Janer Cristaldo
Domingo que vem é meu dia de protesto cívico. Como faço há já vinte anos, não vou votar. Há quem defenda a idéia de votar no candidato menos pior. Discordo. Menos pior também é pior. Sem falar que me parece absurdo, em regime democrático, ser obrigado a votar. Em todo o Primeiro Mundo, o voto é facultativo. Só nesta América Latina, que vai a reboque da História, é obrigatório.
Obrigatório em termos. Você sempre pode anular seu voto. Mas tem de comparecer às urnas. É o que tenho feito de 1990 para cá. Meu título continua em Florianópolis. No domingo, perto de meio-dia, vou justificar a ausência de meu domicílio eleitoral. E depois vou para meu boteco, aperitivar. Hoje, em São Paulo, pode-se beber em dia de eleições. Quando não se podia, meu garçom me servia um uísque e punha ao lado do copo uma garrafa de guaraná.
Não quero ser radical. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso não pode votar nestas eleições. De um lado, a candidata preferencial é uma ex-guerrilheira que participou de um grupo terrorista e até hoje se orgulha disto. O segundo colocado não pode sequer acusá-la de terrorista, pois militou em outro grupo terrorista. Os três candidatos mais cotados são todos de extração marxista. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, no Brasil o fundo do ar ainda é vermelho.
O mais patético – para não dizer pateta – dos candidatos é sem dúvida José Serra. Não ousa dizer uma palavrinha contra seu adversário, o patrocinador de Dilma Rousseff. Pelo contrário, o colocou em sua campanha eleitoral. Ao dar-se conta que isto era um tiro no pé, retirou-o de sua publicidade. Mas acabou fazendo pior. Mais adiante, alertou o eleitorado: se vocês querem Lula em 2014, têm de eleger-me agora. Se Dilma vencer, Lula não emplaca. Traduzindo em bom português, o que disse Serra? Disse que sem ele seu adversário não será eleito. Com oposição assim, o PT não precisa de base aliada.
Os políticos viraram bonecos de ventríloquo. Quem fala é o marqueteiro. O candidato repete. Mais ainda: para cúmulo do ridículo, o PSDB contratou para fazer sua campanha um guru indiano sediado nos Estados Unidos. A dez mil dólares por dia. Pode? Recorrer aos serviços de um vigarista estrangeiro para conduzir uma campanha eleitoral? Edir Macedo faria melhor. Ao constatar a mancada, os tucanos mandaram o guru de volta aos States. Teria sido mais barato enviar o Serra para fazer meditação transcendental em um ashram em Poona.
Os tucanos têm em mãos farto material para desmoralizar o PT. Desde o mensalão, dólares na cueca, o assassinato de Celso Daniel, os escândalos da Casa Civil, desde Zé Dirceu a Erenice, os cinco milhões de reais dados de mão beijada a Lulinha, e por aí vai. Não usaram esta munição. Serra, já que vai perder, podia ao menos perder com dignidade. Vai morrer humilhado.
Marina da Silva, sem comentários. Lanterninha, insiste no discurso surrado de meio-ambiente, cultua também Lula e põe-se em cima do muro ante qualquer questão polêmica. É boa alternativa para os petistas que admitem existir corrupção no governo do PT. Votam na morena Marina no primeiro turno e no segundo voltam ao redil. Como não vai ter segundo turno, vão acabar mesmo votando no primeiro no PT.
Almas ingênuas ainda acreditam numa virada. Recebo não poucos e-mails de coronéis de pijama que ainda acreditam em milagre. Coronel, quando veste pijama, vira valente. Quando na ativa, é cachorro que enfia o rabo entre as pernas com medo da voz do dono. Outro que alimenta esperanças é o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo da Veja. Que tenha suas preferências políticas, vá lá. Que acredite que o PSDB possa levar é ingenuidade atroz. Ou subserviência de jornalista vil. A última chance de Serra seria uma recidiva de linfoma. Mas estamos a uma semana das eleições e a recidiva não ocorreu. Se ocorrer mais tarde, será tarde demais.
Dona Dilma está com todas as chances de ganhar no primeiro turno. Serra que se dê por feliz se não levar capote. Quando um candidato deposita suas esperanças em chegar ao segundo turno, como faz o tucano, é porque já deu as eleições por perdidas. Pior ainda: antes mesmo do primeiro turno, Serra está lançando sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Como pode um eleitor votar em um candidato que já pensa em receber um docinho pela derrota? Pelo jeito, Serra ainda não percebeu que estas eleições significam seu enterro político.
Dias piores esperam o Brasil. Nada de melhor se pode esperar de uma terrorista – que eu saiba, a candidata ainda não se penitenciou de seu passado – dominada pela atrabilis e mandonismo. E que consegue falar um pior português que o Supremo Apedeuta. País inacreditável, este nosso: pelo jeito ainda sentiremos saudades de Lula.
De minha parte, tanto faz como tanto fez. Desde há muito não deposito esperança nenhuma neste Brasil. Quando um presidente que acoberta crimes durante dois mandatos tem ainda 80% de aprovação do eleitorado, nada mais se pode fazer. Lasciate ogni speranza voi che entrate!
Vou cuidar de meu jardim. Tratar de bem viver os dias que me restam. E o Brasil que se lixe. Povinho que elege Lula ou Dilma não merece sequer uma lágrima.
29 setembro 2010
19 agosto 2010
Veja nunca erra!
Jornalistas da VEJA assinam disparates de dimensões bíblicas quando o assunto é religião.Há quase três anos Reinaldo Azevedo, o Esaú tupiniquim que trocou sua credibilidade pelas lentilhas de sua submissão ao PSDB e ao Papa, escreveu em seu blog hospedado na Veja online:
“Se você conhece mesmo Santo Tomás, sabe que ele jamais chamaria de ciência a concepção imaculada. Volte aos livros. O que é matéria de fé está fora do escrutínio científico. Mesmo as provas da existência de Deus, na Suma Teológica, são exercícios lógicos. Assim, em termos estritamente tomistas, Maria ter concebido virgem não pode jamais ser um ‘absurdo’ porque há uma condição anterior a qualquer verificação da experiência: ‘é preciso crer’.”
Comentei, no dia seguinte, aqui no Pugnacitas: “Ele acha que Imaculada Conceição se refere à concepção de Jesus, nascido de uma virgem. (...) Imaculada Conceição significa que ela (Maria) teria nascido sem pecado original.”
Decerto Reinaldo Azevedo julga que conceber pelo sexo – até pouco tempo atrás o único meio para tanto – é algo sujo, maculado. Ora, Maria teria concebido virgem para cumprir as escrituras – para cumprir uma falha de tradução, na verdade. Mas entendo a confusão (ignorância) do blogueiro da Veja: o modelo feminino dos cristãos – uma inimitável mãe virgem – condena todas as mulheres reais a jamais serem boas o bastante. Torna sujo, maculado, o sexo, mesmo para a procriação.
Na edição da Veja de 28 de julho de 2010, em cuja capa se lê “Perdão”, achei outros disparates.
Em matéria intitulada “Sombra, Luz e Drama”, sobre o pintor Caravaggio, o jornalista Bruno Meier escreve o seguinte:
“Uma encomenda para uma igreja de Siena foi recusada por retratar a morte de Maria, contrariando o dogma da ascensão aos céus da mãe de Jesus.”
O dogma é de 1950, proclamado por Pio XII, o Papa de Hitler. Caravaggio pintou A Morte da Virgem em 1606. Que bruto anacronismo.
Na reportagem de capa, assinada por uma tal Ana Cláudia Fonseca, lemos:
“Como manifestação direta de Deus na terra, a Igreja Católica, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio da Igreja. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar Alexandre VI (1492 – 1503), o papa Bórgia, dissoluto, promotor de orgias no Vaticano, que comprou o voto decisivo de sua indicação para o Trono de Pedro com quatro mulas carregadas de prata? Ter resistido a Alexandre VI pode ser tomado como a prova definitiva de que a Igreja Católica é sagrada. Fosse produto dos homens, ela teria perecido sob a avalanche de pecados do libertino papa Bórgia.”
Ah... Existem incontáveis provas de que a Igreja Católica é sagrada, embora não haja ainda nenhuma, digamos, definitiva... Rio-me.
Um jornalista da Carta Capital poderia escrever:
“O PT, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio do partido. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar José Dirceu, a eminência parda do primeiro governo Lula, inescrupuloso, que comprou votos decisivos de parlamentares com malas e cuecas carregadas de dinheiro? Ter resistido a José Dirceu, Delúbio e a outros como eles pode ser tomado como a prova definitiva de que o PT é sagrado. Fosse produto dos homens, ele teria perecido sob a avalanche de pecados dos mensaleiros e do chefe da quadrilha, José Dirceu.”
Basta substituir alguns sujeitos e objetos no parágrafo da jornalista Ana Cláudia, inserido gratuitamente em uma reportagem que o dispensava por completo, para percebemos o quanto é um despautério. A tal “defesa retórica da instituição” a que a pobre jornalista se refere é, na verdade, uma singela historinha narrada no Decameron de Boccaccio, escrito quase cento e cinquenta anos antes do Papa Bórgia emporcalhar um pouco mais o já imundo trono do negador de Cristo. No conto, Giannotto de Civigni, um comerciante parisiense, tenta converter ao cristianismo o amigo judeu Abraão, que então se propõe a visitar Roma para conhecer melhor a religião do amigo. Giannotto, ao ter ciência de seus planos e se ver incapaz de dissuadi-lo, dá por perdida a causa por saber o que o judeu encontrará por lá. Curioso é que na época em que Boccaccio escreveu o conto, que aparece logo no início do Decameron, o papado há muito tinha sido transferido para Avignon, no sul da França. Não encontrei na Internet a história em português e tive preguiça de digitá-la a partir do livro impresso. Segue o desfecho do conto, infelizmente em espanhol, já que italiano nem todos lêem.
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“El judío montó a caballo y tan pronto como pudo se encaminó a la Corte de Roma, donde al llegar, fue recibido con honor por los judíos. Y, mientras estaba allí, sin decir a nadie para lo que había ido, cautelosamente comenzó a observar la conducta del Papa, los cardenales, de los otros prelados, y de todos los cortesanos. Y entre lo que él advirtió, como hombre agudo que era, y lo que otros le contaron, halló, que del mayor al menor todos allí, generalmente, pecaban con gran deshonestidad en cosas de lujuria, y no sólo en la natural, sino en la sodomítica, sin freno alguno de remordimiento o vergüenza, al punto de que sin la mucha influencia de las meretrices y los efebos no se podía conseguir nunca nada. Además de esto, conoció claramente que los que observaba eran universalmente comilones, bebedores, ebrios y más servidores de su vientre, como animales irracionales, y de la lujuria, que ninguna otra cuestión. Y, ahondando más, tan avaros y ansiosos de dinero los vió, que tanto la humana sangre, incluso la cristiana , como las cosas divinas, y a los sacrifícios y benefíos perteneciente, por dinero vendían y compraban, haciendo mayor mercadería y más ganancias teniendo, que cuanto pudiera encontrarse en París con ventas de pañerías u otras cosas. Habían a la sintonía descarada puesto el nombre de procuradoría, y llamaban a la gula sustentamiento, como si Dios, prescindiendo del significado de los vocablos, la intención de los pésimos ánimos no conociese y, a semejanza de los hombres, se dejara engañar por los nombres de las cosas.
