30 março 2021

Lincha! Lincha! Lincha!

 

Assistimos de camarote, comendo pipoca, o coronavírus partindo da China, chegando aos países vizinhos, ao Oriente Médio, encalhando em Suez por algum tempo (ok; não vimos isto), chegando à Europa e aos Estados Unidos, assistimos à devastação que causou, aos corpos insepultos na Itália, quais tebano Polinices, aos freezers nas ruas de Nova Iorque.

E chegou nossa vez. Enquanto europeus e americanos receberam milhares de infectados de uma só vez, até em cidades com turismo não tão expressivo, por aqui recebemos uns gatos pingados em alguns poucos aeroportos, e continuamos a assistir tudo comendo pipoca. Como na lenda do xadrez, na qual o ministro inventor do jogo pede ao Rei Shirham, que lhe prometera tudo quanto desejasse como prêmio pela criação que acabara com seu tédio, um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira, numa progressão geométrica de razão dois que resultaria em todo o trigo produzido no planeta por milhares de anos, de modo parecido assistimos nossos dois infectados virarem quatro, seis, quinhentos, enquanto europeus e americanos já iniciaram seu problema muitas casas além, no tabuleiro da transmissão.

Não havia motivo para pânico, diziam. Nosso clima é muito diferente e o vírus não sobreviveria muito bem por aqui, apesar de a temperatura do corpo saudável ser de 37 graus tanto aqui quanto no Himalaia e de o vírus ficar pouco tempo no ar entre um infectado e outro, e de migrar diretamente surfando em perdigotos, ou de ficar em suspensão no ar de ambientes fechados. Diziam que o brasileiro é mais forte, por nadar no esgoto e comer comida que caiu no chão. Um Ministro da Saúde interino chegou a dizer que o clima do Nordeste do Brasil era mais próximo ao temperado, do Hemisfério Norte, e por isso o pior já havia passado. Um empresário que se veste de verde e amarelo por ser muito patriota convenceu o presidente de que não havia motivo para pânico porque a densidade populacional da Itália é muito maior do que a brasileira, graças à Amazônia, ao Pantanal, à Caatinga, ao Cerrado, ao Pampa, às florestas, plantações e outras regiões desabitadas, o que impede que o vírus se propague, uma vez que todas festas, salas de aula, reuniões familiares obedecem também a essa densidade de 24 pessoas por quilômetro quadrado.

Países que tiveram sucesso em conter a disseminação do vírus fizeram muitos testes, isolaram os infectados, sua população usou máscara e respeitou as medidas de combate ao vírus, numa união nacional promovida quase sempre pelo líder da nação. E os brasileiros resolveram fechar o comércio, mas sem testes e quase sempre sem máscaras. E em todo o Brasil de uma vez. Isso enquanto os hospitais de campanha não ficavam prontos.

Foi aí que surgiu o falso dilema: saúde ou economia? O presidente optou por esta em detrimento daquela. Decretou que toda atividade era essencial, até mesmo as de barbeiro e motorista, barbeiro ou não. Ele e seus asseclas defendiam veementemente o isolamento vertical. Trancar-se-ia os velhos e pessoas com comorbidades enquanto o resto da população viveria normalmente. Hoje, com milhares de jovens morrendo diariamente de COVID, abandonaram essa ideia, aparentemente.

O STF interveio e disse que a responsabilidade era concorrente, entre prefeitos, governadores e presidente, e que as medidas mais restritivas vigorariam. Assim, tiravam do presidente o poder de boicotar o combate à pandemia, não o de ajudar a combatê-la. Poderia apenas ter lavado as mãos, como Pilatos, mas preferiu militar contra todas medidas sanitárias. Provocou aglomerações, falou contra máscara, contra isolamento, denunciou que hospitais de campanha estavam vazios e estimulou as pessoas a invadi-los para filmarem leitos desocupados, negou o número de mortos, militou contra a vacina, jogou a população contra governadores, prefeitos, Congresso e STF - não se fala aqui dos crimes que vários cometeram, dos desvios de recursos, dos inquéritos autoritários e ilegais - , participava de manifestações dominicais nas quais se pedia por intervenção militar, nas quais chegou de helicóptero, cavalgou com o cabelo ensebado ao vento e a pança a balançar, como um bom mau militar expulso da corporação há mais de trinta anos, por terrorismo. Zombou abjetamente dos mortos, cuspiu em seus caixões, chamou de "frouxidão", de "mimimi" o sofrimento dos enlutados. Seus defensores diziam que era apenas o jeitão dele, que, na prática, passava aos estados o dinheiro que estes primeiro enviaram à união, dava o auxílio emergencial imposto pelo Congresso. Maximilian I, do Sacro Império Romano-Germânico, acabou com as revoltas que eclodiam em todo o território, no reinado de seu pai, aprendendo a falar o húngaro, o tirolês, o flamengo, o francês - sete idiomas ao todo -, e, vestido sempre como os habitantes das províncias que visitava, conversava com o povo e demonstrava por todos o mais profundo respeito. Mas os seguidores incondicionais de nosso Incitatus querem crer que o comportamento do líder, suas falas e exemplos pouco importam. O presidente parou de agir como rainha louca depois que prenderam Fabrício Queiroz, ao qual sua família está ligada por crimes de peculato, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. 

