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13 agosto 2013

Deuses devem ser belos

"O belo é o esplendor da ordem"
Aristóteles

Beleza é essencial? Os feios dizem que não. Muitos bonitos afirmam o mesmo, para não serem acusados de arrogantes e de não terem beleza interior, aquela que, por ser subjetiva, todos podem dizer que têm.

Não é comum mas também não é raro que pessoas bonitas desprezem as feias. Estas, em um primeiro momento, buscam a atenção das primeiras como um modo de agregar valor a si mesmas, afinal são bens quase sempre escassos e disputados, exceto na Suécia. No caso do corpo, ou se é jovem ou se tem boa genética ou força de vontade para ir à academia; ou dois ou três destes fatores combinados. Os feios, como a raposa em relação às uvas na fábula de Esopo, talvez passem a desenvolver um genuíno desprezo pela beleza, a repetir que os feios dedicam-se ao espírito para compensarem a falta de atributos físicos, e por isso são mais interessantes. Estas pessoas apreciam belos quadros, bela música, belezas naturais, aves coloridas, mas acham que a beleza humana é apenas convenção, uma ditadura estética europeia e, enfim, não é fundamental como queria Vinícius. Isto, claro, até uma bela sueca ou uma bela espanhola parecerem acessíveis, ou um Brad Pitt, no caso das mulheres. Aí beleza volta a ser importante, imprescindível até, afinal é um fator importante nas leis da atração e, portanto, foi crucial na forja do ser humano ao longo de centenas de milhares de anos.

Pesquisas demonstram que criminosos bonitos conseguem penas menores, candidatos bonitos têm mais chances de serem selecionados para uma vaga de emprego, após o contrato recebem salários maiores, ganham empréstimos mais facilmente; talvez por serem mais autoconfiantes e terem uma habilidade de comunicação desenvolvida e premiada desde a infância poderão ser líderes marcantes, como o Lula (brincadeira). Segundo o economista americano Daniel Hamermesh, nos EUA um trabalhador bonito chega a ganhar, ao longo da vida, 230 mil dólares a mais que um feio com o mesmo grau de instrução e inteligência. Pessoas bonitas tendem a ter mais contatos, e o "network" é essencial para corretores de imóveis, lobistas, arquitetos, advogados e em outras profissões.

Um Padre bonito passa a imagem de ter feito um grande sacrifício ao adotar a batina, demonstra que sua vocação foi verdadeira. O padre feio, por outro lado, parece ter recorrido ao hábito pela ausência de sinal verde das mulheres durante a infância e adolescência. As paroquianas enchem as igrejas em que o primeiro reza missa, seu sermão é mais interessante, principalmente quando fala com voz suave, elas se desdobram para ajudá-lo em tudo, na arrecadação, nas quermesses, fruem de sua beleza sabendo inconscientemente que ainda que ele não pertença a elas, não é de mais ninguém.

A aparência física influencia sobremaneira a personalidade, desde a primeira infância. O menino loiro bonito talvez seja docemente assediado pelos roqueiros neo-grunges da escola, por ser parecido com o Kurt Cobain, e adotará, com o tempo, o ar blasé, a fala mansa, o feitio de quem é indecifrável, turvará sua mente poça d'água para que pareça profunda. De tanto interpretar o personagem que seus amigos nele enxergam e, assim, para corresponder às expectativas e agradar, também para ser bajulado, acabará por incorporá-lo; tornar-se-á uma segunda natureza. O menino feio talvez ganhe a simpatia de um professor de química que nele se veja quando tinha sua idade. Será mesmo atraído para grupos de feios, que lhe darão atenção, criarão seus códigos, seus "inside jokes". Por outro lado, o feio rico comprará a amizade dos bonitos oferecendo sua casa com piscina para as festas da turma, seu carro para as noitadas, pagando as contas de restaurantes, etc. Será popular, obviamente. Se for feio, pobre e muito engraçado poderá servir como bobo da corte.

Os ricos tendem a ser bonitos e os pobres feios. Basta prestar atenção a quem surge pela porta de um carro luxuoso que acabou de estacionar: mulheres e crianças bonitas, homens que poderão ser tanto bonitos quanto feios, baixinhos, carecas, cabeludos. Grosso modo, uma mulher bonita é capaz de arranjar casamentos uma ou duas classes sociais acima, um homem feio pode conseguir mulheres bonitas uma ou duas classes sociais abaixo, um homem bonito pode casar com mulheres bonitas de mesma classe social. Sem falarmos nas lentes de contato, aparelhos dentários, salão de beleza, cremes, implantes, academia, lipos, cirurgias estéticas e outros simulacros de beleza genética acessíveis exclusivamente a quem tem dinheiro.

Antigamente a realidade era outra. Casamentos amiúde envolviam sérios interesses do resto da família. A filha não herdava os bens do pai, cuja fortuna não podia ser dispersada, devia permanecer no "sobrenome", então dependia de um bom casamento, quase sempre comprado com dotes generosos. Os nobres europeus eram feios - talvez não os bastardos, frutos de atração sexual. Dificilmente uma moça pobre e bonita casava-se com um rapaz rico. Se engravidasse, o amante negava a paternidade, ainda que pudesse contribuir materialmente na formação da criança. E a garota praticamente perdia o direito de casar até mesmo com alguém de sua classe social, por ter sido maculada. Assim elas poderiam servir, no máximo, para a diversão dos mais ricos, os quais irremediavelmente casavam-se com mulheres de sua classe social. No Rigoletto de Verdi/Piave, baseado em Victor Hugo, o conquistador Duque de Mântua - o da ária "la donna è mobile" - finge ser um estudante sem dinheiro para poder conquistar o coração da pobre e bela Gilda, filha do bobo da corte.

Se os seres humanos dão tanto valor à beleza, por que adorariam deuses feios? O Jesus histórico provavelmente era feio, afinal era a mistura de uma mulher nascida há dois mil anos no Oriente Médio e de uma pomba. Se fosse possível profetizar e se as profecias de Isaías estivessem certas, Jesus seria comprovadamente feio. Em Isaías, 53, 2 lemos:

"Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos."

Para parecer feio nas visões proféticas de um pastor de cabras da Idade do Bronze, Jesus deveria ser o cão chupando manga. Já o Cão, vulgo diabo, ao contrário, era formoso e atraente, segundo se lê em várias passagens bíblicas.

Os hebreus, talvez por não serem tão bons artistas quanto os gregos, proibiam imagens e esculturas, ainda que não fossem para adoração. Já o gentio convertido para a heresia judaica posteriormente chamada de cristianismo tratou de paganizar a nova religião, afinal às vezes é preciso mudar para as coisas continuarem como estão, como Lampedusa escreveu em seu O Leopardo. Deste modo, não foi apenas o latim que os cristãos tomaram dos romanos. Além desta língua, da própria sede ser em Roma, da arquitetura e de suas ordens, de muito da simbologia, a iconografia é a pagã.

Jesus aparece sempre majestoso, cheio de graça, atraente, alto, caucasiano, grandes olhos, nariz grego, poses clássicas, greco-romanas. Nas representações da crucifixão, deposição e ressurreição é possível ver, parcialmente coberto por uma túnica, o corpo esculpido em sessões diárias de caminhadas pelo deserto, abdominais, flexões e levantamento de pedras, talvez realizados religiosamente após aqueles sermões e parábolas edificantes. Bom, ao menos quando os artistas são de qualidade. Quando não são sempre é possível recorrer a cópias em gesso e reproduções fotográficas de obras consagradas.

A relação pessoal e profunda com Cristo tem muito a ver com a experiência de uma paixão amorosa. Como resistir às ebúrneas Afrodites e arrebatadores Adônis dos altares cristãos? Os católicos não seriam capazes de adorar deuses cuja representação não fosse sexualmente atraente, com exceção de Nossa Senhora Aparecida, aquele boneco de pau tão horroroso que até mesmo o cordato bispo Von Helder não resistiu a chutá-la. A Maria que adoram (dizem que é apenas veneração) tem os seios perfeitos, sua bunda não é caída, não tem rugas de expressão, é simétrica, cândida, é o modelo inimitável das cristãs, é a mãe virgem que lhes diz tacitamente que nunca serão boas o bastante; ou são virgens e não são mães ou são mães e - horror dos horrores - perderam o hímen ao fabricar o cristãozinho ou ao darem a luz, afinal não têm naquela membrana tanta queratina e elastina quanto a mãe de deus, que continuou virgem até mesmo depois do parto, como está escrito nos papeizinhos do Frei Galvão, ainda não autorizados pela ANVISA mas comprovadamente eficazes para o saldo bancário das freiras que os produzem.

Maria continuou bela mesmo na morte. Se após a crucifixão do filho viveu ainda por quinze anos, ascendeu aos céus com corpo e alma, de acordo com o dogma, com uns 60 anos. Sem filtro solar e creme hidratante naquelas paragens áridas da Judéia e, posteriormente, na Ilha de Patmos com João Evangelista, seu corpo, que, por definição, ocupa lugar no espaço e está algures, passível de ser visto por um ET ou por um astronauta, assemelha-se mais a uma jaca desidratada do que à Afrodite das pinturas e esculturas.

A seguir, as imagens ideais dos dois principais deuses cristãos e as imagens reais dos humanos que inspiraram a sua criação, fotografadas por J. J. Benítez durante a Operação Cavalo de Troia.

Jesus ideal, forte, majestoso, limpinho após um banho gostoso no Jordão.

Jesus ideal para os mórmons, o belo rabi desejado pelas fiéis prestativas. A tensão sexual está no ar, e para os mórmons ela será consumada em breve!


