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16 setembro 2013

Que mérito há?

Baal, um exemplo de deus de pedra
Jesus disse, conforme se lê em Mateus 5, 47: “Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?” É aquele tão famoso quanto nocivo e antinatural "amai vossos inimigos", que, por ser impraticável, é útil para produzir pecadores, muitos dos quais submeter-se-ão de rastros aos administradores da salvação, os representantes de Deus na Terra.

Elencarei os meus “que mérito há”, ressalvando, com palavras de José Ingenieros, que “as verdades gerais não são irreverentes; deixam entreaberta uma frincha, por onde escapam as exceções particulares”.

Antes gostaria de assinalar a diferença entre mérito e aptidão, mérito e qualidades dele independentes. Exemplos: parti do zero e hoje tenho 100 milhões de reais, menos portanto do que alguém que herdou 200 milhões e nunca trabalhou. Determinado romano conhecia mais do latim, em todas suas nuances, do que um PhD nesse idioma, nos dias de hoje. Este tem mais méritos do que aquele, que poderia ser um retardado mental de toga. Já a palavra "meritocracia" relaciona-se a "aptidão"; talvez fosse etimologicamente apropriado usar "meliocracia". Mas agora que o termo já existe, fiquemos com ele.

Que mérito há em ser bom, puro, quando se é criança e não se tem mais maldade que um bichinho irracional qualquer? Mérito há em ser bom quando se conhece o mal e se é capaz de praticá-lo, de preferência sem prejuízo imediato para si. Todos facínoras foram crianças puras. Quantas crianças puras serão adultos probos? Adão e Eva só passaram a ter mérito em serem bons depois de aceitarem a sugestão da serpente e comerem o fruto proibido.

Que mérito há em gostar de uma sinfonia de Schubert, da Carmen de Bizet? Isso lá demanda empenho, sabedoria, denota nobreza? Pessoas muito menos distintas que cachorras de baile funk já se deleitaram, no século XIX, com Verdi e Rossini. Mérito há em ter composto suas óperas, em saber executar a parte de um instrumento, ao menos em ser um grande connoisseur. Julgo que haja demérito em não se apreciar Beethoven, em não conhecer o pensamento de Nietzsche, em ser incapaz de compreender seus livros, ainda que se viesse a divergir de tudo. Entretanto, o demérito de uns não implica em mérito dos outros. Muitos serem desonestos não faz de mim um herói merecedor de medalhas, se apenas cumpro com meu dever. Escrevi um post sobre isso. Saber quem foi Aristóteles, conhecer o que os pináculos de nossa espécie fizeram pela nossa evolução - não darwinianamente falando - é obrigação de homo sapiens. Mas o mérito é de Aristóteles, não de quem o compreendeu. Poderão me questionar: "então posso afirmar que é nosso dever ser bom. Demérito há em ser mau". Discernir o bem do mal, ser justo, nem sempre é fácil. É necessário empenho constante, que se medite, filosofe, que se arque com eventuais prejuízos imediatos. Não furtar é obrigação.

Que mérito há em ser humilde quando não se tem do que se orgulhar? Muitas vezes o sábio, que poderia jactar-se de seus conhecimentos, descortina a infinitésima parte de um universo diante do qual se sente um grão de areia, daí adota uma postura humilde. Não perante os homens; é-o para si mesmo e para o universo. Como Sócrates, diz "só sei que nada sei". Há o humilde como mero sinônimo de pobre, que pode ser orgulhoso, cheio de brios. Se tem um amigo bem de vida e seu fausto o incomoda - ainda que não o admita -, aguarda uma brincadeira inocente do amigo, um pretexto qualquer para, mui ofendido, mostrar que é pobre, mas tem honra e dignidade, e então priva-o de sua companhia. E há o que se humilha para ser exaltado, porque a humildade passou a ser um valor em si, desde que a moral do escravo (cristianismo) passou a viger.

Que mérito há em perdoar quando não se pode retaliar? Hoje perdoa-se como terapia, para não se intoxicar com a bílis corrosiva da revolta, para não se prejudicar o sono, para se tirar um fardo das costas e voltar a viver. Portanto, pela própria saúde, perdoa-se os poderosos que nos prejudicaram e que estão acima do bem e do mal, os facínoras foragidos ou mortos. Há aqueles que perdoam sem pensar no próprio bem-estar, por boa índole, ou por cacoete cristão, talvez contraído por obediência contumaz ou pela promessa dos galardões celestiais - a inatingível cenoura suspensa diante de seus olhos. E, por fim, há aqueles que querem e podem retaliar, mas perdoam magnanimamente, talvez com uma pitada de desprezo. Ter a oportunidade para retaliar impunemente talvez já funcione como a própria desforra, não?

Que mérito há em fazer caridade sem ela representar algum tipo de sacrifício, se é feita com o dinheiro alheio, ainda mais quando o efeito colateral é o proselitismo religioso ou o político-partidário, no caso de esmolas estatais? A liberalidade com o dinheiro de outrem é fácil, principalmente quando temos nossos altos custos missionários pagos por ele. Mérito há em doar do próprio bolso. O generoso, como o herói, desfaz-se de algo que é seu e de que necessita, em prol de outros. Aristóteles já defendia a propriedade privada porque, entre outras razões, as pessoas somente podem ser generosas se têm algo para dar.

Não há mérito em ser casto quando não se é mais atormentado por hormônios sexuais. Muitos velhos que já aproveitaram sua juventude, agora enfastiados, meio amargurados pela morte cada vez mais próxima, ressentem-se da juventude, do sexo, da vida desfrutada inconsequentemente por seres imaturos de pele viçosa, cheios de energia e de paixões. O velho preconiza veementemente que cuidem do espírito, que não incorram nos erros que ele próprio cometeu. Ora, maior é o mérito do jovem bonito casado torturado pelos próprios hormônios, sem medo de represálias divinas, em terra estrangeira e sem testemunhas, assediado pelo belo sexo, e que mesmo assim mantém o contrato de monogamia com a esposa. Se a ama muito e não pensa em mais ninguém, o mérito diminui um pouco. Poderão me questionar: "não disseste que o demérito de uns não implica no mérito de outros?". Sim, mas são outros quinhentos quando a carne tiraniza... Enfim, se o sujeito é feio, não é assediado, tem medo do inferno, não é vítima dos próprios hormônios, não vejo muito mérito em sua castidade. Que mérito há no único homem de uma ilha não ter querelas com outros seres humanos? É evidente que a velhice suscita mil méritos, pelo cenário de decadência física e consequentes provações, pela tendência ao pessimismo e à casmurrice. Montaigne produzir aqueles profundos, deliciosos e otimistas ensaios sob as atrozes dores de parto de suas pedras nos rins aumenta, definitivamente, seu mérito em tê-los escrito.

Que mérito há em ser ateu quando se tem saúde e dinheiro? Não existe ateu em aviões caindo, dizem. Muito pelo contrário. Quando eu voltava do Japão, o avião sofreu uma violenta turbulência. Olhei para os lados e reparei nas expressões dos passageiros. Praticamente todos estavam de olhos fechados e balbuciavam orações. Fiquei com vontade de rir e minha esposa censurou-me com um empurrão, com medo de que eu gargalhasse. O voo normalizou e todos devem ter agradecido a Deus pela graça alcançada, porque certamente o avião teria caído se ninguém tivesse rezado. Eu, por meu turno, confio nas estatísticas. Voltando, o mérito em ser ateu pode ser menor, mas não confio tanto no juízo de quem perdeu a frieza de raciocínio, cultivada nos tempos em que pensava livre de ameaças e de medos, por temor da morte.

Logo após o jejum de quarenta dias e quarenta noites, superado pelo carioca Erikson Leif, que ficou comprovadamente 52 dias sem comer, Jesus foi tentado pelo demônio. Que mérito há em rejeitar os reinos terrestres que o diabo oferece quando se é o próprio cocriador de tudo o que existe e de tudo se pode dispor quando bem entender? O C. Mouro bem disse: "É como alguém querer subornar o filho do Bill Gates oferecendo-lhe uma cópia pirata do Windows 95".

Que mérito há em realizar profecias como "entrar em Jerusalém montado num jumentinho", quando é tão fácil roubar um para cumpri-las? Para aqueles "lírios do campo", difícil seria trabalhar para conquistar o próprio meio de transporte, isso sim. Ok, Jesus ordenou aos discípulos que, se o dono dos animais reclamasse, lhe dissessem que necessitava da jumenta e do jumentinho e que sem demora os devolveria.

Que mérito há em dar a vida pela humanidade sabendo que se ressuscitará no terceiro dia? O herói que dá a própria vida ou que a arrisca por outros que não conhece – sacrificar-se pelos familiares demanda menos heroísmo – sabe que a terá perdido irremediavelmente, com todos os encantos que pode proporcionar. Quantos não pulariam do alto de penhascos se soubessem que voltariam a viver depois de 36 horas? Creio que haveria parques de diversões “radicais” onde viciados em adrenalina morreriam em acidentes de avião para sentirem na pele toda a emoção do desastre. Esbaldar-se-iam em uma festa de arromba de lápide, chamada por exemplo de “Ressurrection Rave”, após letargias de 36 horas em sepulcros de luxo como o de José de Arimatéia, amigo de Jesus que lhe emprestou sua tumba com a condição de que a desocupasse em pouco tempo.

Ah, e que mérito há em ter seus erros resgatados por outrem?

Que mérito há em um deus onipotente criar todas as coisas? Deve ter-lhe custado menos que a tartaruga ganhar a corrida da lebre, na fábula de Esopo, dado menos trabalho do que um bezerro recém parido equilibrar-se sobre os cambitos. Além do mais, um ser perfeito não age senão do melhor modo possível, nunca se vê no dilema de escolher entre duas ou mais opções, não precisa de discernimento porque não escolhe, não tem livre-arbítrio; se não o possui, não tem mérito, não é inteligente, é uma engrenagem natural, é como uma pedra. Baal não era de pedra e, não obstante, era deus? Pensando bem, as palavras gravadas no tambor cilíndrico da base da cúpula da Basílica de São Pedro, retiradas de Mateus 16, 18, são bem verdadeiras se as considerarmos direcionadas para Javé: "Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam mean" - Tu és Pedro (pedra) e sobre esta pedra edificarei minha igreja.

