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23 abril 2008

A obsessão de Hillary

Obama tem 1667 delegados contra 1532 de Hillary e está ganhando a disputa pela indicação do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Mais do que isto, Obama transformou as primárias de um fenômeno oligárquico em um processo que tem contado com o comparecimento em massa dos filiados dos partidos, trazendo enorme legitimidade ao processo eleitoral.

A despeito de tudo isto, são necessários 2025 delegados para se obter a maioria da Convenção Democrata, que ocorrerá em agosto. A vantagem de Obama é de 135 delegados e o total de delegados ainda em jogo são 849. O complicado é que não há indício de que Hillary possa ganhar de Obama nas próximas primárias com margem suficiente para alcançar a vitória. Então, por que ela não desiste? De fato, tudo indica que ela deve perder a maioria das próximas disputas.

Ela não desiste porque ela é uma mulher obstinada e dura na queda. Ela tem 60 anos, enquanto que Obama tem 46. É provável que esta seja sua última oportunidade de chegar à Casa Branca. O fato é que existem 795 superdelegados que não são obrigados a votar no candidato ganhador da maioria. A principal esperança da Hillary seria convencer estes superdelegados a abandonarem a sua posição tradicional de apoio ao candidato vitorioso das prévias para apoiarem-na. No futebol chamamos isto de vitória no tapetão.

Quando acusada de constantemente agredir o adversário, a quem chama de inexperiente, ela se defende usando uma expressão que poderíamos traduzir como ‘não sabe brincar não desce para o play’, como diriam os cariocas. Em suas analogias, ela se coloca como Rocky, que não desiste nunca. Apesar de tudo isto, reclama que é tratada com agressividade pelos jornalistas e ocasionalmente chora para mostrar que tem sentimentos.

Outro dia, assisti a uma entrevista com um dos famosos jornalistas do caso Watergate. Ele comentava que se Hillary ganhar esta eleição, os Estados Unidos serão governados por vinte e oito anos por membros de duas famílias, os Bush e os Clinton. Portanto, a democracia americana não estaria funcionando bem.

O engraçado é que o Obama não é um consenso entre os negros. Vários intelectuais e ativistas negros se posicionaram contra a sua campanha. Eles alegam que, no caso da vitória de Obama, não seriam beneficiados pela dificuldade que o mesmo teria de favorecer os negros. Por outro lado, com Hillary como presidente, ela poderia mais concessões aos negros.

Este tipo de pragmatismo não deixa de ser irônico e talvez mal esconda a dificuldade que muitos destes intelectuais terão para explicar porque um negro chegou à presidência dos EUA, que é uma sociedade majoritariamente branca e que discrimina a minoria negra.

17 março 2008

O que são os EUA?

Em DST's, sexo, moraleiros&negócios, o autor diz:

"A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !"

O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois "eram muito cristãos". O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.
Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.
Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é "mais", o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei... Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, "liberdades". Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de "hipocrisia".
Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas... "Como aqui pode ser chamado de 'país da liberdade' se não me deixam andar na rua?" Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos "cidades carolas" como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.
Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: "Como? A droga não é proibida?" Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou "inferindo", chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido a existência da 2ª...
Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos... Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?
A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente... De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois uma certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo "raciocínio organicista" que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianômami.
Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a "liberdade de proibir", o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta "ditadura da maioria", como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.
Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.
Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico - ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda...). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais "burocratizadamente" porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.
O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de "engenharia social" típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.
Em suma (baita pretensão...), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.
Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um "equilíbrio perfeito", harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, "o troço" acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.
____________

PS: Quanto aos "30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST", nada encontrei, por enquanto... Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve...

06 março 2008

Os Últimos Dias de Bush

Bush ganhou uma eleição roubada por um juiz da Suprema Corte indicado por seu pai que mandou suspender a recontagem dos votos a pedido de uma procuradora indicada por seu irmão. Na verdade, ele somente conseguiu ser governador do Texas e o indicado do Partido Republicano para a presidência porque seu pai foi um homem extraordinário. O velho Bush foi piloto de mais de uma centena de missões na Segunda Guerra Mundial, tornou-se milionário no Texas, senador, diretor da CIA, embaixador na China, presidente do Comitê das Forças Armadas no Senado, vice-presidente e presidente dos EUA e ainda é o nome do aeroporto do Texas. Por fim, deu porrada no velho Saddam quando ele tentou conquistar o Kwait.

