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13 agosto 2013

Deuses devem ser belos

"O belo é o esplendor da ordem"
Aristóteles

Beleza é essencial? Os feios dizem que não. Muitos bonitos afirmam o mesmo, para não serem acusados de arrogantes e de não terem beleza interior, aquela que, por ser subjetiva, todos podem dizer que têm.

Não é comum mas também não é raro que pessoas bonitas desprezem as feias. Estas, em um primeiro momento, buscam a atenção das primeiras como um modo de agregar valor a si mesmas, afinal são bens quase sempre escassos e disputados, exceto na Suécia. No caso do corpo, ou se é jovem ou se tem boa genética ou força de vontade para ir à academia; ou dois ou três destes fatores combinados. Os feios, como a raposa em relação às uvas na fábula de Esopo, talvez passem a desenvolver um genuíno desprezo pela beleza, a repetir que os feios dedicam-se ao espírito para compensarem a falta de atributos físicos, e por isso são mais interessantes. Estas pessoas apreciam belos quadros, bela música, belezas naturais, aves coloridas, mas acham que a beleza humana é apenas convenção, uma ditadura estética europeia e, enfim, não é fundamental como queria Vinícius. Isto, claro, até uma bela sueca ou uma bela espanhola parecerem acessíveis, ou um Brad Pitt, no caso das mulheres. Aí beleza volta a ser importante, imprescindível até, afinal é um fator importante nas leis da atração e, portanto, foi crucial na forja do ser humano ao longo de centenas de milhares de anos.

Pesquisas demonstram que criminosos bonitos conseguem penas menores, candidatos bonitos têm mais chances de serem selecionados para uma vaga de emprego, após o contrato recebem salários maiores, ganham empréstimos mais facilmente; talvez por serem mais autoconfiantes e terem uma habilidade de comunicação desenvolvida e premiada desde a infância poderão ser líderes marcantes, como o Lula (brincadeira). Segundo o economista americano Daniel Hamermesh, nos EUA um trabalhador bonito chega a ganhar, ao longo da vida, 230 mil dólares a mais que um feio com o mesmo grau de instrução e inteligência. Pessoas bonitas tendem a ter mais contatos, e o "network" é essencial para corretores de imóveis, lobistas, arquitetos, advogados e em outras profissões.

Um Padre bonito passa a imagem de ter feito um grande sacrifício ao adotar a batina, demonstra que sua vocação foi verdadeira. O padre feio, por outro lado, parece ter recorrido ao hábito pela ausência de sinal verde das mulheres durante a infância e adolescência. As paroquianas enchem as igrejas em que o primeiro reza missa, seu sermão é mais interessante, principalmente quando fala com voz suave, elas se desdobram para ajudá-lo em tudo, na arrecadação, nas quermesses, fruem de sua beleza sabendo inconscientemente que ainda que ele não pertença a elas, não é de mais ninguém.

A aparência física influencia sobremaneira a personalidade, desde a primeira infância. O menino loiro bonito talvez seja docemente assediado pelos roqueiros neo-grunges da escola, por ser parecido com o Kurt Cobain, e adotará, com o tempo, o ar blasé, a fala mansa, o feitio de quem é indecifrável, turvará sua mente poça d'água para que pareça profunda. De tanto interpretar o personagem que seus amigos nele enxergam e, assim, para corresponder às expectativas e agradar, também para ser bajulado, acabará por incorporá-lo; tornar-se-á uma segunda natureza. O menino feio talvez ganhe a simpatia de um professor de química que nele se veja quando tinha sua idade. Será mesmo atraído para grupos de feios, que lhe darão atenção, criarão seus códigos, seus "inside jokes". Por outro lado, o feio rico comprará a amizade dos bonitos oferecendo sua casa com piscina para as festas da turma, seu carro para as noitadas, pagando as contas de restaurantes, etc. Será popular, obviamente. Se for feio, pobre e muito engraçado poderá servir como bobo da corte.

Os ricos tendem a ser bonitos e os pobres feios. Basta prestar atenção a quem surge pela porta de um carro luxuoso que acabou de estacionar: mulheres e crianças bonitas, homens que poderão ser tanto bonitos quanto feios, baixinhos, carecas, cabeludos. Grosso modo, uma mulher bonita é capaz de arranjar casamentos uma ou duas classes sociais acima, um homem feio pode conseguir mulheres bonitas uma ou duas classes sociais abaixo, um homem bonito pode casar com mulheres bonitas de mesma classe social. Sem falarmos nas lentes de contato, aparelhos dentários, salão de beleza, cremes, implantes, academia, lipos, cirurgias estéticas e outros simulacros de beleza genética acessíveis exclusivamente a quem tem dinheiro.

Antigamente a realidade era outra. Casamentos amiúde envolviam sérios interesses do resto da família. A filha não herdava os bens do pai, cuja fortuna não podia ser dispersada, devia permanecer no "sobrenome", então dependia de um bom casamento, quase sempre comprado com dotes generosos. Os nobres europeus eram feios - talvez não os bastardos, frutos de atração sexual. Dificilmente uma moça pobre e bonita casava-se com um rapaz rico. Se engravidasse, o amante negava a paternidade, ainda que pudesse contribuir materialmente na formação da criança. E a garota praticamente perdia o direito de casar até mesmo com alguém de sua classe social, por ter sido maculada. Assim elas poderiam servir, no máximo, para a diversão dos mais ricos, os quais irremediavelmente casavam-se com mulheres de sua classe social. No Rigoletto de Verdi/Piave, baseado em Victor Hugo, o conquistador Duque de Mântua - o da ária "la donna è mobile" - finge ser um estudante sem dinheiro para poder conquistar o coração da pobre e bela Gilda, filha do bobo da corte.

Se os seres humanos dão tanto valor à beleza, por que adorariam deuses feios? O Jesus histórico provavelmente era feio, afinal era a mistura de uma mulher nascida há dois mil anos no Oriente Médio e de uma pomba. Se fosse possível profetizar e se as profecias de Isaías estivessem certas, Jesus seria comprovadamente feio. Em Isaías, 53, 2 lemos:

"Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos."

Para parecer feio nas visões proféticas de um pastor de cabras da Idade do Bronze, Jesus deveria ser o cão chupando manga. Já o Cão, vulgo diabo, ao contrário, era formoso e atraente, segundo se lê em várias passagens bíblicas.

Os hebreus, talvez por não serem tão bons artistas quanto os gregos, proibiam imagens e esculturas, ainda que não fossem para adoração. Já o gentio convertido para a heresia judaica posteriormente chamada de cristianismo tratou de paganizar a nova religião, afinal às vezes é preciso mudar para as coisas continuarem como estão, como Lampedusa escreveu em seu O Leopardo. Deste modo, não foi apenas o latim que os cristãos tomaram dos romanos. Além desta língua, da própria sede ser em Roma, da arquitetura e de suas ordens, de muito da simbologia, a iconografia é a pagã.

Jesus aparece sempre majestoso, cheio de graça, atraente, alto, caucasiano, grandes olhos, nariz grego, poses clássicas, greco-romanas. Nas representações da crucifixão, deposição e ressurreição é possível ver, parcialmente coberto por uma túnica, o corpo esculpido em sessões diárias de caminhadas pelo deserto, abdominais, flexões e levantamento de pedras, talvez realizados religiosamente após aqueles sermões e parábolas edificantes. Bom, ao menos quando os artistas são de qualidade. Quando não são sempre é possível recorrer a cópias em gesso e reproduções fotográficas de obras consagradas.

A relação pessoal e profunda com Cristo tem muito a ver com a experiência de uma paixão amorosa. Como resistir às ebúrneas Afrodites e arrebatadores Adônis dos altares cristãos? Os católicos não seriam capazes de adorar deuses cuja representação não fosse sexualmente atraente, com exceção de Nossa Senhora Aparecida, aquele boneco de pau tão horroroso que até mesmo o cordato bispo Von Helder não resistiu a chutá-la. A Maria que adoram (dizem que é apenas veneração) tem os seios perfeitos, sua bunda não é caída, não tem rugas de expressão, é simétrica, cândida, é o modelo inimitável das cristãs, é a mãe virgem que lhes diz tacitamente que nunca serão boas o bastante; ou são virgens e não são mães ou são mães e - horror dos horrores - perderam o hímen ao fabricar o cristãozinho ou ao darem a luz, afinal não têm naquela membrana tanta queratina e elastina quanto a mãe de deus, que continuou virgem até mesmo depois do parto, como está escrito nos papeizinhos do Frei Galvão, ainda não autorizados pela ANVISA mas comprovadamente eficazes para o saldo bancário das freiras que os produzem.

Maria continuou bela mesmo na morte. Se após a crucifixão do filho viveu ainda por quinze anos, ascendeu aos céus com corpo e alma, de acordo com o dogma, com uns 60 anos. Sem filtro solar e creme hidratante naquelas paragens áridas da Judéia e, posteriormente, na Ilha de Patmos com João Evangelista, seu corpo, que, por definição, ocupa lugar no espaço e está algures, passível de ser visto por um ET ou por um astronauta, assemelha-se mais a uma jaca desidratada do que à Afrodite das pinturas e esculturas.

A seguir, as imagens ideais dos dois principais deuses cristãos e as imagens reais dos humanos que inspiraram a sua criação, fotografadas por J. J. Benítez durante a Operação Cavalo de Troia.

Jesus ideal, forte, majestoso, limpinho após um banho gostoso no Jordão.

Jesus ideal para os mórmons, o belo rabi desejado pelas fiéis prestativas. A tensão sexual está no ar, e para os mórmons ela será consumada em breve!


