11 setembro 2008

Algumas coisas para fazer antes do fim do mundo

Janer Cristaldo

- ler a meia centena de livros das últimas viagens, que ainda me esperam em minha cabeceira
- organizar meus baús de cartas, herança daquela distante época em que se escrevia cartas. Se bem que... para quê?
- comprar um leitor de ebooks
- rever uma bugra guarani, que namorei nos dias de Dom Pedrito e que me sussurrava ao ouvido: xemboraihú
- rever uma gaúcha de Porto Alegre que um dia reencontrei no Kungsträdgården, transida de frio, em Estocolmo. E com ela fazer de novo tudo o que fiz naquele dia
- ouvir czardas no Café Central, em Viena
- ouvir violinos ciganos nalgum café de Budapeste
- tomar uma Leffe radieuse no Metropole, em Bruxelas
- uma jarra de cerveja, daquelas de litro, na Hofbräuhaus, em Munique
- um cochinillo no Sobrino de Botín, em Madri, regado por um Marqués de Riscal
- uma andouillette A.A.A.A.A. no Aux Charpentiers, em Paris, com um bom Cahors
- um baba au rhum no Julien, em Paris
- uma île flottante, no Bofinger, em Paris
- rever aquela Carmen filmada pelo Francesco Rosi, com a Julia Migenes
- rever Die Zauberflötte, com a orquestra do Ludwigsburger Festspiele, com Deon van der Walt e Ulrike Sonntag, como Tamino e Pamina
- rever Don Giovanni, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel-título e Otto Edelman como Leporello
- ouvir Chavela Vargas, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete
- subir Toledo a pé
- comer um cordero lechal no Aurélio, em Toledo
- descer Toledo a pé
- beber uma manzanilla no Venencia, em Madri
- degustar outro cochinillo naquela cave medieval do Café de Oriente, também em Madri
- subir de novo Santorini em lombo de mula
- descer Santorini em lombo de mula
- revisitar os vulcões de Lanzarote
- comer um churrasco assado nas lavas dos vulcões de Lanzarote
- rever a árdega peoniana de Skopje, que alegrou meus dias em Paris
- ver de novo um nascer de sol junto ao Tridente, no Assekrem, no Sahara argelino
- ouvir tuaregues contando histórias em torno a uma fogueira no topo da montanha
- beijar mais uma vez uma distante amiga numa meia-noite gélida em Paris, vendo além dos olhos dela a agulha da Notre Dame penetrando a lua em quarto crescente
- rever também aquela sabra baixinha e linda que alegrou meus dias numa travessia do Atlântico
- ver uma aurora boreal
- rever o sol da meia-noite, tomando um vinho naquela noite que não é noite com a Primeira-Namorada, em Tromsø, Noruega
- conhecer Svalbard
- Atacama, que ainda não conheço
- viajar ao México e empinar una copa junto a uma banda mariachi
- cantar canções de corno com os mariachis
- flanar pelas ruas desertas de Veneza, ouvindo o chiado dos sapatos no silêncio da noite
- reencontrar a peoniana na Piazza San Marco, num domingo ensolarado, no Café Florian, com violinos ao fundo
- rever o rancho onde nasci, lá na Linha, hoje tapera
- debruçar-me sobre os pastos e beber água na cacimba frente ao rancho
- abraçar minha professora de francês, dos dias de ginásio, em Dom Pedrito
- uma janta de despedida com o pequeno círculo de amigos que até hoje me acompanham. Discutiríamos a Bíblia, teologia e o apocalipse. Sempre embalados pelo sangue das uvas
- tomar mais um vinho com a Primeira-Namorada no topo do Edifício Itália, enquanto o sol se põe sobre esta São Paulo desvairada
- quando soarem os primeiros sinais do Apocalipse, vou sentar-me nalgum boteco e ler o Qohélet
- não é dado aos que partem voltarem. Se fosse, trocava tudo isto por um dia – um só dia, não mais que um só dia - com minha Baixinha adorada. E mergulharia feliz no buraco negro

29 agosto 2008

Sobre traduções

Janer Cristaldo

Entre os livros que comprei na última viagem está o excelente Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, ensaísta que foi conselheiro cultural da embaixada da França em Israel. São três volumes que estou devorando com avidez: L’Invention du monotheísme, La Loi de Moïse e Sacrifices et interdits alimentaires dans la Bible. Estou concluindo o segundo volume e já lamentando que só resta um para ler. Soler conhece a fundo tanto o Livro como o judaísmo, e os disseca com a precisão de um cirurgião.

Dito isto, citei em crônica passada um trecho do Gênesis: “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”.

Um leitor atento implicou com os deuses, assim no plural. Que em sua Bíblia está “os filhos de Deus”. De fato, nas traduções ao português que tenho em minha biblioteca, assim consta. Tanto na Bíblia de Jerusalém, quanto na edição pastoral publicada pelas Edições Paulinas. Também na editada pelo Centro Bíblico de São Paulo, a partir da versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsons, Bélgica. O mesmo consta de minha bíblia eletrônica, a reputada tradução de João Ferreira de Almeida.

É que usei a tradução proposta por Jean Soler, “les fils des dieux”. Como os judeus têm mais rigor quando se trata da palavra divina, fui consultar a Torá. Lá está: “os filhos dos senhores”. Melhorou um pouco mas não muito. O plural é mantido. Mas que senhores são esses que se opõem aos homens? Mistério profundo. Fui buscar então em minha tradução francesa da Bíblia, editada pela Alliance Biblique Universelle. Lá está: “les habitants du ciel”, também no plural. Mas quem são esses habitantes do céu cujos filhos acharam belas as filhas dos homens? O mistério persiste.

Como não entendo hebreu, prefiro ficar com a tradução proposta por Soler, que conhece hebreu: “les fils des dieux”. Pois os deuses são muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Escreve Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”.

A idéia de um deus único só vai surgir mais adiante, no dito Segundo Isaías. Reiteradas vezes escreve o profeta:

44:6 Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.

Num acesso de egocentrismo, Jeová se proclama o único:

7 Quem há como eu? Que o proclame e o exponha perante mim! Quem tem anunciado desde os tempos antigos as coisas vindouras? Que nos anuncie as que ainda hão de vir. 8 Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim?

Ou ainda:

45:5 Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. (...) 21 Porventura não sou eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim.

Só aí, e tardiamente, surge na Bíblia a idéia de um só Deus. Durante muito tempo, acreditei que a idéia do deus único havia sido contrabandeada do Egito, a partir de Akhenaton. Equívoco meu. Não havia monoteísmo nos dias de Moisés. O que me consola é saber que até Freud incorreu neste equívoco.

Mesmo assim, persistem no mesmo livro de Isaías registros dos deuses de então:

36:18 Guardai-vos, para que não vos engane Ezequias, dizendo: O Senhor nos livrará. Porventura os deuses das nações livraram cada um a sua terra das mãos do rei da Assíria? 19 Onde estão os deuses de Hamate e de Arpade? onde estão os deuses de Sefarvaim? porventura livraram eles a Samária da minha mão? 20 Quais dentre todos os deuses destes países livraram a sua terra das minhas mãos, para que o Senhor possa livrar a Jerusalém das minhas mãos?

Em suma, o deus de uma única tribo, de repente, se proclama o deus único. Soler nota uma safadeza nas traduções contemporâneas da Bíblia: Jeová está sumindo. Fala-se em Deus ou Senhor, em Eterno ou Altíssimo. Como Jeová é apenas o deus de Israel, melhor esquecer o deus tribal. Ao que tudo indica, alguns tradutores fazem um esforço para transformar um livro politeísta em monoteísta. Substituiu-se a monolatria - culto de um só deus nacional - pelo monoteísmo, culto de um deus único.

19 agosto 2008

A repulsa ao belo

Janer Cristaldo

O que pensávamos ser estupidez de muçulmanos está se difundindo mesmo entre judeus e católicos. Leio em El País que a arquidiocese do México publicou uma “lista de valores” sobre o pudor, na qual recomenda às mulheres católicas que não usem roupas provocativas nem entrem em conversações ou piadas picantes com pessoas de outro sexo. Tudo isto para evitar agressões sexuais, este é o pretexto. Considera-se ainda que a pornografia é uma prostituição mental. Mais um pouco e proíbem o Cântico dos Cânticos, certamente o mais belo livro da Bíblia.

"Não usa roupa provocativa. Cuidado com teus olhares e gestos. Não fica só com um homem, mesmo que seja conhecido. Não permite familiaridades de teus amigos ou parentes. Não admite conversas ou piadas picantes”. Estas edificantes recomendações foram escritas pelo padre Sergio Roman Del Real, como material preparatório para o VI Encontro Mundial das Famílias, a celebrar-se no México em janeiro próximo.

Uma das coisas boas do mundo contemporâneo, a meu ver, é esta nonchalance com que as mulheres se despem, mesmo estando vestidas. Nenhuma mulher anda nua nas ruas, mas tem tantas nesgas de nudez que é quase como se nua estivesse. Ao pudico sacerdote não agrada nem um pouquinho a generosidade com que as mulheres nos brindam com seus encantos. Padre Sérgio considera a exibição do corpo como prostituição: “Quando exibimos nosso corpo sem recato, sem pudor, o prostituímos porque provocamos nos demais sentimentos em relação a nós aos quais não têm direito, a não ser que desejemos ser propriedade pública, isto é, que nos prostituamos mentalmente. Isso é a pornografia: uma prostituição mental”.

Se alguém imagina que isto seja pudor de católico, traduzo outra notícia, do mesmo El País. No assentamento judeu de Betar Illit, na Cisjordânia, onde vivem 40 mil colonos ortodoxos, um jovem de 19 anos, David Biton, teve a cara quebrada pelos “guardiães do recato”, por ter saído na noite de sexta-feira passada com jovens de sua idade. Qualquer semelhança com a polícia dos costumes da Arábia Saudita não é mera coincidência. Um menina de 14 anos teve o rosto queimado por ácido por vestir calças. Qualquer semelhança com os radicais argelinos que jogavam ácido no rosto de universitárias que não portavam véu, tampouco é coincidência. “Não lhes agrada quando vêem um rapaz e uma moça juntos, embora sejam irmãos, ficam muito nervosos”, diz Biton.