No Gênesis, Javé parecia-se mais com um deus vivo. Até mesmo descansou no 7º dia... Na verdade, aquele era o primeiro dia em que o homem criava deus, e este era ainda mal acabado, recém saído do barro. Cometia erros e arrependia-se. De moral torta, afogava crianças em dilúvios, sua onisciência e onipresença não estavam plenas e ele precisava perguntar às criaturas o que faziam, descer de seu trono para ver de perto a torre construída em Babel, era ciumento, iracundo. Hoje, no sexto dia da criação, seus atributos presentes retroagiram e ele sempre foi um onipotente, onisciente, onipresente e bondoso deus cristão panteísta zen-budista, que salvará até mesmo os ateus malvados, porque não sabem o que fazem e portanto devem ser perdoados, como pediu Jesus enquanto estava pregado na cruz - pregado mas divinamente anestesiado, imagino.

Concluo este post com uma última pergunta retórica, sob a premissa, claro, de que somos regidos por um deus capaz de tomar decisões: Se devemos amar os inimigos, porque não há mérito em amar os que nos amam, que mérito há em salvar apenas os crentes bondosos? Qualquer deus é capaz disso. Mérito há em destinar ao paraíso ateus irônicos que se riem das sagradas histórias da carochinha contadas por aqui desde que passamos a ter medo da morte...

28 agosto 2013

Hemorroidas de ouro

Conforme lemos na Bíblia, nos capítulos 5 e 6 de I Samuel, os filisteus apoderaram-se da Arca da Aliança e meteram-na no templo de Dagon, colocando-a junto do ídolo. No dia seguinte viram-no estendido com o rosto por terra diante da Arca. Ergueram-no e na manhã seguinte estava novamente deitado, mas sua cabeça e suas mãos estavam desprendidas e jaziam perto do limiar do templo. E o fogo do Senhor desceu sobre a população e queimou-lhes... melhor dizendo, feriu por sete meses com hemorroidas os habitantes de cinco cidades filisteias pelas quais a Arca passou, desde bebês de colo aos mais idosos, e muitos acabaram morrendo. Depois que as fileiras inimigas sofreram este devastador ataque pela retaguarda, os adivinhos e sacerdotes de Dagon apelaram para a magia simpática e aconselharam os príncipes a devolver aos hebreus a Arca e que pusessem em seu interior, guardados em um cofre, ratos e hemorroidas de ouro como ofertas expiatórias. Os líderes filisteus assim o fizeram e a ira de Javé não se abateu mais sobre a população.

A intuição dos adivinhos e sacerdotes do pobre deus filisteu esquartejado serenou Javé e inspirou em Israel a formação de um departamento especializado de expiadores de pecados em uma inédita modalidade de holocausto em que não havia sangramento de cordeiros em altares, ainda que os sangramentos fossem mantidos. Aqueles que não encontravam trabalho melhor eram recrutados para ingerirem pouco líquido, pouca fibra e passarem o dia sentados. Se nada disso adiantava, os iracundos levitas conduziam-nos para trás da cortina de linho do Santo dos Santos para ajudá-los a produzir entre as bochechas inferiores a odiosa e dolente couve-flor entumecida. Quando atingia-se o objetivo, os funcionários sentavam no gesso úmido, e este era, definitivamente, o momento mais aprazível da profissão. Seco o molde, os levitas enchiam de ouro líquido o côncavo no cal endurecido.

Lá do alto Javé seguia todo processo murmurando "assim, assim, isso...". Quando levavam as hemorroidas de ouro ao templo, dentro da Arca da Aliança, o criador do universo aguardava as portas se fecharem, transportava para o céu as pedrinhas, brilhantes como estrelas, e as contemplava, deleitando-se com a agonia que representavam. "Serão símbolo de sofrimento e também de expiação, estarão nos altares do mundo inteiro, em Roma haverá uma hemorroida descomunal esculpida em mármore de Carrara por Vincenzo Gemito e em Assis os afrescos de Giotto di Bondone lembrarão à cristandade o supremo sacrifício do Messias, morto empalado", pensou um dia. Mil anos depois, precisamente no ano 70 a.C., enquanto assistia de camarote à divertida morte de Espártaco na cruz, lembrou-se de que ele próprio é que sofreria lá no Gólgota toda aquela agonia que planejara, mudou de ideia e conduziu os acontecimentos de modo que fosse crucificado pelos romanos 103 anos depois.

Apesar de Jesus ter de fato morrido na cruz, o linguista alemão Alois Walde defendia que na Roma antiga o termo "crucifixão" também podia se referir a empalamento. Isto deriva do fato de a cruz ser formada pelo esteio e pelo patíbulo, a trave horizontal que o sentenciado carregava, e de os romanos usarem o primeiro termo para designar ambos empalamento e crucifixão, distinguíveis apenas no contexto dos escritos. Além disso, a palavra grega Staurós (σταυρός), traduzida na Bíblia como "cruz", significava originalmente estaca ou poste. Daí a confusão que muitos fazem em torno ao modo como o Messias morreu. Eles também não consideram profecia a seguinte passagem nos Salmos: "Traspassaram minhas mãos e meus pés".

Seiscentos anos depois Javé decidiu mitigar a agonia daqueles que seguiram seu filho (ele mesmo) - os cristãos -, e lhes enviou São Fiacre, hoje o padroeiro de quem sofre de hemorroidas. Este irlandês padecia da desagradável enfermidade, chamada posteriormente na alta Idade Média de "Mal de São Fiacre", e num belo dia sentou-se em uma pedra e foi milagrosamente curado. Hoje peregrinos vão à igreja que leva o nome do santo, na Bretanha, e imploram por uma cura enquanto assistem à missa inteira ajoelhados, por fé e também porque as doações não permitiram ainda acolchoar os bancos. Quando o santo não os cura apelam para a cirurgia e depois agradecem a Deus por tanto amá-los...

28 dezembro 2012

Falta-lhes a focinheira adotada por aqui

Manda o bom senso que fiquemos alertas quando a maioria religiosa oprimida repete sem cessar gritos de ordem contra um grupo religioso minoritário opressor, como ocorre hoje contra muçulmanos na Europa, como aconteceu contra judeus pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Guardemos as devidas proporções, logicamente; a principal diferença é que judeus eram discretos e cometiam crimes como possuir dinheiro e emprestá-lo a juros, e presidir academias de arte e conservatórios de música - passíveis portanto de despertar ódio incomensurável em artistas geniais rejeitados -, enquanto os muçulmanos são de fato atrasados, invejosos, belicosos, uma ameaça à democracia e imperdoavelmente feios. Crimes de grandes proporções contra muçulmanos são raros, mas incidentes como intimidações, brigas, vandalismos e pichações com termos injuriosos têm sido cada vez mais comuns. Incomodam também turistas, mesmo que estes não o confessem, que preferem topar com europeus claros quando viajam, porque estes compõem melhor o cenário de castelos antigos e montanhas com neve. Mesmo se abundassem, loiros de olhos azuis convertidos à ala ruidosa do islamismo não incomodariam tanto quanto cristãos africanos negros cordatos, por não enfearem a paisagem. Turistas do extremo oriente também irritam, pois são todos iguais e usam bonés, chegam aos milhares e tornam insuportáveis os locais cuja manutenção depende sobretudo de seu dinheiro. Mas pelo menos estão de passagem, são bonzinhos e tomam banho.

Seria impossível um mundo islâmico tolerante?

Estudo feito pelo Pew Research Center's Forum on Religion & Public Life, divulgado em agosto de 2011, expõe que quase um terço da população mundial vive em países onde há restrições à liberdade religiosa, relacionadas a governo ou hostilidades sociais. Destes países, sete em dez são islâmicos. Contudo...

A Turquia tem praticamente 100% de muçulmanos. Atatürk substituiu os trajes árabes no trabalho pelo terno e gravata, promoveu a educação e o trabalho para mulheres e liberou-as da obrigatoriedade do véu, adotou o alfabeto latino, descriminalizou imagens figurativas na pintura e escultura, converteu em museu a Santa Sofia, antiga basílica transformada em mesquita por Mehmet II, passando a exibir, juntamente com os dizeres "Alá é Grande e Maomé é seu profeta", mosaicos antigos cristãos; encomendou a tradução, do árabe para o turco, do Alcorão, que só podia ser lido no idioma ditado pelo anjo Gabriel, o mesmo que fez o exame pré-natal em Maria. Recentemente, 12 mil turcos saíram às ruas em defesa da sociedade secular, ameaçada por extremistas islâmicos. O Azerbaijão tem 95% de muçulmanos e é, como a Turquia ( e Bósnia e Herzegovina), um país secular onde há liberdade religiosa.

A Malásia tem maioria muçulmana e há liberdade religiosa, sendo reconhecida pelo Estado a conversão do Islã para outras religiões.

Não seria nenhuma surpresa se a Indonésia, com seus quase 90% de islâmicos, cancelasse as leis contra a blasfêmia e a hostilidade contra outras religiões. É um país rico e com algumas características democráticas - embora não seja uma Turquia -, com quase 10% de cristãos e seis religiões reconhecidas pelo Estado. Bangladesh também tem aproximadamente 90% da população muçulmana, e os casos de intolerância eram raros até uns anos atrás.

O Irã, 100% islâmico, foi um dos países mais abertos do oriente, até 1979, com uma vanguarda cultural e uma indústria sofisticada de cinema e televisão. Mulheres fumavam, usavam minissaia, iam à universidade, namoravam em público. O Afeganistão tinha realidade semelhante: maioria islâmica e liberdade.