Maria ideal, virgem e mãe de feições clássicas, simétrica, limpa, coberta de ouro, tão atraente quanto intocável.
Casamento real de José e Maria, que o traíra pouco antes com o soldado romano Panthera. Aqui ela está grávida, aos treze anos.


Jesus real furioso a destruir o ganha-pão dos vendilhões do templo.
Maria real chorando durante a crucifixão do filho, e também por ter machucado a mão mais cedo ao preparar uma gororoba judaica daquela época.
Maria real aos 60 anos, olhando intrigada para a lente da Rolleiflex de Benítez. 


06 fevereiro 2013

50 Tons de Cinza

Quando uma criança é pequena precisamos ensinar de forma didática o que é ser mau e o que é ser bom. Então temos a famosa historinha do Lobo Mau, que mostra o que é ser mau. A partir do Lobo Mau podemos fazer analogias com situações da vida real para tentar dar significado a contextos para a criança. E temos uma série de outros contos que tentam mostrar o que é ser bom e o que é ser mau.

À medida que crescemos vamos percebendo que o mundo não é preto e branco e nem as pessoas são inteiramente boas ou más. As pessoas são intrinsecamente falhas, como ilustra a historinha bíblica do pecado original. Como resultado, as suas ações, mesmo aquelas bem intencionadas, também são falhas. Já dizia um velho adágio que o caminho do inferno está calçado de boas intenções.

A partir destas premissas vejamos, por exemplo, a eleição do presidente do Senado, o Renan Calheiros. Ele ganhou a eleição para esta cadeira com mais ou menos 75% dos votos dos senadores. O que isto quer dizer? Será que aqueles que votaram contra o Renan são necessariamente bons? Certamente, podemos contar entre eles o Cristovam, que recentemente propôs a federalização do ensino básico como uma panaceia para melhorar a sua qualidade e acabar com a desigualdade entre os ricos e os pobres, o velho Pedro Simon, que já está cansado de guerra, o Eduardo Suplicy, que em seu doutorado nos Estados Unidos entrou em contato com os ideais de Gary Becker de subornar mães, os quais acabaram sendo a base do Bolsa Escola e depois do Bolsa Família. Enfim, figuras que já estavam boas para se aposentar. Temos um Jarbas Vasconcelos com sua lucidez e sua estória de luta pela democracia no Brasil...

Do lado de Renan temos figuras como o velho Sarney e seu pragmatismo absolutamente amoral. Talvez Sarney tenha feito o pior governo da história deste país quando presidente da República, mas acabou sendo excelente para o fortalecimento do PMDB, o que de certa forma viabilizou o nascimento do PSDB, que seria o partido que mais tarde acabaria com a inflação no país. Ironicamente, os técnicos que montaram o Plano Cruzado para Sarney foram mais ou menos os mesmos que montaram o Plano Real para o Fernando Henrique. A diferença é que FHC teve a liderança e o espírito republicano necessário para fazer os dolorosos ajustes necessários ao Plano, apesar das crises do México, da Rússia e da Ásia.

Outra historinha bíblica é a do Bezerro de Ouro, em que Moisés é surpreendido pela fraqueza do povo em adorá-lo. A reação do profeta foi forte mas, apesar disto, o povo não aprendeu e nunca irá aprender. Faz parte da sua natureza a necessidade de idolatrar. No Brasil, temos a idolatria do Lula e seus apóstolos petistas defensoras dos fracos e da ética. Os fatos desmentiram estas pretensões mas, nem mesmo eles são mais fortes do que a idolatria que desafia a razão. De fato, temos aqueles que poderíamos qualificar como os do PT do B, ou seja, PT da Boquinha e outros menos venais. Há até mesmo aqueles que poderíamos chamar de bons.

Mas o mundo é cinza e de boas intenções a estrada para o inferno está calçada. Lembro-me que há alguns anos, o fala mansa do Palocci era um grande defensor da Reforma Constitucional no Brasil. Outro menos discreto como o Dirceu defendia a criação de um Conselho de Ética para os Jornalistas enquanto que Franklin Martins defende o controle “social” da mídia. Temos ainda aquela velha lenga lenga da Reforma Política na qual o PT insiste na criação do voto de lista fechada. O voto de lista fechada é o voto pacote da net. Se quiser tem que comprar todos os canais senão não assina. Assim, o partido garantiria a eleição daqueles nos quais nem o povo votaria.

Curiosamente, não foram os bons do PT os maiores adversários destas teses sinistras e pouco democráticas. Foram justamente os bandidos do PMDB e de outros partidos aqueles que souberam enxergar sob este manto de cordeiro. Afinal, nada como um bom canalha para reconhecer outro. Desta forma, e servindo aos seus interesses mais egoístas, o PMDB buscou preservar sua base de poder, o Brasil. E, assim, a meu ver, serviram a democracia. É, seria muito difícil explicar para uma criança que o lobo mau às vezes pode ser bom e os bons em sua fraqueza e ilusões podem servir o mal. Não é qualquer um que entende que por trás de grandes ideais e boas intenções justificam-se grandes atrocidades.

28 dezembro 2012

Falta-lhes a focinheira adotada por aqui

Manda o bom senso que fiquemos alertas quando a maioria religiosa oprimida repete sem cessar gritos de ordem contra um grupo religioso minoritário opressor, como ocorre hoje contra muçulmanos na Europa, como aconteceu contra judeus pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Guardemos as devidas proporções, logicamente; a principal diferença é que judeus eram discretos e cometiam crimes como possuir dinheiro e emprestá-lo a juros, e presidir academias de arte e conservatórios de música - passíveis portanto de despertar ódio incomensurável em artistas geniais rejeitados -, enquanto os muçulmanos são de fato atrasados, invejosos, belicosos, uma ameaça à democracia e imperdoavelmente feios. Crimes de grandes proporções contra muçulmanos são raros, mas incidentes como intimidações, brigas, vandalismos e pichações com termos injuriosos têm sido cada vez mais comuns. Incomodam também turistas, mesmo que estes não o confessem, que preferem topar com europeus claros quando viajam, porque estes compõem melhor o cenário de castelos antigos e montanhas com neve. Mesmo se abundassem, loiros de olhos azuis convertidos à ala ruidosa do islamismo não incomodariam tanto quanto cristãos africanos negros cordatos, por não enfearem a paisagem. Turistas do extremo oriente também irritam, pois são todos iguais e usam bonés, chegam aos milhares e tornam insuportáveis os locais cuja manutenção depende sobretudo de seu dinheiro. Mas pelo menos estão de passagem, são bonzinhos e tomam banho.

Seria impossível um mundo islâmico tolerante?

Estudo feito pelo Pew Research Center's Forum on Religion & Public Life, divulgado em agosto de 2011, expõe que quase um terço da população mundial vive em países onde há restrições à liberdade religiosa, relacionadas a governo ou hostilidades sociais. Destes países, sete em dez são islâmicos. Contudo...

A Turquia tem praticamente 100% de muçulmanos. Atatürk substituiu os trajes árabes no trabalho pelo terno e gravata, promoveu a educação e o trabalho para mulheres e liberou-as da obrigatoriedade do véu, adotou o alfabeto latino, descriminalizou imagens figurativas na pintura e escultura, converteu em museu a Santa Sofia, antiga basílica transformada em mesquita por Mehmet II, passando a exibir, juntamente com os dizeres "Alá é Grande e Maomé é seu profeta", mosaicos antigos cristãos; encomendou a tradução, do árabe para o turco, do Alcorão, que só podia ser lido no idioma ditado pelo anjo Gabriel, o mesmo que fez o exame pré-natal em Maria. Recentemente, 12 mil turcos saíram às ruas em defesa da sociedade secular, ameaçada por extremistas islâmicos. O Azerbaijão tem 95% de muçulmanos e é, como a Turquia ( e Bósnia e Herzegovina), um país secular onde há liberdade religiosa.

A Malásia tem maioria muçulmana e há liberdade religiosa, sendo reconhecida pelo Estado a conversão do Islã para outras religiões.

Não seria nenhuma surpresa se a Indonésia, com seus quase 90% de islâmicos, cancelasse as leis contra a blasfêmia e a hostilidade contra outras religiões. É um país rico e com algumas características democráticas - embora não seja uma Turquia -, com quase 10% de cristãos e seis religiões reconhecidas pelo Estado. Bangladesh também tem aproximadamente 90% da população muçulmana, e os casos de intolerância eram raros até uns anos atrás.

O Irã, 100% islâmico, foi um dos países mais abertos do oriente, até 1979, com uma vanguarda cultural e uma indústria sofisticada de cinema e televisão. Mulheres fumavam, usavam minissaia, iam à universidade, namoravam em público. O Afeganistão tinha realidade semelhante: maioria islâmica e liberdade.

Os muçulmanos, certamente apesar do Alcorão, criaram nos tempos antigos um padrão para a tolerância religiosa ao qual o mundo não estava acostumado. Muçulmanos protegeram judeus contra cristãos, cristãos orientais contra católicos romanos. Em Bagdá, sob os abássidas, e na Península Ibérica, sob os omíadas, muçulmanos eram mais tolerantes do que cristãos, ainda que às vezes as minorias devessem pagar um imposto para poderem professar a própria fé em sossego. Após a Reconquista, judeus e muçulmanos, que viviam pacificamente no Califado de Córdoba, passaram a ser ferozmente perseguidos, mesmo após se converterem ao cristianismo. Um cristão não comer porco às vezes era o suficiente para ser tratado como judeu: linchado, claro. Os muçulmanos sob o reinado de Saladino eram mais tolerantes do que seus contemporâneos cristãos, nomeadamente os cruzados. Exemplos abundam. No mundo muçulmano prosperaram a matemática, a astronomia, as letras, a filosofia.