No Cântico dos Cânticos, livro transgressor, encontramos situação semelhante. Sulamita - finalmente uma voz feminina na Bíblia - sai pelas ruas da cidade em busca de seu amado. "Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho". De onde deduzimos que gostava tanto dos beijos como do vinho. É bom lembrar que Sulamita, além de ser mulher, não é casada.

“De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, porém não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma. Busquei-o, porém não o achei. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?”

Mais adiante, se revela a verdadeira face de Jerusalém. Sulamita é espancada:

“Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me; tiraram-me o manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe digais que estou enferma de amor”.

Enferma de amor. A expressão é belíssima. Mas o universo predominantemente masculino de Israel não pode aceitar uma mulher enferma de amor. Os bravos filhos de Davi – aquele outro – conseguiram superar até mesmo seus primos sauditas. Se na Arábia da família Saud uma mulher não pode sair nas ruas sem a companhia de um macho da família, pelo menos pode sair com o irmão.

Em Betar Illit vivem os haredis, judeus ortodoxos que cumprem estritamente com as normas do “recato”, sempre lembradas em imensos cartazes distribuídos pela cidade: saia longa e camisa de manga longa para as mulheres. Para os homens, calças pretas, camisa branca e chapéu preto ou quipá, em função da seita à qual pertençam. Quem se desviar destas normas terá a ver-se com a polícia – clandestina – do recato.

Muitos rabinos endossam estas normas. Um outro haredi de Betar Illit, que teme revelar sua identidade, tenta explicar: “O mundo haredi não sabe muito bem como reagir. A Internet e os celulares derrubaram muros que nunca antes haviam sido ultrapassados em nossa comunidade, por isso agora os extremistas tentam levantá-los de novo. E por isso alguns rabinos legitimam a violência”.

A menina que teve o rosto queimado, de medo já nem sai de casa. Em junho passado, um desconhecido a abordou em um parque jogou-lhe o conteúdo de uma garrafa que só mais tarde ela descobriu ser ácido. “Teu rosto é lindo demais para esta cidade”, disse antes de atacá-la. Teve o rosto deformado e por sorte o ácido não lhe atingiu os olhos. O pecado da menina foi passear pela cidade de calças.

Segundo Moshe, um judeu ortodoxo de Beit Shemesh – cidade de 90 mil habitantes - que também não se atreve a dar seu sobrenome, em quase todas as cidades israelitas existe esta polícia do recato, o que varia é a intensidade da violência. “Em alguns lugares atacam e em outros intimidam. Não é um corpo oficial, atuam clandestinamente, mas todos sabemos quem são”.

Segundo Moshe, em Jerusalém há um grupo que joga ácido na roupa das mulheres quando a saia ou a manga das camisas são demasiado curtas. Outros sobem nos ônibus para assegurar-se de que as mulheres estão bem vestidas e não se misturam nos assentos com os homens. Tampouco hesitam em intimidar quem ouse organizar um concerto ou outras atividades de ócio.

Os judeus são hostis à beleza. Como também os cristãos, que surripiaram para si o Livro. Me reporto ao primeiro livro da Bíblia. Lá está, em Gênesis 6, 1:

"Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. (...) Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu; porque me arrependo de os haver feito".

Daí o dilúvio. Porque as filhas dos homens eram belas, Jeová extermina homens, animais, répteis e aves do céu. É de supor-se que os peixes, que nadavam, tenham sobrevivido. O Livro nada nos diz sobre esta grave questão teológica. Assim como torna o trabalho uma obrigação maldita, o primeiro livro da Torá amaldiçoa também a beleza.

O padre mexicano, os haredis e demais israelitas estão sendo apenas coerentes.

17 agosto 2008

DILMÃO - A MÃE DO PAC E DA PETROSAL

Conheci algumas pessoas que já estiveram na presença da Dilma e o consenso é que a mulher é louca. Não uma louca de jogar pedra, mas dessas de mandar a turma para o paredão. Sua arrogância e agressividade são famosas. Apesar disso, ela é o braço direito do Lula que a leva em seus comícios e a chama de mãe do PAC. Mesmo deixando de ser ministra de Minas e Energia, ela ainda se manteve como presidente do Conselho do Petrobras e concentra a coordenação de diversos programas do governo federal. Concentra, portanto, um nível de poder nunca antes visto na história do Brasil. Recentemente, ela assumiu a liderança na politização do pré-sal, sob a bandeira do nacionalismo. A pergunta que não quer calar é: ela será nossa próxima presidente da República?

Logo após o chefe de polícia geral da República, o Tarso Genro, prender o investigado-geral da República, o Daniel Dantas, ele levantou a bola de que era necessário prender os militares que participaram de tortura no regime militar. Isto foi mais ou menos na época da implantação do limite etílico sueco, o mais rigoroso do mundo no país. Muitos interpretaram esta jogada do comissário Tarso como uma cutucada na Dilma, que esteve envolvida em diversos crimes praticados na guerra civil travada entre os militares da ditadura e os guerrilheiros marxistas que sonhavam com uma ditadura cubana para o Brasil. Afinal de contas, por que parar nos crimes praticados pelos agentes do estado e por que não investigar também os crimes praticados pela geração 68?

O PAC, na verdade, é um grande saco onde o governo enfiou um monte de projetos que já existiam e se arrogou de patrocinador. Metade do PAC é a Petrobras. Verdade seja dita que quando o governo resolveu apadrinhar estes projetos, as resistências do IBAMA e outros órgãos passaram a ser tratadas como algo próximo de sabotagem do PAC e, portanto, gerou-se benefício para o país. A pressão foi tanta que a ministra Mariana escolheu a melhor hora para pular fora do barco e entrou o histérico Carlos Minc, que grita mas libera.

Quanto ao Pré-Sal, ele é o resultado de mais um dos projetos megalómanos dos militares, como a Embraer, e que buscava desesperadamente petróleo na bacia de Campos. Eis que 30 anos e muitos bilhões de dólares de investimentos depois, cai o pré-sal no colo do Lula. Este menino nasceu com a bunda virada para lua mesmo. Enfim, o atual marco regulatório e a modernização da Petrobras no governo FHC geraram previsibilidade e deram a robustez econômica para que fossem feitos os investimentos que resultaram na auto-suficiência já bastante explorada politicamente por Lula.

A genialidade da pequena política está na sua capacidade de criar discursos, alimentando ódios, dividindo o povo e encontrando inimigos e culpados. O Pré-Sal é uma riqueza maravilhosa da nação brasileira que pode ser explorado e aproveitado por toda a nação com a simples criação e elevação de impostos, como os países civilizados fazem. Ao invés disso, pensa-se em criar uma nova lei, uma nova estatal que seja expurgada dos investidores americanos e outras besteiras que não fazem o menor sentido, exceto dar a Dilma ou a alguma candidato do PT mais um discurso para a eleição de 2010. E que venha Dilma...

31 julho 2008

A Burocracia Contra-ataca

Outro dia assisti a uma palestra sobre Escritório de Projetos e descobri que a burocracia está de volta, agora em nova roupagem. Nunca jogue fora uma roupa que saiu de moda pois se você guardá-la tempo suficiente, e ainda continuar cabendo, você vai ter oportunidade usá-la. Infelizmente, na administração não é tão simples, as coisas voltam, mas com nomes diferentes e os incautos acabarão levando gato por lebre.

Não me entendam mal, nada tenho contra a burocracia no sentido weberiano, no qual se busca incentivar o mérito e se foca em procedimentos de forma a aumentar a previsibilidade dos resultados. Sou contra a burocracia como arma política, sou contra a burocracia para se criar dificuldade para se vender facilidades.

Uma boa burocracia é fundamental, vejamos o caso da usina Vladimir Lênin de Chernobyl, onde um oficial do partido decidiu fazer um teste não programado na madrugada de 25 de abril de 1986, sem seguir os procedimentos de segurança, causando o maior acidente nuclear da história e contribuindo para o final do socialismo real. A combinação de autoritarismo com alguns erros de projeto foi explosiva.

Em função exatamente destes tipos de acidentes que surgiu a disciplina de gerenciamento de projetos, que visa garantir que o produto entregue ao final de um empreendimento atenda às especificações do cliente. Além disso, o gerenciamento de projeto permite uma visão horizontal de gestão em organizações com funções verticais especializadas, permitindo uma melhor integração de recursos.

O engraçado desta palestra é que o mote do consultor era como vender o Escritório de Projetos para a organização, escondendo a sua natureza burocrática. Enganado o gestor com o belo neologismo, começaria a busca pelo poder. O escritório assumiria, então, funções operacionais, depois táticas e, finalmente, chegando às funções estratégicas, coroando o processo com um assento na diretoria para o chief project manager (CPO). A este processo ele chamava de maturidade do Escritório de Projetos.

Isto me faz lembrar dos meus debates com meu amigo marxista leninista que defende a Revolução como única forma de tomar dos ricos o seu dinheiro e extinguir o capitalismo que oprime os homens. Infelizmente, para nós, a sede de poder do homem sobreviverá ao fim do capitalismo e ao fim da história. E, tudo que for criado com as melhores intenções será usado para atender a sede de poder do homem.

A meu ver, o capitalismo e o mercado são positivos para o homem porque nos dá espaço para viver entre a opressão do capitalismo e a opressão dos políticos que usam o Estado para ampliar o seu poder. O estado não é mau, nem tampouco o mercado, mas sim os homens. Chavez, por exemplo, acha que a solução é criar um tipo de educação que enfraqueça laços familiares e fortaleça as relações de solidariedade entre os cidadãos, mas isto não é nenhuma novidade e esta baboseira já foi pensada por Platão.

Enfim, talvez o melhor seja aprendermos a viver entre duas forças perigosas e opressivas, mas que juntas anulam-se mutuamente e produzem um pouco de liberdade para os pobres mortais. Enfim, fico surpreso que não haja mais marxistas leninistas estudando Escritório de Projetos, afinal isto reflete bem o tipo de poder que eles gostariam de controlar.