Os muçulmanos, certamente apesar do Alcorão, criaram nos tempos antigos um padrão para a tolerância religiosa ao qual o mundo não estava acostumado. Muçulmanos protegeram judeus contra cristãos, cristãos orientais contra católicos romanos. Em Bagdá, sob os abássidas, e na Península Ibérica, sob os omíadas, muçulmanos eram mais tolerantes do que cristãos, ainda que às vezes as minorias devessem pagar um imposto para poderem professar a própria fé em sossego. Após a Reconquista, judeus e muçulmanos, que viviam pacificamente no Califado de Córdoba, passaram a ser ferozmente perseguidos, mesmo após se converterem ao cristianismo. Um cristão não comer porco às vezes era o suficiente para ser tratado como judeu: linchado, claro. Os muçulmanos sob o reinado de Saladino eram mais tolerantes do que seus contemporâneos cristãos, nomeadamente os cruzados. Exemplos abundam. No mundo muçulmano prosperaram a matemática, a astronomia, as letras, a filosofia.

E isso tudo sob o mesmíssimo Alcorão. O que falta aos muçulmanos é uma sociedade secular forte para lhes meter uma focinheira reforçada. Falta-lhes um Atatürk, um Napoleão, um grande domador de feras.

Cristãos sempre foram tolerantes?

O Novo Testamento não era diferente nas épocas de Savonarola e Torquemada. E o que os cristãos fizeram com os judeus nos últimos dois milênios? Qual era o sentimento da cristandade em relação a eles, pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, há algumas décadas?

Há pouco mais de 100 anos, Pio IX ameaçou de excomunhão quem apoiasse a democracia, quem votasse, quem promovesse a igualdade de direitos das mulheres e a liberdade religiosa, numa época em que o anátema valia alguma coisa, pois o excomungado era banido da vida social, em geral em torno à Igreja. Esta foi se adaptando à força, deixando de ser religião oficial em países latinos, avançou a reboque dos próprios fiéis e dos de outras denominações, dos críticos e dos descrentes, sempre rugindo e esperneando, excomungando, proibindo livros, associando-se a ditadores e a qualquer tábua que lhe ajudasse a se manter na superfície do poder. E hoje está bem mais branda. Na verdade, está praticamente extinta. Seus fiéis não conhecem sua doutrina. A grande religião do ocidente agora é o cristianismo à la carte, em que se apanha o que interessa e se abandona o que se julga inconveniente, onde se considera literal o que está em harmonia com princípios humanistas seculares, e simbólico e "fruto do pensamento da época" o que vai de encontro a eles. E adora-se uma mistura de Deus bíblico com panteísta, zen budista. Um deus politicamente bonitinho que gosta de veados e putas, e apoia suas atitudes, e que não manda ninguém para o inferno porque é bonzinho. Incentiva todos nossos projetos e nos ajuda a achar vaga em estacionamento concorrido.

O que os muçulmanos precisam aprender com os cristãos é considerar simbólicas algumas passagens do Alcorão, ou fruto do pensamento da época, é colocar os princípios humanistas acima dos divinos, é criar um Alá hippie à la carte, um Maomé Superstar.


Lê-se na Veja Online:

"Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais."

O comportamento de um flamenguista numa multidão de vascaínos é um, em meio a milhares de flamenguistas é outro, principalmente se avistar um vascaíno desgarrado por perto. A História o demonstra. Se não houver policiais (sociedade secular forte), o grupo preponderante tenderá a agir com intolerância. O que a religião desperta no indivíduo que se sente autorizado e reforçado pelo grupo é muito semelhante ao que o clube do coração desperta no torcedor quando se sente parte de uma massa sem rosto, onde anonimamente pode dar largas a tudo o que individualmente não teria coragem de fazer, principalmente se for um ressentido, como é a totalidade dos fanáticos. A culpa é dividida em milhares e, afinal de contas, "dei apenas um chutinho no estômago, não sou o responsável pela sua morte". A massa soma força, não inteligência.

Tanto cristianismo quanto islamismo são perigosos quando a sociedade está nas mãos de seus líderes, quando ela vive sob suas boas intenções. Quando os líderes cristãos e muçulmanos e toda a religião estão sujeitos a leis superiores às divinas - as humanas, regidas por princípios de liberdade, pela convivência -, aí sim é possível ter paz e tolerância. E é por isso que aos católicos incomodam mais os laicistas do que os muçulmanos. Ambas religiões veem no secularismo uma ameaça às suas mordomias e aspirações totalitárias, ainda que em estado de dormência. Onde há humor, liberdade religiosa e de opinião, onde não há leis contra a blasfêmia, os líderes religiosos não conseguem aquela gosmenta aura de importância sacra tão imprescindível para que seus absurdos escorreguem goela abaixo dos homens, às vezes tão questionadores e sensatos.

Enfatizo alguns pontos, por fim:

- Acho os muçulmanos atrasados e condeno as atitudes daqueles que usufruem do que o continente europeu tem de bom e se valem da democracia para condená-la, o que é um contrassenso.

- Apoio a decisão da Noruega de não aceitar financiamento para a edificação de mesquitas quando vem de países que proíbem a construção de templos de outras religiões.

- Não deve haver tolerância para com a intolerância, leis diferentes aplicadas a grupos diferentes em um mesmo país.

- Penso que a Europa deva preservar as características arquitetônicas e históricas de determinadas áreas (o Vaticano, por exemplo, rsrs). Contudo, não vejo problema algum na construção de mesquitas por lá. Que construam um milhão.

- Vaticano e Islâmicos são ambos ameaças ao sadio espírito secular europeu, conquistado a duras penas, o primeiro uma ameaça latente, o segundo uma ameaça real e direta.

- Acho que o próprio Novo Testamento levado ao pé da letra é extremamente perigoso, e o Velho Testamento está na Bíblia, Jesus não o aboliu, aquilo é um verdadeiro manual de maus costumes, do nível do Alcorão. Se foi possível domesticar os cristãos e vários países de maioria muçulmana já tiveram longos períodos de tolerância, entendo que o problema é uma religião hegemônica ter muito poder, influência sobre o Estado, é estar acostumada a ditar o que todos devem fazer.

14 maio 2012

As Grandes Utopias: o Cristianismo, o Socialismo e o Individualismo

O que define a Europa e o próprio Ocidente é o seu berço cristão, ou seja, um bando de hereges judeus fugindo da perseguição por seus compatriotas acabou espalhando pelo mundo romano a palavra do líder da sua seita. Por que o cristianismo triunfou enquanto outras tantas religiões orientais que chegaram a uma decadente Roma pereceram? Alguns autores dizem que os cristãos criaram uma rede de proteção social aos doentes e desassistidos que se revelou de grande utilidade em um Império Romano em decadência.


O cristianismo pregava que todos eram irmãos em Cristo. Este conceito hoje bastante batido tinha a capacidade de aproximar homens que não pertenciam a uma mesma tribo e irmaná-los em uma hipertribo. Em uma época em que o pertencimento a pequenos grupos sociais era fundamental para a sobrevivência, este elemento foi um importante cimento social.


Muitos duvidam que Cristo tenha ressuscitado, mas é certo que o Império Romano ressuscitou na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que acabou conquistando os bárbaros que destruíram Roma. Esta nova Igreja usou o Império para eliminar seus hereges enquanto o Império usou esta Igreja para obter legitimidade.


Tanto o socialismo quanto o individualismo são doutrinas cristãs. A partir da ideia de irmãos em Cristo, de justiça e de busca de um paraíso para o proletariado, chegamos ao socialismo, enquanto as idéias de salvação individual e livre arbítrio estão na base das doutrinas individualistas. De fato, há quem defenda a ideia que a democracia contemporânea tem suas bases na escolha do presbítero pela Assembléia entre os protestantes, ao invés de remotos modelos gregos. Aparentemente, Weber achava que o próprio capitalismo tinha muito a dever à ética protestante.


O problema da Igreja é o mesmo problema de outras utopias. Nenhum homem está à altura delas. Infelizmente, o Papa não é infalível, Marx tinha o hábito burguês de comer a empregada e os mercados financeiros regulados apenas pela racionalidade individual quase destruíram o capitalismo em 2008.


Afinal de contas, talvez a culpa por espalhar estas utopias não seja de um bando de bêbados e bacantes italianos mas de um bando de pescadores gregos desocupados. Como todos sabem, pescadores tendem a ser mentirosos e talvez Platão não tenha escapado a esta sina. Este culto de alto ideais acabou criando metas tão elevadas que só podem alimentar mentiras e decepções. Quem sabe esta busca pelos ideais acabou nos levando a perder o próprio significado de humanidade?

11 maio 2012

De Condenador a Completo Inútil


O Homem do Terno Risca de Giz

Era uma rua como muitas outras; lojas no térreo, residências nos pavimentos superiores, de cujas janelas pendiam roupas e mães gritavam às crianças que brincavam pelas calçadas, comerciantes a anunciar seus produtos, os indesejados gatunos de sempre, além de cantores, policiais, mendigos e outros personagens do teatro urbano. Eventualmente, um velho caía e trincava a bacia, uma esposa apanhava do marido. E havia relatos de assassinatos, os quais, contudo, eram bem raros.

Certo dia, um homem de terno risca de giz, chapéu homburg e sapatos bicolores foi de loja em loja oferecer proteção contra os gatunos, que, segundo dizia, sem tirar o charuto da boca, seguiam agora um líder cujo propósito era destruir todas as lojas sem nada lhes subtrair, por simples vandalismo. A proteção tinha um preço, logicamente, para cobrir os custos.

Os comerciantes avaros que se recusaram a pagar pela proteção tiveram seus estabelecimentos destruídos, e os que resistiram foram friamente espancados ou mortos. Malvados gatunos.

Em outras paragens a vida seguiu normalmente por um tempo, até o dia em que não havia um local no país que não dependesse da abnegada assistência do homem do terno risca de giz. Em outros países, homens como ele protegiam seus concidadãos, o que o irritava um pouco, pois queria ser o único protetor do mundo.

O Homem da Túnica de Lã de Ovelha

Qual deus criaria homens para enviá-los todos ao sofrimento eterno, bons e maus, por não adorarem seu filho, único caminho para a salvação mas que ainda não lhes fora apresentado? Antes de Jesus, bastava ser bom na Terra para adentrar o paraíso. Deixemos de lado os deturpadores da Bíblia, que afirmam que naquela época não existia vida após a morte.