Las cuales junto con muchas otras, que conviene callar, desagradaron sumamente al judío, como sobrio y modesto que era; y así, pareciendole haber visto bastante, resolviose a volver a París. Y así lo hizo. Y cuando Giannotto supo que había llegado, fue a él y, aunque lo que menos esperaba era que se hiciese cristiano, hízole, y el otro a él gran fiesta. Y en cuanto Abraham hubo descansado algunos dias, Giannotto le preguntó que le parecía el Santo Padre, y de los cardenales y los demás cortesanos. A lo que el judío respondió prontamente:
-¡ Así Dios los confunda a todos! Y te digo, que si juzgo bien, no me pareció ver allí santidad alguna, ni devoción, ni obra buena, ni ejemplo de vida ni de nada, en nadie que clérigo fuese. Pero la lujuría, la avaricia, la gula y cosas semejantes y peores ( si peores se pueden encontrar en alguien) parecióme hallarlas más por una sede de obras diabólicas que divinas. Y, a lo que estimo, se ve con toda solicitud, ingenio y arte se aplican a vuestro Pastor, y entiendo que todos los demás, a reducir a la nada y a arrojar del mundo la cristiana religión , aun cuando debieran ser fundamento y sustentáculo de ella. Mas, puesto, a lo que se me alcanza , no sucede lo que procuran, sino que continuamente vuestra religión aumenta y más lúcida y clara se torna, con razón me parece discernir entre que el Espiritu Santo es su fundamento y sostén, como más santa y verdadera que otra. Por lo cuál mientras me mantuve rígido y duro a tus exhortaciones y no quise hacerme cristiano, ahora abiertamente te digo que por nada del mundo dejaré de hacerme cristiano. Vamos, pues, a la iglesia y, allí, según debida costumbre de vuestra fe, me haré bautizar.
Giannotto, que esperaba una conclusión totalmente opuesta a aquella, sintióse, cuando así le oyó hablar, más contento que ningún hombre jamás lo fuera. Y fuese con él a Nuestra Señora de París y pidió a los clérigos de ella que diesen a Abraham el bautismo. Ellos, oyendo que así lo quería, apresuráronse a atenderle. Y Giannotto sacóle de la pila, llamándole Juan; y en breve a muchos hombres de valía hízoles este instruir adecuadamente en nuestra fe, que a muy deprisa aprendió; y fue luego hombre bueno y meritorio de santa vida.”
---///---
Parece-me que Boccaccio se vale do conto para pintar a pervertida Roma de sua época sem esmaecer-lhe as cores, blindando-se do mau humor dos padres, astuciosamente, no surpreendente final em que dá as rédeas da Igreja não aos homens mas ao Espírito Santo. Por ser péssima administradora, a pomba deveria ser urgentemente substituída. Tal qual o Lula, ela diria não saber de nada, mesmo sendo onisciente, como nosso eneadáctilo líder...
Munidos de falácias semelhantes é que muitos julgam poder branquear qualquer nódoa, purificar qualquer podridão. O Socialismo seria santo e conduzido pelo inexorável destino, e Stalin, Mao, Fidel e outros facínoras não terem conseguido extinguir com suas atrocidades o socialismo seria, então, a prova definitiva de que tal ideologia é sagrada.
É dos jornalistas a culpa por tantos disparates lidos na sacrossanta Veja impressa e na online, obviamente. Veja nunca erra!
28 maio 2010
Piedade deseduca
A reportagem de Veja, Salto no escuro é reveladora de quão distante da realidade de ensino está a pedagogia. Aliás, pedagogo falando de ensino ou 'educação' como preferem chamar, é análogo a um padre falando de sexo. Bem... Dada a "atual conjuntura", eu diria a maioria dos padres não pode falar com conhecimento de causa. Mas, este é outro assunto...
Hoje mesmo assisti a um psicólogo (da educação) comentando em palestra sobre o tema inclusão. Sua crítica é conhecida "vivemos numa sociedade 'normatizadora' que reprime a diversidade colocando bloqueios aos que são diferentes, os chamados deficientes (visuais, auditivos, físicos, intelectuais etc.)". O caso é o seguinte: quando este mesmo pessoal se referia ao governo FHC, em tom de crítica, diziam que o simples aumento de matrículas (para agradar o Banco Mundial...) não significava melhoria no ensino, mas agora comemoram quadros como este:
Fonte: portal.mec.gov.br
Então, "companheiros", quem garante que o avanço das matrículas em classes comuns (em detrimento das classes especiais) significa, de fato, uma evolução/melhoria no sentido de incluir o aluno especial com diferentes deficiências a um cotidiano comum? Quer dizer então que agora a análise meramente quantitativa vale e antes, no governo FHC, o 'quantitativismo' era questionável? Dois pesos e duas medidas...
Vejamos, o que é uma normal? Trata-se de um gráfico em forma de sino, como o que segue:
Fonte: www.pesquisapsicologica.pro.br/
No centro da curva se encontra a maioria, isto é normal. O que não se depreende de que o normal é o certo, o bonito, o bom. Isto é juízo de valor. Se estivermos em uma sociedade guerreira, o normal será constituído por um maior agregado de assassinos profissionais, p.ex. Voltando ao caso em pauta, na ponta da direita, segundo critérios de inteligência cognitiva, p.ex., estarão os 'bem dotados' como eram chamados antigamente. E na rabeta da esquerda, os 'excepcionais' (embora o outro extremo também seja...excepcional). Nada de mais. Mas, em se tratando de incluir o grupo de trás ao meio, eles até poderão melhorar seu desempenho, mas dificilmente o farão com sua posição relativa. Na melhor das hipóteses, a curva de normal se arrastará para a direita porque somos desiguais enquanto grupo humano (e o mesmo vale para qualquer espécie animal dependendo do que se quer avaliar).
Agora, duvido que me provem que colocar indivíduos com qualquer tipo de deficiência em classes comuns (com mais de 30 alunos, como é de praxe) signifique uma melhoria. Não funciona, basicamente, porque este tipo de aluno precisa de atendimento especializado e uma maior atenção...Individual. Falando francamente, isto só tem força de argumento nos meios educacionais hodiernos porque se acredita, piamente, na ideologia, nada mais.
Anos atrás quando trabalhei numa escola particular do Morumbi em São Paulo tive dois alunos especiais e para minha surpresa minha coordenadora de área dissera que eu fui o único a entender como o processo (eles adoram esta palavra porque sempre inclui uma promessa...) deve se dar. Minha 'mágica': eu conversava com os alunos e fazia provas adequadas ao seu nível de raciocínio.
Com um deles tive certo sucesso porque seu pai, um sujeito formidável que vinha dialogar comigo com cara de estafado de tanto trabalhar (tinha uma dupla jornada: fora abandonado pela mulher) sustentava três filhos sozinho. Já, o outro aluno dormia direto durante as aulas. Certo dia bati um papo com ele e perguntei o que costumava fazer em casa...
-- Eu gosto de jogar video-game.
-- Bem, até que horas tu faz isto?
-- Até umas duas...
Tá explicado. O maior erro é tratá-los como incapazes e a grossa maioria os discrimina de outra forma, como 'coitadinhos'. Chamei seus pais que nunca vieram falar comigo. Provavelmente também o viam como um pobre coitado que nunca deveria receber limites ou orientação, disciplina enfim.
Cara, sem disciplina não existe ensino. O resto é bobagem. Amor se dá em casa, na escola se dá regra.
E como tê-la em um ambiente caótico de verdadeira luta pela atenção e imposição da disciplina com salas super-lotadas porque as prefeituras investem mais em cargos de confiança, licenças-prêmio para professores efetivos, readaptações para funcionários saudáveis que alegam 'depressão'? Tudo sob uma retórica comum de direitos. Direito para o aluno, direito para os servidores e nesta toada, milhares de municípios brasileiros não têm material humano disponível. A "era dos direitos" veio para acabar com a sociedade. Excesso de nenhum lado é bom.
Quando a matéria da Veja diz sobre o construtivismo que:
Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.
Estas pedagogias (não tão) modernas servem, antes de mais nada, para o simples imobilismo.
Gosto de trabalhar com cursinhos (pré-vestibulares) e o que aprendi com eles é que o mérito força o sujeito. Se alunos normais podem buscá-lo, especiais também em seu meio, em suas condições. A isto, os pedagogos chamam de "exclusão normatizadora", mas eu entendo como apoio. A socialização por sua vez pode existir sim, mas estimulando suas atividades em meio adequado, o que dista anos-luz de colocá-los em salas de aula onde não terão essa chance e serão constantemente vitimados pelo assédio dos que os vêem como incapazes, ou seja, seus próprios colegas.
Hoje mesmo assisti a um psicólogo (da educação) comentando em palestra sobre o tema inclusão. Sua crítica é conhecida "vivemos numa sociedade 'normatizadora' que reprime a diversidade colocando bloqueios aos que são diferentes, os chamados deficientes (visuais, auditivos, físicos, intelectuais etc.)". O caso é o seguinte: quando este mesmo pessoal se referia ao governo FHC, em tom de crítica, diziam que o simples aumento de matrículas (para agradar o Banco Mundial...) não significava melhoria no ensino, mas agora comemoram quadros como este:
Fonte: portal.mec.gov.br
Então, "companheiros", quem garante que o avanço das matrículas em classes comuns (em detrimento das classes especiais) significa, de fato, uma evolução/melhoria no sentido de incluir o aluno especial com diferentes deficiências a um cotidiano comum? Quer dizer então que agora a análise meramente quantitativa vale e antes, no governo FHC, o 'quantitativismo' era questionável? Dois pesos e duas medidas...
Vejamos, o que é uma normal? Trata-se de um gráfico em forma de sino, como o que segue:
Fonte: www.pesquisapsicologica.pro.br/
No centro da curva se encontra a maioria, isto é normal. O que não se depreende de que o normal é o certo, o bonito, o bom. Isto é juízo de valor. Se estivermos em uma sociedade guerreira, o normal será constituído por um maior agregado de assassinos profissionais, p.ex. Voltando ao caso em pauta, na ponta da direita, segundo critérios de inteligência cognitiva, p.ex., estarão os 'bem dotados' como eram chamados antigamente. E na rabeta da esquerda, os 'excepcionais' (embora o outro extremo também seja...excepcional). Nada de mais. Mas, em se tratando de incluir o grupo de trás ao meio, eles até poderão melhorar seu desempenho, mas dificilmente o farão com sua posição relativa. Na melhor das hipóteses, a curva de normal se arrastará para a direita porque somos desiguais enquanto grupo humano (e o mesmo vale para qualquer espécie animal dependendo do que se quer avaliar).
Agora, duvido que me provem que colocar indivíduos com qualquer tipo de deficiência em classes comuns (com mais de 30 alunos, como é de praxe) signifique uma melhoria. Não funciona, basicamente, porque este tipo de aluno precisa de atendimento especializado e uma maior atenção...Individual. Falando francamente, isto só tem força de argumento nos meios educacionais hodiernos porque se acredita, piamente, na ideologia, nada mais.
Anos atrás quando trabalhei numa escola particular do Morumbi em São Paulo tive dois alunos especiais e para minha surpresa minha coordenadora de área dissera que eu fui o único a entender como o processo (eles adoram esta palavra porque sempre inclui uma promessa...) deve se dar. Minha 'mágica': eu conversava com os alunos e fazia provas adequadas ao seu nível de raciocínio.
Com um deles tive certo sucesso porque seu pai, um sujeito formidável que vinha dialogar comigo com cara de estafado de tanto trabalhar (tinha uma dupla jornada: fora abandonado pela mulher) sustentava três filhos sozinho. Já, o outro aluno dormia direto durante as aulas. Certo dia bati um papo com ele e perguntei o que costumava fazer em casa...
-- Eu gosto de jogar video-game.
-- Bem, até que horas tu faz isto?
-- Até umas duas...
Tá explicado. O maior erro é tratá-los como incapazes e a grossa maioria os discrimina de outra forma, como 'coitadinhos'. Chamei seus pais que nunca vieram falar comigo. Provavelmente também o viam como um pobre coitado que nunca deveria receber limites ou orientação, disciplina enfim.
Cara, sem disciplina não existe ensino. O resto é bobagem. Amor se dá em casa, na escola se dá regra.