24 julho 2008

A geografia desmente a aliança sino-russa

Em China e Rússia criam uma anti-Otan, Gilberto Scofield Jr. (em junho de 2006) comentava a criação de um bloco de ajuda mútua econômica na Ásia, a Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), cujos membros além de China e Rússia abarcariam vizinhos: Irã, Paquistão, Índia e ex-satélites soviéticos: Casaquistão, Quirguistão, Mongólia, Tadjiquistão e Uzbequistão, bem como possivelmente a Arábia Saudita.

Hu Jintao, presidente chinês, vaticinava diplomaticamente seus objetivos como assegurar a paz e a prosperidade econômica regional. O teor explicitamente antiocidental (antiamericano e antieuropeu) da organização ficou a cargo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad definir:

“Podemos transformar a SCO numa instituição forte e de influência econômica e política tanto em nível regional quanto internacional. E desafiar a ameaça das potências dominantes de usar a força contra outros países ou interferir em seus assuntos.”

Deste blefador já se esperava isto... Vladimir Putin, então presidente russo, é quem tinha o argumento de peso:


“A SCO pode ser um forte jogador global. Temos 3 bilhões de pessoas e isso faz diferença - disse Putin, que pregou a união dos países contra ‘ameaças desconhecidas’” (Grifos meus).

Zhang Deguang, secretário-executivo, chinês que representa quem realmente manda na organização obviamente assumiu o tom conciliatório ao afirmar que a SCO “nunca procurou o confronto com nenhum bloco”. E nem precisa...

Mas, entre os sintomas imediatos como seus membros pedirem a retirada de tropas americanas de seus territórios e a China e a Rússia fazerem exercícios militares conjuntos, o que mais a organização pode oferecer em termos de eficácia e resolutividade?

Da retórica de um mundo multipolar, com a suspeita de uma aliança de potências crescentes a desafiar o império americano – China e Rússia, a primeira com suas taxas de crescimento cavalares e a segunda com seu papel assegurado no fornecimento de matérias-primas, a realidade beligerante entre os dois países continentais é muito diferente.

Em termos econômicos, não há muito sentido em se falar em união entre China e Rússia. O anecúmeno entre Moscou e Pequim requer uma infra-estrutura de bilhões que não existe para fomentar um comércio mútuo, cujos resultados já são atingidos com maior satisfação a partir dos acordos já existentes entre parceiros chineses – o extremo oriente e o ocidente – e russos – a Europa. Isto sem falar que entre as duas capitais, a distância é maior que entre Londres e Washington.

Tudo é uma questão de custo/benefício, como não poderia deixar de ser. Se o comércio siberiano fosse algo mais valioso que o convencional, o brutal investimento em infra-estrutura poderia se justificar. Mas, se há algo que distingue esta “nova era” de tempos pretéritos é que não há mais como manter subsídios sem retorno viável e factível. Se um dia as especiarias e a seda foram suficientes para justifica-los, hoje os objetivos militares têm que mostrar sua fatura.

Há também uma grande assimetria que joga contra a Rússia. A leste dos Urais, o país é relativamente desprotegido se considerarmos sua população, enquanto que a China tem uma gigantesca massa humana na Manchúria na proporção de 15 para 1 contra os russos no extremo oriente. Só o que falta para Pequim é vontade de ocupar a região, o que não ocorre porque o país permanece voltado para si mesmo, seu interior e suas próprias questões.

Se para a Rússia, a vulnerabilidade está na posição – ter que lutar entre duas frentes possivelmente aliadas, China e Otan – para a China, trata-se de uma questão quantitativa e tecnológica: em termos militares/nucleares, a Rússia está muito à frente.

Geograficamente, no entanto, é difícil para a Rússia aproveitar seus recursos com menores custos, como seria o transporte hidroviário. Seus rios, diferentemente da América do Norte não se interconectam e há extensas costas bloqueadas pelos gelos. Sua melhor alternativa reside num remoto Mar de Murmansk, inócuo para o caso de assegurar uma hegemonia siberiana. O leste dos Urais guarda certa similaridade com a realidade africana: demasiado rico em recursos minerais, mas vasto, incomunicável e pobre em infra-estrutura.

Se para os russos, o comércio marítimo é uma necessidade premente, para os chineses, ele é “natural”, com sua população concentrada num litoral de águas tépidas, livre de obstáculos naturais. Analogamente ao comércio e a economia, a Rússia também não tem a primazia militar no meio integrador dos oceanos. Cabe aos EUA o domínio sobre os oceanos com 11 porta-aviões prontos para qualquer ação na região. O poder russo não é naval, nunca foi, mas americano o que lhe confere enorme desvantagem. E se a China quiser manter seu PIB de US$ 14 trilhões em mesmo ritmo de crescimento deve se pautar pela orientação civil e neutra nestas questões. Pequim, simplesmente, não irá matar sua galinha dos ovos de ouro por uma tresloucada aventura geopolítica.

Mesmo o coringa na manga dos russos que consistia em amarrar o fornecimento de gás das repúblicas da Ásia Central para a Europa – que no período soviético serviam ao norte do país – já não é mais o mesmo: estão arriscados a perde-lo. O interesse das ex-repúblicas soviéticas na SCO está nesta intermediação, que o Kremlin usa para obter concessões políticas dos europeus.

A China, por sua vez, tem seus próprios problemas. Com o crescimento econômico, movimentos de descentralização política são fomentados por suas províncias periféricas. Contra eles, duas linhas de dissuasão são adotadas por Pequim: diluindo a diversidade étnica com programas de migração da etnia Han (majoritária) e com o aporte de infra-estrutura (especialmente, ferrovias) no Tibet e Sinkiang. Aí reside um dos poucos pontos em que Pequim pode amenizar sua vulnerabilidade energética frente ao domínio logístico americano, na proximidade das reservas de gás da Ásia Central. Para tanto, seu domínio sobre as regiões tem que continuar num crescendo com a instalação de estradas, trilhos e tubulações. Isto, inevitavelmente, traz problemas a Moscou, cujo monopólio na rede de infra-estrutura (e a vantagem que detém sobre o consumidor europeu) se vê agora ameaçado.

A aliança entre China e Rússia tem na disputa pelos recursos da Ásia Central um nó górdio. E quem está mais próximo de desata-lo é a China para fazer diferença entre séculos de esquecimento da região pela Mãe Rússia.


* Fonte: ZEIHAN, Peter. “China and Russia’s Geographic Divide.” In: http://www.stratfor.com/. July 22, 2008.

20 julho 2008

O que significa a prisão da Daniel Dantas?

Esta semana tive uma discussão com o meu contato na esquerda de classe média sobre o caso Daniel Dantas. Ele defendia a execução do banqueiro. Afirmava que o ministro Gilmar Mendes é um corrupto e que o projeto petista gramsciano de tomada de posições estava condenado ao fracasso. A salvação seria a retomada de uma perspectiva leninista, afinal vivemos em uma cultura muito atrasada.

A minha leitura do episódio é diferente. Acho que o Daniel Dantas está sendo investigado não por ser ou não corrupto, mas por ter entrado em disputa com um grupo da cúpula petista. Nem todos se lembram, mas Daniel Dantas controlava a Brasil Telecom com um fundo americano e o fundo de previdência do Banco do Brasil. Quando se iniciou uma disputa com a Telecom Itália pelo controle do grupo e o fundo americano abandonou o seu lado, ele ficou nas mãos da Previ: surgiu então o conflito com a cúpula petista.

Nesta disputa, o governo o acusou de contratar a Kroll para espionar a cúpula petista do Palácio do Planalsto, enquanto o próprio Daniel Dantas acusou o governo de tentar extorqui-lo em US$ 80 milhões de dólares para obter o apoio do fundo de previdência do Banco do Brasil. Quem se lembra do Mensalão e do forte envolvimento dos fundos de pensão percebe que esta não é uma hipótese remota.

Como entender então a prisão de Daniel Dantas? Os delegados da Polícia Federal não fazem o que querem. Se alguém tiver curiosidade no organograma da Polícia Federal (http://www.dpf.gov.br/web/organog_grand.htm) vai perceber que a decisão de designar quatro delegados para investigarem durante os últimos quatro anos o Daniel Dantas foi tomada no nível da diretoria geral. Não é novidade que o grupo petista que se sentiu prejudicado por Dantas tenha usado a estrutura do Estado para perseguir o seu desafeto, afinal foi assim que Fernando Henrique acabou com a candidatura da Rosinha Sarney.

No âmbito do Ministério Público Federal é surpreendente que ele seja representado neste caso por um promotor singular ainda impúbere. Onde estão os procuradores seniores que deveriam estar ansiosos pelos seus cinco minutos de fama? Quanto ao juiz, eles não poderiam ter escolhido outro melhor, afinal este Fausto tem um viés bastante conhecido de jogar para a arquibancada. Por fim, vem a decisão desastrosa de promover a prisão de Daniel Dantas no âmbito das ações da Polícia Federal para provar que o governo Lula não é tão corrupto quanto ficou demonstrado no Mensalão.

Com o Lula no Japão, foi efetuada a prisão com a qual se congratula o governo de forma apaixonada na pessoa do comissário petista Tarso Genro e do próprio presidente da República. Sob os protestos do comissário petista o banqueiro tem seu hábeas corpus concedido pelo presidente do Supremo, que ainda tem de tratar com um insubordinado de primeira instância, rapidamente defendido pela corporação.

