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15 janeiro 2013

A Ditadura de Chávez

Mais uma vez a democracia Venezuelana se revela uma farsa e seu país se mostra profundamente dividido. O homem que se pretendia o líder do socialismo do século XXI revela-se mais um caudillo e sua carreira política termina como começou, com um golpe. Inflação de mais de 1000%, escalada de violência, profunda divisão nacional e escassez de alimentos são marca de seu governo, que iria para o 14º ano. Seu estado de saúde é segredo de Estado só conhecido por alguns colaboradores com o apoio do serviço secreto cubano. De fato, ignora-se mesmo se o líder da Revolução Bolivariana encontra-se morto e esteja sendo usado como o cavaleiro castelhano “El Cid”, cuja lenda diz que seu cadáver foi vestido em uma armadura e montado em seu cavalo Babieca para elevar a moral da tropa ou mesmo para ganhar uma batalha, dependendo da versão.

Chávez era um misto de presidente da República e Silvio Santos com seu programa dominical, onde usava a sua verve para atacar os Estados Unidos, que também é seu maior cliente e comprador de petróleo, maior fonte de riquezas nacional. Mas falar mal dos gringos é um passatempo muito popular na América Latina, assim como fazer compras em Miami.

Comparando o Brasil a seus hermanos, acho que estamos em vantagem. Em nossa história, golpes militares foram dados por generais ou marechais. Nos nossos vizinhos, qualquer coronel achava que podia fundar um novo governo. O tenente-coronel Chávez deu o seu golpe em 1992, mas fracassou e foi preso. Em retrospecto, o maior erro do presidente Perez foi ter perdoado o golpista. Às vezes, a tentação para a conciliação se revela uma grande e desastrosa fraqueza.

A história da Venezuelana é cheia de golpes e de ditadores. O mais famoso foi Juan Vicente Gomez em cujo governo o petróleo foi descoberto no lago Maracaibo. Chávez sonhava em permanecer no poder por 30 anos, mais tempo do que Gomez, que ficou de 1908 a 1935. Em seu governo, o Exército ajudava a cuidar do gado do ilustre ditador e a Venezuela era sua grande hacienda. A maioria dos seus cerca de 64 filhos encontrou empregos ou favores no governo.

Após a partida deste ditador, teve-se mais alguns golpes e um ambiente político polarizado pelo COPEI e pela Ação Democrática. Apesar disso tudo podemos destacar o ministro venezuelano Juan Pérez Alfonzo, que foi um dos fundadores da OPEP ao lado do sheik Abdhullah Tariki. Alfonso, após amargar o exílio nos Estados Unidos, voltou para servir no governo após a queda do ditador Gomez. Ficou impressionado com a riqueza que encontrou na capital e com o desperdício da era do petróleo. Mandou o carro que usava nos Estados Unidos, um Singer, e só foi avisado de sua chegada ao porto 3 meses depois do fato. Quando mandou um mecânico buscar o carro ele já se encontrava enferrujado. O mecânico descuidou de verificar o óleo e fundiu o motor e o carro chegou a sua casa de reboque. Fez questão de colocar o carro em seu jardim como um símbolo do desperdício em seu país vivendo na opulência do petróleo.

Talvez este seja o problema da Venezuela. Ditaduras, petróleo e populismo. Talvez este seja o segredo de Chávez que, como todo líder carismático, também conta com a sorte a seu lado e no caso dele um petróleo próximo da casa dos US$ 100. Para se ter uma ideia, quando ele assumiu valia menos de US$ 20. Enfim, os filhos do grande papai Chávez desfilarão nas ruas e matarão em seu nome órfãos de suas promessas e a espera de mais alguém que os venha salvar.