E como tê-la em um ambiente caótico de verdadeira luta pela atenção e imposição da disciplina com salas super-lotadas porque as prefeituras investem mais em cargos de confiança, licenças-prêmio para professores efetivos, readaptações para funcionários saudáveis que alegam 'depressão'? Tudo sob uma retórica comum de direitos. Direito para o aluno, direito para os servidores e nesta toada, milhares de municípios brasileiros não têm material humano disponível. A "era dos direitos" veio para acabar com a sociedade. Excesso de nenhum lado é bom.
Quando a matéria da Veja diz sobre o construtivismo que:
Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.
Estas pedagogias (não tão) modernas servem, antes de mais nada, para o simples imobilismo.
Gosto de trabalhar com cursinhos (pré-vestibulares) e o que aprendi com eles é que o mérito força o sujeito. Se alunos normais podem buscá-lo, especiais também em seu meio, em suas condições. A isto, os pedagogos chamam de "exclusão normatizadora", mas eu entendo como apoio. A socialização por sua vez pode existir sim, mas estimulando suas atividades em meio adequado, o que dista anos-luz de colocá-los em salas de aula onde não terão essa chance e serão constantemente vitimados pelo assédio dos que os vêem como incapazes, ou seja, seus próprios colegas.
05 março 2010
Ateus serão salvos, católicos não.
Durante quase toda a história humana o mundo foi um lugar bestial. Adorava-se toda sorte de deuses, amaldiçoava-se os genitores, roubava-se até doces de crianças, homens raptavam as mulheres dos vizinhos, estes assassinavam aqueles em troco, os familiares das vítimas vingavam-se nos dos algozes, a criança escondida de olhar aterrado, única sobrevivente, crescia jurando eliminar todos desafetos. O que os movia não era o amor pelos iguais – por estes não vertiam uma lágrima -, mas o ardor pela desforra. As esposas de uns fornicavam com os maridos das outras, todos mentiam sempre (bastaria deduzir que o oposto do que era dito era a verdade, mas eram estúpidos), entregava-se à luxúria mais abjeta nas ruas em plena luz do dia, como fazem os cães, homens com homens, mulheres com mulheres, humanos com animais. E o pior – é-me penoso escrevê-lo: comia-se animais de patas fendidas que não ruminavam e misturava-se no mesmo tecido fios de lã e linho.Não sabiam os torpes mortais que havia um único Deus, ciumento (disse-o ele próprio), que a tudo assistia de seu trono quando o céu não estava nublado e se arrependia (disse-o ele próprio) de tê-los criado, embora fosse incapaz de errar. A despeito de não existirem quaisquer leis para determinar o que era certo e o que era errado e estabelecer punições para cada crime, Deus castigou severamente Caim quando este assassinou ¼ da humanidade com uma única cajadada – algo de fazer inveja a Calígula, que gostaria que o povo tivesse um único pescoço, para cortá-lo -, e afogou a humanidade inteira exceto a família de Noé, incluindo depravados bebês de colo, para erradicar o mal na Terra, empresa para a qual seu engenho e onipotência se revelaram inúteis, como sabemos, uma vez que o mal se instalou novamente após Noé amaldiçoar o neto Canaã porque o pai deste viu aquele pelado e borracho sem o cobrir.
Antes do século XV a.C., incontáveis tentativas de se estabelecer uma moral, uma lei, fracassaram na China, Índia, Egito e Mesopotâmia. O Código de Hamurabi, por exemplo, jamais foi colocado em prática, pois os legisladores não possuíam autoridade divina. Foi, na verdade, fruto de sua soberba, pois se julgavam capazes de organizar as gentes sob leis morais sem o auxílio do Deus Único. Já tinham tentado, unidos, construir a Torre de Babel, para tornarem célebres seus nomes, conforme está escrito, mas Deus, a quem aborrecia os empreendedores, disse, com as seguintes palavras: “‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”
Cansado de tanta iniqüidade e soberba entre suas criaturas, e de puni-las sem citar o artigo da lei que violavam, Javé deu-lhes, por meio de Moisés, o decálogo, que não eram dez mas dezenas de mandamentos. Ensinou-lhes, entre outras coisas, a adorá-lo mas nunca em altares feitos de pedras talhadas, a não fazer estátuas, não matar, não roubar, não levantar falso testemunho, a honrar os pais, a não cobiçar os bens do próximo.
Mas a espécie humana ainda era refém do pecado de Adão e Eva, os quais, paradoxalmente, só adquiriram malícia após pecarem e por conseguinte não pecaram de fato, e as leis mosaicas de nada adiantaram contra a marca passada de geração para geração que ele produziu. Deus entendeu ser imperativo enviar o filho, que ninguém conhecia, para que as bestas-feras humanas o destroçassem, como bem vimos no filme de Mel Gibson - era a única maneira de tirar os pecados do mundo, pensou. O motivo pelo qual não enviou o filho para ser morto na época de Noé, não nos é dado saber. Quiçá porque Pôncio Pilatos, Herodes, Judas e outros personagens dos evangelhos não haviam nascido ainda. O Filho de Deus mudou a lei divina vigente e, hipocritamente, disse nada ter mudado, que "passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.”
Nos dois mil anos que se seguiram à vinda do Messias, o mundo continuou entregue à completa selvageria: trevas medievais, conquistadores sanguinários, saques, estupros, hordas de bárbaros, cruzadas, ordálias, justas, inquisições, guerras santas, perseguições e torturas, crimes de todos os tipos. Como que acordando de um longo delírio, Deus, de cuja permissão uma simples folha outonal precisava para se desprender da árvore, voltou atrás de sua antiga decisão e permitiu que os homens mesmos formulassem suas leis não divinas e as aplicassem, separassem o estado da religião, criassem direitos humanos universais, inéditos crimes de guerra, o sufrágio universal, o respeito às diferenças, a liberdade de credo, lutassem contra a escravidão e as castas, definissem ser errado apedrejar adúlteras e perseguir homossexuais, queimar feiticeiras e hereges, etc.
O mundo continuou selvagem, mas muito melhor do que na época em que Deus ditava as regras a seus representantes terrenos. O criador, finalmente, ficou feliz com suas criaturas, orgulhoso de Sócrates, Epicuro, Nietzsche, Bentham, Jefferson e outros luminares, arrependeu-se do arrependimento de tê-las inventado e percebeu, após tanto tempo, com um sorriso melancólico perdido entre os cachos brancos da barba, que estava sobrando na sua própria obra, para além de carregar infinitos crimes monstruosos nas costas, e então condenou-se a si mesmo à morte, à não existência. Foi o fim dos milagres grandiosos, dos mares se abrindo, das chuvas de rochas, dos anjos da morte a ceifar vidas de primogênitos. Os fiéis órfãos insistem em que não morreu, como Elvis, e que a prova de que ainda está por aí é sua própria criação, uma vaga alcançada em um estacionamento concorrido, uma unha encravada curada, um cancro que regrediu.
Foi melhor assim. Se valessem até hoje todos os mandamentos ditados a Moisés e se o legislador e o juiz ainda fossem vivos, nós ateus seríamos salvos enquanto a maior parte dos cristãos, nomeadamente os católicos, iria para o inferno. Façamos o teste!
Êxodo, 20
1.Então Deus pronunciou todas estas palavras:
2.“Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão.
CATÓLICOS E ATEUS: Isto independe de crença.
3.Não terás outros deuses diante de minha face.
CATÓLICOS: Têm o Pai, o Espírito Santo, Jesus, Maria (embora digam venerá-la), Santos (semideuses).
ATEUS: Não têm outros deuses (não têm nenhum, mas isto é um mero detalhe)
4.Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra.
CATÓLICOS: Esculturas de divindades estão entre as coisas preferidas pelos católicos.
ATEUS: Fazem esculturas artísticas e de homens notáveis.
5.Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam,
6.mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.
CATÓLICOS: Prostram-se diante delas. Prestam-lhes culto.
ATEUS: Não prestam culto a esculturas artísticas e tampouco a representações de figuras históricas. Os comunistas que se dizem ateus – pelo menos por aqui comunistas são quase sempre católicos - têm seus ídolos e devotam a eles um fervor religioso.
7.“Não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro.
CATÓLICOS: Quanto mais piedoso um devoto, mais usa o nome de Deus por qualquer bobagem.
ATEUS: Ateus não pronunciam o nome de Javé em prova de falsidade, nem ficam usando o seu nome em vão. A maioria – na qual não me incluo – sequer pensa em deuses.
8.Lembra-te de santificar o dia de sábado.
9.Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra.
CATÓLICOS: Santificavam o domingo, e olhe lá. Agora nem isso.
ATEUS: Como os católicos, não santificam dia algum.
10.Mas no sétimo dia, que é um repouso em honra do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que está dentro de teus muros.
11.Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que contêm, e repousou no sétimo dia; e por isso. o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou.
CATÓLICOS E ATEUS: Trabalham no sábado, se for preciso, e apertam botões de elevadores, mesmo os kosher.
12.Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus.
CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.
13.Não matarás.
CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.
14.Não cometerás adultério
CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.
15.Não furtarás.
CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.
16.Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.
CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.
17.Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.
CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.
(...) 23.Não fareis deuses de prata, nem deuses de ouro para pôr ao meu lado.
CATÓLICOS: Reprovados.
ATEUS: Ateus não fazem deuses nem de prata nem de ouro nem de platina nem de adamantium.
24.Tu me levantarás um altar de terra, sobre o qual oferecerás teus holocaustos e teus sacrifícios pacíficos, tuas ovelhas e teus bois. Em todo lugar onde eu fizer recordar o meu nome, virei a ti para te abençoar.
CATÓLICOS e ATEUS: Nunca fizeram isso. Matam esses bichanos para comê-los.
25.Se me levantares um altar de pedra, não o construirás de pedras talhadas, pois levantando o cinzel sobre a pedra, tê-la-ás profanado.
CATÓLICOS: Católicos constroem altares com pedras talhadas. Templos bonitos espalhados mundo afora, construídos na melhor das intenções, mas que desagradam sobremaneira seu deus.
ATEUS: Ateus não levantam altares, mas SE levantassem um altar de pedra, não o construiriam com pedras talhadas.
26.Não subirás ao meu altar por degraus, para que se não descubra a tua nudez.”
CATÓLICOS: Os altares católicos são acessados por degraus, amiúde.
ATEUS: Ateus não têm altares.
E seguem outros mandamentos, desnecessário transcrevê-los por aqui.
Itens avaliados: 16
CATÓLICOS: Pontuação: 6 em 16 = 37,5% = INFERNO!
ATEUS: Pontuação: 12 em 16 = 75% = PARAÍSO! Com direito a anjinhos com harpa e tudo!
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24 fevereiro 2010
Panem et Circenses

Passei ontem em frente à Catedral de Brasília, que está em reforma. Os sempre danificados vitrais de Marianne Peretti, inspirados nas alucinações de Dumbo após pedagógica bebedeira com champanhe, estão sendo substituídos. Por outros idênticos, infelizmente. A catedral foi coberta por uma lona branca que, aliada à forma cônica da obra-prima de Niemeyer, deu à construção inegáveis ares circenses. Não resisti.
Foi difícil encontrar na Web um picadeiro fazendo as vezes de altar – o inverso é bem mais comum -, mas achei aos magotes palhaços de sotaina e fano, para bem compor meu "flyer". Minha idéia inicial era providenciar impressões e deixá-las em alguma igreja, ao lado dos santinhos de Santo Expedito, onipresentes em qualquer templo católico que se preze. Contudo, os devotos, já tão habituados a novidades idealizadas pelos padres Marcelo Rossi, Fábio de Mello e outros animadores eclesiásticos, seriam capazes de achar que o flyer é algo sério e irem para o suposto evento, prejudicando quem sabe o andamento das obras.