E então apareceu a alquímica cloroquina, ideia saída de Marselha para o Brasil após passar pela Casa Branca, onde pouco antes a injeção de desinfetante no infectado fora descartada, sem quaisquer testes, apesar de ser uma solução etimologicamente correta. Esse remédio para a malária fixou-se no imaginário panaceico do presidente brasileiro, no lugar outrora ocupado pela pílula do câncer, pelo nióbio e pelo grafeno. E nosso líder supremo, mesmo sem ter CRM, passou a recomendar a droga para quem estava desenganado, nas últimas. Era uma esperança, dizia. Contudo, uma vez que o remédio era a solução, independentemente de resultados, já que seu objetivo principal era dar segurança à população para que esta baixasse a guarda e voltasse a trabalhar, depois que testes mundo a fora demonstraram que o risco de morte após ingerir cloroquina era maior para quem estava em estado grave, passou a defender esse remédio para todos que porventura se infectassem, numa bela defesa “ad hoc”. A droga salvaria a vida de 99% das pessoas contaminadas pelo vírus cuja letalidade era de 1%, grosso modo - maior hoje, no cenário de colapso do sistema de saúde. O presidente, como Lair Ribeiro em relação ao curry, afirmou que africanos acorriam aos postos de saúde com COVID e malária, recebiam medicamento para esta e se curavam de ambas. Lair Ribeiro disse que pessoas que consomem curry não desenvolvem Alzheimer porque nos países em que esse mix de temperos é comum a doença degenerativa acomete pouquíssimos. O fato de a expectativa de vida ser baixa nesses locais nem deve passar pela cachimônia desses gênios. Simplesmente não há muitos velhos para sofrerem de males que acometem principalmente os velhos. Quem se banha duas vezes por ano na lama de Vanua Levu, nas ilhas Fiji, tem uma vida mais longa e feliz. Porque só milionários podem ir duas vezes por ano ao Pacífico Sul para se banhar em lama medicinal.

Médicos mercenários começaram a fazer “lives” com jornalistas e com o próprio presidente, passaram a defender o “Tratamento Precoce”, mero eufemismo para “cloroquina goela abaixo”. Milhares de vídeos passaram a circular no Whatsapp, no Youtube, espalhando desinformação. Redes de rádio e TV passaram a dar uma "cara oficial" às mentiras. Participavam das "lives" patéticas, de quinta - no dia da semana e também no nível. Cidades passaram a distribuir ivermectina e cloroquina, até em drive-thrus. Quando analisávamos os alegados sucessos, não víamos em gráficos qualquer mudança nas curvas de mortos, a partir do momento em que se adotou o procedimento. Nem em Belém, nem em Marselha, Porto Feliz ou Itajaí. Esta cidade, por exemplo, tem letalidade duas vezes maior do que a média de Santa Catarina. É a cidade da ivermectina e do ozônio retal. Estudos e mais estudos internacionais passaram a confirmar a completa ineficácia do “kit COVID”. Independentemente disso, o governo continuou a promover o procedimento. Criou um aplicativo que receitava cloroquina até para recém-nascidos com febre e diarreia. Membros do Ministério da Saúde levaram o kit COVID para Manaus enquanto esta cidade implorava por oxigênio. 

