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21 maio 2014

Leitura sobre a mesa-redonda: Cidades Transnacionais

Segundo Marcelo Teixeira, doutorando em sociologia pela UnB, obras grandiosas assinadas por arquitetos como Zaha Hadid são verdadeiras máscaras de modernidade criadas para ditaduras se justificarem perante o mundo civilizado. "Urbanismo Transnacional" é como chama o processo de criação de cidades espetaculares que abrigam a arquitetura do espetáculo. Critica o fato de tais cidades serem todas parecidas, talvez como Cesareia e Palmira se assemelhavam a Roma, e de abrigarem obras de grande visibilidade e que superam limites técnicos, quem sabe como o Farol de Alexandria e o Colosso de Rodes, e, mais recentemente, a Torre Eiffel.

Ele organizou com Lucas Brasil uma mesa-redonda, na UnB, intitulada "Urbanismo Transnacional: Ásia, África, Brasília - Que conexões haveriam entre Dubai, Brasília, Singapura e Kinshasa?", da qual participaram importantes catedráticos cujos currículos, se enfileirados, dariam várias voltas ao redor da Terra. Na plateia havia alguns professores de arquitetura e funcionários de órgãos licenciadores e de planejamento urbano de Brasília, estudantes e arquitetos. A mesa-redonda foi sua tentativa de popularizar a teoria de que "o comprometimento com o neoliberalismo, em tese, traria mais legitimidade a regimes autoritários frente a uma comunidade internacional pós-Consenso de Washington" - nas suas palavras -, que corporações multinacionais de construção civil e investimentos imobiliários constroem destrambelhadamente cidades mundo afora, com apoio de bancos e governos, como estratégia "de acumulação de capital em curto prazo", e que o planejamento urbano, sob tais atores, "privatiza-se e pulveriza-se crescentemente, reduzindo poderes municipais e cidadãos em definir os rumos de suas cidades, cada vez mais decididos além das fronteiras nacionais e inseridos na 'racionalidade neoliberal' e pró-mercado". Neoliberal deve significar "qualidade daquilo que é atual, 'neo', e está em harmonia com o pensamento de Smith, Mises e Friedman", ou um mero sinônimo de "Satanás". A fina flor da arquitetura mundial, como Norman Foster e Daniel Libeskind, seria o selo-modernidade de que os governos e corporações imobiliárias necessitariam para dar à determinada cidade um status global, como ocorreu com a ditadura de Bilbau, na Espanha, que se perpetuou no poder após contratar Frank Gehry para o projeto-espetáculo do museu Guggenheim.

Destarte, na sua tese, os governos ditatoriais, controladores e centralizadores por definição, pulverizam os poderes de seu país em definir o rumo de suas cidades, mesmo as criadas "ex nihilo", do nada, usam o urbanismo transnacional para mascararem o caráter plenipotenciário de suas ditaduras, onde tudo pertence ao estado há décadas, como na China, privatizando o país em nome de uma "racionalidade neoliberal". É o fortalecimento do Estado mediante o enfraquecimento do Estado, em prol da iniciativa privada, algo até hoje impensável. E assim nunca mais veremos a beleza daquelas centenas de milhões de camponeses famintos na China pós-Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. E o modelo agora chega à África, preocupa-se Teixeira, e as corporações imobiliárias construirão, no lugar das ocas graciosas e modestas em cuja proximidade se podia expor a poética magreza humana em fotos preto e brancas de engajados como Sebastião Salgado, odiosos arranha-céus de vidro cingidos por lagos contornados por tamareiras, idênticos aos de Singapura, Xangai, e Dubai. A tese culmina no alerta de que, via GDF, a sombra desse grupo sem rosto acerca-se de Brasília, apesar de ela não ter relevância econômica mundial, de o Brasil ter impostos acachapantes e infraestrutura precária suficientes para afugentar os mais vorazes tubarões neoliberais sem a ajuda dos Urbanistas por Brasília e de outros heróis locais. Ele acredita que o crescimento urbano é causa, não consequência. Por isso há cidades fantasmas na China. Para ele, metrópoles modernas como Singapura não fizeram primeiro uma revolução econômica e educacional, priorizando o comércio exterior, para só então terem um desenvolvimento urbano. O reboque empurra o carro para onde o motorista não deseja ir, enquanto sabemos que, na realidade, este conduz o automóvel atrelado ao qual está o reboque. Mas fora com a "racionalidade neoliberal", não?