E isso tudo sob o mesmíssimo Alcorão. O que falta aos muçulmanos é uma sociedade secular forte para lhes meter uma focinheira reforçada. Falta-lhes um Atatürk, um Napoleão, um grande domador de feras.

Cristãos sempre foram tolerantes?

O Novo Testamento não era diferente nas épocas de Savonarola e Torquemada. E o que os cristãos fizeram com os judeus nos últimos dois milênios? Qual era o sentimento da cristandade em relação a eles, pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, há algumas décadas?

Há pouco mais de 100 anos, Pio IX ameaçou de excomunhão quem apoiasse a democracia, quem votasse, quem promovesse a igualdade de direitos das mulheres e a liberdade religiosa, numa época em que o anátema valia alguma coisa, pois o excomungado era banido da vida social, em geral em torno à Igreja. Esta foi se adaptando à força, deixando de ser religião oficial em países latinos, avançou a reboque dos próprios fiéis e dos de outras denominações, dos críticos e dos descrentes, sempre rugindo e esperneando, excomungando, proibindo livros, associando-se a ditadores e a qualquer tábua que lhe ajudasse a se manter na superfície do poder. E hoje está bem mais branda. Na verdade, está praticamente extinta. Seus fiéis não conhecem sua doutrina. A grande religião do ocidente agora é o cristianismo à la carte, em que se apanha o que interessa e se abandona o que se julga inconveniente, onde se considera literal o que está em harmonia com princípios humanistas seculares, e simbólico e "fruto do pensamento da época" o que vai de encontro a eles. E adora-se uma mistura de Deus bíblico com panteísta, zen budista. Um deus politicamente bonitinho que gosta de veados e putas, e apoia suas atitudes, e que não manda ninguém para o inferno porque é bonzinho. Incentiva todos nossos projetos e nos ajuda a achar vaga em estacionamento concorrido.

O que os muçulmanos precisam aprender com os cristãos é considerar simbólicas algumas passagens do Alcorão, ou fruto do pensamento da época, é colocar os princípios humanistas acima dos divinos, é criar um Alá hippie à la carte, um Maomé Superstar.


Lê-se na Veja Online:

"Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais."

O comportamento de um flamenguista numa multidão de vascaínos é um, em meio a milhares de flamenguistas é outro, principalmente se avistar um vascaíno desgarrado por perto. A História o demonstra. Se não houver policiais (sociedade secular forte), o grupo preponderante tenderá a agir com intolerância. O que a religião desperta no indivíduo que se sente autorizado e reforçado pelo grupo é muito semelhante ao que o clube do coração desperta no torcedor quando se sente parte de uma massa sem rosto, onde anonimamente pode dar largas a tudo o que individualmente não teria coragem de fazer, principalmente se for um ressentido, como é a totalidade dos fanáticos. A culpa é dividida em milhares e, afinal de contas, "dei apenas um chutinho no estômago, não sou o responsável pela sua morte". A massa soma força, não inteligência.

Tanto cristianismo quanto islamismo são perigosos quando a sociedade está nas mãos de seus líderes, quando ela vive sob suas boas intenções. Quando os líderes cristãos e muçulmanos e toda a religião estão sujeitos a leis superiores às divinas - as humanas, regidas por princípios de liberdade, pela convivência -, aí sim é possível ter paz e tolerância. E é por isso que aos católicos incomodam mais os laicistas do que os muçulmanos. Ambas religiões veem no secularismo uma ameaça às suas mordomias e aspirações totalitárias, ainda que em estado de dormência. Onde há humor, liberdade religiosa e de opinião, onde não há leis contra a blasfêmia, os líderes religiosos não conseguem aquela gosmenta aura de importância sacra tão imprescindível para que seus absurdos escorreguem goela abaixo dos homens, às vezes tão questionadores e sensatos.

Enfatizo alguns pontos, por fim:

- Acho os muçulmanos atrasados e condeno as atitudes daqueles que usufruem do que o continente europeu tem de bom e se valem da democracia para condená-la, o que é um contrassenso.

- Apoio a decisão da Noruega de não aceitar financiamento para a edificação de mesquitas quando vem de países que proíbem a construção de templos de outras religiões.

- Não deve haver tolerância para com a intolerância, leis diferentes aplicadas a grupos diferentes em um mesmo país.

- Penso que a Europa deva preservar as características arquitetônicas e históricas de determinadas áreas (o Vaticano, por exemplo, rsrs). Contudo, não vejo problema algum na construção de mesquitas por lá. Que construam um milhão.

- Vaticano e Islâmicos são ambos ameaças ao sadio espírito secular europeu, conquistado a duras penas, o primeiro uma ameaça latente, o segundo uma ameaça real e direta.

- Acho que o próprio Novo Testamento levado ao pé da letra é extremamente perigoso, e o Velho Testamento está na Bíblia, Jesus não o aboliu, aquilo é um verdadeiro manual de maus costumes, do nível do Alcorão. Se foi possível domesticar os cristãos e vários países de maioria muçulmana já tiveram longos períodos de tolerância, entendo que o problema é uma religião hegemônica ter muito poder, influência sobre o Estado, é estar acostumada a ditar o que todos devem fazer.

25 junho 2012

Torturadores e Torturados

Recentemente foi criada a Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Pessoalmente, acho este nome muito inconveniente. Parece aquelas coisas da cultura corporativa do tipo Código de Ética. Mas, afinal, faz parte do marketing político dar-se um nome bonito para uma coisa não tão bonita. Por exemplo, quem não gosta chama de cotas raciais e quem gosta chama de ação afirmativa.

Para começar, quem criou a tal Comissão foi justamente um grupo de pessoas que foram torturadas. Conhecendo a natureza humana, um motivo que parece óbvio é a busca de vingança. Os ex-torturados dizem que não, que querem apenas a Verdade. Bem, para garantir que a Verdade deles seja encontrada, eles mesmos designaram os membros desta Comissão ilustre.

Não se trata aqui de defender a tortura. Esta é uma prática covarde, para dizer o mínimo. Nos Estados Unidos, recentemente, houve quem a defendesse com base na possibilidade de se salvar centenas de vidas de atentados terroristas. De qualquer forma, a falta de empatia que é necessária para tal prática é algo sub-humano. De fato, não se poderia descrever tal prática nem como animal, não é algo sequer digno de um réptil.

Há 40 anos vivia-se uma guerra civil deflagrada por um grupo esquerdista radical que pretendia instalar no Brasil uma ditadura ao estilo cubano. Aí chegamos ao que realmente está em questão na Comissão da Verdade, na minha opinião. Hoje, temos um grupo que chegou ao poder que é constituído por vários dos ex-torturados. Chegaram a ele não pelas armas, nem tampouco para instalar uma ditadura cubana mas por caminhos democráticos.

Estas pessoas passaram por um grande calvário, várias delas passaram anos presas e outras na clandestinidade. Por outro lado, se os militares não tivessem vencido tal sublevação, ainda poderíamos estar vivendo a situação da Colômbia, por exemplo, que vive uma guerra civil há quase 50 anos, ou, se eles tivessem vencido, teríamos quem sabe uma nova Cuba. Enfim, prefiro a vitória dos militares.

O que está em questão, eu acho, é a necessidade destas pessoas de afirmarem que sua causa era justa. Na minha opinião, não era. Uma coisa é a tortura de inimigos do Estado, outra é dizer que eles estavam certos. Creio que eles estavam errados e acho que a tortura aplicada foi também um grande equívoco. Um equívoco tão grande que lançou uma sombra na vitória dos militares sobre esta insurreição que teria sido tão negativa para o país.

Creio que os verdadeiros heróis daquela ocasião não eram estes rapazes da geração 68 nem tampouco os militares. Penso que os verdadeiros heróis tenham sido os membros do antigo MDB e outros que foram os verdadeiros responsáveis pela redemocratização do Brasil. Lula, por exemplo, com sua liderança no ABC, foi um dos que nunca foram torturados e que muito mais contribuíram para a redemocratização do país.

14 junho 2012

Disneylândias da Europa

 Neuschwanstein no Itaimbezinho

Uma reprodução fiel de um quadro renascentista é sempre mais admirável e valiosa do que uma plotagem em tecido da fotografia da mesma obra. Pinceladas, pequenos empastes e veladuras poderão ser examinados de perto, pela visão e tato, com a certeza de que se está no lugar que o copista ocupava enquanto reproduzia a obra. É uma cópia, sim, mas exclusiva. Na impressão apreciamos as formas, tons e cores, sabendo que o valor intrínseco, físico, é pequeno: os custos dos cartuchos de tinta, do substrato e do chassis, provavelmente. Em ambos os casos, contudo, a genialidade é captada como que por um espelho, através do qual se divisa a pintura autêntica.