E como ficamos? Ficamos com este PT hipócrita que assiste ao enriquecimento da sua cúpula, enquanto persegue os seus inimigos e tenta vender esta imagem falsa e mentirosa de uma nova ética, quando na verdade continua valendo a velha máxima: Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.
Como já se disse muitas vezes, o melhor amigo de um jacobino é um corrupto. Sem um jacobino que proponha da noite para o dia que o limite alcóolico para se dirigir no Brasil seja igual ao mais rigoroso do mundo, o sueco, não seria possível aos policiais corruptos aumentaram de forma desmedida a propina para liberar os descumpridores da lei.
Para completar a palhaçada, o Lula repreende publicamente o delegado por afastar-se da investigação. Desde quando o presidente deveria se meter pessoalmente neste nível da Administração? Isto faz sentido somente em uma República Sindicalista populista onde o cumprimento da lei passa a ser vista como uma graça, distribuída e capitalizada pelo grande líder. Assim é a política, as coisas acontecem e os políticos tentam tirar proveito.
O problema desta palhaçada toda é que quando o Lula e o PT aparelham o Estado, também promovem a desmoralização das suas instituições, afinal, ou a lei serve para todos ou não serve para ninguém. Se a lei é usada para perseguir os inimigos do governo então a sociedade não a reconhecerá como uma lei legítima. Sem leis e instituições não temos democracia nem uma república. Sem legitimidade não há lei, mas apenas violência e arbitrariedade.
Diante desta realidade, deste autoritarismo, como as pessoas reagem? Na antiga União Soviética formavam-se máfias. No Brasil, o favorecimento alimenta a mentalidade do cada um por si e Deus por todos, da lei de Gerson. Assim, o governo petista nos leva exatamente ao lugar de onde partimos, ou seja, uma sociedade onde a lei não é vista como um bem de todos mas como uma arma dos poderosos contra os seus inimigos.

09 julho 2008

Globalismo, o que diabos é isto?

Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:

Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”.
Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer
o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial.
Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?

Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...

Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?

Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.


Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.
2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.
3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates.

24 junho 2008

Dos quadrinhos à teologia, assim surgem as religiões


Janer Cristaldo

Há 75 milhões de anos, dezenas de planetas eram governados por um líder maligno, Xenu. Para sanar um problema de superpovoamento, Xenu teria segregado bilhões de seus habitantes na Terra. Eles foram mortos com bombas de hidrogênio, e seus espíritos - os thetans - passaram a vagar pelo planeta. Os thetans foram ainda submetidos a um processo que os tornou inaptos a tomar decisões. Cada habitante da Terra atual seria uma reencarnação desses espíritos.

Que tal? Parece história em quadrinhos. No entanto, são os fundamentos de uma nova crença em franca expansão, a cientologia. Este é o resumo da religião fornecido pelo Estado de São Paulo de hoje. A seita foi fundada por Lafayette Ron Hubbard (1911-1986), escritor de ficção científica. A cientologia é certamente a mais bem sucedida de suas ficções.

Toda a religião é ficção, é claro. Hubbard adaptou a sua à chamada era espacial. Enquanto os teólogos católicos recém começam a admitir a vida em outras galáxias, Hubbard situa seu gênesis em um conglomerado de planetas. Terá tido influências de paladinos célebres das histórias em quadrinhos: Flash Gordon, Superman, capitão Marvel. Numa época em que até marmanjos lêem histórias em quadrinhos e críticos literários as levam a sério, sua religião tinha tudo para prosperar. Entre seus crentes e financiadores, estão estrelas como Tom Cruise, John Travolta e Lisa Marie Presley. A religião foi criada nos anos 50 e já tem quase 10 milhões de fiéis. Tribunais da Alemanha, Áustria e Holanda definiram a cientologia como seita gananciosa, filosofia inescrupulosa, lavagem cerebral.

Até aí morreu o Neves. Qual religião não é uma uma seita gananciosa, uma filosofia inescrupulosa, uma lavagem cerebral? Se levarmos adiante a definição dos tribunais europeus, o Vaticano seria condenado por fraude. Nos EUA – relata o Estadão - os cursos para evoluir na Cientologia são ministrados até em um cruzeiro luxuoso, chamado de Freewinds, e podem chegar a custar US$ 400 mil. Isto é: se você investe tal montante na aquisição de uma doutrina, vai querer no mínimo o dobro de volta.

A nova seita foi montada a partir de fragmentos de budismo, hinduísmo e tradições cabalísticas. (E histórias em quadrinhos, é bom lembrar). Como são montadas, de um modo geral, todas as religiões. O judaísmo, por exemplo, surge a partir de crenças egípcias. O poderoso deus único, Jeová, é um xerox de faraó Akhenaton. Sem o Egito, não existe a Bíblia. Que por sua vez gerou o cristianismo, a nova seita que se apossou indevidamente do antigo Livro dos hebreus.

Não há religião hoje que não seja uma sopa de religiões antigas. Os tais de neopentescostais, que infestam as cadeias de televisão no mundo todo, são outros que se apossam do Livro a seu modo. O mesmo fizeram os espíritas. Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, misturou evangelhos com a teoria do magnetismo animal do austríaco Franz Anton Mesmer e construiu sua ficção. Mesmer era médico, estudava teologia e criou a picaretagem da imposição das mãos. Curiosamente, Kardec, que é francês e está sepultado no Père Lachaise, em Paris, é praticamente desconhecido em seu país. Sua tumba está sempre cheia de flores, colocadas geralmente por brasileiros.

Ainda por exemplo, o tal de Santo Daime, que comentei no ano passado. É um culto sem pé nem cabeça, criado por um seringueiro da Amazônia, cujas cerimônias consistem na ingestão da ayahuasca, beberagem feita de um cipó, que produz vômitos e diarréias, as chamadas “peias”. A nova empulhação cultua o Cristo,a Virgem... e a floresta amazônica, ecologia oblige. Pelo jeito, as tais de peias não eram muito convincentes a ponto de por si só arrebanhar acólitos. O Santo Daime então adaptou-se. Assumiu elementos de hinduísmo, umbanda e hare krishna. Deus para todos os gostos. Aqui pertinho de São Paulo, em Nazaré Paulista, a escola espiritual tem dois gurus, um tal de Sri Prem Baba, o mestre da cerimônia, que pelo jeito é tupiniquim com nome indiano para melhor enganar. Mais o guru Sri Hans Raj Maharaji, que vive na Índia, mas já apita no Santo Daime. Mais o sedizente mestre Raimundo Irineu Serra, seringueiro brasileiro neto de escravos, que morreu em 1971, e teria sido o fundador da doutrina do chá de cipó.

No Brasil, o espiritismo fundiu-se à umbanda, em um estranho caldo que mistura uma doutrina criada por um francês, a partir de teorias de um médico austríaco, com crenças animistas da afrodescendentada. A origem desta fusão é curiosa e merece ser lembrada.

Segundo J. Alves Oliveira, em Umbanda Cristã e Brasileira, no dia 15de novembro de 1908, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou numa sessão espírita kardecista em Neves, São Gonçalo, município fluminense próximo ao Rio, então capital federal.

“Foi um escândalo" – escreve Matinas Suzuki, na Folha de São Paulo -. “Embora haja indícios de incorporações de espíritos de índios e de escravos negros nas diversas formas de macumba que existiam no Rio de Janeiro do século 19, os kardecistas não os admitiam por considerá-los espíritos marginais e pouco evoluídos. Quem recebeu o caboclo indesejado, e logo em seguida o preto-velho Pai Antônio, foi Zélio Fernandino de Moraes, um rapaz de 17 anos que se preparava para entrar para a Escola Naval”.

O achado do Zélio Fernandino parece ter vindo de encontro a alguma inconsciente aspiração brasílica e fez escola. Assim como os católicos se apossaram do livro judaico, os umbandistas reivindicaram para si o mediunismo, trouvaille de Allan Kardec. Segundo Alves Oliveira, o caboclo teria assim se revelado: "Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios [caboclos], devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho [o médium Zélio de Moraes] para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou".

O espiritismo então abrasileirou-se, para desalento de seus mentores europeus. A lambança é tal que já há centros orixás da umbanda, santos católicos e retratos de daimistas posicionados em lugares estratégicos do terreiro. E já existe inclusive o umbandaime, que promove a mistura entre a doutrina do daime com a religião afro-brasileira.

O espiritismo, por sua vez, vingou no Brasil... e nas Filipinas. Terceiro Mundo é o ambiente ideal para o florescimento destas ficções criadas pelos gigolôs das angústias humanas. Cientes disso, os cientólogos – tidos hoje como criminosos em alguns países da Europa – estão se instalando no Brasil. Como São Paulo é o grande instrumento de percussão do país, escolheram São Paulo como sua sede. Começaram numa ruazinha discreta no Tatuapé, zona leste da cidade, por onde já teriam passado, desde os anos 90, 15 mil pessoas. Lucia Winther, a porta-voz da seita no país, quer agora montar uma sede luxuosa para a nova religião.

Se conheço os bois com que lavro, dentro em breve os cientólogos estarão concorrendo firme com o bispo Edir Macedo. Religião e tabagismo, costumo afirmar, só se expandem em países subdesenvolvidos.

20 junho 2008

Corrupção e Revolução

Sempre que vejo algum indivíduo politicamente bonitinho querendo, como se diz por aí, “cagar regra” fico pensando em como os canalhas vão tirar proveito daquelas boas intenções. É o caso do CSS que vem mais uma vez para salvar a saúde, por exemplo. Quem não quer que o Sistema de Saúde melhore? Ninguém. Agora, em cima de um desejo legítimo alguns patifes propõe algo que defendem como indispensável e acusam aqueles que a isto se opõem de se oporem ao desejo legítimo. Patifaria básica.

Outro erro comum é confundir igualdade com justiça. Todos nós desejamos uma sociedade mais justa, onde as pessoas tenham oportunidade de desenvolver os seus talentos. Agora, defender uma sociedade onde os talentos das pessoas sejam remunerados de forma igual é absurdo. A diferença é saudável até certo ponto.

O PT, para mim, representa a patifaria organizada. É uma máquina de poder gramsciana que busca anular a sociedade civil cooptando e ameaçando os seus críticos ao mesmo tempo em que celebra uma aliança com os setores mais atrasados da nossa sociedade. Em nome desta aliança eles loteiam a administração para quadrilhas geradoras de caixa 2 para a base aliada. Talvez isto seja melhor do que uma Revolução.

Em uma Revolução não existem nuances de cinza. Ou alguém é vermelho ou é Blanco. Qualquer discussão ou questionamento é considerado traição. Morrem os questionamentos e nascem as certezas. O radicalismo e a perseguição são filhos naturais deste ambiente. E tudo isto para que? Por uma sociedade melhor? Por um ser humano melhor?

Este é um problema da falta da religião. Quando alguém não dispõe de uma religião onde possa ser um fanático profundamente identificado então costuma se tornar um leninista ou coisa que o valha. Alguém que enxerga na sociedade burguesa a mesma decadência que o mais fanático religioso fundamentalista. Infelizmente, uma grande formação intelectual não nos salva destes enganos.

