30 outubro 2009

A falta que faz um Napoleão



Janer Cristaldo



Entre 9 de fevereiro e 9 de março de 1807, Napoleão Bonaparte constituiu na França um sinédrio – conselho judeu de 71 membros – que sucedeu à Assembléia de Notáveis, que tinha por função oficializar as medidas de secularização em matéria de decisões doutrinárias, do ponto de vista da lei judaica. Ao sinédrio e aos notáveis, o imperador fez doze perguntas:

1. É lícito aos judeus casar-se com várias mulheres?
2. O divórcio é permitido pela lei judaica? O divórcio é válido sem que seja pronunciado pelos tribunais e em virtude de leis contrárias ao Código francês?
3. Uma judia pode casar-se com um cristão e uma cristã com um judeu? Ou a lei pretende que os judeus se casem apenas entre eles?
4. Aos olhos dos judeus, os franceses são irmãos ou são estrangeiros?
5. Em um ou outro caso, quais são as relações que a lei judiaprescreve para com os franceses que não são de sua religião?
6. Os judeus nascidos na França e tratados pela lei como cidadãos franceses vêem a França como sua pátria? Sentem a obrigação de defendê-la? Sentem-se obrigados de obedecer às leis e de seguir todas as disposições do Código Civil?
7. Quem nomeia os rabinos?
8. Qual jurisdição de polícia exercem os rabinos entre os judeus? Qual polícia judiciária é exercida entre eles?
9. Estas formas de eleição, esta jurisdição de polícia são desejadas por suas leis ou apenas consagradas pelo uso?
10. Há profissões que são proibidas pela lei dos judeus?
11. A lei dos judeus os proíbe de praticar usura com seus irmãos?
12. Ela proíbe ou permite praticar usura com estrangeiros?

A França vivia então um problema, as queixas permanentes dos departamentos do Leste contra os créditos dos judeus. Napoleão queria saber se os judeus que tinham nacionalidade francesa eram franceses ou estrangeiros que viviam sonhando com as colinas de Sion. É uma boa pergunta a se fazer aos judeus que vivem hoje no Brasil.

Leio no noticiário on line que a Justiça brasileira ordenou ao Ministério da Educação que marque outro dia - que não o sábado - para que 21 alunos de um colégio judaico de São Paulo façam o Enem. A prova está marcada para 5 e 6 de dezembro - sábado e domingo.

O sábado é o shabat, dia em que os judeus descansam. Do pôr do sol da sexta ao pôr do sol do sábado, não trabalham, não dirigem e não escrevem. Mais ainda: não acendem fogões, não ligam computadores, não portam qualquer objeto. Nem mesmo guarda-chuva. Aqui em meu bairro, majoritariamente judeu, quando chove aos sábados, os filhos de Israel, apesar de bem trajados, portam capas de plástico, dessas que se compram a cinco reais nas bancas de jornais.

Vendo que seus alunos perderiam o Enem, o colégio Iavne apresentou a ação judicial. Na primeira instância, a Justiça não viu motivo para mudar a data. O colégio recorreu. E o Tribunal Regional Federal deu razão à escola. O juiz Mairan Maia escreveu que o MEC deveria permitir que a prova fosse resolvida pelos alunos do Iavne "em dia compatível com o exercício da fé". Seria um exame com "o mesmo grau de dificuldade. Ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa."

Onde estes senhores pensam que estão? Em Israel, onde o shabat é sagrado? Neste Brasil laico, nem mesmo o domingo, dia sagrado para os católicos desde Constantino, é dia em que qualquer atividade seja interditada. Israel é um Estado teocrático e os judeus brasileiros estão querendo impor seus dogmas a um Estado laico. A decisão do juiz Mairan Maia abre portas para que os muçulmanos exijam não fazer vestibular nas sextas-feiras, seu dia sagrado. Mais um pouco, e teremos vestibular em datas diferentes para católicos, judeus e muçulmanos. E também para os seguidores da Igreja Adventista, que descansam nos sábados.

Está faltando um Napoleão nestes trópicos, para bem dividir as águas. Os judeus com cidadania brasileira precisam decidir se respeitam as regras do país onde escolheram viver ou se preferem seguir regras escritas na Judéia há cinco mil anos.

16 outubro 2009

1531: Deus x Correggio

Cliquem nas imagens ao lado para ampliá-las.

