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02 março 2018

As Novas Virtudes

Texto de C. Mouro

A exaltação ostensiva de porcarias, do fácil, do feio, do sujo, do fraco, do pobre, do pulha, é consequência da inveja, uma vingança contra a virtude. Uma estúpida desforra por parte daqueles que em si somente reconhecem o vício, e então se unem para exaltá-lo, ansiosos por fazerem da opinião mais visível a “verdade” consensual. Querem uma "realidade" artificial na qual se sintam mais confortáveis.

Considero que ainda se está na fase binária da razão e assim tudo é julgado por "antagonismos justificadores", de forma que o feio existe porque há o belo, e o admirável só pode existir porque existe o desprezível. Há então a necessidade de inventar antagonismos postiços, na tentativa de elevar vícios à categoria de virtude. É um mecanismo mental de auto-alimentação ou, mais propriamente, de auto-alienação mútua.

Não é fácil criar algo belo, não está ao alcance de qualquer um. Então se exalta ostensivamente o lixo para relegar o belo, o difícil, o forte, o reto, o orgulhoso, o admirável a uma avaliação menor, numa oposição artificial pretensamente esclarecedora. As dicotomias, maniqueísmos e simetrias diversas ainda são usadas para se fabricar polarizações facilitadoras para inculcação. Os tolos apreciam a facilidade das polarizações, para definirem-se perante plateias através do mínimo comum.

É absurdo, mas de fato a larga maioria humana se interessa mais pela opinião alheia sobre si do que pela própria. Sinto-me forçado a homenagear Schopenhauer ao citá-lo nessa sua constatação sobre o desejo de honra (opinião alheia favorável).

Claro que tudo é vaidade e esta constatação é milenar. A vaidade é o desejo pela opinião alheia favorável e é ela que faz da tal espiral do silêncio uma estratégia infalível para conduzir rebanhos humanos.

Acredito que a fabricação de valores anti-natureza (algo bem apontado por Nietzsche, que aproveito para homenagear) foi a forma de oferecer a um povo, cada vez mais explorado por seus governantes, uma compensação moral pelas perdas materiais que lhe seriam impostas.

Assim uma ideologia justificou, no fantasioso futuro sem data e incerto que prometia, as novas virtudes, fáceis de simular e ostentar, que fariam das antigas virtudes, difíceis, os novos vícios.
Tal oferta imediatamente seduziu tudo que não prestava e, ante a ostentação de tão confortável "asinus asinum fricat", acabou por seduzir até parcelas ansiosas não tanto pelos novos valores, mas exatamente pelo "asius asinum fricat". Daí o convívio irracional com as contradições. Afinal a verdade e o interesse, ao entrarem em conflito, induzem à opção pela "realidade irreal"; o absurdo como expressão da "convivência entre contrários".

Assim, o orgulho sincero foi considerado um vício, defeito ou pecado, por ostentar satisfação consigo mesmo, enquanto outros dele não poderiam desfrutar. A humildade, que por definição só pode expressar falsidade ou resignação, se tornou uma virtude a ser simulada como ostentação de virtude, razão para orgulho (no caso postiço). Não há como subverter a realidade, pois ela se manifesta menos perceptível, mas estará lá.

Pela mesma “ilógica” a riqueza foi amaldiçoada e a pobreza elevada à virtude individual. Porém somente para ostentação, já que intimamente não há razão para a fácil pobreza ser considerada uma virtude do indivíduo.

A fragilidade, a servidão, a fraqueza, o mal viver e etc. igualmente foram feitos virtudes novas oferecidas como vingança contra as velhas.

Assim se deu com os valores preconizados pela ideologia da anti-natureza.


Cabanel: Nascimento de Vênus. Arte tida como decadente pelos
cubistas, abstracionistas, dadaístas, críticos de arte, catedráticos, etc.

Cabanel: Nascimento de Vênus. Detalhe

Picasso: Mulher com Colar. "Arte" "genial", um consenso entre os de "gosto superior".

Por fim, até as artes foram contaminadas, e meros rabiscos feios e ao alcance das habilidades de qualquer animal se tornaram "obras de arte". Assim se deu com lixos ditos esculturas e mesmo com grunhidos e palavras soltas e acordes desconexos.

Porém se já não há mais "juízes em Berlim", ao menos é certo que ainda existem muitos com verdadeiros talentos e que os exercitam sem constrangimento. Isso é realmente confortante.

