31 dezembro 2009

Um Feliz 2010!

Feliz Ano Novo para todos.

O 2010 anterior - aquele a.C. - não foi dos melhores, afinal nossos colegas de espécie ainda estavam a domesticar cavalos, não possuíam antibióticos, vacinas, não conheciam técnicas cirúrgicas eficazes, embora já contassem com um meio ainda em voga neste século XXI para prevenir doenças e males em geral, que é invocar amiguinhos imaginários poderosos em rituais ridículos.

Construamos um feliz 2010 d.C., único, marcante, melhor do que aquele de Arthur Clarke, onde computadores são inteligentes, E.T.s nos deixam monolitos negros de presente e fundam colônias em satélites de Júpiter, que explode e vira um segundo sol.

Vendamos tudo que possuímos e aproveitemos ao máximo o tempo que nos resta, porque dezembro de 2012 está chegando e os maias, como sabemos, não tinham como errar a data do fim da nossa civilização, embora não tenham sido capazes de prever o fim da própria.

21 dezembro 2009

Os deuses precursores

Janer Cristaldo


1. JEZEUS CRISTNA

Desta última viagem, voltei com alguns livros daqueles que não encontramos aqui. Destaco dois. De Karen Armstrong, minha teóloga predileta, Los Orígenes del Fundamentalismo en el Judaísmo, el Cristianismo y el Islam. Armstrong, eu a conheço desde há muito e tenho boa parte de suas obras em minha biblioteca. O outro livro foi Pablo de Tarso, ¿Apóstol o Hereje?, de autora espanhola que desconhecia, Ana Martos. Apesar de alguns lapsos, como falar da existência de três reis magos na Bíblia – o Livro fala apenas de magos, jamais diz que são reis e muito menos que são três – Martos faz importantes reflexões sobre as origens do cristianismo e sobre a heresia de Paulo.

Para começar, segundo a autora, os poemas e livros sagrados hindus, que narram o mito do primeiro casal que desobedeceu e foi expulso do paraíso terrenal do Ceilão, afirmam que Brahma finalmente os perdoou, mas que, posto que era um deus, conhecia de sobra a natureza humana e soube de antemão que continuariam pecando e ofendendo-o, porque o mal já havia entrado no mundo e não era fácil tirá-lo dali. Por isso, decidiu enviar Vischnu, a segunda pessoa da Trindade, para que se encarnasse no ventre de mulher mortal e redimisse o gênero humano do mal e da morte eterna. Vischnu se encarna mais de uma vez. Sua oitava reencarnação foi Cristna, e a nona, Buda. 3500 anos antes de nossa era, Cristna nasceu de mãe virgem, tendo sido profetizada sua vinda ao mundo pelos livros santos. Acho que o leitor já conhece história semelhante.

Adelante! A concepção da mãe de Cristna foi marcada pelo divino. Vischnu apareceu em sonhos a uma mulher justa e boa chamada Lakmy, que esperava um filho, advertindo-a que daria luz a uma filha, que seria eleita por Deus para ser mãe do futuro redentor do mundo. A criança deveria chamar-se Devanaguy e não deveria conhecer varão, mas permanecer virgem e entregue à oração.

Anos depois, Cristna foi concebido milagrosamente durante uma cena mística, na qual Devanaguy entrou em êxtase enquanto orava fervorosamente, ofuscada pela luz e esplendor do espírito divino que se encarnou em seu ventre. Mas Rausa, tirano e tio de Devanaguy, foi advertido em sonhos de que a criança que nasceria de sua sobrinha o destronaria algum dia e a encerrou em uma torre.

Nove meses depois chegou o momento esperado do parto e, ao primeiro gemido de dor da parturiente, um forte vendaval a elevou milagrosamente e a transportou até a cova do pastor Nauda, onde nasceu um menino a quem deram o nome de Cristna.

Todos os pastores acudiram a adorá-lo e a atender a mãe e o filho, mas Rausa soube que a criança havia nascido fora de sua prisão e, enfurecido, mandou degolar todos os meninos que tivessem nascido naquela noite. Devanaguy recebeu a advertência celestial e fugiu com o menino para colocá-la a salvo da degola, quando os soldados do tirano se aproximavam perigosamente.

Passaram-se os anos e Cristna, a criança celestial, cumpriu dezesseis. Chegou então o momento de abandonar a proteção materna para percorrer a Índia e predicar uma nova moral. Uma moral que a todos impactou, porque se atreveu a proclamar a igualdade entre os homens e inclusive, com coragem, entre as castas hindus, algo que ninguém até então havia sido capaz de mencionar. E não só isso, mas também pôs em destaque a hipocrisia dos sacerdotes brâmanes, o que lhe valeu sua ira e suas contínuas perseguições.

Quando foi necessário, Cristna realizou o milagre de curar enfermos e leprosos, fazer andar os paralíticos, devolver a visão aos cegos e inclusive ressuscitar os mortos. Muita gente o seguiu porque sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes.

Disse ter vindo ao mundo para redimir os homens do pecado de seus primeiros pais, rodeou-se de discípulos que continuariam seu trabalho e ensinou sua doutrina através de parábolas. Certa ocasião, Cristna teve de repreender o principal de seus discípulos, Ardjuna, por sua escassa fé, já que ele e outros seguidores entraram em pânico quando sentiram aproximar-se os esbirros do tirano. Mas Cristna soube infundir neles novo ânimo, mostrando-se com todo seu divino resplendor da segunda pessoa da Trindade divina. Após sua transfiguração, seus discípulos começaram a chamar-lhe Jezeus, que significa “nascido da essência divina”.

Quando soube que havia chegado sua hora, retirou-se a um lugar para rezar, proibindo a seus discípulos que o seguissem. Submergiu no rio Gânges e logo ajoelhou-se às suas margens, recostando-se a uma árvore e esperando sua morte. Enquanto rezava, chegaram os soldados do tirano e os esbirros dos sacerdotes e um deles feriu-o com uma flecha. Para que terminasse de morrer, o dependuraram em uma árvore para que o devorassem os animais selvagens.

Seus discípulos o procuraram ansiosos quando souberam de sua morte e correram para apanhar seus restos, mas nada encontraram porque o filho de Deus havia ressuscitado e voltado aos céus.

Isto aconteceu 3500 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência. Continuo mais tarde o relato dos demais mitos anteriores ao cristianismo, feito por Ana Martos.


2. AGNI E MITRA

Segundo a autora, encontramos mais um mito precursor nos Veda, os livros sagrados da Índia revelados pelo próprio Brahma e compilados por Vyasa, que datam do século XIV antes de nossa era. Traduzo.

Agni nasceu no 25 de dezembro, solstício de inverno, tendo sido sua vinda anunciada ao mundo por uma estrela no firmamento. Desde então, quando reaparece, os sacerdotes anunciam a boa nova ao povo e repetem o rito do descobrimento do fogo, esfregando os lenhos cruzados, até que surge a chispa como uma criatura celestial que colocam sobre palhas para que prenda fogo. Os sacerdotes levam até o berço de palha uma vaca que leva a manteiga e um asno que leva o soma, um licor alcoólico de cor dourada, com os quais alimentam a pequena chama, à qual chamam criatura.

No ritual, os sacerdotes lhe oferecem pão e vinho e cada fiel recebe uma pequena partícula da oferenda, que contém parte do corpo de Agni, nome que se transformou em Agnus, cordeiro em latim, no contato com o povo romano. O cordeiro que se oferece a Deus como vítima propiciatória pela redenção dos homens, o cordeiro de Deus, Agnus Dei.

O nome de Agni significa “unção”, que em grego se diz “cristnos”, de onde procede “cristo”, o “ungido”, o Messias judeu e cristão dito em grego, porque em hebraico se mashiakh, que se translitera como messias. Os dois lenhos cruzados são a cruz onde se gera o fogo, o Sol, que é a origem do deus segundo o dogma ariano de uma trindade composta pelo Sol, pai celeste; o fogo, encarnação do Sol e o espírito, sopro de ar que acende a chama.