Após milhares de anos tentando debalde tirar os pecados do mundo com chuvas de fogo, dilúvios e pragas, Javé enviou seu único filho para morrer pela humanidade, na sua derradeira tentativa de salvá-la. Jesus revelou aos homens ser o único caminho até o paraíso, e que aqueles que não o aceitassem padeceriam eternamente no inferno, ainda que fossem bons. Jesus, destarte, inaugurou a modalidade do bom que vai para o inferno.

Nos locais cujos habitantes ainda não conheciam o amor cristão, se um justo morria, Jesus lhe dava então a oportunidade de aceitá-lo, o que, convenhamos, é estar em uma situação muito mais cômoda do que a nossa, aqui às cegas, uma vez que já se está no além-vida e seria burrice continuar cético ou adorar um deus diverso daquele manifestado. Seria de uma crueldade de fazer inveja a Lúcifer Javé enviar milhões de chineses para o inferno, sumariamente, mesmo depois de Cristo, apenas porque um missionário ainda não lhes anunciara a Boa Nova.

Enganou-se, portanto, Javé, pois Jesus acabou vindo como Condenador, não como Salvador. Repetindo, veio única e exclusivamente para condenar bons, uma vez que antes dele os bons já estavam salvos e os maus condenados. Lembra-me um pouco o homem de terno risca de giz do princípio do post.

Mas eis que chega o Concílio Vaticano II, segundo (perdoem-me o eco) católicos conservadores o torpe fruto da infiltração protestante, maçom e judaica no seio da Santa Madre Igreja. Com ele, Jesus passa de Condenador a um completo inútil. Vejamos um capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium:

Relação da Igreja com os não-cristãos
16. Finalmente, aqueles que ainda não receberam o Evangelho, estão de uma forma ou outra orientados para o Povo de Deus (32). Em primeiro lugar, aquele povo que recebeu a aliança e as promessas, e do qual nasceu Cristo segundo a carne (cfr. Rom. 9, 4-5), povo que segundo a eleição é muito amado, por causa dos Patriarcas, já que os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cfr. Rom. 11, 28-29). Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e connosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia. E o mesmo Senhor nem sequer está longe daqueles que buscam, na sombra e em imagens, o Deus que ainda desconhecem; já que é Ele quem a todos dá vida, respiração e tudo o mais (cfr. Act. 17, 25-28) e, como Salvador, quer que todos os homens se salvem (cfr. 1 Tim. 2,4). Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna (33). Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho (34), dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final. Por isso, para promover a glória de Deus e a salvação de todos estes, a Igreja, lembrada do mandato do Senhor: «pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc. 16,16), procura zelosamente impulsionar as missões.

 Pelo que entendi então, Jesus é quem salva. Passou a salvar até quem não crê nele, o único caminho. O que não se faz pela clientela...

No fim das contas, voltou a ser tudo como era antes da vinda do Rabi de Nazaré. Que confusão dos infernos!

21 dezembro 2009

Os deuses precursores

Janer Cristaldo


1. JEZEUS CRISTNA

Desta última viagem, voltei com alguns livros daqueles que não encontramos aqui. Destaco dois. De Karen Armstrong, minha teóloga predileta, Los Orígenes del Fundamentalismo en el Judaísmo, el Cristianismo y el Islam. Armstrong, eu a conheço desde há muito e tenho boa parte de suas obras em minha biblioteca. O outro livro foi Pablo de Tarso, ¿Apóstol o Hereje?, de autora espanhola que desconhecia, Ana Martos. Apesar de alguns lapsos, como falar da existência de três reis magos na Bíblia – o Livro fala apenas de magos, jamais diz que são reis e muito menos que são três – Martos faz importantes reflexões sobre as origens do cristianismo e sobre a heresia de Paulo.

Para começar, segundo a autora, os poemas e livros sagrados hindus, que narram o mito do primeiro casal que desobedeceu e foi expulso do paraíso terrenal do Ceilão, afirmam que Brahma finalmente os perdoou, mas que, posto que era um deus, conhecia de sobra a natureza humana e soube de antemão que continuariam pecando e ofendendo-o, porque o mal já havia entrado no mundo e não era fácil tirá-lo dali. Por isso, decidiu enviar Vischnu, a segunda pessoa da Trindade, para que se encarnasse no ventre de mulher mortal e redimisse o gênero humano do mal e da morte eterna. Vischnu se encarna mais de uma vez. Sua oitava reencarnação foi Cristna, e a nona, Buda. 3500 anos antes de nossa era, Cristna nasceu de mãe virgem, tendo sido profetizada sua vinda ao mundo pelos livros santos. Acho que o leitor já conhece história semelhante.

Adelante! A concepção da mãe de Cristna foi marcada pelo divino. Vischnu apareceu em sonhos a uma mulher justa e boa chamada Lakmy, que esperava um filho, advertindo-a que daria luz a uma filha, que seria eleita por Deus para ser mãe do futuro redentor do mundo. A criança deveria chamar-se Devanaguy e não deveria conhecer varão, mas permanecer virgem e entregue à oração.

Anos depois, Cristna foi concebido milagrosamente durante uma cena mística, na qual Devanaguy entrou em êxtase enquanto orava fervorosamente, ofuscada pela luz e esplendor do espírito divino que se encarnou em seu ventre. Mas Rausa, tirano e tio de Devanaguy, foi advertido em sonhos de que a criança que nasceria de sua sobrinha o destronaria algum dia e a encerrou em uma torre.

Nove meses depois chegou o momento esperado do parto e, ao primeiro gemido de dor da parturiente, um forte vendaval a elevou milagrosamente e a transportou até a cova do pastor Nauda, onde nasceu um menino a quem deram o nome de Cristna.

Todos os pastores acudiram a adorá-lo e a atender a mãe e o filho, mas Rausa soube que a criança havia nascido fora de sua prisão e, enfurecido, mandou degolar todos os meninos que tivessem nascido naquela noite. Devanaguy recebeu a advertência celestial e fugiu com o menino para colocá-la a salvo da degola, quando os soldados do tirano se aproximavam perigosamente.

Passaram-se os anos e Cristna, a criança celestial, cumpriu dezesseis. Chegou então o momento de abandonar a proteção materna para percorrer a Índia e predicar uma nova moral. Uma moral que a todos impactou, porque se atreveu a proclamar a igualdade entre os homens e inclusive, com coragem, entre as castas hindus, algo que ninguém até então havia sido capaz de mencionar. E não só isso, mas também pôs em destaque a hipocrisia dos sacerdotes brâmanes, o que lhe valeu sua ira e suas contínuas perseguições.

Quando foi necessário, Cristna realizou o milagre de curar enfermos e leprosos, fazer andar os paralíticos, devolver a visão aos cegos e inclusive ressuscitar os mortos. Muita gente o seguiu porque sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes.

Disse ter vindo ao mundo para redimir os homens do pecado de seus primeiros pais, rodeou-se de discípulos que continuariam seu trabalho e ensinou sua doutrina através de parábolas. Certa ocasião, Cristna teve de repreender o principal de seus discípulos, Ardjuna, por sua escassa fé, já que ele e outros seguidores entraram em pânico quando sentiram aproximar-se os esbirros do tirano. Mas Cristna soube infundir neles novo ânimo, mostrando-se com todo seu divino resplendor da segunda pessoa da Trindade divina. Após sua transfiguração, seus discípulos começaram a chamar-lhe Jezeus, que significa “nascido da essência divina”.

Quando soube que havia chegado sua hora, retirou-se a um lugar para rezar, proibindo a seus discípulos que o seguissem. Submergiu no rio Gânges e logo ajoelhou-se às suas margens, recostando-se a uma árvore e esperando sua morte. Enquanto rezava, chegaram os soldados do tirano e os esbirros dos sacerdotes e um deles feriu-o com uma flecha. Para que terminasse de morrer, o dependuraram em uma árvore para que o devorassem os animais selvagens.

Seus discípulos o procuraram ansiosos quando souberam de sua morte e correram para apanhar seus restos, mas nada encontraram porque o filho de Deus havia ressuscitado e voltado aos céus.

Isto aconteceu 3500 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência. Continuo mais tarde o relato dos demais mitos anteriores ao cristianismo, feito por Ana Martos.


2. AGNI E MITRA

Segundo a autora, encontramos mais um mito precursor nos Veda, os livros sagrados da Índia revelados pelo próprio Brahma e compilados por Vyasa, que datam do século XIV antes de nossa era. Traduzo.

Agni nasceu no 25 de dezembro, solstício de inverno, tendo sido sua vinda anunciada ao mundo por uma estrela no firmamento. Desde então, quando reaparece, os sacerdotes anunciam a boa nova ao povo e repetem o rito do descobrimento do fogo, esfregando os lenhos cruzados, até que surge a chispa como uma criatura celestial que colocam sobre palhas para que prenda fogo. Os sacerdotes levam até o berço de palha uma vaca que leva a manteiga e um asno que leva o soma, um licor alcoólico de cor dourada, com os quais alimentam a pequena chama, à qual chamam criatura.

No ritual, os sacerdotes lhe oferecem pão e vinho e cada fiel recebe uma pequena partícula da oferenda, que contém parte do corpo de Agni, nome que se transformou em Agnus, cordeiro em latim, no contato com o povo romano. O cordeiro que se oferece a Deus como vítima propiciatória pela redenção dos homens, o cordeiro de Deus, Agnus Dei.

O nome de Agni significa “unção”, que em grego se diz “cristnos”, de onde procede “cristo”, o “ungido”, o Messias judeu e cristão dito em grego, porque em hebraico se mashiakh, que se translitera como messias. Os dois lenhos cruzados são a cruz onde se gera o fogo, o Sol, que é a origem do deus segundo o dogma ariano de uma trindade composta pelo Sol, pai celeste; o fogo, encarnação do Sol e o espírito, sopro de ar que acende a chama.

