06 setembro 2013
Um aldrabão, 10 milhões de...
Segundo lemos em seu site, "João de Deus é um homem nascido em família simples, que tem problemas como qualquer homem comum. Tem defeitos, limitações e é capaz de errar e sofrer como qualquer outro ser humano". Não tem visão de raio-X mas voa - sim, de avião, mas isto é algo que o medroso Chico Xavier não conseguia fazer.
João de Deus levou um tempo para achar um nicho de mercado. Começou prevendo chuvas, mas o Cacique Cobra Coral preferiu incorporar em Adelaide Scritori. Seu ponto inicial de atuação era Brasília, mas em Abadiânia os terrenos eram mais baratos - foram doados pelo prefeito. Lá ele montou seu centro difamatório do nome de Inácio de Loyola, santo que o teria queimado vivo por se dizer possuído por espíritos, e que pularia com médium e tudo em uma fogueira de São João, se hoje incorporasse de fato no curandeiro goiano.
Sua fama cresceu e atingiu o auge quando Oprah o visitou no ano passado. Como Thomaz Green Morton, o guru das estrelas dos anos 80, adora celebridades e as recebe na sua própria casa. Luís Roberto Barroso, Marconi Perillo, Xuxa e Giovanna Antonelli são as Baby Consuelo, Dina Sfat e os Tom Jobim de hoje.
O goiano afirma receber 32 entidades com poderes e personalidades distintos. De acordo com seu humor matinal deve dizer incorporar este ou aquele espírito. As almas usam seu corpo para operar e até mesmo para requebrar. O pediatra e professor de medicina da Universidade de Brasília Ícaro Batista, amigo do médium, disse que “Quando vem a Joana d’Arc, ele dá umas requebradas...”. Embora consigam operar e rebolar, após possuir seu corpo, não são capazes de falar sem sotaque seus arcaicos idiomas nativos e tampouco de dar informações úteis, passíveis de comprovação, sobre suas vidas.
Atendendo três vezes por semana, significativamente mais, portanto, que muitos médicos da rede pública de saúde, e tendo aberto seu consultório em 1976, João de Deus afirma que já atendeu 10 milhões de pessoas. Como Túlio Maravilha, deve contar os gols que fez no jardim de infância. Não se sabe quantas delas morreram da doença que as afligiu a ponto de se hospedarem em uma pousada de Abadiânia, cidade cuja população é apenas 0,17% do total de atendimentos do médium e que tem IDH semelhante ao do Gabão, em parte pela saúde precária, e de esperarem às vezes por dias atendimento ao lado de outros desesperados.
O médium recebe umas mil pessoas diariamente, das oito ao meio-dia e das quatorze às dezoito, o que dá pouco menos de 30 segundos por paciente. Todos ganham ao menos uma mão na cabeça e umas palavras mágicas diferenciadas, escolhidas caso a caso pelas entidades, e ninguém sai sem seu suplemento à base de maracujá, ou passiflora, para a coisa ficar mais científica, ao custo de R$ 50,00 o frasco. Apesar de o remédio ser o mesmo para todos, o princípio ativo é a energia espiritual calibrada especialmente para a enfermidade do paciente. No FAQ do site oficial enfatiza-se que "o suplemento é energizado espiritualmente somente para você, não apresentando benefícios se dados (sic) a outra pessoa". O poder curativo da energia de João de Deus é tanto que uma garrafa de água é vendida na Casa Dom Inácio de Loyola por R$ 1,00 enquanto a energizada sai por R$ 3,00. Os pacientes podem também tomar banho de cristal por R$ 20,00, comprar livros psicografados, camisas brancas e até alugar apartamentos durante o tratamento.
Mas João de Deus não precisa tocar no enfermo para curá-lo. Basta enviar por meio de familiares ou conhecidos que estejam indo para Abadiânia "sua foto e seus dados (nome completo, data de nascimento, endereço completo e, se desejar, o nome da enfermidade)" - palavras dos responsáveis pela Casa. Em alguns casos nem esta burocracia é necessária. Lemos na Veja Brasília: "o oncologista aposentado do Hospital de Base de Brasília Roger Queiroz conta que João de Deus o curou à distância enquanto ele estava em uma UTI da capital. O médium confirma a cura."
Após a consulta, os espíritos encaminham alguns dos doentes para o centro cirúrgico, recinto distinguível dos demais pela plaquinha na porta, e pode-se optar por uma cirurgia com corte ou por uma sem corte, ambas invisíveis e igualmente curativas, segundo o FAQ do site. A esmagadora maioria opta pela última, que dispensa toda aquela aldrabice de simular incisão passando o dedo sobre a área a ser operada, de aparentemente atravessar a pele, de fingir introduzir as mãos nas entranhas do doente e, esguichando sangue de animais de um balão escondido na mão, desfazer-se de fígados, corações de galinha e outras miudezas orgânicas, jamais submetidas a testes de DNA, certamente. Além disso, nesta modalidade o não-médico não se sujeita à câmera lenta de filmagens feitas por céticos infiltrados ou por voluntários descontentes com mais sede de vingança do que direitos trabalhistas. E, afinal de contas, estas prestidigitações sangrentas são para médiuns iniciantes que querem impressionar. De fato, no FAQ do site lemos: "O tratamento na Casa de Dom Inácio é espiritual. As cirurgias, no geral, são sempre invisíveis (sem corte), e não há diferença nenhuma entre as cirurgias visíveis e invisíveis." Se você gosta de espetáculo e pede por uma cirurgia visível e depois, desapontado, não vê quaisquer marcas, é porque a cirurgia visível é idêntica à invisível.
As cirurgias são cicatrizadas com ajuda de pontos invisíveis, os quais devem ser retirados com orações, conforme lemos no FAQ do site: "Na sétima noite após a intervenção (...) deite-se antes da meia-noite com roupas brancas e não se levante antes das cinco horas da manhã. Ao deitar-se, coloque um copo de água fluidificada ao lado de sua cama e peça a Dom Inácio de Loyola que remova seus pontos espirituais e complete sua intervenção." Para quem não sabe, água fluidificada "é aquela em que fluidos medicamentosos são adicionados à água por espíritos desencarnados que, durante as sessões de fluidoterapia, fluidificam a água". Após tudo isso, o paciente morre, se seu caso for mortal, ou continua vivendo, se seu problema não for tão grave.
Segundo lemos no site, "Se você está seguindo alguma prescrição médica, a Casa aconselha que você continue com o tratamento e a medicação indicados pelo médico". Só para garantir, claro. Mas os louros pelas curas serão de João de Deus, que é do raro tipo "faça o que eu digo e faça o que eu faço". Coerente, segue aquilo que prescreve aos seus pacientes. Não descuida da medicina dos vivos. O médium sofreu obstruções na artéria do coração e tratou-se com o cardiologista da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, Roberto Kalil, que lhe implantou seis stents - reais, não imaginários.
Desesperados do mundo inteiro têm vindo parar em Abadiânia. Lemos na Veja Brasília que Stacie Mythen é terapeuta bioenergética em Seattle, nos Estados Unidos. Stacie não tinha problemas de saúde. Sentia medo. Ainda assim, fez questão de ser submetida a uma cirurgia espiritual com corte. A entidade fez uma cisão no ombro direito até o osso. Ela relata não ter sofrido com dor. “É uma experiência tão profunda que eu só posso comparar ao parto natural”, diz. Sim, parto natural é indolor. O australiano Walter Klocker não conseguia um relacionamento duradouro porque era ciumento e possessivo. Havia tentado psicanálise, todos os tipos de medicina alternativa, terapia cognitiva e rituais xamanísticos, mas somente na Casa Dom Inácio de Loyola encontrou paz e resolveu seu problema ao decidir não se envolver mais com ninguém durante uns dois anos, período em que se enclausurará em uma comunidade de monges budistas, o que sempre dá certo em filmes americanos.
João de Deus, como Houdini, é mestre em safar-se de situações perigosas. Abusou sexualmente de uma moça de 16 anos em um atendimento durante o qual exigiu que o pai ficasse de costas, mas a juíza da comarca de Abadiânia, Rosângela Rodrigues Santos, o absolveu sob o seguinte argumento: “Com efeito, a conduta do acusado, ao afastar-se dos princípios éticos e da caridade que norteiam os ensinamentos de Allan Kardec, foi imoral, mas não caracteriza a violação sexual mediante fraude, por ausência de suas principais elementares”. Poucos sabem que a lei brasileira cita explicitamente os princípios de Allan Kardec como norteadores da ética e da caridade. Segundo pessoas conhecidas que já foram a Abadiânia, alguns processos por abuso sexual correm em segredo de justiça. João de Deus "escravizou" a bela alcoólatra Clarissa Vanazzi por sessenta meses pagando-lhe apenas R$ 29,00 por semana, como se fosse uma médica cubana. Oficialmente, no entanto, deu-lhe uma esmeralda de sete mil reais e, em contrapartida, ela serviu cinco anos gratuitamente na Casa Dom Inácio de Loyola, que fatura 7,2 milhões de reais ao ano e representa a metade do PIB de Abadiânia. Ela jamais prestou queixa, claro. Hoje é dona de uma rentável joalheria e, feliz da vida, credita seu sucesso a João de Deus.
05 março 2013
Soul Radio
Se fossem essas as primeiras linhas do Gênesis, a Bíblia teria hoje muito mais credibilidade. Contudo...
Ad Hoc são hipóteses adotadas, na quase totalidade das vezes (porque não é apenas por ser ad hoc que é falsa), com o propósito de salvar uma teoria indefensável pela razão e pelas evidências. Têm DNA compatível com a fé cega, aparecem amiúde quando há embaraço de se admitir que se crê pelo hábito, necessidade, conveniência, esperança, não porque se adotou a hipótese mais lógica, mais sensata. É muitas vezes o contra-ataque de crentes letrados que se viram compelidos, em um primeiro momento, a se render às evidências, por brios intelectuais, para demonstrarem isenção e assim manterem a credibilidade, profissional ou em um meio social, familiar.
Exemplos abundam, quase sempre ligados a "verdades" religiosas cujas fundações estão cedendo. Uma posição pode ter sido razoável, sólida, há duzentos anos e não sê-la hoje. Por mais de três mil anos a passagem de Adão e Eva foi tida como literal pelo clero, pelo povo, por filólogos, luminares, exegetas, estes com o auxílio do próprio Espírito Santo - e de fato não há como conciliar a doutrina do pecado original com o poligenismo (Encíclica Humani Generis). A partir do momento em que foi demonstrado que temos ancestrais comuns aos macacos, tudo sempre foi metáfora, foi o modo que pastores da Idade do Bronze encontraram para reproduzir as verdades cristalinas inspiradas por Deus. Acreditava-se que o mundo havia sido criado há seis milênios e que todas as espécies surgiram de uma vez, desenhadas por Deus. A partir do momento em que foi provado que o universo existe há bilhões de anos e que os animais evoluíram por milhões de anos, tendo os dinossauros se extinguido antes mesmo do surgimento do homem, passou-se a dizer que o tempo de Deus não é o nosso, que seu dia é eras, criacionistas chegaram a afirmar que os animais petrificados haviam sido plantados por Satanás para confundir os crentes.