Maria ideal, virgem e mãe de feições clássicas, simétrica, limpa, coberta de ouro, tão atraente quanto intocável.
Casamento real de José e Maria, que o traíra pouco antes com o soldado romano Panthera. Aqui ela está grávida, aos treze anos.


Jesus real furioso a destruir o ganha-pão dos vendilhões do templo.
Maria real chorando durante a crucifixão do filho, e também por ter machucado a mão mais cedo ao preparar uma gororoba judaica daquela época.
Maria real aos 60 anos, olhando intrigada para a lente da Rolleiflex de Benítez. 


19 março 2013

Papa Paco VIº

"Toda unanimidade é burra" é obviamente uma frase de efeito, porque se todos concordassem com Nelson Rodrigues seria então burrice acreditar que a unanimidade é burra. O mesmo vale para "toda regra tem exceção". Então deve haver uma exceção para esta regra, ou seja, uma regra sem exceção?

O Papa Francisco é praticamente uma unanimidade, como Lula quando foi eleito pela primeira vez presidente. Falar mal do eneadáctilo foi, até o Mensalão, um pecado imperdoável. A imprensa venera este Papa. É um oximórico argentino humilde - e o demonstra publicamente* -, foi genial ao escolher o nome "Francisco" (ou seja: Paco, nos países hispânicos), é mais bonito do que Bento XVI, o primeiro Papa a sair vivo do cargo em 600 anos, a quem agora estão proibidos as sapatilhas vermelhas e o camauro, espera-se que ele faça uma limpa na Igreja Católica e coloque em seu devido lugar o maligno Cardeal de Richelieu, digo, Bertone. Comentemos algumas de suas frases recentes, em negrito e entre aspas:


“Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético.“

A Igreja endossou no Concílio de Viena a posição de São Tomás de Aquino, de que a alma só era inoculada no feto quando este tivesse forma humana. Não havia impedimentos para que o Espírito Santo inspirasse os altos dignitários de 1311 a afirmar o mesmo que Bergoglio, uma vez que desde o homem-macaco sabe-se que aquilo que avoluma o ventre materno invariavelmente se torna um ser humano, se o processo não for interrompido, natural ou deliberadamente. Esta constatação óbvia depende dos avanços científicos?

Na verdade, o aborto passou a se tornar pecado, em qualquer estágio de desenvolvimento do feto, apenas em 1869, após um acordo entre o papa Pio IX e o imperador Napoleão III. A baixa natalidade na França atrapalhava os planos de industrialização do governante francês.

Desde a democracia moderna e o fim dos monarcas investidos de poder divino, a relação entre governantes e religiosos passou a ter um intermediário: o povo. A consciência deste passou a ter um preço alto, e desde então os primeiros muitas vezes dependem dos segundos. Mantendo-se no centro de discussões polêmicas, muitas vezes em contradição com asserções passadas - o Espírito Santo também muda de opinião -, apelando a valores que tenta fazer crer que inventou, a Igreja Católica passa a ser peça importante no jogo democrático de dezenas de países. Assim, o último estado teocrático da Europa apita desavergonhadamente nas questões internas dos países onde sua faceta religiosa conta com prosélitos, porque, camaleônico, é estado e igreja. Núncios são recebidos mundo afora como embaixadores de um estado europeu, para tratarem sobre questões religiosas. Para os governantes, é um excelente atalho. Ao invés de lidarem com 50 milhões de consciências, acertam tudo com seis ou sete procuradores destas. Os líderes evangélicos aprenderam bem tal mecanismo, o aperfeiçoaram, e seu arrojo torna o serviço ainda mais fácil para os políticos.


“Não pretendo fazer proselitismo — eu as respeito (pessoas ateias) e me mostro como sou (...) Não diria que um ateu está condenado porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar sua honestidade — sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas.”

Conseguiu matar dois versículos do Capítulo 16 de São Marcos com uma única tolice politicamente correta:

Marcos 16:
15: E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.
16: Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.

Após a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II (link), Jesus deixou de ser o único caminho. Vale agora até adorar Baal, porque se está tateando por uma divindade nas sombras, e este impulso de adoração já basta àquele mesmo deus ciumento do Velho Testamento. Afirmar que não pretende fazer proselitismo quando se encontra com ateus diz muito sobre o novo Papa. É como ouvir às vésperas de eleições um candidato dizer que não quer convencer ninguém a votar nele. Mas esta é justamente a tática proselitista de conquistar prosélitos entre os que odeiam proselitismo.


“Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem com o transcendente."

Envolver-se com o transcendente é, porventura, invadir o terreno da metafísica? Se esta dimensão - seja lá o que for - fosse falseável, seria do campo científico. Se detectarmos sistematicamente almas saindo de pessoas recém falecidas, a metafísica não ganhará força; o mundo natural é que terá adquirido uma nova dimensão.

Há outro problema. O milagre envolve intervenção do transcendente no físico e é peça fundamental na religião. Esta depende, de certo modo, da ciência, e sem milagres é apenas "fé cega", conforme lemos no catecismo católico:

"...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'".(§156)

É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais frequentes em locais de baixo IDH. Ademais, deveria haver um milagre incontestável por habitante, uma vez que a mera narração de um prodígio volta a demandar confiança, "fé cega".


“O que não é bom é o laicismo militante, aquele que toma uma posição antitranscendental ou exige que o religioso não saia da sacristia.”

O laicista militante é tão nefasto quanto o republicano militante, o democrata militante. Não conheço laicistas que tentam impedir padres de opinar sobre quaisquer assuntos. Reclama-se de financiamento público para visitas de religiosos, para festas religiosas, reclama-se de símbolos religiosos em repartições públicas. O laicismo existe no papel, assim como a probidade administrativa. Milita-se pela aplicação daquilo que já está previsto em lei.


“Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilômetro quadrado.”

Ah, sei. O país criado por Mussolini. A Igreja possui 20% dos imóveis da Itália. E trilhões de euros em imóveis ao redor do mundo. A Igreja não possui mais nada.


“Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre.”

Digamos que, em determinado país, criaturas de hábito - padres, freiras e monges - constituam 0,1% da população (na verdade, esta é a porcentagem italiana, a maior proporção de padres e religiosos em relação à população, entre todos países) mas sejam responsáveis por 7% dos abusos documentados a menores. A chance de encontrar um pedófilo entre padres seria, portanto, 70 vezes maior do que entre os não padres, não? Estas porcentagens não são fictícias. São aproximações a partir de dados oficiais da Irlanda. E estou levando em consideração apenas a população adulta.

A porcentagem de padres pedófilos na Irlanda chegou a 10%. Não há nenhuma outra profissão que atinja tal marca. Algumas estimativas chegam a uma chance 200 vezes maior de um padre católico ser pedófilo do que uma pessoa normal, não padre (link).

Por terem desvios sexuais, muitos procuram a batina, talvez até inconscientemente, porque o sacerdócio é um bom álibi social. Não precisam casar, serem vistos com uma mulher, muitos pais baixam a guarda quando lhes confiam os próprios filhos, para tardes de catequese, como coroinhas, cantores, noites em acampamentos. Creio que os crimes contra crianças praticados por sacerdotes se devam, muitas vezes, ao fato de ser mais fácil ameaçá-las e calá-las. A profissão exige celibato e extrema retidão moral. Não é bom arriscar com amantes adultos, que um dia poderão dar com a língua nos dentes, não? Todos padres que abusam sexualmente de menores cometeriam os mesmos crimes fora da igreja? Ou seriam pedófilos não criminosos – aqueles que não consumam suas preferências sexuais, apenas sentem atração por crianças? Bispos e cardeais acobertaram crimes de pedófilos, para protegerem sua instituição. É difícil acreditar que acobertariam crimes por aí, de vizinhos ou de colegas de trabalho. Denunciariam às autoridades ainda que anonimamente. Os crimes de acobertamento por parte de superiores são o terreno fértil para germinarem os crimes dos padrecos.

THE SAVI REPORT - Sexual Abuse and Violence in Ireland

Vejamos os EUA, por exemplo: Leiam The Nature and Scope of the Problem of Sexual Abuse of Minors by Priests and Deacons - Relatório comissionado pela “Conference of Catholic Bishops”(link).

E imaginemos como era antigamente, quando a Igreja não era obrigada a se reportar à justiça comum. Como era a situação nos internatos e orfanatos conduzidos pela Igreja? E nos seminários, onde os aspirantes entravam com 7, 8 anos? E nas paróquias?

O Papa Francisco ou é safado ou pacóvio. Fico com a segunda opção, apesar de parecer que se aproveita do senso comum entre os fiéis católicos, de que são casos isolados os de pedofilia clerical e que a mídia é que faz estardalhaço, para jogar insidiosamente os dados de que 70% dos abusos são cometidos por familiares e vizinhos. Ora, se 0,1% dos crimes de pedofilia fossem cometidos por padres, o problema não seria alarmante, uma vez que estaria, bem ou mal, em harmonia com a proporção de religiosos em relação à população geral. Mas não é isto o que se percebe.


Sobre homossexuais e casamento gay: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Aqui o Papa Paco se iguala ao Silas Malafaia e ao Pastor Feliciano, com a diferença de ser incensado pela mídia, enquanto estes são execrados. A cada dia que passa vem sendo corroborada a tese de que o homossexualismo tem forte peso genético. O Silas Malafaia expôs os dados corretamente no De Frente com Gabi mas os analisou do modo estúpido que se espera de um pastor homofóbico: em várias pesquisas com milhares de gêmeos univitelinos separados no nascimento houve concordância na orientação sexual em aproximadamente 52% dos homossexuais. O Silas afirmou, então, que, se fosse genético deveria ser 100%. Ora, se não houvesse influência genética os números deveriam respeitar a porcentagem de homossexuais em relação à população, de 4 a 8% (link).