Nos conta a autora que a Índia teve um outro deus, não tão importante, mas que passou ao panteão persa – e depois ao romano – com todas as características de um deus principal. Seu nome era Mitra, também chamado o Senhor, e fez nascer com suas flechas a fonte eterna do batismo, já na Pérsia. Nasceu de mãe virgem, em um 25 de dezembro, a festa mais importante da religião dos magos persas. Seu nascimento foi anunciado por uma estrela que apareceu no Oriente e os magos acudiram a adorá-lo, levando-lhe perfumes, ouro e mirra. Mitra morreu no equinócio da primavera, em março, para ressuscitar triunfante no terceiro dia.

Na religião mitraica, que primeiro foi hindu, logo persa e finalmente foi adotada por Roma como religião oficial, Mitra, que originalmente foi o ministro principal do deus Ormuz, venceu o touro que simbolizava a vida, arrastou-o a uma cova e lá o degolou para beber seu sangue, porque de seu sangue surgiu a vida e de sua carne se originaram todos os animais e todas as plantas. Por isso, Mitra se converteu em criador do universo e, ao mesmo tempo, em mediador entre Ormuz e o ser humano. Os ritos de iniciação nos mistérios de Mitra incluíam batizar o neófito com sangue de touro sacrificado em um lugar mais elevado, de onde o sangue manava para banhar o iniciado. A iniciação começava com o batismo e terminava com a comunhão, em que se consumia a carne do touro com água, pão e vinho. O pão e o vinho se consagravam previamente com uma fórmula mística que os converteria em corpo e sangue do deus. O culto de Agni surgiu 1400 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência.


3. OSÍRIS, DIONISOS E SERAPIS

Ana Martos vai adiante e envereda pela mitologia egípcia. Os Textos das Pirâmides mostram que Osíris oferece seu corpo como pão de vida e seu sangue como vinho. “Tu és o pai e a mãe dos homens que vivem de teu sopro, comem a carne de teu corpo e bebem teu sangue. O que come tua carne e bebe teu sangue viverá eternamente”.

Os gregos identificaram Osíris com Dionisos, o deus encarnado, o salvador, filho de Deus, nascido de uma mulher mortal, em um 25 de dezembro, em uma cova humilde onde pastores o adoraram. Osíris Dionisos oferecia a seus seguidores o renascimento para a vida eterna mediante a imersão ritual na água. Em sua vida terrena converteu a água em vinho durante uma cerimônia nupcial. Entrou triunfalmente na cidade montado em um asno, enquanto as pessoas brandiam palmas. Morreu na Páscoa (na primavera) pelos pecados do mundo, desceu aos infernos e ressuscitou no terceiro dia para ascender glorioso à sua morada celestial, de onde descerá ao final dos tempos para julgar os homens bons e os maus. Dionisos, como Baco e, em alguns cultos, Orfeu, foi crucificado pelos pecadores, mas não em uma cruz de dor, senão em uma cruz de salvação, porque a cruz é símbolo e totem de muitos povos. Sua morte e ressurreição se celebravam com um ágape ritual com pão e vinho que simbolizavam sua carne.

A conversão do pão e do vinho em carne e sangue do deus era um ritual tão popular que Cícero, cético, chegou a protestar em De natura deorum e a perguntar se alguém podia estar tão louco para acreditar que o que ingeria era a carne e o sangue de um deus.

O culto a Osiris se ampliou e se aperfeiçoou durante o período helenístico, no qual o Egito esteve governado pelos gregos, para configurar uma nova divindade cuja morte e ressurreição assegurava vida eterna a seus fiéis. Unindo todas estas facetas, Ptolomeu I proclamou a religião de Serapis no Egito como religião oficial imposta, não espontânea como a de Isis ou Adonis, mas mantendo a tolerância em relação a outros deuses e outras religiões. Serapis era a união de Osiris e Apis, dois deuses egípcios que naquela época já incorporavam os aspectos do deus grego Dionisos, pelo que se proclamou Redentor filho da Trindade egípcia.

Serapis nasceu de mãe virgem no solstício de inverno, morrendo no equinócio da primavera para ressuscitar no terceiro dia. Não escapou de ameaças de morte, o que obrigou sua mãe, a virgem Isis, a fugir com o filho, montada em um asno. Isso sem falar da imagem de Orfeos Bakkikos, a primeira que se conhece de um deus crucificado, utilizada nos mistérios órficos e dionisíacos celebrados no Mediterrâneo... desde o século VI antes da era cristã.

Conhecemos essa história, não? É a do cara aquele que nasceu num 25 de dezembro de mãe virgem, foi anunciado por anjos, curou enfermos e leprosos, fez andar os paralíticos, devolveu a visão aos cegos, transformou água em vinho e ressuscitou mortos. Sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes. Desafiou os sacerdotes de sua época, foi crucificado, morto e sepultado e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Se alguém ainda acha que isto não é ficção de hábeis sacerdotes, que se vai fazer?

16 dezembro 2009

Nada de novo sob o sol

Janer Cristaldo


Há Estados interferindo na legislação de outros Estados. Nestes dias em que estive na Espanha, Baltasar Garzón, o famigerado juiz espanhol, pretendeu julgar os familiares de Pinochet por supostos crimes cometidos ... no Chile. A impressão que o magistrado deixa é que a Espanha se arroga o direito de julgar atos em qualquer país do mundo. Isto não é novo. Nos anos 90, um cidadão francês foi condenado por crime que teria cometido... na Tailândia. Só que na Tailândia não era crime. Comentei isto há quase dez anos.

Amnon Chemouil, funcionário dos transportes públicos franceses, descobriu em 92 a praia de Pataya, na Tailândia, para onde voltou em 93 e 94. Na terceira viagem, em companhia de um turista suíço, Viktor Michel, decidiu iniciar-se na pedofilia. Viktor trouxe-lhe uma menina de 11 anos, que praticou uma felação em Chemouil, pelo preço módico de 125 francos. Até aí, nada fora do previsível. É internacionalmente sabido que o Estado tailandês tolera tais práticas, daí boa parte do afluxo turístico àquele país. O suíço, que além de pedófilo era voyeur, filmou a cena. De volta ao mundo europeu, Chemouil recebeu do amigo suíço uma cópia do vídeo, para sua coleção. E aqui começam os problemas do funcionário.

Anos depois, em uma revista no apartamento de Viktor, a polícia suíça encontrou o vídeo e enviou uma cópia do mesmo à gendarmeria francesa. Chemouil foi detido e levado ante um tribunal parisiense, que o acusava de transgredir o código penal francês de 94, pelo crime de violação sexual de menor. Além do mais, uma lei aprovada em 17 de junho de 1998, autoriza os tribunais franceses a julgar as "agressões sexuais cometidas no estrangeiro", mesmo quando os fatos imputados ao acusado não sejam considerados delitos no país onde foram cometidos.

Claro que a França jamais condenaria um cidadão francês que fosse a Cuba – como vão – para curtir os encantos de uma jinetera a preço de baguete. Nem a Alemanha condenaria os Fritz que vêm ao Brasil em busca das celebradas mulatas do Rio e Bahia. Quanto à Tailândia, é crime. Mesmo que lá não seja crime.

Na ocasião, o escritor peruano Vargas Llosa, em artigo para El País, afirmou que o precedente estabelecido pela França é impecável, pois uma democracia moderna não pode aceitar que, saltadas as fronteiras nacionais, seus cidadãos possam ser exonerados de responsabilidade legal e delinqüem alegremente porque, no país estrangeiro, não existem normas jurídicas que proíbam aquele delito. (...) Os legisladores franceses decidiram estender a jurisdição das leis e códigos a esta sociedade globalizada de nosso tempo, o que permitiu assentar um precedente e um exemplo, como ocorreu, já não no campo dos delitos sexuais, mas no dos crimes contra a humanidade, com o general Pinochet na Espanha e Inglaterra.

O lúcido Vargas Llosa parece ter-se imbuído da arrogância européia, que se julga no direito de julgar um chileno por crimes cometidos no Chile, mas jamais ousaria pedir a cabeça de um Clinton ou Blair pelo bombardeio de populações civis na Iugoslávia. Diga-se de passagem, Barack Obama acaba de receber um Nobel da Paz por seus bombardeios no Afeganistão.