Talvez, a solução sensata e mais humana seja a convivência plural entre os corruptos, os idealistas e os inconformistas sempre em um delicado equilíbrio que em alguns momentos tende para a corrupção, em outros, para a insensatez e em alguns poucos momentos para algumas propostas de solução real. Deixemos para os canalhas e os idealistas as propostas de imposto único e desarmamento como panacéias.

Enquanto isto, no mundo real, cheio de incertezas e nuances, o IPEA propõe o fim do COFINS por ser um imposto sobre consumo que pode reduzir três vezes mais a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini do que o Bolsa Família, ou seja, o Brasil passaria de 0,56 para 0,53. E pensar que o Bolsa Família só reduziu a desigualdade em 1%. Como diz o meu amigo marxista, o que reduz desigualdade ainda é o crescimento.

07 junho 2008

O Perfeito Idiota Latino Americano

Recentemente, tive oportunidade de assistir a uma palestra sobre a integração latino-americana proferida por um eminente professor que foi orientador e atualmente é assessor de um dos mais importantes membros da nomenklatura petista e um dos mais altos tecnocratas do estado brasileiro. Nesta palestra pude observar a disputa entre valores e interesses, entre socialismo, nacionalismo, imperialismo e até questões de legitimidade de políticas públicas.

Este professor defendia como política de estado a integração latino-americana. Curiosamente, a política de integração latino-americana defendida pelo PT assim como a política de quotas raciais não contam com o apoio popular pois são criações de grupos de interesses partidários. Estes temas não foram temas de campanha e, portanto, carecem de legitimidade popular. Isto é grave, pois de acordo com os valores petistas deveria haver partipação popular na formulação de políticas públicas.

Nestas horas eu me lembro do pragmatismo do velho Czar Stalin, que derrotou Hitler e que soube temperar o comunismo soviético com nacionalismo e imperialismo não muito diferente da atual China onde o nacionalismo e a prosperidade econômica são os sustentáculos do consenso social que mantém o poder político do Partido Comunista.

Enquanto isto, as autoridades petistas enxergam o Brasil a partir de um preconceito de classe como se o Brasil fosse o explorador dos vizinhos e, portanto, expropriações de ativos ou cidadãos brasileiros seriam devidas e justas. O caso do Paraguai é emblemático. Petistas defendem a repactuação de Itaipu de forma a pagar uma suposta dívida histórica decorrente da Guerra do Paraguai. Se for este o espírito de integração petista é melhor continuarmos isolados pois será mais barato e mais benéfico para a população brasileira.

Curiosamente, no âmbito da política doméstica, o PT prefere se aliar as oligarquias regionais do que aos sociais democratas com quem compartilham valores. Isto é natural, afinal, o PT e o PSDB disputam as mesmas faixas do eleitorado e, portanto, são inimigos apesar de compartilhar das mesmas opiniões sobre muitas questões. Temos ainda a questão do bairrismo paulista e ainda questões pessoais entre os líderes petistas e os líderes do PSDB que são obstáculos a uma aliança. Aliás, até dentro do partido é assim também. Agora que a Dilma está ganhando força começam a surgir denúncias de dentro do próprio governo, possivelmente do grupo do seu padrinho político, o José Dirceu denúncias contra a poderosa ministra que parece ter tomado espaço demais de outros grupos e assumido a hegemonia do seu próprio grupo.

Lembram-se que antigamente a esquerda acusava a direita de ser entreguista como no caso da ALCA, agora é a vez da esquerda de ser entreguista com a UNASUL. Felizmente, a insensatez de nossos vizinhos talvez nos salve deste entreguismo petista. Vejam o caso da Argentina que subsidia o gás para seus consumidores que chegam a pagar 34 vezes menos do que os consumidores paulistas (US$ 1 por MBTU) ou da Bolívia que remunera as empresas prestadoras de serviço com U$ 10,00 por barril na boca do poço enquanto o petróleo está em US$ 130,00. A Bolívia assinou acordo com os argentinos vendendo um gás que não tem e expropriou parte das reservas que garantem o abastecimento brasileiro para abastecer os seus cidadãos. Por sua vez, a Argentina parou de vender 15 milhões de m3 para o Chile dando preferência ao abastecimento do mercado interno. Os chilenos estão tendo que abastecer as suas térmicas com cerca de 40 caminhões de diesel por dia a preços absurdos para não ficar no escuro, ou seja, na hora que o bicho pega a esquerda populista escolhe sempre os seus eleitores em detrimento de qualquer outra coisa e porque não da integração. Se apesar de tudo isto ainda quisermos integração é porque somos idiotas.

Felizmente, a Dilma tem um viés stalinista autoritário e nacionalista e ela talvez possa triunfar sobre estes grupos cujas políticas são tão deletérias para o Brasil afinal a integração pressupõe a comunhão de valores e a capacidade de resolver conflitos e os hermanos acreditam que farinha pouca meu pirão primeiro.....

05 junho 2008

Nunca antes na história deste país se viu....tanta corrupção

Todo chefe é responsável pelos atos dos seus subordinados. Felizmente, as circunstâncias históricas são favoráveis ao Brasil e podemos nos dar ao luxo de ter como presidente um fanfarrão irresponsável que nada sabe. Muitos podem se perguntar onde está o nosso fanfarrão irresponsável e ébrio. Ele está viajando ou diante de alguma platéia sempre pronto para dizer alguma besteira que ele sabe que um editor de jornal não resistirá em publicar. E, ainda tem o displante de criticar a imprensa por fazer o trabalho dela que é fiscalizar e apontar as falhas do governo.

Precisamos reconhecer, entretanto, que houve alguns avanços. Nunca antes na história deste país tivemos uma presidente mulher porque quem de fato governa o país como chefe do Executivo é a Dilma Vana Roussef. Ao menos, se ela for eleita presidente em 2010 não estaremos sendo enganados, como fomos em 2002, quando votamos no Lula e levamos o Zé Dirceu e em 2006 quando ficamos com a Dilma.

O Lula é um grande covarde sem um pingo de caráter. O seu governo não tem sequer o caráter de assumir a recriação da CPMF. Ao invés disso, mudaram o nome do imposto, esconderam ele dentro de outra lei, propuseram isenções para quem ganha menos de R$ 3.000, disseram que só começa a valer ano que vem, e estão tentando aprovar com quórum simples por não ser questão constitucional. Por fim, os velhacos puseram a sua bancada de ratos na Câmara para propor enquanto o presidente viaja para o exterior para se distanciar o máximo que pode da matéria em questão. E, ainda tem a falta de criatividade de dizer que é para salvar a saúde.

Esta semana chegou ao fim a CPI dos Cartões do Executivo que começou com uma série de denúncias de abusos praticados por inúmeros agentes do governo Lula e terminaram sem investigar os envolvidos na produção do dossiê contra o FHC. Aliás, qualquer pessoa que não seja analfabeta funcional sabe que um banco de dados não é um dossiê mas sim uma fábrica de dossiês. E, esta tudo lá, à disposição da primeira-ministra Dilma. Mais um escândalo se avizinha, mas são apenas US$ 5 milhões que alguém ligado ao Lula levou para facilitar a venda Variglog...Isto não vai dar em nada, afinal, o PT estratégica e covardemente escalou o PMDB para liderar o bloqueio a esta investigação.

Aliás, um dos motivadores desta CPI foi os modestos gastos da ministra dos Quotas Raciais o que ilustra mais uma das características de um governo deste categoria, ou seja, a geração de soluções mentirosas. Vejamos o caso das Quotas Racias que implantadas no país mais rico do mundo onde os negros são de fato uma minoria conseguiu gerar após quase 50 anos apenas uma elite negra do qual temos um expoente fantástico, aliás, que concorre à presidência dos EUA, mas quanto a média da população negra pouco mudou.
O governo Lula nos roubou muitas coisas. Talvez a mais importante seja a nossa capacidade de nos escandalizarmos. Como já disse o Cristovam, o Bolsa Família é corrupção e ela está profundamente entranhada na nossa cultura. Outro dia mesmo, a NET me tirou dois canais. Quando fui ver eles tinham me mandado um contrato ao qual eu anui simplesmente por ter continuado a pagar que esclarecia que eu não direito aqueles canais. Aliás, quando reclamei eles insistiram em me vender mais alguns serviços. Fiquei puto e reclamei na ANATEL. Tudo resolvido. Eles não erraram e eu ganhei mais dez canais. É frustrante que eu possa ser comprado com apenas 10 canais....

01 junho 2008

Gente que não é igual a gente

Hoje, assisti a entrevista da ministra Dilma Roussef ao Jô Soares. A impressão que tive é que hoje a ministra está mais para nacionalista do que para esquerdista. Mas o mais importante, ela não é uma pessoa normal. Me fez lembrar da entrevista do homem mais rico do Brasil, o Eike Batista, que estava agitadíssimo como se tivesse formiga na cadeira, parecia estar cheirado. A diferença é que a droga da ministra é o poder.

Aliás, este Eike Batista é muito doido. Conta-se que ele estava de casamento marcado com uma socialite quando um amigo resolveu lhe dar de despedida de solteiro uma global e não é que o cara acabou casando com a Luma. A Dilma, por sua vez, não fica atrás, jovenzinha ainda planejou o roubo do cofre do ex-governador Ademar de Barros que ficava na casa da sua amante. Conseguiram levar uma pequena fortuna.

Confesso que em meu machismo acho difícil tolerar uma mulher tão ostensivamente peniana. Ela se comporta como se tivesse um pênis de 3 metros. Segundo me consta ela gosta, em reuniões fechadas ou em reuniões não tão fechadas assim de tirá-lo e balança-lo para quem quiser ver. Se preciso ela bate ele na mesa ou na cabeça de um Mané. O fato é que qualquer um tem o direito de se impor, é um direito. Como dizem os militares, manda quem poder e obedece quem tem juízo.