No 11 de setembro, os EUA são atacados por sauditas que haviam sido outrora treinados para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Bush atacou o Afeganistão e devastou os Talibãs, seus antigos aliados em busca de Bin Laden, mas falha completamente ao enviar poucas tropas e ao assistir o ressurgimento das guerrilhas. Novamente, os gringos falharam e não terminaram o serviço, afinal, quando os soviéticos foram derrotados com o apoio americano, o Afeganistão estava devastado e foi entregue a uma população composta em sua maioria por menores de 18 anos e as armas estavam em poder de fanáticos religiosos muito úteis na luta contra os soviéticos mas absolutamente incapazes de entender um mundo não tribal.

O ataque ao Iraque foi no sentido de completar o serviço iniciado por seu pai, que quando derrota Saddam abandona os oposicionistas do regime, que são massacrados pelo ditador quando as tropas americanas decidem não invadir o Iraque. Isto e conquistar muito petróleo. O problema é que hoje os EUA não podem sair do Iraque sem que ele caia sob a influência do Irã. Por outro lado, os democratas querem deixar o serviço feito pela metade. Os republicanos compreendem que, ou se estabiliza o Iraque ou os EUA sofrerão uma derrota de proporções imprevisíveis que junto com a crise econômica e o festival de massacres nas universidades poderiam lançar os EUA em uma profunda depressão.

Bush é um cara simpático, na High School americana devia ser aquele sujeito boa praça que levava os amigos para brincar na mansão do pai e ainda deve ter sido o Rei do Baile de Formatura. Mais tarde se tornou um alcoólatra, falido e salvo por Deus e seu pai do vício e da pobreza. Acho que desde a Revolução Francesa não houve um “Imperador” tão desmoralizado como o Bush. Na TV, ele já tem duas séries de humor dedicadas a ridicularizá-lo e tem fornecido material para os comediantes há anos. A desmoralização do Rei é sempre perigosa, como pode ser atestado pela Revolução Francesa. Fidel Castro mesmo é extremamente intolerante contra a crítica ou o ridículo do governante porque como um revolucionário prático ele conhece o seu poder. Para ele, lugar de comediante é apodrecendo na prisão.

Enfim, já que o Bush fracassou completamente em termos geopolíticos e mais recentemente econômicos com o avanço da China, ressurgimento da Rússia, desvalorização do dólar, recessão, fracasso no apoio ao golpe contra Chávez, e ainda temos o ressurgimento do socialismo na América Latina, então ele talvez pudesse nos fazer um favor e jogar uma bomba no Palácio Presidencial de Chávez. Com isto, ficaríamos livre de uma corrida armamentista e uma possível guerra. Quanto aos efeitos colaterais, seriam mínimos pois tenho certeza que Chávez não conseguiria se tornar um mártir, afinal, Che fica bem melhor em uma camiseta.

18 janeiro 2008

Ensaiando os primeiros passos*

Embora possam ter alcance menor do que o alegado, os mísseis iranianos são suficientemente abrangentes para atacar Israel ou o Iraque.[1] Mas, não deixa dúvidas sobre um possível ataque à Rússia, inclusive Moscou. Como ninguém gosta de ter um vizinho com um rifle com mira telescópica apontada para sua casa, o desconforto russo é notório e a recente viagem de Putin ao Irã é mera diplomacia para jogar com as negociações entre Teerã e Washington.

Alcance dos mísseis Ashura e Shahab-3


Como os iranianos apresentam desvantagem frente o poderio americano há clara intenção de confundir o oponente quanto o alcance de seus mísseis. Uma arma capaz de “desviar do radar e atingir alvos múltiplos” parece um tanto exagerado para a capacidade tecnológica iraniana. Mas, o alvo mais tangível não fica muito longe, se trata do Estreito de Ormuz, principal passagem do petróleo do Golfo Pérsico. Apesar da possibilidade de bloqueio, ela não é duradoura. E tal expediente atiçaria um possível ataque dos EUA endossado pela comunidade internacional.
Com a derrubada do regime do xá Rheza Pahlevi, o Irã ficou defasado militarmente e não encontrou apoio soviético, em parte devido à negativa fundamentalista da própria Revolução Islâmica. Os avanços que o Irã atingiu no setor bélico decorrem de adaptações dos produtos importados dos EUA, como mísseis terra-ar para serem lançados de seus F-14, bem como novas adaptações de antigos helicópteros de serviço público JetRanger. Estes e outros itens têm cerca de 30 anos de uso. O próprio míssil Shahab-2 é uma adaptação do velho Scud-C soviético dos anos 50.
Há algumas boas adaptações, como um torpedo de alta velocidade também derivado do foguete anti-submarino russo VA-111 Shkval, que navega com uma bolha de ar no nariz onde libera bolhas de ar comprimido. A vantagem é o menor atrito que lhe confere maior desempenho. Com mais de 200 milhas por hora quando submerso se torna quase impossível à evasão por um submarino ou navio.