Por uma lei de 1998, Amnon Chemouil foi condenado na França a sete anos de prisão. Por um fato ocorrido em 1994, na Tailândia. Não é preciso ser versado em Direito, para entender-se que tal atitude gera uma insegurança total no campo dos atos humanos. Ora, no artigo 11 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lemos: "Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento de sua prática, não constituíam ato delituoso à face do direito nacional ou internacional".

Tenho comentado, ao longo destas crônicas, uma outra tendência cada vez mais em moda em nossos dias, a de criar diferentes legislações para os cidadãos pertencentes a um mesmo Estado. No Brasil, negro vale por dois brancos em vestibular, índio pode espancar mulheres e matar crianças, desmatar e exportar mogno, o MST pode invadir propriedades e próprios federais, demolir laboratórios e culturas transgênicas. Se um outro cidadão que não pertence a estas tribos fizer o mesmo, cai sobre ele todo o rigor da lei.

Na Europa, os muçulmanos reivindicam o direito a práticas que na Europa constituem crime, como a ablação do clitóris e a poligamia. Na Alemanha, citando o Corão, a juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". Se um alemão bate em sua mulher, estão estabelecidas as condições para o divórcio e para a punição do marido. Muçulmano pode bater à vontade.

Costumo afirmar que quando em um Estado há duas ou mais legislações, então há dois ou mais Estados. Falei em “tendência cada vez mais em moda em nossos dias”. Me corrijo. Isto não vem de nossos dias. Há dois mil anos, uma seita de fanáticos já tinha a mesma pretensão.

Celso, nobre romano, autor de Discurso Verídico, que foi queimado pela Igreja e do qual só temos notícia pela contestação de Orígenes em Contra Celso, em sua época já acusava os cristãos de rebeldes contra a ordem estabelecida. Se se negavam a participar na vida pública e civil, isto equivalia a estabelecer um Estado dentro do Estado, com normas e costumes próprios, mas distintos aos do Império. Se se contentassem em anunciar um deus novo, isto pouco importava aos romanos. Mais deuses, menos deuses, tanto faz como tanto fez. Ocorre que se empenhavam em denegrir os deuses do país que os acolhia.

Como dizia o Koelet, nada de novo sob o sol.

30 outubro 2009

A falta que faz um Napoleão



Janer Cristaldo



Entre 9 de fevereiro e 9 de março de 1807, Napoleão Bonaparte constituiu na França um sinédrio – conselho judeu de 71 membros – que sucedeu à Assembléia de Notáveis, que tinha por função oficializar as medidas de secularização em matéria de decisões doutrinárias, do ponto de vista da lei judaica. Ao sinédrio e aos notáveis, o imperador fez doze perguntas:

1. É lícito aos judeus casar-se com várias mulheres?
2. O divórcio é permitido pela lei judaica? O divórcio é válido sem que seja pronunciado pelos tribunais e em virtude de leis contrárias ao Código francês?
3. Uma judia pode casar-se com um cristão e uma cristã com um judeu? Ou a lei pretende que os judeus se casem apenas entre eles?
4. Aos olhos dos judeus, os franceses são irmãos ou são estrangeiros?
5. Em um ou outro caso, quais são as relações que a lei judiaprescreve para com os franceses que não são de sua religião?
6. Os judeus nascidos na França e tratados pela lei como cidadãos franceses vêem a França como sua pátria? Sentem a obrigação de defendê-la? Sentem-se obrigados de obedecer às leis e de seguir todas as disposições do Código Civil?
7. Quem nomeia os rabinos?
8. Qual jurisdição de polícia exercem os rabinos entre os judeus? Qual polícia judiciária é exercida entre eles?
9. Estas formas de eleição, esta jurisdição de polícia são desejadas por suas leis ou apenas consagradas pelo uso?
10. Há profissões que são proibidas pela lei dos judeus?
11. A lei dos judeus os proíbe de praticar usura com seus irmãos?
12. Ela proíbe ou permite praticar usura com estrangeiros?

A França vivia então um problema, as queixas permanentes dos departamentos do Leste contra os créditos dos judeus. Napoleão queria saber se os judeus que tinham nacionalidade francesa eram franceses ou estrangeiros que viviam sonhando com as colinas de Sion. É uma boa pergunta a se fazer aos judeus que vivem hoje no Brasil.

Leio no noticiário on line que a Justiça brasileira ordenou ao Ministério da Educação que marque outro dia - que não o sábado - para que 21 alunos de um colégio judaico de São Paulo façam o Enem. A prova está marcada para 5 e 6 de dezembro - sábado e domingo.

O sábado é o shabat, dia em que os judeus descansam. Do pôr do sol da sexta ao pôr do sol do sábado, não trabalham, não dirigem e não escrevem. Mais ainda: não acendem fogões, não ligam computadores, não portam qualquer objeto. Nem mesmo guarda-chuva. Aqui em meu bairro, majoritariamente judeu, quando chove aos sábados, os filhos de Israel, apesar de bem trajados, portam capas de plástico, dessas que se compram a cinco reais nas bancas de jornais.

Vendo que seus alunos perderiam o Enem, o colégio Iavne apresentou a ação judicial. Na primeira instância, a Justiça não viu motivo para mudar a data. O colégio recorreu. E o Tribunal Regional Federal deu razão à escola. O juiz Mairan Maia escreveu que o MEC deveria permitir que a prova fosse resolvida pelos alunos do Iavne "em dia compatível com o exercício da fé". Seria um exame com "o mesmo grau de dificuldade. Ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa."

Onde estes senhores pensam que estão? Em Israel, onde o shabat é sagrado? Neste Brasil laico, nem mesmo o domingo, dia sagrado para os católicos desde Constantino, é dia em que qualquer atividade seja interditada. Israel é um Estado teocrático e os judeus brasileiros estão querendo impor seus dogmas a um Estado laico. A decisão do juiz Mairan Maia abre portas para que os muçulmanos exijam não fazer vestibular nas sextas-feiras, seu dia sagrado. Mais um pouco, e teremos vestibular em datas diferentes para católicos, judeus e muçulmanos. E também para os seguidores da Igreja Adventista, que descansam nos sábados.

Está faltando um Napoleão nestes trópicos, para bem dividir as águas. Os judeus com cidadania brasileira precisam decidir se respeitam as regras do país onde escolheram viver ou se preferem seguir regras escritas na Judéia há cinco mil anos.

16 outubro 2009

1531: Deus x Correggio

Cliquem nas imagens ao lado para ampliá-las.

Figura 1

- Título: Nossa Senhora de Guadalupe
- Autor: O famosíssimo e eterno Deus Todo-Poderoso, onisciente, onipotente e onipresente, o ser mais perfeito de todo o universo - aliás, sua obra mais célebre.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: Pigmentos divinos desconhecidos que simulam tinta terrena desgastada pelo tempo, esmaecida, fosca. O substrato é um tecido com propriedades impressionantes: é fibra de cacto quando observado por criaturas de sotaina, e linho e cânhamo quando observado por criaturas de jaleco.
- Estilo: Jeová, o ser mais perfeito do universo, optou por um estilo tosco-pueril indígena a macaquear o maneirismo pré-barroco europeu. Não quis fazer algo muito surpreendente para não tirar a liberdade das gentes de não acreditar e, assim, valorizar a fé no absurdo, como gostava Tertuliano. O tema é sublime, transcendental. Deus retrata ao mesmo tempo a mãe e a filha.

Figura 2

- Título: Júpiter e Io
- Autor: Correggio, um reles mortal nascido em Reggio Emilia, Itália. Teve apenas uns trinta anos para desenvolver suas habilidades pictóricas.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: A ordinária tinta a óleo sobre tela.
- Estilo: Renascentista para uns, maneirista para outros. O tema pagão, de um erotismo repugnante, retrata a absurda fecundação de uma mulher por um deus em forma de nuvem. Como se sabe, mulheres engravidam, no máximo, de deuses em forma de pomba.