Ainda no início da pandemia, o presidente brasileiro incomodou-se com a popularidade de seu Ministro da Saúde e com sua resistência em condenar a quarentena e em promover a cloroquina, e o demitiu. Aquele que o substituiu saiu por motivo idêntico um mês depois de assumir o posto. O presidente colocou em seu lugar um general três estrelas que não seria sargento em qualquer exército do mundo, exceto no de Brancaleone. Era o mesmo general que disse que o Nordeste era, climaticamente, ligado ao hemisfério norte. Disse não conhecer o SUS. Era um especialista em logística que esteve à frente do Depósito Nacional de Munições quando vinte e cinco toneladas de artefatos bélicos foram desviados. Meses depois, já como preposto oficial do verdadeiro ministro da saúde – o presidente -, enviou vacinas por engano a uma cidade distante mil quilômetros do destino almejado.

E na medida em que o Brasil avançava em número de mortos, os malabarismos estatísticos começaram a aparecer. Parte da mídia passou a ser criticada por divulgar o número de óbitos e não o número de sobreviventes, apesar de estes se contarem sempre em um número dezenas de vezes maior do que o de mortos, independentemente do que se faça. Passou-se a comemorar os mortos por milhão de habitantes. Não éramos os piores! Nos rankings divulgados nos grupos de Whatsapp, a lista era encabeçada por países como San Marino, Liechtenstein – ambos com menos de 40 mil habitantes -, Bélgica e outros. Num campeonato brasileiro, seria o 18º colocado comemorando por não ser o 20º. Para eles, um atentado que mata mil em Nova Iorque é um sucesso em comparação a outro que mata número idêntico em Miami, afinal aqui há mais “mortos por milhão”. Isso faz sentido quando comparamos acidentes de carro, assassinatos, vítimas de doenças cardiovasculares, mas não faz sentido quando temos uma doença contagiosa que começa apenas em alguns indivíduos e sua disseminação deve ser contida a todo custo, obviamente. O que importa se fora da cidade em que o primeiro caso surgiu há 1 bilhão ou 200 milhões de habitantes? Cada avanço da doença é uma derrota idêntica. Termos chegado a este ponto começando da “primeira casa do tabuleiro” é ainda mais grave do que a Itália ter chegado aonde chegou após ter recebido milhares de infectados de uma vez, ter começado “na décima casa do tabuleiro” – voltando à analogia com a lenda do xadrez.

Depois, passaram a negar que tantos morriam de COVID. Pessoas morreriam COM COVID e os óbitos seriam reportados como DE COVID. A Transparência do Registro Civil colocou por terra mais esse engodo. 60 mil mortos a mais de causas naturais, de um ano para outro, nos seis primeiros meses. 200 mil a mais no ano inteiro de 2020, em relação a 2019. Não estou contando, obviamente, estes três primeiros nefastos meses.

E as vacinas despontaram no horizonte, em meados de 2020. O chanceler fanático e sem experiência, que anos atrás louvara a luta de Dilma contra a ditadura que hoje nega que tenha existido, e que foi indicado pelo Astrólogo da Virgínia, militou para que o Brasil não participasse do consórcio Covax-facility para a aquisição de vacinas, pois não queria fortalecer a OMS, entidade ligada ao “globalismo”, segundo suas crenças. Foram contra a vacina do Butantan, contra qualquer vacina. Era muito pouco tempo para se desenvolver uma, diziam. “E os efeitos colaterais?”, “E por que insistem em negar a cloroquina e a ivermectina?”, “Querem mais mortos?” – diziam. E criaram a falsa questão da obrigatoriedade da vacina, em nome de uma suposta defesa da liberdade, isso quando não havia vacinas suficientes para quem as quisesse.

Aos 48 minutos do segundo tempo, sem vacinas, com a pandemia fugindo mais ainda do controle e novas cepas mais contagiosas surgindo, o governo desesperou. Tentou confiscar até mesmo as seringas de São Paulo. Hoje há alguma vacinação graças à vacina de São Paulo, do Dória, do Butantan. Agora, o presidente e seus asseclas comemoram os números absolutos da vacinação. Não o percentual de população vacinada. Análise dos números muito conveniente. A questão é que se tenta conter ao máximo o avanço de uma doença contagiosa que se iniciou com poucos infectados. Medimos aqui o fracasso do governo pelo número absoluto de mortos. Já no caso da vacinação a meta é vacinar 100% da população. Assim, Israel é um sucesso ao aplicar 9 milhões de vacinas. O Brasil um fracasso por ter vacinado apenas 16 milhões, num mesmo intervalo de tempo. Cada país deve se programar de acordo com sua realidade. Quando perdermos até no quesito "mortos por hectare", os bolsonaristas incluirão os 22 km de Mar Territorial, ao longo de toda nossa costa. Dar-nos-ão uma vantagem em relação ao Paraguai e à Bolívia.