Nos conta a autora que a Índia teve um outro deus, não tão importante, mas que passou ao panteão persa – e depois ao romano – com todas as características de um deus principal. Seu nome era Mitra, também chamado o Senhor, e fez nascer com suas flechas a fonte eterna do batismo, já na Pérsia. Nasceu de mãe virgem, em um 25 de dezembro, a festa mais importante da religião dos magos persas. Seu nascimento foi anunciado por uma estrela que apareceu no Oriente e os magos acudiram a adorá-lo, levando-lhe perfumes, ouro e mirra. Mitra morreu no equinócio da primavera, em março, para ressuscitar triunfante no terceiro dia.

Na religião mitraica, que primeiro foi hindu, logo persa e finalmente foi adotada por Roma como religião oficial, Mitra, que originalmente foi o ministro principal do deus Ormuz, venceu o touro que simbolizava a vida, arrastou-o a uma cova e lá o degolou para beber seu sangue, porque de seu sangue surgiu a vida e de sua carne se originaram todos os animais e todas as plantas. Por isso, Mitra se converteu em criador do universo e, ao mesmo tempo, em mediador entre Ormuz e o ser humano. Os ritos de iniciação nos mistérios de Mitra incluíam batizar o neófito com sangue de touro sacrificado em um lugar mais elevado, de onde o sangue manava para banhar o iniciado. A iniciação começava com o batismo e terminava com a comunhão, em que se consumia a carne do touro com água, pão e vinho. O pão e o vinho se consagravam previamente com uma fórmula mística que os converteria em corpo e sangue do deus. O culto de Agni surgiu 1400 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência.


3. OSÍRIS, DIONISOS E SERAPIS

Ana Martos vai adiante e envereda pela mitologia egípcia. Os Textos das Pirâmides mostram que Osíris oferece seu corpo como pão de vida e seu sangue como vinho. “Tu és o pai e a mãe dos homens que vivem de teu sopro, comem a carne de teu corpo e bebem teu sangue. O que come tua carne e bebe teu sangue viverá eternamente”.

Os gregos identificaram Osíris com Dionisos, o deus encarnado, o salvador, filho de Deus, nascido de uma mulher mortal, em um 25 de dezembro, em uma cova humilde onde pastores o adoraram. Osíris Dionisos oferecia a seus seguidores o renascimento para a vida eterna mediante a imersão ritual na água. Em sua vida terrena converteu a água em vinho durante uma cerimônia nupcial. Entrou triunfalmente na cidade montado em um asno, enquanto as pessoas brandiam palmas. Morreu na Páscoa (na primavera) pelos pecados do mundo, desceu aos infernos e ressuscitou no terceiro dia para ascender glorioso à sua morada celestial, de onde descerá ao final dos tempos para julgar os homens bons e os maus. Dionisos, como Baco e, em alguns cultos, Orfeu, foi crucificado pelos pecadores, mas não em uma cruz de dor, senão em uma cruz de salvação, porque a cruz é símbolo e totem de muitos povos. Sua morte e ressurreição se celebravam com um ágape ritual com pão e vinho que simbolizavam sua carne.

A conversão do pão e do vinho em carne e sangue do deus era um ritual tão popular que Cícero, cético, chegou a protestar em De natura deorum e a perguntar se alguém podia estar tão louco para acreditar que o que ingeria era a carne e o sangue de um deus.

O culto a Osiris se ampliou e se aperfeiçoou durante o período helenístico, no qual o Egito esteve governado pelos gregos, para configurar uma nova divindade cuja morte e ressurreição assegurava vida eterna a seus fiéis. Unindo todas estas facetas, Ptolomeu I proclamou a religião de Serapis no Egito como religião oficial imposta, não espontânea como a de Isis ou Adonis, mas mantendo a tolerância em relação a outros deuses e outras religiões. Serapis era a união de Osiris e Apis, dois deuses egípcios que naquela época já incorporavam os aspectos do deus grego Dionisos, pelo que se proclamou Redentor filho da Trindade egípcia.

Serapis nasceu de mãe virgem no solstício de inverno, morrendo no equinócio da primavera para ressuscitar no terceiro dia. Não escapou de ameaças de morte, o que obrigou sua mãe, a virgem Isis, a fugir com o filho, montada em um asno. Isso sem falar da imagem de Orfeos Bakkikos, a primeira que se conhece de um deus crucificado, utilizada nos mistérios órficos e dionisíacos celebrados no Mediterrâneo... desde o século VI antes da era cristã.

Conhecemos essa história, não? É a do cara aquele que nasceu num 25 de dezembro de mãe virgem, foi anunciado por anjos, curou enfermos e leprosos, fez andar os paralíticos, devolveu a visão aos cegos, transformou água em vinho e ressuscitou mortos. Sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes. Desafiou os sacerdotes de sua época, foi crucificado, morto e sepultado e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Se alguém ainda acha que isto não é ficção de hábeis sacerdotes, que se vai fazer?

17 fevereiro 2008

O Pecado Original da Propriedade Privada

Como já disse inúmeras vezes Paulo Francis, marxismo é religião. Vindo de um ex-trotskista, isto pode não ser grande coisa. Arnold Toynbee escreveu que o comunismo é uma heresia cristã. Seria uma doutrina adequada aos homens cientificistas e positivistas do século XIX. O fato é que temos alguns paralelos bastante interessantes nas duas doutrinas.

Um das principais questões teológicas é o pecado original, que explicaria porque o homem é um ser imperfeito, que não desfrutaria da comunhão com Deus, a partir da sua expulsão do paraíso. Rousseau, um dos pais do socialismo, acreditava que o pecado original se deu quando alguém disse que algo lhe pertencia.

Engels se baseia neste acontecimento de natureza econômica, o advento da propriedade privada, para explicar o nascimento do Estado moderno, que seria algo equivalente à expulsão do homem do paraíso. Para ele, o nascimento da propriedade privada enseja a divisão do trabalho, a formação das classes, o surgimento do Estado de polícia para proteger o status quo.

Marx, por sua vez, se propunha a ser um novo apóstolo João ao propor o Apocalipse do estado moderno e do capitalismo. Em seu Evangelho sobre o capitalismo ele explica que as contradições materiais do sistema levarão à sua queda.

Marx conseguiu transformar o sistema de produção capitalista em pecado por meio da invenção da mais-valia. Grosseiramente, o produto vale mais que os insumos necessários para a produção e o único insumo que pode ser remunerado com menos valor do que vale seria o insumo trabalho, porque o insumo equipamentos sofre depreciação. A partir deste raciocínio, ele considera que o capitalista é um ladrão e que os verdadeiros donos de tudo são os trabalhadores. Ele menospreza questões como risco, complexidade da produção, poder de mercado e se refugia na produção média em equilíbrio para sustentar este argumento.

Marx era um economista clássico como o pastor Adam Smith que definia as pessoas pelo trabalho e considerava que se estas tinham perdido parte do seu valor e não controlavam as condições nas quais elas produziam, então elas haviam perdido a graça. Para recuperar a graça perdida era preciso tomar consciência e escapar de um estado de alienação. Mais religião, as pessoas estavam cegas e perdidas na ilusão. A verdade era a consciência de classe.

Por fim, após a expiação dos pecados com o sacrifício dos inocentes que morreriam na Revolução, o homem retornaria ao seu Estado original, no qual a comunhão com os outros homens seria restabelecida com o fim do estado e com o desaparecimento da propriedade privada. Seria o fim da história e início do paraíso na terra, onde todos os homens seriam irmãos trabalhadores, teriam segundo as suas necessidades e produziriam segundo as suas possibilidades.

No comunismo real, como toda a religião, as punições para os descrentes foram terríveis, condenados pela Inquisição, tivemos: o banimento de milhões para os gulags da União Soviética, o envio de outros tantos para o campo na Revolução Cultural Chinesa, que buscava restabelecer a pureza dos camponeses na corrupta população urbana, e o assassinato de praticamente todas as pessoas alfabetizadas do Camboja pelo Khmer Vermelho. As pessoas morrem mas as utopias assassinas são eternas.

10 fevereiro 2008

Eu sou a lenda

O filme, muito elogiado por críticos como Isabela Boscov, da Veja, e por jornalecos e blogs de cristãos - nestes casos pela semelhança com as histórias da Arca de Noé e do sacrifício de Jesus, e também por manter vivos nos crentes seus desejos escatológicos (éschatos) -, parte da interessante visão de uma Nova Iorque deserta aparentemente habitada por apenas um homem e uma cadela, para terminar como um filme B de zumbis-vampiros alucinados por carne e sangue humanos.

O filme começa em flashback. Dra. Krippin – nome que lembra Dr. Crippen, um monstro do início do séc. XX, o que não pareceu incomodar Emma Thompson – anuncia em um programa televisivo, sem muito entusiasmo, ter descoberto a cura para o câncer.

Will Smith disse recentemente, perante solidéus erguidos por cabelos arrepiados: "Até Hitler não acordava dizendo: 'deixe-me fazer a coisa mais malévola que é possível fazer hoje'. Eu acho que ele acordava de manhã e, usando uma lógica invertida, tentava fazer o que pensava ser o 'bem'".

Também com a melhor das intenções - a de livrar a humanidade do câncer -, Dra. Krippin cria sem querer um vírus que se alastra pelo ar e pelo contato, que ou mata, ou não faz nada, ou transforma os infectados – mesmo os cachorros - em zumbis-vampiros doidos por carne e sangue de humanos sadios, em bestas-feras dotadas de força extraordinária, capazes de escalar prédios com a rapidez do homem-aranha, mas sem muita inteligência e vulneráveis à luz do dia, porque os raios UV os matam em instantes (maldito vírus); sobe até fumacinha de seus corpos pelados, pálidos e translúcidos, se não tomarem cuidado (usem filtro solar, lhes diria o Pedro Bial). A perda de pêlos é um efeito colateral esperado em vários tratamentos de câncer; até aí nada de mais. Mas este é um vírus impressionante. Ao invés de debilitar o corpo ele o dota de poderes inimagináveis, apenas ao custo de redução de inteligência. No filme, os católicos deixam de ser os únicos canibais hematófagos do séc. XXI. Como sabemos, católicos literalmente comem carne humana aos domingos – pelo menos é no que acreditam.