13 outubro 2009

Ciência confirma a Igreja - Nossa Senhora de Coromoto

- Reportagem do mui respeitado jornal Zenit - O Mundo visto de Roma
- Página 8 do jornal venezuelano Versión Final
- Reportagem em Blog isento intitulado 'Ciência Confirma a Igreja'

A mídia mundial agora se ocupa, mais que de qualquer outro assunto, das surpreendentes descobertas na minúscula imagem de Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela.

A notícia, primeiramente lida em um jornal católico venezuelano confiabilíssimo, que três páginas antes trata Chávez como um grande estadista, elogiando-o por aumentar seu arsenal bélico para se prevenir contra a Colômbia de Uribe, e em blogs católicos daqui e de outros locais da América Latina, causou profunda comoção no mundo científico, a ponto de unir cientistas, que agora consideram a imagem barroco-indígena cucaracha, ótima para filtrar água, uma prova incontestável do sobrenatural.

Os cientistas, que se dedicam por vezes a derrubar teses e modelos consagrados, porque, entre outros motivos, a ciência os premia se provarem que uma verdade científica aceita por centenas de anos não é verdade em todas as situações, ou simplesmente não é verdade, neste caso se renderam desconcertados à pesquisa encomendada pelo clero venezuelano, sabidamente o clero mais cético da região mais cética do mundo.

O Papa da ciência, o único com autoridade concedida pelo Sumo-Cientista para definir o que é certo e o que é errado no mundo científico, exigiu dos cientistas da Itália, China, Japão, dos EUA, que se unissem e desistissem de quaisquer contra-provas. Decretou que estão proibidas novas análises e o cientista que discordar será excomungado da comunidade científica, instituição tão infalível que se disser que algo inexplicado é inexplicável, é porque não dá para explicar mesmo. Se não é explicado hoje, não o será jamais.

Os olhos da imagenzita tosca - como tudo que é do período rococó e indígena - são borrados e disformes, mas quando os ampliamos nos deparamos com olhos perfeitos, fotográficos (ao lado, imagem retirada do jornal venezuelano), com reflexo de cílios, iris perfeita e uma silhueta de alguma coisa que só pode ser um índio a querer agarrar à força a Mãe de Deus.

A imagenzinha do bugre está contida na pupila, bem definida como um desenho feito no PaintBrush. E algo que não aparece nas reportagens, uma injustiça: essa mesma Nossa Senhora de Coromoto chorou óleo perfumado em 2003. Gosta mesmo de agradar cucarachos!

Impressionante, deveras, mas nada comparável ao índio perfeito visto nos olhos da Virgem de Guadalupe, imperatriz das Américas.

Não é fruto da imaginação daqueles que procuram imagens em vidraças manchadas. É evidente que é um índio. E há também um unicórnio na pálpebra e uma revoada de corvos no supercílio. Observem a imagem abaixo.


01 outubro 2009

Melhor estivesse no Madame Tussauds

Trecho do PowerPoint que recebi sobre o corpo de Bernadette Soubirous:

"(…) …tantos anos depois de sua morte, por seu corpo corre ainda sangue líquido. É algo Sobrenatural e todo o sobrenatural é obra de DEUS. O caso é que a Igreja decidiu pô-la numa urna de cristal em Lourdes, para a veneração de todos os que ali acodem. Hoje, Santa Bernadette teria 165 anos de idade."

Todo sobrenatural é obra de um deus? E por que não de um ET brincalhão? Ou por que não de Pierre Imans, o designer de manequins que reconstruiu o rosto e mãos de Bernadette com cera a pedido da Igreja, para os fiéis não ficarem chocados?

Foram necessárias fotografias para ele chegar às feições porque, embora o cadáver estivesse meio preservado por sais de cálcio(?), o rosto estava escuro, desfigurado, os olhos afundados, estava sem a ponta do nariz, trechos do corpo sem pele. Basta ver as fotos de Bernadette para entender que o artista que se celebrizou pelos manequins de loja deu de presente ao cadáver da camponesa uma rinoplastia para aproximá-la do ideal estético greco-romano, pagão, como toda iconografia católica.

Para vermos bonecos que pareçam vivos basta ir ao Madame Tussauds, aquele famoso museu de cera. Pelo menos não vêm recheados com um cadáver. E figuras como Shakespeare, que lá também parecem vivas, foram muito mais importantes para a humanidade do que uma camponesa que afirmou que a mãe de Jesus, a quem é dado um tratamento meio de segunda classe a partir dos trinta anos do filho - este nem se digna a lhe receber durante uma pregação, quando ela manifesta esse desejo -, nasceu sem herdar o pecadilho de Adão e Eva. Parece coisa de São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, que sabia até o número de penas que um anjo tinha. As coisas passam a ser ou a não ser de acordo com pronunciamentos papais, de teólogos e de santinhos.

Esse culto à morte, essa fixação necrófila com glotes, cabeças, dedos, esse circo de horrores católico, é grotesco. Exumaram recentemente os restos de Joana D'Arc, perante os quais tantos se ajoelharam e obtiveram milagretes e curas, e acharam um fêmur de gato, uma costela humana e um trapo de múmia egípcia com uns 2500 anos de idade. Como bem disse Carlos Esperança, "O carbono 14 faz pior às relíquias católicas do que o CO2 ao aquecimento global". E, por séculos, diversos sagrados prepúcios de Cristo (circuncidado, como bom judeu) estiveram espalhados por igrejas italianas, e foram sumindo um a um, até o último ser roubado em 1983, após uma procissão com centenas de devotos católicos. O Sagrado Prepúcio era bom para fazer mulheres estéreis engravidar. É para rir!

Para um ser omni-tudo, o milagre do corpo incorrupto de Bernadette Soubirous foi tão mal feito, tão pela metade, que foi preciso um artista de bonecos para não deixar o resultado repulsivo. Da próxima vez que se invoque Zeus, Odin, Baal. Quem sabe o cadáver não ficará mais bonitinho, como o da Santa Evita Perón?

"por seu corpo corre ainda sangue líquido" - Mentiras "bem intencionadas", para variar...

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Voltando à Joana D'Arc

Por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana que teriam pertencido a uma santa que matou cristãos ingleses em nome de Jesus sob as ordens do próprio criador do universo transmitidas por anjos?

O seu deus estaria endossando milhares de coisas apenas no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana D'Arc; desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira - imaginem que tipo de relíquia apareceria por aí - até o assassínio em nome de um deus.

Há, claro, a hipocrisia da Igreja que não coloca a mão no fogo pela autenticidade das relíquias mas às vezes reluta em submetê-las à análise de cientistas, reconhece sua falsidade mas não as retira dos altares ou tenta inibir que fiéis façam promessas perante elas. A própria Catholic Encyclopedia diz, no site, que muitas relíquias são comprovadamente falsas mas como o povo, por tradição, está acostumado a venerá-las, a coisa é, digamos, tolerada.

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San Genaro

O Catholic Encyclopedia não diz que o "milagre" de San Genaro é falso. Diz, contudo, que a mesma liquefação tem lugar em várias outras relíquias nas vizinhanças de Nápoles ou em relíquias Itália afora trazidas dessa cidade. Acontece o mesmo com o suposto sangue de João Batista, de Santo Estevão, São Pantaleão, Santa Patrícia, São Nicolau de Tolentino, São Luis Gonzaga e muitos outros. O site cita um ou outro como "probably a pure fiction".

Pois bem... O mesmo patrão da Catholic Encyclopedia é o patrão das igrejinhas ao redor de Nápoles que também fazem seus milagres de liquefação. O patrão sabe mas deixa o rebanho crédulo lá estupefato perante a "ficção" porque, afinal, é tradição...
Só por isso?

24 setembro 2009

O Centro da Bíblia

A maioria de meus amigos e parentes é católica. Pois bem, recebi um e-mail de um católico apostólico romano praticante com o qual travo discussões amenas sobre religião que não raro terminam num “cada um com sua fé ou não-fé” ou em um “há mais mistérios entre os céus e a terra do que pressupõe a vossa vã filosofia”. Se Hamlet, aquele homicida alienado e vingativo que palestrava com a alma penada do pai, cria nisso, quem sou eu para discordar? Não há Raios Gama, UVA, UVB, fótons, ondas eletromagnéticas, entre o céu e a terra?