02 março 2008

A Esquerda e a Guerra na América do Sul

Recentemente, foi morto um dos sete membros do secretariado das FARC, cujo acampamento estava 2 quilômetros dentro do território do Equador. Diante deste incidente, Chávez respondeu que se algo semelhante ocorresse na Venezuela, poderia ser a razão para uma guerra. Diante destes eventos, lembrei-me das minhas professorinhas do ensino médio e da sua mania de dizer que vivíamos em um lugar de paz eterna na América do Sul e que, portanto, não havia sentido em gastar dinheiro com armas em um país onde as pessoas passavam fome.

A Colômbia está em guerra civil há quarenta anos com esta guerrilha do Partido Comunista Colombiano que conta com simpatizantes pelo mundo afora, inclusive o mais popular historiador marxista, o Eric Hobsbawm, que criticou as injustiças do estado colombiano, a quem nega legitimidade. Enfim, agora sabemos como a elite das FARC sobrevive: alguns estão na floresta venezuelana, outros na equatoriana, e talvez haja alguns em território brasileiro. Depois da declaração de Chávez, podemos ter certeza de que parte do secretariado das FARC está escondida na Venezuela.

Apesar de não vivermos no Brasil em uma guerra civil declarada, entre 1996 e 2006 foram assassinados meio milhão de brasileiros. Os esquerdistas culpam a existência de armas de fogo e a injustiça social por isso. De fato, creio que boa parte destas mortes é explicada pela ação das quadrilhas de traficantes de drogas e pela existência de grupos de extermínio. O nível atual de organização das quadrilhas de traficantes de drogas deve muito aos antigos presos políticos da esquerda. Quanto aos grupos de extermínio, são a solução encontrada pela comunidade e por comerciantes, que pagam a policiais para exterminar jovens criminosos. De fato, a eliminação destes jovens pode até ser um fator de redução do número de assassinatos. Enquanto isto, os esquerdistas vêm com este papo furado politicamente correto defendendo a proibição da venda de armas e com campanhas para desarmar os cidadãos corretos, que pagam os impostos que sustentam a corja dos companheiros ,como vimos detalhadamente no escândalo do Mensalão, dos Cartões e das ONGs.

Mas voltando à questão da segurança sul-americana, temos agora uma possibilidade de guerra real à vista, caso o governo colombiano mate algum membro da elite das FARC na fronteira com a Venezuela. Uma guerra na floresta amazônica iria obrigar a mobilização do exército brasileiro na floresta para evitar que ela fosse usada pelas forças em conflito. A simples presença das forças brasileiras, por outro lado, aumenta o risco de “acidentes”. Levando em consideração os nossos atuais governantes, o peso das nossas forças poderia ser colocado ao lado dos venezuelanos, enquanto os Estados Unidos perfilariam ao lado da Colômbia... E poderíamos dar adeus à longa paz sul-americana. Mas o que alguém poderia esperar destas odiosas doutrinas marxistas que explicam a história pelo conflito entre opressores e oprimidos?

Devemos agradecer muito disso ao grande Fidel Castro; em um artigo surpreendente do Mino Carta ele se pergunta o que teria acontecido na América do Sul se a Geração 68 não tivesse se deslumbrado com a Revolução Cubana e desejado adotar o seu modelo. Talvez a história tivesse sido diferente e os americanos tivessem reagido menos histericamente os governos populistas que aos seus olhos se tornavam um foco de comunistas ansiosos por se aliar à União Soviética. Em certo sentido, tudo começa com a reação exagerada dos EUA diante da perda da sua influência em Cuba, o que acabou jogando Castro no colo dos soviéticos.


Fidel fez um grande estrago, as repercussoes da Crise dos Misseis mataram Kennedy, derrubaram Kruchev e lançaram os americanos em um Cruzada contra os seguidores dos grandes heróis cubanos na America do Sul. Neste ponto, uno-me à saudação de John McCain, que, a respeito da saída de Fidel do poder, desejou-lhe uma partida breve para o inferno para se encontrar com Karl Marx.