Cria-se na alma. À medida que os estudos do cérebro avançaram, que os movimentos, as sensações, a memória, a personalidade, os desejos e medos passaram a ser relacionados a determinadas áreas da massa craniana, a equilíbrios químicos, passou-se a afirmar que a massa cinzenta é como um receptor de rádio, sendo a alma um transmissor de ondas. Temos que concordar que os miolos de uns por aí são radinhos que reproduzem a Rádio Vaticano, mas daí a existir alma...
Analogias são necessárias para se explicar algo complexo ou técnico, para se romper bloqueios mentais. Infelizmente, falsas analogias são recurso usual de argumentadores cujas posições a lógica e as evidências não têm muito com que ajudar.
Ao contrário dos rádios que conhecemos, só há uma estação em nossa cachimônia. Para mudar a sintonia, captar ondas de frequência diversa, é necessário ir a um centro espírita e incorporar um dos fantasmas de escritores famosos e imperadores que têm licença de frequentar o espaço após um intensivão de português para principiantes no Nosso Lar (não se psicografa em grego e latim), ou em um terreiro de macumba e incorporar um quilombola ou um deus africano. Compositores de música clássica são barrados porque o pentagrama lembra o demônio e é melhor não brincar com suas transmissões radiofônicas, as quais, diga-se de passagem, pegam melhor em cultos evangélicos. Mas é necessário que o rádio tenha dial, ou seja, que se tenha a tal mediunidade.
Se o rádio tiver um componente danificado, basta trocá-lo para que volte a funcionar normalmente. Se uma área do cérebro for danificada e a substituirmos por outra idêntica, tudo ficará como antes? Argumentar-se-á que o contato com o mundo altera os capacitores e outros componentes do rádio e que, por sua vez, eles abrem caminho para outras facetas da alma ou alteram ela própria, de modo que trocar o capacitor novo por um antigo ou de outra marca limitará a transmissão da alma, ou da nova alma. Na verdade, se brincarmos com os componentes do radinho dos dualistas, a Nona Sinfonia de Beethoven passa a ser tocada com saxofone e bateria, em determinado momento, em outro com guitarras distorcidas, em seguida ela vira o Bonde do Tigrão. E sem alterarmos a emissão. Sabe-se que a memória é gravada fisicamente no cérebro. É, porventura, gravada no fantasminha, no homúnculo que vive em nós? Caso afirmativo, se a apagarmos fisicamente sem danificar o cérebro, o homúnculo consegue reimplantá-la no cérebro ou a alma também se esquecerá para sempre? Certamente a segunda opção.
E na experiência em que se ensinou uma tarefa para um rato, gravou-se as conexões mentais ligadas à memória recente em um chip e depois bloqueou-se a área do cérebro em que elas ocorreram para em seguida implantar-se o circuito eletrônico, acionando-se surpreendentemente a memória do aprendizado (link)? E quando se enviou os dados do chip pela internet e, a milhares de quilômetros do experimento original, inseriu-se as informações recebidas em outro chip, que foi implantado em um outro rato, que executou a tarefa como se fosse sua própria experiência (última Veja, Guardian e outros)? É questão de tempo até que estes avanços interfiram diretamente na vida do homem. Ora, somos, em parte, nossas memórias. Como harmonizar essas experiências com ratos e o conceito de alma? Como crer em um homúnculo imaterial que vive dentro de nós, que, se possui memória, não consegue reimplantá-la no cérebro em que foi apagada - algo que já se pode fazer com um mero chip? Como crer em alma quando tudo o que somos pode cada vez mais ser explicado fisicamente?
E como a hipótese lida com os casos de cérebros divididos (link Wikipedia – link Youtube), em que há duas consciências independentes?
Se melhorarmos a “recepção” de macacos com transplante de partes de cérebro de homens “desencarnados”, cujas almas já estão junto de seu deus, no inferno, aguardando julgamento ou no Nosso Lar de Chico Xavier, os símios passarão a ter alma ou sempre a possuíram, quiçá por terem sido criados à imagem e semelhança de Hanuman, o deus-macaco hindu, mas apenas nunca tiveram um rádio à altura?
Enfim, pelo modelo do radinho, ao longo de nossa vida nossa alma não aprende nada, já que o aprendizado se dá fisicamente, no receptor, por conexões. Desde a primeira infância melhora-se o acesso à rede de neurônios, aprende-se incontáveis coisas, obrigatoriamente esquece-se de muitas outras, nossas decisões morais são baseadas na experiência, na memória portanto, no aprendizado, inclusive emocional. A personalidade se forma assim, além das predisposições genéticas. Para quê serve a alma, nesta vida? Como se medirá seu mérito e demérito depois de desencarnada, já que estará pura, por jamais ter fixado qualquer experiência? E outro problema: não podemos gozar eternamente no paraíso enquanto nossos filhos padecem horrores no inferno, então de duas uma: ou deixamos de ser nós mesmos perdendo a memória no Rio Letes, que está no Hades ou no Purgatório de Dante, ou virando um monstrinho amoral do quilate de Deus e achando tudo bem feito, porque, afinal, eles "escolheram" estar longe do Pai. Em qualquer um dos casos deixamos de ser nós mesmos e, consequentemente, não somos nós os imortais mas uma outra consciência. Ou não existe punição e recompensa. Aí Deus é o inútil que aparenta ser, porque além de não interferir neste mundo, como constatamos, não atua no "outro".
Não subestimemos a capacidade dos crentes elásticos de empunharem novas hipóteses ad hoc, novas analogias como se fossem prova de algo. No futuro seremos, quem sabe, proxies de uma alma não atuante que incorporará nossos méritos e deméritos, que ficará mais brilhante ou mais enegrecida de acordo com nossas ações, e que será imortal como todos sempre desejamos ser. Na verdade, a crença na alma imortal se extinguirá caso se conquiste a imortalidade física, mediante o fim da decrepitude e por backups de cérebro e órgãos reimplantáveis após acidentes ou doenças. Aí os crentes relaxariam, pois já teriam conquistado aquilo que, no fundo, é um desejo não um argumento, uma esperança não uma posição racional. E quem sabe depois veriam que a imortalidade estaria mais próxima de uma maldição, sentir-se-iam talvez como os Struldbrugs das Viagens de Gulliver, cometeriam suicídio. Sabemos, por experiência, que o prazer está ligado à finitude, à efemeridade, é assim na contemplação de um pôr do sol, na graciosidade da primeira infância de nossos filhos, com nossas ingênuas conquistas juvenis, com um chope animado entre amigos, em uma noite romântica com a esposa, numa viagem que nem sempre podemos fazer. A vida é preciosa porque é efêmera.
Entre Jesus e Epicuro, fico com este, que disse, três séculos antes do sedizente "Único Caminho": "A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais." Epicuro sim venceu a morte, com sabedoria. O "çábio" judeu apenas alimentou vãs e antigas ilusões...
02 fevereiro 2013
A Ilha Misteriosa
- Creio que seja deserta. - disse João, quebrando o silêncio. Parando de repente, gritou: - Veja! Uma casa sobre aquelas rochas!
Correram até lá. A casa simples, de duas águas e um pequeno alpendre, parecia ser recém construída. Carlos estranhou não haver caminhos próximos ou mesmo pegadas. A porta estava fechada. Carlos espiou pela janela e pode ver, através de um pequeno vão entre as cortinas, que lá não havia móveis, apenas o que parecia ser a maquete de uma construção. Foi o máximo que a penumbra lhe permitiu discernir.
- É a casa de um arquiteto? E os jardins, os caminhos para acessá-la, os móveis, o pano de vidro para aproveitar a vista? – disse Carlos.
- Certamente é habitada. É nova. Ô de casa! – gritou João.
Sentaram na varandinha e esperaram um longo tempo. Nada. João forçou a porta umas vezes e depois tentou arrombá-la. A construção inteira tremeu com suas investidas. Relutante a princípio, Carlos arremessou uma grande pedra contra a janela, mas o vidro não quebrou.
- É uma fortaleza! – espantou-se João.
Prosseguiram a exploração da ilha. Após cruzarem um vale escarpado, acharam uma casa quase idêntica à primeira, um pouco maior, velha e mal acabada. Não possuía porta frontal, apenas uma entrada de serviço nos fundos. Tinha uma chaminé, mas muito estreita para eles passarem.
O sol se pôs e uma fina chuva os fez montar acampamento no alpendre da casa velha. “Por que esta varanda, se não é acessada por porta alguma?”, pensou Carlos.
De manhã, encontraram nas imediações outras casas, todas lacradas, parecidas mas de tamanhos levemente diferentes, uma ligeiramente mais escura, outra com cumeeira não centralizada, as que tinham chaminé não possuíam porta frontal. Percorreram toda a ilha, que era pequena, e não encontraram viva alma. Retornaram à primeira casa. João espiou pela janela.
- Levaram a maquete. A sala está vazia!
- Talvez os responsáveis morem no continente, ou em outra ilha, e venham cá apenas para experiências arquitetônicas.
Não restavam dúvidas de que alguém erguera aquelas construções e que estava por perto - a maquete ter desaparecido da sala o corroborava. E, afinal de contas, as casas não poderiam ser fruto do acaso. Mas Carlos pensou, intrigado: “Por que fazer maquete se todas as casas são muito parecidas? Para um cliente entender o projeto?” Acamparam no alpendre e decidiram que não sairiam de lá até toparem com alguém e obterem explicações e ajuda.
Após uns dias, durante os quais se revezaram para catar cocos e caçar pequenos animais, ficando sempre um a montar guarda na casa, testemunharam algo maravilhoso. Acordaram à noite com ruídos que pareciam vir do vale, ecoando por suas paredes. Algo parecia se arrastar, depois ouviu-se um impacto estrondoso, voltou o arrastamento, novamente o impacto, em uma nítida cadência, o som cada vez mais alto, próximo. Esconderam-se em uma fresta nas rochas a alguns metros da casa, e quase não acreditaram quando viram uma grande mansão de dois andares surgir de repente, tombar em frente ao telheiro da outra e, perante os dois pescadores boquiabertos, na casinha introduzir sua chaminé pela porta frontal, aquela inexpugnável porta! Depois de uns instantes o sobrado endireitou-se, como se centenas de homens o içassem com cordas e polias, e sumiu desajeitadamente por onde surgira.
Impossível descrever o assombro de João e Carlos. Não saíram antes que nascesse o sol e, como se sonhassem acordados – de fato, não conseguiram pregar os olhos um instante sequer -, andaram de um lado pro outro desatinados, sem chão. Carlos, parecendo recobrar um pouco suas faculdades, acercou-se da janela, espiou e caiu para trás:
- Uma maquete!
Inexplicável! Ficaram por lá mais umas noites, protegendo-se das intempéries na toca que encontraram, sem terem coragem de dormir novamente próximos àquela bizarrice em forma de casa. Contudo, espiavam pela janela e viam a maquete um pouco maior a cada dia, até que ela, agora em escala 1:10, saiu sozinha pela porta da frente, ficou um pouco sob o alpendre e depois se arrastou, como um filhote de tartaruga, em direção ao vale.
- Deveras impressionante! Então ninguém as construiu. As casas são vivas, reproduzem-se, são levemente diferentes umas das outras. – empolgou-se Carlos, ainda assustado, contudo. – Envelhecem e ficam mal acabadas, como aquele “macho” que vimos no vale.
