (falecida recentemente), a Igreja Católica, apesar de parecer alarmada diante do avanço muçulmano na Europa, dá inestimável apoio econômico e político a fanáticos islâmicos. Padres católicos batalharam arduamente pela implantação de um importante instituto islâmico de Paris, um centro de difusão de ódio ao ocidente, cujo diretor foi preso por estar ligado à Al Qaeda; padres dão abrigo a muçulmanos clandestinos e até financiam a construção de mesquitas.

O principal alvo do ódio islâmico não é o cristianismo. É a liberdade das mulheres, a liberdade sexual, o laicismo, a democracia, o sufrágio universal, os direitos humanos - tudo o que foi conquistado a duras penas nos últimos dois séculos, a despeito da fortíssima oposição dos líderes católicos, que na época gozavam de bastante poder terreno (o único que há). Revelador é o fato de que há grandes comunidades de cristãos na Síria, e em outros países árabes, que vivem em relativa harmonia com muçulmanos (comprovei-o pessoalmente). São atrasados, misóginos e supersticiosos, ao contrário dos europeus. O que mais incomoda os muçulmanos, mais uma vez, não é o cristianismo. A estratégia de alguns líderes católicos, portanto, é deixar que o islamismo faça o serviço sujo contra o laicismo e liberdade europeus, para depois se apresentarem como defensores dos valores ocidentais e ganharem poder em uma Europa cada vez mais acuada e dividida. Socialistas, não por coincidência, tendem a ser posicionar em favor dos muçulmanos em quaisquer questiúnculas. Estão juntos no anti-americanismo, no anti-capitalismo, no anti-consumismo. Falando nisso, quando não há Natal consumista, quando ricos não gastam com o supérfluo o ano inteiro, acaba faltando o essencial na mesa do pobre.

Os católicos, assim como os socialistas, costumam se posicionar ao lado dos palestinos, independentemente da situação. Porque eles também adoram os oprimidos, adoram mendigos em suas escadarias... O Vaticano costuma criticar as represálias de Israel, enquanto é relativamente tolerante com as ameaças dos extremistas palestinos. Faz pronunciamentos padrão, sem qualquer veemência, quando estes demonstram intolerância. O jornal do Papa, o Osservatore Romano, chegou a acusar os israelenses de extermínio! Recentemente, um bispo do Vaticano participou de manifestações contra Israel e em favor dos palestinos e, diante do microfone, (palavras de Oriana Fallaci) deu "graças, em nome de Deus, aos kamikazes que massacram os judeus nas pizzarias e supermercados, além de chamá-los de 'mártires que vão à morte como à uma festa'".

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Reportagem de Tom Heneghan, da Reuters, de dois anos atrás:

Absorvido o impacto dos ataques de 11 de setembro de 2001, alguns cardeais católicos da Europa querem conquistar os muçulmanos como aliados para uma ameaça a ambas religiões — a falta de religiosidade na vida moderna.

Os líderes da Igreja católica, hoje reunidos em Roma para eleger o sucessor do papa João Paulo 2o, expressaram preocupação com o Islã logo depois dos ataques contra Nova York e Washington em 2001, e chegaram a encarar o islamismo como um rival espiritual para o novo pontífice.

Mas agora muitos deles, incluindo vários papáveis, estão reforçando a necessidade de trabalhar com o mundo islâmico, e não contra ele. O islamismo é a segunda maior religião na Europa. Essa união, para eles, seria uma contribuição para a paz.

"Cristãos e muçulmanos que vivem juntos devem tentar se encontrar e dialogar para rebater os rumores de um choque de civilizações", disse recentemente o cardeal de Milão, Dionigi Tettamanzi, pedindo aos italianos que tentem conhecer melhor os muçulmanos.

Para o cardeal de Bruxelas Godfried Danneels, isso é ainda mais necessário por causa da crise da religiosidade. As igrejas se esvaziam cada vez mais na Europa, enquanto as pessoas se voltam para modas espirituais, para o secularismo ou simplesmente adotam a indiferença à fé.

"Só há uma coisa importante na Igreja e no mundo, e é manter viva a idéia de Deus e o caráter espiritual do ser humano e do mundo", afirmou ele na semana passada.

A Europa, reduto do cristianismo, hoje abriga cerca de 15 milhões de muçulmanos, cuja lealdade à crença deixa muitos líderes católicos com inveja. A militância islâmica incluiu o medo e a desconfiança nas relações com essa religião. Mas, para o cardeal de Veneza Angelo Scola, que acaba de lançar uma revista sobre a união entre cristãos e muçulmanos, será na Europa, onde as duas fés se opõem desde as Cruzadas, que ambas vão finalmente se entender.

O próprio papa João Paulo II. incentivou mais relações com o Islã e visitou uma mesquita de Damasco em 2001.