14 fevereiro 2008

A Geopolítica de Chávez

Os analistas comentam que depois da derrota no referendo que limitou por enquanto a sua reeleição indefinida, Chávez estaria menos agressivo na sua política externa. Não foi isso que observamos na semana passada, quando ele reagiu ao congelamento dos bens da PDVSA no exterior pela Exxon em represália pelas expropriações sofridas na Venezuela, ameaçando suspender as exportações para os EUA, de cujas importações seu país representa 16% e onde a PDVSA tem a sua operação mais lucrativa. O fato é que o negócio do Chávez não é dinheiro e sim poder, portanto sua sensibilidade a prejuízos financeiros fica em segundo plano.

Oficial graduado em 1975, engenheiro, em 1992 ele comandou cerca de 300 homens contra o presidente Carlos Andrés Perez, em um golpe de Estado fracassado, inaugurando este expediente na Venezuela. A elite estava “podre” e manifestações populares espontâneas já estavam acontecendo; faltava apenas alguém que se pusesse à frente da multidão para surfá-la.

Passou dois anos na cadeia e foi indultado, assim como a Dilma e outros guerrilheiros que hoje se encontram no poder. Foi eleito em 1999, daí seguiu a receita da Revolução Francesa e convocou uma Constituinte para a qual seu partido obteve 120 das 131 cadeiras. Fez isso rapidamente, enquanto a sua popularidade estava elevada. Com a Constituinte, aumentou os poderes presidenciais e enfraqueceu o Congresso com a eliminação do Senado.

Chávez até obteve da Constituinte poderes para governar por decreto por um ano. Nesta ocasião, o coronel nacionalizou o petróleo e realizou uma reforma agrária. A sociedade reagiu e Chávez demitiu cerca de 16.000 empregados da PDVSA que fizeram greves contra o governo, substituindo-os por gente da sua confiança. Em seguida, sofreu um golpe articulado com participação dos EUA, do qual escapou.

Reeleito em 2006, unificou os partidos que o apoiavam e diante da ausência de oposição, consolidou o poder de um partido único, portanto totalitário. Ganhou também o direito de governar em 11 áreas por decreto por 18 meses. A questão diante desta estonteante trajetória é: o que ele pretende fazer?

Já sabemos que ele apoiou a Bolívia na nacionalização dos hidrocarbonetos, que prejudicou particularmente a Petrobras e o Brasil. Nesta ocasião, a Petrobras teve um prejuízo de uns US$ 5 bilhões de dólares enquanto as receitas de petróleo do estado boliviano saltaram de uns US$ 200 milhões para cerca de US$ 2 bi ao ano. Sabemos que ele apoiou financeiramente a campanha da Kirchner na Argentina. Sabemos que hoje ele tem a maior capacidade militar da América Latina (caças russos, uma fábrica de Kalichnikhov,...). Sabemos que ele apóia as FARC com armas e facilitação para o escoamento das drogas. Sabemos que ele gostaria de construir um gasoduto ligando-o à Argentina, através do Brasil, consolidando uma política de influência na América do Sul ao estilo da Rússia na Europa.

Diante da descoberta do super campo de Tupi, a influência de Chávez diminuiu um pouco, particularmente em relação ao Brasil. Entretanto, os analistas projetam que em 2010 a Argentina perderá a auto-suficiência e será véspera da reeleição da Kirchner, logo Chavez passará a ter uma influência decisiva sobre a Argentina por ser sua alternativa de fornecimento, pois provavelmente só ele terá petróleo ao preço que os argentinos estarão dispostos a pagar.

Os analistas acham que a PDVSA não tem recursos suficientes para bancar o famoso gasoduto Transpinel, investir na já declinante produção e distribuir o Bolsa Família Venezuelano. Entretanto, nosso amigo Chávez é criativo e tem buscado o apoio do Irã e da China. Os analistas acham que a China não estaria disposta a patrocinar os projetos geopolíticos de Chávez, por não ter interesse em aumentar o grau de confrontação com os EUA, ao menos neste momento. Quanto ao Irã, este poderia ter disposição, mas não tem o caixa chinês.