- Que estupidez – replicou João. – Um arquiteto com formação em mecatrônica as construiu, as programou para se replicarem. Deve estar escondido por aí. Deve ter um plano.
- Por que alpendre nos “machos”, se não possuem porta frontal? Havia reparado, inclusive, em nossa excursão pelo vale, que as “fêmeas” têm como que uma cicatriz de chaminé na cumeeira. Por que projetar tais elementos inúteis?
João passou semanas gritando a plenos pulmões para que o arquiteto aparecesse, enquanto Carlos explorava a ilha. Encontrou, em umas cavernas do vale, restos petrificados de casas bem diferentes daquelas que se viam erguidas na ilha, pedaços de outras em um charco próximo que possuíam algo idêntico a um motor de popa junto à porta dos fundos. Quando Carlos mostrava suas descobertas a João, este, irritado, o criticava por não ajudá-lo a procurar pelo arquiteto. Depois, convencido de que este era invisível, passou a acreditar que além de criar as casas comandava a ilha, de modo que passou a lhe pedir em voz alta por chuva quando fazia muito calor, por comida quando tinha fome. Às vezes era atendido, às vezes não, principalmente quando era exigente e muito específico. Mas sempre, em agradecimento, deixava peixes e frutas sobre grandes pedras que empilhara conforme ordens que o próprio arquiteto lhe dera em sonhos.
Um dia João escorregou do alto de suas pedras, quando tentava aumentar a pilha, despencou no chão, rasgou a perna e bateu a cabeça. Carlos cuidou do amigo, passou nos ferimentos sal marinho que isolara em piscinas de evaporação, protegeu-os com panos limpos, deu-lhe água e comida.
Quando se sentiu novamente disposto, João foi à sua pilha de pedras agradecer ao arquiteto por ter tratado de seus ferimentos. Carlos, entendendo que o outro precisava do amiguinho imaginário para sobreviver naquela ilha sem sentido no meio do nada, prosseguiu tentando entendê-la e com pesar deixou de lado seu desvairado companheiro, que agora sonhava com o dia em que o arquiteto cumpriria sua promessa de o levar para o Palácio de Versalhes invisível que se erguia majestoso sobre as nuvens...
Quem achou esta alegoria esquisita é porque não assistiu à 6ª temporada de Lost...
04 janeiro 2013
O Milagre de Foot Grain
Em Pismo Beach, Califórnia, o japonês Arima-no Miko, vendado, andou às cegas pela praia em uma área demarcada de 1000 m², inseriu a mão na areia e isolou, após esfregar o polegar e o indicador, justamente o Foot Grain. Exatamente ele! O cálculo da probabilidade foi feito levando-se em conta a quantidade de dez grãos por mm² e uma profundidade de 10 cm. Perante uma multidão emocionada, o precioso grãozinho foi transferido para a Igreja de São Paulo Apóstolo, também em Pismo Beach, onde hoje pode ser venerado através de potentes lentes de aumento e projetores. Cópias em tamanho ampliado já estão sendo vendidas em lojas da vizinhança, assim como camisetas com os dizeres "one in a trillion = miracle". Curas têm sido atribuídas à pedra miraculosa, hoje mais famosa do que o meteorito da Caaba, um ganhador da loteria afirmou ter segurado uma réplica do diorito, enquanto escolhia os números. Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que Foot Grain não era conhecido antes do episódio, sequer tinha nome próprio, que não há nada de especial em sua composição geológica, que só se parece com um pé de um único ângulo e com muita boa vontade, que não havia a intenção de sorteá-lo exatamente ele, e que o escolhido poderia ter sido um outro grão qualquer e que a coisa toda era um completo desvario.

Fotografia de Foot Grain com outros grãos de areia tirada por Mark A. Wilson, do Departamento de Geologia do Wooster College.
O caso chamou a atenção do mundo, mas às vezes esquecemos que o simples fato de estarmos aqui é um milagre muito mais impressionante do que o do grão de areia. Se a Terra não estivesse à distância que está do Sol, se a colisão com um planeta chamado Theia ou sucessivos e intensos terremotos não tivessem inclinado seu eixo de rotação, o que propiciou as estações do ano, se não houvesse Lua, se há 65 milhões de anos um meteoro não tivesse caído por aqui e extinguido os dinossauros, após o quê tiveram oportunidade de evoluir para símios os pequenos mamíferos que de fendas e tocas viam passar as colossais patorras daqueles predadores pecilotérmicos, se tudo não tivesse ocorrido precisamente do jeito que ocorreu, hoje as coisas não seriam exatamente como são. Aqui seria Marte ou outro planeta do Sistema Solar que está em outra órbita, que tem outro tamanho e que não tem vida, e obviamente ninguém estaria escrevendo estas pérolas e ninguém as estaria lendo (quanto a isto, pouco mudaria). A probabilidade de tudo ter acontecido do jeitinho que aconteceu é, para inventar um número "exosférico", de uma em milhões de decilhões, ou seja: Milagre! Deus existe! E sem falarmos que cada uma das sete bilhões de pessoas do planeta nasceu vencedora, é o miraculoso fruto do espermatozoide ganhador de uma disputa acirradíssima no útero materno, mais concorrida do que qualquer mega-sena, contra 300 milhões de concorrentes. Não estou contando com os dias inférteis da mulher e com os "girinos" desperdiçados, às vezes com chances nulas de encontrar pela frente algo diverso de uma membrana de látex (entre outras possibilidades). Há quem argumente (adivinhem quem) que se fosse qualquer outro espermatozoide a fecundar o óvulo, consideraríamos milagre do mesmo modo, porque analisamos os fatos após terem ocorrido.
Há milagres não tão espetaculares mas com a peculiaridade de terem data prevista e repetições amiudadas. A mega-sena, por exemplo, citada no parágrafo anterior. Segundo os estatísticos, para cada jogo a probabilidade é de aproximadamente 1 em 50 milhões. Na verdade, a chance é maior (o que torna o milagre menor), uma vez que as bolas armazenam em uma memória quântica - muito bem explicada no filme "Quem Somos Nós" (What the Bleep Do We Know!?) e nas experiências de Masaru Emoto -, os números decimais em algarismos arábicos, repelindo combinações em sequência, progressões perfeitas aritméticas, principalmente com diferença comum de uma dezena, e números que saíram na edição anterior. Contudo, dígitos que saíram muitas vezes, como o 5, imprimem-se também quanticamente na mente dos milhões de apostadores e mesmo na dos auditores presentes no sorteio, aumentando a probabilidade de saírem novamente.
Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que, pela lei dos grandes números, sempre nos depararemos com eventos incomuns, que teremos provavelmente 3 ganhadores quando 150 milhões de apostas forem feitas, e que nos resultados nunca se viu números em sequência ou progressões aritméticas como 10, 20, 30, 40, 50 e 60, porque o número de edições da mega-sena é pequeno em relação às milhões de possibilidades. São 105 sorteios no ano, então seriam necessários 500 mil anos com dois sorteios semanais para que talvez víssemos sair um resultado como 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Dizem que as bolinhas não sabem qual número está impresso nelas, não são vivas e sequer consciência possuem, além de não possuírem controle sobre seu corpo esférico, e a probabilidade de saírem dígitos em sequência é a mesma de sair qualquer outra combinação. Os céticos, cada vez mais em descrédito nesta sociedade de verdades plurais, podem até ser especialistas em ciência física, mas certamente não o são em ciência metafísica quântica. Parecem desconhecer, por exemplo, a sincronicidade, provada, por meio do próprio testemunho, por Carl Gustav Jung nos anos vinte do século passado. Invocam a Lei de Littlewood, um cientista obscuro, de menos prestígio que o psicólogo suíço, segundo a qual uma coisa acontece por segundo, em um mês acontecem um milhão de coisas, para quem é ativo por oito horas diárias, e, definindo-se milagre como um evento com probabilidade de uma em um milhão de ocorrer, todo mês presenciamos um milagre. Com tal irônica falácia tentam tirar a poesia do mundo, o milagre de nosso dia a dia (por que apenas mensal?), a nossa razão de viver. Fugindo um pouco do assunto, a respeito da mega-sena, dizem ainda que é um imposto sobre a estupidez, que loterias oficiais são um jeito que governos usam, desde antes de Cristo, para aumentar a arrecadação sobre a massa ignara sem apelar para impopulares impostos formais, porque as chances de ganhar tendem a zero e o governo sempre ficará com a maioria do dinheiro.
Eventos como o encontro miraculoso de Foot Grain calarão por hora a boca dessa malta de estraga-prazeres. Aguardemos o momento em que mostrarão de novo suas garrinhas envenenadas!
17 dezembro 2012
Apocalypse Simulator Release 2012
Perdi uma boa oportunidade de enriquecer licitamente. Abordando transeuntes aqui e no exterior, não teria sido difícil descobrir alguns dos 700 milhões que creem no tal Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa. Se eu abordasse 500 chegaria provavelmente a 50 crentes. Se dentre estes um único acedesse a me vender suas propriedades pela metade do preço de mercado, recebendo no ato o pagamento mas delas mantendo o usufruto até 21 de dezembro, quando então a posse passaria para mim, aí eu teria feito um grande investimento. No dia 22 de dezembro eu possuiria, por exemplo, um imóvel de 1 milhão que me teria custado 500 mil. O crente apocalíptico, embora pobre, estaria vivo, a contemplar pássaros, a natureza, na presença de familiares e amigos – quer prêmio maior? No caso de acabar o mundo, teve alguns meses para dissipar uma pequena fortuna, sem sair de seu lar, sem perder o aluguel de suas propriedades.
Na prática, contudo, seria assaz difícil encontrar alguém tão parvo. Muitos veados chapados devem ter vendido suas propriedades e se mudado para a Chapada dos Veadeiros, mas quantos simplesmente as abandonaram ou distribuíram os dividendos obtidos na venda? Aposto que nenhum. Schopenhauer dixit : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.” Numa fábula de Esopo, enquanto o navio afunda, um rico reza para Atena e lhe promete mil oferendas caso se salve. Um náufrago adverte: “Convoca Atena e também teus braços”. No fundo, mesmo os fanáticos creem sabendo que podem estar errados, senão não creriam, saberiam. Senão não seriam tão truculentos com a descrença alheia, posto que saberiam ou teriam plena convicção de que indizíveis tormentos os aguardariam na outra vida. Não creio que o céu seja azul, que as árvores sejam verdes. Sei que são.
Não há uma crença mas uma atração e um desejo de Apocalipse. Esperá-lo é, de certo modo, vivenciá-lo. Será quando o vizinho que seguramente enriqueceu roubando, porque sou superior a ele e ainda assim mais pobre, pagará seus pecados, será quando todas as casas ricas serão destruídas junto com meu apartamento de dois quartos, quando não precisarei mais me olhar no espelho, trabalhar e competir para sobreviver. É uma atração suicida que também demanda destruição, típica de ressentidos, como esses losers que abrem fogo contra inocentes em escolas. Não é à toa que o que dá prazer para gente desse tipo é imaginar - amiúde com uma ajudinha de Hollywood - o Empire State e a Torre Eiffel sendo destruídos, como gigantescas estátuas de Buda escavadas na rocha virando farinha sob os pés encardidos dos Talibãs. Não tem graça imaginar africanos famintos sendo arrastados com suas malocas por ondas de centenas de metros de altura. Ora, formigas morrem todo dia. Qual a atração nisso?