Vejamos o e-mail perturbador que quase abalou minha não-fé, um PowerPoint com imagens de pôr-do-sol e música singela com piano:

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- Qual é o capítulo mais curto da Bíblia? Salmo 117;
- Qual o capítulo mais comprido da Bíblia? Salmo 119;
- Qual o capítulo que está no centro da Bíblia? Salmo 118;
- Há 594 capítulos antes do Salmo 118. Há 594 capítulos depois do Salmo 118. Se somar estes dois números totalizam 1188;
- Qual é o versículo que está no centro da Bíblia? Salmo 118:8. Este versículo diz algo importante sobre a perfeita vontade de Deus para nossas vidas. A próxima vez que alguém te disser que deseja conhecer a vontade de Deus para sua vida e que deseja estar no centro da Sua Vontade, indique a ele o centro de Sua Palavra, Salmo 118:8 - "Melhor é colocar sua confiança no Senhor teu Deus que confiar nos homens".

Agora, diga, seria isto apenas uma casualidade?
DEUS TE ABENÇÕE HOJE E SEMPRE!

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Se essa inconcebível proeza matemática, essas contas decimais, cabalísticas, são um sinal divino, então, católicos, urge que se convertam ao protestantismo o quanto antes.

Em um site de estatísticas bíblicas onde se fala em 1189 capítulos, não se vê Tobias, Judite, Macabeus e outros livros da bíblia católica. Logo, no Calhamaço de Embustes que meu amigo considera ser o livro verdadeiro, aquele do qual não se pode tirar nem acrescentar uma única vírgula, não há esse "easter egg" divino.

Em compensação, há uma mensagem muito mais interessante, possivelmente escondida pelo próprio Coisa Ruim.

Centro da Bíblia Católica:

Temos 1074 capítulos no Velho Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/OT-Statistics-NAB.htm

E 260 capítulos no Novo Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/NT-Statistics-Greek.htm

E atenção (rufar de tambores).... o número é par, 1334! Logo, o capítulo que está bem no meio da bíblia católica, bem no meiozinho, é o nada.

Sejamos benévolos e consideremos o centro os dois capítulos que ficam ao lado desse capítulo inexistente. Cheguei, com duas contas simples (acessem o primeiro link), a I Macabeus, capítulos 4 e 5! Temos exatamente 666 capítulos antes, a partir do Gênesis, e 666 capítulos depois, até o Apocalipse.

O número da besta, ho ho ho!

Para quem gosta de ver provas do metafísico em números, simetrias, coincidências e acontecimentos pouco comuns, pouco prováveis, isto deve ser um prato cheio! Devemos reconhecer que o acaso favorece mais os protestantes do que os católicos, mas como estes estão sempre corretos e os primeiros são hereges, tudo não passa de uma coincidenciazinha e não devemos ser supersticiosos, claro! Ratio divinus est!

Destaquei os trechos mais edificantes do Centro da Bíblia Católica! Um deleite espiritual!

I Macabeus, 4

(...)
10. Gritemos agora para o céu para que ele se apiade de nós, que se lembre da Aliança com nossos antepassados e queira hoje esmagar esse exército aos nossos olhos.
(...)
14. Travou-se a batalha, mas os inimigos, derrotados, puseram-se em fuga através da planície.
15. Os últimos tombaram todos sob a espada, enquanto eram perseguidos até Gazara e as planícies de Iduméia, de Azot e de Jânia. E sucumbiram cerca de três mil.
(...)
23. Judas voltou para pilhar o acampamento, e seus homens apoderaram-se de muito ouro, prata, jacinto, púrpura marinha, e de grandes riquezas.
24. Ao voltarem, cantavam hinos e elevavam ao céu os louvores do Senhor, porque ele é bom e sua misericórdia é eterna.
...)
30. Tendo ante os olhos esse poderoso exército, rezou nestes termos: Sede bendito, Salvador de Israel, vós que quebrastes a força do poderoso pela mão do vosso servo Davi e entregastes os exércitos estrangeiros nas mãos de Jônatas e do seu escudeiro.
31. Entregai esse exército ao poder do povo de Israel e confundi nossos inimigos com suas tropas e sua cavalaria.
32. Inspirai-lhes o terror, fazei derreter seu orgulho audaz. Que eles sejam sacudidos e pisados.
33. Derribai-os sob a espada dos que vos amam e que todos aqueles que conhecem vosso nome cantem vossos louvores.
34. Travou-se então o combate, e do exército de Lísias tombaram cinco mil homens, que sucumbiram diante deles.
(...)
36. Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos.


I Macabeus, 5

(...)
3. Por eles perseguirem desse modo Israel, Judas atacou os filhos de Esaú na Iduméia, junto de Acrabatan, infligiu-lhes uma grande derrota, esmagou-os e apoderou-se de seus despojos.
(...)
5. Foram rechaçados em suas torres, onde ele os sitiou e os exterminou, queimando as torres com todos os que ali se achavam.
6. Em seguida atacou os amonitas, entre os quais ele descobriu um forte exército e numeroso povo, sob a chefia de Timóteo.
7. Travou com eles numerosos combates; foram aniquilados aos seus olhos e despedaçou-os.
8. Apoderou-se da cidade de Jazer e de seus arrabaldes e voltou depois à Judéia.
(...)
28. Judas mudou de caminho e atravessou o deserto para alcançar Bosor de improviso. Tomou a cidade, mandou passar a fio de espada todos os homens, apoderou-se dos espólios e incendiou a cidade.
29. Na mesma noite partiu e atacou a fortaleza.
(...)
68. Judas voltou para Azot, na terra dos estrangeiros, derrubou seus altares, queimou seus ídolos, sujeitou suas cidades à pilhagem e em seguida voltou para a terra de Judá.


LINDO!

16 setembro 2009

Para uma amiga muito querida, que passou a gostar de óperas

Janer Cristaldo


Uma amiga muito querida – que tive a honra de introduzir no mundo da ópera - me pergunta se é possível a qualquer pessoa gostar de ópera ou é um gênero musical exclusivo aos apreciadores de música erudita. Qual o motivo de a ópera ser tão pouco divulgada no Brasil, a ponto de praticamente não existirem CDs e DVDs produzidos aqui? Quais minhas óperas diletas em termos de enredo e música?

Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita. Anormal, a meu ver, é gostar de bate-estaca. Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera. Claro que quem conhece música terá melhores condições de curtir o gênero. Eu, para não ir mais longe, aprendi a ler partituras no ginásio. Hoje, não consigo mais lê-las. Nem por isso deixo de me comover até as lágrimas com certas árias. Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: “não sei”. Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei. Isso vai depender de outros elementos que não apenas a música, como o libreto, a encenação e inclusive le physique du rôle dos personagens. Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.

Já contei, mas conto de novo. Foi por aí que adquiri ojeriza à ópera, quando jovem. A soprano pra toda obra, em Porto Alegre, era uma rotunda senhora, a Eny Camargo. Até poderia ser uma aventura intelectual ouvi-la cantar, já não lembro. E não lembro porque havia uma barreira, aquela mulher baixinha, velha e quadrada representando uma cigana jovem, sedutora e sensual. Assim, não há quem possa gostar do gênero. Há alguns anos, comprei uma Carmen com a mezzo-soprano grega Agnes Baltsa. Não dá. Passou da idade. Voz também envelhece. Prova disto, é que você consegue identificar a voz de um velho ao telefone. Em compensação, sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes. Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.

Só fui me reconciliar com o gênero aos trinta anos, em Paris, quando vi uma Carmen divina, toda meneios, dançando chez Lillas Pastia. Ópera podia ser algo lindo, não aquele espetáculo grotesco que eu via na Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre. Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.

Da mesma forma, um Pavarotti ainda jovem representando Don Giovanni, tudo bem. Seria ridículo se o representasse no final de sua vida, quando chegou a carregar 175 quilos. Me consta que em uma de suas últimas apresentações, teve de ser posto no palco com um guindaste. Suas pernas não agüentavam a subida. Nessas circunstâncias, creio que eu não iria nem ao bar da esquina.