O que o pastor não levou em conta foram os genes alelos e também gatilhos ambientais. Porcentagens semelhantes foram encontradas ao se analisar em gêmeos a incidência de esquizofrenia, por exemplo, comprovadamente genética.

Assim, o Papa Paco VIº (pacóvio) faz do demônio co-criador do homem, uma vez que parte de suas características genéticas vem do Coisa-Ruim. Se o homossexualismo é natural, e também é natural a união civil entre seres humanos que têm um projeto comum de vida, e o Papa vê nisto "jogada" do Pai da Mentira (Deus mente e a Serpente diz a verdade aos sem-umbigo, no Gênesis, mas fiquemos com a versão oficial), então não consigo enxergar a coisa de modo diverso. Deus é nosso pai. Satã também. Teria sido a primeira união homossexual da história?

Casamento gay é uma ameaça à família, aos planos de Deus? E os adultos que jamais se casam? E quanto aos padres celibatários? Celibato é natural? É genético, como o homossexualismo? E o problema da superpopulação? Ela está nos planos de Deus? Quanto à questão moral, o que dois adultos fazem consensualmente entre quatro paredes não me diz respeito. Por que os religiosos se importam tanto com isso? Um grupo de pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade da Georgia, nos EUA, realizou um estudo em que se verificou que homens homofóbicos ficam excitados quando assistem à pornografia gay (link).

E aí chegamos a um ponto interessante: Qual é a porcentagem de padres gays? Segundo várias estimativas, está na faixa de 30% (link). Tomemos um exemplo: se na Irlanda a porcentagem de padres pedófilos já é maior do que a de gays na população geral, e a esmagadora maioria dos crimes de pedofilia é contra meninos, imagina-se que a porcentagem de homossexuais seja muito maior entre padres católicos do que na população como um todo.


Cristina Botox kirchner, a bruxa peronista, está acabando de afundar a Argentina com seu populismo irresponsável, seu desejo de exterminar a imprensa livre e a oposição, a la Chávez, enquanto sua família enriquece, e por isso simpatizantes liberais do Papa, como o Reinaldo Azevedo, veem a inimizade entre os dois como mais um sinal de que o pontífice é sensato. Ora, ela se deve, principalmente, a divergências em temas como o casamento gay, aprovado na Argentina em 2010. Parecem estar em harmonia no resto.

Ou seja, na estupidez.

Em 2012, Bergoglio disse que as Malvinas "pertencem à Argentina". Disse que as ilhas foram usurpadas pelos britânicos. Não é preciso dizer que a escolha do Papa não foi bem recebida no Reino Unido, não pela sua nacionalidade mas pelas suas declarações enquanto cardeal.

Após o almoço que o Papa teve com Cristina, esta disse: “(…) O papa me falou da Pátria Grande, da América Latina e do papel que estão cumprindo os diferentes governantes da América Latina. Disse que era formidável o que estavam fazendo esses governantes, trabalhando unidos para a Pátria Grande — empregou esse termo, o que definitivamente me comoveu. Era o termo que empregavam San Martín e Bolívar”.

O Cardeal Bergoglio disse, no final de 2011, que (link):

"A crise econômico-social e o conseguinte aumento da pobreza tem suas causas em políticas inspiradas em formas de neoliberalismo que consideram as ganâncias e as leis de mercado como parâmetros absolutos em detrimento da dignidade das pessoas e dos povos. Neste contexto, reiteramos a convicção de que a perda de sentido de justiça e a falta de respeito pelos demais pioraram e nos levaram a uma situação de iniquidade".

Depois falou em "igualdade de oportunidades" dos danos das "transferências de capital ao estrangeiro", em "distribuição da riqueza", etc.

A riqueza não é um processo de soma zero, como creem os socialistas. Steve Jobs não ficou bilionário explorando uma centena de trabalhadores na Califórnia, mas despertando o desejo da população terrena por seus aparelhinhos Apple. A riqueza pode ser criada, multiplicada, e a história demonstra que quanto mais os países têm mercado livre, baixa intervenção estatal e regras claras, menor a pobreza.

A demonização do mercado e dos imperialistas, a utilização de termos como "neoliberalismo", a defesa da tal "igualdade de oportunidades" (sabemos que inexiste na própria família, por uma série de motivos) o traem, a ponta da orelha peluda aparece por baixo do solidéu branquinho:

É mais um perfeito idiota latino-americano.

Glórias ao Papa Paco VIº, o Pacóvio!


*Acho ótimo que preparasse a própria comida e andasse de transporte público enquanto arcebispo de Buenos Aires. Já acho que muitas demonstrações de humildade como Papa ofendem o antecessor e servem para que seja exaltado a todo instante. Vejamos a rainha Elizabeth II da Inglaterra: passa uma humildade desafetada, sem "São Francisco" e outros ranços piedosos. Nenhuma coroa que usa é sua. Nenhuma joia sairá da realeza. Ela própria é quase uma peça do Madame Tussauds ambulante, que mal fala, uma exposição itinerante de indumentária real. Humilde é o príncipe Charles, que poderia exibir-se com espécimes femininos muito mais vistosos que Camila, Duquesa da Cornualha, mas ama esta górgona e a assume publicamente.
Exibir-se humilde na Basílica de São Pedro é engraçado. Que transfira provisoriamente a sede do papado para alguma tenda nos jardins do Vaticano, então, ou extramuros. As sapatilhas vermelhas são ridículas, claro, assim como as sotainas enfeitadas. Usá-las é que é sinal de humildade...

Créditos:
Carlos Esperança: "1º Papa a sair vivo do cargo em 600 anos"
Orlando Tambosi: "Bruxa peronista"
Janer Cristaldo: Informou-me que "Papa Paco" é como Bergoglio é chamado na Argentina.

15 março 2013

Habemus Papam Franciscum

Conheci um ou dois religiosos que tinham horror do cardeal Ratzinger e da forma como ele enquadrou o pessoal da Teologia da Libertação. O Leonardo Boff não aguentou o castigo e pediu para sair, como diria o capitão Nascimento. Pessoalmente, acredito que Ratzinger deixou um grande legado para a Igreja ao rejeitar o marxismo inerente à doutrina da Teologia da Libertação em sua atuação como Inquisidor Mor.

O marxismo é uma teoria que surge no contexto da filosofia alemã e da economia inglesa e nada tem a ver com a religiosidade semita que deu origem ao cristianismo. De fato, como disse o atual papa Francisco, sem a crença em Cristo Salvador a Igreja não passa de uma ONG piedosa. Portanto, diferente do que pensam os rahnerianos, a salvação não vem dos pobres nem o cristianismo é imanente à luta contra a desigualdade. Acho que com isto a Igreja está superando a sua crise de identidade e se assumindo como um corpo de fiéis unidos na crença em Jesus que morreu pelos pecados daqueles que acreditam nele.

Agora com Francisco chega ao papado o primeiro jesuíta da história. A Ordem Jesuíta é uma ordem fundada por um militar espanhol meio delirante e sem muito amor à vida que foi gravemente ferido em uma batalha. Na convalescênça dos ferimentos leu a Vida de Santos e enfrentou febres e delírios que teriam matado a maioria das pessoas. Recuperado, decidiu dedicar suas energias não mais às glórias em batalhas, mas à imitação de Cristo.

Fez longas peregrinações e reflexões que aparentemente o levaram a um estado qualquer de clareza mental que acabaram o tornando um grande pregador do cristianismo. Isto incomodou a Inquisição da época, que exigia uma educação teológica formal para este tipo de pregação e ele acabou tendo que cursar um curso de Teologia no qual curiosamente era considerado um aluno medíocre.

Mais tarde desenvolveu um método que ele chamava de Exercícios Espirituais, a partir da sua própria experiência de conversão. Ele havia percebido que a leitura da Vida de Cristo lhe dava uma sensação de paz, enquanto os pensamentos em torno de glórias em batalhas, embora excitantes, depois se mostravam vazios de algo. A partir daí ele desenvolveu um método que buscava treinar os praticantes na aplicação deste discernimento em suas vidas. A Ordem Jesuíta surge a partir desta prática. Portanto, é natural que o Papa Francisco, um jesuíta, entenda que a piedade e a luta contra a desigualdade no contexto da Igreja Católica sejam consequências de uma prática religiosa.

28 dezembro 2012

Falta-lhes a focinheira adotada por aqui

Manda o bom senso que fiquemos alertas quando a maioria religiosa oprimida repete sem cessar gritos de ordem contra um grupo religioso minoritário opressor, como ocorre hoje contra muçulmanos na Europa, como aconteceu contra judeus pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Guardemos as devidas proporções, logicamente; a principal diferença é que judeus eram discretos e cometiam crimes como possuir dinheiro e emprestá-lo a juros, e presidir academias de arte e conservatórios de música - passíveis portanto de despertar ódio incomensurável em artistas geniais rejeitados -, enquanto os muçulmanos são de fato atrasados, invejosos, belicosos, uma ameaça à democracia e imperdoavelmente feios. Crimes de grandes proporções contra muçulmanos são raros, mas incidentes como intimidações, brigas, vandalismos e pichações com termos injuriosos têm sido cada vez mais comuns. Incomodam também turistas, mesmo que estes não o confessem, que preferem topar com europeus claros quando viajam, porque estes compõem melhor o cenário de castelos antigos e montanhas com neve. Mesmo se abundassem, loiros de olhos azuis convertidos à ala ruidosa do islamismo não incomodariam tanto quanto cristãos africanos negros cordatos, por não enfearem a paisagem. Turistas do extremo oriente também irritam, pois são todos iguais e usam bonés, chegam aos milhares e tornam insuportáveis os locais cuja manutenção depende sobretudo de seu dinheiro. Mas pelo menos estão de passagem, são bonzinhos e tomam banho.