O cardeal de Londres Cormac Murphy-O'Connor acredita que há poucas oportunidades para realizar tal diálogo em países predominantemente muçulmanos, mas disse esperar que as inter-relações no Ocidente "cresçam e façam incursões" nos países islâmicos.

Essa opinião, porém, não é unânime. O cardeal Joseph Ratzinger, o fiscal doutrinário de João Paulo 2o., rejeitou no ano passado a idéia de a Turquia entrar na União Européia*, afirmando que o Islã era uma outra cultura, e que os turcos deveriam se agrupar com os árabes.

"É muito comum na Itália os padres citarem Oriana Fallaci", disse o padre Daniel Madigan, especialista em Islã da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, referindo-se à autora de best-sellers que criticam o Islã e os países árabes.

Para Dalil Boubakeur, chefe do Conselho Muçulmano Francês, que representa a maior comunidade islâmica da Europa, a visão conciliatória está se disseminando. "O Islã e a Igreja viram-se ambos defendendo a fé, o sagrado, as tradições e o respeito pelas estruturas", afirmou.

Ao mesmo tempo que busca mais diálogo, a Igreja tem falado mais abertamente sobre seus problemas com os muçulmanos, como a repressão religiosa em países como a Arábia Saudita
.

* Observação: Logo após a declaração, Ratzinger visitou a Mesquita Azul (imagem que ilustra o post) em Istambul e declarou-se favorável à entrada da Turquia na União Européia. O ardiloso teocrata parece jogar dos dois lados. O que a Europa tem que fazer, de uma vez por todas, é manter as rédeas curtas das lideranças cristãs e sufocar as pretensões islâmicas com leis rígidas, proibir madrassas, expulsar mulás fanáticos, proibir o véu, o abominável som amplificado dos muezins, que perturba a paz, dispersar manifestações contra liberdade de imprensa, contra a democracia, etc.

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Oriana Fallaci: “La Fuerza de la Razón” (indicado pelo Janer Cristaldo)

Esta Iglesia Católica que, con el pretexto del ‘querámonos-bien’, no se limita a ejercer la Industria de la Beneficencia de la que ya he hablado. Es decir, la industria gracias a la cual a los inmigrados musulmanes los recibe cuando desenbarcan, los esconde en sus albergues, les procura asilo político y subsidios estatales, amén de bloquear sus expulsiones u obstaculizarlas… En Francia, por ejemplo, les cede incluso los conventos y las iglesias. Les construye incluso las mezquitas.

(En Clermont-Ferrand fue el proprio obispo Dardel el que cedió a los inmigrados musulmanes la gran capilla de las hermanas de San José, según cuenta Alexandre del Valle. Capilla que ellos transformaron inmediatamente en mezquita. En Asnières-sur-Seine fue la Congregación Católica la que vendió a los inmigrados musulmanes los edificios más bellos, edificios en los que ellos construyeron una mezquita con una Escuela Coránica vecina. En París fueron los sacerdotes Gilles Couvreur y Christian Delorm los que apoyaron la fundación del Instituto Cultural Islámico de Rue Tánger, instituto dirigido por el fundamentalista argelino Larbi Kechat, después arrestado por sus vínculos con Al-Qaeda. En Lyon fue el cardenal Decourtray el que mandó construir la Gran Mezquita…)

Esta Iglesia Católica que, en el fondo, está de acuerdo con el Islam porque los curas se entendien entre ellos. Esta Iglesia Católica sin cuyo imprimatur el Diálogo, perdón, el Monólogo Euro-Árabe no habría podido comenzar ni mantenerse durante ya más de treinta años. Esta Iglesia Católica sin la cual la islamización de Europa, la degeneración de Europa em Eurabia, nunca habría podido verificarse. Esta Iglesia Católica que calla incluso cuando el curcificado es ofendido, humillado, definido como un cadaverito desnudo, retirado de las aulas escolares o arrojado desde las ventanas de los hospitales. Que además calla sobre la poligamia y sobre el repudio y sobre la esclavitud. Porque en Islam la esclavitud no es una infamia que atañe a los tiempos pasados, señores del Vaticano.

17 maio 2007

Adiós Carismáticos?

A viagem de negócios de B16 ao Brasil foi um sucesso na visão de Ana Maria Braga, Louro José, Reinaldo Azevedo e dos jovens que lotaram o Pacaembu para saltitar ao som amplificado do inquisidor a demonizar a peça de látex que possivelmente muitos deles carregavam no bolso, preparados que deviam estar para praticar a castidade que aprenderam no Segue-me. Também foi um sucesso para as beatas, verdadeiras groupies à espera de seu Bono Vox. A saia branca armada por anáguas, as rendas, os anéis, colares, sapatilhas vermelhas, a touquinha forrada de pele de arminho, os carros de luxo, mitras e báculos do séqüito, brasões, bandeiras e o aparato militar para proteger o teocrata das fãs deixaram estas maravilhadas com o poder da divindade da qual ele se diz único representante. Para os não tão entusiasmados, os seguranças de preto ao redor do alienígena davam a impressão de que os Men In Black haviam enfim capturado o Imperador daquela famosa e distante galáxia.