Quando o original se perde, é destruído, ou tem sua existência inferida pela reprodução, como algumas estátuas romanas esculpidas a partir de gregas, estas nunca admiradas senão pela Antiguidade, a cópia tem seu valor catapultado para as alturas. Ainda mais neste caso, em que muitas cópias são contemporâneas às originais e o mármore empregado, italiano, é superior, o que explica vermos mais narizes e dedos nas estátuas latinas de vinte, vinte e cinco séculos atrás, do que nas gregas de mesma idade. A cópia, nesses casos, passa a ser virtualmente a original. Grandes templos de madeira do Japão são réplicas de construções de mais de mil anos atrás, às vezes em escala reduzida, como o Todai-ji em Nara, que visitei no ano passado. O templo budista é do ano 743 e foi destruído várias vezes por incêndios e terremotos. O edifício atual é do século XVIII e 30% menor do que o primeiro, erigido pelo Imperador Shomu. Ainda assim, se não me engano, é a maior construção em madeira do mundo. Algumas catedrais medievais europeias, perante as quais turistas em êxtase imaginam artesãos de uma corporação de ofício a talhar, por várias gerações, seus contrafortes, arcobotantes, pináculos e nervuras da abóboda, são reproduções de poucas décadas atrás, erguidas em canteiros de obra modernos com tecnologia de ponta, por meio de guindastes, talhadeiras elétricas. São próteses de valiosos e únicos membros urbanos decepados em guerras ou terremotos. De igual modo, o copista hábil no óleo talvez opte por auxílio tecnológico para transpor as formas com precisão para a tela. Poderá imprimir a fotografia em tamanho natural, marcar os pontos de referência com absoluta exatidão, usar o conta-gotas do Photoshop para saber a dosagem aproximada de azuis, amarelos e vermelhos.

Não duvido que haja falsificações espalhadas por museus mundo afora. Serão tratadas como originais até serem desmascaradas. E há ainda obras de arte atuais em estilo antigo. Imaginemos uma tela de tema mitológico ao estilo de Ticiano, como se a alma deste tivesse possuído o pintor (não desastradamente como outros gênios incorporaram em Gasparetto), produzida em um loft de Nova Iorque ao som de Miles Davis, com o burburinho urbano vindo da janela, um copo de Jack Daniel's ao lado de bisnagas Winsor & Newton. Se tal obra fosse exposta no Louvre como um maneirista da escola de Ticiano, visitantes seriam arrebatados por aquela maravilha. Se vissem a mesma obra sendo criada no loft, talvez diriam com desdém: "mais um pastiche americano". Quem daria o Nobel de Literatura para o autor de um livro em grego antigo nos moldes da Odisseia? Embora sua habilidade devesse ser louvada, não poderíamos compará-lo a Homero, muito menos achar que suas obras têm importância equivalente.

O castelo de Neuschwanstein, no sudoeste da Baviera, é considerado por muitos o castelo mais bonito da Europa. "É um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o 'cartão postal' daquele país", lemos na Wikipedia.

Esta arquitetura fantástica é a avó do castelinho da Bela Adormecida que vemos na Disneylândia. É um pseudo-românico enfeitado, construído com mil anos de atraso por um reizinho perdulário fanático por óperas de Wagner. Chega a ser compreensível, porque durante o romantismo houve um retorno ao medievo. Mas Neuschwanstein é meramente um belo cenário, tão mentiroso quanto qualquer cenário de ópera, embora possa ser visto de ângulos internos e externos. Sua estrutura é de concreto e suas vedações de alvenaria ordinária revestida com cascas de pedra. Esqueçamos da belísima paisagem em que Neuschwanstein está inserido. Ele só está lá porque ela é bela, não porque se necessitava de um sítio seguro, estratégico, a salvo de povos hostis munidos de tochas, catapultas e aríetes. Foi construído com técnicas modernas, nunca houve um rei a comer faisões em meio a vassalos, nunca uma corte se instalou por lá, os pesados portões nunca estiveram entre sitiados e invasores, a assimetria do conjunto de torres não se explica por acréscimos que reis fizeram através dos séculos, por demanda da necessidade, que é o ingrediente de espontaneidade dos castelos medievais; nunca arqueiros estiveram protegidos detrás de suas seteiras, que não existem para compor a estética de castelinho, adotada em motéis temáticos de beira de estrada e em réplicas sofríveis como o Chateau La Cave, em Caxias do Sul, minha cidade natal. O cartão postal alemão não traduz um estilo, uma época. Quem olha aquela arquitetura eclética não imagina que foi concluída nos estertores do século XIX.

Já me disseram que a obra de arte é uma contrafação do real, que toda arte é mentirosa. Mas arquitetura não é apenas obra de arte, como quer Niemeyer, não é mentira, como a pintura e a literatura ficcional. Não posso dizer que quatro paredes e um teto são uma imitação de uma caverna. Já a arquitetura pode ser imitada, claro. Neuschwanstein e quase tudo de Gramado são mentiras sim, ainda que o primeiro seja uma estonteante e Gramado seja uma, digamos, mentira bonitinha. O enxaimel não nasceu de uma imitação da natureza ou de um ideal estético. É uma verdade estrutural. Pilares, vigas e contraventamentos de madeira são expostos em seu estado natural, enquanto as vedações são pintadas de cores claras, amiúde. Levantarem uma casa de cimento, como fazem em Gramado, para depois pintarem “x”s marrons sobre pequenos ressaltos na argamassa, pendurarem placas em alemão com caracteres góticos e atrair turistas que quase sempre pensam estar em uma autêntica pequena Alemanha, é uma mentira bem diferente do que a que vemos em romances. É fato que existem alguns poucos enxaiméis originais em Gramado e em cidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, e é certo que turistas também vão para lá pelas belezas da Serra Gaúcha, pelo clima e também pelos parques temáticos, estes explicitamente "disneylandescos".

Outros dois exemplos de arquitetura fake europeia são o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, um autêntico gótico para inglês ver, concluído em 1870 mas com cara de séc. XIII, perto do qual há até uma estátua recente do rei cruzado Ricardo Coração de Leão, e a Sacré Coeur, um belíssimo templo neo-neo-românico-bizantino para francês ver, concluído em 1914 mas com cara de séc. IX.

Quem me dera que as imitações fossem sempre harmônicas e seguissem os cânones daquilo que pretendem copiar. Na maioria das vezes são pastiches grotescos, fora de proporção. Um exemplo é o Arco do Pontão, em Brasília. O número de vãos deve ser sempre ímpar, porque pelo centro desfilará, teoricamente, algum soberano em triunfo. Mas não. Roriz não foi um grande conquistador - basta olhar para a Weslian -, e bem ao centro temos a guaritinha do guardinha. Os arcos são abatidos, provavelmente por limitação do Código de Edificações, não há espaço para respirarem, porque mal há entablamento.

Por fim, não considero a arquitetura neoclássica, de princípios do séc. XIX, cópia do greco-romano. As ordens dórica, jônica, coríntia, compósita, toscana, a limitação estrutural da pedra ou do concreto não armado a condicionar modulações de colunas e a espessura das paredes, nunca deixaram de ser realidade, desde o helenismo até o classicismo a que me refiro. Mesmo na Renascença, a sociedade como um todo fazia um retorno ao greco-romano, no espírito, nas artes plásticas, no teatro, na filosofia. E não havia multidões de turistas gassetianos que justificassem meras "disneylândias".

27 janeiro 2010

Vodu, Candomblé, Pentecostais e Carismáticos

Após engravidar a própria filha enquanto o futuro genro dava duro na carpintaria, descer em forma de pomba sobre o companheiro de trindade a ser banhado pelo primo locustófago, após descer como línguas de fogo sobre os membros da gangue de Ben Pantera, o Espírito Santo ficou em uma espécie de sono letárgico por quase dois milênios, limitando-se a fazer biscates como auxiliar de exegetas e a opinar em concílios, voltando há pouco a operar maravilhas nos evangélicos e carismáticos católicos após os negros de Nova Orleans acharem uma brecha na lei – o Pentecostes de Atos dos Apóstolos - para inserirem nos cultos cristãos a catarse de seus ritos africanos. Houve pequenas mudanças, claro: se nos bons tempos ele descia, hoje o Espírito baixa.

Hoje a missa é considerada desanimada em comparação aos cultos evangélicos. Historicamente, no entanto, os protestantes – em especial os puritanos dos EUA – desejavam uma volta ao cristianismo primitivo, seus hábitos e cultos eram austeros, sisudos, principalmente se comparados aos católicos e seus templos em estilo pagão cujas paredes e abóbadas ornamentadas por esfuziantes esculturas e pinturas sensuais reverberavam notas de pujantes óperas sacras, melodramáticas, onde o ar recendia a incenso, onde o sacerdote coberto por paramentadas sotainas proferia, de costas para a nave, palavras mágicas em latim que ameaçavam, garantiam proteção, transubstanciavam pão em carne de teântropo. Mesmo o pietismo, um movimento surgido na Igreja Luterana onde se buscava uma experiência individual com Deus, vitalista, não era nada festivo. Algo dele influenciou os metodistas e chegou às primeiras igrejas pentecostais americanas. Mas o pentecostalismo não veio do pietismo, daquele lá do séc. XVII, como afirmam alguns católicos carismáticos.

Quando havia comércio de escravos nas Américas, o vodu cruzou o Atlântico com os negros que o praticavam e criou raízes nos EUA (Nova Orleans) e Caribe (Haiti). O vodu original de estilo africano parece ter chegado mais ou menos intacto por lá. Em um ambiente cristão severo, protestante, existiam leis contra a execução de sua música ritmada, mas com escassos resultados. William Seymour, um filho de ex-escravos de Louisiana, promoveu o sincretismo dessa espiritualidade ancestral com o cristianismo, encorajando a música ritmada na igreja como parte da busca pela experiência imediata com o Espírito Santo, assim como a glossolalia*, o transe, a dança - a catarse, enfim - essenciais na espiritualidade daqueles africanos. Horas sem se alimentar, cansaço físico, alucinações decorrentes... Do ponto de vista biológico, as catarses, ritmos e danças fazem o cérebro liberar ocitocina em boa quantidade (hormônio que atinge um pico pouco antes do orgasmo sexual), endorfina e outros hormônios do prazer que podem levar o "usuário" a querer cada vez mais catarses, mais danças, mais música ritmada.