No Brasil, alguns grupos ligados à ministra Dilma continuam estudando o gasoduto Transpinel e buscando alternativas para viabilizá-lo. A Argentina gostaria muito da sua construção, mas não tem os recursos disponíveis para patrociná-lo. Eu diria então que os planos de Chávez dependem enormemente do Brasil e, considerando que ele gastou dinheiro na Argentina, imagine o quanto ele não se empenhará para que algum petista chegue ao poder em 2010.

02 julho 2007

O Exército de Chávez

Alguns petistas mais ligados aos ideais da geração de 68 vêem no regime chavista um aliado ideológico. Alguns como a Dilma defendem a construção do Gasur, um gasoduto que atravessaria o território brasileiro e conectaria a Venezuela à Argentina. De fato, este gasoduto tem o potencial de gerar enormes prejuízos para a Petrobras, muito maiores do que os sofridos com as perdas na Bolívia. Mas agora temos um complicador nesta história; a Venezuela mostra ambições militares além das estratégicas e inicia uma corrida armamentista.

Recentemente, em suas conversas com Putin, Chávez teria dito que vê a Venezuela em relação à América como a Rússia em relação à Europa. Entretanto, observa-se que as relações entre os europeus e os russos têm sofrido estremecimentos diante da interrupção de fornecimento de gás para a Alemanha, e de outras ameaças russas.

Sob a alegação de temer uma invasão militar americana, os venezuelanos iniciaram esta corrida armamentista – na verdade uma corrida aos shoppings militares do mundo levando consigo o dinheiro do petróleo. De fato, a Venezuela tem uma disputa territorial com os EUA, a França e a Holanda em sua plataforma continental cheia de petróleo.

Atualmente, a Venezuela treina um contingente de 2 milhões de reservistas que deseja reintegrar às forças armadas visando preparar-se para uma longa guerrilha contra uma possível invasão americana. Esta demonização do maior comprador do petróleo venezuelano não deixa de ser curiosa.

Em 2000, as Forças Armadas Venezuelanas tinham um contingente de 75.000 homens. Em 2005, cerca de 100.000 homens foram adicionados a um corpo separado das forças armadas. Elas são organizadas em seis corpos subordinados a dois comandos independentes. Esta estrutura parece refletir mais o temor de sofrer um novo golpe interno do que um sistema eficiente de combate a um inimigo externo.

A lista de compras de equipamento militar de Chávez inclui: 12 navios de transporte e aviões de reconhecimento e oito navios patrulha comprados da Espanha; 100 mil rifles AK-103, 12 helicópteros Mi-17, 24 caças Su-30 e 6 submarinos de ataque a diesel da Rússia; sistemas de radar da China; sistema antiaéreo da Bielorussia e a licença para produzir os rifles de assalto AK em seu território.

Os venezuelanos tentaram adquirir outros equipamentos mas sofreram embargo dos americanos, que ameaçam as empresas ou países vendedores com perdas de contratos ou de licenças de uso de tecnologia americana. Além disso, os venezuelanos acusam os americanos de não oferecerem manutenção adequada à esquadrilha venezuelana de F-16.

E o Brasil? Seria realmente de nosso interesse construir um gasoduto caríssimo que aumentaria a nossa dependência de um regime que no futuro poderá estar desalinhado ideologicamente com o nosso, que não tem uma prática democrática, que tem tradição em rompimento de contratos e que está se tornando uma potência militar?


13 abril 2007

A Ressurreição do Socialismo

Há algum tempo, os pensadores americanos imaginavam que a história havia acabado, com a queda do Muro de Berlim e a fragmentação do gigante soviético. Pensavam que o socialismo estava condenado diante da falência do socialismo real. O próprio FHC, um grande ex-pensador marxista, achava que a Globalização Americana seria irresistível e que a tecnologia da informação jogaria a sociedade mundial em uma nova era de crescimento infinito, e de nada adiantava ao Brasil resistir...Era melhor entrar na ALCA e com isto tirar o melhor proveito.