11 fevereiro 2010
Falácias de Juiz Protestante a Serviço do Papa
O texto abaixo, de autoria do escritor de "Como Passar em Provas e Concursos: tudo o que você precisa saber e nunca teve a quem perguntar" e Juiz Federal William Douglas, tem circulado pela internet há alguns meses e caiu ontem em minha caixa de e-mails. Depois de comentá-lo informaram-me que aquelas linhas eram excertos de um texto um pouco mais longo (que pode ser lido aqui). Como a essência é a mesma, não perdi mais de meu precioso tempo a editar meus comentários. Aí vão eles:"Ação contra crucifixos mostra intolerância
Por William Douglas, Juiz Federal.
A propósito do debate sobre a retirada de símbolos religiosos das repartições públicas, alerto para a interpretação equivocada daqueles que propugnam tal medida. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos.”
Estado laico é aquele que não sofre influência ou controle por parte de alguma religião. Democracia não é a ditadura da maioria. 51% da população não podem escravizar os 49% restantes, é certo. Existem cláusulas pétreas, como a liberdade religiosa, respeito a todas as crenças e à descrença. O juiz William cria um espantalho para depois esgrimi-lo. Afirmar que aqueles que são contra crucifixos em paredes de repartições públicas entendem a laicidade como dever de eliminar símbolos religiosos é uma pueril falácia da pressuposição. Paredes nuas da Câmara de Vereadores de uma cidade qualquer significam intolerância religiosa? Se o juiz quiser ter um crucifixo sobre sua mesa, pendurado no pescoço, tudo bem. Mas o poder público não pode estar associado a uma religião específica.
“Em um país que teve formação histórica-cultural (sic) cristã é natural que haja na parede um crucifixo e isso não configura discriminação alguma. Ao contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheio, o que inclui querer eliminar os símbolos religiosos. Nessa toada, como prenuncia o poema "No caminho, com Maiakóvski", o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo, sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo.”
No caminho, com Maiakovski...
Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Os núncios de B16, durante a visita do pontífice ao Brasil, tentam fazer com que este Estado laico torne obrigatório o ensino do catolicismo nas escolas, que a Igreja não possa ser processada na justiça trabalhista, que seja transferida ao governo a responsabilidade pela manutenção de todo patrimônio artístico e arquitetônico católico.
E não dizemos nada.
Depois deixamos que violem a laicidade do Estado para este ser identificado por seus símbolos religiosos.
Depois eles consideram a sua religião como a única moralmente aceitável.
E não dizemos nada.
Por fim, colocam um Girolamo Savonarola da vida para governar o país.
Fácil brincar de "Rampa Escorregadia", não?
Aqui temos a famosa falácia “Reductio ad absurdum”: "Se permites que teu filho de cinco anos roube um beijo na bochecha da amiguinha hoje, logo ele irá agarrá-la e, mais tarde, se tornará um maníaco sexual!" Diziam, nos anos 50, coisas assim do futuro do rock’n roll e de seus “adeptos”. O juiz ousa afirmar que se os espaços públicos passarem a ter quatro paredes nuas, em breve um Estado Ateu obrigará as pessoas a rezarem escondidas.
“Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de Santos), tive a ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou Titular colocar sobre sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Vi tal ato com respeito, vez que cada um escolhe sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em um país onde há liberdade de culto”
De novo a falácia da Pressuposição. Onde já se viu um Estado laico e democrático exigir que se tire a santinha que alguém colocou em cima da própria mesa de trabalho, ou a Cida sobre a geladeira? Coisa bem diferente seria as escrivaninhas de uma repartição pública terem uma cruz entalhada e os dizeres “In Corde Christi”.
O juiz tenta passar credibilidade por ser protestante. Insinua que poderia até valer-se desse movimento do “Estado Ateu” para eliminar símbolos religiosos do país inteiro, inclusive aquela “Vossa” Senhora Aparecida sobre a geladeira, e lucrar como protestante, avesso à idolatria, crime que, segundo seu deus, deve ser punido com a morte. Mas não! Ele tem credibilidade!
“Quando vejo o crucifixo na sala de audiências não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali uma "imagem esculpida", mas reconheço nele a recordação de nossa natural e abençoada diversidade religiosa. O crucifixo nas Cortes é, por sinal, uma salutar advertência sobre os erros judiciários e os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.”
Ah, porque crucificaram um inocente. Ou porque a maioria pediu sua morte, e isto nos lembra que não devemos fazer as coisas porque a maioria exige. Ou porque a cruz lembra as ordálias e as justas, aqueles sábios julgamentos feitos por Deus.
Certamente, se tirarmos os crucifixos esta nossa justiça exemplar brasileira estará arruinada. Voltaremos à barbárie e políticos e demais salafrários não sofrerão mais punição alguma por seus crimes. E nossos sapientíssimos juízes não serão mais capazes de tomar decisões justas.
“Além disso, se a medida for levada a sério, deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir símbolos e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres estratificados em variados segmentos religiosos.”
Dia 12 de outubro é feriado. Para a maioria, é o dia da criança. Os não católicos e muitos católicos lembram-se que é dia da padroeira do Brasil quando ligam a TV. 25 de dezembro já era dia festivo antes do cristianismo, assim como a Páscoa. O Estado deve manter esses dias como feriados, e cada que comemore o que quiser.
Quanto ao nome de ruas, de municípios, o sapientíssimo juiz antecipou-se e classificou o próprio texto como falácia. Reductio ad absurdum! Muito bem, William!
“Ao meu sentir, as pessoas que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é que é intolerância.”
Desta vez a falácia da pressuposição desceu pela rampa escorregadia. Precisamos de uma mão invisível* para segurá-la.
“Os católicos que começaram este país deixaram sua fé cristalizada. Querer extrair tais vestígios afronta o nosso legado histórico.”
Se usarmos esse “raciocínio”, os cristãos afrontaram o legado histórico greco-romano ao destruir as estátuas dos deuses pagãos e fechar as escolas filosóficas. Aquela civilização “começou” a Europa e, por extensão, o Brasil.
De fato, o cristianismo foi uma minoria ruidosa durante o Império Romano. Não queria ser mais uma crença; queria ser a única. Nos séculos seguintes foi aquela árvore gigantesca sob cuja copa nenhuma outra crença podia germinar. A Igreja Católica rosnou muito com a constituição brasileira de 1891, quando foi feita a saudável separação entre Estado e Igreja, do mesmo modo que rosnou com o fim da monarquia. Antes disso, fiéis de outras confissões não podiam sequer construir um templo, como bem sabemos.
Agora o Estado laico, que deve promover a tolerância e a diversidade religiosa – que não eram características “históricas” do catolicismo -, não deve promover uma religião em detrimento de outras, não deve associar-se a nenhuma.
“Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os Santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo de quem não sabe conviver com a religião dos outros. Todos se recordam do lamentável episódio em que um mau religioso chutou uma imagem de Nossa Senhora. Não é menos agressivo não chutar a Santa mas valer-se do Estado para torná-la uma refugiada, uma proscrita.”
Off-topic: Lembrei-me do “hoax” espalhado por católicos de todo país de que Von Helder havia se convertido ao catolicismo. A perna que usou para chutar o de fato feio boneco (horrível e desgraçado, nas palavras do delicado evangélico) teria necrosado e ele, internado em um hospital dos EUA, teria sido atendido por uma atenciosa enfermeira negra. Após ser curado, teria tentado localizá-la e ouvido da diretoria do hospital que lá jamais trabalhara pessoa com aquelas características (virgem e mãe?). Ele teria entendido então se tratar da própria Cida, e se convertido ao catolicismo. Isto foi repetido à exaustão em público por leigos, padres e até bispos, tendo aparecido no site da Canção Nova, inclusive. Von Helder continua na Universal. Exposto o “hoax”, um bispo disse “ué, ninguém havia desmentido nada...”
“Indo além, tal viés ataca todos os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a ‘não religião’, e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos.
A recusa à existência de Deus não é uma opção neutra, mas uma nova modalidade religiosa.”
Recusa à existência? É como ele chama viver sem deuses?
“Se por um lado temos um ateísmo como posição filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma vertente antiteísta. Esta nova vertente tem seus profetas, seus livros sagrados e dogmas, faz proselitismo, busca novos crentes (que nessa vertente de fé são os que optam por um credo que crê que não existe Deus algum). Como em todos os credos, há ateus educados e cordatos, e outros nem tanto. Há uma linha intolerante e, como ocorre em todas as religiões iniciantes ou pouco amadurecidas, mostra-se virulenta e desrespeitosa no ataque às demais. Nesse passo, apresenta outra característica de algumas religiões, a arrogância, prepotência e desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem o mesmo credo.”
Então a culpa de tudo é dos ateus. Os teístas são 99% da população, mas o 1% que não crê na existência de deus ou deuses conspira contra a pobre maioria oprimida. A minoria organizada criou a polêmica para jogar protestantes contra católicos e depois tomar o poder e proibir até mesmo os imãs de santinhos e Cidas sobre as geladeiras. Os ateus têm até templos secretos, que ninguém nunca viu. Têm um Papa, um comando central que pune hereges que fogem da doutrina ateísta.
Ora, o ateísmo não é organizado, os ateus não se sentem representados por nenhuma instituição ateísta, não há uma hierarquia, dogmas e verdades não questionáveis (e os consequentes hereges) passadas de pai para filho. O juiz tenta colocar algo que é fruto de ceticismo como uma mera crença, taxar assim a descrença de crença, chamar de deus a ausência de deuses. É como dizer que careca é um tipo de corte de cabelo. Muitos crentes, é lógico, pegarão esta mera analogia e dirão que é melhor ter cabelo do que ser careca.
Quando os ateus que tiram o sono do juiz especialista em concursos publicam livros explicando por que não crêem, ainda que sarcasticamente e ridicularizando religiosos, listando os males que a confiança cega em líderes religiosos e verdades reveladas anacrônicas pode trazer, logo são taxados de intolerantes, xiitas, talibãs, fanáticos, que casualmente são nomes dados a religiosos loucos que queimam mesquitas e igrejas, apedrejam mulheres, usam viseira de burro, promovem matanças como a da Noite de São Bartolomeu, jogam aviões contra edifícios. O mesmo vale para o termo “cruzada”. Tais palavras são muito usadas como metáforas, e algumas pessoas tentam fazer sutilmente a ponte para o literal, para tentar falaciosamente colocar todos no mesmo saco. “Não têm base racional para nada”, tentam dizer, “apenas têm uma fé como a nossa. Dawkins não é menos terrorista do que Osama”. Não querem ser criticados, tão somente. Querem o “religião não se discute”!
“O principal profeta dessa religiosidade invertida (mas nem por isso deixando de ser uma manifestação religiosa) é Richard Dawkins, autor do livro " Deus, um Delírio". Ele está envolvido, como qualquer profeta, na profusão de suas ideias, fazendo palestras e livros, concedendo entrevistas e fazendo suas ‘cruzadas’.”
De partidos políticos à campanha de Al Gore contra o aquecimento global, de dietas a estratégias empresariais, tudo é religião então. Sistemas políticos baseados em ideologias, com profecias, divinização do ideólogo, "verdades" não falseáveis, repressão à crítica, são de fato muito parecidos com religião. É o caso do comunismo.
“A Campanha Out é uma proselitista em favor do ateísmo, tem seu símbolo (o "A"escarlate) e produz camisetas, jaquetas, adesivos, e broches vendidos pela loja online, cuja renda se destina à Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência (RDFRS).
Algo não muito diferente de outros profetas e credos.”
Dawkins (que na minha opinião é um chato) arrecada dinheiro para uma fundação que promove a razão e a ciência. Então é religião, claro!