Qualquer coisa é motivo para se vaticinar o fim do mundo. Efeito Estufa, Guerra Atômica, números decimais cheios de zeros: o ano 1000, por exemplo. O belo número cheio de bolinhas perde completamente a importância quando pensamos que o sistema poderia ser duodecimal e não decimal. A escala básica seria: 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 (x) (y) 10 - o "10" seria uma dúzia. “X” e “Y” seriam signos originais, como os números de 1 a 9. O "20" seria a grafia para duas dúzias. O ano 1000 duodecimal aconteceria no 1728 decimal, um anozinho como qualquer outro; nada, digamos, cabalístico. O universo não está nem aí para nossas convenções. Não tem sequer consciência. Mas é claro que as forças do destino usam a convenção humana para estabelecer eventos marcantes, principalmente os futuros.
Sempre foi fascinante o caos iminente pregado por profetas ensandecidos, que, alheios à lógica dos homens estão portanto mais próximos da lógica de Deus, segundo o sapientíssimo senso comum. Como nas montanhas-russas, que simulam situações limite, de quase morte, ou em filmes de serial killers, quando, na pele da vítima mas na segurança de nossas poltronas sentimos a morte se aproximar sabendo que terminaremos o filme vivos, de igual modo os crentes no fim do mundo se reúnem em fazendas, como se adentrassem uma Arca de Noé, para aguardar a grande destruição que jamais virá, fruem de toda preparação, das preliminares que não redundarão em orgasmos, dão as mãos, rezam, têm pesadelos, abraçam-se e... como em todas as vezes anteriores, veem amanhecer o Day After, idêntico ao Day Before, e comemoram o milagre: “Nossas orações foram atendidas! Deus cancelou nada mais nada menos do que o Fim do Mundo por conta de nossas poderosas orações!” E retornam felizes da vida para as propriedades de que jamais se desfariam.
E há aqueles que dão cabo da própria vida, quase sempre em grupo, pouco antes do fim anunciado. Estes são meros suicidas que desejam entrar para a glória da história por meio de uma nota de rodapé em algum jornal, como os emos que pulavam do alto do Shopping Pátio Brasil, ou muito estultos por perderem o grandioso espetáculo cinematográfico apocalíptico, durante o qual poderiam facilmente, para evitarem a terrível dor da submersão em lava, meter uma bala de 38 na cabecinha oca...
18 julho 2012
Churrasco francês é razoável?
"...Há uma (...) categoria de experiências - não verificáveis, singulares porque não são generalizáveis, portanto não científicas, mas que merecem outra atitude, não necessariamente a aceitação, mas pelo menos o benefício da dúvida, uma vez relatadas por pessoas saudáveis, que não se enquadram em nenhum dos numerosos indicadores que caracterizam os farsantes.
Joana d'Arc (estou lendo uma biografia dela apoiada em registros de seu julgamento, dos quais nos chegaram diferentes versões) é um bom exemplo. As adulterações produzidas para condená-la visavam incriminá-la de bruxaria. Era uma jovem camponesa distante da política e que, lá pelas tantas, começou a falar que ouvia uma voz que, para ela, era a voz de Deus.
Ninguém precisa endossar essa alegação. É apenas um exemplo do tipo de singularidade a ser examinada atentamente, uma vez que a hipótese de delírio não se confirma em suas falas. A forma de se conduzir nas diversas situações em que fracassavam políticos, diplomatas e militares atestam - diferentemente de um delírio - uma refinadíssima capacidade de lidar com a realidade. Ao invés de jogar todas as singularidades dentro do mesmo saco de lixo, caberia nos perguntarmos: O que aconteceu com Joana d'Arc? Se a ciência chegar um dia a explicar e a replicar, tanto melhor! Em sã consciência, uma boa resposta é 'não sabemos'. Em sã consciência, também, é possível algo na linha de 'eu acredito que... (inserir a crença que faz mais sentido para cada sujeito)'. Apenas deve ficar claro que 'eu acredito' não é prova de nada, não é justificativa para imposição da mesma crença a quem quer que seja, nem deve servir de pretexto para fechar questão. (...)"

Devemos estar abertos à possibilidade de duendes existirem e se protegerem da chuva sob cogumelos? Sim, por que não? Tão logo apareçam evidências, os de fato racionais se renderão a elas. Ou passarão a ser crentes na não existência de duendes, do quilate dos que acreditam que o homem não foi à Lua.
Quem precisa apresentar evidências da existência de algo extraordinário são aqueles que a defendem. Quase sempre os que não acreditam não terão como prová-la falsa. Não se demonstra cientificamente que ETs não existem, ainda que cada milímetro quadrado do universo seja esquadrinhado, porque não se pode ter absoluta certeza de que não sejam capazes de ficar invisíveis, por travessura ou por medo. Por isso devemos pensar em termos de graus de razoabilidade. Creio que as probabilidades de haver vida fora da Terra não sejam remotas, mas é improvável que ETs estejam entre nós, que empilharam pesados blocos de pedra no Peru há milhares de anos (só porque não sabemos como quechuas e lhamas os possam ter transportado), que aparecem para caipiras, atores da Globo e ufólogos, que sempre se escondem dos céticos, como fazem justamente os parentes desencarnados, os anjos e as fadas.
É racional crer na existência do Bóson de Higgs, ainda mais agora, que a probabilidade de que exista é de 99,9999%, segundo li. Por outro lado, pode-se dizer que há 0,0001% de certeza de que o criador do mundo falou com uma francesa de nome Joana mais de meio milênio atrás? Acho o número superestimado. A propósito: Criador do mundo? Ele existe? Existe o supra-deus, o criador do criador?
O que eu tenho certeza é de que onde há contradição não há verdade. Sim, quanticamente, o Gato de Schrödinger pode estar vivo ou morto. Mas não poderá estar vivo e não-vivo ao mesmo tempo, salvo com malabarismos linguísticos nos quais teólogos, marxistas e outros homo ideologicus são versados. Digamos que as alegações de Joana d'Arc sejam verdadeiras. Então a Bíblia é falsa, porque agora não se trata de conflitos entre Novo e Velho Testamentos. O Novo vige, não? E Jesus, que não era um nacionalista zelote a bradar "romans go home" pela Palestina, como Brian, não ordenaria cristãos que falam francês a matarem correligionários anglófonos para os primeiros retomarem Orleans. Se a Bíblia é falsa, como crer em um Jesus divino, em sua ressurreição, na absurda trindade de Tertuliano? E a partir daí, como acreditar na própria Joana d'Arc?
E mais: por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana? Endossaria, no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana d'Arc, desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira até o assassínio em nome de um deus, ou de fronteiras.
A "refinadíssima capacidade de lidar com a realidade" elevaria o grau de razoabilidade das alegações da santa guerreira cuja influência sobre blockbusters atuais tem sido tão nefasta, de Alice no País das Maravilhas à Branca de Neve e o Caçador, que culminam irritantemente com pias Joanas d'Arc a conduzir exércitos contra o mal após discursos de sindicalista?
Se Einstein, acreditando prestar um grande serviço à uma crença que professasse, tivesse afirmado que a Teoria da Relatividade havia sido ditada por anjos, os céticos ficariam em uma sinuca de bico. Calar-se-iam por um tempo, provavelmente. A brilhante teoria não seria prova de que existem anjos, mas conferiria autoridade para inverdades não relacionadas a ela, professadas por seu autor. "Como um ser humano sozinho amontoaria tantos números e letras para derrubar verdades físicas tão assentes?", "por que mentiria tal nobre homem?", "como se enganaria dessa maneira um homem tão meticuloso e sábio?", seriam possíveis comentários de líderes religiosos em júbilo. Contudo, bastaria um fóton superar a velocidade da luz, em um acelerador, séculos depois que fosse, para derrubar o postulado de Einstein de que não se pode ultrapassá-la. E os anjos cairiam também, de uma altura que só Lúcifer conheceu - existam tais inúteis mensageiros alados ou não. Já uma francesa da Baixa Idade Média, em uma época de guerras santas, intolerância, superstição, em que a Igreja Católica definia até a posição em que se podia fabricar mais cristãos, naquela época de Terra Plana, de monstros marinhos, de pogroms pios, peregrinações fanáticas, cilícios e flagelos, de grotescas relíquias, em que o continente inteiro estava defumado em incenso, alguém falar com seriedade sobre fantasias tidas como tão verdadeiras quanto a realidade tangível não reforça em nada a probabilidade de serem verdadeiras.
Em tal contexto, apelar para o "Deus ordenou" talvez fosse o único modo de uma menina com sanha guerreira ingressar na diplomacia e nas armas, afinal estamos no século XV. E sem falar na profecia, da virgem de Lorena que reconquistará a França, responsável em parte pela aceitação geral - após um rigoroso exame ginecológico, é claro.
Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. É uma lei básica. Infelizmente, não vale para os que amam crer mais do que amam o bom senso e a verdade.
11 setembro 2009
Agora os moradores estão protegidos
Publicação: 11/09/2009 09:05
A pedido dos moradores do Bloco C da 113 Sul, foi realizada ontem uma bênção no térreo do edifício. O padre Adilson Marques, da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, localizada na 312 Sul, rezou um Pai-Nosso em homenagem às três vítimas e jogou água-benta nas prumadas do prédio. “Este crime não assustou só os moradores do prédio, mas Brasília inteira. Eles (as vítimas) eram extremamente educados, discretos e ótimos vizinhos.
Esperamos que o caso seja resolvido”, disse uma mulher que preferiu não se identificar. Quinze pessoas compareceram à cerimônia — na estrutura original do edifício, havia 36 apartamentos, mas os Villela reformaram o 601 e o 602 para transformá-los em um imóvel único. Assim, o bloco passou a ter 35 condôminos.
Após a breve celebração, que durou cerca de 20 minutos, os moradores se reuniram para discutir mudanças na segurança do prédio. Na próxima semana, o Bloco C passará a contar com 16 câmeras de segurança, que serão espalhadas por pontos estratégicos. Ao contrário das atuais, os novos equipamentos gravarão as imagens captadas. Segundo Orivaldo Ferrari, 58 anos, integrante do Conselho Consultivo do edifício, os porteiros receberão treinamento para lidar com as mais diferentes situações. Quem quiser visitar alguém no local terá de mostrar documento de identificação na portaria e ainda tirar uma foto na webcam do computador.
Os condôminos cogitaram ainda a contratação de vigilantes, que fariam a segurança externa do bloco 24 horas por dia. “Resolvemos não adotar essa medida porque seria apenas mais gente estranha no prédio. As câmeras são suficientes”, destacou Ferrari. O investimento em todo o aparato tecnológico será de R$ 8 mil. “Já vínhamos discutindo essas mudanças havia três anos. Pena que elas só sairão do papel depois de um crime brutal como esse.”
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Meu comentário: certamente agora é a hora de encher o local de câmeras, seguranças e ex-integrantes da SWAT, já que todos bandidos do país sabem que assaltar o bloco C da SQS 113 dá lucro, bastando, para obtê-lo, afiar a faca e se armar de um pouco de ousadia. Mas, quando se passarem 2, 3, 10 anos sem outros ataques desse tipo no bloco C da SQS 113, a explicação não estará nas probabilidades nem nos dispositivos de segurança, e sim na água mágica que o representante divino (pastor, pajé, xamã, padre no caso) aspergiu no pilotis ao som de palavras mágicas, em contato com o mundo invisível (inexistente)... Pergunta: por que não joga água-benta no planeta Terra de uma vez?