Shahab-2


Quando próximos (quatro milhas), a base do ataque também se torna vulnerável pela força de seu impacto. Portanto, a margem de aplicação no estreito é limitada. Para o caso, armas menos poderosas, como o míssil de médio-alcance Kowsar, similar ao C-801 chinês e ao Exocet francês antibarco serviriam.
Uma arma interessante também foi testada pelos iranianos. Trata-se de uma embarcação que paira sobre o mar, como se fosse um avião, mas com principio de funcionamento semelhante a um hovercraft, que cria um “colchão de ar” entre a superfície da água e suas asas. Tecnologia de origem russa no período soviético, a alegada resistência ao radar pode ser pelo material utilizado, madeira e fibra de vidro. Armado com pequenos mísseis antitanque, o veículo apresenta boa capacidade de resolução em possíveis conflitos no estreito.
Os mísseis ar-terra Noor servem para atacar defesas antimísseis. Também se alega que lançada de longe, “além-horizonte”, o míssil passa a perseguir seu alvo quando próximo. Embora não seja uma nova tecnologia, ela representaria um significativo avanço bélico iraniano.
Se verdadeiras as informações, tais armas conferem ao Irã um poder de dissuasão e ameaça aos vizinhos Omã, E.A.U., Qatar, Arábia Saudita e Kuwait. Frente a este desafio, só há uma potência capaz de obliterar os intentos imperialistas iranianos e ela se chama Estados Unidos da América. Urge que o faça antes que Irã queira ensaiar seus primeiros passos.



[1] The Iranian Missile Program, Stratfor Today » November 27, 2007.
____________________
* E por falar em primeiros passos, eu agradeço ao Catellius por me convidar a contribuir em seu excelente blog, bem como ao sempre atento, André Balsalobre pela disponibilização das informações que se seguirão neste e em outros textos.
Obrigado a vocês!
Anselmo Heidrich

12 novembro 2007

A Vaia de Carmen Miranda

Assistindo a um documentário sobre a vida de Carmen Miranda, fiquei mais uma vez com a impressão de que não valorizamos o que é brasileiro, talvez devido aos governos se apropriarem de símbolos da nossa cultura para justificar o seu poder, como fez Getúlio Vargas, que usou a senhora Miranda como propaganda do regime. Desta forma, a repugnância a um regime acaba sendo transferida para um artista, herói, ou idéia apropriada por este regime.

Era um tempo diferente, onde quem cantava samba eram os negros e em que a elite ainda não era americanizada e sim afrancesada e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião. Nos EUA, a sua imagem era a de uma moça ingênua como convinha a uma mulher de então. De fato, dificilmente consegue-se ser tão inteligente em outra língua quando na sua própria, e no início ela deu entrevistas onde dizia conhecer apenas duas palavras em inglês: men e money.

Outra coisa que impressiona são pessoas suas contemporâneas hoje na casa dos 80 ou 90 anos com perfeito domínio das suas faculdades falando daquele tempo e mostrando uma boa capacidade de análise crítica e imparcialidade. Nos EUA, ela foi usada pela propaganda de guerra no esforço americano de aproximação da América Latina para uso de seus mercados e matéria-prima, daí a acusação de que ela havia se americanizado.

Na primeira vez em que voltou ao Brasil após o seu grande sucesso na Broadway, decidiu fazer um show para a alta sociedade carioca. Talvez em um esforço de aproximação, cumprimentou a platéia com um good night que foi seguido de um silêncio sepulcral, e após algumas musicas teve que se retirar do palco. O resultado era previsível, afinal a elite ainda não havia se americanizado e nunca tivera nenhuma afinidade com a cultura popular dos morros. Provavelmente, havia algo de inveja também mascarado por este desprezo.