A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época, onde se encontravam nobres, burgueses e povão. Tanto que os teatros, se tinham camarotes de luxo, também previam coxias populares, para estudantes e gente do povo, que levavam banquinhos ou assistiam o espetáculo em pé. Como ainda hoje. Aliás, participei disto em Viena. Estávamos, eu e a Baixinha, em um café em Viena, justo face a Wiener Staatsoper. Foi quando ela inventou: e se fôssemos à ópera? É só atravessar a rua. A idéia me pareceu utópica. Como conseguir uma entrada na hora numa ópera em Viena? Tentar não custa nada – insistiu a Baixinha. Atravessamos a rua. A obra era O Rapto no Serralho, de Mozart. Ainda havia ingressos. Mas só os reservados para estudantes, no último poleiro e em pé. Preço equivalente a dois dólares, na época. O café que eu acabara de tomar custou-me cinco.

Passei maus bocados na Staatsoper. Todo mundo em smoking e black tie. Eu, com meu humilde parka, fiel companheiro de todas minhas viagens. Pior ainda: fui despido na chapelaria. Meu parka foi intimado a ficar na entrada. Me senti nu. Enfrentei a multidão de pingüins em manga de camisa. Enfim, não iria alugar um smoking para assistir um espetáculo pelo qual paguei dois dólares. Mas que é desconfortável, é.

Na Europa, as casas de ópera ainda insistem no traje a rigor. É hoje um espetáculo para elites. Mas você não será barrado se entrar com jeans e parka. Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado. De modo geral, traje esportivo e mesmo jeans e tênis.

Ópera é o espetáculo multimídia por excelência, concebido séculos antes mesmo de que se pensasse não digo em multimídia, mas em mídia. Tem tudo: som, imagem, movimento, canto e música, pintura, teatro, literatura e poesia. O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária. O mesmo diga-se de Carmen. A origem do gênero retrocede aos anos 600, quando surge o cantochão da liturgia cristã-católica ocidental. Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera. Eu, ateu, já me comovi com missas na Stephansdom, em Viena, na Notre Dame e na Madeleine em Paris. E já assisti inclusive uma missa gregoriana no mosteiro São Bento, aqui em São Paulo. Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.

Quanto ao fato de ser pouco divulgada no Brasil, isto se deve em parte que estamos irremediavelmente contaminados pelos bárbaros ruídos ianques. Não é que apenas a ópera não seja divulgada no Brasil. A boa música popular européia também não o é. Quem conhece aqui cantores como Evert Taube, Sven-Bertil Taube, Mikis Theodorakis? Ou mesmo este monumento da canção francesa – que em verdade é belga – Jacques Brel? As letras de Brel me enlevam quase tanto quanto os libretos de Da Ponte. Mas se vou procurar em uma loja os CDs de Brel, aqui em São Paulo, só por milagre vou encontrá-los.

Um outro problema no Brasil é que ópera é uma produção cara. É preciso corpos de ópera em constante treinamento e isto não custa pouco. Justo quando se necessitaria de um auxílio estatal, o Estado está ausente. O Estado só se faz presente para financiar mediocridades, tipo os caetanos e gils da vida, a Máfia do Dendê. Na Europa, dado o grande público, a ópera é bem mais difundida.

Mesmo assim, há um certo público no Brasil para a ópera, um tanto restrito mas não muito pequeno. Quando fui ver a Cavalleria Rusticana, no Theatro São Pedro, quase não havia lugares vagos. E isso que foi encenada por uma orquestra, não de Nova York ou Viena, mas de Guarulhos. (Tive a honra, no dia seguinte, de almoçar com Santuzza, isto é, com a soprano Laura de Souza, que conheci em Santa Maria quando ela, menininha, ainda nem sonhava com a brilhante carreira que faria na Europa).

Aqui, quando surge uma ópera de prestígio, o Teatro Municipal lota. Claro que na Europa há um público bem mais amplo. Viena, Salzburg, Paris, Roma, Berlim, Madri são grandes centros operísticos. Nova York também. Daí uma produção maior e mais caprichada. O advento do DVD estimulou muito a produção de óperas. Agora posso ver, no conforto de meu apartamento, óperas de Mozart mais vezes – dezenas, centenas, milhares de vezes mais, se quiser – do que o próprio Mozart conseguiu ver. Em versões que ele nem sonhou.

Minhas óperas prediletas? Já devo ter contado. São três. Carmen, Don Giovanni e A Flauta Mágica. Tenho várias versões destas três. Cada uma é cada uma. A Carmen mais linda que conheço é a de Francesco Rosi. É filme, não ópera filmada. Isto é, a história não se desenrola em um palco, mas em cidades como Sevilha e Ronda, e na montanha. A dança que Carmen dança para seduzir Don José é um dos mais sublimes - e sensuais - momentos da ópera.

Depois, posso pensar em Nabuco (o "Va pensiero" sempre me faz chorar), Aida, Rigoletto, Cosi fan Tutte, Le Nozze di Figaro, La Traviata, L'Elisir d'Amore, Il Barbiere di Siviglia, Il Trovatore, L'Italiana in Algeri. Dica ao leitor: para guiar-se no mundo da ópera, há um dicionário soberbo, o Kobbé. Já está traduzido no Brasil e foi publicado pela Jorge Zahar.

Falar nisso, em novembro próximo, estarei em La Favorita, em Madri. Com a Primeira-Namorada a tiracolo. É um restaurante onde os garçons são estudantes de música e cantam árias durante a ceia. Caso o leitor queira visitá-lo, ainda que virtualmente, le voilà: http://www.youtube.com/watch?v=Ql-o8KRPOSM.

Vale a viagem.

15 setembro 2009

Vivamos, nós que estamos vivos!

Passeei ontem pelo Cemitério da Consolação, em São Paulo. É uma galeria de arte - da mais fina arte - a céu aberto, e era precisamente isso o que eu visitava.

Claro que a dor dos parentes congelada nas estátuas de bronze e mármore sobre criptas de cem, cento e cinquenta anos de idade, torna o passeio abalador no bom sentido, sem falar no inusitado silêncio em um bairro movimentado de São Paulo, na ausência de semoventes fora eu, minha filha e uns passarinhos que pareciam cantar repetidamente "es-que-le-to" (que espécie será?), nos ciprestes romanos que conferem um quê de Porta do Hades ao local, no cheiro de cravo de defunto, na vegetação rasteira que, com paciência, vai tomando conta dos túmulos menos visitados, e sem falar em toda aquela pedra, o material "eterno" escolhido pelas efemérides humanas que têm esperança de também ser eternas...

É mais comovente essa vã esperança traduzida nos túmulos e nas ebúrneas figuras desesperadas do que a própria dor sentida pelos entes que ficaram ou pelo destino dos que partiram, já que, afinal, é o destino de tudo o que vive.

Humano, demasiado humano. Passei a achar cemitérios desse tipo, tradicionais, mais bonitos e inspiradores quando neles vi apenas o seu lado humano - que é o único que há. Nada disso se sente no Campo da Esperança, esta porcaria espartana daqui de Brasília, onde só há cerrado, cruzes toscas, fotos esmaecidas e velas, os três últimos o que de pior pode haver em um cemitério - depois do corpo de um conhecido, claro!

Vivamos - e vivamos bem -, nós que estamos vivos...

11 setembro 2009

Agora os moradores estão protegidos

Correio Braziliense: Moradores do Bloco C da 113 Sul rezam para pedir bênção e segurança
Publicação: 11/09/2009 09:05

A pedido dos moradores do Bloco C da 113 Sul, foi realizada ontem uma bênção no térreo do edifício. O padre Adilson Marques, da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, localizada na 312 Sul, rezou um Pai-Nosso em homenagem às três vítimas e jogou água-benta nas prumadas do prédio. “Este crime não assustou só os moradores do prédio, mas Brasília inteira. Eles (as vítimas) eram extremamente educados, discretos e ótimos vizinhos.