Seria impossível um mundo islâmico tolerante?

Estudo feito pelo Pew Research Center's Forum on Religion & Public Life, divulgado em agosto de 2011, expõe que quase um terço da população mundial vive em países onde há restrições à liberdade religiosa, relacionadas a governo ou hostilidades sociais. Destes países, sete em dez são islâmicos. Contudo...

A Turquia tem praticamente 100% de muçulmanos. Atatürk substituiu os trajes árabes no trabalho pelo terno e gravata, promoveu a educação e o trabalho para mulheres e liberou-as da obrigatoriedade do véu, adotou o alfabeto latino, descriminalizou imagens figurativas na pintura e escultura, converteu em museu a Santa Sofia, antiga basílica transformada em mesquita por Mehmet II, passando a exibir, juntamente com os dizeres "Alá é Grande e Maomé é seu profeta", mosaicos antigos cristãos; encomendou a tradução, do árabe para o turco, do Alcorão, que só podia ser lido no idioma ditado pelo anjo Gabriel, o mesmo que fez o exame pré-natal em Maria. Recentemente, 12 mil turcos saíram às ruas em defesa da sociedade secular, ameaçada por extremistas islâmicos. O Azerbaijão tem 95% de muçulmanos e é, como a Turquia ( e Bósnia e Herzegovina), um país secular onde há liberdade religiosa.

A Malásia tem maioria muçulmana e há liberdade religiosa, sendo reconhecida pelo Estado a conversão do Islã para outras religiões.

Não seria nenhuma surpresa se a Indonésia, com seus quase 90% de islâmicos, cancelasse as leis contra a blasfêmia e a hostilidade contra outras religiões. É um país rico e com algumas características democráticas - embora não seja uma Turquia -, com quase 10% de cristãos e seis religiões reconhecidas pelo Estado. Bangladesh também tem aproximadamente 90% da população muçulmana, e os casos de intolerância eram raros até uns anos atrás.

O Irã, 100% islâmico, foi um dos países mais abertos do oriente, até 1979, com uma vanguarda cultural e uma indústria sofisticada de cinema e televisão. Mulheres fumavam, usavam minissaia, iam à universidade, namoravam em público. O Afeganistão tinha realidade semelhante: maioria islâmica e liberdade.

Os muçulmanos, certamente apesar do Alcorão, criaram nos tempos antigos um padrão para a tolerância religiosa ao qual o mundo não estava acostumado. Muçulmanos protegeram judeus contra cristãos, cristãos orientais contra católicos romanos. Em Bagdá, sob os abássidas, e na Península Ibérica, sob os omíadas, muçulmanos eram mais tolerantes do que cristãos, ainda que às vezes as minorias devessem pagar um imposto para poderem professar a própria fé em sossego. Após a Reconquista, judeus e muçulmanos, que viviam pacificamente no Califado de Córdoba, passaram a ser ferozmente perseguidos, mesmo após se converterem ao cristianismo. Um cristão não comer porco às vezes era o suficiente para ser tratado como judeu: linchado, claro. Os muçulmanos sob o reinado de Saladino eram mais tolerantes do que seus contemporâneos cristãos, nomeadamente os cruzados. Exemplos abundam. No mundo muçulmano prosperaram a matemática, a astronomia, as letras, a filosofia.

E isso tudo sob o mesmíssimo Alcorão. O que falta aos muçulmanos é uma sociedade secular forte para lhes meter uma focinheira reforçada. Falta-lhes um Atatürk, um Napoleão, um grande domador de feras.

Cristãos sempre foram tolerantes?

O Novo Testamento não era diferente nas épocas de Savonarola e Torquemada. E o que os cristãos fizeram com os judeus nos últimos dois milênios? Qual era o sentimento da cristandade em relação a eles, pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, há algumas décadas?

Há pouco mais de 100 anos, Pio IX ameaçou de excomunhão quem apoiasse a democracia, quem votasse, quem promovesse a igualdade de direitos das mulheres e a liberdade religiosa, numa época em que o anátema valia alguma coisa, pois o excomungado era banido da vida social, em geral em torno à Igreja. Esta foi se adaptando à força, deixando de ser religião oficial em países latinos, avançou a reboque dos próprios fiéis e dos de outras denominações, dos críticos e dos descrentes, sempre rugindo e esperneando, excomungando, proibindo livros, associando-se a ditadores e a qualquer tábua que lhe ajudasse a se manter na superfície do poder. E hoje está bem mais branda. Na verdade, está praticamente extinta. Seus fiéis não conhecem sua doutrina. A grande religião do ocidente agora é o cristianismo à la carte, em que se apanha o que interessa e se abandona o que se julga inconveniente, onde se considera literal o que está em harmonia com princípios humanistas seculares, e simbólico e "fruto do pensamento da época" o que vai de encontro a eles. E adora-se uma mistura de Deus bíblico com panteísta, zen budista. Um deus politicamente bonitinho que gosta de veados e putas, e apoia suas atitudes, e que não manda ninguém para o inferno porque é bonzinho. Incentiva todos nossos projetos e nos ajuda a achar vaga em estacionamento concorrido.

O que os muçulmanos precisam aprender com os cristãos é considerar simbólicas algumas passagens do Alcorão, ou fruto do pensamento da época, é colocar os princípios humanistas acima dos divinos, é criar um Alá hippie à la carte, um Maomé Superstar.


Lê-se na Veja Online:

"Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais."

O comportamento de um flamenguista numa multidão de vascaínos é um, em meio a milhares de flamenguistas é outro, principalmente se avistar um vascaíno desgarrado por perto. A História o demonstra. Se não houver policiais (sociedade secular forte), o grupo preponderante tenderá a agir com intolerância. O que a religião desperta no indivíduo que se sente autorizado e reforçado pelo grupo é muito semelhante ao que o clube do coração desperta no torcedor quando se sente parte de uma massa sem rosto, onde anonimamente pode dar largas a tudo o que individualmente não teria coragem de fazer, principalmente se for um ressentido, como é a totalidade dos fanáticos. A culpa é dividida em milhares e, afinal de contas, "dei apenas um chutinho no estômago, não sou o responsável pela sua morte". A massa soma força, não inteligência.

Tanto cristianismo quanto islamismo são perigosos quando a sociedade está nas mãos de seus líderes, quando ela vive sob suas boas intenções. Quando os líderes cristãos e muçulmanos e toda a religião estão sujeitos a leis superiores às divinas - as humanas, regidas por princípios de liberdade, pela convivência -, aí sim é possível ter paz e tolerância. E é por isso que aos católicos incomodam mais os laicistas do que os muçulmanos. Ambas religiões veem no secularismo uma ameaça às suas mordomias e aspirações totalitárias, ainda que em estado de dormência. Onde há humor, liberdade religiosa e de opinião, onde não há leis contra a blasfêmia, os líderes religiosos não conseguem aquela gosmenta aura de importância sacra tão imprescindível para que seus absurdos escorreguem goela abaixo dos homens, às vezes tão questionadores e sensatos.

Enfatizo alguns pontos, por fim:

- Acho os muçulmanos atrasados e condeno as atitudes daqueles que usufruem do que o continente europeu tem de bom e se valem da democracia para condená-la, o que é um contrassenso.

- Apoio a decisão da Noruega de não aceitar financiamento para a edificação de mesquitas quando vem de países que proíbem a construção de templos de outras religiões.

- Não deve haver tolerância para com a intolerância, leis diferentes aplicadas a grupos diferentes em um mesmo país.

- Penso que a Europa deva preservar as características arquitetônicas e históricas de determinadas áreas (o Vaticano, por exemplo, rsrs). Contudo, não vejo problema algum na construção de mesquitas por lá. Que construam um milhão.

- Vaticano e Islâmicos são ambos ameaças ao sadio espírito secular europeu, conquistado a duras penas, o primeiro uma ameaça latente, o segundo uma ameaça real e direta.

- Acho que o próprio Novo Testamento levado ao pé da letra é extremamente perigoso, e o Velho Testamento está na Bíblia, Jesus não o aboliu, aquilo é um verdadeiro manual de maus costumes, do nível do Alcorão. Se foi possível domesticar os cristãos e vários países de maioria muçulmana já tiveram longos períodos de tolerância, entendo que o problema é uma religião hegemônica ter muito poder, influência sobre o Estado, é estar acostumada a ditar o que todos devem fazer.

27 dezembro 2012

Código do Bento

O Papa Bento XVI inaugurou presépio no Vaticano incluindo diversos personagens inexistentes na mais famosa manjedoura da história, entre eles o burro e a vaca.