A ciência, em sua sanha de desafiar Deus, é a grande responsável pelos males da humanidade. Não fossem os homens tão curiosos, não teriam mordido o fruto proibido e ainda viveriam no paraíso; não fossem tão audazes, não teriam construído a Torre de Babel e assim despertado a ira de Javé, que violou os seus cérebros ao neles implantar idiomas diferentes do hebraico, o único que existia até então, visando boicotar suas aspirações, dispersar aqueles que estavam unidos, confundir aqueles que se entendiam, aniquilar seu potencial.

Gênesis, 11: “Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram. E disseram uns aos outros: ‘Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.’ Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa. Depois disseram: ‘Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.’
Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens. ‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.
Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra.”

Em sua famosa apologia da vadiagem, Jesus diz:

“Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”

Dra. Krippin tenta adicionar alguns côvados além dos incontáveis já acrescentados à duração da vida humana pela torpe medicina, ciência de pagãos que ousam se preocupar com o amanhã. Cirurgias, antibióticos, vacinas? Torres de Babel que só causaram confusão, só prolongaram o sofrimento nesta falsa vida, só retardaram o grande encontro com o estilista dos lírios, na verdadeira vida. “Don't worry about the things”, ouve-se pela voz de Bob Marley a todo momento, no filme; esqueçamos da ciência e confiemos na providência, caso contrário perderemos nossas almas e viraremos seres das trevas, zumbis-vampiros malditos.

07 janeiro 2008

O Santuário

Assim falou Nietzsche: “É claro, se pudéssemos de fato ver esses carolas e santos falsos, mesmo que apenas por um instante, a farsa seria posta a fim”.

O pequeno conto abaixo foi mal traduzido por mim a partir de uma tradução inglesa, que reproduzo ao final deste post. Se alguém souber corrigi-lo, não se faça de rogado.

O Santuário

O pai do mulá Nasrudin era o muito respeitado guardião de um santuário construído sobre o túmulo de um grande mestre, local de peregrinação que atraía tanto crédulos quanto buscadores da verdade.

Pelo curso natural dos eventos, era de se esperar que Nasrudin herdasse o posto do pai. Mas logo após seu décimo quinto aniversário, quando passou a ser considerado um homem, decidiu seguir a antiga máxima: “procure conhecimento, ainda que seja na China”.

“Eu não tentarei te impedir, meu filho”, disse seu pai. Então Nasrudin selou um jumento e deu início a suas viagens.
Visitou as terras do Egito e Babilônia, vagou pelo Deserto da Arábia, dirigiu-se para o norte, a Konya, Bocara, Samarcanda e à cordilheira do Hindu Kush, associando-se a dervixes e tendo sempre em vista o Extremo Oriente.

Nasrudin cruzava com grande esforço as cordilheiras de Caxemira, após um desvio pelo pequeno Tibet, quando seu jumento, vítima da atmosfera rarefeita e das privações, tombou e morreu.

Nasrudin foi tomado pela dor; o jumento havia sido a única companhia de suas jornadas, que já duravam doze anos ou mais. Com o coração partido, enterrou seu amigo e fez sobre o túmulo um pequeno monte de terra. Lá ficou em silenciosa meditação; sobre ele, grandiosas montanhas, e abaixo, velozes torrentes.

Os viajantes que tomavam a estrada entre a Índia e a Ásia Central, China e os santuários do Turquistão, passaram a observar a figura solitária, ora chorando a sua perda, ora com o olhar nos vales da Caxemira.

“Certamente aquele é o túmulo de um homem santo”, diziam uns aos outros; “e não de um qualquer, haja vista o modo como seu discípulo o pranteia. Tem estado aqui por meses e a dor pela sua perda não dá sinais de diminuir".

Um homem rico passou e, em um ato de devoção, ordenou que fossem erigidos um domo e um santuário no local. Outros peregrinos aplainaram o entorno montanhoso e plantaram sementes, cujos frutos destinavam-se a manter o santuário. A fama do dervixe em silencioso luto se espalhou, até que a notícia chegou ao pai de Nasrudin, que imediatamente seguiu em peregrinação ao local santificado. Quando viu Nasrudin, perguntou-lhe o que havia acontecido. Nasrudin contou-lhe tudo que se passara. O velho dervixe elevou perplexo suas mãos para o céu: “saiba, meu filho”, exclamou, “que o santuário onde foste criado, e que abandonaste, foi erguido exatamente da mesma maneira, por uma cadeia de eventos parecida, depois que meu próprio jumento morreu, há mais de trinta anos".

Fim

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Se fosse possível construir uma máquina que nos transportasse para qualquer época do passado, como meros observadores, e assim nos fosse dado acompanhar despercebidos à curta distância os principais eventos da História, incluídos os narrados nas páginas dos livros ditos sagrados, algo permaneceria de pé? Assistiríamos a épicos hollywoodianos ou a deprimentes espetáculos mambembes? Ficaríamos de queixo caído perante ornitorrincos migrando dezenas de milhares de quilômetros por terra e por mar para subir a rampa de uma gigantesca arca em um estaleiro no meio do deserto? Não.

Mas talvez ficaríamos empolgados com o heroísmo dos espartanos nas Termópilas, nos divertiríamos com um piti de Alexandre Magno, não acharíamos as Guerras Púnicas tão impressionantes, talvez porque não testemunharíamos elefantes africanos cruzando os Alpes...

Teríamos dificuldade em encontrar José e Maria em algum buraco da Galiléia. E se encontrássemos, acompanharíamos cada passo de Maria para nos certificarmos de que ela engravidaria virgem. Veríamos José, como bom barbudo de um Oriente Médio onde não havia televisão, seguidamente conhecendo biblicamente sua esposa. Ela não primaria pela beleza, seria tudo menos a ebúrnea Palas Atena dos altares cristãos. Viveriam em um local insalubre, cheio de moscas. José não lavaria as mãos antes de levar o pão ázimo à boca, perdida atrás de uma repugnante barba. Teriam vários filhos e não encontraríamos dificuldade em identificar qual deles haveria de ser o “príncipe da paz”. Seria talvez o mais estranho, aquele que não conseguiria lixar tão bem uma canga de bode quanto os outros irmãos. Ele preferiria jogar conversa fora com mágicos, prestidigitadores, viajantes e vagabundos a ter que trabalhar com seu pai.

Adiantaríamos uns anos no relógio da máquina e enfim veríamos o filho abandonar a casa dos pais aos trinta anos – algo que só seria visto novamente no final do século XX – e ainda por cima solteiro, sem nunca ter namorado. A partir daí, o veríamos arrebanhar sua “armata Brancaleone” em suas andanças pelas feias paisagens da Palestina. Riríamos de seus truques baratos e dos falsos paralíticos contratados para serem curados perante um povo ávido por milagres e por um messias que cumprisse as belas profecias de seus ancestrais.

Veríamos o galileu praguejar ao ser pregado na cruz, os discípulos subornando os guardas para recolherem do sepulcro seu corpo e então espalharem a “boa-nova” de sua “ressurreição”. Ou então simplesmente nunca encontraríamos Jesus algum. Talvez um jumento sob um montículo de terra.

Mas alguns feitos seriam confirmados, para espanto dos viajantes no tempo. A comprovação do miraculoso strike triplo de INRI Cristo em um boliche de Curitiba revigoraria a fé de milhões de neo-cristãos do século XXX, quando a tal máquina será inventada...

Ilustração: Montagem a partir destas quatro imagens: um burro, um pedestal, Basílica do Santo Sepulcro e mascote dos Democratas (dos EUA).

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Texto Original:

Mulla Nasrudin’s father was the highly-respected keeper of a shrine, the burial-place of a great teacher which was a place of pligrimage attracting the credulous and the Seekers After Truth alike.

In the usual course of events, Nasrudin could be expected to inherit this position. But soon after his fifteenth year, when he was considered to be a man, he decided to follow the ancient maxim: ‘Seek knowledge, even if it be in China.’
‘I will not try to prevent you, my son,’ said his father. So Nasrudin saddled a donkey and set off on his travels.

He visited the lands of Egypt and Babylon, roamed in the Arabian Desert, struck northward to Iconium, to Bokhara, Samarkand and the Hindu-Kush mountains, consorting with dervishes and always heading towards the farthest East.

Nasrudin was struggling across the mountain ranges in Kashmir after a detour through Little Tibet when, overcome by the rarefied atmosphere and privations, his donkey laid down and died.

Nasrudin was overcome with grief; for this was the only constant companion of his journeyings, which had covered a period of a dozen years or more. Heartbroken, he buried his friend and raised a simple mound over the grave. There he remained in silent meditation; the towering mountains above him, and the rushing torrents below.

Before very long people who were taking the mountain road between India and Central Asia, China and the shrines of Turkestan, observed this lonely figure: alternately weeping at his loss and gazing across the valleys of Kashmir.

‘This must indeed be the grave of a holy man,’ they said to one another; ‘and a man of no mean accomplishments, if his disciple mourns him thus. Why he has been here for many months, and his grief shows no sign of abating.’

Presently a rich man passed, and gave orders for a dome and shrine to be erected on the spot, as a pious act. Other pilgrims terraced the mountainside and planted crops whose produce went to he upkeep of the shrine. The fame of the Silent Mourning Dervish spread until Nasrudin’s father came to hear of it. He at once set off on a pilgrimage to the sanctified spot. When he saw Nasrudin he asked him what had happened. Nasrudin told him. The old dervish raised his hands in amazement:
‘Know, O my son,’ he exclaimed, ‘that the shrine where you were brought up and which you abandoned was raised in exactly the same manner, by a similar chain of events, when my own donkey died, over thirty years ago.

15 dezembro 2007

De Volta a Bizâncio (ou: Idéias de Jerico)

Acho que o pessoal religioso, sabem, aquele, que vivia querendo nos salvar quando éramos adultos lá na Idade Média, nos purificando numa fogueirinha santa, cansou um pouco de nós e, de uns cento e poucos anos pra cá, se voltou para a salvação das almas, digamos, menores. Hoje falam muito em fetos e, claro, em aborto. Lá pelas tantas, se cansaram disso também e parecem estar dando um tempo, ou não se saíram muito bem, não sei, mas o fato é que agora querem “proteger” os embriões, os óvulos, os espermatozóides. Parece que quanto menor, melhor. Daqui a pouco vamos chegar à proteção do estágio de blástula.