Três crises financeiras depois, além do estouro da bolha da Nasdaq, e a promessa de riqueza infinita e estabilidade foi comprometida. Isto para não mencionarmos a corrupção que caracterizou privatizações em todos os países do mundo. De repente, de onde ninguém esperava, da China, veio a salvação do capitalismo. Os chineses e o Wall Mart controlaram a inflação americana, impediram uma superdesvalorização do dólar, começaram a financiar o consumo americano comprando T-Bonds e a elevar os preços das commodities em todo o mundo.

Quando as Torres Gêmeas caíram, diante da ação dos antigos aliados mujahedins, os EUA passaram a procurar os seus inimigos nos muçulmanos. Seus intelectuais viam nisso uma guerra de civilizações onde o Ocidente, não mais dividido entre socialismo e capitalismo, lutava contra a civilização muçulmana e oriental de forma geral. O diagnóstico era que estas eram civilizações incompatíveis. Na verdade, era uma nova roupagem para a velha idéia de que quem não tivesse uma economia de mercado e uma democracia nos moldes ocidentais era um inimigo em potencial. Aquela velha idéia americana de que as democracias estão destinadas a viver em paz.

Enquanto os americanos se focavam em sua nova guerra contra os muçulmanos, uma série de governos populistas crescia e se desenvolvia sob suas barbas, aproveitando a ressaca da globalização da década de 90. Chegando ao poder, pegaram carona no efeito China, que valorizou suas commodities, como é o caso da Venezuela, que se beneficiou de um aumento do preço do barril de petróleo de US$ 11 para US$ 60, no governo de Chávez. Enquanto os americanos estão ocupados no Iraque, as taxas de juros estão baixas e o efeito China gera grandes superávits comerciais para exportadores de commodities, estes governos populistas se mantêm no poder distribuindo a riqueza do tal efeito China.

Não adianta mais reclamar que estes governos esquerdistas e populistas são corruptos. São mesmo. Tão corruptos quanto os governos anteriores, e a cada dia sabem usar o Estado melhor para servir aos interesses que eles julgam ser também os interesses da democracia e do povo dos seus países, afinal, em suas cabeças, nada seria melhor para os seus países do que a sua permanência indefinida no poder. E eles são criativos, desenvolvem esquemas novos. Dominam as estruturas formais de poder e hoje só lhes falta ampliar seu domínio sobre a imprensa.

A história é quase sempre a mesma. Eles chegam ao poder nos braços da classe média, de ressaca com a malfadada globalização da década de 90 e com esperanças em uma mudança mais nacionalista. E quando chegam lá se tornam corruptos e mudam suas bases para uma clientela mais pobre e menos exigente. Hoje, a preocupação destes partidos esquerdistas é fidelizar estas bases pobres, doutriná-las e ensiná-las que o Estado é como uma divindade que distribui maná abundante, e que este papo neoliberal de que há escassez e necessidade de disciplina de capital é bobagem. Para isto, estão drenando recursos do Estado para montar uma rede de ONGs usando uma série de bandeiras reivindicatórias que permitirão mobilizar estas massas fora da estrutura partidária, criando uma estrutura que talvez possa em algum momento, como foi no caso da Bolívia, tirar o poder das mãos dos partidos tradicionais e suas democracias burguesas.

Bandeiras e ideais são os pretextos para as mobilizações, afinal, as multidões são percebidas pelos meios de comunicação como uma expressão popular. Infelizmente, raras vezes são; manifestações espontâneas e populares são raras. Na maioria das vezes, é um grupo de estudantes matando aula, liderado por um bando de sindicalistas desocupados, transportado por ônibus de alguma ONG e usando o carro de som do sindicato.