Conforme o recém lançado livro "A Infância de Jesus", que o pontífice escreveu após mui importantes e exaustivos estudos, orações e a votação do Colégio Cardinalício, esses animais não estavam na manjedoura no momento exato do nascimento de Jesus. Os pastores mantinham as bestas no presépio de dia e as levavam para pastar à noite quando a estrebaria fazia as vezes de hotel para divindades, em anos de recenseamento. O jumento que Maria montou de Nazaré a Belém também foi barrado. A confusão nasceu provavelmente do relato de um pastor, que teria avistado no santo sítio um animal com chifres, mas talvez fosse apenas um comentário relacionado à reputação de Maria, que naqueles tempos ainda não era imaculada. Não se sabe se o verdadeiro pai estava no local, porque não foram avistados nem pombas nem o soldado romano Pantera, famoso em Nazaré por encomendar 20 mesas para o carpinteiro José e de nunca as ter apanhado.

A primeira representação do presépio no Natal foi feita em 1223 por São Francisco de Assis, com personagens vivos. Contudo, devido a cacoete adquirido na juventude, Herr Ratzinger considera, no livro, que a ideia de encher o presépio de animais foi dos judeus, no século VII.

Lemos em Mateus, 2,1: "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.". B16 afirma, no entanto, que os magos vieram da Andaluzia, na Espanha. Como a Bíblia não pode estar errada, historiadores já estão pensando em retirar de Fernão de Magalhães o crédito pela primeira viagem de circunavegação da Terra.

Ainda no mesmo capítulo de Mateus, no versículo 9, lemos: "Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.". Contudo, após assistir a vários documentários do Discovery Channel, B16 chegou à conclusão, também exposta no livro, de que a Estrela de Belém era, na verdade, uma supernova. Contra aqueles que querem enxergar no Papa uma visão por demais materialista do evento, pode-se argumentar que uma supernova ir precedendo magos espanhóis vindos do oriente e parar sobre um estábulo sem animais em Belém é um milagre ainda mais assombroso do que aquele em que até ontem cria a cristandade.

Jesus Diaz, da Gizmodo australiana, disse tudo: Como Dan Brown, o Papa esclarece vários mistérios bíblicos por apenas US$ 13!

19 agosto 2010

Veja nunca erra!

Jornalistas da VEJA assinam disparates de dimensões bíblicas quando o assunto é religião.

Há quase três anos Reinaldo Azevedo, o Esaú tupiniquim que trocou sua credibilidade pelas lentilhas de sua submissão ao PSDB e ao Papa, escreveu em seu blog hospedado na Veja online:

“Se você conhece mesmo Santo Tomás, sabe que ele jamais chamaria de ciência a concepção imaculada. Volte aos livros. O que é matéria de fé está fora do escrutínio científico. Mesmo as provas da existência de Deus, na Suma Teológica, são exercícios lógicos. Assim, em termos estritamente tomistas, Maria ter concebido virgem não pode jamais ser um ‘absurdo’ porque há uma condição anterior a qualquer verificação da experiência: ‘é preciso crer’.”

Comentei, no dia seguinte, aqui no Pugnacitas: “Ele acha que Imaculada Conceição se refere à concepção de Jesus, nascido de uma virgem. (...) Imaculada Conceição significa que ela (Maria) teria nascido sem pecado original.”

Decerto Reinaldo Azevedo julga que conceber pelo sexo – até pouco tempo atrás o único meio para tanto – é algo sujo, maculado. Ora, Maria teria concebido virgem para cumprir as escrituras – para cumprir uma falha de tradução, na verdade. Mas entendo a confusão (ignorância) do blogueiro da Veja: o modelo feminino dos cristãos – uma inimitável mãe virgem – condena todas as mulheres reais a jamais serem boas o bastante. Torna sujo, maculado, o sexo, mesmo para a procriação.

Na edição da Veja de 28 de julho de 2010, em cuja capa se lê “Perdão”, achei outros disparates.

Em matéria intitulada “Sombra, Luz e Drama”, sobre o pintor Caravaggio, o jornalista Bruno Meier escreve o seguinte:

“Uma encomenda para uma igreja de Siena foi recusada por retratar a morte de Maria, contrariando o dogma da ascensão aos céus da mãe de Jesus.”

O dogma é de 1950, proclamado por Pio XII, o Papa de Hitler. Caravaggio pintou A Morte da Virgem em 1606. Que bruto anacronismo.

Na reportagem de capa, assinada por uma tal Ana Cláudia Fonseca, lemos:

“Como manifestação direta de Deus na terra, a Igreja Católica, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio da Igreja. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar Alexandre VI (1492 – 1503), o papa Bórgia, dissoluto, promotor de orgias no Vaticano, que comprou o voto decisivo de sua indicação para o Trono de Pedro com quatro mulas carregadas de prata? Ter resistido a Alexandre VI pode ser tomado como a prova definitiva de que a Igreja Católica é sagrada. Fosse produto dos homens, ela teria perecido sob a avalanche de pecados do libertino papa Bórgia.”

Ah... Existem incontáveis provas de que a Igreja Católica é sagrada, embora não haja ainda nenhuma, digamos, definitiva... Rio-me.

Um jornalista da Carta Capital poderia escrever:

“O PT, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio do partido. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar José Dirceu, a eminência parda do primeiro governo Lula, inescrupuloso, que comprou votos decisivos de parlamentares com malas e cuecas carregadas de dinheiro? Ter resistido a José Dirceu, Delúbio e a outros como eles pode ser tomado como a prova definitiva de que o PT é sagrado. Fosse produto dos homens, ele teria perecido sob a avalanche de pecados dos mensaleiros e do chefe da quadrilha, José Dirceu.”

Basta substituir alguns sujeitos e objetos no parágrafo da jornalista Ana Cláudia, inserido gratuitamente em uma reportagem que o dispensava por completo, para percebemos o quanto é um despautério. A tal “defesa retórica da instituição” a que a pobre jornalista se refere é, na verdade, uma singela historinha narrada no Decameron de Boccaccio, escrito quase cento e cinquenta anos antes do Papa Bórgia emporcalhar um pouco mais o já imundo trono do negador de Cristo. No conto, Giannotto de Civigni, um comerciante parisiense, tenta converter ao cristianismo o amigo judeu Abraão, que então se propõe a visitar Roma para conhecer melhor a religião do amigo. Giannotto, ao ter ciência de seus planos e se ver incapaz de dissuadi-lo, dá por perdida a causa por saber o que o judeu encontrará por lá. Curioso é que na época em que Boccaccio escreveu o conto, que aparece logo no início do Decameron, o papado há muito tinha sido transferido para Avignon, no sul da França. Não encontrei na Internet a história em português e tive preguiça de digitá-la a partir do livro impresso. Segue o desfecho do conto, infelizmente em espanhol, já que italiano nem todos lêem.

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“El judío montó a caballo y tan pronto como pudo se encaminó a la Corte de Roma, donde al llegar, fue recibido con honor por los judíos. Y, mientras estaba allí, sin decir a nadie para lo que había ido, cautelosamente comenzó a observar la conducta del Papa, los cardenales, de los otros prelados, y de todos los cortesanos. Y entre lo que él advirtió, como hombre agudo que era, y lo que otros le contaron, halló, que del mayor al menor todos allí, generalmente, pecaban con gran deshonestidad en cosas de lujuria, y no sólo en la natural, sino en la sodomítica, sin freno alguno de remordimiento o vergüenza, al punto de que sin la mucha influencia de las meretrices y los efebos no se podía conseguir nunca nada. Además de esto, conoció claramente que los que observaba eran universalmente comilones, bebedores, ebrios y más servidores de su vientre, como animales irracionales, y de la lujuria, que ninguna otra cuestión. Y, ahondando más, tan avaros y ansiosos de dinero los vió, que tanto la humana sangre, incluso la cristiana , como las cosas divinas, y a los sacrifícios y benefíos perteneciente, por dinero vendían y compraban, haciendo mayor mercadería y más ganancias teniendo, que cuanto pudiera encontrarse en París con ventas de pañerías u otras cosas. Habían a la sintonía descarada puesto el nombre de procuradoría, y llamaban a la gula sustentamiento, como si Dios, prescindiendo del significado de los vocablos, la intención de los pésimos ánimos no conociese y, a semejanza de los hombres, se dejara engañar por los nombres de las cosas.

Las cuales junto con muchas otras, que conviene callar, desagradaron sumamente al judío, como sobrio y modesto que era; y así, pareciendole haber visto bastante, resolviose a volver a París. Y así lo hizo. Y cuando Giannotto supo que había llegado, fue a él y, aunque lo que menos esperaba era que se hiciese cristiano, hízole, y el otro a él gran fiesta. Y en cuanto Abraham hubo descansado algunos dias, Giannotto le preguntó que le parecía el Santo Padre, y de los cardenales y los demás cortesanos. A lo que el judío respondió prontamente:

-¡ Así Dios los confunda a todos! Y te digo, que si juzgo bien, no me pareció ver allí santidad alguna, ni devoción, ni obra buena, ni ejemplo de vida ni de nada, en nadie que clérigo fuese. Pero la lujuría, la avaricia, la gula y cosas semejantes y peores ( si peores se pueden encontrar en alguien) parecióme hallarlas más por una sede de obras diabólicas que divinas. Y, a lo que estimo, se ve con toda solicitud, ingenio y arte se aplican a vuestro Pastor, y entiendo que todos los demás, a reducir a la nada y a arrojar del mundo la cristiana religión , aun cuando debieran ser fundamento y sustentáculo de ella. Mas, puesto, a lo que se me alcanza , no sucede lo que procuran, sino que continuamente vuestra religión aumenta y más lúcida y clara se torna, con razón me parece discernir entre que el Espiritu Santo es su fundamento y sostén, como más santa y verdadera que otra. Por lo cuál mientras me mantuve rígido y duro a tus exhortaciones y no quise hacerme cristiano, ahora abiertamente te digo que por nada del mundo dejaré de hacerme cristiano. Vamos, pues, a la iglesia y, allí, según debida costumbre de vuestra fe, me haré bautizar.