“Naturalmente, Dawkins e seus seguidores têm todo o direito de pensarem e professarem qualquer fé ou a falta dela, mas só porque não creem em um Deus, não estão menos sujeitos aos valores, princípios e leis que, se não nos obrigam à fraternidade, ao menos nos impõem a respeitosa tolerância. Não se pode identificar em qualquer símbolo religioso um inimigo nem se tentar cooptar a laicidade do Estado para proteger sua própria linha de pensamento.”
Após algumas falácias da pressuposição, o sábio juiz continua:
“Discutir os símbolos religiosos é mais fácil do que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade social. Talvez mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente não mostra a capacidade de escolher prioridades.”
‘Enfrentar a distribuição de renda’... Rio-me! E ele é um juiz, heim?
Então deve ser proibida a construção de museus enquanto um único miserável estiver sem casa, de bibliotecas enquanto houver um único analfabeto no país, e mais: não podemos discutir caos aéreo enquanto houver fome, mesmo que seja na África. A vida de um africano vale menos do que a nossa? Prioridades!
Bah! Como se discutir uma coisa nos impedisse de discutir outras.
“Vale lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos, e bom número de ateus gastam suas energias ajudando os necessitados. Nosso país, salvo raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.”
Opa, parece então que todos católicos e outros religiosos “gastam suas energias ajudando os necessitados”. No caso de ateus, é um bom número. Bill Gates, Warren Buffet e uns outros discípulos de Dawkins por aí.
“A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras.”
Vejamos a linha de raciocínio do juiz: Os ateus são os que querem eliminar todos crucifixos do país. Ateísmo é religião. O Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras – aqui ele se assume hipócrita e considera válido o argumento daqueles que dizem que o Estado não deve optar pelo catolicismo. Logo, os crucifixos devem ser mantidos nas salas de julgamento, nos plenários, na câmara, senado, escolas públicas. Um ás no raciocínio – cacofonia deliberada.
“A solução correta é tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas, incluindo Jesus, Buda, Maomé, Allan Kardec, São Jorge etc., sem que ninguém deva se ofender com isso. Por fim, acaso fosse possível uma opção, não poderia ser pela visão da ‘minoria’ mas da ‘maioria’. O ‘respeito às minorias’ já está razoavelmente assimilado, mas isso não inclui o direito à tirania da minoria.”
Não há nada na lei que justifique que a religião da maioria deva receber um tratamento especial do Estado.
Dúvida cruel: penduramos na parede um Crescente, uma Estrela de David, um gordo careca, uma imagem do Gasparzinho, um crucifixo ou deixamos a parede nua? Um crucifixo, claro! Sem tirania da minoria. Parede nua também é tirania da minoria.
De que minoria, se a “religião” dos ateus tem um símbolo, o tal "A"escarlate? Ah, claro, a minoria de 1% quer a parede nua para depois (rampa escorregadia) colocar seu sagrado “A” escarlate!
“Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. A laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados. Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens, mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o fato de elas estarem ali.”
O protestante faz um acordo estratégico com os católicos contra o espantalho que elegeu ser um mal maior, rsrs.
O papa tem que contratar esse “irmão separado”. Só falta papar hóstia!
Maria Cláudia Bucchianeri define bem a presença de símbolos religiosos em órgãos públicos brasileiros:
"A fixação ou manutenção, pelo Estado ou por seus Poderes, de símbolos distintivos de específicas crenças religiosas representa uma inaceitável identificação do ente estatal com determinada convicção de fé, em clara violação à exigência de neutralidade axiológica, em nítida exclusão e diminuição das demais religiões que não foram contempladas com o gesto de apoio estatal e também com patente transgressão à obrigatoriedade imposta aos poderes públicos de adotarem uma conduta de não-ingerência dogmática, esta última a assentar a total incompetência estatal em matéria de fé e a impossibilidade, portanto, do exercício de qualquer juízo de valor (ou de desvalor) a respeito de pensamentos religiosos"
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*Para William Douglas, estas são as provas certíssimas de que seu deus existe: Deus fala com ele enquanto ele lê a Bíblia, usando a sua própria voz (do William). Deus o salvou de cair de bicicleta com a filha de 3 anos. Estava tombando quando uma mão invisível lhe devolveu o equilíbrio. Deus o impediu de despencar de um muro de assustadores 3 metros de altura. Estava caindo e uma mão invisível o colocou de volta no lugar. E ele escreve, no mesmo texto: “Eu sou refratário a pessoas que vêem milagre em tudo. Para mim, primeiro é preciso eliminar toda a chance de eventos naturais, coincidência, acaso etc.” São essas as três comprovações da intervenção direta de Deus na vida desse cético que se pauta pela Navalha de Ockham. Lemos o texto inteiro aqui.
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07 fevereiro 2010
Em repúdio ao pequeno homem
Janer Cristaldo
O mundo está cheio de pessoas lindas. Mas as abomináveis são legião. Entre estas, as que acham que sabem porque ouviram dizer. Que não lêem livros nem jornais, mas recebem informações por televisão. E que, por ver televisão, acham que entendem o mundo.
Tropeço às vezes com essa gente. Cara, quem és tu para contestar o Sílvio Santos? O Sílvio Santos tem um grande público. A ti, ninguém conhece. Que tens contra o Lula? Tu não ganharias eleição nem pra síndico. O Lula tem sucesso. Já é candidato a Nobel. Qual é tua bronca com o Paulo Coelho? O Paulo vende milhões de livros em dezenas de línguas, tu não consegues vender teus livros nem no Brasil. Que autoridade tens para contestar o papa? O papa é o líder da cristandade, e tu não consegues liderar nem mesmo teus vizinhos de condomínio.
Com estes interlocutores, não adianta argumentar. Se o Sílvio Santos tem sucesso, se o Lula tem sucesso, se o Paulo Coelho tem sucesso, se o papa tem sucesso e você não tem sucesso, então você não vale nada. É a idolatria das celebridades. O pior é que agora, com os tais de Big Brothers, surgem celebridades do nada. Alguém é célebre porque a televisão decidiu que é célebre e estamos conversados.
Em função deste culto do sucesso, perdi inclusive um amigo, empresário de muitos milhões de dólares. Eu lhe enviava diariamente minhas crônicas. Até o dia em que me pediu: “podes me enviar qualquer crônica, menos aquelas sobre o Lula e o PT. Lula é homem bem sucedido”. Ok! Mas se tenho de censurar-me, não envio mais nenhuma. E assim terminou nosso amor.
Estes espécimes foram muito bem definidos no século passado por um judeu da Ucrânia. É o Kleinen Mann, de Wilhelm Reich. Ou o Zé Ninguém, como foi traduzido no Brasil: “O homem pequeno é aquele que não reconhece sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandezas alheias. Que se orgulha de seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas jamais as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar”.
Daí a acreditar no papa, em Hitler ou Stalin, basta um pequeno passo. Estas gentes, eu as conheço desde minha adolescência. Quando em Dom Pedrito, lá pelos meus 14 ou 15 anos, me insurgi contra a Igreja Católica. Um sacerdote de Bagé, franzino e inquisitorial, veio às pressas para tentar trazer o herege em potencial de volta ao rebanho. Discutimos um dia todo, com várias jarras de água e um almoço de permeio. A cada preceito de fé que eu contestava, padre Fermino Dalcin me jogava no rosto a acusação: "Arrogância. Orgulho intelectual. Quem és tu para contestar, aqui em Dom Pedrito, o que autoridades decidiram em Roma?"
Era algo pesado para um piá de uns quinze anos. É o famoso argumento da autoridade: quem você pensa que é? Eu só tinha como defesa descrer do que não conseguia entender. Mas resisti e consegui, ainda adolescente, libertar-me do deus judaico-cristão. Agostinho ou Tomás de Aquino que se lixassem. Eu estava escorado na lógica e na razão, e não há fé que sobreviva à lógica e a razão. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi minha alma e procurei, nos anos seguintes, livrar-me da craca ética que vinha grudada ao cadáver do deus cristão. Esta é, a meu ver, a grande função da leitura, libertar o homem de mitos e superstições.
Continua Reich: “Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: ‘quem sou eu para ter opinião própria, para decidir sobre minha própria vida e ter o mundo como meu?’ E tens razão: quem és tu para reclamar direitos sobre tua vida? Deixa-me dizer-te.
“Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo grande homem foi um dia um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza em seu modo de pensar e agir. O grande homem é pois aquele que reconhece quando e em que é pequeno”.
Não tenho preocupação alguma com o tal de sucesso. Sucesso é uma soma de equívocos. Lula, Paulo Coelho, o papa, para mim não valem um ceitil. Meus valores são outros. Para mim, Coelho continua sendo um medíocre e Lula um analfabeto. Qualquer crônica que escrevo tem muito mais informação e profundidade que toda a obra do Coelho. Que, aliás, não tem profundidade alguma. É rasa. Quanto ao pastor alemão, pelo que leio de seus pronunciamentos, pelo jeito nem leu a Bíblia. Até já me coloquei à disposição dele para algumas aulinhas de recuperação em catecismo. Ou talvez a tenha lido. Mas sua função de bedel do Vaticano o impede de falar o que conhece.
Respeito quem tem cultura. Meus heróis não vendem milhões de exemplares nem têm milhões de leitores. Enfim, até podem ter. Mas através dos séculos e não do dia para a noite. Cultura, sei que a tenho. E inteligência também. Se não as tivesse, talvez fosse bestseller. No dia em que tiver cem mil leitores, me perguntarei o que estou fazendo de errado.
Respeito quem lê. Cultivo autores como Ernest Renan, Mircea Eliade, Karen Armstrong, Le Goff, Jean Delumeau, Jean Soler, Georges Minois, Michel Onfray, Karlheinz Deschner. Me fascina a capacidade de trabalho e de síntese destes autores. Eu os invejo e diante deles me sinto diminuto. Não que eu só respeite historiadores de religião. Entre meus diletos, estão Platão, Cervantes, Swift, Dostoievski, Nietzsche, Voltaire, Orwell, Pessoa, Hernández. Fora da literatura, tenho profundo respeito por Alexandre, Fernão de Magalhães, Harvey, Galileu, Giordano Bruno, Schliemann, Champollion. E muitos outros. Ante estes, me sinto pequeno.
Mas não diante de um bispo de Roma, que professa superstições milenares, nas quais talvez nem acredite, mas que tem de assumir como bom funcionário da Igreja. Pode valer alguma coisa pessoa que por obrigação profissional tem de acreditar na virgindade da Maria, na ressurreição do judeu aquele, no deus assassino do Velho Testamento? Os crentes que me desculpem, mas pessoa assim não vale um vintém furado.
Há quem me julgue egocêntrico. Nada disto. Meu ego é apenas um pouquinho maior que o do Lula ou o do Paulo Coelho. Eles têm sucesso. Lula é visto hoje como um dos grandes dirigentes do planetinha. É que a imprensa internacional não tem notícias de suas corrupções e incoerências. Coelho é talvez um dos escritores que mais vendem no mundo. Não me interessa. Meus valores são outros. Para mim, Coelho continua sendo um medíocre e Lula um analfabeto. Qualquer crônica que escrevo tem muito mais informação e profundidade que toda a obra do Coelho. Que, aliás, não tem profundidade alguma. É rasa.
Este homenzinho é também o professor universitário que endeusa Marx, Brecht, Freud, Lukács, Brecht, Sartre ou Lacan. Só porque tiveram algum sucesso histórico ou literário. É o mesmo que cultua Machado de Assis, Euclides da Cunha, Erico Verissimo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, sem jamais tê-los lido, só porque em algum momento os tais de críticos os entronizaram como grandes escritores. Este homenzinho não é encontradiço apenas nos bares. Eles pontificam tanto na universidade como na imprensa, tanto no poder como na Academia de Letras. Sem ir mais longe, vide o Sarney.