23 junho 2009
Minhas preces foram atendidas
Meu querido primo escreveu:
"Há pouco tempo resolvemos eu e a Alessandra passear em São Marcos. Paramos naquela conhecida gruta à margem da BR, para eu matar as saudades e bater fotos. Ela me sugeriu um pedido para Nossa Senhora das Graças, o que acabei fazendo ainda que um tanto cético; pedi pela minha saúde, que vinha bastante mal.
Só Deus sabe o quanto estava debilitado, com arritmias freqüentes, cansaço e estresse extremos, tonturas, palpitações etc., tendo que me abster de prazeres como vinho, bebidas com cafeína e até de passeios, porque uma caminhada de 50 metros já me exauria as forças.
Qual não foi minha surpresa quando em praticamente dois dias melhorei 90%! Hoje caminho em ritmo bastante forte, durmo bem, degusto vinho à vontade, café, mangio o que quiser, e o melhor de tudo, as arritmias escassearam significativamente, a ponto de quase desaparecerem. Soa até como papo de bispo da Igreja Universal, mas tenho testemunhas do antes e depois. O fato é que fiquei positivamente surpreso com o que aconteceu, e pretendo somar uma plaquinha de agradecimento àquelas muitas que enfeitam a gruta.
Fica o relato. Caso alguém ache que estou mentindo, que o efeito foi psicológico ou coisas do gênero, fique à vontade. Isso não mudará a verdade.
Abraços."
E eu respondi:
Bom, Cristiano, como o Estevão, estou feliz por você estar melhor! E para a próxima, e sou eu que lhe peço, vá lá e reze/peça pela paz no oriente médio. Ou pela cura da AIDS. Ou que um dedinho amputado de qualquer pessoa cresça... Bom, aí é difícil, porque sabemos que o seu deus não cura amputados, nem que todas as pessoas do mundo peçam com fé ao mesmo tempo... É como rezar para achar uma vaga no Setor Comercial Sul na hora do rush... Deuses costumam atender mais se rezarmos para achar uma vaga no Nilson Nelson durante a semana... Para que gastar a fé se ela faz tão bem, independentemente de seu objeto ser verdadeiro, como disse o Fábio?
Acredita que melhorou pelo fato de ter pedido pela sua saúde à Senhora das Graças, tudo bem. Partindo desse pressuposto, você deve as melhoras à Santa porque ela o ajudou. E se não tivesse melhorado, seria por recusa da Santa em o ajudar? Aí não, claro! Aí seria porque o deus sabe o que é melhor para nós, para nossa alma, etc. Ele se dá bem quando atende a preces e quando não atende. Ora, então as pessoas pias e que pedem com fé deviam colocar plaquinhas de agradecimento na gruta da Santa por não terem sido curadas, afinal o deus sabe o que é melhor para elas e para a humanidade...
Bom, 90% não é impressionante, Os cirurgiões psíquicos da Malásia garantem 100% :)...
E apenas a fé pode levá-lo a crer que merece ser "curado" de algum mal enquanto milhões de outras pessoas que têm a mesma crença estão na fila de espera há anos por um milagrezinho. Você deve ser muito especial para o seu deus...
Mas considero isso normal. Quando estamos impotentes perante algumas coisas, gostamos de ter um ser onipotente à disposição que é "comandado" por nós para que faça o que desejamos, e a prece (a prece que pede por algo, não a que agradece, que por vezes é fruto apenas de felicidade transbordante e às vezes é medo de ser mal-agradecido e perder o que foi conquistado por ser muito especial aos olhos de deus) é uma espécie de joystick com que julgamos controlar esse ser onipotente... E aí nos sentimos potentes... Pobre ser humano!
"Neptuno has ago gratias meo patrono, qui salsis locis incolit piscolentis, quom me ex suis locis pulchre ornatum expedivit, reducem et tempulis, plurima praeda onustum salute horiae"
(Graças sejam dadas a Netuno, meu patrono, que está na morada salgada dos peixes (não sei traduzir bem), pela rapidez com que me levou para casa e sei lá mais o quê...
Existem milhares de preces comoventes feitas em agradecimento a outros deuses, por graças alcançadas. Esses deuses não existem e isto é consenso, porque hoje não há crentes que reclamem sua existência.
Vamos às estatísticas:
Digamos que 0,15% da população mundial contraia uma doença nova da qual a chance de o contagiado se curar seja de uma em cem - 1%. Quem ouve de um médico "sua chance de sair vivo desta é de 1%" considera-se praticamente morto, não?
Bom, a população mundial é de 6,6 bilhões. Teremos quase 10 milhões de desgraçados no mundo que contrairam a doença. Quase todos terão algum deus e rezarão para ele, embora se considerem praticamente mortos. No fim das contas, teremos 100 mil pessoas salvas "miraculosamente" mundo afora a dar testemunho diário do quanto seu deus é poderoso, afinal estavam "praticamente mortas". As outras milhões estarão mortas e não terão chance de dar testemunho diário de coisa alguma. Estatística é isso aí! Se a possibilidade de ganhar em determinado jogo é de uma em um milhão e cinco milhões jogarem, provavelmente teremos cinco ou seis ganhadores, dez, quem sabe. E todos eles se considerarão agraciados pelos deuses, afinal rezaram antes de jogar... Assim como os outros que não ganharam...
07 janeiro 2008
O Santuário
Assim falou Nietzsche: “É claro, se pudéssemos de fato ver esses carolas e santos falsos, mesmo que apenas por um instante, a farsa seria posta a fim”.
O pequeno conto abaixo foi mal traduzido por mim a partir de uma tradução inglesa, que reproduzo ao final deste post. Se alguém souber corrigi-lo, não se faça de rogado.
O Santuário
O pai do mulá Nasrudin era o muito respeitado guardião de um santuário construído sobre o túmulo de um grande mestre, local de peregrinação que atraía tanto crédulos quanto buscadores da verdade.
Pelo curso natural dos eventos, era de se esperar que Nasrudin herdasse o posto do pai. Mas logo após seu décimo quinto aniversário, quando passou a ser considerado um homem, decidiu seguir a antiga máxima: “procure conhecimento, ainda que seja na China”.
“Eu não tentarei te impedir, meu filho”, disse seu pai. Então Nasrudin selou um jumento e deu início a suas viagens.
Visitou as terras do Egito e Babilônia, vagou pelo Deserto da Arábia, dirigiu-se para o norte, a Konya, Bocara, Samarcanda e à cordilheira do Hindu Kush, associando-se a dervixes e tendo sempre em vista o Extremo Oriente.
Nasrudin cruzava com grande esforço as cordilheiras de Caxemira, após um desvio pelo pequeno Tibet, quando seu jumento, vítima da atmosfera rarefeita e das privações, tombou e morreu.
Nasrudin foi tomado pela dor; o jumento havia sido a única companhia de suas jornadas, que já duravam doze anos ou mais. Com o coração partido, enterrou seu amigo e fez sobre o túmulo um pequeno monte de terra. Lá ficou em silenciosa meditação; sobre ele, grandiosas montanhas, e abaixo, velozes torrentes.
Os viajantes que tomavam a estrada entre a Índia e a Ásia Central, China e os santuários do Turquistão, passaram a observar a figura solitária, ora chorando a sua perda, ora com o olhar nos vales da Caxemira.
“Certamente aquele é o túmulo de um homem santo”, diziam uns aos outros; “e não de um qualquer, haja vista o modo como seu discípulo o pranteia. Tem estado aqui por meses e a dor pela sua perda não dá sinais de diminuir".
Um homem rico passou e, em um ato de devoção, ordenou que fossem erigidos um domo e um santuário no local. Outros peregrinos aplainaram o entorno montanhoso e plantaram sementes, cujos frutos destinavam-se a manter o santuário. A fama do dervixe em silencioso luto se espalhou, até que a notícia chegou ao pai de Nasrudin, que imediatamente seguiu em peregrinação ao local santificado. Quando viu Nasrudin, perguntou-lhe o que havia acontecido. Nasrudin contou-lhe tudo que se passara. O velho dervixe elevou perplexo suas mãos para o céu: “saiba, meu filho”, exclamou, “que o santuário onde foste criado, e que abandonaste, foi erguido exatamente da mesma maneira, por uma cadeia de eventos parecida, depois que meu próprio jumento morreu, há mais de trinta anos".
Fim
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Se fosse possível construir uma máquina que nos transportasse para qualquer época do passado, como meros observadores, e assim nos fosse dado acompanhar despercebidos à curta distância os principais eventos da História, incluídos os narrados nas páginas dos livros ditos sagrados, algo permaneceria de pé? Assistiríamos a épicos hollywoodianos ou a deprimentes espetáculos mambembes? Ficaríamos de queixo caído perante ornitorrincos migrando dezenas de milhares de quilômetros por terra e por mar para subir a rampa de uma gigantesca arca em um estaleiro no meio do deserto? Não.
Mas talvez ficaríamos empolgados com o heroísmo dos espartanos nas Termópilas, nos divertiríamos com um piti de Alexandre Magno, não acharíamos as Guerras Púnicas tão impressionantes, talvez porque não testemunharíamos elefantes africanos cruzando os Alpes...
Teríamos dificuldade em encontrar José e Maria em algum buraco da Galiléia. E se encontrássemos, acompanharíamos cada passo de Maria para nos certificarmos de que ela engravidaria virgem. Veríamos José, como bom barbudo de um Oriente Médio onde não havia televisão, seguidamente conhecendo biblicamente sua esposa. Ela não primaria pela beleza, seria tudo menos a ebúrnea Palas Atena dos altares cristãos. Viveriam em um local insalubre, cheio de moscas. José não lavaria as mãos antes de levar o pão ázimo à boca, perdida atrás de uma repugnante barba. Teriam vários filhos e não encontraríamos dificuldade em identificar qual deles haveria de ser o “príncipe da paz”. Seria talvez o mais estranho, aquele que não conseguiria lixar tão bem uma canga de bode quanto os outros irmãos. Ele preferiria jogar conversa fora com mágicos, prestidigitadores, viajantes e vagabundos a ter que trabalhar com seu pai.
Adiantaríamos uns anos no relógio da máquina e enfim veríamos o filho abandonar a casa dos pais aos trinta anos – algo que só seria visto novamente no final do século XX – e ainda por cima solteiro, sem nunca ter namorado. A partir daí, o veríamos arrebanhar sua “armata Brancaleone” em suas andanças pelas feias paisagens da Palestina. Riríamos de seus truques baratos e dos falsos paralíticos contratados para serem curados perante um povo ávido por milagres e por um messias que cumprisse as belas profecias de seus ancestrais.
Veríamos o galileu praguejar ao ser pregado na cruz, os discípulos subornando os guardas para recolherem do sepulcro seu corpo e então espalharem a “boa-nova” de sua “ressurreição”. Ou então simplesmente nunca encontraríamos Jesus algum. Talvez um jumento sob um montículo de terra.