Figura 1

- Título: Nossa Senhora de Guadalupe
- Autor: O famosíssimo e eterno Deus Todo-Poderoso, onisciente, onipotente e onipresente, o ser mais perfeito de todo o universo - aliás, sua obra mais célebre.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: Pigmentos divinos desconhecidos que simulam tinta terrena desgastada pelo tempo, esmaecida, fosca. O substrato é um tecido com propriedades impressionantes: é fibra de cacto quando observado por criaturas de sotaina, e linho e cânhamo quando observado por criaturas de jaleco.
- Estilo: Jeová, o ser mais perfeito do universo, optou por um estilo tosco-pueril indígena a macaquear o maneirismo pré-barroco europeu. Não quis fazer algo muito surpreendente para não tirar a liberdade das gentes de não acreditar e, assim, valorizar a fé no absurdo, como gostava Tertuliano. O tema é sublime, transcendental. Deus retrata ao mesmo tempo a mãe e a filha.

Figura 2

- Título: Júpiter e Io
- Autor: Correggio, um reles mortal nascido em Reggio Emilia, Itália. Teve apenas uns trinta anos para desenvolver suas habilidades pictóricas.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: A ordinária tinta a óleo sobre tela.
- Estilo: Renascentista para uns, maneirista para outros. O tema pagão, de um erotismo repugnante, retrata a absurda fecundação de uma mulher por um deus em forma de nuvem. Como se sabe, mulheres engravidam, no máximo, de deuses em forma de pomba.

13 outubro 2009

Ciência confirma a Igreja - Nossa Senhora de Coromoto

- Reportagem do mui respeitado jornal Zenit - O Mundo visto de Roma
- Página 8 do jornal venezuelano Versión Final
- Reportagem em Blog isento intitulado 'Ciência Confirma a Igreja'

A mídia mundial agora se ocupa, mais que de qualquer outro assunto, das surpreendentes descobertas na minúscula imagem de Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela.

A notícia, primeiramente lida em um jornal católico venezuelano confiabilíssimo, que três páginas antes trata Chávez como um grande estadista, elogiando-o por aumentar seu arsenal bélico para se prevenir contra a Colômbia de Uribe, e em blogs católicos daqui e de outros locais da América Latina, causou profunda comoção no mundo científico, a ponto de unir cientistas, que agora consideram a imagem barroco-indígena cucaracha, ótima para filtrar água, uma prova incontestável do sobrenatural.

Os cientistas, que se dedicam por vezes a derrubar teses e modelos consagrados, porque, entre outros motivos, a ciência os premia se provarem que uma verdade científica aceita por centenas de anos não é verdade em todas as situações, ou simplesmente não é verdade, neste caso se renderam desconcertados à pesquisa encomendada pelo clero venezuelano, sabidamente o clero mais cético da região mais cética do mundo.

O Papa da ciência, o único com autoridade concedida pelo Sumo-Cientista para definir o que é certo e o que é errado no mundo científico, exigiu dos cientistas da Itália, China, Japão, dos EUA, que se unissem e desistissem de quaisquer contra-provas. Decretou que estão proibidas novas análises e o cientista que discordar será excomungado da comunidade científica, instituição tão infalível que se disser que algo inexplicado é inexplicável, é porque não dá para explicar mesmo. Se não é explicado hoje, não o será jamais.

Os olhos da imagenzita tosca - como tudo que é do período rococó e indígena - são borrados e disformes, mas quando os ampliamos nos deparamos com olhos perfeitos, fotográficos (ao lado, imagem retirada do jornal venezuelano), com reflexo de cílios, iris perfeita e uma silhueta de alguma coisa que só pode ser um índio a querer agarrar à força a Mãe de Deus.

A imagenzinha do bugre está contida na pupila, bem definida como um desenho feito no PaintBrush. E algo que não aparece nas reportagens, uma injustiça: essa mesma Nossa Senhora de Coromoto chorou óleo perfumado em 2003. Gosta mesmo de agradar cucarachos!

Impressionante, deveras, mas nada comparável ao índio perfeito visto nos olhos da Virgem de Guadalupe, imperatriz das Américas.

Não é fruto da imaginação daqueles que procuram imagens em vidraças manchadas. É evidente que é um índio. E há também um unicórnio na pálpebra e uma revoada de corvos no supercílio. Observem a imagem abaixo.


01 outubro 2009

Melhor estivesse no Madame Tussauds

Trecho do PowerPoint que recebi sobre o corpo de Bernadette Soubirous:

"(…) …tantos anos depois de sua morte, por seu corpo corre ainda sangue líquido. É algo Sobrenatural e todo o sobrenatural é obra de DEUS. O caso é que a Igreja decidiu pô-la numa urna de cristal em Lourdes, para a veneração de todos os que ali acodem. Hoje, Santa Bernadette teria 165 anos de idade."