É o mesmo homenzinho que lota estádios de futebol e shows de rock, que chora ao assistir Titanic ou O Filho do Brasil, que locupleta templos evangélicos e o bolso dos pastores, que assiste a novela das oito e lambe vitrines nos shoppings, que troca de carro todos os anos e vai comprar TV de plasma para assistir a Copa. É o homem-massa de Ortega y Gasset. Aquele que, “sendo bárbaro e estúpido, quer impor sua barbárie e estupidez como norma máxima da sociedade. (...) O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes sejam enormes. E este tipo de homem decide em nosso tempo.”
Este eterno pequeno homem, que adora tanto o Lula como o papa, tanto Sílvio Santos como Paulo Coelho, é o mesmo que um dia adorou Hitler, Stalin ou Pol Pot como deuses. O homem mais amado de sua época não foi Cristo. No dia de sua morte, seus discípulos deram no pé. O homem mais amado na história foi Adolf Schicklgruber, que hoje conhecemos como Hitler. Procure fotos da época. Verá o olhar extasiado de milhares de alemães contemplando o deus vivo quando desfilava. Quando Joseph Vissarionovitch Djugatchivili morreu, houve quem não acreditasse na notícia. Porque um deus não pode morrer. Ah, o Joseph Vissarionovitch Djugatchivili é aquele que ficou conhecido como Stalin, o de aço.
Este homúnculo, em minha mesa não senta.
O mundo está cheio de pessoas lindas. Mas as abomináveis são legião. Entre estas, as que acham que sabem porque ouviram dizer. Que não lêem livros nem jornais, mas recebem informações por televisão. E que, por ver televisão, acham que entendem o mundo.
Tropeço às vezes com essa gente. Cara, quem és tu para contestar o Sílvio Santos? O Sílvio Santos tem um grande público. A ti, ninguém conhece. Que tens contra o Lula? Tu não ganharias eleição nem pra síndico. O Lula tem sucesso. Já é candidato a Nobel. Qual é tua bronca com o Paulo Coelho? O Paulo vende milhões de livros em dezenas de línguas, tu não consegues vender teus livros nem no Brasil. Que autoridade tens para contestar o papa? O papa é o líder da cristandade, e tu não consegues liderar nem mesmo teus vizinhos de condomínio.
Com estes interlocutores, não adianta argumentar. Se o Sílvio Santos tem sucesso, se o Lula tem sucesso, se o Paulo Coelho tem sucesso, se o papa tem sucesso e você não tem sucesso, então você não vale nada. É a idolatria das celebridades. O pior é que agora, com os tais de Big Brothers, surgem celebridades do nada. Alguém é célebre porque a televisão decidiu que é célebre e estamos conversados.
Em função deste culto do sucesso, perdi inclusive um amigo, empresário de muitos milhões de dólares. Eu lhe enviava diariamente minhas crônicas. Até o dia em que me pediu: “podes me enviar qualquer crônica, menos aquelas sobre o Lula e o PT. Lula é homem bem sucedido”. Ok! Mas se tenho de censurar-me, não envio mais nenhuma. E assim terminou nosso amor.
Estes espécimes foram muito bem definidos no século passado por um judeu da Ucrânia. É o Kleinen Mann, de Wilhelm Reich. Ou o Zé Ninguém, como foi traduzido no Brasil: “O homem pequeno é aquele que não reconhece sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandezas alheias. Que se orgulha de seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas jamais as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar”.
Daí a acreditar no papa, em Hitler ou Stalin, basta um pequeno passo. Estas gentes, eu as conheço desde minha adolescência. Quando em Dom Pedrito, lá pelos meus 14 ou 15 anos, me insurgi contra a Igreja Católica. Um sacerdote de Bagé, franzino e inquisitorial, veio às pressas para tentar trazer o herege em potencial de volta ao rebanho. Discutimos um dia todo, com várias jarras de água e um almoço de permeio. A cada preceito de fé que eu contestava, padre Fermino Dalcin me jogava no rosto a acusação: "Arrogância. Orgulho intelectual. Quem és tu para contestar, aqui em Dom Pedrito, o que autoridades decidiram em Roma?"
Era algo pesado para um piá de uns quinze anos. É o famoso argumento da autoridade: quem você pensa que é? Eu só tinha como defesa descrer do que não conseguia entender. Mas resisti e consegui, ainda adolescente, libertar-me do deus judaico-cristão. Agostinho ou Tomás de Aquino que se lixassem. Eu estava escorado na lógica e na razão, e não há fé que sobreviva à lógica e a razão. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi minha alma e procurei, nos anos seguintes, livrar-me da craca ética que vinha grudada ao cadáver do deus cristão. Esta é, a meu ver, a grande função da leitura, libertar o homem de mitos e superstições.
Continua Reich: “Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: ‘quem sou eu para ter opinião própria, para decidir sobre minha própria vida e ter o mundo como meu?’ E tens razão: quem és tu para reclamar direitos sobre tua vida? Deixa-me dizer-te.
“Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo grande homem foi um dia um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza em seu modo de pensar e agir. O grande homem é pois aquele que reconhece quando e em que é pequeno”.
Não tenho preocupação alguma com o tal de sucesso. Sucesso é uma soma de equívocos. Lula, Paulo Coelho, o papa, para mim não valem um ceitil. Meus valores são outros. Para mim, Coelho continua sendo um medíocre e Lula um analfabeto. Qualquer crônica que escrevo tem muito mais informação e profundidade que toda a obra do Coelho. Que, aliás, não tem profundidade alguma. É rasa. Quanto ao pastor alemão, pelo que leio de seus pronunciamentos, pelo jeito nem leu a Bíblia. Até já me coloquei à disposição dele para algumas aulinhas de recuperação em catecismo. Ou talvez a tenha lido. Mas sua função de bedel do Vaticano o impede de falar o que conhece.
Respeito quem tem cultura. Meus heróis não vendem milhões de exemplares nem têm milhões de leitores. Enfim, até podem ter. Mas através dos séculos e não do dia para a noite. Cultura, sei que a tenho. E inteligência também. Se não as tivesse, talvez fosse bestseller. No dia em que tiver cem mil leitores, me perguntarei o que estou fazendo de errado.
Respeito quem lê. Cultivo autores como Ernest Renan, Mircea Eliade, Karen Armstrong, Le Goff, Jean Delumeau, Jean Soler, Georges Minois, Michel Onfray, Karlheinz Deschner. Me fascina a capacidade de trabalho e de síntese destes autores. Eu os invejo e diante deles me sinto diminuto. Não que eu só respeite historiadores de religião. Entre meus diletos, estão Platão, Cervantes, Swift, Dostoievski, Nietzsche, Voltaire, Orwell, Pessoa, Hernández. Fora da literatura, tenho profundo respeito por Alexandre, Fernão de Magalhães, Harvey, Galileu, Giordano Bruno, Schliemann, Champollion. E muitos outros. Ante estes, me sinto pequeno.
Mas não diante de um bispo de Roma, que professa superstições milenares, nas quais talvez nem acredite, mas que tem de assumir como bom funcionário da Igreja. Pode valer alguma coisa pessoa que por obrigação profissional tem de acreditar na virgindade da Maria, na ressurreição do judeu aquele, no deus assassino do Velho Testamento? Os crentes que me desculpem, mas pessoa assim não vale um vintém furado.
Há quem me julgue egocêntrico. Nada disto. Meu ego é apenas um pouquinho maior que o do Lula ou o do Paulo Coelho. Eles têm sucesso. Lula é visto hoje como um dos grandes dirigentes do planetinha. É que a imprensa internacional não tem notícias de suas corrupções e incoerências. Coelho é talvez um dos escritores que mais vendem no mundo. Não me interessa. Meus valores são outros. Para mim, Coelho continua sendo um medíocre e Lula um analfabeto. Qualquer crônica que escrevo tem muito mais informação e profundidade que toda a obra do Coelho. Que, aliás, não tem profundidade alguma. É rasa.
Este homenzinho é também o professor universitário que endeusa Marx, Brecht, Freud, Lukács, Brecht, Sartre ou Lacan. Só porque tiveram algum sucesso histórico ou literário. É o mesmo que cultua Machado de Assis, Euclides da Cunha, Erico Verissimo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, sem jamais tê-los lido, só porque em algum momento os tais de críticos os entronizaram como grandes escritores. Este homenzinho não é encontradiço apenas nos bares. Eles pontificam tanto na universidade como na imprensa, tanto no poder como na Academia de Letras. Sem ir mais longe, vide o Sarney.
É o mesmo homenzinho que lota estádios de futebol e shows de rock, que chora ao assistir Titanic ou O Filho do Brasil, que locupleta templos evangélicos e o bolso dos pastores, que assiste a novela das oito e lambe vitrines nos shoppings, que troca de carro todos os anos e vai comprar TV de plasma para assistir a Copa. É o homem-massa de Ortega y Gasset. Aquele que, “sendo bárbaro e estúpido, quer impor sua barbárie e estupidez como norma máxima da sociedade. (...) O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes sejam enormes. E este tipo de homem decide em nosso tempo.”
Este eterno pequeno homem, que adora tanto o Lula como o papa, tanto Sílvio Santos como Paulo Coelho, é o mesmo que um dia adorou Hitler, Stalin ou Pol Pot como deuses. O homem mais amado de sua época não foi Cristo. No dia de sua morte, seus discípulos deram no pé. O homem mais amado na história foi Adolf Schicklgruber, que hoje conhecemos como Hitler. Procure fotos da época. Verá o olhar extasiado de milhares de alemães contemplando o deus vivo quando desfilava. Quando Joseph Vissarionovitch Djugatchivili morreu, houve quem não acreditasse na notícia. Porque um deus não pode morrer. Ah, o Joseph Vissarionovitch Djugatchivili é aquele que ficou conhecido como Stalin, o de aço.
Este homúnculo, em minha mesa não senta.
04 fevereiro 2010
Cursos Superiores Obrigatórios
Fora medicina, engenharia civil e outras atividades difíceis de fiscalizar ou cujos especialistas tenham vidas humanas nas mãos, penso que todo curso superior deveria ser facultativo, afinal há inúmeras formas de se filtrar um bom profissional, como concursos, provas e o próprio mercado de trabalho. Provavelmente os bons profissionais de qualquer campo continuariam tendo curso superior, e as empresas que contratam sem concurso, analisando currículos, poderiam exigir curso superior, boa aparência, ou o que quisessem.Um bom efeito colateral seria a diminuição de sabão ideológico usado na lavagem cerebral de calouros deslumbrados com dinossauros comunistas, professores de faculdades que apenas geram mais professores da matéria e dão canudos aos alunos, como sociologia, filosofia e história. Por incrível que pareça, quanto mais desnecessário é um curso, maior o número de socialistas e afiliados à UNE. Estudantes de medicina e engenharias antiamericanos, anti-Israel, esquerdistas? Não tão comuns quanto de filosofia, letras, jornalismo, arquitetura, sociologia, história, biblioteconomia. As faculdades e universidades se veriam livres do aluno que deseja apenas um curso superior. Julgo que restariam aqueles que desejam aprender. O Provão continuaria a existir e deveria ser aperfeiçoado.
Alguns casos:
Concursos Públicos: Se um apedeuta como o Lula passar por todas as fases de um disputadíssimo concurso para Procurador da República ou Juiz do TRT, por que diabos não pode ter interrompido os estudos no primário? Se o seu português é impecável e conhece as leis, regimento interno, etc., qual o problema mesmo? Os ensinos fundamental e médio continuariam a ser obrigatórios para menores. Mas certificados de conclusão dessas etapas tampouco deveriam ser cobrados em concursos públicos ou para alguém advogar, por exemplo.