O Brasil, sem vacinas e com altíssima taxa de transmissão, não tem alternativas a não ser adotar medidas restritivas. A doença vai avançando exponencialmente. Já estamos na metade do tabuleiro. Aqueles que criticavam a construção de hospitais de campanha e diziam que estavam vazios, agora perguntam por que foram desativados. Mas a questão não é o número limitado de leitos de UTI. A doença avança a galope. Não é possível criar leitos de UTI no mesmo ritmo. E, ainda assim, não há profissionais da saúde suficientes. O único jeito agora, sem termos vacina, é o isolamento. Bolsonaristas chamam qualquer restrição de “lockdown”. Dizem que ele mata. Mais do que o vírus.

Os bolsonaristas erram feio em absolutamente tudo. Na cloroquina, ivermectina, máscara, número real de mortos, isolamento vertical, vacina, quarentena. Mas não têm vergonha. Como seu líder, não reconhecem qualquer erro. E continuam a apoiar o presidente, a ver nele um paladino do combate à corrupção, um paladino da liberdade, da verdade, do liberalismo econômico, da civilização ocidental, da Justiça, acreditam que a história da rachadinha é intriga da oposição, que a ligação com o Centrão é Realpolitik, que os fins justificam os meios e que, no fim das contas, tudo é válido para se combater o “globalismo” e o “marxismo cultural”.

Já começo a perceber, em várias reses, o discurso de "era uma doença nova", "ninguém sabia muito sobre ela", "o culpado era o coronavírus", para se vacinarem de críticas pela postura insana ao longo do último ano. Tarde demais. Isso poderia ter sido dito em abril, maio do ano passado. Não hoje. Mas, claro, normalmente insistem em velhas mentiras, para vencer pelo cansaço, desestimular mesmo o debate: "Bolsonaro foi impedido de agir pelo STF. O presidente não foi contra as vacinas; queria que fossem antes aprovadas pela Anvisa. OMS falou contra o lockdown. Angela Merkel pediu desculpas pelo lockdown. Este mata mais do que o vírus. Ivermectina é excelente profilático". Há vídeo em que Bolsonaro diz que não compraria a Coronavac nem com aprovação da Anvisa, ele negociou com a Astrazeneca antes da aprovação da Agência e nos mesmos termos que disse serem abusivos na oferta da Pfizer. A OMS disse que lockdown não deveria ser usado como medida primária. Angela Merkel pediu desculpas por cancelar o lockdown da Páscoa, porque não houve tempo hábil para implantá-lo. Bolsonaristas adoram fazer a Brutta Figura!

Bolsonaro deve ser afastado imediatamente do cargo. E depois disso deve ser julgado por assassinato em massa. Deliberado. Os bolsonaristas também são culpados? São aqueles que gritaram “lincha!, lincha!, lincha!" no pogrom. Que convivam com a própria consciência!

14 março 2021

Democracia - resposta a C. Mouro

 Comentando comentários de C. Mouro:


“Estamos vendo o stf respeitar as leis perfeitamente.” (em tom de ironia)


 Para um país ser considerado uma democracia, atualmente, não deve haver apenas a vontade da maioria. Deve haver princípios pétreos universalmente aceitos e não passíveis de serem alterados pelo voto. Um país em que é possível que 51% da população vote uma lei que autorize a escravidão dos demais 49% não é considerado uma democracia. Mas, claro, nada impede que se crie uma “democracia” comunista, com sovietes e outros conselhos populares decidindo inclusive por marchas forçadas de povos, e outras atrocidades.