Mas alguns feitos seriam confirmados, para espanto dos viajantes no tempo. A comprovação do miraculoso strike triplo de INRI Cristo em um boliche de Curitiba revigoraria a fé de milhões de neo-cristãos do século XXX, quando a tal máquina será inventada...
Ilustração: Montagem a partir destas quatro imagens: um burro, um pedestal, Basílica do Santo Sepulcro e mascote dos Democratas (dos EUA).
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Texto Original:
Mulla Nasrudin’s father was the highly-respected keeper of a shrine, the burial-place of a great teacher which was a place of pligrimage attracting the credulous and the Seekers After Truth alike.
In the usual course of events, Nasrudin could be expected to inherit this position. But soon after his fifteenth year, when he was considered to be a man, he decided to follow the ancient maxim: ‘Seek knowledge, even if it be in China.’
‘I will not try to prevent you, my son,’ said his father. So Nasrudin saddled a donkey and set off on his travels.
He visited the lands of Egypt and Babylon, roamed in the Arabian Desert, struck northward to Iconium, to Bokhara, Samarkand and the Hindu-Kush mountains, consorting with dervishes and always heading towards the farthest East.
Nasrudin was struggling across the mountain ranges in Kashmir after a detour through Little Tibet when, overcome by the rarefied atmosphere and privations, his donkey laid down and died.
Nasrudin was overcome with grief; for this was the only constant companion of his journeyings, which had covered a period of a dozen years or more. Heartbroken, he buried his friend and raised a simple mound over the grave. There he remained in silent meditation; the towering mountains above him, and the rushing torrents below.
Before very long people who were taking the mountain road between India and Central Asia, China and the shrines of Turkestan, observed this lonely figure: alternately weeping at his loss and gazing across the valleys of Kashmir.
‘This must indeed be the grave of a holy man,’ they said to one another; ‘and a man of no mean accomplishments, if his disciple mourns him thus. Why he has been here for many months, and his grief shows no sign of abating.’
Presently a rich man passed, and gave orders for a dome and shrine to be erected on the spot, as a pious act. Other pilgrims terraced the mountainside and planted crops whose produce went to he upkeep of the shrine. The fame of the Silent Mourning Dervish spread until Nasrudin’s father came to hear of it. He at once set off on a pilgrimage to the sanctified spot. When he saw Nasrudin he asked him what had happened. Nasrudin told him. The old dervish raised his hands in amazement:
‘Know, O my son,’ he exclaimed, ‘that the shrine where you were brought up and which you abandoned was raised in exactly the same manner, by a similar chain of events, when my own donkey died, over thirty years ago.
30 setembro 2007
Divagação Erudita
Feliz 119!
Dedico este post ao novo membro do Pugnacitas, André Balsalobre, que veio à luz há exatos trinta e um anos, no reveillon do ano 88 da Era da Salvação, iniciada em 30 de setembro de 1888 do falso calendário.
Obviamente, não falo a sério. Entro no espírito de uma brincadeira feita por Nietzsche na data da conclusão de seu ensaio “O Anticristo”, 30 de setembro de 1888, há 119 anos.
30 de setembro é também o dia mundial do traidor, digo, tradutor. Traduttore = traditore, dizem os italianos. A homenagem nasceu do dia onomástico de São Jerônimoooo, padroeiro dos paraquedistas e praticantes de bungee jump e traditore da Bíblia para o latim a partir de manuscritos em grego e hebraico, no século IV d.C..
No dia 30 de setembro de 1452 Gutenberg apresentou o primeiro livro impresso: a Bíblia. Uns setenta anos depois, Lutero, valendo-se do invento do conterrâneo, difundiu pelas populações alemãs milhares de cópias do Novo Testamento traduzido por ele próprio para o alemão (saxão). Celebra-se entre os protestantes a tradução de Lutero como um símbolo de libertação em relação à Igreja de Roma. No entanto, existem várias impressões da Bíblia em alemão anteriores à versão do traditore Lutero, como podemos ler no verbete Versions of the Bible, da Catholic Encyclopedia. Trecho: “Of special interest are the five complete folio editions printed before 1477, nine from 1477 to 1522, and four in Low German, all prior to Luther's New Testament in 1522”.
Segundo os católicos conservadores, o livre exame das escrituras promovido pelos protestantes teria permitido a vulgarização e a profanação da Bíblia pela figura do "caçador de contradições". Segundo eles, as contradições apenas mostram o grave erro em que se incorreu ao dar a cada cristão a possibilidade de ser um exegeta. Como não existem explicações na própria Bíblia para as contradições, seria necessário um intérprete autorizado por Deus para harmonizar as diversas passagens, para explicar as divergências valendo-se da Tradição. A autorização de Deus viria por meio do sedizente sucessor de Pedro: o Papa. Para tais católicos seria muito melhor para a cristandade se os livros ainda fossem reproduzidos manualmente, por copistas.
“Tradição” não significa “traição”, é claro. Mas podemos traduzir a palavra para “prevalência da vontade das facções mais barulhentas e poderosas dos concílios”, “crendices populares consolidadas por gerações”, “sufocamento sistemático de 'hereges' e de inimigos da tradição", necessária esta para futuras interpretações baseadas na tradição.
Caçadores de contradições não faltam. Há milhares de sites Web afora dedicados a denunciá-las. E, como não poderia deixar de ser, outros tantos milhares a refutá-las.
Divagação Erudita
Nietzsche escreveu no supracitado ensaio, referindo-se não à hagiografia católica, como pode parecer ao se retirar o trecho de seu contexto, mas às páginas da Bíblia: “Que me importam as contradições da ‘tradição’? Como alguém pode chamar lendas de santos de ‘tradição’? As histórias de santos são a mais dúbia variedade de literatura existente; examiná-las à luz do método científico na ausência total de documentos corroborativos a mim parece condenar toda a investigação desde suas origens – isso seria simplesmente uma divagação erudita...”
Eu escrevi em determinado ponto do post Elemental, meu caro Watson: “Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para ‘simbologias’”.
Mas confesso que às vezes me apraz fazer pescaria na Bíblia, fisgar botas revestidas de untuosos plânctons, pneus (hagia pneuma) e outros trastes velhos atirados pelos pais do cristianismo ao já poluído e enturvado lago divino, verdadeiro Piscinão de Ramos em cujas águas milhões e milhões de ignorantes diariamente se banham e contraem as mais diversas moléstias, comumente aquelas que atacam o córtex cerebral, a área do cérebro responsável pela razão.
Então, nesta última hora deste 30 de setembro, faço uma inútil “divagação erudita” sobre uma pescaria que fiz um bom tempo atrás.
Em Jerash
Vocês podem não ter fé em mim, mas no dia 30 de setembro de 1992 eu e um colega de universidade visitávamos as ruínas de Jerash (Gerasa), uma cidade da Decápole Romana, chamada hoje pelos jordanianos de "Pompéia do Oriente", a mesma alcunha dada pelos sírios à Palmira (Tadmor), e naquele local eu, à época um católico “exemplar”, tive meu primeiro contato com uma contradição bíblica, mais precisamente uma impossibilidade geográfica.
Pois bem, estávamos tão extasiados a explorar as preciosas ruínas por tantos séculos esquecidas no deserto, a contemplar a perfeição da pavimentação das ruas, com sarjetas, meios-fios e calçadas, a elegância dos templos e colunatas cujas cores esquentavam-se ao crepúsculo, que perdemos o último ônibus que saía para Amã, onde eu executava algumas pinturas para o Patriarcado de Jerusalém. Cliquem aqui para ver a capa do Livro History of Modern Christianity in the Holy Land, ilustrada com um óleo de minha autoria. As cores estão mortas na reprodução. A torre contra o sol gera uma auréola na Igreja de Mádaba, cidade próxima ao Monte Nebo, camarote do qual Moisés imaginou com pesar os massacres do povo cananeu que se consumavam a poucos quilômetros. Com pesar por não ter sido autorizado a participar, claro. Quem mandou ferir a rocha duas vezes com a vara para que brotassem as águas de Meribá?
O primeiro lugar onde nos ocorreu procurar pernoite foi a igrejinha que havia em Majdal, um dos vilarejos vizinhos, de maioria muçulmana. O padre, um francês, torceu o focinho para o nosso pedido. Por sorte, um muçulmano que passava pelo local parou quando viu os dois estrangeiros e, posto a par da questão, achou que era uma boa ocasião para vender a “grandeza” de sua fé e expor a hipocrisia da concorrente. Insistiu para que o padre nos indicasse algum canto da construção principal ou de seus anexos onde pudéssemos nos recostar até a manhã seguinte. O padre, que em determinado momento parecia disposto a ceder, após a interferência petulante do islâmico recusou-se peremptoriamente a nos dar abrigo. O outro proferiu com voz empostada de muezim que a hospitalidade era um dever do muçulmano e que ainda que fosse no mihrab da Mesquita arranjaria um local para nos abrigar contra o frio da madrugada.
No fim das contas, dormimos na casa dos pais do rapaz, que deram uma pequena festa em nossa homenagem com música ritmada por derbake, sucos, frutas, pães e queijos. Acabamos retornando a Amã somente seis dias depois porque os vizinhos quiseram que dormíssemos também em suas casas para que pudessem exercitar a hospitalidade. Os convites eram feitos ríspida e guturalmente enquanto nos seguravam pelos punhos, impedindo que cruzássemos o vão da porta. De fato, apenas despertávamos sua curiosidade, tanto que na quase totalidade das vezes o preceito da hospitalidade era esquecido tão logo os anfitriões esgotassem as frases prontas em inglês e nós as em árabe...
No terceiro dia, dormimos na casa de um certo Mohammad, cujo inglês era bem aceitável, apesar do sotaque. Durante o jantar falou muito, exaltou a região e sua história, o islamismo e, como não poderia deixar de ser, criticou a fé rival: “Alá não é três, é um!”, “Jesus não é um deus. Ele é um profeta do Islã”. Desatou a listar os erros do livro sagrado dos cristãos e acabou por citar Marcos 5, onde é descrita a visita que Jesus e sua gangue fizeram à terra dos gerasenos: Gerasa, ou Jerash. Para ele, a prova de que Marcos não fora testemunha de episódios da vida de Jesus como a sua prisão no Getsêmani residia no fato de que o verdadeiro autor daquelas linhas ignorava detalhes importantes da geografia da região.
Retirado da Bíblia Católica:
Marcos, 5
Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros, pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus, que não me atormentes." É que Jesus lhe dizia: "Espírito imundo, sai deste homem!"
Perguntou-lhe Jesus: "Qual é o teu nome?" Respondeu-lhe: "Legião é o meu nome, porque somos muitos". E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte. E os espíritos suplicavam-lhe: "Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles." Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti." Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.
Impossibilidade Geográfica
Jesus expulsa uma legião de demônios de um só possesso e, como bem avaliou Bertrand Russel, ao invés de usar seus poderes divinos para simplesmente mandá-la embora, leva o(s) suinocultor(es) desconhecido(s) à falência - e quem sabe parte da economia da região, pois eram 2000 porcos! A propósito, para quê povos da província romana da Arábia, árabes portanto, que também não consumiam este tipo de carne necessitavam de população suína tão grande? Ordenhavam as fêmeas?* - e permite que os demônios possuam os animais, causando a morte de todos eles. Não parecia ser essa sua intenção inicial mas atende às súplicas dos capetas... E como tudo isto se passa nos domínios de Gerasa, os porcos-lemingues correm mais do que uma maratona para se precipitarem na água.