E um carola Procurador-Geral da República, que deveria ter mais o que fazer, redigiu uma ação direta de inconstitucionalidade equivocada, para usar uma palavra caridosa. Aconteceu. Ah, Brasil, Brasil, minha pátria amada, idolatrada, salve, salve… o que não acontece por aqui?

Em 2005, o papalvo Cláudio Fonteles fez isso. Uma ADIn que atravancou as pesquisas com células-tronco embrionárias no país. Francamente, o cara tem que ter mingau na cabeça pra se sair com uma presepada dessas.

Raspada a conversa fiada, o trólóló, o “embasamento jurídico” e o burocratês, essa foi uma idéia de jerico, naturalmente. Por mais que ele esconda os pruridos religiosos por trás do que fez, travestidos com aquele papo de que está estritamente preso ao que a Constituição diz, que a proteção da vida, que o Direito, blá, blá, blá...

Certo, ele nunca vai admitir: “fiz isso por que a minha fé, minha crença…”. O que é tolo, mas algo revelador (no que deixa entrever um raciocínio moralista rastaqüera). E honesto, ao menos. Pode-se até dizer que, por “acaso”, a crença dele casou direitinho com a questão, com o “caso em tela”.

Se essa lontra não fosse tão irrefletida, tão inconsciente de si mesma, talvez tivesse parado por um minuto, se dando conta de duas coisas singelas:

1) ninguém pode parar o progresso tecnológico

2) no longo prazo, as células-tronco embrionárias (e não as adultas, nas quais os religiosos estão se agarrando por conveniência, sem nem mesmo uma idéia clara das diferenças entre elas e as embrionárias) e derivados vão curar ou reduzir drasticamente o estrago de várias doenças degenerativas, sem falar na possibilidade de se fabricar órgãos.

E isso só pra ficar na superfície.

Mas não adianta. O sujeito é incapaz de raciocinar, de pensar por um instante além de seu mundinho besta e vidinha idem. Sua cabeça não vai além da Palavra Revelada na Sagrada Escritura, edição autorizada pela Santa Madre Igreja. Um cara limitado, enfim, por mais respeitado, cheio de títulos e o que mais seja ou tenha. Um cara que segura na mão do padre, enquanto com a outra redige uma excrescência.

Pela mão do pároco, o cara joga para a platéia, faz o seu acting, o seu show, mas é claro — e mais uma vez — sempre podendo argumentar que não é nada disso, antes muito pelo contrário, que só está cumprindo seu dever profissional, de procurador, cidadão consciente, sei lá. O bom cristão. O pior idiota sempre é o mais consciente.

Não é à toa que o mesmo pessoal se dedique com tanto afinco para impedir a legalização do aborto de anencéfalos. Deve ser a Mãe Natureza, o instinto de autopreservação lhes dizendo: “preservem os seus”…

E olha que estamos num Estado laico… mas nem falemos nisso, já que nosso laicismo ainda é cotó demais. Vai levar mais umas décadas (séculos?) para a mentalidade de sacristia desinfetar de nosso “inconsciente coletivo”. Se desinfetar. Imagino que ele realmente acredita no que diz, que seja mesmo um crente pio. Gente assim é importante para a Igreja, para toda religião. É útil. A força do bom-mocismo desses inocentes úteis não pode ser menosprezada. E dá ibope viver se indignando com as injustiças do mundo, sempre bestificado com o que acontece — e, não vamos nos esquecer, sempre por uma “boa” causa, com aquele ar grave, sério, a cara de compungido.

Em última análise, porém, no grande esquema das coisas, ele não passa disso, de uma ovelhinha prestativa. Bonitinha, mas ordinária. Os bestificados, depois de um tempo, só servem para isso: se bestificar. Sua pose, o teatrinho vulgar que nem sabem que estão fazendo, já que acreditam no que dizem, é a regra.

Tudo isso é muito cansativo. O bom é a gente saber das coisas, o que entre outras coisas nos torna impermeáveis a surpresas, decepções e até algumas desilusões maiores. Essa prostração bovina, essa ausência do pensar por conta própria, de pensamento, ponto — que afinal é o que nos torna seres humanos completos, gente, no sentido mais amplo da palavra (eu sei, eu sei, a maioria da humanidade nunca chega nesse estágio, fica lá no de blástula, por falar nisso, mas estou falando dos 2% que sabem das coisas, que salvam, que “redimem” um pouquinho a espécie) — esse rastejamento todo é deprimente.

Sem falar na sensação de vácuo, de falta de receptividade, quando escrevo sobre essas coisas. Sobre qualquer coisa, aliás. Quantas vezes, dizendo o que me parece o óbvio, não fui tomado por uma vontade irresistível de silenciar, de cair fora, porque consciente da futilidade do que escrevo, pelo fato de que quem concorda comigo já sabe do que estou falando, enquanto quem discorda nunca vai me entender - muitos nem saberão, porque vivem na indiferença primitiva, minimalista, da sociedade brasileira, ou estão de tal forma esmagados pelo trabalho braçal, que enfrentam sem preparo físico, que nem sequer sonham que uma vida melhor é possível.

Mas as coisas mudam, felizmente. Talvez nesse caso mude rápido, acho bem provável que o Supremo derrube a ADIn.

O engraçado é que, depois da presepada, talvez vendo o tamanho dela, o lobby clerical catou uns cientistas não sei de onde e veio com um catálogo de conversa mole. Cada dia é uma. A última, a reboque da própria Ciência (a séria), foi a de que andaram fazendo progresso por aí com células adultas. Ok, nada contra, mas estas nunca terão o potencial das embrionárias, por uma penca de motivos.

Depois — e o mais divertido — ainda acharam que podiam pegar emprestado da filosofia uma questão jamais resolvida, e quem sabe até dar um jeito nela: o início da vida. Para mim, outra idéia de jerico, cortesia, “geração espontânea”, da idéia de jerico inicial. Às vezes se tem a impressão de que voltamos a Bizâncio: logo vamos discutir o sexo dos anjos, a essência da Santíssima Trindade e excentricidades metafísicas mil.

A vida começa… bem, vocês escolhem. Podem dizer que ela começa no zigoto, no rabinho do espermatozóide, no átomo da mitocôndria… A convenção católica, por exemplo, diz que ela começa na concepção. Ninguém sabe quando ou onde ela começa. A meu ver, os religiosos se deram mal na audiência pública (acho que eu e outros cinco assistiram a ela quase toda na TV Justiça) feita pelo STF sobre o assunto. Insistiram nessa estaca zero, tinham que fincá-la de alguma maneira, dizendo “a vida começa aqui, ó”. Terminaram dando voltas e se perdendo.

Mas tudo bem. O homem não cria problemas que não possa resolver. Não acho que o mundo vá regredir para alguma forma de bestialismo medieval um dia, apesar dos tropeços. Nem que tudo vá acabar em besteira generalizada ou em pseudointelectualismo, como achava um Ortega Y Gasset. Há saídas, estreitas, mas seguras e claras, dessa porcaria toda.

Se já armaram essa briga toda por causa das CTEs, imagino o que não vão armar quando começarem a clonar gente no futuro distante. Quem sabe, quando estivermos clonando gente como pãezinhos na padaria e torcendo o DNA à vontade, os incompreendidos e malvados caras de jaleco branco não aproveitam pra dar uma melhoradinha na espécie. Se alguém reclamar, podem dizer, como o Millôr, que eugenia é só uma forma científica de se ter filhos mais bonitos.

30 setembro 2007

Divagação Erudita

Introdução

Feliz 119!
Dedico este post ao novo membro do Pugnacitas, André Balsalobre, que veio à luz há exatos trinta e um anos, no reveillon do ano 88 da Era da Salvação, iniciada em 30 de setembro de 1888 do falso calendário.

Obviamente, não falo a sério. Entro no espírito de uma brincadeira feita por Nietzsche na data da conclusão de seu ensaio “O Anticristo”, 30 de setembro de 1888, há 119 anos.

30 de setembro é também o dia mundial do traidor, digo, tradutor. Traduttore = traditore, dizem os italianos. A homenagem nasceu do dia onomástico de São Jerônimoooo, padroeiro dos paraquedistas e praticantes de bungee jump e traditore da Bíblia para o latim a partir de manuscritos em grego e hebraico, no século IV d.C..

No dia 30 de setembro de 1452 Gutenberg apresentou o primeiro livro impresso: a Bíblia. Uns setenta anos depois, Lutero, valendo-se do invento do conterrâneo, difundiu pelas populações alemãs milhares de cópias do Novo Testamento traduzido por ele próprio para o alemão (saxão). Celebra-se entre os protestantes a tradução de Lutero como um símbolo de libertação em relação à Igreja de Roma. No entanto, existem várias impressões da Bíblia em alemão anteriores à versão do traditore Lutero, como podemos ler no verbete Versions of the Bible, da Catholic Encyclopedia. Trecho: “Of special interest are the five complete folio editions printed before 1477, nine from 1477 to 1522, and four in Low German, all prior to Luther's New Testament in 1522”.

Segundo os católicos conservadores, o livre exame das escrituras promovido pelos protestantes teria permitido a vulgarização e a profanação da Bíblia pela figura do "caçador de contradições". Segundo eles, as contradições apenas mostram o grave erro em que se incorreu ao dar a cada cristão a possibilidade de ser um exegeta. Como não existem explicações na própria Bíblia para as contradições, seria necessário um intérprete autorizado por Deus para harmonizar as diversas passagens, para explicar as divergências valendo-se da Tradição. A autorização de Deus viria por meio do sedizente sucessor de Pedro: o Papa. Para tais católicos seria muito melhor para a cristandade se os livros ainda fossem reproduzidos manualmente, por copistas.

“Tradição” não significa “traição”, é claro. Mas podemos traduzir a palavra para “prevalência da vontade das facções mais barulhentas e poderosas dos concílios”, “crendices populares consolidadas por gerações”, “sufocamento sistemático de 'hereges' e de inimigos da tradição", necessária esta para futuras interpretações baseadas na tradição.