Giannotto, que esperaba una conclusión totalmente opuesta a aquella, sintióse, cuando así le oyó hablar, más contento que ningún hombre jamás lo fuera. Y fuese con él a Nuestra Señora de París y pidió a los clérigos de ella que diesen a Abraham el bautismo. Ellos, oyendo que así lo quería, apresuráronse a atenderle. Y Giannotto sacóle de la pila, llamándole Juan; y en breve a muchos hombres de valía hízoles este instruir adecuadamente en nuestra fe, que a muy deprisa aprendió; y fue luego hombre bueno y meritorio de santa vida.”

---///---

Parece-me que Boccaccio se vale do conto para pintar a pervertida Roma de sua época sem esmaecer-lhe as cores, blindando-se do mau humor dos padres, astuciosamente, no surpreendente final em que dá as rédeas da Igreja não aos homens mas ao Espírito Santo. Por ser péssima administradora, a pomba deveria ser urgentemente substituída. Tal qual o Lula, ela diria não saber de nada, mesmo sendo onisciente, como nosso eneadáctilo líder...

Munidos de falácias semelhantes é que muitos julgam poder branquear qualquer nódoa, purificar qualquer podridão. O Socialismo seria santo e conduzido pelo inexorável destino, e Stalin, Mao, Fidel e outros facínoras não terem conseguido extinguir com suas atrocidades o socialismo seria, então, a prova definitiva de que tal ideologia é sagrada.

É dos jornalistas a culpa por tantos disparates lidos na sacrossanta Veja impressa e na online, obviamente. Veja nunca erra!

05 março 2010

Ateus serão salvos, católicos não.

Durante quase toda a história humana o mundo foi um lugar bestial. Adorava-se toda sorte de deuses, amaldiçoava-se os genitores, roubava-se até doces de crianças, homens raptavam as mulheres dos vizinhos, estes assassinavam aqueles em troco, os familiares das vítimas vingavam-se nos dos algozes, a criança escondida de olhar aterrado, única sobrevivente, crescia jurando eliminar todos desafetos. O que os movia não era o amor pelos iguais – por estes não vertiam uma lágrima -, mas o ardor pela desforra. As esposas de uns fornicavam com os maridos das outras, todos mentiam sempre (bastaria deduzir que o oposto do que era dito era a verdade, mas eram estúpidos), entregava-se à luxúria mais abjeta nas ruas em plena luz do dia, como fazem os cães, homens com homens, mulheres com mulheres, humanos com animais. E o pior – é-me penoso escrevê-lo: comia-se animais de patas fendidas que não ruminavam e misturava-se no mesmo tecido fios de lã e linho.

Não sabiam os torpes mortais que havia um único Deus, ciumento (disse-o ele próprio), que a tudo assistia de seu trono quando o céu não estava nublado e se arrependia (disse-o ele próprio) de tê-los criado, embora fosse incapaz de errar. A despeito de não existirem quaisquer leis para determinar o que era certo e o que era errado e estabelecer punições para cada crime, Deus castigou severamente Caim quando este assassinou ¼ da humanidade com uma única cajadada – algo de fazer inveja a Calígula, que gostaria que o povo tivesse um único pescoço, para cortá-lo -, e afogou a humanidade inteira exceto a família de Noé, incluindo depravados bebês de colo, para erradicar o mal na Terra, empresa para a qual seu engenho e onipotência se revelaram inúteis, como sabemos, uma vez que o mal se instalou novamente após Noé amaldiçoar o neto Canaã porque o pai deste viu aquele pelado e borracho sem o cobrir.

Antes do século XV a.C., incontáveis tentativas de se estabelecer uma moral, uma lei, fracassaram na China, Índia, Egito e Mesopotâmia. O Código de Hamurabi, por exemplo, jamais foi colocado em prática, pois os legisladores não possuíam autoridade divina. Foi, na verdade, fruto de sua soberba, pois se julgavam capazes de organizar as gentes sob leis morais sem o auxílio do Deus Único. Já tinham tentado, unidos, construir a Torre de Babel, para tornarem célebres seus nomes, conforme está escrito, mas Deus, a quem aborrecia os empreendedores, disse, com as seguintes palavras: “‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”

Cansado de tanta iniqüidade e soberba entre suas criaturas, e de puni-las sem citar o artigo da lei que violavam, Javé deu-lhes, por meio de Moisés, o decálogo, que não eram dez mas dezenas de mandamentos. Ensinou-lhes, entre outras coisas, a adorá-lo mas nunca em altares feitos de pedras talhadas, a não fazer estátuas, não matar, não roubar, não levantar falso testemunho, a honrar os pais, a não cobiçar os bens do próximo.

Mas a espécie humana ainda era refém do pecado de Adão e Eva, os quais, paradoxalmente, só adquiriram malícia após pecarem e por conseguinte não pecaram de fato, e as leis mosaicas de nada adiantaram contra a marca passada de geração para geração que ele produziu. Deus entendeu ser imperativo enviar o filho, que ninguém conhecia, para que as bestas-feras humanas o destroçassem, como bem vimos no filme de Mel Gibson - era a única maneira de tirar os pecados do mundo, pensou. O motivo pelo qual não enviou o filho para ser morto na época de Noé, não nos é dado saber. Quiçá porque Pôncio Pilatos, Herodes, Judas e outros personagens dos evangelhos não haviam nascido ainda. O Filho de Deus mudou a lei divina vigente e, hipocritamente, disse nada ter mudado, que "passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.”

Nos dois mil anos que se seguiram à vinda do Messias, o mundo continuou entregue à completa selvageria: trevas medievais, conquistadores sanguinários, saques, estupros, hordas de bárbaros, cruzadas, ordálias, justas, inquisições, guerras santas, perseguições e torturas, crimes de todos os tipos. Como que acordando de um longo delírio, Deus, de cuja permissão uma simples folha outonal precisava para se desprender da árvore, voltou atrás de sua antiga decisão e permitiu que os homens mesmos formulassem suas leis não divinas e as aplicassem, separassem o estado da religião, criassem direitos humanos universais, inéditos crimes de guerra, o sufrágio universal, o respeito às diferenças, a liberdade de credo, lutassem contra a escravidão e as castas, definissem ser errado apedrejar adúlteras e perseguir homossexuais, queimar feiticeiras e hereges, etc.

O mundo continuou selvagem, mas muito melhor do que na época em que Deus ditava as regras a seus representantes terrenos. O criador, finalmente, ficou feliz com suas criaturas, orgulhoso de Sócrates, Epicuro, Nietzsche, Bentham, Jefferson e outros luminares, arrependeu-se do arrependimento de tê-las inventado e percebeu, após tanto tempo, com um sorriso melancólico perdido entre os cachos brancos da barba, que estava sobrando na sua própria obra, para além de carregar infinitos crimes monstruosos nas costas, e então condenou-se a si mesmo à morte, à não existência. Foi o fim dos milagres grandiosos, dos mares se abrindo, das chuvas de rochas, dos anjos da morte a ceifar vidas de primogênitos. Os fiéis órfãos insistem em que não morreu, como Elvis, e que a prova de que ainda está por aí é sua própria criação, uma vaga alcançada em um estacionamento concorrido, uma unha encravada curada, um cancro que regrediu.

Foi melhor assim. Se valessem até hoje todos os mandamentos ditados a Moisés e se o legislador e o juiz ainda fossem vivos, nós ateus seríamos salvos enquanto a maior parte dos cristãos, nomeadamente os católicos, iria para o inferno. Façamos o teste!

Êxodo, 20

1.Então Deus pronunciou todas estas palavras:
2.“Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão.


CATÓLICOS E ATEUS: Isto independe de crença.

3.Não terás outros deuses diante de minha face.

CATÓLICOS: Têm o Pai, o Espírito Santo, Jesus, Maria (embora digam venerá-la), Santos (semideuses).
ATEUS: Não têm outros deuses (não têm nenhum, mas isto é um mero detalhe)

4.Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra.

CATÓLICOS: Esculturas de divindades estão entre as coisas preferidas pelos católicos.
ATEUS: Fazem esculturas artísticas e de homens notáveis.

5.Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam,
6.mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.


CATÓLICOS: Prostram-se diante delas. Prestam-lhes culto.
ATEUS: Não prestam culto a esculturas artísticas e tampouco a representações de figuras históricas. Os comunistas que se dizem ateus – pelo menos por aqui comunistas são quase sempre católicos - têm seus ídolos e devotam a eles um fervor religioso.

7.“Não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro.

CATÓLICOS: Quanto mais piedoso um devoto, mais usa o nome de Deus por qualquer bobagem.
ATEUS: Ateus não pronunciam o nome de Javé em prova de falsidade, nem ficam usando o seu nome em vão. A maioria – na qual não me incluo – sequer pensa em deuses.

8.Lembra-te de santificar o dia de sábado.
9.Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra.


CATÓLICOS: Santificavam o domingo, e olhe lá. Agora nem isso.
ATEUS: Como os católicos, não santificam dia algum.

10.Mas no sétimo dia, que é um repouso em honra do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que está dentro de teus muros.
11.Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que contêm, e repousou no sétimo dia; e por isso. o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou.


CATÓLICOS E ATEUS: Trabalham no sábado, se for preciso, e apertam botões de elevadores, mesmo os kosher.

12.Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

13.Não matarás.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

14.Não cometerás adultério

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

15.Não furtarás.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

16.Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

17.Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

(...) 23.Não fareis deuses de prata, nem deuses de ouro para pôr ao meu lado.