A viagem foi um desastre, contudo, para as raposas de sotainas que esperam ver um Estado laico tornar obrigatório o ensino do catolicismo nas escolas, que sua multinacional não possa ser processada na justiça trabalhista, que suas isenções fiscais sejam consolidadas, que seja transferida ao governo a responsabilidade pela manutenção do patrimônio artístico e arquitetônico católico, que os missionários tenham livre acesso a reservas indígenas e a reservas ecológicas (talvez para catequizarem veados), entre outras propostas indecorosas. "Obrigatório" é uma palavra forte, e os núncios do Papa que diz respeitar a laicidade passaram óleo de peroba na cara e expuseram sua vontade ao governo brasileiro. Otávio Cabral, na revista Veja desta semana, conclui singelamente que pedir não mata ninguém; "o governo brasileiro disse que não adotaria a medida. Ponto final.". É "mais mió" pedir do que roubar...

Mas o verdadeiro êxito da visita será sentido ao longo do tempo: outra brilhante idéia de B16 é tornar sua empresa mais forte por meio de um downsizing. Para os clientes e funcionários mornos e aqueles adeptos do catolicismo à la carte a porta da rua é a serventia da casa. Ele quer fazer crer que a inevitável apostasia de católicos - há décadas uma realidade alarmante para a tesouraria de seu enclave - se dará por estratégia do líder de uma Igreja "que não faz proselitismo", usando suas palavras. As coisas existem ou não existem, acontecem ou não acontecem, por decisão do Papa. Ele já extinguiu com uma canetada o limbo, Pio IX, a grande inspiração para seu combate à modernidade, livrou Maria de um pecado original que de original não tinha nada, já que engravidar de outro antes do casamento é algo mais do que comum, Ratzinger quer fazer crer que a ICAR inventou a família, a paz, a vida, deus e o diabo (estes foram invenções da turma da qual faz parte, é mister reconhecer).

Como se sabe, o downsizing se dará em meio a um fundamentalismo que condena o relativismo - aquela bobagem advinda do Concílio Vaticano II, que ousou chamar os excomungados protestantes de "irmãos separados" e retirar o "pérfidos judeus" do missal da Sexta-feira Santa -, a música dançante ao som de instrumentos ditos profanos, até mesmo a música sacra "operística", cujo expoente máximo é a Missa de Réquiem de Giuseppe Verdi, fundamentalismo este que pretende trazer de volta a missa em latim, para seu anacrônico deus entender melhor as preces, e a separação entre a massa com ovos e a massa sem ovos: mulheres de um lado da Nave, homens de outro.

Será que a pomba jurada de morte por São José, adormecida por quase dois mil anos e recém ressuscitada pelos carismáticos, será expulsa da Igreja Católica juntamente com os elefantinhos e outros animaizinhos que dão glórias a deus ao som dos sapateados de Marcelo Rossi? O artigo 37 da lei de crimes ambientais de nº 9.605 afirma que, se o animal for nocivo às pessoas, ele pode ser sacrificado, desde que sob autorização dos órgãos competentes, que orientarão quanto à forma de abate. Sabemos que os pombos podem transmitir doenças como a toxoplasmose, que pode causar cegueira, aborto - tão combatido pela Igreja - e até a morte, além de histoplasmose, erisipela, salmonelose, candidíase e aspergilose.

A pomba só começou a operar todas as maravilhosas curas, glossolalia e visões proféticas no rebanho católico carismático após os excomungados evangélicos americanos encontrarem uma brecha na lei bíblica - o pentecostes - para inserirem a catarse de seus ritos africanos. Como os cristãos devem analisar os frutos para julgarem a qualidade da árvore - eles para os quais os fins justificam os meios - as cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, seriam boas porque permitiram que a pomba voltasse a agir na cristandade.

A debandada para seitas pentecostais seria radicalmente maior se a Renovação Carismática buscasse o contato com a pomba sem música, glossolalia, profecias, danças e catarses, apenas com as mesuras, incensos e obras polifônicas dos compositores que B16 faz revirar no túmulo cada vez que senta ao piano.

Se ele deseja retornar aos bons tempos de Pio IX, imagino que esteja abrindo mão da Renovação Carismática, filha caçula do Vaticano II, que é composta em grande parte pelos que teriam debandado para os concorrentes se a Igreja nunca tivesse brigado pela clientela.