Tal histeria - que antigamente apenas víamos nas igrejas evangélicas americanas freqüentadas por descendentes de africanos -, aquelas pessoas em transe a emitir seus “gemidos inefáveis” (Rm 8, 26), essas coisas semelhantes a rituais de vodu e candomblé só apareceram no cristianismo, portanto, com os negros dos EUA. Hoje vemos caricaturas daquele fervor, que ao menos era autêntico, nos católicos e nos evangélicos brasileiros e de outros grotões subdesenvolvidos. No caso dos Carismáticos Católicos, com seus maneirismos idênticos aos dos evangélicos, o Espírito Santo lhes sugeriu plagiar os “irmãos separados” para evitar a debandada de fiéis, que seria radicalmente maior se na RCC se buscasse o contato com Deus apenas com orações e com o velho e maçante ritual da Missa.

Como devemos olhar os frutos para julgarmos a árvore, segundo o amaldiçoador de figueiras, as antigas cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, eram boas e santas porque permitiram a volta na cristandade daquele Espírito Santo que não se via desde o Pentecostes.

*Glossolalia

Romanos 8, 26 e 27: “Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus.”

Somos fracos e não sabemos orar e o que pedir, por isso o Espírito Santo nos trata como títeres movendo nossos lábios e vibrando nossas cordas vocais para que sejam emitidos burlescos sons estilo “shá-lá-lá-lá-shimanian-nan-lá-lá” (carismáticos costumam fazer a glossolalia com sons que julgam se parecer com algo semita - árabe ou hebraico). Após isso, Deus, burocrático como sempre - não é um com o Espírito Santo? -, ouve os gemidos, os compreende, e atende. Atende, é lógico! A fé move montanhas e placas tectônicas. Eu posso rezar sem fé, mas não se é o próprio Deus que reza a Deus por mim, não? Na verdade, essa oração em línguas pode ser até um pedido para que o Haiti seja arrasado. Não há como saber, uma vez que no versículo seguinte ao disparate destacado acima lemos: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios.” Ou seja: até mesmo o terremoto no Haiti concorre para o bem dos eleitos, por isso o bom deus de Zilda Arns lhe acachapou a cabeça com uma trave de concreto.

Uma teoria maluca que elaborei hoje pela manhã: Nova Orleans, há não muito tempo, foi arrasada pelo Katrina. Neste terrível janeiro de 2010 a capital do Haiti foi destruída por um terremoto e a região de Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Paraitinga, no leste de São Paulo, foi fortemente castigada pelas chuvas. Em Paraitinga, uma igreja história de uns 200 anos veio abaixo com a força das chuvas. Essa é a região brasileira onde a Renovação Carismática Católica é mais forte. A sede da Canção Nova, por exemplo, fica em Cachoeira Paulista. Será que tudo isso está acontecendo porque Javé resolveu implicar com o Vodu, contrariando os planos do Espírito Santo? No mundo das religiões, tudo é possível!

05 janeiro 2010

Ateus x Crentes ou Comunistas x Sacerdotes?

Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?

A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.

Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.

Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).

Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.

Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.

A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.

Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.

Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.

Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!

21 dezembro 2009

Os deuses precursores

Janer Cristaldo


1. JEZEUS CRISTNA

Desta última viagem, voltei com alguns livros daqueles que não encontramos aqui. Destaco dois. De Karen Armstrong, minha teóloga predileta, Los Orígenes del Fundamentalismo en el Judaísmo, el Cristianismo y el Islam. Armstrong, eu a conheço desde há muito e tenho boa parte de suas obras em minha biblioteca. O outro livro foi Pablo de Tarso, ¿Apóstol o Hereje?, de autora espanhola que desconhecia, Ana Martos. Apesar de alguns lapsos, como falar da existência de três reis magos na Bíblia – o Livro fala apenas de magos, jamais diz que são reis e muito menos que são três – Martos faz importantes reflexões sobre as origens do cristianismo e sobre a heresia de Paulo.

Para começar, segundo a autora, os poemas e livros sagrados hindus, que narram o mito do primeiro casal que desobedeceu e foi expulso do paraíso terrenal do Ceilão, afirmam que Brahma finalmente os perdoou, mas que, posto que era um deus, conhecia de sobra a natureza humana e soube de antemão que continuariam pecando e ofendendo-o, porque o mal já havia entrado no mundo e não era fácil tirá-lo dali. Por isso, decidiu enviar Vischnu, a segunda pessoa da Trindade, para que se encarnasse no ventre de mulher mortal e redimisse o gênero humano do mal e da morte eterna. Vischnu se encarna mais de uma vez. Sua oitava reencarnação foi Cristna, e a nona, Buda. 3500 anos antes de nossa era, Cristna nasceu de mãe virgem, tendo sido profetizada sua vinda ao mundo pelos livros santos. Acho que o leitor já conhece história semelhante.

Adelante! A concepção da mãe de Cristna foi marcada pelo divino. Vischnu apareceu em sonhos a uma mulher justa e boa chamada Lakmy, que esperava um filho, advertindo-a que daria luz a uma filha, que seria eleita por Deus para ser mãe do futuro redentor do mundo. A criança deveria chamar-se Devanaguy e não deveria conhecer varão, mas permanecer virgem e entregue à oração.

Anos depois, Cristna foi concebido milagrosamente durante uma cena mística, na qual Devanaguy entrou em êxtase enquanto orava fervorosamente, ofuscada pela luz e esplendor do espírito divino que se encarnou em seu ventre. Mas Rausa, tirano e tio de Devanaguy, foi advertido em sonhos de que a criança que nasceria de sua sobrinha o destronaria algum dia e a encerrou em uma torre.

Nove meses depois chegou o momento esperado do parto e, ao primeiro gemido de dor da parturiente, um forte vendaval a elevou milagrosamente e a transportou até a cova do pastor Nauda, onde nasceu um menino a quem deram o nome de Cristna.

Todos os pastores acudiram a adorá-lo e a atender a mãe e o filho, mas Rausa soube que a criança havia nascido fora de sua prisão e, enfurecido, mandou degolar todos os meninos que tivessem nascido naquela noite. Devanaguy recebeu a advertência celestial e fugiu com o menino para colocá-la a salvo da degola, quando os soldados do tirano se aproximavam perigosamente.

Passaram-se os anos e Cristna, a criança celestial, cumpriu dezesseis. Chegou então o momento de abandonar a proteção materna para percorrer a Índia e predicar uma nova moral. Uma moral que a todos impactou, porque se atreveu a proclamar a igualdade entre os homens e inclusive, com coragem, entre as castas hindus, algo que ninguém até então havia sido capaz de mencionar. E não só isso, mas também pôs em destaque a hipocrisia dos sacerdotes brâmanes, o que lhe valeu sua ira e suas contínuas perseguições.

Quando foi necessário, Cristna realizou o milagre de curar enfermos e leprosos, fazer andar os paralíticos, devolver a visão aos cegos e inclusive ressuscitar os mortos. Muita gente o seguiu porque sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes.

Disse ter vindo ao mundo para redimir os homens do pecado de seus primeiros pais, rodeou-se de discípulos que continuariam seu trabalho e ensinou sua doutrina através de parábolas. Certa ocasião, Cristna teve de repreender o principal de seus discípulos, Ardjuna, por sua escassa fé, já que ele e outros seguidores entraram em pânico quando sentiram aproximar-se os esbirros do tirano. Mas Cristna soube infundir neles novo ânimo, mostrando-se com todo seu divino resplendor da segunda pessoa da Trindade divina. Após sua transfiguração, seus discípulos começaram a chamar-lhe Jezeus, que significa “nascido da essência divina”.

Quando soube que havia chegado sua hora, retirou-se a um lugar para rezar, proibindo a seus discípulos que o seguissem. Submergiu no rio Gânges e logo ajoelhou-se às suas margens, recostando-se a uma árvore e esperando sua morte. Enquanto rezava, chegaram os soldados do tirano e os esbirros dos sacerdotes e um deles feriu-o com uma flecha. Para que terminasse de morrer, o dependuraram em uma árvore para que o devorassem os animais selvagens.

Seus discípulos o procuraram ansiosos quando souberam de sua morte e correram para apanhar seus restos, mas nada encontraram porque o filho de Deus havia ressuscitado e voltado aos céus.

Isto aconteceu 3500 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência. Continuo mais tarde o relato dos demais mitos anteriores ao cristianismo, feito por Ana Martos.


2. AGNI E MITRA

Segundo a autora, encontramos mais um mito precursor nos Veda, os livros sagrados da Índia revelados pelo próprio Brahma e compilados por Vyasa, que datam do século XIV antes de nossa era. Traduzo.

Agni nasceu no 25 de dezembro, solstício de inverno, tendo sido sua vinda anunciada ao mundo por uma estrela no firmamento. Desde então, quando reaparece, os sacerdotes anunciam a boa nova ao povo e repetem o rito do descobrimento do fogo, esfregando os lenhos cruzados, até que surge a chispa como uma criatura celestial que colocam sobre palhas para que prenda fogo. Os sacerdotes levam até o berço de palha uma vaca que leva a manteiga e um asno que leva o soma, um licor alcoólico de cor dourada, com os quais alimentam a pequena chama, à qual chamam criatura.

No ritual, os sacerdotes lhe oferecem pão e vinho e cada fiel recebe uma pequena partícula da oferenda, que contém parte do corpo de Agni, nome que se transformou em Agnus, cordeiro em latim, no contato com o povo romano. O cordeiro que se oferece a Deus como vítima propiciatória pela redenção dos homens, o cordeiro de Deus, Agnus Dei.