 

 O STF agir desrespeitando as leis, num inquérito em que é vítima, investigador, advogado de acusação e juiz, é a prova de que nesta democracia há uma falha grave nos “checks and balances”. Era para o Senado colocar um freio no STF. Na verdade, no início da legislatura atual havia uma grande onda, respaldada pela sociedade, para se promover impeachment de ministro do Supremo e para ser instalada a tal CPI da Lava-Toga. Mas isto não prosperou depois que Toffoli suspendeu todas as investigações baseadas em dados obtidos do COAF sem autorização judicial – o que beneficiava o Willy Wonka, o 01, e outros culpados de peculato, no eufemismo no diminutivo chamado de “rachadinha”. A famiglia presidencial conseguiu sufocar todos os movimentos do Senado contra o STF. Este ficou mais forte, com menos freios, mais confiante, menos democrático – do jeito talvez que o nobre Mouro goste. Vivemos, assim, numa quase “undecarquia” – um governo de onze monarcas.

 

Não endeuso a democracia. Não acho que seja o melhor regime para qualquer país. Ela não funcionaria em muitos países árabes nos quais uma Irmandade Islâmica pode subir democraticamente para depois implantar uma teocracia e perseguir rivais, minorias. Como no Iraque. Americanos impõem a democracia. A maioria xiita ganha as eleições, extingue o exército sunita de Saddam, e uma força militar desempregada como essa acaba virando o Estado Islâmico – grosseiramente foi isso. Em casos assim, o melhor é um governo que garanta pela força que haja algum respeito a algumas cláusulas pétreas comuns a outras democracias. Nos Emirados Árabes: Talvez uma democracia teria feito com que o país fosse vítima da maldição do petróleo, a commodity sob cuja fronde nada nasce. E na China? Talvez fosse um perigo, um bilhão e meio de pessoas em debates democráticos, grupos separatistas... Apesar de hoje haver por lá algum respeito a contratos, cidadãos poderem sair do país se quiserem, haver uma certa liberdade - desde que não se faça oposição ao regime ditatorial -, apesar disso, acho que seria melhor que lá houvesse mais liberdade, inclusive a possibilidade de se colocar alguém ruim, mentiroso, pelo voto, desde que isso não implicasse guerras intestinas, conflitos, miséria, milhões de mortes.  A democracia é quase um luxo para poucos.

 

Quanta destruição a democracia não evitou na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial? Em quase oitenta anos? Já houve um período assim antes, na Europa? Acho que nunca houve uma guerra entre duas grandes nações democráticas. Malvinas, por exemplo, foi entre a democracia inglesa e a ditadura argentina. Na História teríamos, talvez, a Guerra do Peloponeso, a Segunda Guerra Púnica (Cartago era então uma democracia oligárquica), a guerra hispano-americana no século XIX e pequenos conflitos no século XX, como a Guerra dos Seis Dias, uma vez que Líbano e Israel eram democracias.


...a democracia é o Paraíso lá no futuro sem data. Exatamente igual qq Paraíso prometido ou profetizado: a cenoura na ponta da vara amarrada ao corpo do cavalo."

 

A democracia é muitas vezes implantada a partir de uma tirania, de uma ditadura, muitas vezes com a permissão do ditador, por sua vontade. Ou é implantada com um golpe, uma revolução – os quais não são nem um pouco democráticos.
E muitas ditaduras nascem na democracia, muitas vezes com o apoio do povo. Já era um pouco assim no mundo antigo, onde havia democracia direta. Lemos em “A Cidade Antiga”, de Fustel de  Coulanges, que devido a constantes guerras e a morte de nobres e de soldados, acabavam por armar as classes inferiores. Estas acabavam implementando a democracia. A democracia acabava degenerando num populismo, o populismo na tirania, a tirania era combatida por aristocratas exilados, que depois implantavam uma aristocracia, uma plutocracia que despertava inveja no povo, que queria democracia, etc. Mais recentemente, houve uma espécie de democracia monárquica por mais de mil anos em Veneza – a República Sereníssima. Napoleão pôs fim a ela; ele, um revolucionário contra o Ancient Regime... Há lugares em que talvez jamais haverá democracia. Há lugares em que é natural que haja. Há lugares em que ela vai e depois volta. Nela não se vende um fim, um ponto ideal de perfeição, para se justificar os torpes meios, como acontece em regimes como o comunista. Todos sabemos que ela é frágil e imperfeita, fruto de longas conquistas, pode desvanecer-se a qualquer momento. Ela tem suas vantagens e desvantagens. E ela tem que evoluir. Deve haver isonomia na Justiça, a representatividade pode variar, pode ser por colégios eleitorais, voto distrital misto, pode ser parlamentarismo, semipresidencialismo, etc.

 

“A Venezuela é absolutamente democrática e Maduro, tanto qto Chaves, foi eleito.”