E, convenhamos, o ser humano é uma raça miserável. Você vai ao cinema e uma filha da puta mãe de família senta atrás de você e fica chutando a sua cadeira. Aí você fica pensando em como é que alguém que supostamente ama um filho pode ter tão pouca consideração pelas pessoas que a cercam. Aliás, eu acho que pessoas gripadas deveriam ser proibidas de andar de elevador ou de freqüentar ambientes fechados. Isto é muita desconsideração com os demais que podem contrair doenças. Mas a raça humana é assim, de um lado, temos estas criaturas obcecadas por poder e de outro temos umas criaturas incapazes de olhar além de seus próprios umbigos.

Dizem que muitos ascetas indianos decidiram não se reproduzir para encerrar o ciclo cármico de miséria em que estamos enredados. Talvez o problema seja este. Os caras sensatos viram o horror da nossa situação e desistiram e, enquanto isto, os insensatos povoaram o mundo e reproduziram as suas neuroses. Se bem que se a vida fosse ruim não teria tanta gente desesperada quando percebe que o fim está próximo.

Bem, enquanto estivermos por aqui, não faltará animação. Sempre teremos as Dilmas e os Eikes prontos para tentar enrabar a todos e os mais normaizinhos com as cabecinhas enfiadas em seus próprios rabos. O mundo está condenado ao caos. Paz somente se alguém conseguir a tal paz interior. Enquanto isto, o melhor que fazemos é termos uma democracia pois pelo menos assim a gente troca o violador de tempos em tempos.

25 maio 2008

Cortando carne e essências

Já vi muitas demonstrações do mito do “bom selvagem”, mas esta do dia 20 passado parece que superou todas as demais.

Em Altamira/PA, um engenheiro que debatia sobre a construção de hidroelétricas no Rio Xingu minimizando o alarde ambientalista sobre seus impactos ambientais foi ferido com corte profundo de facão.

Havia cerca de 600 indivíduos presentes na platéia que, sob clima tenso, foram claramente insuflados por um integrante do Movimento por Atingidos por Barragens (MAB) que bradou “nós iremos à guerra para defender o Xingu se for preciso”.

E agora a Polícia Federal abre investigação para descobrir quem armou os índios, já que o golpe certeiro foi desferido por um deles, presente no local.

Que os integrantes do MAB são um bando de baderneiros, que muitos deles nunca habitaram as regiões de lagos formados por barragens (em plena selva amazônica), disto não tenho quaisquer dúvidas. Mas, isentar um indígena de responsabilidades cíveis e criminais, só mesmo sob o anacrônico escrutínio de um Estatuto do Índio que serve, entre outras coisas, para atrocidades deste naipe.

Facão é uma arma tão moderna, que precisa ser contrabandeada? Índios não portam facões, entre outras “armas brancas” desde muitos séculos? Dizer que alguém induziu o indivíduo à violência reside em sofisma atroz. Pouco importa o DNA do envolvido, mas sim seu ato.

Pega mal chamar um índio de bandido, então que se avente ter sido levado às vias de fato já que, desde Rosseau, eles são “bons selvagens”.

Quando em 1989, uma índia apontou um facão no peito do presidente da Eletronorte, que discutia na ocasião a construção da mesma usina, alguém teria insuflado a “ingênua”?

Lendo este tipo de estultice, fica difícil não concordar que a legislação brasileira exime de culpa (acabando por incentivar também), o assassinato desde que o crime seja cometido por silvícolas.

Lembrei-me de um gibi de Moebius, o fantástico quadrinhista com uma história intitulada “O homem é bom?”, na qual um terráqueo foge, desesperadamente, de hordas alienígenas. Na corrida, o sujeito consegue alcançar o topo de uma estrutura, na qual encurralado é capturado e levado ao líder das hostes insanas. Erguido, seu braço é arrancado pelas poderosas mandíbulas da besta. Entre seus urros de dor, o degustardor grunhe ao que é traduzido no pé da página: “o homem não é bom!”

Para mim, homens, caucasianos, negros, índios, azuis, amarelos, roxos, rosas etc. não são bons nem maus. Procurar uma essência neles não passa de mitificação. Mas, com certeza, alguns mitos podem ser comprovados na realidade: há indivíduos muito bons no talho do facão.

18 maio 2008

A Propriedade Privada

Talvez a propriedade privada tenha surgido com Moisés como é mostrado em Números 33 e 34: “Tomareis posse da terra e nela habitareis; pois é a vós que dou esta terra em posse. Dividireis a terra entre os vossos clãs por sorteio... tomareis um responsável por tribo para fazer a partilha da terra.” Já existia também a função social da propriedade, como pode ser visto nos resgates e jubileus do Levítico, que visavam impedir a escravização e a exploração de um judeu por outro.

A doutrina social da Igreja associa a propriedade a uma função social, ou seja, à função de servir de instrumento para a criação de bens necessários à subsistência de toda a humanidade, tal como exposta nas Encíclicas Mater et Magistra, do Papa João XXIII, de 1961, e Populorum Progressio, do Papa João Paulo II.

Norberto Bobbio, em seu Dicionário de Política, faz uma digressão sobre a propriedade a partir do adjetivo latino proprius como “o objeto que pertence a alguém de modo exclusivo” e sua implicação jurídica de “direito de dispor de alguma coisa de modo pleno, sem limites”. O direito transforma a posse na propriedade. Este direito pode ser adquirido de várias formas: doação, herança, compra-venda, entre outros, e ser extinto pela morte. Hayek e Friedman, expoentes do neo-liberalismo são contrários, por exemplo, ao direito de herança. Tanto Warren Buffet como Bill Gates são favoráveis a um imposto progressivo sobre a herança tendo ambos doado a maior parte de suas gigantescas fortunas para fundações como pode ser visto no seu artigo em: http://www.open-spaces.com/article-v6n2-gates.pdf.

Outro ponto enfatizado por Bobbio é a propriedade como “processo individual”, no qual a “exclusão do resto do universo social” transforma o objeto que lhe pertence em uma projeção de si. A propriedade privada ainda se reveste de uma simbologia, entendida como “independência da necessidade e dos outros homens”. A propriedade privada é um símbolo de sucesso conferindo distinção.

Para Bobbio, no tempo de Marx não foi possível se perceber que a propriedade privada se legitima pela sociedade de consumo, que faz com os indivíduos considerem ataques à propriedade privada como ameaças aos seus interesses. Para Weber, a propriedade privada típica é a “moderna empresa privada”. Seu tema central é o da distribuição de controle e decisão. A propriedade privada tem o poder de coordenar a produção.

No século XX, o mercado foi substituído por estruturas menos competitivas, o Estado passou a regular a economia e as empresas passaram a ser dirigidas por uma elite constituída por técnicos-políticos. De outro lado, o Estado passou a ser dirigido por uma elite mais burocrática, que representa os eleitores.

Para o constitucionalista marxista português José Afonso da Silva, a propriedade privada não pode ser mais tida como um direito individual em razão de sua função social modificar a sua natureza, transformando-a em uma instituição do direito econômico. Neste sentido, preservaríamos como direitos individuais a liberdade, a igualdade, a vida, a privacidade, mas não mais a propriedade.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, proclamava ser a propriedade “direito inviolável e sagrado”, o Código de Napoleão de 1804, no artigo 544, o definia como “o direito de gozar e de dispor das coisas de modo absoluto, contanto que isso não se torne uso proibido pelas leis ou pelos regulamentos”.

Por meio do poder de polícia administrativo, o Estado restringe este direito individual em benefício da coletividade. Assim, o direito de propriedade de um prédio só se torna em direito de habitá-lo mediante um alvará que pressuponha o atendimento de inúmeros requisitos.

Hoje, no direito brasileiro, existem algumas limitações à propriedade privada, quais sejam: a ocupação temporária e a requisição do imóvel, o tombamento, a servidão administrativa, a desapropriação e a requisição de bens móveis e fungíveis, a edificação e o caráter compulsórios.
Já na Constituição Imperial de 1824, no artigo 179, se garante o direito de propriedade "em toda a sua plenitude" sendo que "se o bem público, legalmente verificado, exigir o uso e emprego da propriedade do cidadão, ele será previamente indenizado do valor dela."Em 1946, a Constituição exigia que a indenização fosse prévia, justa e em dinheiro. A atual Constituição prevê ainda uma hipótese de desapropriação sem indenização, que incidirá sobre terras onde se cultivem plantas psicotrópicas legalmente proibidas.
A declaração expropriatória pode ser feita pelo Poder Executivo, por meio de decreto, ou pelo Legislativo, por meio de lei que deve conter a declaração de utilidade pública ou interesse social. A partir daí, o poder público adquire o poder de penetrar no imóvel. O Poder Judiciário não pode anular esta declaração mas apenas preço e vício da ação.

A eminente jurista do Direito Administrativo Maria Sylvia Zanella Di Pietro defende que haja uma expansão do poder de polícia em benefício da função social da propriedade para englobar as limitações impostas à propriedade privada.

Desde as Constituições de 1946 e 1967 já se discute a função social da propriedade, tendo esta sido expressa na Constituição outorgada pelos militares. Isto significaria que “a Constituição não nega o direito exclusivo do dono sobre a coisa, mas exige que o seu uso seja condicionado ao bem-estar geral.”

Para encerrar bem esta digressão e para o desgosto dos marxistas ortodoxos que tanto minaram a propriedade privada, vamos usar uma citação de Slavoj Zizek onde ele mostra como o capitalismo atual prescinde da propriedade privada: “With Bill Gates, "private property in the means of production" becomes meaningless, at least in the standard meaning of the word. The paradox of this virtualization of capitalism is ultimately the same as that of the electron in elementary particle physics. The mass of each element in our reality is composed of its mass at rest plus the surplus provided by the acceleration of its movement; however, an electron's mass at rest is zero, its mass consisting only of the surplus generated by the acceleration of its movement, as if we are dealing with a nothing which acquires some deceptive substance only by magically spinning itself into an excess of itself. Does today's virtual capitalist not function in a homologous way: his "net value" at zero, he directly operates just with the surplus borrowing from the future.”

13 maio 2008

Cuba, 49 anos de Revolução

Os EUA cometeram o grave erro de não ter tornado Cuba um estado membro da sua federação. Ao invés disso, trataram-na como uma prostituta. Fidel realizou a Revolução a menos de 100 km dos EUA, derrotou os americanos na baia dos Porcos e foi protagonista da crise dos Misseis que resultou no afastamento de Kruschev e na morte de Kennedy.