Arquitetura: as grandes incorporadoras contratam escritórios com bom portfólio, não profissionais com diploma, que se encontram às toneladas, rodando bolsinha em cada esquina. Mesmo no projeto de casas, as prefeituras só aprovam uma edificação que esteja dentro das normas, do gabarito, afastamentos obrigatórios. Qualquer um poderia projetar, se quisesse, desde que estivesse registrado no CREA. Seria passível de ser multado pelo órgão e de ter sua licença cassada. Em matéria de estética e funcionalidade, diploma não serve para absolutamente nada.
Direito: Se um apedeuta como o Lula passar na prova da OAB, qual problema em advogar, mesmo não tendo sequer o segundo grau? Que ele se registre, pague as taxas e defenda seus clientes. Muitos destes provavelmente não escolherão um inexperiente para defendê-los. Os profissionais que tiverem anos de experiência em algum grande escritório de advocacia, possivelmente conhecerão os trâmites burocráticos, as leis, as brechas, saberão redigir, argumentar.
Contabilidade: Funcionários de uma empresa não podem recolher os impostos e pronto?
Jornalismo: Só aqui no grotão se exigia curso superior para jornalista. Um médico não podia escrever diariamente sobre medicina em um jornal. Isto mudou recentemente.
Engenharia civil e outras: Obrigatório. Não existe fiscal que confira ferragens de centenas de pilares em uma obra, traço do concreto, profundidade de uma fundação. Auditorias acontecem após desastres. Confia-se em um engenheiro. Vidas dependem diretamente de seus conhecimentos.
Medicina: Obrigatório. Por motivos equivalentes.
Filosofia, Letras, História, Música: Sem comentários.
Artes: Deveria ser obrigatório até mesmo para a macaca Kate, que interpretou o chimpanzé Xico em uma novela das sete da Globo. Acho que ela não teria muitos problemas em se formar com louvor.
Curso Superior de Teologia: Deveria ser obrigatório, com duração de 20 anos, afinal se está lidando com almas, e os milênios que muitos poderão passar no inferno são uma ameaça mais grave do que uma Casa de Deus com vigas mal dimensionadas cair na cabeça dos fiéis. Deveria haver uma residência de no mínimo 10 anos e um celibato obrigatório. O exercício ilegal da profissão deveria acarretar em prisão e multa.
Hoje o curso é barato e com pouca carga horária. Uma vergonha! O Curso Superior de Teologia do DF, cuja mensalidade é de irrisórios R$ 21,00, foi criado em 1986 pelo cardeal José Freire Falcão, e tem o seguinte programa:
Área Teológica
- Antropologia Teológica I, II e III;
- Cristologia I e II;
- Eclesiologia;
- Introdução à Teologia;
- Liturgia Fundamental;
- Liturgia Temporal;
- Mariologia;
- Missiologia.
- Moral Especial;
- Moral Fundamental I e II;
- O Pensamento Teológico Contemporâneo;
- Sacramentos I e II;
- Teologia Fundamental;
- Teologia Pastoral;
- Trindade;
- Patrologia I e II;
- Pneumatologia;
Área Bíblica
- Apocalípse;
- Atos dos Apóstolos;
- Cartas Paulinas;
- Evangelho de João;
- Evangelho de Lucas;
- Evangelho de Marcos e Mateus;
- Introdução Geral à Bíblia;
- Livros Históricos;
- Livros Sapienciais;
- Pentateuco;
- Profetas I e II.
Área Filosófica
- Antropologia Filosófica;
- Ética Filosófica;
- Filosofia Contemporânea;
- Filosofia da Religião;
- Introdução à Filosofia.
Área Complementar
- Catequética I e II;
- Doutrina Social da Igreja;
- Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso;
- Estágio Pastoral I e II;
- Evangelização na América Latina;
- Fundamentos Pedagógicos.
- História da Igreja I e II;
- Metodologia Científica;
- Religiosidade Popular e Seitas;
Disciplinas Optativas
- Comunicação e Expressão I e II;
- Direito Canônico I, II e III;
- Ensino Religioso I e II;
- Fenômenos do Espiritismo;
- Filosofia Tomista;
- Grego Bíblico I e II
- Hebraico
- Introdução à Música Litúrgica
- Técnicas de Comunicação;
- Teologia da Vida Espiritual I e II.
CARGA HORÁRIA
1.620 horas-aula (deveria ser 16200 horas, no mínimo, e residência)
EXIGÊNCIAS PARA INSCRIÇÃO
Carteira de Identidade;
Uma foto 3x4 (recente);
Pagamento da taxa de inscrição, no valor de R$ 35,00 (trinta e cinco reais).
MENSALIDADE
O valor mensal por crédito é R$21,00 (vinte e um reais).
------------------------
Se houvesse um curso superior para estelionatários – do tipo que vendem terreno no céu e jamais entregam - e fosse obrigatório, garanto que não conviveríamos com tantos desses por aí. Fica aqui minha sugestão.
27 janeiro 2010
Vodu, Candomblé, Pentecostais e Carismáticos
Após engravidar a própria filha enquanto o futuro genro dava duro na carpintaria, descer em forma de pomba sobre o companheiro de trindade a ser banhado pelo primo locustófago, após descer como línguas de fogo sobre os membros da gangue de Ben Pantera, o Espírito Santo ficou em uma espécie de sono letárgico por quase dois milênios, limitando-se a fazer biscates como auxiliar de exegetas e a opinar em concílios, voltando há pouco a operar maravilhas nos evangélicos e carismáticos católicos após os negros de Nova Orleans acharem uma brecha na lei – o Pentecostes de Atos dos Apóstolos - para inserirem nos cultos cristãos a catarse de seus ritos africanos. Houve pequenas mudanças, claro: se nos bons tempos ele descia, hoje o Espírito baixa.Hoje a missa é considerada desanimada em comparação aos cultos evangélicos. Historicamente, no entanto, os protestantes – em especial os puritanos dos EUA – desejavam uma volta ao cristianismo primitivo, seus hábitos e cultos eram austeros, sisudos, principalmente se comparados aos católicos e seus templos em estilo pagão cujas paredes e abóbadas ornamentadas por esfuziantes esculturas e pinturas sensuais reverberavam notas de pujantes óperas sacras, melodramáticas, onde o ar recendia a incenso, onde o sacerdote coberto por paramentadas sotainas proferia, de costas para a nave, palavras mágicas em latim que ameaçavam, garantiam proteção, transubstanciavam pão em carne de teântropo. Mesmo o pietismo, um movimento surgido na Igreja Luterana onde se buscava uma experiência individual com Deus, vitalista, não era nada festivo. Algo dele influenciou os metodistas e chegou às primeiras igrejas pentecostais americanas. Mas o pentecostalismo não veio do pietismo, daquele lá do séc. XVII, como afirmam alguns católicos carismáticos.
Quando havia comércio de escravos nas Américas, o vodu cruzou o Atlântico com os negros que o praticavam e criou raízes nos EUA (Nova Orleans) e Caribe (Haiti). O vodu original de estilo africano parece ter chegado mais ou menos intacto por lá. Em um ambiente cristão severo, protestante, existiam leis contra a execução de sua música ritmada, mas com escassos resultados. William Seymour, um filho de ex-escravos de Louisiana, promoveu o sincretismo dessa espiritualidade ancestral com o cristianismo, encorajando a música ritmada na igreja como parte da busca pela experiência imediata com o Espírito Santo, assim como a glossolalia*, o transe, a dança - a catarse, enfim - essenciais na espiritualidade daqueles africanos. Horas sem se alimentar, cansaço físico, alucinações decorrentes... Do ponto de vista biológico, as catarses, ritmos e danças fazem o cérebro liberar ocitocina em boa quantidade (hormônio que atinge um pico pouco antes do orgasmo sexual), endorfina e outros hormônios do prazer que podem levar o "usuário" a querer cada vez mais catarses, mais danças, mais música ritmada.
Tal histeria - que antigamente apenas víamos nas igrejas evangélicas americanas freqüentadas por descendentes de africanos -, aquelas pessoas em transe a emitir seus “gemidos inefáveis” (Rm 8, 26), essas coisas semelhantes a rituais de vodu e candomblé só apareceram no cristianismo, portanto, com os negros dos EUA. Hoje vemos caricaturas daquele fervor, que ao menos era autêntico, nos católicos e nos evangélicos brasileiros e de outros grotões subdesenvolvidos. No caso dos Carismáticos Católicos, com seus maneirismos idênticos aos dos evangélicos, o Espírito Santo lhes sugeriu plagiar os “irmãos separados” para evitar a debandada de fiéis, que seria radicalmente maior se na RCC se buscasse o contato com Deus apenas com orações e com o velho e maçante ritual da Missa.
Como devemos olhar os frutos para julgarmos a árvore, segundo o amaldiçoador de figueiras, as antigas cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, eram boas e santas porque permitiram a volta na cristandade daquele Espírito Santo que não se via desde o Pentecostes.
*Glossolalia
Romanos 8, 26 e 27: “Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus.”
Somos fracos e não sabemos orar e o que pedir, por isso o Espírito Santo nos trata como títeres movendo nossos lábios e vibrando nossas cordas vocais para que sejam emitidos burlescos sons estilo “shá-lá-lá-lá-shimanian-nan-lá-lá” (carismáticos costumam fazer a glossolalia com sons que julgam se parecer com algo semita - árabe ou hebraico). Após isso, Deus, burocrático como sempre - não é um com o Espírito Santo? -, ouve os gemidos, os compreende, e atende. Atende, é lógico! A fé move montanhas e placas tectônicas. Eu posso rezar sem fé, mas não se é o próprio Deus que reza a Deus por mim, não? Na verdade, essa oração em línguas pode ser até um pedido para que o Haiti seja arrasado. Não há como saber, uma vez que no versículo seguinte ao disparate destacado acima lemos: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios.” Ou seja: até mesmo o terremoto no Haiti concorre para o bem dos eleitos, por isso o bom deus de Zilda Arns lhe acachapou a cabeça com uma trave de concreto.
Uma teoria maluca que elaborei hoje pela manhã: Nova Orleans, há não muito tempo, foi arrasada pelo Katrina. Neste terrível janeiro de 2010 a capital do Haiti foi destruída por um terremoto e a região de Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Paraitinga, no leste de São Paulo, foi fortemente castigada pelas chuvas. Em Paraitinga, uma igreja história de uns 200 anos veio abaixo com a força das chuvas. Essa é a região brasileira onde a Renovação Carismática Católica é mais forte. A sede da Canção Nova, por exemplo, fica em Cachoeira Paulista. Será que tudo isso está acontecendo porque Javé resolveu implicar com o Vodu, contrariando os planos do Espírito Santo? No mundo das religiões, tudo é possível!
20 janeiro 2010
Remake de Pocahontas
Lemos no excelente blog Que Treta!: "Há uns dias fui ver o remake da Pocahontas que o James Cameron realizou. Está bem divertido. Talvez para evitar problemas de copyright com a Disney, ele mudou os nomes dos personagens, usou peles-azuis em vez de peles-vermelhas e naves em vez de barcos. Mas manteve-se fiel à história. A Avó Salgueiro estava tal e qual."
Star Wars e Os Três Mosqueteiros
O episódio IV de Star Wars, o clássico, possui muitos ingredientes análogos a Os Três Mosqueteiros de Dumas.
O aprendiz D’Artagnan (Luke Skywalker) aspira ser mosqueteiro (jedi), monta um cavalo velho amarelo (uma nave velha) e acaba recrutado para servir a rainha (Princesa Leia) com o auxílio dos inteligentes e gaiatos Athos e Aramis (Hans Solo), do bruto Portos (Chewbacca) e dos histriões porém prestativos escudeiros Bazin, Planchet, Mousqueton e Grimaud (C-3PO e R2-D2).
Luta contra Rochefort, o homem da cicatriz (Darth Vader, cujo rosto é desfigurado), braço direito do Cardeal de Richelieu (Imperador Palpatine). Rochefort torna-se amigo de D’Artagnan (na seqüência de Os Três Mosqueteiros) e expira em seus braços, como Darth Vader, que morre nos braços de Luke.