Esperamos que o caso seja resolvido”, disse uma mulher que preferiu não se identificar. Quinze pessoas compareceram à cerimônia — na estrutura original do edifício, havia 36 apartamentos, mas os Villela reformaram o 601 e o 602 para transformá-los em um imóvel único. Assim, o bloco passou a ter 35 condôminos.

Após a breve celebração, que durou cerca de 20 minutos, os moradores se reuniram para discutir mudanças na segurança do prédio. Na próxima semana, o Bloco C passará a contar com 16 câmeras de segurança, que serão espalhadas por pontos estratégicos. Ao contrário das atuais, os novos equipamentos gravarão as imagens captadas. Segundo Orivaldo Ferrari, 58 anos, integrante do Conselho Consultivo do edifício, os porteiros receberão treinamento para lidar com as mais diferentes situações. Quem quiser visitar alguém no local terá de mostrar documento de identificação na portaria e ainda tirar uma foto na webcam do computador.

Os condôminos cogitaram ainda a contratação de vigilantes, que fariam a segurança externa do bloco 24 horas por dia. “Resolvemos não adotar essa medida porque seria apenas mais gente estranha no prédio. As câmeras são suficientes”, destacou Ferrari. O investimento em todo o aparato tecnológico será de R$ 8 mil. “Já vínhamos discutindo essas mudanças havia três anos. Pena que elas só sairão do papel depois de um crime brutal como esse.”
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Meu comentário: certamente agora é a hora de encher o local de câmeras, seguranças e ex-integrantes da SWAT, já que todos bandidos do país sabem que assaltar o bloco C da SQS 113 dá lucro, bastando, para obtê-lo, afiar a faca e se armar de um pouco de ousadia. Mas, quando se passarem 2, 3, 10 anos sem outros ataques desse tipo no bloco C da SQS 113, a explicação não estará nas probabilidades nem nos dispositivos de segurança, e sim na água mágica que o representante divino (pastor, pajé, xamã, padre no caso) aspergiu no pilotis ao som de palavras mágicas, em contato com o mundo invisível (inexistente)... Pergunta: por que não joga água-benta no planeta Terra de uma vez?

07 agosto 2009

Santa Arte

Não é nenhum crime ver alguma beleza naquelas formações militares impecáveis de nazistas, fascistas, comunistas, do Império de Star Wars, nas suas construções monumentais, na música marcial, nos cartazes comunistas mostrando aqueles super-homens segurando instrumentos de trabalhadores braçais como pás e martelos, onde o peão é santificado para que fique satisfeito e orgulhoso com sua condição – algo semelhante à santificação do “humirde” e do “inguinorante” feita pela classe sacerdotal em conluio com os nobres, bem comum antes das Luzes.

Normalmente, a preocupação com a estética é grande entre ideologias que se pretendem santas, inspiradas. São lindas aquelas obras bem humanas que conferem “divindade” a alguns templos cristãos e que não deixam de ser, em grande parte, imitações da estética que conferia divindade a Júpiter e a outros deuses, como a estatuária, a cúpula, os capitéis clássicos, a colunata, os afrescos, incensos, as togas dos sacerdotes, as palavras mágicas em latim, etc.

Muitos consideram o Vaticano um bom exemplo de inspiração divina, do quão alto o homem pode ir motivado pela fé no verdadeiro deus. Ora, na Renascença, o mesmo artista que pintava uma madona ou um menino Jesus poderia pintar, enquanto a outra obra secava, uma Afrodite e um menino Hércules lutando contra serpentes. Para ambos temas às vezes eram os próprios papas os clientes, que encomendavam obras sacras para as igrejas e profanas para seus palácios. Tudo que um artista precisa é de técnica, demanda, competição, remuneração e até mesmo de um pouco de inspiração e talento.

Os devotos veem mais santidade em um lugar como a Basílica de São Pedro do que em uma capelinha miserável no interior do Piauí com rachaduras nas paredes e ar cheirando a ricota velha, ainda que para eles o pão transubstanciado em carne no interior do Piauí não deveria ser menos Cristo do que aquele transubstanciado perante o Papa B16. Mas o que a presença física do próprio Cristo pode contra Bernini, Bramante e Michelangelo? Nada! A aura "santa" que se sente no Vaticano sente-se também no Louvre, embora no primeiro caso a fé potencialize a sensação e crie aquela estupefação pretendida por Leão X.

Cave uma gruta nas cercanias de Jerusalém e diga a turistas ignorantes que foi lá onde Jesus fez a penúltima ceia com sua gangue. Ficarão arrepiados, sentirão a aura de santidade do local, tocarão nas pedras, sentirão o próprio Cristo no local. E experimente ainda acrescentar uma roseira de bronze na entrada, uma estátua de mármore muito bem talhada, acender incensos e velas; terão orgasmos múltiplos.

E a mesma sensação de direito, de santidade, de sublimação, de superioridade sentiram com a ajuda da arte aqueles que foram iludidos pelas ditaduras desastrosas que mencionei no começo do post.

30 junho 2009

Somos Todos do Diabo!


I João, 3

8. Aquele que peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio.

I João, 1

8. Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.

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E destarte somos todos do diabo, cristãos e não cristãos, de acordo com o Calhamaço de Embustes. Do capeta!

Jesus é o cordeiro de deus, que tira os pecados do mundo, embora os pecados do mundo ainda estejam por aí.

Jesus é aquele que livra os batizados do pecado original, embora continuem pecadores e exilados do paraíso outrora usufruído pelos sem-umbigo, Adão e Eva.

Os não batizados, como o bebê da foto, filhinho de pagãos budistas, estão em pior situação; nascem e morrem contaminados pelo pecado original, não têm seus pecadilhos perdoados ao longo da vida, vivem e morrem do demônio e passarão a eternidade nas caldeiras do inferno.

25 junho 2009

Quem mandou apedrejar a adúltera?

Jesus não deixou que apedrejassem a mulher apanhada em adultério.

Sim, que ele mesmo mandou apedrejar, já que é um com o pai, e disse:

“Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. (...) Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.”
A ordem para apedrejar adúlteros está em Levítico, 20:10, e é dada pelo próprio 3 em 1, o JJP (Javé/Jesus/Pomba). Se Jesus é um com Javé, foi ele também que ordenou as matanças abomináveis de Canaã, participando ativamente delas ao fazer chover pedras sobre aqueles que fugiam para salvar a pele, exigindo a morte de cada criança, cada bebê, cada animal.

JJP mudou as regras no meio do jogo e sei lá qual exercício mental absurdo o crente que se permite pensar(1) faz para acreditar que de fato nenhum jota da lei desapareceu, Jesus a levou à perfeição, não há conflito entre os ensinamentos do Velho e do Novo Testamento, JJP ordenar a morte de criancinhas inocentes é simbólico... Parte-se do pressuposto de que tudo na Bíblia é bom e depois se tenta achar uma explicação que a salve de qualquer crítica. Acho que simplesmente o crente prefere aquele "não entendemos a 'lógica' de Deus"...

O poder de dissociação dos crentes não permite que enxerguem aquele Jesus hippie do NT como ele seria de fato se tudo aquilo fosse verdade, se ele de fato fosse um com o pai e se este realmente tivesse aprontado tantas presepadas no VT, como afogar a humanidade inteira para acabar com o mal na Terra e fracassar vergonhosamente, afinal o mal ainda está por aí...

E atende pedido de capetas para possuir milhares de porcos, arruinando os pobres suinocultores da região, que o escorraçaram de Gerasa por causa da sandice...

E fora as ameaças, chicotadas nos vendilhões, tinha um prazer em mandar os outros para o inferno... Aliás, ele deixa bem claro que poderia ensinar de um modo que mais pessoas se salvassem, mas diz preferir as parábolas para que as pessoas “de fora” não entendam o ensinamento e assim não se convertam, obrigando-o a salvá-las... Vejamos em Marcos 4, 11 e 12:
“Ele disse-lhes: A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em parábolas. Desse modo, eles olham sem ver, escutam sem compreender, sem que se convertam e lhes seja perdoado.”
Claro, isso entra em choque com o "ide e pregai", com o modo como tratou o centurião romano, como estendeu a salvação ao gentio, etc... Mas a Bíblia é isso aí: um amontoado de coisas conflitantes que servem àquele que quer discriminar gays e àquele que os tolera. Sob a moral de hoje imagina-se um Jesus pacifista. Na moral da época de Santo Agostinho imaginava-se o Jesus que não veio trazer a paz mas a espada, o chicoteador de vendilhões. O que ameaça o tempo todo com o fogo eterno estava mais na moda, assim como os métodos do Javé do Velho Testamento, brutais, monstruosos, assassinos.