“A César o que é de César”, teria dito o homem-deus. No entanto, ao autorizar o suicídio induzido de dois mil porcos lesou os cofres de Roma, que tinha direitos sobre parte dos lucros do(s) criador(es) de porcos.
Outro ponto é que não existem precipícios na orla do Mar da Galiléia, quase sempre plana, no máximo os montes que originam as Colinas de Golã, ao nordeste. Precipícios podem ser encontrados mais ao sul, na região do Mar Morto, mas mesmo lá há praias entre os rochedos e a água. Em Marcos os porcos caem diretamente no Mar da Galiléia. Jesus não se importou com a salubridade da água, que servia aos moradores daquelas paragens. Dois mil porcos em decomposição devem ter transformado a água em um caldo bacteriano extremamente nocivo, matando peixes, arruinando pescadores e impedindo os humanos de consumi-la. Não foi à toa que a população escorraçou o Galileu e sua trupe. Pela interpretação de alguns religiosos os habitantes de Gerasa expulsaram Jesus da sua terra por amarem mais os porcos do que a Deus, he he.
Em Mateus 8, 28, lemos:
“No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.”
Agora são dois os endemoniados e Jesus não desembarcou mais em Gerasa mas em Gadara, que distava uns 10 quilômetros do Mar da Galiléia. Pelo menos a chance dos porcos-lemingues morrerem afogados e não enfartados aumenta um pouco no Evangelho segundo Mateus...
Sujo falando do Mal Lavado
Mohammad irritou-se com algumas objeções que fiz. Na época argumentei que aquelas pequenas diferenças eram mais uma prova de que os Evangelhos eram autênticos, pois se o texto de Marcos tivesse sido escrito a partir do de Mateus e não por inspiração divina as informações não seriam conflitantes. Ele disse então que o livro sagrado dos muçulmanos havia sido ditado letra por letra por Alá e que por isso era muito mais confiável do que a Bíblia, “inspirada” e por isso plena de contradições.
Hoje sabe-se que inúmeras outras versões do Alcorão foram deliberadamente destruídas durante os primeiros califados. Em Sana, no Iêmen, encontraram nos anos 70 fragmentos de um Alcorão da metade do séc. VIII que continha passagens diferentes das que vemos na versão atual, o que deveria sepultar a ridícula crença dos muçulmanos de que cada vírgula de seu livro sagrado foi ditada pelo enViado de Alá, o anjo Gabriel, o mesmo que fez o primeiro exame pré-natal em Maria. Mas seria exigir demais dos pobres muçulmanos. Quando ouvem falar dos manuscritos de Sana dão as explicações Ad Hoc de qualquer religioso fanático: "aquilo foi plantado pelo Shitan (diabo) para confundir os crentes".
Não quero perder meu tempo pescando no imundo charco do Alcorão. Minhas “divagações eruditas” não descem tão baixo...
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* - update: Certamente havia uma boa quantidade de romanos e de povos helenizados na região, ainda mais na Decápole, e não viam problemas em desfrutar de um bom lombinho assado de vez em quando. Infelizmente sem as rodelas de abacaxi, afinal os fenícios, caso tenham estado na América antes de Colombo, esqueceram-se de carregar para a Síria mudas da preciosa bromélia.
11 julho 2007
Frases de Luminares
Ele, um católico fervoroso e muitíssimo inteligente, contestou cada uma delas, fiz minhas tréplicas, com algum cuidado para não o ofender, e a partir delas fez suas últimas objeções. A discussão prosseguiu ao vivo, quando ele esteve em Brasília, e, embora não tenhamos nem de longe chegado aos "finalmentes", como quase aconteceu entre o Heitor e seu amigo petista, fato descrito no post anterior, não nego que tivemos de mudar de assunto quando o mal-estar típico desses embates verbais se avizinhou. De fato, a discussão por escrito é a alternativa viável quando não há um mediador que impeça um argüente de cortar a exposição do raciocínio do outro e que discurse além do tempo conveniente. Nas caixas de comentários de blogs, passamos ao comentário seguinte quando percebemos que o debatedor perdeu-se dourando a pílula ou repetindo algo que já havia escrito.
Inspirado no conflito entre amizade e ideologias/filosofias incompatíveis, colo aqui uma pequena amostra da discussão, adiantando que não há muita novidade na maioria dos argumentos, de ambos os lados.
Primo: Realmente não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade. A crença em Deus não é anti-racional. É extra-racional. Quem entende corretamente o cristianismo, não teme a Deus, mas O ama. Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião, assim como um mau cientista não serve de base para se condenar a ciência.
Eu: Extra-racional? Que diabos vem a ser isto?
" Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião,..."
Entre os religiosos que detiveram algum tipo de poder - portanto agora não estou falando da massa de prosélitos - o abuso de autoridade não apenas não foi exceção mas quase uma regra.
Primo: Extra-racional, supra-racional, mas não irracional. Os sentidos, que captam as informações sobre o mundo, podem fazê-lo de modo direto – através de sensações “em primeira mão” – ou indireto – através de relatos, testemunhos etc. Os que tiveram experiências extraordinárias “em primeira mão”, quando não são doentes mentais, têm menos dificuldade em aceitar a existência de uma realidade que não fica óbvia no quotidiano. Os outros, que ouvem dizer, usam seus próprios recursos de filtragem, seu pensamento, seu sentimento, suas intuições, o conjunto de seus próprios recursos, conscientes e inconscientes, para aceitarem ou rejeitarem o lhes narram. É fácil rejeitar uma história do “Chicó” e seu “não sei... só sei que foi assim...”. Já não é tão fácil rejeitar os fenômenos vistos no sol em Fátima. Os dois tipos de relato parecem partilhar o “absurdo”. Só que um é engraçado e ninguém em sã consciência levaria a sério; o outro entra numa categoria diferente.
Um indivíduo que possuísse apenas a razão seria um “aleijado”, assim como aquele que dela não dispusesse.
Nem um mau religioso, nem bilhões, sejam eles do povo ou dos governos, servem de base para condenar a religião (não esta ou aquela forma de viver a religião, não este ou aquele uso da religião, mas a religião). Dezenas de reis corruptos ou milhares de religiosos sanguinários não tornam a religião ruim. Mas um só Jesus, uma só Teresa de Lisieux, um só Padre Pio ... serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade. Este argumento se aplica a diversas frases aqui citadas, por isso não voltarei a repeti-lo.
Eu: Extra-racionais deviam ser as provas da existência de Júpiter para muitos devotos romanos. Por si só aquela fé não teria sucumbido tão facilmente; foi necessário o cristianismo para sepultá-la - ou adaptá-la. Da mesma maneira, só foi possível quebrar, em uma grande parcela dos cristãos, o reforço comunal da intercessão dos santos com uma dissidência que surgiu com "pureza", força, "verdade" e, teoricamente, poucos podres no currículo: o protestantismo.
Reforço Comunal é o nome do processo pelo qual uma afirmação se torna uma crença profunda pela repetida confirmação pelos membros de uma comunidade. Robert T. Carroll explica que o processo é independente de a afirmação ter sido investigada ou de existirem dados que dêem suporte a ela. Muitas vezes os meios de comunicação contribuem para este processo, divulgando a afirmação sem qualquer suporte factual, como a larga cobertura que a imprensa deu (e dá) a Chico Xavier e a histórias de assombração, etc.
Outros exemplos abundam: ET de Varginha, Caso Roswell, raptos por extraterrestres, projeções astrais, idéias racistas, influência da lua cheia no corte de cabelo, o sexo com virgem para se livrar da AIDS - os supostos casos de êxito alastraram a prática em algumas regiões da África -, etc. Muitos cristãos costumam rir dessas coisas, sem atinarem que existem aqueles que acham a mesma graça das estátuas que choram, das aparições, dos milagres que acontecem com hora marcada no Grupo de Oração das cinco, da Renovação Carismática.
Sem falar na alucinação coletiva.
“Muitas testemunhas de milagres concordam nos seus relatos porque têm as mesmas expectativas. E mais, relatos distintos convergem para a harmonia quando o tempo passa e o relato vai sendo recontado. Os que nada vêem de extraordinário e o admitem são postos de lado por não terem fé. Outros, sem dúvida, não vêem nada mas em vez de admitirem que falharam... imitam o relato dos outros e, subseqüentemente, acreditam que de fato observaram o que inicialmente fingiram que observaram" (Rawcliffe).
“...uma só Teresa de Lisieux (...) serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade.”
Então apenas um comunista bom serve para demonstrar o que o comunismo pode significar para a humanidade? Aquele comunismo soviético?
Primo: Sim, e daí, Schopenhauer? Se a proclamação anunciasse a anulação de todas as leis criminais, também não seríamos protegidos pela ética, nem pela filosofia etc. Isto quer dizer que a ética e a filosofia são supérfluas?
Eu: Ninguém acredita que a ética, a moral e a filosofia existam independentemente do homem, muito menos que interfiram conscientemente nos acontecimentos naturais. E ninguém reza a elas por proteção. Pelamordeseudeus!
Primo: Achar que o fundamento da religião é eu merecer mais do que os outros por ser religioso não corresponde aos ensinamentos de Jesus. Ele já nos dizia: “Acreditais por acaso que aqueles homens mortos pelo desabamento da torre de Siloé eram piores do que vós?” Corremos o risco de aplicar às relações com Deus nossos vícios políticos (somos amigos do chefe, então teremos privilégios sobre os outros). Eu acredito na proteção divina para aqueles que confiam em Deus. Se existem catástrofes, crimes e acidentes, prefiro não usá-los para julgar a Deus ou para decidir se Deus existe. Entendo que o amor a Deus sobre todas as coisas junto ao amor ao próximo como a nós mesmos ou – aperfeiçoamento trazido por Jesus – o amor aos outros com o tipo de amor pelo qual Jesus nos amou substitui a disputa de privilégios pela solidariedade espontânea, essa sim, capaz de melhorar o mundo. O fato de não podermos contar com essa solidariedade espontânea para sairmos à noite pelos becos das favelas não invalida o princípio da solidariedade.
Eu: Mais uma vez: solidariedade também não é uma entidade consciente à qual podemos pedir qualquer coisa. Já a um deus podemos pedir e ele responderá com um "sim", um "não" ou um "espere". Do mesmo modo, se rezarmos a um bule de chá as suas respostas serão sempre "sim", "não" ou "espere". Você poderá receber o que pediu imediatamente, em algum tempo ou jamais receber. Claro que o consolo, a segurança e a paz interior que a oração propicia aos inseguros e medrosos são bem reais.
Antigamente, as pessoas rezavam mais por chuva do que hoje, com tantos satélites fotografando nosso planeta e com a miríade de meteorologistas a analisar os dados e a transmiti-los à população por canais como o Weather Channel. Da mesma maneira, quem perde tempo expulsando demônios de epiléticos, se qualquer pessoa sem autoridade divina pode ministrar o remédio adequado e controlar a crise?
Primo: Isto é válido para os que acham que é possível provar racionalmente a existência de Deus, mediante o argumento de que, se o universo existe, alguém deve tê-lo criado. Russell poderia usar o mesmo raciocínio para Deus: se Deus existe, alguém deve tê-lo criado. A razão não se presta para provar a existência de Deus e muito menos para provar a não-existência de Deus. Simplesmente esse assunto está fora de sua alçada.