O islamismo era a segunda religião preferida do Papa João Paulo II, que a considerava muito semelhante ao cristianismo. Apesar disto, os intelectuais americanos acham que o Islã é o inimigo, e se esquecem de que o verdadeiro problema não são os muçulmanos mas a ressurreição dos socialistas e populistas, que crescem na onda chinesa. Talvez seja hora dos americanos reverem suas prioridades e voltarem a pensar no Ocidente, que está se dividindo novamente. Desta vez, se eles fizerem direito e não movidos pelo protecionismo nacionalista de um lado e pela ganância de Wall Street de outro, talvez haja um crescimento estável na Globalização e uma esperança para a democracia e para o desenvolvimento dos povos.

05 fevereiro 2007

Socialismo do Século XXI

Jovens esquerdistas brasileiros se alvoroçam quando falam da China e dos novos líderes latino-americanos, especialmente Chávez. Ficam ansiosos pelo momento em que a China irá desafiar a hegemonia americana e excitados com Chávez dizendo poucas e boas para os gringos. Entretanto, enquanto permanecem aferrados aos seus delírios socialistas esquecem de observar algumas realidades mais mundanas destes regimes.

Hoje assisti a uma palestra muito interessante sobre a China dada por um dos discípulos da Maria da Conceição. Ele me dizia com grande satisfação que a China era tão complexa e os seus mecanismos de decisão tão obscuros que qualquer investidor estrangeiro que quisesse investir por lá era obrigado a fazer uma Joint Venture com uma empresa chinesa.
Já quase em júbilo pela política industrial dirigista do estado chinês, ele me relatou que negociadores chineses passaram pelo Brasil querendo adquirir algumas centenas de unidades do ERJ 100, desde que fosse instalada uma fábrica da Embraer em seu território. Diante da hesitação da empresa brasileira, eles teriam informado que iriam em seguida ao Canadá visitar a Bombardier. O resto é história; a Embraer fez uma Joint Venture e se instalou na China.

A teoria econômica anglo-saxônica afirma que um marco regulatório estável e transparência na tomada de decisões reduzem o risco de investimentos, incentivando-os. Os chineses parecem ter superado os anglo-saxões neste particular pois a falta de regulação e transparência, desde que alavancada por um mercado consumidor cuja classe média é quase do tamanho da americana, pode estimular investimentos. Além disso, como eles se dão por Joint Ventures com os chineses, fica bem mais fácil ter acesso às tecnologias das multinacionais para pirateá-las e, posteriormente, inová-las.

Em 2006 a China cresceu 10,7%, e a sua fome de energia é enorme. Projeta-se que a sua demanda de petróleo cresça cerca de 400.000 barris/dia por ano. Recentemente, a China assinou um acordo com a Venezuela para a importação de 500.000 barris por dia. Infelizmente, a produção venezuelana é declinante. Para resolver o problema, Chávez iniciou uma rodada de expropriações.
Em 2006 a Venezuela de Chávez expropriou, apenas da Petrobras, 310 milhões de barris, ou seja, o suficiente para atender este contrato por 620 dias - quase 2 anos - e obter uma receita em torno de US$ 12 bi.

A teoria econômica anglo-saxônica afirma que o respeito aos contratos e à propriedade privada estimula o crescimento econômico por dar garantia aos agentes privados de que os futuros investimentos obterão retornos. Isto atrai mais capitais, aumentando a competição e reduzindo os lucros.
Talvez seja por isto que a produção venezuelana seja declinante, pois o risco de desenvolver reservas e ser expropriado é crescente por lá. É fácil ver jovens esquerdistas chocados criticando os imensos lucros da indústria de petróleo. Difícil será explicar-lhes que o lucro absurdo desta atividade é conseqüência de sujeitos como o Chávez, que tornam os investimentos neste setor tão arriscados que demandam uma altíssima taxa de retorno.