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(1)na verdade: "...que se permite pensar livremente sobre o assunto em questão..."

É óbvio que existem crentes gênios, crentes burros, descrentes gênios e descrentes burros; talvez até seja necessário um pouquinho de "estupidez" (entre aspas, claro) para não se impressionar com algumas engenhosíssimas exegeses ad hoc de gente "inteligente" porém comprometida emocional e culturalmente até os ossos com a ideologia / fé que defende. Na verdade, as interpretações seriam inspiradas pelo Espírito Santo, embora variem ao longo dos séculos e de acordo com as conveniências... O texto é ditado por Javé, mas é tão confuso e contraditório que o Espírito Santo ajuda nas interpretações...

A interpretação, assim, só é garantida, "mais do que àquele que compreende o texto original e domina o latim, o grego, o árabe, o aramaico, o atlante e a História -, ao 'dono' da religião cujo texto pretende interpretar. E as interpretações vão bailando, ora são simbólicas ora literais" (de um texto do D.A.)

Na verdade, o que há é uma confiança imensa de que tudo aquilo é verdade. Quando o patinho nasceu, adotou a lata puxada por um fio como mãe e pronto. Podem lhe mostrar ad nauseam como as latas são feitas e que há mais como aquela, que ele é muito mais parecido com uma pata adulta, mas o patinho só se sentirá verdadeiramente protegido e confiante ao lado da lata amassada de Heineken que ele viu ao sair do ovo...

É desta maneira que gente muito inteligente acredita em absurdidades pueris de sua própria religião enquanto ri de absurdidades semelhantes na religião alheia, para a qual usa seu senso crítico sem impedimentos. Conheço católicos que riem da reencarnação (sendo que bilhões acreditam nela, inclusive gente muito inteligente), dos deuses zoomórficos hindus, etc. E eu rio tanto dos deuses zoomórficos hindus quanto de Javé não gostar de toucinho, de Maria ter subido ao espaço sideral com carne, osso, sangue, cabelos, e de ainda estar por lá, perto do corpo físico de Jesus, o mesmo corpo crucificado, rio das setenta virgens do islamismo... Opa, daqui um tempo o islã descobrirá a jogadinha do simbólico/literal e o Corão passará a ser um livro "zen budista", "paz e amor", como o Velho Testamento...

23 junho 2009

Minhas preces foram atendidas

De passagem por este blog depois de mais de um ano...

Meu querido primo escreveu:

"Há pouco tempo resolvemos eu e a Alessandra passear em São Marcos. Paramos naquela conhecida gruta à margem da BR, para eu matar as saudades e bater fotos. Ela me sugeriu um pedido para Nossa Senhora das Graças, o que acabei fazendo ainda que um tanto cético; pedi pela minha saúde, que vinha bastante mal.

Só Deus sabe o quanto estava debilitado, com arritmias freqüentes, cansaço e estresse extremos, tonturas, palpitações etc., tendo que me abster de prazeres como vinho, bebidas com cafeína e até de passeios, porque uma caminhada de 50 metros já me exauria as forças.

Qual não foi minha surpresa quando em praticamente dois dias melhorei 90%! Hoje caminho em ritmo bastante forte, durmo bem, degusto vinho à vontade, café, mangio o que quiser, e o melhor de tudo, as arritmias escassearam significativamente, a ponto de quase desaparecerem. Soa até como papo de bispo da Igreja Universal, mas tenho testemunhas do antes e depois. O fato é que fiquei positivamente surpreso com o que aconteceu, e pretendo somar uma plaquinha de agradecimento àquelas muitas que enfeitam a gruta.

Fica o relato. Caso alguém ache que estou mentindo, que o efeito foi psicológico ou coisas do gênero, fique à vontade. Isso não mudará a verdade.
Abraços."


E eu respondi:

Bom, Cristiano, como o Estevão, estou feliz por você estar melhor! E para a próxima, e sou eu que lhe peço, vá lá e reze/peça pela paz no oriente médio. Ou pela cura da AIDS. Ou que um dedinho amputado de qualquer pessoa cresça... Bom, aí é difícil, porque sabemos que o seu deus não cura amputados, nem que todas as pessoas do mundo peçam com fé ao mesmo tempo... É como rezar para achar uma vaga no Setor Comercial Sul na hora do rush... Deuses costumam atender mais se rezarmos para achar uma vaga no Nilson Nelson durante a semana... Para que gastar a fé se ela faz tão bem, independentemente de seu objeto ser verdadeiro, como disse o Fábio?

Acredita que melhorou pelo fato de ter pedido pela sua saúde à Senhora das Graças, tudo bem. Partindo desse pressuposto, você deve as melhoras à Santa porque ela o ajudou. E se não tivesse melhorado, seria por recusa da Santa em o ajudar? Aí não, claro! Aí seria porque o deus sabe o que é melhor para nós, para nossa alma, etc. Ele se dá bem quando atende a preces e quando não atende. Ora, então as pessoas pias e que pedem com fé deviam colocar plaquinhas de agradecimento na gruta da Santa por não terem sido curadas, afinal o deus sabe o que é melhor para elas e para a humanidade...

Bom, 90% não é impressionante, Os cirurgiões psíquicos da Malásia garantem 100% :)...

E apenas a fé pode levá-lo a crer que merece ser "curado" de algum mal enquanto milhões de outras pessoas que têm a mesma crença estão na fila de espera há anos por um milagrezinho. Você deve ser muito especial para o seu deus...

Mas considero isso normal. Quando estamos impotentes perante algumas coisas, gostamos de ter um ser onipotente à disposição que é "comandado" por nós para que faça o que desejamos, e a prece (a prece que pede por algo, não a que agradece, que por vezes é fruto apenas de felicidade transbordante e às vezes é medo de ser mal-agradecido e perder o que foi conquistado por ser muito especial aos olhos de deus) é uma espécie de joystick com que julgamos controlar esse ser onipotente... E aí nos sentimos potentes... Pobre ser humano!

"Neptuno has ago gratias meo patrono, qui salsis locis incolit piscolentis, quom me ex suis locis pulchre ornatum expedivit, reducem et tempulis, plurima praeda onustum salute horiae"

(Graças sejam dadas a Netuno, meu patrono, que está na morada salgada dos peixes (não sei traduzir bem), pela rapidez com que me levou para casa e sei lá mais o quê...

Existem milhares de preces comoventes feitas em agradecimento a outros deuses, por graças alcançadas. Esses deuses não existem e isto é consenso, porque hoje não há crentes que reclamem sua existência.

Vamos às estatísticas:

Digamos que 0,15% da população mundial contraia uma doença nova da qual a chance de o contagiado se curar seja de uma em cem - 1%. Quem ouve de um médico "sua chance de sair vivo desta é de 1%" considera-se praticamente morto, não?

Bom, a população mundial é de 6,6 bilhões. Teremos quase 10 milhões de desgraçados no mundo que contrairam a doença. Quase todos terão algum deus e rezarão para ele, embora se considerem praticamente mortos. No fim das contas, teremos 100 mil pessoas salvas "miraculosamente" mundo afora a dar testemunho diário do quanto seu deus é poderoso, afinal estavam "praticamente mortas". As outras milhões estarão mortas e não terão chance de dar testemunho diário de coisa alguma. Estatística é isso aí! Se a possibilidade de ganhar em determinado jogo é de uma em um milhão e cinco milhões jogarem, provavelmente teremos cinco ou seis ganhadores, dez, quem sabe. E todos eles se considerarão agraciados pelos deuses, afinal rezaram antes de jogar... Assim como os outros que não ganharam...
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