CATÓLICOS: Reprovados.
ATEUS: Ateus não fazem deuses nem de prata nem de ouro nem de platina nem de adamantium.

24.Tu me levantarás um altar de terra, sobre o qual oferecerás teus holocaustos e teus sacrifícios pacíficos, tuas ovelhas e teus bois. Em todo lugar onde eu fizer recordar o meu nome, virei a ti para te abençoar.

CATÓLICOS e ATEUS: Nunca fizeram isso. Matam esses bichanos para comê-los.

25.Se me levantares um altar de pedra, não o construirás de pedras talhadas, pois levantando o cinzel sobre a pedra, tê-la-ás profanado.

CATÓLICOS: Católicos constroem altares com pedras talhadas. Templos bonitos espalhados mundo afora, construídos na melhor das intenções, mas que desagradam sobremaneira seu deus.
ATEUS: Ateus não levantam altares, mas SE levantassem um altar de pedra, não o construiriam com pedras talhadas.

26.Não subirás ao meu altar por degraus, para que se não descubra a tua nudez.”

CATÓLICOS: Os altares católicos são acessados por degraus, amiúde.
ATEUS: Ateus não têm altares.

E seguem outros mandamentos, desnecessário transcrevê-los por aqui.

Itens avaliados: 16
CATÓLICOS: Pontuação: 6 em 16 = 37,5% = INFERNO!
ATEUS: Pontuação: 12 em 16 = 75% = PARAÍSO! Com direito a anjinhos com harpa e tudo!

24 fevereiro 2010

Panem et Circenses


Passei ontem em frente à Catedral de Brasília, que está em reforma. Os sempre danificados vitrais de Marianne Peretti, inspirados nas alucinações de Dumbo após pedagógica bebedeira com champanhe, estão sendo substituídos. Por outros idênticos, infelizmente. A catedral foi coberta por uma lona branca que, aliada à forma cônica da obra-prima de Niemeyer, deu à construção inegáveis ares circenses. Não resisti.

Foi difícil encontrar na Web um picadeiro fazendo as vezes de altar – o inverso é bem mais comum -, mas achei aos magotes palhaços de sotaina e fano, para bem compor meu "flyer". Minha idéia inicial era providenciar impressões e deixá-las em alguma igreja, ao lado dos santinhos de Santo Expedito, onipresentes em qualquer templo católico que se preze. Contudo, os devotos, já tão habituados a novidades idealizadas pelos padres Marcelo Rossi, Fábio de Mello e outros animadores eclesiásticos, seriam capazes de achar que o flyer é algo sério e irem para o suposto evento, prejudicando quem sabe o andamento das obras.

11 fevereiro 2010

Falácias de Juiz Protestante a Serviço do Papa

O texto abaixo, de autoria do escritor de "Como Passar em Provas e Concursos: tudo o que você precisa saber e nunca teve a quem perguntar" e Juiz Federal William Douglas, tem circulado pela internet há alguns meses e caiu ontem em minha caixa de e-mails. Depois de comentá-lo informaram-me que aquelas linhas eram excertos de um texto um pouco mais longo (que pode ser lido aqui). Como a essência é a mesma, não perdi mais de meu precioso tempo a editar meus comentários. Aí vão eles:

"Ação contra crucifixos mostra intolerância
Por William Douglas, Juiz Federal.

A propósito do debate sobre a retirada de símbolos religiosos das repartições públicas, alerto para a interpretação equivocada daqueles que propugnam tal medida. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos.”


Estado laico é aquele que não sofre influência ou controle por parte de alguma religião. Democracia não é a ditadura da maioria. 51% da população não podem escravizar os 49% restantes, é certo. Existem cláusulas pétreas, como a liberdade religiosa, respeito a todas as crenças e à descrença. O juiz William cria um espantalho para depois esgrimi-lo. Afirmar que aqueles que são contra crucifixos em paredes de repartições públicas entendem a laicidade como dever de eliminar símbolos religiosos é uma pueril falácia da pressuposição. Paredes nuas da Câmara de Vereadores de uma cidade qualquer significam intolerância religiosa? Se o juiz quiser ter um crucifixo sobre sua mesa, pendurado no pescoço, tudo bem. Mas o poder público não pode estar associado a uma religião específica.

“Em um país que teve formação histórica-cultural (sic) cristã é natural que haja na parede um crucifixo e isso não configura discriminação alguma. Ao contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheio, o que inclui querer eliminar os símbolos religiosos. Nessa toada, como prenuncia o poema "No caminho, com Maiakóvski", o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo, sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo.”

No caminho, com Maiakovski...
Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Os núncios de B16, durante a visita do pontífice ao Brasil, tentam fazer com que este Estado laico torne obrigatório o ensino do catolicismo nas escolas, que a Igreja não possa ser processada na justiça trabalhista, que seja transferida ao governo a responsabilidade pela manutenção de todo patrimônio artístico e arquitetônico católico.
E não dizemos nada.
Depois deixamos que violem a laicidade do Estado para este ser identificado por seus símbolos religiosos.
Depois eles consideram a sua religião como a única moralmente aceitável.
E não dizemos nada.
Por fim, colocam um Girolamo Savonarola da vida para governar o país.

Fácil brincar de "Rampa Escorregadia", não?

Aqui temos a famosa falácia “Reductio ad absurdum”: "Se permites que teu filho de cinco anos roube um beijo na bochecha da amiguinha hoje, logo ele irá agarrá-la e, mais tarde, se tornará um maníaco sexual!" Diziam, nos anos 50, coisas assim do futuro do rock’n roll e de seus “adeptos”. O juiz ousa afirmar que se os espaços públicos passarem a ter quatro paredes nuas, em breve um Estado Ateu obrigará as pessoas a rezarem escondidas.

“Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de Santos), tive a ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou Titular colocar sobre sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Vi tal ato com respeito, vez que cada um escolhe sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em um país onde há liberdade de culto”

De novo a falácia da Pressuposição. Onde já se viu um Estado laico e democrático exigir que se tire a santinha que alguém colocou em cima da própria mesa de trabalho, ou a Cida sobre a geladeira? Coisa bem diferente seria as escrivaninhas de uma repartição pública terem uma cruz entalhada e os dizeres “In Corde Christi”.

O juiz tenta passar credibilidade por ser protestante. Insinua que poderia até valer-se desse movimento do “Estado Ateu” para eliminar símbolos religiosos do país inteiro, inclusive aquela “Vossa” Senhora Aparecida sobre a geladeira, e lucrar como protestante, avesso à idolatria, crime que, segundo seu deus, deve ser punido com a morte. Mas não! Ele tem credibilidade!

“Quando vejo o crucifixo na sala de audiências não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali uma "imagem esculpida", mas reconheço nele a recordação de nossa natural e abençoada diversidade religiosa. O crucifixo nas Cortes é, por sinal, uma salutar advertência sobre os erros judiciários e os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.”

Ah, porque crucificaram um inocente. Ou porque a maioria pediu sua morte, e isto nos lembra que não devemos fazer as coisas porque a maioria exige. Ou porque a cruz lembra as ordálias e as justas, aqueles sábios julgamentos feitos por Deus.

Certamente, se tirarmos os crucifixos esta nossa justiça exemplar brasileira estará arruinada. Voltaremos à barbárie e políticos e demais salafrários não sofrerão mais punição alguma por seus crimes. E nossos sapientíssimos juízes não serão mais capazes de tomar decisões justas.

“Além disso, se a medida for levada a sério, deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir símbolos e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres estratificados em variados segmentos religiosos.”

Dia 12 de outubro é feriado. Para a maioria, é o dia da criança. Os não católicos e muitos católicos lembram-se que é dia da padroeira do Brasil quando ligam a TV. 25 de dezembro já era dia festivo antes do cristianismo, assim como a Páscoa. O Estado deve manter esses dias como feriados, e cada que comemore o que quiser.

Quanto ao nome de ruas, de municípios, o sapientíssimo juiz antecipou-se e classificou o próprio texto como falácia. Reductio ad absurdum! Muito bem, William!

“Ao meu sentir, as pessoas que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é que é intolerância.”

Desta vez a falácia da pressuposição desceu pela rampa escorregadia. Precisamos de uma mão invisível* para segurá-la.

“Os católicos que começaram este país deixaram sua fé cristalizada. Querer extrair tais vestígios afronta o nosso legado histórico.”

Se usarmos esse “raciocínio”, os cristãos afrontaram o legado histórico greco-romano ao destruir as estátuas dos deuses pagãos e fechar as escolas filosóficas. Aquela civilização “começou” a Europa e, por extensão, o Brasil.

De fato, o cristianismo foi uma minoria ruidosa durante o Império Romano. Não queria ser mais uma crença; queria ser a única. Nos séculos seguintes foi aquela árvore gigantesca sob cuja copa nenhuma outra crença podia germinar. A Igreja Católica rosnou muito com a constituição brasileira de 1891, quando foi feita a saudável separação entre Estado e Igreja, do mesmo modo que rosnou com o fim da monarquia. Antes disso, fiéis de outras confissões não podiam sequer construir um templo, como bem sabemos.

Agora o Estado laico, que deve promover a tolerância e a diversidade religiosa – que não eram características “históricas” do catolicismo -, não deve promover uma religião em detrimento de outras, não deve associar-se a nenhuma.

“Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os Santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo de quem não sabe conviver com a religião dos outros. Todos se recordam do lamentável episódio em que um mau religioso chutou uma imagem de Nossa Senhora. Não é menos agressivo não chutar a Santa mas valer-se do Estado para torná-la uma refugiada, uma proscrita.”