Alguém já me disse que tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. Os judeus que o digam; o seu sucesso material tem um papel importante no ódio e inveja de que são objetos, além do fato de seus antepassados terem matado Jesus e Moisés (segundo Freud). O sucesso é difícil de se engolir até hoje, a Madonna que o diga.

Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma "classe média esforçada" mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos. Um tipo de vingança. Vejam o velho Marx, por exemplo, que antes de engravidar a sua empregada não conseguiu uma vaga de professor na sua universidade e passou a vida sendo sustentado por Engels enquanto preparava os seus petardos contra o capitalismo. A inveja é foda.

24 outubro 2007

Oportunidades

A oportunidade faz o furto. Qualquer nação, povo ou líder nasce ladrão. Sem falar nas muitas instituições. O sofrido (e ambíguo) anti-imperialista egípcio Gamal Abdel Nasser era, afinal, um descendente dos faraós. Até o nosso Brasilzinho incruento deu uma de realpolitik pra cima do Paraguai no Século XIX. Liquidamos quase todos os paraguaios homens, numa guerra cuja história ainda não foi satisfatoriamente contada, talvez. O curioso é que os dois maiores imperialismos dos Séc. XX, o dos EUA e o da URSS, nasceram de revoluções anti-imperialistas. O círculo e ciclo vicioso perfeitos.

Os EUA reagiram hostilmente à luta pela independência no Brasil. O próprio Jefferson esnobava nossa gente. Ah, e também houve a metamorfose da Revolução Francesa no imperialismo napoleônico, mas esse durou pouco. "As coisas devem mudar para continuarem como estão", diz Tancredi em Il Gattopardo, de Lampedusa (ilustração). Enfim, o revolucionário de hoje é o reacionário de amanhã: isso é meio verdadeiro, mas simplista, porque há muito mais por trás disso tudo.

O zé-povinho está por fora das sutis modulações do pensamento histórico. Hoje visto como imperialista, Israel era o paradigma da justiça e da virtude lá no começo. E se considera superior aos demais países, como todos os outros. O patriotismo não é só o último refúgio dos velhacos. O autor da frase, Samuel Johnson, sabia muito bem da força do condicionamento cultural, da língua, costumes, amibente, etc, sobre o indivíduo. Transferida essa força para o coletivismo da nação, da “raça”, do povo, temos os nacionalismos.

Às vezes me parece que quanto mais sofrido o grupo humano, mais paranóico. Quase todo brasileiro alfabetizado sabe que não passamos de uma Ruanda com elefantíase, mas no que fazemos bem (ou achamos que fazemos), futebol e carnaval, por exemplo, entregamo-nos a uma arrogância e insolência incríveis. Essa explosão tribal quando a Seleção ganha uma Copa poderia, em outras circunstâncias, ter sido recondicionada, digamos, para esmagar o Uruguai, a Argentina ou a Guiana Holandesa — e com todo mundo se achando do lado do “bem”. Qualquer superpatriota, seja americano, russo, chinês, israelense, árabe, nigeriano, etc, tem sempre explicações cartesianas para os atos do seu país. Não admite, em termos de nação, o irracionalismo que experimenta em si próprio. Idiota, mas verdadeiro.

Quem pode, quando pode, destrói e reprime enquanto der. Por exemplo, no último século, enquanto os comunistas matavam, os católicos se limitavam a nos condenar ao fogo eterno (e, no episódio do Holocausto, quando poderiam ter feito algo de bom, salvando muita gente, preferiram se omitir — ao menos a cúpula, no Vaticano). Uns estavam aproveitando a oportunidade, outros já haviam perdido a sua. Mas há outras formas de repressão ainda bastante ativas. Até hoje as várias Igrejas exercitam, ainda que sutilmente em muitos casos, uma certa repressão à liberdade sexual. O indivíduo com domínio e expressão de suas sensações escapa à engrenagem. A construção de todos os sistemas políticos e religiosos foi marcada pelo moralismo. O ódio entranhado de São Paulo ao sexo tinha relação com a repulsa necessária ao free for all do paganismo. Freud percebeu coisas assim, mas aceitou tudo fatalisticamente, como imprescindível ao progresso, embora considerasse impossível transformar nosso cerne biológico. Somos um animal domesticado, mas indomesticável, no fundo. Desse choque vem a nossa patologia psíquica. Uma das premissas da tradição judaico-cristã é a de que temos de ser aperfeiçoados para um destino autotranscendente, superior, ad majorem Dei gloriam. A mística da perfeição.