19 abril 2007

"Santo Subito"

Mais de um bilhão de ouvintes e telespectadores nos quatro cantos da orbe escutaram a voz de deus a bradar “Santo Subito” por meio dos trezentos mil fiéis e curiosos apinhados na Praça de São Pedro que recomendavam aos vermes dos porões da basílica, construída com os dividendos da venda de indulgências, o corpo de Karol Wojtyla, ex-teocrata do único Estado do mundo onde não há partos (embora não seja possível conceber o número de concepções que se deram sob os olhares dos santos de pedra, bronze e têmpera que habitam os aposentos secretos).

“A voz do povo é a voz de deus”, diz o povo, ou seja, deus. Embora seja sabido que um padre polonês e membros da igreja de seu país distribuíram às pessoas os cartazes com o despacho e tenham puxado o coro popular, indicado a deus o que deveria berrar, em nome deste clamor JPII foi beatificado pouco mais de um mês após sua morte, em um discreto atropelo do Código de Direito Canônico vigente.

Para a canonização não será imprescindível procurar por um milagre, uma vez que os advogados eclesiásticos já têm à mão Marie-Simon-Pierre, uma religiosa de 46 anos que assegurou, tremendo dos pés à cabeça de emoção, ter sido curada de maneira inexplicável do mal de Parkinson graças à intercessão de JPII. De maneira inexplicável ou inexplicada? Quando se tem muita fé nos médicos, como é o caso dos religiosos, tão afeitos a ter fé, se os doutures não explicam algo ele passa automaticamente a ser “inexplicável”. Segundo Carlos Esperança, a Igreja Católica se dá ao luxo de esconder milagres provados: "a impunidade do homicídio do chefe da Guarda Suiça, da mulher e de um soldado. O Vaticano atribuiu o assassínio do casal ao último, que se suicidou com a mesma pistola e uma bala de calibre diferente. Milagre!"

Mais de vinte anos antes, deus já se esforçara em transformar JPII em “Santo Subito” através do martírio - o que reduziria sobremaneira a burocracia para sua canonização. Preparou tudo para que o instante glorioso se desse logo após a bem sucedida morte de John Lennon, que o havia ofendido ao dizer que sua banda de rock era mais famosa que seu filho, mas na hora H, em uma grave ingerência celestial, a Senhora de Fátima desviou os projéteis disparados por Ali Agca, os quais acertariam a cabeça do Papa, para outras partes do corpo. Bem que lhe ocorrera desviar totalmente de JPII as balas, mas lembrou-se que ainda não havia um padroeiro para o mal de Parkinson, e assim achou por bem fazer a coisa ao seu modo. Revelaram-me (ao que não acreditar cabe desmenti-lo) que a Virgem de Guadalupe, que no momento do atentado estava em Cancun ajudando um porto-riquenho a vencer uma partida de arremesso de dardos, zombou da pontaria da portuguesa, e desde então as duas não se falam. Nossa Senhora Aparecida, que segundo os preconceituosos entrou para o panteão romano pelo mesmo sistema de cotas que beneficiou São Benedito, tentou ser a mediatrice, mas as duas não lhe deram ouvidos.

Os percalços foram superados. Karol será mais um semideus da religião que é, na verdade, o próprio politeísmo do Império Romano travestido na heresia judaica chamada cristianismo, cuja sede nunca deixou de ser a Cidade Eterna. “Por que semideus?” – pergunta o católico indignado – “O santo é tão somente um exemplo. Se um parente pode rezar por mim, por que um santo não pode fazê-lo?” Ora, ele ganha poderes especiais após a morte, passa a ser onipresente, já que de qualquer canto do universo poderá ser acionado por meio de preces, ainda que feitas de maneiras diversas por um bilhão de pessoas ao mesmo tempo; passa a ser praticamente onisciente, já que desmascara aquele que mente, o que pensa mal de si, terá presciência; e passa a ser quase onipotente, já que os fiéis, cansados da burocracia de terem de pedir por intercessão, pedincham as coisas diretamente ao semideus, sem delongas, chamando-o de poderoso, conferindo-lhe especializações, invocando-o como casamenteiro, protetor de viajantes, de doentes, etc. Se fossem meros intercessores, por que motivo Júpiter, oops, deus deixaria de atender a um pedido de São Paulo - que no Novo Testamento manifestou-se contra o casamento - para que uma beata encontrasse um varão para chamar de seu, mas atenderia o mesmo pedido feito pelo mesmo créu a Santo Antônio, o casamenteiro oficial?

E qual seria a especialidade de Bento XVI, que acabou de entrar na casa dos 80 e já trilha o caminho da santidade, antevista nas conciliadoras palavras da palestra de Regensburg, no legítimo combate ao secularismo? Padroeiro das raposas? Dos criadores de Rottweilers? Padroeiro do justo conclave? O tempo dirá...
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