O nome de Agni significa “unção”, que em grego se diz “cristnos”, de onde procede “cristo”, o “ungido”, o Messias judeu e cristão dito em grego, porque em hebraico se mashiakh, que se translitera como messias. Os dois lenhos cruzados são a cruz onde se gera o fogo, o Sol, que é a origem do deus segundo o dogma ariano de uma trindade composta pelo Sol, pai celeste; o fogo, encarnação do Sol e o espírito, sopro de ar que acende a chama.

Nos conta a autora que a Índia teve um outro deus, não tão importante, mas que passou ao panteão persa – e depois ao romano – com todas as características de um deus principal. Seu nome era Mitra, também chamado o Senhor, e fez nascer com suas flechas a fonte eterna do batismo, já na Pérsia. Nasceu de mãe virgem, em um 25 de dezembro, a festa mais importante da religião dos magos persas. Seu nascimento foi anunciado por uma estrela que apareceu no Oriente e os magos acudiram a adorá-lo, levando-lhe perfumes, ouro e mirra. Mitra morreu no equinócio da primavera, em março, para ressuscitar triunfante no terceiro dia.

Na religião mitraica, que primeiro foi hindu, logo persa e finalmente foi adotada por Roma como religião oficial, Mitra, que originalmente foi o ministro principal do deus Ormuz, venceu o touro que simbolizava a vida, arrastou-o a uma cova e lá o degolou para beber seu sangue, porque de seu sangue surgiu a vida e de sua carne se originaram todos os animais e todas as plantas. Por isso, Mitra se converteu em criador do universo e, ao mesmo tempo, em mediador entre Ormuz e o ser humano. Os ritos de iniciação nos mistérios de Mitra incluíam batizar o neófito com sangue de touro sacrificado em um lugar mais elevado, de onde o sangue manava para banhar o iniciado. A iniciação começava com o batismo e terminava com a comunhão, em que se consumia a carne do touro com água, pão e vinho. O pão e o vinho se consagravam previamente com uma fórmula mística que os converteria em corpo e sangue do deus. O culto de Agni surgiu 1400 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência.


3. OSÍRIS, DIONISOS E SERAPIS

Ana Martos vai adiante e envereda pela mitologia egípcia. Os Textos das Pirâmides mostram que Osíris oferece seu corpo como pão de vida e seu sangue como vinho. “Tu és o pai e a mãe dos homens que vivem de teu sopro, comem a carne de teu corpo e bebem teu sangue. O que come tua carne e bebe teu sangue viverá eternamente”.

Os gregos identificaram Osíris com Dionisos, o deus encarnado, o salvador, filho de Deus, nascido de uma mulher mortal, em um 25 de dezembro, em uma cova humilde onde pastores o adoraram. Osíris Dionisos oferecia a seus seguidores o renascimento para a vida eterna mediante a imersão ritual na água. Em sua vida terrena converteu a água em vinho durante uma cerimônia nupcial. Entrou triunfalmente na cidade montado em um asno, enquanto as pessoas brandiam palmas. Morreu na Páscoa (na primavera) pelos pecados do mundo, desceu aos infernos e ressuscitou no terceiro dia para ascender glorioso à sua morada celestial, de onde descerá ao final dos tempos para julgar os homens bons e os maus. Dionisos, como Baco e, em alguns cultos, Orfeu, foi crucificado pelos pecadores, mas não em uma cruz de dor, senão em uma cruz de salvação, porque a cruz é símbolo e totem de muitos povos. Sua morte e ressurreição se celebravam com um ágape ritual com pão e vinho que simbolizavam sua carne.

A conversão do pão e do vinho em carne e sangue do deus era um ritual tão popular que Cícero, cético, chegou a protestar em De natura deorum e a perguntar se alguém podia estar tão louco para acreditar que o que ingeria era a carne e o sangue de um deus.

O culto a Osiris se ampliou e se aperfeiçoou durante o período helenístico, no qual o Egito esteve governado pelos gregos, para configurar uma nova divindade cuja morte e ressurreição assegurava vida eterna a seus fiéis. Unindo todas estas facetas, Ptolomeu I proclamou a religião de Serapis no Egito como religião oficial imposta, não espontânea como a de Isis ou Adonis, mas mantendo a tolerância em relação a outros deuses e outras religiões. Serapis era a união de Osiris e Apis, dois deuses egípcios que naquela época já incorporavam os aspectos do deus grego Dionisos, pelo que se proclamou Redentor filho da Trindade egípcia.

Serapis nasceu de mãe virgem no solstício de inverno, morrendo no equinócio da primavera para ressuscitar no terceiro dia. Não escapou de ameaças de morte, o que obrigou sua mãe, a virgem Isis, a fugir com o filho, montada em um asno. Isso sem falar da imagem de Orfeos Bakkikos, a primeira que se conhece de um deus crucificado, utilizada nos mistérios órficos e dionisíacos celebrados no Mediterrâneo... desde o século VI antes da era cristã.

Conhecemos essa história, não? É a do cara aquele que nasceu num 25 de dezembro de mãe virgem, foi anunciado por anjos, curou enfermos e leprosos, fez andar os paralíticos, devolveu a visão aos cegos, transformou água em vinho e ressuscitou mortos. Sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes. Desafiou os sacerdotes de sua época, foi crucificado, morto e sepultado e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Se alguém ainda acha que isto não é ficção de hábeis sacerdotes, que se vai fazer?

08 fevereiro 2008

Judeus, os Escolhidos de Moisés

Como diria Freud, os judeus foram o povo escolhido de Moisés, a quem eles assassinaram no deserto. Em seu livro “Moisés e o Monoteísmo” (leia o post Moisés de Freud), ele afirma acreditar que o monoteísmo havia sido uma doutrina egípcia que servia para aumentar o poder do faraó, sumo-sacerdote do Deus único.

Os sacerdotes, em oposição a esta tentativa, derrotaram o faraó em uma Guerra Civil. Um irmão do faraó, Tut Moses, general-governador do norte, escolheu os escravos semitas como o povo sobre o qual restauraria a glória de sua dinastia, apoiado no monoteísmo. Aparentemente, a carga de Moses fora excessiva e os escravos se livraram dele no deserto, mas o séquito egípcio e monoteísta de Moisés sobreviveu e se tornou a tribo dos levitas.

Para Freud, não existiam judeus antes do Egito; aliás, o hábito da circuncisão é egípcio. De fato, ele afirma que o patriarca Abraão seria apenas uma invenção, ou uma revalorização do imaginário semita que permitiria a eles restaurar um pouco do orgulho de terem sido salvos pelos seus senhores. Mais que isto; todo o esforço para tentar transformar Moisés em judeu, por meio do mito do bebê no cesto descendo o Nilo, contraria todos os mitos de Reis da Antiguidade, incluindo o mito arturiano. Enquanto todos se esforçavam para nobilitar os seus salvadores, os judeus se esforçavam para dizer que apesar de príncipe egípcio criado no Palácio, Moisés não era nobre nem egípcio.

Ainda segundo Freud, a fundação do cristianismo por João está ligada à insuportável culpa judaica de ter assassinado dois messias, Moisés e o próprio Jesus. Com João, a seita judaico-cristã se separa do judaísmo ao afirmar a divindade de Cristo. Aliás, os bispos da linhagem de João do “patriarcado” do Egito acabaram impondo a versão final da Bíblia, selecionando os três Evangelhos Sinóticos interpretados a partir de João e condenando os demais Evangelhos, especialmente o de Tiago. Isto só foi possível graças à sua aliança com o Imperador Constantino, que reconheceu o poder do monoteísmo como força política, e que viria a contribuir para manter a unidade do Império, decadente por mais dois séculos.

Israel se mostrou ingovernável e os romanos o destruíram, espalhando os judeus pelo mundo. Enquanto isto, após a queda do Império Romano do Ocidente, a Igreja Romana espalha o cristianismo por toda a Europa, cristianizando os conquistadores bárbaros. De certa forma, a idéia de Europa foi forjada a partir do cristianismo, na medida em que não havia uma unidade política.

Quando Paulo decidiu levar a heresia judaico-cristã aos não-judeus, ele deu origem à inflexão histórica que tornaria a crença minoritária de Cristo na religião dominante na Europa. A antiga maioria judaica se viu exilada nas terras de sua antiga heresia: e a história revela mais uma de suas ironias. Os conflitos seriam inevitáveis.

A fórmula do Deus único também funcionou para a unificação da Arábia sob a liderança de Maomé. A fórmula do poder divino servia bem aos Reis cristãos até recentemente, como podemos ver neste trecho de Bossuet:

“Deus encarna em Cristo; o Cristo, na Igreja; a Igreja, no Papa.”

Ou na sua releitura marxista-leninista:

“as massas se encarnam no proletariado; o proletariado, em “seu” partido; o partido, em seu secretário-geral”

Com a hegemonia cristã na Europa, a presença judaica se tornou algo incômodo, o que resultou na conversão forçada dos judeus em Portugal, por ocasião do casamento de D. Manoel com a princesa espanhola. Aliás, os espanhóis queriam a expulsão dos judeus e os portugueses deram o seu jeitinho convertendo-os à força. Os judeus só tiveram a opção de sair do território português após populares lisboetas, liderados por dominicanos, promoverem três dias de fogueira de judeus.

Como já disse alguém, os judeus eram o estrangeiro próximo; de fato, em um texto de Hannah Arendt, ela menciona impressionada ter conhecido um judeu alemão em Israel que em sua vida na Alemanha não se lembrava de ter dirigido a palavra a um não-judeu. Proudhon, o socialista utópico, expressou a intolerância européia com a presença judaica:

“O judeu é o inimigo do gênero humano. É preciso fazer com que essa raça volte para a Ásia ou teremos de exterminá-la.”