A Bolívia de Morales, por sua vez, assinou recentemente um contrato com a estatal argentina prometendo vender uns 10 milhões de m3 de gás por dia. O detalhe é que a Bolívia não tem este gás desenvolvido e já anunciou que irá retirá-lo do gás destinado ao GASBOL, que tem capacidade de levar 30 milhões de m3 por dia para São Paulo. Desta forma, pretende chantagear a Petrobras a retomar os investimentos interrompidos após a expropriação de vários bilhões de dólares com a perda das refinarias, campos de petróleo e aumento forçado do gás. O curioso é que a Petrobras tinha um investimento previsto para a duplicação do GASBOL, antes das políticas nacionalizantes deste ídolo esquerdista, mas agora, como algum dirigente "responsável" poderia pensar em colocar a segurança energética brasileira nas mãos de Morales ampliando nossa exposição aos seus caprichos? O problema é que nossos dirigentes não são responsáveis, prova é que ainda estudam construir o famoso gasoduto "Transpinel", com capacidade de 100 milhões de m3 por dia, cuja torneira estará nas mãos do grande líder da Revolução Bolivariana, o Chávez.

Será que vai dar certo este socialismo do século XXI? O tempo dirá. O triste é que, seja no sistema capitalista americano, no comunismo chinês, no bolivarianismo venezuelano ou no etnopopulismo boliviano, o papel do Brasil parece o de ser sempre um país liderado, destinado a sofrer prejuízos e perdas, eterna fonte de matérias-primas para americanos e chineses, e tungado pelos vizinhos latino-americanos. Recentemente, os paraguaios entraram na onda de Morales e Chávez e pediram a revisão do Tratado de Itaipu. D. Dilma concordou, garantindo que o aumento da tarifa nem seria sentido pelos consumidores...

Pelo menos o petismo do século XXI é generoso, benevolente e condescendente com os vizinhos, com os companheiros (José Genoíno que o diga) e com o seu curral eleitoral nordestino. É um socialismo em que toda perda e desgraça é marquetologicamente transformada em vitória. Neste particular, lembro-me do chanceler Celso Amorim, que habilidosamente desmoralizou os críticos da pusilânime negociação brasileira com a Bolívia ao sugerir que eles queriam, na verdade, que o Brasil imitasse a atuação dos EUA no Iraque e invadisse a pobre Bolívia. Esta, tenho que reconhecer, foi de mestre.

Os chineses tiveram Mao Tse Tung, cujo gênio militar na Grande Marcha reunificou o país. Em seu governo, mais de 60 milhões de opositores morreram, outros incontáveis milhões foram para campos de reeducação e algumas centenas de chinesinhas tiveram a honra de contrair sífilis diretamente do grande timoneiro. Felizmente para os chineses, ele morreu e Deng Xiao Ping adotou uma política econômica com características de mercado, resultando no incrível desenvolvimento observado atualmente. Nós, os brasileiros, temos o Luiz Inácio e a sua capacidade genial de conciliação e enrolação - um herdeiro da nossa melhor tradição cordial autoritária nordestina; o Mitterrand dos pobres.

Provavelmente não teremos o sucesso chinês, mas os marqueteiros do PT e o gênio do nosso grande líder convencerão o povo de que não está comendo capim mas caviar. E se por acaso ele desconfiar disso, a culpa então por não estar comendo caviar será do bicho-papão, quer dizer, do capitalismo, das elites rancorosas e dos Estados Unidos, que sempre buscam nos sabotar e atrapalhar nosso desenvolvimento.

Não vai demorar para que se comece a buscar os sabotadores e os traidores dentro do país, e quando terminar a caça às bruxas e a histeria decorrente, o povo nem sequer se lembrará por que tudo começou. Daí provavelmente surgirá um novo grande líder, que proporá a nova fundação do país e também condenará a herança maldita do passado. Mas isto só deve acontecer no século XXII - ou século XLIX, se vigorar o calendário chinês. Quem sabe então a culpa pelo nosso fracasso não passe a ser da China.
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