Todo sobrenatural é obra de um deus? E por que não de um ET brincalhão? Ou por que não de Pierre Imans, o designer de manequins que reconstruiu o rosto e mãos de Bernadette com cera a pedido da Igreja, para os fiéis não ficarem chocados?

Foram necessárias fotografias para ele chegar às feições porque, embora o cadáver estivesse meio preservado por sais de cálcio(?), o rosto estava escuro, desfigurado, os olhos afundados, estava sem a ponta do nariz, trechos do corpo sem pele. Basta ver as fotos de Bernadette para entender que o artista que se celebrizou pelos manequins de loja deu de presente ao cadáver da camponesa uma rinoplastia para aproximá-la do ideal estético greco-romano, pagão, como toda iconografia católica.

Para vermos bonecos que pareçam vivos basta ir ao Madame Tussauds, aquele famoso museu de cera. Pelo menos não vêm recheados com um cadáver. E figuras como Shakespeare, que lá também parecem vivas, foram muito mais importantes para a humanidade do que uma camponesa que afirmou que a mãe de Jesus, a quem é dado um tratamento meio de segunda classe a partir dos trinta anos do filho - este nem se digna a lhe receber durante uma pregação, quando ela manifesta esse desejo -, nasceu sem herdar o pecadilho de Adão e Eva. Parece coisa de São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, que sabia até o número de penas que um anjo tinha. As coisas passam a ser ou a não ser de acordo com pronunciamentos papais, de teólogos e de santinhos.

Esse culto à morte, essa fixação necrófila com glotes, cabeças, dedos, esse circo de horrores católico, é grotesco. Exumaram recentemente os restos de Joana D'Arc, perante os quais tantos se ajoelharam e obtiveram milagretes e curas, e acharam um fêmur de gato, uma costela humana e um trapo de múmia egípcia com uns 2500 anos de idade. Como bem disse Carlos Esperança, "O carbono 14 faz pior às relíquias católicas do que o CO2 ao aquecimento global". E, por séculos, diversos sagrados prepúcios de Cristo (circuncidado, como bom judeu) estiveram espalhados por igrejas italianas, e foram sumindo um a um, até o último ser roubado em 1983, após uma procissão com centenas de devotos católicos. O Sagrado Prepúcio era bom para fazer mulheres estéreis engravidar. É para rir!

Para um ser omni-tudo, o milagre do corpo incorrupto de Bernadette Soubirous foi tão mal feito, tão pela metade, que foi preciso um artista de bonecos para não deixar o resultado repulsivo. Da próxima vez que se invoque Zeus, Odin, Baal. Quem sabe o cadáver não ficará mais bonitinho, como o da Santa Evita Perón?

"por seu corpo corre ainda sangue líquido" - Mentiras "bem intencionadas", para variar...

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Voltando à Joana D'Arc

Por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana que teriam pertencido a uma santa que matou cristãos ingleses em nome de Jesus sob as ordens do próprio criador do universo transmitidas por anjos?

O seu deus estaria endossando milhares de coisas apenas no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana D'Arc; desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira - imaginem que tipo de relíquia apareceria por aí - até o assassínio em nome de um deus.

Há, claro, a hipocrisia da Igreja que não coloca a mão no fogo pela autenticidade das relíquias mas às vezes reluta em submetê-las à análise de cientistas, reconhece sua falsidade mas não as retira dos altares ou tenta inibir que fiéis façam promessas perante elas. A própria Catholic Encyclopedia diz, no site, que muitas relíquias são comprovadamente falsas mas como o povo, por tradição, está acostumado a venerá-las, a coisa é, digamos, tolerada.

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San Genaro

O Catholic Encyclopedia não diz que o "milagre" de San Genaro é falso. Diz, contudo, que a mesma liquefação tem lugar em várias outras relíquias nas vizinhanças de Nápoles ou em relíquias Itália afora trazidas dessa cidade. Acontece o mesmo com o suposto sangue de João Batista, de Santo Estevão, São Pantaleão, Santa Patrícia, São Nicolau de Tolentino, São Luis Gonzaga e muitos outros. O site cita um ou outro como "probably a pure fiction".

Pois bem... O mesmo patrão da Catholic Encyclopedia é o patrão das igrejinhas ao redor de Nápoles que também fazem seus milagres de liquefação. O patrão sabe mas deixa o rebanho crédulo lá estupefato perante a "ficção" porque, afinal, é tradição...
Só por isso?
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