De fato, os judeus são considerados como agentes do capitalismo por Edouart Drumont que afirma:

“O semita é negociante por instinto, tem vocação para o tráfico, a genialidade para tudo o que for troca, para tudo o que for oportunidade de enganar o semelhante.”

De fato, alguns ressentimentos são inevitáveis. Conversando com alguns conhecidos, eles me garantem que as FARC não seqüestram judeus porque parte do contrabando de armas é feito por ex-militares israelenses. Talvez, com Chávez isto tenha mudado.

Um conhecido descendente de judeus alemães me contou uma vez que seus antepassados escaparam da Alemanha em um navio que um grupo de famílias conseguiu comprar e, ainda segundo ele, na crise vivida pela Alemanha, os laços de solidariedade judeus não se estenderam ao restante do povo alemão que era demitido primeiro das fábricas. Havia preços diferentes para membros da comunidade judaica e para alemães. Isto tudo alimentou ressentimentos....E Hitler teria escolhido os judeus para Cristo.

06 fevereiro 2008

As FARC e o MST

O que as FARC e o MST tem em comum? As FARC nasceram em 1964 como braço militar do Partido Comunista da Colombia e se consideram uma organização bolivariana, enquanto o MST deve o seu surgimento à Igreja da Teologia da Libertação com a instalação da Comissão Pastoral da Terra em 1975, embora seu primeiro encontro tenha ocorrido em 1984, em Cascavel no Paraná. Hoje, as FARC estão presentes em 40% do território colombiano e no Brasil, e o MST está presente em 23 estados brasileiros.

Esta tradição de luta revolucionária a partir do campesinato vem de Mao, que contrariou a orientação leninista de insurreição a partir do operariado urbano. Com o massacre das tropas comunistas em 1927 teve início a Grande Marcha para o noroeste, que se estendeu por 10.000 km escapando do cerco do Kuomitang.

Após a derrota japonesa, a estratégia de Mao visava a tomada revolucionária do poder. “O poder está na ponta do fuzil.” A China contava com 500 milhões de camponeses e com dois milênios de tradição de lutas entre camponeses, as quais Mao soube capitalizar. Nas palavras de Mao: “Eles quebrarão todas as cadeias e se lançarão na via da sua libertação (...). Temos de nos pôr a frente dos camponeses e dirigi-los”.

Esta estratégia de guerra revolucionária que prevê a conquista das cidades a partir do campo teve em Mao o seu grande teórico. “Quando o inimigo avança, nós recuamos; quando inimigo pára, fustigamo-lo; quando o inimigo cansa, atacamos; quando o inimigo recua; nós o perseguimos.”

Na América Latina, tivemos a Revolução Cubana, cujo modelo Marrighella queria ter seguido contra os militares no Brasil. A persistência do núcleo revolucionário castrista sobreviveu à fracassada tentativa de tomada do quartel de Moncada e ao fracasso do desembarque do Granma mas teve sucesso na Sierra Maestra. Com a chamada estratégia de foco, os dozes discípulos de Castro sublevaram as massas camponesas, conquistaram as pequenas cidades, depois as médias e com greves gerais e propaganda acabaram chegando à capital. De fato, Fidel negava ser marxista até então.

Guevara tentou repetir a estratégia na Bolívia, imaginando que os Andes seriam a nova Sierra Maestra, para fomentar uma revolução bolivariana. Morto Guevara, tivemos o extinto Sendero Luminoso no Peru e as FARC, que sobrevive com seqüestros e tráfico de drogas e agora ganhou novo impulso com o apoio venezuelano em armas e facilitação de escoamento de suas drogas para a Europa.

A versão brasileira destes movimentos seria o MST, cuja estratégia de tomada de propriedades por multidões torna ineficaz a identificação de responsáveis ou a resistência considerando que na zona rural não existem forças policiais anti-motim. De qualquer forma, é um grupo já bastante doutrinado que amanhã pode ser a base de um exército revolucionário popular que terá amplo apoio de nossos vizinhos - as FARC e o exército venezuelano. Permanece, portanto, como uma ameaca pairando sobre a sociedade aberta e a democracia brasileiras, coisa aliás que o quebra-quebra no Congresso ilustra bem.

02 fevereiro 2008

A Estrela Vermelha do Totalitarismo


Em tese, o estado de direito é aquele onde há separação entre o poder e a lei. Isto é bom porque alguém que tem o poder não pode decidir com base em seus interesses políticos mas de acordo com a legalidade. Na verdade, isto não é novo; desde as reformas de Sólon e Dracon, os juízes teriam que julgar com base na lei, o que nem sempre é bom, porque muitas vezes a lei não é razoável nem justa.

Já foi o tempo em que a ausência de Estado preocupava pensadores como Maquiavel, que propôs a idéia do Príncipe, figura que definiria o bem e o mal públicos, que estaria acima da Igreja e da tradição moral e que concentraria poder para promover a unificação da Itália. Estas idéias frutificaram e os príncipes e reis concentraram tanto poder que destruíram a nobreza agrária.

Nos fins do século XVIII, com a emergência da burguesia, tivemos o surgimento da nova nobreza, os homens se nobilitariam pelo estudo e pelas suas ações. Homens instruídos e cultos estariam destinados a ser a elite governante. O mérito presidiria as relações sociais. Estes homens substituiriam a antiga nobreza e serviriam à monarquia constitucional.

O paradigma newtoniano atinge o seu apogeu no século XIX com o positivismo de Comte, que nos deixou o lema familiar: ordem e progresso. A Revolução Industrial e o avanço científico nos deixaram uma enorme "fé" na ciência. Acreditava-se, nesta época, que o Estado civilizaria o homem por meio do controle das suas punções, com educação e uma boa polícia.

Uma reação a tudo isto foi o socialismo de Marx, que percebia que o Estado havia se tornado a vanguarda da burguesia e postulou que o fim da história viria quando os proletários tomassem o poder. Seria então instalado um governo provisório, que no caso da URSS durou 70 anos, de Cuba se tornou “hereditário” e da China não dá o menor sinal de acabar. Enfim, depois disto viria o “fim da história”.

Marx previu o seu fim, mas o Estado continua firme. Vamos encarar a realidade: o Estado nunca vai desaparecer. Vamos ter de lidar com ele. Talvez o menor Estado que já houve tenha sido os Estados Unidos no século XIX, que submetia os seus cidadãos a incrível carga tributária de 3%. Este deve ter sido o paraíso neoliberal.

Hayek teorizou que a sociedade estava destinada a evoluir e que o seu funcionamento “caótico” seria a melhor opção para isto. O mercado, a seu ver, seria então a instituição que permitiria à sociedade desenvolver as redes neurais que lhe permitiriam atingir este fim. Este foi o pensador que inspirou Margaret Thatcher e os neoliberais na sua sanha do estado mínimo.

A experiência de liberalização da economia e de redução do Estado da década de 90 do século XX fracassou e uma ideologia de inspiração nacional socialista, aliada a corporações ligadas ao Estado, conseguiu que este começasse o século XXI em expansão. Provavelmente é culpa dos americanos e do seu Imperialismo, aliado à falta de regulação financeira, que instabilizaram os regimes reformistas liberais dos finais do século XX. Talvez o capitalismo nunca consiga se conciliar com a financeirizacao.

Enfim, a roda girou e o Estado hoje oscila em direção do Estado-partido de Gramsci, que inspirou o PT que se coloca como instrumento político dos sindicatos, dos ambientalistas, das feministas e das minorias, além dos socialistas e da Igreja da Teologia da Libertação. Ele domina o Estado e pretende dominar toda a sociedade se tornando um Estado-sociedade. Isto seria possível se eles conseguissem fazer a Constituinte com que eles sonham, na qual pudessem transformar as leis e com isto o Estado de direito, que iria refletir o Estado do PT. Assim, o Partido dos Tupiniquins chegaria ao totalitarismo tropical.

07 janeiro 2008

O Santuário

Assim falou Nietzsche: “É claro, se pudéssemos de fato ver esses carolas e santos falsos, mesmo que apenas por um instante, a farsa seria posta a fim”.

O pequeno conto abaixo foi mal traduzido por mim a partir de uma tradução inglesa, que reproduzo ao final deste post. Se alguém souber corrigi-lo, não se faça de rogado.

O Santuário

O pai do mulá Nasrudin era o muito respeitado guardião de um santuário construído sobre o túmulo de um grande mestre, local de peregrinação que atraía tanto crédulos quanto buscadores da verdade.

Pelo curso natural dos eventos, era de se esperar que Nasrudin herdasse o posto do pai. Mas logo após seu décimo quinto aniversário, quando passou a ser considerado um homem, decidiu seguir a antiga máxima: “procure conhecimento, ainda que seja na China”.

“Eu não tentarei te impedir, meu filho”, disse seu pai. Então Nasrudin selou um jumento e deu início a suas viagens.
Visitou as terras do Egito e Babilônia, vagou pelo Deserto da Arábia, dirigiu-se para o norte, a Konya, Bocara, Samarcanda e à cordilheira do Hindu Kush, associando-se a dervixes e tendo sempre em vista o Extremo Oriente.

Nasrudin cruzava com grande esforço as cordilheiras de Caxemira, após um desvio pelo pequeno Tibet, quando seu jumento, vítima da atmosfera rarefeita e das privações, tombou e morreu.