Diante deste exemplo, os EUA endureceram sua política em relação à América Latina apoiando abertamente qualquer regime de direita por entender que não podiam transigir com populistas em plena guerra fria e diante do exemplo cubano. Havia sempre a teoria do dominó a assombrá-los.

Com isto, os EUA apoiaram ostensivamente o golpe de 64 com a presença de agentes americanos em nosso território e uma frota em nossa costa. Eles acabaram enfraquecendo a direita progressista e tornaram Fidel e a Revolução Cubana em heróis para a nossa Geração 68.

Recentemente tive oportunidade de conversar com dois colegas que estiveram em Cuba. Eu os chamarei o Jovem e o Velho. O Jovem é um comunista leninista que coordena um grupo de estudos da UFRJ. O Velho é ex-comunista que parou de ler Marx quando teve de esconder os seus livros na época da ditadura.

O Velho voltou falando da sua decepção, das prostitutas nas esquinas, de um país que vivia um verdadeiro appartheid entre aqueles que vivem na economia do dólar e os que não. Segundo o Velho, na famosa sorveteria estatal Coppelia, os cubanos enfrentam uma longa fila enquanto que os pagantes em dólar entram direto e ficam à vontade. Para se conseguir a carta blanca e se viajar ao exterior é necessário dispor de US$ 150,00 quantia nada desprezível para uma população cujo salário médio é de US$ 30,00.

O Jovem voltou dizendo-se impressionado com Varadero e suas magníficas praias, com o hotel 5 estrelas que foi sede dos revolucionários no qual ele se hospedou, com o monumento à Che cuja sacralidade proíbe que se tirem fotos, e também com o fato de não ter visto nenhum mendigo nas ruas. Segundo ele, a economia cubana está crescendo a 20% ao ano e só não é um sucesso maior em decorrência do embargo dos EUA. Enquanto isto, cada família tem que se virar com uma ração que permite 3 litros de leite por semana.

A fé do Velho já estava abalada e a sua visita só serviu para pulverizá-la enquanto que a Fé do Jovem voltou bastante fortalecida, a ponto dele deixar de dizer que um gramsciano e se admitir um leninista. Como ele disse, em Cuba, se o sujeito quiser ir embora que seja com uma mão na frente e outra atrás e, se ameaçar a Revolução, tem que ir para a cadeia e tomar porrada. Ele me mostrou as fotos que ele tirou dos outdoors criticando os EUA, me falou da comemoração do 1 de maio quando o pessoal acorda às 5:00 da manhã para ir à praça assistir ao discurso do Raul, das caixas de charuto que ele comprou além de vários livros revolucionários incluindo exemplares do Capital editado em Cuba. Ele se gabou de uma sistema educacional que promove o mérito buscando identificar os talentos e tolera os ginetes, ou seja, os vagabundos que preferem viver da ração do estado e de tentar explorar os turistas.

Fiquei entre chocado e satisfeito com a sinceridade do jovem que dizia que valia a pena sacrificar a liberdade de 5% ou 10% da população no Brasil para que fosse dado à grande maioria condições dignas de vida. Na sua visão, a democracia burguesa deveria ser destruída e substituída pela democracia revolucionária, na qual cada bairro teria um comitê de defesa da revolução que cuidaria dos problemas locais e forneceria informações para o governo.

Segundo ele, o Partido Comunista Cubano é como uma maçonaria onde o ingresso requer a necessidade de convite por membros e a prévia investigação. Ainda segundo ele, o PCC é uma espécie de Conselho de Estado que elabora as políticas que são seguidas ou não por uma assembléia eleita a partir dos comitês revolucionários de bairro, de fábricas e das escolas.

Uma coisa em que ambos concordam é que a situação cubana depende da doação de 100.000 barris diários da Venezuela de Chavez. Sem isto, Cuba estaria em uma situação muito mais grave. De fato, para pagar pelo seu petróleo, os cubanos enviaram à Venezuela 50.000 médicos entre outros profissionais que prestam assistência à população e transferem o know-how revolucionário cubano. Eu apostaria que devem ter alguns milhares de conselheiros militares e pessoal de inteligência para ajudar a controlar as forças armadas venezuelas, afinal, Cuba não pode suportar a queda do regime chavista.

Por fim, cometi a imprudência de provocar o jovem com um artigo de um velho general francês que, entre os relatos de atrocidades cometidas em nome da democracia e da sociedade aberta, afirmou que Fidel passou a informação que resultou na morte de Che na Bolívia. Evidentemente, o Jovem leninista reagiu profundamente irado a uma afirmação como esta e aproveitou para amaldiçoar a Veja que detratou Che.

A meu ver, assim como existe Veja também existe Carta Capital e enquanto estivermos em uma democracia liberal, cada um lê o órgão de imprensa que desejar. Por outro lado, existem muitas teorias da conspiração sobre a morte de JFK e até do JK, por que não do Che? Por fim, em todos os movimentos revolucionários aqueles que chegam ao topo continuam matando-se uns aos outros até sobrar um só Highlander. A Revolução Francesa gerou um Napoleão. A Revolução Russa gerou um Stalin. A Revolução Chinesa, um Mao e a Cubana, um Fidel...

10 maio 2008

Toma que o filho é teu

O espectro de Malthus ainda ronda a consciência dos países subdesenvolvidos em torno da escassez de recursos.


Muitos dos representantes de ONGs e centros de pesquisa universitários no Brasil são menos hipócritas do que ignorantes, mesmo. O não reconhecimento de focos de criminalidade em áreas específicas pressupõe a não discriminação, mas na realidade não assume o crime enquanto crime, não lhe atribui causalidade tangível. O jargão marxista de que por trás das aparências existe uma essência, assim como a matéria tem uma estrutura molecular serve de salvo-conduto para não dizer nem apontar o que qualquer morador de periferia sabe. Nossos acadêmicos e militantes forjam sua própria falsa consciência ao tapar o Sol com uma peneira. Vejamos o caso da pesquisadora Adriana Gragnani, descrito por Janer Cristaldo. Sua crítica a declaração do governador fluminense que defendeu a contracepção como expediente para combater a miséria e a criminalidade, se dá com base em que o “direito ao próprio corpo” das mulheres não deve incluir o “direito ao próprio corpo com o intuito de não proliferar a miséria e outros ‘subprodutos’ indesejáveis”. Embora, a moça não o afirmasse, sua proposição de que o direito ao corpo não se relaciona a um fim relacionado, passa a idéia de uma agenda vinculada a uma causa. Parece que se trata de um “direito” para se cobrar um dever do estado em financiar sua prole, isto sim. O que também é corroborado pela ongueira, Camilla Ribeiro ao lamentar a falta de um “estado protetor” aos pobres.
A tal Gragnani está certa em dizer que o desenvolvimento é conseqüência da elevação do nível de vida tanto quanto se pode abusar da tautologia porque, no contexto em que foi dito, são as mesmíssimas coisas. Esta controvérsia entre o que deve vir primeiro, o desenvolvimento ou a contracepção, o ovo ou a galinha é a que embasou, em passado recente, anti-malthusianos (que defendem o “desenvolvimento” como política) contra os neomalthusianos que, como herdeiros de Malthus[1], defendem métodos contraceptivos. Estes mais práticos e rápidos em seu resultado: de não aumentar o tamanho da miséria.
Evidente que a mera contracepção não acaba com a miséria e a criminalidade, por si só. Mas, tem o efeito benfazejo de diminuir o crescimento do problema permitindo com isto, tornar os custos para soluções significativamente menores. O argumento do desenvolvimento social como panacéia sempre foi usado para refutar a contracepção, vista como expediente “imperialista” já que advogado pelos representantes dos países ricos. A crítica dos anti-malthusianos tinha um tom revolucionário como se fosse possível, numa tacada só, resolver todas deficiências sociais na área da educação, segurança, saúde e emprego em uma estratégia conjunta através da distribuição de renda. A velha cantilena da revolução totalitária como libertação humana...
Se formos compelidos a optar por uma única alternativa, claro que a anti-malthusiana que prega o desenvolvimento através da geração de empregos e escolarização é a melhor. Mas, não é tão simples assim, ainda mais quando se sabe que a bi-polaridade destas posições é uma falsa questão... Onde quer que tenha ocorrido a adequação demográfica às condições de subsistência, as massas adaptaram-se sozinhas na busca pela melhoria da qualidade de vida. “Massas” aqui se constituem de indivíduos, que provocaram esta transição demográfica, rumo à redução da natalidade simultânea à queda dos índices de mortalidade. Menos filhos e maior expectativa de vida.
A migração rural-urbana chegou a levar uma centena de anos em alguns países europeus na passagem do século XIX ao XX. Não foi um governo ou “política social” que ensinou aos europeus a vantagem de ter menos filhos, foi a necessidade em um meio no qual ter muitos filhos não era negócio. Ao contrário da realidade rural, na qual, filhos são mão de obra, na cidade são, antes de tudo, custos. O motivador foi determinante para se moldar uma cultura com tons administrativos em prol da unidade familiar. Não se trata de “economicismo”, pois se o fosse, regiões que demandam tal desenvolvimento e se encontram em franco processo de urbanização como a África Subsaariana e o Sudeste Asiático já estariam no mesmo caminho. O veredicto sobre a transição demográfica – quando ambas taxas de natalidade e mortalidade caem em sintonia --, não prescinde do chamado “capital cultural”. É necessário perceber que isto vai além das variáveis econométricas, se constituindo em uma resposta apreendida que procede de uma dada sociedade à pressão econômica, mas que nem todas foram, historicamente, capazes de efetivar.
A urbanização acelerada de décadas na conjuntura do pós-guerra nas sociedades latino-americanas, no entanto, não garantiu um aprendizado e transições auto-sustentáveis do ponto de vista do núcleo familiar. O que não significa que isto não esteja, tardiamente, ocorrendo. As taxas de crescimento vegetativo (crescimento populacional exclusive as imigrações) estão caindo em países como o Brasil que passou de 3% nos anos 60 para os atuais 1,3%. Em grande medida, as melhorias sociais que ocorrem em nosso país não derivam de políticas públicas, mas sim da resposta e adequação que os próprios indivíduos são capazes de dar.
A elevação do nível de vida não é, portanto, obra de um governo ou política de estado neste sentido. A interferência estatal, quando ocorreu, se limitou à distribuição de preservativos e anticoncepcionais. Há uma diferença entre estas e o fornecimento de bolsas-família nas quais não se cobra por nada em troca... A contracepção parte, antes de tudo, de uma decisão sobre a projeção de um problema futuro. O planejamento familiar e a contracepção são heranças do empenho a partir do legado de um capital cultural antiestatal contra a prática assistencialista endossada pelas “ações afirmativas”. Portanto, o direito ao próprio corpo pelas mulheres não deve servir de meio para inoculação de agendas ideológicas com o que deve ou não se relacionar. Isto só cabe aos indivíduos decidirem. Não importam quais sejam seus motivos (como a redução da criminalidade devido à parca subsistência), se seus efeitos, como uma melhor administração de recursos escassos dizerem respeito a quem mais sofre com a responsabilidade última de criar os filhos.
“Eles se preocupam quando nossos índices de natalidade aumentam, mas não dizem nada quanto às altas taxas de mortalidade infantil...” era um mantra constantemente repetido em minhas aulas na faculdade. Os anti-malthusianos eram bem representados por socialistas, terceiro-mundistas, especialmente os nacionalistas que viam na força de trabalho em crescimento, um recurso necessário ao desenvolvimento do seu idolatrado, estado-nação. A idéia de que técnicas contraceptivas pudessem ser adotadas como parte de um programa de alfabetização e educação globais só viria a fazer parte, infelizmente, bem mais tarde no ideário comum das delegações que se reuniam em torno do tema em conferências internacionais.
Enquanto neomalthusianos tinham como premissa que “se é pobre porque se têm muitos filhos”, os “politicamente corretos” anti-malthusianos diziam que “se tem muitos filhos porque se é pobre”. Só que a receita como corolário destes era tomada por vias tortas, isto é, com aumento de gastos estatais.
Os neo geralmente se constituíam por delegações de países ricos e os anti pelas de países pobres. Nunca chegavam a um denominador comum e os debates não eram nada profícuos nas décadas de 70 e 80. Mas, décadas de sucesso de políticas antinatalistas (mais bem sucedidas devido ao acato individual que qualquer imposição governamental) sem controle compulsório da natalidade ao estilo chinês, foram bem sucedidas onde adotadas. Nos anos 90, os anti se renderam a força dos fatos, tanto quanto os neo também tiveram sua contribuição ao considerar cada vez mais a necessidade de educar quem utilizaria tais métodos, ou seja, as mulheres.
Devido à opressão e submissão a que são submetidas nos países subdesenvolvidos, até os anos 90, 80% dos analfabetos no mundo era do sexo feminino. Não há como usar pílulas anticoncepcionais nos rincões rurais do III Mundo sem saber ler... Sem alfabetização (anti-malthusianismo) não se pode adotar com eficácia um método contraceptivo (neomalthusianismo).
Como conseqüência da mudança desta alteração de curso, em 1994 foi realizada no Cairo, a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (C.I.P.D.) que agregava pressupostos de ambos grupos numa tentativa de ação sinérgica. Parecia que o bom senso, finalmente, chegara. Mas, um grupo de delegações irresponsáveis se opôs. Adivinhe quem? Quem acha que procriar feito coelho é “louvar a obra divina”? Dou-lhe uma, dou-lhe duas... O VATICANO, os MUÇULMANOS e a ARGENTINA[2] se opuseram a C.I.P.D.
Quando reclamarem do número de crianças nos semáforos, de esquálidas figuras humanas na Etiópia e Somália, e quiserem encontrar co-responsáveis, olhem em direção ao Crescente e o Crucifixo.