21 maio 2014

Leitura sobre a mesa-redonda: Cidades Transnacionais

Segundo Marcelo Teixeira, doutorando em sociologia pela UnB, obras grandiosas assinadas por arquitetos como Zaha Hadid são verdadeiras máscaras de modernidade criadas para ditaduras se justificarem perante o mundo civilizado. "Urbanismo Transnacional" é como chama o processo de criação de cidades espetaculares que abrigam a arquitetura do espetáculo. Critica o fato de tais cidades serem todas parecidas, talvez como Cesareia e Palmira se assemelhavam a Roma, e de abrigarem obras de grande visibilidade e que superam limites técnicos, quem sabe como o Farol de Alexandria e o Colosso de Rodes, e, mais recentemente, a Torre Eiffel.

Ele organizou com Lucas Brasil uma mesa-redonda, na UnB, intitulada "Urbanismo Transnacional: Ásia, África, Brasília - Que conexões haveriam entre Dubai, Brasília, Singapura e Kinshasa?", da qual participaram importantes catedráticos cujos currículos, se enfileirados, dariam várias voltas ao redor da Terra. Na plateia havia alguns professores de arquitetura e funcionários de órgãos licenciadores e de planejamento urbano de Brasília, estudantes e arquitetos. A mesa-redonda foi sua tentativa de popularizar a teoria de que "o comprometimento com o neoliberalismo, em tese, traria mais legitimidade a regimes autoritários frente a uma comunidade internacional pós-Consenso de Washington" - nas suas palavras -, que corporações multinacionais de construção civil e investimentos imobiliários constroem destrambelhadamente cidades mundo afora, com apoio de bancos e governos, como estratégia "de acumulação de capital em curto prazo", e que o planejamento urbano, sob tais atores, "privatiza-se e pulveriza-se crescentemente, reduzindo poderes municipais e cidadãos em definir os rumos de suas cidades, cada vez mais decididos além das fronteiras nacionais e inseridos na 'racionalidade neoliberal' e pró-mercado". Neoliberal deve significar "qualidade daquilo que é atual, 'neo', e está em harmonia com o pensamento de Smith, Mises e Friedman", ou um mero sinônimo de "Satanás". A fina flor da arquitetura mundial, como Norman Foster e Daniel Libeskind, seria o selo-modernidade de que os governos e corporações imobiliárias necessitariam para dar à determinada cidade um status global, como ocorreu com a ditadura de Bilbau, na Espanha, que se perpetuou no poder após contratar Frank Gehry para o projeto-espetáculo do museu Guggenheim.

Destarte, na sua tese, os governos ditatoriais, controladores e centralizadores por definição, pulverizam os poderes de seu país em definir o rumo de suas cidades, mesmo as criadas "ex nihilo", do nada, usam o urbanismo transnacional para mascararem o caráter plenipotenciário de suas ditaduras, onde tudo pertence ao estado há décadas, como na China, privatizando o país em nome de uma "racionalidade neoliberal". É o fortalecimento do Estado mediante o enfraquecimento do Estado, em prol da iniciativa privada, algo até hoje impensável. E assim nunca mais veremos a beleza daquelas centenas de milhões de camponeses famintos na China pós-Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. E o modelo agora chega à África, preocupa-se Teixeira, e as corporações imobiliárias construirão, no lugar das ocas graciosas e modestas em cuja proximidade se podia expor a poética magreza humana em fotos preto e brancas de engajados como Sebastião Salgado, odiosos arranha-céus de vidro cingidos por lagos contornados por tamareiras, idênticos aos de Singapura, Xangai, e Dubai. A tese culmina no alerta de que, via GDF, a sombra desse grupo sem rosto acerca-se de Brasília, apesar de ela não ter relevância econômica mundial, de o Brasil ter impostos acachapantes e infraestrutura precária suficientes para afugentar os mais vorazes tubarões neoliberais sem a ajuda dos Urbanistas por Brasília e de outros heróis locais. Ele acredita que o crescimento urbano é causa, não consequência. Por isso há cidades fantasmas na China. Para ele, metrópoles modernas como Singapura não fizeram primeiro uma revolução econômica e educacional, priorizando o comércio exterior, para só então terem um desenvolvimento urbano. O reboque empurra o carro para onde o motorista não deseja ir, enquanto sabemos que, na realidade, este conduz o automóvel atrelado ao qual está o reboque. Mas fora com a "racionalidade neoliberal", não?