A China foi uma ditadura comunista por mais de 50 anos. A abertura econômica gerou mais liberdade e riqueza, e desde 1980, a população urbana ganhou 700 milhões de pessoas e hoje já é mais de metade do país. As cidades precisaram crescer a toque de caixa. Cidades ditas fantasmas, como Ordos, na verdade passam um tempo subocupadas porque recebem os migrantes aos poucos, quando estes têm condições de comprar as residências, ainda que com subsídios, e equipá-las com vasos, luminárias e outros itens domésticos essenciais. Para o doutorando, a China apenas copia o modelo de Singapura. Cria cidades do nada, amplia cidades de poucas centenas de milhares de habitantes para monstros urbanos de dezenas de milhões de pessoas, as quais, para ele, devem brotar do barro. Ao contrário do que crê Teixeira, a abertura comercial obrigou paulatinamente o governo a sacralizar contratos e a aumentar a transparência de suas próprias ações. A abertura é o começo do fim da ditadura chinesa, não uma tentativa desesperada de mantê-la.

Em muitos países árabes há ditadura. Nos países ricos em petróleo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, há ditadura e riqueza, e esta, aliada à localização geográfica entre Ocidente e Oriente, possibilita a transformação de cidades em pólos de serviços onde há baixos impostos alfandegários e tributação, e as ajuda a voltarem a ser a escala entre um canto e outro do planeta, a voltarem a realizar a vocação de entreposto comercial, de grande caravançará que tiveram nos tempos áureos. Mas, para Marcelo Teixeira, estas ditaduras não poderiam mais se sustentar sem uma tal máscara neoliberal, apesar de terem se mantido sem ela por décadas, como a da Coréia do Norte, de Cuba, Síria e de tantos outros países.

Dubai, shopping e residenciais Medinah Jumeirah: "idêntico" a Singapura


Quanto à descaracterização urbana, a cidade de Dubai, por exemplo, tal qual a conhecemos, foi criada sobre a areia. Não obstante seu caráter "transnacional", lá é corrente o uso de torres de captação de vento, típicas da região, há shoppings com aspecto de "suqs" (mercados persas), elementos estéticos árabes, mocárabes em mesquitas, azulejos, jardins internos e fontes, tapetes, tamareiras, generoso uso de pedras da região, arabescos, microcidades árabes dentro da cidade, e a preocupação cada vez maior em criar edifícios e cidades sustentáveis. Brasília, como as já citadas Cesareia e Palmira em relação a Roma, também seguiu cânones internacionais da época em que foi criada, mais precisamente da Carta de Atenas. Os panos de vidro do Congresso Nacional e dos ministérios são inadequados ao nosso clima, há uma nítida priorização do carro em relação aos pedestres, a estética não tem traços comuns à arquitetura tradicional brasileira, apesar dos esforços quase teológicos dos catedráticos em dar ao modernismo de Niemeyer uma inspiração barroco-colonial.