Off-topic: Lembrei-me do “hoax” espalhado por católicos de todo país de que Von Helder havia se convertido ao catolicismo. A perna que usou para chutar o de fato feio boneco (horrível e desgraçado, nas palavras do delicado evangélico) teria necrosado e ele, internado em um hospital dos EUA, teria sido atendido por uma atenciosa enfermeira negra. Após ser curado, teria tentado localizá-la e ouvido da diretoria do hospital que lá jamais trabalhara pessoa com aquelas características (virgem e mãe?). Ele teria entendido então se tratar da própria Cida, e se convertido ao catolicismo. Isto foi repetido à exaustão em público por leigos, padres e até bispos, tendo aparecido no site da Canção Nova, inclusive. Von Helder continua na Universal. Exposto o “hoax”, um bispo disse “ué, ninguém havia desmentido nada...”

“Indo além, tal viés ataca todos os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a ‘não religião’, e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos.
A recusa à existência de Deus não é uma opção neutra, mas uma nova modalidade religiosa.”


Recusa à existência? É como ele chama viver sem deuses?

“Se por um lado temos um ateísmo como posição filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma vertente antiteísta. Esta nova vertente tem seus profetas, seus livros sagrados e dogmas, faz proselitismo, busca novos crentes (que nessa vertente de fé são os que optam por um credo que crê que não existe Deus algum). Como em todos os credos, há ateus educados e cordatos, e outros nem tanto. Há uma linha intolerante e, como ocorre em todas as religiões iniciantes ou pouco amadurecidas, mostra-se virulenta e desrespeitosa no ataque às demais. Nesse passo, apresenta outra característica de algumas religiões, a arrogância, prepotência e desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem o mesmo credo.”

Então a culpa de tudo é dos ateus. Os teístas são 99% da população, mas o 1% que não crê na existência de deus ou deuses conspira contra a pobre maioria oprimida. A minoria organizada criou a polêmica para jogar protestantes contra católicos e depois tomar o poder e proibir até mesmo os imãs de santinhos e Cidas sobre as geladeiras. Os ateus têm até templos secretos, que ninguém nunca viu. Têm um Papa, um comando central que pune hereges que fogem da doutrina ateísta.

Ora, o ateísmo não é organizado, os ateus não se sentem representados por nenhuma instituição ateísta, não há uma hierarquia, dogmas e verdades não questionáveis (e os consequentes hereges) passadas de pai para filho. O juiz tenta colocar algo que é fruto de ceticismo como uma mera crença, taxar assim a descrença de crença, chamar de deus a ausência de deuses. É como dizer que careca é um tipo de corte de cabelo. Muitos crentes, é lógico, pegarão esta mera analogia e dirão que é melhor ter cabelo do que ser careca.

Quando os ateus que tiram o sono do juiz especialista em concursos publicam livros explicando por que não crêem, ainda que sarcasticamente e ridicularizando religiosos, listando os males que a confiança cega em líderes religiosos e verdades reveladas anacrônicas pode trazer, logo são taxados de intolerantes, xiitas, talibãs, fanáticos, que casualmente são nomes dados a religiosos loucos que queimam mesquitas e igrejas, apedrejam mulheres, usam viseira de burro, promovem matanças como a da Noite de São Bartolomeu, jogam aviões contra edifícios. O mesmo vale para o termo “cruzada”. Tais palavras são muito usadas como metáforas, e algumas pessoas tentam fazer sutilmente a ponte para o literal, para tentar falaciosamente colocar todos no mesmo saco. “Não têm base racional para nada”, tentam dizer, “apenas têm uma fé como a nossa. Dawkins não é menos terrorista do que Osama”. Não querem ser criticados, tão somente. Querem o “religião não se discute”!

“O principal profeta dessa religiosidade invertida (mas nem por isso deixando de ser uma manifestação religiosa) é Richard Dawkins, autor do livro " Deus, um Delírio". Ele está envolvido, como qualquer profeta, na profusão de suas ideias, fazendo palestras e livros, concedendo entrevistas e fazendo suas ‘cruzadas’.”

De partidos políticos à campanha de Al Gore contra o aquecimento global, de dietas a estratégias empresariais, tudo é religião então. Sistemas políticos baseados em ideologias, com profecias, divinização do ideólogo, "verdades" não falseáveis, repressão à crítica, são de fato muito parecidos com religião. É o caso do comunismo.

“A Campanha Out é uma proselitista em favor do ateísmo, tem seu símbolo (o "A"escarlate) e produz camisetas, jaquetas, adesivos, e broches vendidos pela loja online, cuja renda se destina à Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência (RDFRS).
Algo não muito diferente de outros profetas e credos.”


Dawkins (que na minha opinião é um chato) arrecada dinheiro para uma fundação que promove a razão e a ciência. Então é religião, claro!

“Naturalmente, Dawkins e seus seguidores têm todo o direito de pensarem e professarem qualquer fé ou a falta dela, mas só porque não creem em um Deus, não estão menos sujeitos aos valores, princípios e leis que, se não nos obrigam à fraternidade, ao menos nos impõem a respeitosa tolerância. Não se pode identificar em qualquer símbolo religioso um inimigo nem se tentar cooptar a laicidade do Estado para proteger sua própria linha de pensamento.”

Após algumas falácias da pressuposição, o sábio juiz continua:

“Discutir os símbolos religiosos é mais fácil do que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade social. Talvez mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente não mostra a capacidade de escolher prioridades.”

‘Enfrentar a distribuição de renda’... Rio-me! E ele é um juiz, heim?

Então deve ser proibida a construção de museus enquanto um único miserável estiver sem casa, de bibliotecas enquanto houver um único analfabeto no país, e mais: não podemos discutir caos aéreo enquanto houver fome, mesmo que seja na África. A vida de um africano vale menos do que a nossa? Prioridades!

Bah! Como se discutir uma coisa nos impedisse de discutir outras.

“Vale lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos, e bom número de ateus gastam suas energias ajudando os necessitados. Nosso país, salvo raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.”

Opa, parece então que todos católicos e outros religiosos “gastam suas energias ajudando os necessitados”. No caso de ateus, é um bom número. Bill Gates, Warren Buffet e uns outros discípulos de Dawkins por aí.

“A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras.”

Vejamos a linha de raciocínio do juiz: Os ateus são os que querem eliminar todos crucifixos do país. Ateísmo é religião. O Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras – aqui ele se assume hipócrita e considera válido o argumento daqueles que dizem que o Estado não deve optar pelo catolicismo. Logo, os crucifixos devem ser mantidos nas salas de julgamento, nos plenários, na câmara, senado, escolas públicas. Um ás no raciocínio – cacofonia deliberada.

“A solução correta é tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas, incluindo Jesus, Buda, Maomé, Allan Kardec, São Jorge etc., sem que ninguém deva se ofender com isso. Por fim, acaso fosse possível uma opção, não poderia ser pela visão da ‘minoria’ mas da ‘maioria’. O ‘respeito às minorias’ já está razoavelmente assimilado, mas isso não inclui o direito à tirania da minoria.”

Não há nada na lei que justifique que a religião da maioria deva receber um tratamento especial do Estado.

Dúvida cruel: penduramos na parede um Crescente, uma Estrela de David, um gordo careca, uma imagem do Gasparzinho, um crucifixo ou deixamos a parede nua? Um crucifixo, claro! Sem tirania da minoria. Parede nua também é tirania da minoria.

De que minoria, se a “religião” dos ateus tem um símbolo, o tal "A"escarlate? Ah, claro, a minoria de 1% quer a parede nua para depois (rampa escorregadia) colocar seu sagrado “A” escarlate!

“Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. A laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados. Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens, mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o fato de elas estarem ali.”

O protestante faz um acordo estratégico com os católicos contra o espantalho que elegeu ser um mal maior, rsrs.
O papa tem que contratar esse “irmão separado”. Só falta papar hóstia!

Maria Cláudia Bucchianeri define bem a presença de símbolos religiosos em órgãos públicos brasileiros:

"A fixação ou manutenção, pelo Estado ou por seus Poderes, de símbolos distintivos de específicas crenças religiosas representa uma inaceitável identificação do ente estatal com determinada convicção de fé, em clara violação à exigência de neutralidade axiológica, em nítida exclusão e diminuição das demais religiões que não foram contempladas com o gesto de apoio estatal e também com patente transgressão à obrigatoriedade imposta aos poderes públicos de adotarem uma conduta de não-ingerência dogmática, esta última a assentar a total incompetência estatal em matéria de fé e a impossibilidade, portanto, do exercício de qualquer juízo de valor (ou de desvalor) a respeito de pensamentos religiosos"

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*Para William Douglas, estas são as provas certíssimas de que seu deus existe: Deus fala com ele enquanto ele lê a Bíblia, usando a sua própria voz (do William). Deus o salvou de cair de bicicleta com a filha de 3 anos. Estava tombando quando uma mão invisível lhe devolveu o equilíbrio. Deus o impediu de despencar de um muro de assustadores 3 metros de altura. Estava caindo e uma mão invisível o colocou de volta no lugar. E ele escreve, no mesmo texto: “Eu sou refratário a pessoas que vêem milagre em tudo. Para mim, primeiro é preciso eliminar toda a chance de eventos naturais, coincidência, acaso etc.” São essas as três comprovações da intervenção direta de Deus na vida desse cético que se pauta pela Navalha de Ockham. Lemos o texto inteiro aqui.
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