Nasrudin foi tomado pela dor; o jumento havia sido a única companhia de suas jornadas, que já duravam doze anos ou mais. Com o coração partido, enterrou seu amigo e fez sobre o túmulo um pequeno monte de terra. Lá ficou em silenciosa meditação; sobre ele, grandiosas montanhas, e abaixo, velozes torrentes.

Os viajantes que tomavam a estrada entre a Índia e a Ásia Central, China e os santuários do Turquistão, passaram a observar a figura solitária, ora chorando a sua perda, ora com o olhar nos vales da Caxemira.

“Certamente aquele é o túmulo de um homem santo”, diziam uns aos outros; “e não de um qualquer, haja vista o modo como seu discípulo o pranteia. Tem estado aqui por meses e a dor pela sua perda não dá sinais de diminuir".

Um homem rico passou e, em um ato de devoção, ordenou que fossem erigidos um domo e um santuário no local. Outros peregrinos aplainaram o entorno montanhoso e plantaram sementes, cujos frutos destinavam-se a manter o santuário. A fama do dervixe em silencioso luto se espalhou, até que a notícia chegou ao pai de Nasrudin, que imediatamente seguiu em peregrinação ao local santificado. Quando viu Nasrudin, perguntou-lhe o que havia acontecido. Nasrudin contou-lhe tudo que se passara. O velho dervixe elevou perplexo suas mãos para o céu: “saiba, meu filho”, exclamou, “que o santuário onde foste criado, e que abandonaste, foi erguido exatamente da mesma maneira, por uma cadeia de eventos parecida, depois que meu próprio jumento morreu, há mais de trinta anos".

Fim

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Se fosse possível construir uma máquina que nos transportasse para qualquer época do passado, como meros observadores, e assim nos fosse dado acompanhar despercebidos à curta distância os principais eventos da História, incluídos os narrados nas páginas dos livros ditos sagrados, algo permaneceria de pé? Assistiríamos a épicos hollywoodianos ou a deprimentes espetáculos mambembes? Ficaríamos de queixo caído perante ornitorrincos migrando dezenas de milhares de quilômetros por terra e por mar para subir a rampa de uma gigantesca arca em um estaleiro no meio do deserto? Não.

Mas talvez ficaríamos empolgados com o heroísmo dos espartanos nas Termópilas, nos divertiríamos com um piti de Alexandre Magno, não acharíamos as Guerras Púnicas tão impressionantes, talvez porque não testemunharíamos elefantes africanos cruzando os Alpes...

Teríamos dificuldade em encontrar José e Maria em algum buraco da Galiléia. E se encontrássemos, acompanharíamos cada passo de Maria para nos certificarmos de que ela engravidaria virgem. Veríamos José, como bom barbudo de um Oriente Médio onde não havia televisão, seguidamente conhecendo biblicamente sua esposa. Ela não primaria pela beleza, seria tudo menos a ebúrnea Palas Atena dos altares cristãos. Viveriam em um local insalubre, cheio de moscas. José não lavaria as mãos antes de levar o pão ázimo à boca, perdida atrás de uma repugnante barba. Teriam vários filhos e não encontraríamos dificuldade em identificar qual deles haveria de ser o “príncipe da paz”. Seria talvez o mais estranho, aquele que não conseguiria lixar tão bem uma canga de bode quanto os outros irmãos. Ele preferiria jogar conversa fora com mágicos, prestidigitadores, viajantes e vagabundos a ter que trabalhar com seu pai.

Adiantaríamos uns anos no relógio da máquina e enfim veríamos o filho abandonar a casa dos pais aos trinta anos – algo que só seria visto novamente no final do século XX – e ainda por cima solteiro, sem nunca ter namorado. A partir daí, o veríamos arrebanhar sua “armata Brancaleone” em suas andanças pelas feias paisagens da Palestina. Riríamos de seus truques baratos e dos falsos paralíticos contratados para serem curados perante um povo ávido por milagres e por um messias que cumprisse as belas profecias de seus ancestrais.

Veríamos o galileu praguejar ao ser pregado na cruz, os discípulos subornando os guardas para recolherem do sepulcro seu corpo e então espalharem a “boa-nova” de sua “ressurreição”. Ou então simplesmente nunca encontraríamos Jesus algum. Talvez um jumento sob um montículo de terra.

Mas alguns feitos seriam confirmados, para espanto dos viajantes no tempo. A comprovação do miraculoso strike triplo de INRI Cristo em um boliche de Curitiba revigoraria a fé de milhões de neo-cristãos do século XXX, quando a tal máquina será inventada...

Ilustração: Montagem a partir destas quatro imagens: um burro, um pedestal, Basílica do Santo Sepulcro e mascote dos Democratas (dos EUA).

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Texto Original:

Mulla Nasrudin’s father was the highly-respected keeper of a shrine, the burial-place of a great teacher which was a place of pligrimage attracting the credulous and the Seekers After Truth alike.

In the usual course of events, Nasrudin could be expected to inherit this position. But soon after his fifteenth year, when he was considered to be a man, he decided to follow the ancient maxim: ‘Seek knowledge, even if it be in China.’
‘I will not try to prevent you, my son,’ said his father. So Nasrudin saddled a donkey and set off on his travels.

He visited the lands of Egypt and Babylon, roamed in the Arabian Desert, struck northward to Iconium, to Bokhara, Samarkand and the Hindu-Kush mountains, consorting with dervishes and always heading towards the farthest East.

Nasrudin was struggling across the mountain ranges in Kashmir after a detour through Little Tibet when, overcome by the rarefied atmosphere and privations, his donkey laid down and died.

Nasrudin was overcome with grief; for this was the only constant companion of his journeyings, which had covered a period of a dozen years or more. Heartbroken, he buried his friend and raised a simple mound over the grave. There he remained in silent meditation; the towering mountains above him, and the rushing torrents below.

Before very long people who were taking the mountain road between India and Central Asia, China and the shrines of Turkestan, observed this lonely figure: alternately weeping at his loss and gazing across the valleys of Kashmir.

‘This must indeed be the grave of a holy man,’ they said to one another; ‘and a man of no mean accomplishments, if his disciple mourns him thus. Why he has been here for many months, and his grief shows no sign of abating.’

Presently a rich man passed, and gave orders for a dome and shrine to be erected on the spot, as a pious act. Other pilgrims terraced the mountainside and planted crops whose produce went to he upkeep of the shrine. The fame of the Silent Mourning Dervish spread until Nasrudin’s father came to hear of it. He at once set off on a pilgrimage to the sanctified spot. When he saw Nasrudin he asked him what had happened. Nasrudin told him. The old dervish raised his hands in amazement:
‘Know, O my son,’ he exclaimed, ‘that the shrine where you were brought up and which you abandoned was raised in exactly the same manner, by a similar chain of events, when my own donkey died, over thirty years ago.

03 novembro 2007

Faço porque posso

Por que o Chávez aprovou a reeleição sem limites na Constituição da sua Revolução socialista? Simplesmente porque ele pôde. Como disse Lord Acton, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Espero que isto nos sirva de lição e nos incentive a valorizar a democracia como uma instituição que dificulta que uma pessoa ou grupo detenha mais poder do que seria conveniente.

Infelizmente, as nossas raízes lusas são autoritárias. Em algum lugar do nosso inconsciente ainda esperamos o retorno do jovem D. Sebastião, o rei português que morreu em Alcácer-Quibir, no norte da África, uma batalha sem significado algum estratégico ou comercial, e cujo corpo jamais seria recuperado.

A perda foi um trauma para Portugal. Com a sua morte terminava a dinastia de Avis, que transformara Portugal na maior potência da Europa de então. Sem deixar herdeiros, Portugal viria a ser governado pela Espanha dos Habsburgos.

Poucos sabem, mas grande parte da Invencível Armada com a qual Felipe II atacou Elizabeth I da Inglaterra era portuguesa. A perda da sua armada foi um golpe fatal para um reino cujas possessões estavam espalhadas pelo mundo. Era o inicio de uma longa decadência, que teve na crescente dependência em relação ao poderio marítimo inglês uma faceta. Portugal dependia dos navios ingleses para conectar suas colônias e, talvez com mais urgência, para colocar as pretensões espanholas de reconquista de Portugal em cheque.

Para o populacho surgia o sebastianismo, um misto de saudade e de messianismo, que colocava as esperanças de uma vida melhor nas mãos de um rei que retornaria glorioso do Hades para devolver a Portugal o seu lugar entre as grandes nações. Nós herdamos este mito autoritário de alguém que, investido de todo o poder, faria o bem.

O problema, amigos, é que somos apenas homens, imperfeitos por natureza e, infelizmente, o “poder” não torna ninguém melhor. Muito pelo contrario, alimenta a vaidade e o narcisismo que geralmente se encontram em grande quantidade naqueles que buscam o poder absoluto e revolucionário.

Na minha limitada experiência, conheci alguns homens “excelentes” que talvez devessem ser nossos líderes. O curioso é que estes homens não desejam o poder. A sua realização não está em receber o delirante aplauso dos outros seres humanos. Talvez estes homens tenham a prudência de, mesmo podendo, não desejar a adulação dos outros, para o seu próprio bem.

De fato, acredito que este desejo, esta esperança no aparecimento de um líder autoritário que resolva todos os problemas, esconde uma preguiça doentia. É uma tentação para os fracos encontrar alguém cujo carisma prometa coisas pelas quais não precisarão se esforçar. Mais do que isto, alguém que se proponha a pensar por eles, a lhes mostrar o caminho. Alguém disposto a lhes dizer que não têm culpa de nada, que são vítimas de um passado de exploração. Infelizmente, para muitas pessoas, é melhor ser manipulado do que ter de assumir responsabilidade pela própria vida e pelo seu destino.
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