Após a exposição do tema a ser debatido, projetou em um telão os vídeos promocionais das cidades de urbanismo transnacional e, em determinado momento, proferiu um imparcial "vejam que absurdo". E então tiveram início os discursos dos integrantes da mesa. O primeiro não largou o microfone por quase uma hora, disse que todas grandes cidades são réplicas uma das outras, para a elite sempre se sentir em casa. Assim, segundo ele, um executivo sai do aeroporto, vai para o hotel, deste para o museu e para o restaurante no shopping. Os dois primeiros são iguais aos do resto do mundo, no museu, segundo ele, se vê as mesmas obras vistas no resto do mundo - quem viu um Tiziano viu todos, deve imaginar -, e, por fim, no restaurante se come comida chinesa, italiana, japonesa, como no resto do mundo. E o doutor concluiu que, enquanto isso, a classe trabalhadora sofre nas favelas e cortiços para manter essa elite transnacional. É óbvio! E Steve Jobs não deve ter ficado multibilionário porque o mundo inteiro desejava seus produtos Apple, mas porque ele explorava, no início, uma ou duas centenas de funcionários na Califórnia e, posteriormente, algumas dezenas de milhares ao redor do mundo, sendo a mais-valia de cada um dos vendedores, faxineiros e montadores de aparelhos estimada em milhões de dólares. Os demais debatedores, com uma honrosa exceção, seguiram a mesma linha. Ao menos até o ponto em que assisti.

O ar do anfiteatro estava viciado, quente, porque o ar-condicionado neoliberal não fora ligado pelos grevistas, o que acabou por compor bem o cenário de falta de arejamento intelectual do meio acadêmico brasileiro, umbilicalmente ligado ao esquerdismo mais ressentido, antes por hábito do que por reflexão.

As universidades públicas brasileiras são pesadas barcaças sem leme, há décadas distantes da terra firme, nas quais o alimento disponível é o marxismo vencido, o que explica o escorbuto ideológico que acomete a pobre tripulação.

Talvez passar um tempo em Singapura aumente a vitamina C no organismo...

30 setembro 2013

O Conflito Social

Atravessamos nossas vidas tentando administrar o conflito. Algumas vezes fugindo, evitando, e outras vezes confrontando. Mas, o conflito é maior que todos nós porque é algo ligado à natureza humana e à vida em sociedade. Quase todo romance gira em torno de um conflito, a maior parte dos telejornais narram conflitos e não passa um dia sem que tenhamos que enfrentá-los. Não vejo solução para eles, que, em boa medida, estão fora do nosso controle e da nossa capacidade de previsão. Resta-nos lidar com eles com todas as limitações inerentes à natureza humana.

Vejo as religiões, em boa parte, como uma engenharia humana que tenta administrar o conflito. Karen Armstrong, em seu estudo sobre o islamismo, enxerga nesta religião uma construção institucional de uma hipertribo que permitiu aos povos árabes abandonar alguns tribalismos e passar a viver como “os crentes”, portanto, uma forma de superar intermináveis vendettas. No cristianismo temos a ideia da comunhão dos irmãos em Cristo. Não temos o mesmo sangue, mas comungamos do “sangue” de Cristo e comemos da sua “carne”. Antes disso, a ideia judaica de um Deus pai já tornava irmãos aqueles que compartilhassem desta crença. Marx, de certa forma, reconhecia este papel da religião em amenizar o conflito e a acusava de ser o ópio do povo.

A teoria marxista defende a tese do conflito de classes como o motor da história, portanto, se este acabasse chegaríamos ao fim da história e, quem sabe, ao paraíso na terra. Para ele, o conflito estava essencialmente ligado a propriedade privada que, em última análise, seria a origem de todo o conflito entre os homens. Esta concepção se aproxima de Rousseau, que supunha que o homem era corrompido pela sociedade, deformada pela propriedade, e, ao contrário de outros contratualistas, recusava a legitimidade do contrato social por entender que este só beneficiava a alguns. Mas Marx e Rousseau estavam errados; sociedades que aboliram a propriedade privada não ficaram livres do conflito.

Nos Estados Unidos, assistimos à disputa entre outras escolas de pensamento que tinham abordagens diversas em relação a questão do conflito. A escola funcionalista via no conflito basicamente uma disfunção social. Os elitistas, a partir de Weber, enxergam o conflito como algo essencialmente ligado à disputa pelo poder e entendiam que este ocorria, em maior ou menor medida, quando parcelas das elites mobilizavam massas para travar suas batalhas. Os pluralistas americanos defendiam a tese de que o poder estava disperso pela sociedade e que era proporcional à capacidade de organização de alguns grupos. Mas não parece que o conflito esteja restrito a dinheiro e poder. Os romances de Agatha Christie traçam um panorama bem mais sombrio da natureza humana.