 

Sim. E a Síria de Hafez Al Assad também era democrática. Estive lá em 1992. A votação era “sim” ou “não” para ele continuar no poder. Ganhou com 99,9% dos votos... rsrs

Quem ousa afirmar que a Venezuela não é uma ditadura porque Chávez subiu democraticamente e até porque, vá lá, o povo em algum momento votou para continuar sendo governado por um tirano, o qual dissolve parlamento, prende juízes, muda a Constituição? Isso é uma democracia? Se 51% do povo desejarem tirar Maduro no próximo pleito, isso será possível? Não? Então não é uma democracia.

 

“Sob Pinochet havia mais liberdade para a população do que atualmente as democracias européias(...)”

“NOS USA a fraude foi gritante(...)”

"As FARC na Colombia mataram mais de 50 mil pessoas. Viraram concorrentes politicos defendidas pelos mesmos que queriam punição aos corruptos milicos que mataram e terroristas."


A lista de burrices, autoritarismos, injustiças na democracia é grande.

Mas se começarmos a listar o que foi feito em regimes nada democráticos como os de Mao, Stalin, Fidel, Pinochet, Hitler, Franco, Salazar, etc., a lista será 1000 vezes maior. Entrando no mérito de um de seus exemplos: O Bolsonaro disse que tinha provas da fraude nos EUA. Mas não as apresentou. E disse que tinha provas da fraude nas eleições de 2018 no Brasil, mas nunca as apresentou. As alegações de fraude por lá não se sustentam. E eu achando que nunca havia visto nada mais ridículo do que democratas chorando e esperneando após a vitória de Trump em 2016... Mas Trump e seus seguidores conseguiram superá-los no ridículo. E que povinho aquele que invadiu o Congresso... hahaha... uma caterva de imbecis!

 

 Sobre as sanções internacionais e danos ao governo totalitário, não foi minha intenção afirmar que isso sempre ocorre. Claro que quando falamos de potências econômicas e militares violando Direitos Humanos, há rugidos inócuos da ONU, denúncias impotentes de outras democracias, etc. Mas há um consenso de que em uma democracia há temas não passíveis de serem votados, como, por exemplo, se um grupo étnico deve ou não ser exterminado em Campos de Concentração.

 

“A democracia não só pode defenestrar os maus, mas também os bons.”

 

Sim. A democracia pode elevar bons e maus ao poder. E pode defenestrar maus e bons. Só o poder de defenestrar os maus já vale. Se tal poder não existe, não se está em uma democracia. Simples assim. E é mais difícil se livrar de ditadores. É o caso da Venezuela, uma democracia para petistas, psolistas e para o C. Mouro. rsrs

 

“Numa ditadura pode haver mais liberdade para a população do que numa democracia.”



Sim. Alguém que fuma inveteradamente pode viver mais do que alguém que cuida muito da saúde. E daí? Eu mesmo escrevi que leis justas podem ser promulgadas numa ditadura, e leis injustas numa democracia. O fato de poder haver, eventualmente, mais liberdade em uma ditadura, não quer dizer que a ditadura seja o regime mais propício à liberdade das gentes.



“Aburdo que digam que a democracia defende as minorias, quando POR DEFINIÇÃO a democracia é exatamente a IMPOSIÇÃO DA VONTADE DA MAIORIA. Não cabendo qualquer direito as minorias eleitoralmente derrotadas.”

 

Os americanos elegeram Bush, Obama, Trump e agora Biden. Lula saiu com 90% de aprovação. Bem grosseiramente, na melhor das hipóteses 4/5 dos que votaram no Bolsonaro já foram lulistas em algum momento. Muitas vezes as “minorias eleitoralmente derrotadas” foram maioria eleitoral poucos anos antes. Os petistas derrotados em 1994 tiveram direito de fruir das vantagens do Plano Real. Um partido derrotado por uma margem pequena de votos ganha, numa democracia, o poder de ser uma forte e livre oposição. Obstrui pautas, força negociações, pode ganhar força para o próximo pleito.

 

“Porém um elito com 74 mil votos, seu voto no congresso tem o mesmo valor de um eleito com mais de um milhão de votos.”

 

Sim. Acho que nossa democracia deve evoluir muito. Parlamentarismo, voto distrital misto. De fato, a baixa representatividade do eleitor paulista em relação ao acreano é um absurdo.

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