Caçadores de contradições não faltam. Há milhares de sites Web afora dedicados a denunciá-las. E, como não poderia deixar de ser, outros tantos milhares a refutá-las.

Divagação Erudita

Nietzsche escreveu no supracitado ensaio, referindo-se não à hagiografia católica, como pode parecer ao se retirar o trecho de seu contexto, mas às páginas da Bíblia: “Que me importam as contradições da ‘tradição’? Como alguém pode chamar lendas de santos de ‘tradição’? As histórias de santos são a mais dúbia variedade de literatura existente; examiná-las à luz do método científico na ausência total de documentos corroborativos a mim parece condenar toda a investigação desde suas origens – isso seria simplesmente uma divagação erudita...”

Eu escrevi em determinado ponto do post Elemental, meu caro Watson: “Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para ‘simbologias’”.

Mas confesso que às vezes me apraz fazer pescaria na Bíblia, fisgar botas revestidas de untuosos plânctons, pneus (hagia pneuma) e outros trastes velhos atirados pelos pais do cristianismo ao já poluído e enturvado lago divino, verdadeiro Piscinão de Ramos em cujas águas milhões e milhões de ignorantes diariamente se banham e contraem as mais diversas moléstias, comumente aquelas que atacam o córtex cerebral, a área do cérebro responsável pela razão.

Então, nesta última hora deste 30 de setembro, faço uma inútil “divagação erudita” sobre uma pescaria que fiz um bom tempo atrás.

Em Jerash

Vocês podem não ter fé em mim, mas no dia 30 de setembro de 1992 eu e um colega de universidade visitávamos as ruínas de Jerash (Gerasa), uma cidade da Decápole Romana, chamada hoje pelos jordanianos de "Pompéia do Oriente", a mesma alcunha dada pelos sírios à Palmira (Tadmor), e naquele local eu, à época um católico “exemplar”, tive meu primeiro contato com uma contradição bíblica, mais precisamente uma impossibilidade geográfica.

Pois bem, estávamos tão extasiados a explorar as preciosas ruínas por tantos séculos esquecidas no deserto, a contemplar a perfeição da pavimentação das ruas, com sarjetas, meios-fios e calçadas, a elegância dos templos e colunatas cujas cores esquentavam-se ao crepúsculo, que perdemos o último ônibus que saía para Amã, onde eu executava algumas pinturas para o Patriarcado de Jerusalém. Cliquem aqui para ver a capa do Livro History of Modern Christianity in the Holy Land, ilustrada com um óleo de minha autoria. As cores estão mortas na reprodução. A torre contra o sol gera uma auréola na Igreja de Mádaba, cidade próxima ao Monte Nebo, camarote do qual Moisés imaginou com pesar os massacres do povo cananeu que se consumavam a poucos quilômetros. Com pesar por não ter sido autorizado a participar, claro. Quem mandou ferir a rocha duas vezes com a vara para que brotassem as águas de Meribá?

O primeiro lugar onde nos ocorreu procurar pernoite foi a igrejinha que havia em Majdal, um dos vilarejos vizinhos, de maioria muçulmana. O padre, um francês, torceu o focinho para o nosso pedido. Por sorte, um muçulmano que passava pelo local parou quando viu os dois estrangeiros e, posto a par da questão, achou que era uma boa ocasião para vender a “grandeza” de sua fé e expor a hipocrisia da concorrente. Insistiu para que o padre nos indicasse algum canto da construção principal ou de seus anexos onde pudéssemos nos recostar até a manhã seguinte. O padre, que em determinado momento parecia disposto a ceder, após a interferência petulante do islâmico recusou-se peremptoriamente a nos dar abrigo. O outro proferiu com voz empostada de muezim que a hospitalidade era um dever do muçulmano e que ainda que fosse no mihrab da Mesquita arranjaria um local para nos abrigar contra o frio da madrugada.

No fim das contas, dormimos na casa dos pais do rapaz, que deram uma pequena festa em nossa homenagem com música ritmada por derbake, sucos, frutas, pães e queijos. Acabamos retornando a Amã somente seis dias depois porque os vizinhos quiseram que dormíssemos também em suas casas para que pudessem exercitar a hospitalidade. Os convites eram feitos ríspida e guturalmente enquanto nos seguravam pelos punhos, impedindo que cruzássemos o vão da porta. De fato, apenas despertávamos sua curiosidade, tanto que na quase totalidade das vezes o preceito da hospitalidade era esquecido tão logo os anfitriões esgotassem as frases prontas em inglês e nós as em árabe...

No terceiro dia, dormimos na casa de um certo Mohammad, cujo inglês era bem aceitável, apesar do sotaque. Durante o jantar falou muito, exaltou a região e sua história, o islamismo e, como não poderia deixar de ser, criticou a fé rival: “Alá não é três, é um!”, “Jesus não é um deus. Ele é um profeta do Islã”. Desatou a listar os erros do livro sagrado dos cristãos e acabou por citar Marcos 5, onde é descrita a visita que Jesus e sua gangue fizeram à terra dos gerasenos: Gerasa, ou Jerash. Para ele, a prova de que Marcos não fora testemunha de episódios da vida de Jesus como a sua prisão no Getsêmani residia no fato de que o verdadeiro autor daquelas linhas ignorava detalhes importantes da geografia da região.

Retirado da Bíblia Católica:

Marcos, 5
Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros, pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus, que não me atormentes." É que Jesus lhe dizia: "Espírito imundo, sai deste homem!"
Perguntou-lhe Jesus: "Qual é o teu nome?" Respondeu-lhe: "Legião é o meu nome, porque somos muitos". E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte. E os espíritos suplicavam-lhe: "Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles." Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti." Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.


Impossibilidade Geográfica

Jesus atravessa o Mar da Galiléia e ainge o território dos gerasenos. Jerash está a aproximadamente 60 km a sudeste do Mar da Galiléia (vejam no mapa e na fotografia ao lado, a partir do Google Earth. Philadelphia é a atual Amã). Mesmo antigamente, o território dos gerasenos era limitado por Pella, também da Decápole, Hippus, Gadara e Raphana, não sendo lindeiro ao Mar da Galiléia - apesar do nome, um lago de água doce.

Jesus expulsa uma legião de demônios de um só possesso e, como bem avaliou Bertrand Russel, ao invés de usar seus poderes divinos para simplesmente mandá-la embora, leva o(s) suinocultor(es) desconhecido(s) à falência - e quem sabe parte da economia da região, pois eram 2000 porcos! A propósito, para quê povos da província romana da Arábia, árabes portanto, que também não consumiam este tipo de carne necessitavam de população suína tão grande? Ordenhavam as fêmeas?* - e permite que os demônios possuam os animais, causando a morte de todos eles. Não parecia ser essa sua intenção inicial mas atende às súplicas dos capetas... E como tudo isto se passa nos domínios de Gerasa, os porcos-lemingues correm mais do que uma maratona para se precipitarem na água.
“A César o que é de César”, teria dito o homem-deus. No entanto, ao autorizar o suicídio induzido de dois mil porcos lesou os cofres de Roma, que tinha direitos sobre parte dos lucros do(s) criador(es) de porcos.

Outro ponto é que não existem precipícios na orla do Mar da Galiléia, quase sempre plana, no máximo os montes que originam as Colinas de Golã, ao nordeste. Precipícios podem ser encontrados mais ao sul, na região do Mar Morto, mas mesmo lá há praias entre os rochedos e a água. Em Marcos os porcos caem diretamente no Mar da Galiléia. Jesus não se importou com a salubridade da água, que servia aos moradores daquelas paragens. Dois mil porcos em decomposição devem ter transformado a água em um caldo bacteriano extremamente nocivo, matando peixes, arruinando pescadores e impedindo os humanos de consumi-la. Não foi à toa que a população escorraçou o Galileu e sua trupe. Pela interpretação de alguns religiosos os habitantes de Gerasa expulsaram Jesus da sua terra por amarem mais os porcos do que a Deus, he he.

Em Mateus 8, 28, lemos:

“No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.”

Agora são dois os endemoniados e Jesus não desembarcou mais em Gerasa mas em Gadara, que distava uns 10 quilômetros do Mar da Galiléia. Pelo menos a chance dos porcos-lemingues morrerem afogados e não enfartados aumenta um pouco no Evangelho segundo Mateus...

Sujo falando do Mal Lavado
Mohammad irritou-se com algumas objeções que fiz. Na época argumentei que aquelas pequenas diferenças eram mais uma prova de que os Evangelhos eram autênticos, pois se o texto de Marcos tivesse sido escrito a partir do de Mateus e não por inspiração divina as informações não seriam conflitantes. Ele disse então que o livro sagrado dos muçulmanos havia sido ditado letra por letra por Alá e que por isso era muito mais confiável do que a Bíblia, “inspirada” e por isso plena de contradições.

Hoje sabe-se que inúmeras outras versões do Alcorão foram deliberadamente destruídas durante os primeiros califados. Em Sana, no Iêmen, encontraram nos anos 70 fragmentos de um Alcorão da metade do séc. VIII que continha passagens diferentes das que vemos na versão atual, o que deveria sepultar a ridícula crença dos muçulmanos de que cada vírgula de seu livro sagrado foi ditada pelo enViado de Alá, o anjo Gabriel, o mesmo que fez o primeiro exame pré-natal em Maria. Mas seria exigir demais dos pobres muçulmanos. Quando ouvem falar dos manuscritos de Sana dão as explicações Ad Hoc de qualquer religioso fanático: "aquilo foi plantado pelo Shitan (diabo) para confundir os crentes".

Não quero perder meu tempo pescando no imundo charco do Alcorão. Minhas “divagações eruditas” não descem tão baixo...

--//--

* - update: Certamente havia uma boa quantidade de romanos e de povos helenizados na região, ainda mais na Decápole, e não viam problemas em desfrutar de um bom lombinho assado de vez em quando. Infelizmente sem as rodelas de abacaxi, afinal os fenícios, caso tenham estado na América antes de Colombo, esqueceram-se de carregar para a Síria mudas da preciosa bromélia.
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