A história de Dumas não peca pelo maniqueísmo, e o protagonista acaba se vendendo para o Cardeal em troca de um posto de capitão. Isto após Richelieu autorizar (involuntariamente) Milady, a sedutora vilã, a assassinar Constance Bonacieux, adúltera amante de D’Artagnan, casada com o velhaco Sr. Bonacieux...
Rei Leão e Hamlet.
O pai é morto por um tirano que usurpa o trono. O filho foge mas o fantasma do pai conta o que aconteceu de fato e o compele a retornar para reclamar a coroa e se vingar. Possui dois amigos, Rosencrantz e Guildenstern, o facócero e o suricato.
Temos ainda AI e Pinóquio, O Patinho Feio e Sabrina, e várias outras.
O Superman (Returns) e Crônicas de Narnia aludem claramente à Paixão de Cristo. Em Matrix há referências ao Jesus da Nova Aliança (o messias Neo, novo), a João Batista (o profeta Morpheus, que reconhece o messias), à ressurreição, à predestinação, à busca pela Terra Prometida (Zion), à trindade (Trinity).
No caso do Superman, ele é flagelado pelos sequazes de Luthor, salva a humanidade e, muito fraco, abre os braços no espaço como se estivesse crucificado. É levado ao hospital e ressuscita. Quem primeiro testemunha a cama vazia (sepultura vazia) é uma mulher piedosa, que chora santas lágrimas... O leão gay de Narnia morre pelo menino pecador e ressuscita para combater o mal.
Rei Leão e Hamlet.
O pai é morto por um tirano que usurpa o trono. O filho foge mas o fantasma do pai conta o que aconteceu de fato e o compele a retornar para reclamar a coroa e se vingar. Possui dois amigos, Rosencrantz e Guildenstern, o facócero e o suricato.
Temos ainda AI e Pinóquio, O Patinho Feio e Sabrina, e várias outras.
O Superman (Returns) e Crônicas de Narnia aludem claramente à Paixão de Cristo. Em Matrix há referências ao Jesus da Nova Aliança (o messias Neo, novo), a João Batista (o profeta Morpheus, que reconhece o messias), à ressurreição, à predestinação, à busca pela Terra Prometida (Zion), à trindade (Trinity).
No caso do Superman, ele é flagelado pelos sequazes de Luthor, salva a humanidade e, muito fraco, abre os braços no espaço como se estivesse crucificado. É levado ao hospital e ressuscita. Quem primeiro testemunha a cama vazia (sepultura vazia) é uma mulher piedosa, que chora santas lágrimas... O leão gay de Narnia morre pelo menino pecador e ressuscita para combater o mal.
Quando o personagem tem a possibilidade de ressuscitar, como a Trinity, o Coiote do Papa-Léguas e outros clientes da ACME que caem de precipícios e engolem dinamites de pavio aceso, a coisa perde a graça. Como acontece na mitologia cristã, onde Jesus deixa-se matar sabendo que vencerá a morte, voltará a viver. Qual é a graça? Sacrificar-se assim, até eu!
Evangelhos e Branca de Neve
O melhor remake da famosa história da carochinha "A vida de Jesus" é Branca de Neve e os Sete Anões. A rainha má ordena a execução de Branca de Neve após o espelho mágico lhe informar que a inocente enteada é a mais bela de todo mundo.
O malvado Herodes ordena a execução de Jesus (matança dos inocentes) após os Reis Magos lhe informarem que o predestinado será um rei mais poderoso do que ele.
Mas há diferenças:
- Branca de Neve é salva e foge para um bosque, onde encontra sete anões e os ensina a ser justos, limpos e organizados.
- Jesus é salvo e seus pais o conduzem ao Egito. Após um tempo reúne doze apóstolos e os ensina a ser vagabundos (olhai os lírios do campo), injustos (expulsa vendilhões a chicotadas, arruína suinocultores, amaldiçoa a figueira), e desorganizados.
Evangelhos e Branca de Neve
O melhor remake da famosa história da carochinha "A vida de Jesus" é Branca de Neve e os Sete Anões. A rainha má ordena a execução de Branca de Neve após o espelho mágico lhe informar que a inocente enteada é a mais bela de todo mundo.
O malvado Herodes ordena a execução de Jesus (matança dos inocentes) após os Reis Magos lhe informarem que o predestinado será um rei mais poderoso do que ele.
Mas há diferenças:
- Branca de Neve é salva e foge para um bosque, onde encontra sete anões e os ensina a ser justos, limpos e organizados.
- Jesus é salvo e seus pais o conduzem ao Egito. Após um tempo reúne doze apóstolos e os ensina a ser vagabundos (olhai os lírios do campo), injustos (expulsa vendilhões a chicotadas, arruína suinocultores, amaldiçoa a figueira), e desorganizados.
- Os anões trabalham arduamente no ramo da mineração.
- Os apóstolos são vagabundos, vivem de esmolas, confiam na providência, aquela mesma que nos deu Mussolini (palavras de Pio XI) e Stalin (Palavras do Patriarca George).
- A bruxa mata Branca de Neve e os anões arriscam a vida para salvá-la.
- Os fariseus matam Jesus e os apóstolos fogem com a cauda peluda metida entre as pernas.
- Branca de Neve ressuscita ao ser beijada por um príncipe encantado.
- O corpo roxo e inchado de Jesus é subtraído do sepulcro pelos apóstolos enquanto as sentinelas romanas contam a propina.
17 janeiro 2010
A santarrona de Forquilhinha

Janer Cristaldo
A pérola das Antilhas – isto é, o Haiti – gaba-se de ter sido o primeiro país latino-americano a declarar-se independente. Unidos sob a liderança de Toussaint L'Ouverture e, mais tarde, do ex-escravo Jean-Jacques Dessalines, negros e mulatos combateram as tropas francesas até a proclamação da independência em 1804. Independência para quê? Hoje, o Haiti é o país mais pobre do continente. Em um ranking de 180 países, seu PIB per capita ocupa o 130º lugar.
A Libéria – isto é, a Terra Livre - foi fundada no século XIX por escravos libertos dos Estados Unidos, não tendo conhecido o domínio colonial. O país foi criado pela American Colonization Society, organização criada em 1816 por Robert Finley, cujo objectivo era levar para a África negros livres ou negros que tinham sido libertos da escravidão. Segundo Finley e outros líderes americanos, os negros jamais seriam capazes de se integrar na sociedade do país. A única solução seria reenviá-los para a África, para evitar tanto a criminalidade como o casamento interracial.
Em 1821, a American Colonization Society adquiriu uma parcela de terra na África, onde se fixariam os primeiros colonos negros oriundos dos Estados Unidos. Em 1847, a Libéria declarou a sua independência, tornando-se o primeiro país africano a tornar-se independente. Independência para quê? Hoje, a Libéria é ainda mais pobre que o Haiti. No mesmo ranking de 180 países, seu PIB per capita ocupa o 159º lugar.
Conclusão? Antes que me chamem de racista, apelo ao testemunho de George Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil. Sem saber que estava sendo gravado pela reportagem do SBT Brasil, Samuel Antoine disse: “O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá fodido". Verdade que logo depois se apressou em dizer que foi mal interpretado. Mas não vejo muito como interpretar mal sua afirmação. Disse, está dito. Como cônsul, deve conhecer bem o país que representa.
Em 1957, o médico François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, foi eleito presidente do Haiti, onde instaurou um governo baseado no terror promovido pelos tontons macoutes, membros de sua guarda pessoal. Em 1964, no melhor estilo de Fidel Castro ou Hugo Chávez, decretou sua presidência vitalícia. Deu ordens para a produção de panfletos, onde, entre outras informações, designava-se deus. Foi quando o Haiti tornou-se a nação mais pobre do continente. Ao morrer, em 1971, foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que hoje come o amargo caviar do exílio em Paris.
Escrevi ontem sobre Zilda Arns, a Teresa de Calcutá tupiniquim, morta no terremoto, e afirmei: “quem conhece o que penso de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a santarrona albanesa, sabe que nisto não vai nenhum elogio”. Não faltou leitor que me interpelasse. Que tens contra a madre Teresa? É leitor que não me acompanha. Entre outras proezas, madre Teresa recebeu das mãos de Baby Doc a "Légion d'honneur" haitiana. Isso sem falar nas flores que levava à tumba de um dos mais sanguinários ditadores dos Balcãs, Enver Hoxha, seu conterrâneo. Mas falava da Arns, a novel santa brasileira.
Escreveu um de meus interlocutores: “Janer, tua biografia poderia passar sem essa crônica. Misturas alhos com bugalhos e de leva ofendes a Zilda Arns. Essa mulher conseguiu criar, no Brasil, um serviço que reúne 250 mil voluntários e atende dois milhões de pessoas. O fato de ser religiosa apenas mostra a base para seus ideais. Independentemente da tua fobia por papas, bispos ou cardeais, poderias ter passado sem realizar essa agressão gratuita para uma pessoa cujo único crime foi a bondade”.
Bondade? Em termos. Por trás da bondade, muitas vezes se esconde a perversidade. Para atender dois milhões de miseráveis é preciso que existam dois milhões de miseráveis. O número deles seria menor se houvesse uma política de redução da natalidade. Isto, como boa católica, Zilda Arns não admitia. Condenava anticoncepcionais e preservativos. The sperm is sacred, como diziam os Monty Python. Esta atitude criminosa da Igreja romana, que só aumenta a miséria no mundo, está dizimando africanos aos magotes, pela AIDS, nos países de predominância católica. A Teresa de Calcutá tupiniquim foi cúmplice desta política assassina. Com sua atitude hipócrita, Zilda Arns criava os miseráveis para depois atendê-los. A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana é uma caftina de miseráveis. Não por acaso, só se expande em países pobres. Sem miséria, não é fácil ser santo. Falta clientela.
Este política pode ser vista em São Paulo. Quando alguma autoridade inventa de retirar os mendigos da rua, lá vêm as igrejeiras: "quem tirou daqui nossos mendigos? Queremos nossos mendigos de volta". Não estou usando de retórica. Esta frase eu a li no Ceciliano, boletim da paróquia de Santa Cecília, aqui ao lado de onde moro. Quando foram retirados os mendigos do largo que entorna a Igreja, os padres chiaram: queremos nossos mendigos de volta.
Miséria, bem explorada, dá lucro. Com milhares de mendigos na rua, estão garantidos os milhões de dólares que a Miseoror, a Cáritas e outras entidades européias enviam para a Igreja brasileira. Com estes milhões, Arns fornecia aos miseráveis uma sopa feita de arroz, milho, sementes de abóbora e cascas de ovo. Ontem ainda, esta gororoba foi saudada pelo senador Flávio Arns, seu sobrinho, como o grande "legado" deixado pela titia na luta contra a mortalidade infantil. Lula já pede um prêmio Nobel póstumo para a santarrona de Forquilhinha.
Obscurantismo, dizem os dicionários, é a atitude, doutrina, política ou religião que se opõe à difusão dos conhecimentos científicos entre as classes populares. O obscurantismo de Zilda Arns não se resume à condenação do controle de natalidade. Ao manifestar-se contra as experiências com células-tronco, a médica sanitarista de Forquilhinha está negando a ciência e condenando experiências vitais para a humanidade. "Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão", já dizia Nietzsche. Esta senhora, a estrela do terremoto no Haiti, de um obscurantismo que nos remete aos dias em que Galileu foi condenado pela Igreja Católica, está sendo hoje promovida a santa pela imprensa nacional.
Last but not least, não tenho fobia nenhuma por papas, bispos ou cardeais. Tenho asco. É diferente.
05 janeiro 2010
Ateus x Crentes ou Comunistas x Sacerdotes?
Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.
Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.
Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).
Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.
Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.
A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.
Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.
Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.
Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!
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