O conflito não é algo remoto, presente em teorias sociológicas ou romances, ele está presente em nosso dia a dia em sociedade. Quantas vezes já ouvimos pais falarem para filhos que não levem desaforos para casa ou que se apanharem na rua apanharão duas vezes em casa? O discurso mais politicamente correto é que as crianças precisam aprender a se defender. Em função disso, os pais põem seus filhos para fazer judô, karatê, jiu-jitsu na esperança de que eles pelo menos não sejam vítimas.

Apesar dos esforços das religiões, dos pais e das teorias sociológicas, o conflito persiste e talvez persista enquanto a sociedade humana existir. As ideias de justiça, de direitos, de mérito e de igualdade talvez sejam aproximações para atribuir significado aos conflitos. Quando assistimos a um jogo de futebol, classificamos agressões como “raça” ou “desleal” em função da nossa interpretação do conjunto das regras e da conduta do jogador. Existem até pessoas que, em função, de uma profunda identificação com um “time” são basicamente incapazes de ver qualquer razão ou reconhecer qualquer mérito em um time que não seja o seu. Muitos destes “doentes” fazem parte de torcidas organizadas, outros fazem parte dos Black Blocks e outros, ainda mais sofisticados, são líderes políticos hábeis em alimentar conflitos sociais em seu próprio benefício.

Lula, por exemplo, é um exímio manipulador de conflitos. Vejam o caso deste Programa Mais Médicos; ele é questionável em várias dimensões, desde o uso de “mão-de-obra escrava cubana”, passando pela falta de estrutura local para apoiar os médicos, seu impacto sobre a saúde pública no Brasil é questionável, a truculência da sua implantação por Medida Provisória é digna dos militares, enfim, é uma política que gera muito conflito e cujos resultados até o momento são nulos. Entretanto, em termos eleitorais, a turminha do PT conseguiu lançar nacionalmente o Padilha, ministro da Saúde, como candidato a governador de São Paulo. Com este jeito truculento ele se projeta e se cacifa para ser governador deste estado que tem um grande desafio de segurança pública a ser enfrentado.

A política de cotas raciais é outro tipo de política de resultados muito duvidosos. Nos EUA, onde foi aplicada por décadas, tem um resultado bastante ambíguo. Existem aqueles que afirmam que não foi possível mostrar o efeito positivo sobre a comunidade negra em função da ação devastadora do crack. Apesar disso, é uma plataforma eleitoral que ganha cada vez mais legitimidade no Brasil, apesar de contar com uma turminha revoltada daqueles que acham que a vida lhes deve algo e eles estão aqui para cobrar. Esta atitude não tem cor, ela está presente em muitas pessoas que só têm desprezo para oferecer a seus semelhantes.

Isto para não falar daqueles que querem mesmo é ver o circo pegar fogo. Tem gente que gosta de conflito, se sente vivo com aquela descarga de adrenalina, com ampliação dos sentidos e com aquela presença necessária para garantir a sobrevivência. Basta ver os Black Blocks em seu êxtase “revolucionário” e destrutivo. Talvez uma sessão de destruição dê um barato melhor que cocaína. Os militantes do PT não ficam atrás com aquelas suas bandeirinhas que, quando rejeitadas, são prontamente transformadas em porretes.

As religiões diriam que eles também são filhos de Deus e que não nos cabe julgá-los. Talvez amá-los não seja a solução para o problema do conflito, mas seja um passo para conseguirmos encontrar paz em nós mesmos. Não podemos procurar a paz pelos outros e muito menos obrigá-los a buscá-la, mas podemos fazer a nossa parte. Ainda não acredito em oferecer a outra face porque acredito que estou certo.

05 janeiro 2010

Ateus x Crentes ou Comunistas x Sacerdotes?

Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?

A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.

Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.

Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).

Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.

Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.

A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.

Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.

Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.

Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!
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