Prefiro a mística da imperfeição do homem, antes da conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo. Os gregos e romanos pregavam a imperfectibilidade do homem como condição permanente, a ser dosada por melhorias, devagar, aos poucos e com realismo. Aristóteles, principalmente. Tomás de Aquino batizou-o, postumamente, mas extraiu muito do que havia de mais sadio. Se Freud tinha razão ao dizer que os judeus assassinaram Moisés no deserto, por não agüentarem mais a tirania salvacionista do líder, estes fizeram muito bem. Em certos momentos históricos, o lema devagar e sempre merece os nossos mais altos protestos de estima e consideração.

18 setembro 2007

Lições Hollywoodianas

Outro dia eu estava assistindo a Jornada nas Estrelas, a 18ª geração ou sei lá. Que saudades do capitão Kirk e do velho Spock. Neste episodio, a nova tripulação enfrentava uns tais Borgs, seres meio humanóides e meio máquinas cujas mentes estavam ligadas a uma rede chamada de "Coletividade". Não podia ser tão óbvio; os mocinhos estavam lutando contra um regime socialista e totalitário onde as individualidades haviam desaparecido! Que lição mais proveitosa para as criancinhas. Ali já estava presente o incentivo ao individualismo e o culto ao mérito, que encontra seu ápice nos super-heróis.

Falando neles, temos o Super-Homem, um extraterrestre de Kripton que acaba se tornando o melhor dos americanos. Existe um monte de Super-Homens nos EUA, estrangeiros literalmente vindos de lugares que os americanos nem imaginam onde ficam e que acabam se tornando o sal da terra da América. Muitos deles são filhos de elites de todo o mundo que não vêem possibilidades em seus países e acham que seus filhos terão mais oportunidades em um país que valorize o mérito e o esforço individual.

Os americanos são obcecados pelo sucesso. Tudo começa na escola, como já vimos em milhares de filmes de "High School". Aparentemente, na escola deles ocorre uma estratificação dos alunos em grupos definidos por suas habilidades. Temos os intelectuais, que amanhã podem ir trabalhar no Vale do Silício, as patricinhas, que podem ser tornar modelos, atrizes ou casar com homens ricos; temos os atletas, que podem se tornar jovens milionários; temos os debatedores, que podem vir a ser líderes de alguma coisa, políticos ou jornalistas. Mas o grande valor parece ser sempre o inconformismo com o grupo e a busca pela inovação. A necessidade de acreditar em si mesmo, não ser apenas mais um, de trabalhar e não ser um "loser".

Infelizmente, ninguém consegue ser tão especial e tão invencível exceto os Jason Bournes e o policial de Die Hard, que teve ter uns 8 litros de sangue no corpo. Afinal, são homens aparentemente normais que escondem uma determinação implacável e uma capacidade incrível de suportar a dor. Estes filmes são verdadeiras catarses. Curiosamente, são heróis solitários, livres da busca neurótica pela companheira perfeita.

Mais uma vez, tudo culpa de Hollywood. Ainda sou apaixonado pela Branca de Neve, embora hoje prefira a Trinity de Matrix; podemos revivê-las com um beijo. Considerando-se as balas perdidas de nossa perdida guerra civil, seria um boa habilidade de se ter em uma companheira... Esperar a perfeição em alguém é tão injusto quanto esperá-la em si mesmo. Como se depreende da Bíblia, a partir do simbolismo do pecado original, somos seres essencialmente falhos e destinados a não durar....dust in the wind.

A liberdade é o maior valor para os americanos e vale tudo em Hollywood para exaltá-la. Quantos filmes falando da Guerra da Independência e quão poucos sobre a conquista de metade do México. Quantos filmes sobre a paranóia do cidadão contra o Estado e suas elites políticas, que sempre conspiram pelo totalitarismo. Para eles é melhor morrer livre do que viver como um escravo. Em outros, é melhor morrer rico do que viver pobre...
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