[1] Thomas Robert Malthus mesmo, como pastor que foi, defendia a abstinência sexual como solução para o problema da superpopulação. Mesmo para religiosos como ele, a medida deve ser relativizada, pois teve vários filhos, o que não devia ser lá nenhum absurdo em fins do século XVIII…
[2] A delegação argentina foi orientada pelo governo de Carlos Menem para não se opor ao Vaticano por razões nitidamente eleitoreiras: para não alimentar a crítica de setores católicos conservadores contra o governo do presidente argentino, de ascendência árabe.

A Engenharia Política Petista

Verdade seja dita, as quotas raciais no Brasil não servem à população brasileira, mas a uma minoria interessada em ampliar o seu poder. Quem entrar no sitio do PT vai encontrar várias secretarias focadas em atingir as metas de fortalecimento do partido em alguns segmentos. Temos a Secretaria de Juventude que tem de mobilizar jovens e selecionar os futuros líderes do partido. Temos a Secretaria de Formação Política e Cultura que tem como objetivo reproduzir o PT way of life. Temos as Secretarias de Organização e Mobilização mais focadas na coordenação da ação política. Por fim, temos as secretarias voltadas para as clientelas especiais como a de Combate ao Racismo, Movimentos Populares, Mulheres, Meio Ambiente e Desenvolvimento e Sindical.

A Secretaria Sindical coordena a articulação do PT com a CUT, enquanto que a Secretaria de Movimentos Populares coordena a articulação com o MST e movimentos ligados a Igreja da Teologia da Libertação e outros. Esta é a base de poder atual do PT. Todo partido político tem como objetivo a conquista e a manutenção do poder. Neste intuito, ele precisa convencer determinados grupos que é o melhor veículo político para o atendimento dos seus interesses. Além disso, o partido precisa oferecer um discurso com efeito de verdade que seduza um grupo de interessados.

Quem nunca ouviu falar em guerra de sexos? Esta é uma boa oportunidade para a construção de um discurso político. Começa com a transposição da idéia marxista de exploração de classe para o relacionamento entre o homem e a mulher, e continua com a defesa de privilégios para o grupo supostamente explorado. O que ninguém diz é que as mulheres trabalham 5 anos a menos e tem uma expectativa de 5 anos mais longa do que os homens, fazendo com que elas usufruam da previdência 10 anos a mais, por exemplo.

Outra boa oportunidade é a questão da discriminação racial. Existem muitos pobres no Brasil e a maioria deles é negra. A sociedade brasileira sofre as conseqüências da escravidão e do modo como a abolição foi concretizada. Entretanto, a partir das idéias americanas de ação afirmativa, justificadas em termos de uma dívida histórica, foi construído um discurso que defende a implantação de quotas nas universidades para os descendentes negros e pobres destes escravos.

Estas quotas prejudicam os descendentes brancos e mestiços dos exploradores e dos explorados. Se as quotas são eficazes ou se elas beneficiam apenas uma pequena elite, tanto faz, o fato é que ela dá ao PT mais um discurso e cria para ele mais uma clientela eleitoral. Enquanto isto, o verdadeiro problema fica intocado, ou seja, as escolas públicas continuam ruins e ameaçando o futuro de milhões de brasileiros. Os maus políticos são assim, inventam soluções mentirosas para problemas verdadeiros. Contudo, é um belo discurso que deve embalar os sonhos de muitos idealistas, além de deixar muitos engenheiros políticos do partido satisfeitos.

Isto me faz lembrar do Plebiscito do Desarmamento promovido pelo PT. O fato é que o Brasil é um país extremamente violento. Agora, defender que a proibição da comercialização de armas vai resolver o problema da violência era uma falácia e felizmente a população percebeu.

Neste esforço de construção de discursos, eu me ofereço para colaborar com um novo. Gostaria de sugerir a Secretaria dos Gordos. Proponho a idéia de que eles não são responsáveis por serem gordos, mas sim que são vítimas de uma sociedade de consumo que os oprimem e estressam, fazendo com que estas pessoas sensíveis comam um pouco demais e, mais tarde, sejam discriminadas pelos magros e a sua ditadura da estética.

Aliás, faz todo sentido que o PT seja aliado da Igreja Universal. Esta é uma outra arapuca. Chega lá o sujeito arrasado e os caras dizem que é tudo culpa do demônio e dos encostos que podem ser tirados mediante uma pequena tortura e uma pagamento. Descem o pau no infeliz. O engraçado é que o negócio tem um efeito placebo, pois o cara sai de lá com auto-estima mais alta e motivado pela Teologia da Prosperidade, que diz que ele é filho de Deus e tem direito a tudo de bom da vida. Enfim, o pior é que em muitos casos o negócio deve funcionar, senão os caras já teriam ido à falência.

É como esta estória das quotas. Muita gente teria passado sem ajuda delas, no final só servirão a uma elite, e a grande maioria dos credores da dívida de exploração racial continuará na mão, mas isto já não é problema do PT.

Aliás, o racismo é um negócio odioso em qualquer sentido. Nos EUA, uma intelectual negra ativista estava criticando o Obama outro dia, alegando que ele não era um verdadeiro negro porque tinha sido criado por avós brancos e era filho de uma branca. O problema é que o sucesso de Obama, de Rice, de Powell atrapalham o discurso com efeito de verdade que serve aos interesses de uns poucos.

Enquanto isto, o circulo vicioso da pobreza continua. Não serão as promessas do Éden comunista de Marx que nos salvarão. Tampouco seria realista acreditarmos que todos os habitantes da terra terão o padrão de vida dos americanos e europeus. O progresso não está garantido, amanhã não será necessariamente melhor que ontem.

De fato, a verdadeira mudança começa em nós mesmos. É difícil, mas é verdadeira. Enquanto as pessoas não buscarem ser justas e se esforçarem para se realizar como seres humanos, o problema não será resolvido nem pelo comunismo, nem pelo PT, nem por ninguém. Resta descobrir como ajudar as pessoas a se interessarem pelo caminho difícil ao invés de se deixarem levar por discursos mentirosos.
Se bem que este papo de portador da verdade é bem pedante e não passa de outro discurso. Talvez, o melhor que nós temos sejam estas mentiras mesmo. Quem disse que as pessoas querem a verdade? Se a Verdade fosse boa não ficaríamos tão magoados quando a escutamos....
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