Eu: "Provar a não existência": Você nunca conseguirá provar que algo não existe. No máximo posso provar que não existe um triângulo de quatro lados, he he.
Primo: Ou seja, Catellius*: nenhuma demonstração de natureza científica PROVA a existência de Deus. Portanto, não cabe ao cientista, como tal, dizer se Deus existe ou não. Fazendo um paralelo, nenhuma mulher poderia provar cientificamente que ama um homem. Se ela der sua vida por ele, alguém pode levantar a hipótese de que ela estava mesmo pensando em suicídio e aproveitou a oportunidade para impressioná-lo ou fazê-lo sentir-se culpado... que ela era louca... e milhares de outras opções que os romancistas se encarregariam de levantar. Se ela lhe fizer surpresas, pode ser vista como interessada em retribuição; se ela recusar retribuição, pode ser vista como orgulhosa; se ela for meiga, é perigosamente insinuante; se ela não der nenhum sinal ambíguo, é uma farsante extremamente hábil. Conclusão do “cientista”: quem acredita no amor é um idiota!
Pode parecer brincadeira, mas há psicólogos, entre os adeptos do determinismo absoluto como explicação para o comportamento humano, que tentam traduzir o amor em termos de simples condicionamento respondente e operante. Essa corrente advoga a idéia de que o amor é só uma forma de condicionamento, uma resposta automática. Eles de fato ajudam a entender alguns fenômenos relacionais (afinal, o condicionamento existe), mas essa explicação não deixa nada fora? Ela dá conta de todos os fatos? Se for assim, então um supersistema de controle poderia ser exercido, no sentido de condicionar alguns cidadãos a ficarem junto com suas respectivas cidadãs, ter um determinado número de filhos – e só o número determinado – e outros cidadãos a permanecerem desacompanhados e a não reproduzir para não aumentar a população. Você acredita que amor existe?
Primo: Feuerbach faz aqui uma constatação aplicável a muitos fatos da história humana, porém não a todos. Novamente a armadilha do “sempre”. Quando alguém “raciocina” com indignação, corre um risco maior de cair no estereótipo, como é o caso aqui, mesmo tratando-se de um filósofo respeitado.
Eu: Ele usou o "sempre" mas concluiu com o "podem".
Não disse que as coisas mais infames são sempre estabelecidas. Disse que podem ser estabelecidas.
O afã de achar erros naquilo que já a princípio (ou por princípios) somos contra, nos arma armadilhas como essa.
Primo: O afã de achar erros? Você está enganado. Se eu tivesse atentado para esse “podem”, não teria feito objeções à frase, como não fiz em outras situações. Provavelmente, você está me interpretando de forma preconcebida. Quando leio as várias declarações e os vários argumentos seus, estou aberto à possibilidade de estar de acordo ou de estar em desacordo com o todo ou parte do que foi dito. Caso contrário, que sentido haveria nessa troca? Ela seria um eterno discutir palavras, inócuo e nem mesmo divertido.
Eu: Independentemente da ação dos religiosos, as religiões contêm preconceitos, verdades absolutas, uma moral absoluta que é a mãe do moralismo e da intolerância, e conferem autoridade de juízes e de representantes divinos a determinado grupo de homens. Aí está a receita perfeita para o desastre. Concordo com Carlos Esperança quando escreve que "a fé e a intolerância são irmãs gêmeas. As Igrejas odeiam-se com uma veemência que estarrece as pessoas civilizadas e transmitem o ódio dos seus líderes à multidão de crentes que as seguem. Faz parte da sua natureza. A fé, em o que quer que seja, virou um problema mundial".
Primo: “As pessoas”... Note o insidioso termo “todas” subentendido! Muitas pessoas realmente podem usar a religião como ópio. Vamos proibir o vinho porque “as pessoas” fazem bebedeiras com vinho. Eh, Bakunin!
Eu: Quando um número significativo de pessoas mata sob efeito do álcool, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser restringido sim, e o rótulo deve conter “proibida para menores” (no outro caso: proibida para ignorantes), “consuma moderadamente” (no outro caso: não acredite no que lhe dizem os representantes de deus).
A restrição veio em bom tempo. Uma espécie de lei seca limitando o poder dos alcoólatras de deus. A religião católica foi então domesticada pelo laicismo europeu. Como os muçulmanos ainda estão apenas domados, alguns em estado feral, os cristãos olham para eles com desdém, esquecendo que há pouco tempo eles eram os chacais com a boca encharcada de sangue, apesar de suas escrituras serem as mesmas de hoje, e apesar do imenso poder que os religiosos já tiveram para estabelecer a paz no mundo. Espero que não tenham uma nova oportunidade para promover o seu ideal de justiça e liberdade...
Primo: O que pretendo dizer é que se pode usar um remédio como veneno. A culpa não é do remédio, mas do uso.
Primo: Então a crença de Carl Sagan de que Deus não existe baseia-se numa profunda necessidade dele de acreditar que Deus não existe? “Um crente” = “todo crente”. Generalização subentendida! Tenho certeza de que o próprio Carl Sagan acreditava em muitas coisas porque faziam sentido e não porque tinha necessidade de acreditar.
Eu: Segundo as palavras do físico, “Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo autocorretivo. Para serem aceitas, novas idéias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio."
Carl Sagan morreu aceitando a teoria do Big Bang como verdadeira. Hoje uma parcela significativa dos cientistas já a está descartando.
Mas Carl Sagan mudou suas crenças científicas várias vezes durante a vida, obviamente devido a novas evidências, a debates, a pesquisas e a experiências ao redor do mundo. E nenhum “supercientista” o excomungou por isso.
Primo: Organizações religiosas até podem condenar que as contradiz. Não a religião. A religião é uma conexão, uma busca, um encontro. Quem diz “aceite e cale a boca” é uma pessoa, não a religião, é uma pessoa que está tendo uma atitude arrogante. Além disso, como já foi falado, ciência e religião buscam coisas diferentes! Podem-se auxiliar mutuamente, mas não há como se contradizerem.
Eu: É claro que quando ele diz "religião", não se refere a uma entidade consciente que mandará quem quer que seja calar a boca. São sempre os protetores das crenças religiosas que o fazem, principalmente aqueles que falam em nome dos fiéis.
Não há como religião e ciência se contradizerem? Aí temos um belo postulado, daqueles que você classificaria como generalização. Só se a religião fosse restrita ao que "não tem nada a ver com ciência". Mas temos os milagres, as aparições, a cosmologia, os anacronismos históricos...
Mil anos atrás a origem do homem era assunto metafísico, no máximo especulação de filósofos. Mas quando a ciência, em sua caminhada natural, contradisse a religião nesta questão, os religiosos negaram em um primeiro momento, aceitaram com ressalvas em um segundo (passaram a chamar o Gênesis de "simbólico") e agora descobriram que podem recrutar cientistas mercenários ou eles mesmos se formarem em física para "provarem", respaldados por credenciais, que sempre tiveram razão.
Primo: No meu ponto de vista, não há como religião e ciência se contradizerem, embora seja possível um cientista contradizer um religioso e vice-versa. São ambas perfeitamente válidas, complementares, e cada uma tem sua área específica.
Primo: Perfeito! Se os cavalos tivessem o poder da reflexão e liberdade, o Verbo Eterno poderia encarnar-se sob essa forma, para ajudar tais seres pensantes a viver na matéria em harmonia com o espírito.
Eu: Acho que não foi isso que ele quis dizer. O filósofo jônico ficou famoso por combater o antropomorfismo. Ele acreditava em um deus único, onipotente, "com clarividência perfeita, justiça infalível" e sem forma humana. Mas a frase serve para ilustrar que os homens criam deuses à própria imagem e não o contrário. Viam reis com mensageiros e tratavam de criar anjos, viam assessores e "burocratas" e tratavam de criar santos, instâncias entre eles e as divindades.
Primo: O antropomorfismo também é combatido pela religião católica. Não é Deus que tem a imagem do homem, mas o homem que é imagem de Deus. É óbvio que imagem, aqui, não se refere a olhos, nariz, boca, pescoço, barriga, pernas etc.
Primo: Para quem literaliza Adão e Eva não é difícil literalizar também um céu com anjos de harpa sobre nuvens. Novamente, religião não é ciência e ciência não é religião. Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência. Várias dessas frases combatem a religiosidade estúpida como se ela constituísse a essência da religião.
Eu: O Gênesis só deixou de ser literal quando Darwin entrou em cena. Hoje quem enxerga nessa crença de três mil anos, ainda aceite por muitos, um exemplo de obscurantismo, está sendo maldoso, está literalizando...
A idéia de pecado original surgiu para explicar o mal no mundo; dois indivíduos seriam os primeiros pecadores. Isto é literal. A crença no poligenismo pode levar alguém à excomunhão. Só o monogenismo é aceito pela Igreja Católica.
"Anjos nas nuvens" também já foi algo literal. Acreditava-se que o deus abraâmico, de seu trono, via toda a humanidade, a qual habitava uma terra chata. Acreditava-se que o firmamento era uma espécie de concreto cheio de furinhos através dos quais as "águas superiores" caiam para cá. Alguém que tivesse levantado a hipótese da evaporação poderia até ter sido morto a mando de um Eliseu da vida.
"Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência". Como isto não é falseável, não é do campo da ciência.
Primo: Se a expressão “são igualmente incompreensíveis” for uma abertura para a investigação, parabéns para Mencken! Se for uma forma de dizer que o homem que reza é estúpido, pelo menos ele iniciou a frase com um “para mim”.
Eu: A descoberta dos micróbios e dos germes, a assepsia, a penicilina, a vacina e o antibiótico conseguiriam salvar a maior parte dos dois terços de cristãos cujas vidas foram ceifadas pela Peste, no fim da Idade Média. Certamente eles oraram muito. Os padres sobreviventes culparam os pecados das vítimas pelo ocorrido, já que tinham catástrofes como o Dilúvio Universal nas quais se espelhar. Pés de coelho, da mesma maneira, não teriam adiantado muito, já que a ira do deus bíblico exigia sangue humano...
Primo: Logo, não se deve rezar: é anticientífico! É isso?
Primo: É difícil imaginar 5 bilhões de pessoas acreditando numa coisa estúpida. Isto só seria possível com Anatole France pairando sobranceiro acima de todas elas. Mas, brincadeiras à parte, entendi o argumento dele: Mais vale um bom cientista pesquisando uma vacina do que uma multidão de pessoas misturando a esmo as mais diferentes melecas, sem qualquer formação científica, na esperança de debelarem a doença. Também poderíamos dizer: Não é sensato fazer uma eleição para decidir se Deus existe.
Eu: Vide a crença na reencarnação. Se os chineses e indianos nela crêem e, por acaso, reproduziram-se mais do que os europeus, daria para afirmar que a crença deles passou a ser a correta?
Primo: A recíproca também é verdadeira. Cinco bilhões de falsos milagres não invalidam um único milagre autêntico. Basta um para fazer ruir todo esse sistema baseado no pressuposto de que só existem truques, engodos e ilusões. E quem quiser realmente investigar, que investigue. Material não falta.