A China foi uma ditadura comunista por mais de 50 anos. A abertura econômica gerou mais liberdade e riqueza, e desde 1980, a população urbana ganhou 700 milhões de pessoas e hoje já é mais de metade do país. As cidades precisaram crescer a toque de caixa. Cidades ditas fantasmas, como Ordos, na verdade passam um tempo subocupadas porque recebem os migrantes aos poucos, quando estes têm condições de comprar as residências, ainda que com subsídios, e equipá-las com vasos, luminárias e outros itens domésticos essenciais. Para o doutorando, a China apenas copia o modelo de Singapura. Cria cidades do nada, amplia cidades de poucas centenas de milhares de habitantes para monstros urbanos de dezenas de milhões de pessoas, as quais, para ele, devem brotar do barro. Ao contrário do que crê Teixeira, a abertura comercial obrigou paulatinamente o governo a sacralizar contratos e a aumentar a transparência de suas próprias ações. A abertura é o começo do fim da ditadura chinesa, não uma tentativa desesperada de mantê-la.

Em muitos países árabes há ditadura. Nos países ricos em petróleo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, há ditadura e riqueza, e esta, aliada à localização geográfica entre Ocidente e Oriente, possibilita a transformação de cidades em pólos de serviços onde há baixos impostos alfandegários e tributação, e as ajuda a voltarem a ser a escala entre um canto e outro do planeta, a voltarem a realizar a vocação de entreposto comercial, de grande caravançará que tiveram nos tempos áureos. Mas, para Marcelo Teixeira, estas ditaduras não poderiam mais se sustentar sem uma tal máscara neoliberal, apesar de terem se mantido sem ela por décadas, como a da Coréia do Norte, de Cuba, Síria e de tantos outros países.

Dubai, shopping e residenciais Medinah Jumeirah: "idêntico" a Singapura


Quanto à descaracterização urbana, a cidade de Dubai, por exemplo, tal qual a conhecemos, foi criada sobre a areia. Não obstante seu caráter "transnacional", lá é corrente o uso de torres de captação de vento, típicas da região, há shoppings com aspecto de "suqs" (mercados persas), elementos estéticos árabes, mocárabes em mesquitas, azulejos, jardins internos e fontes, tapetes, tamareiras, generoso uso de pedras da região, arabescos, microcidades árabes dentro da cidade, e a preocupação cada vez maior em criar edifícios e cidades sustentáveis. Brasília, como as já citadas Cesareia e Palmira em relação a Roma, também seguiu cânones internacionais da época em que foi criada, mais precisamente da Carta de Atenas. Os panos de vidro do Congresso Nacional e dos ministérios são inadequados ao nosso clima, há uma nítida priorização do carro em relação aos pedestres, a estética não tem traços comuns à arquitetura tradicional brasileira, apesar dos esforços quase teológicos dos catedráticos em dar ao modernismo de Niemeyer uma inspiração barroco-colonial.

Após a exposição do tema a ser debatido, projetou em um telão os vídeos promocionais das cidades de urbanismo transnacional e, em determinado momento, proferiu um imparcial "vejam que absurdo". E então tiveram início os discursos dos integrantes da mesa. O primeiro não largou o microfone por quase uma hora, disse que todas grandes cidades são réplicas uma das outras, para a elite sempre se sentir em casa. Assim, segundo ele, um executivo sai do aeroporto, vai para o hotel, deste para o museu e para o restaurante no shopping. Os dois primeiros são iguais aos do resto do mundo, no museu, segundo ele, se vê as mesmas obras vistas no resto do mundo - quem viu um Tiziano viu todos, deve imaginar -, e, por fim, no restaurante se come comida chinesa, italiana, japonesa, como no resto do mundo. E o doutor concluiu que, enquanto isso, a classe trabalhadora sofre nas favelas e cortiços para manter essa elite transnacional. É óbvio! E Steve Jobs não deve ter ficado multibilionário porque o mundo inteiro desejava seus produtos Apple, mas porque ele explorava, no início, uma ou duas centenas de funcionários na Califórnia e, posteriormente, algumas dezenas de milhares ao redor do mundo, sendo a mais-valia de cada um dos vendedores, faxineiros e montadores de aparelhos estimada em milhões de dólares. Os demais debatedores, com uma honrosa exceção, seguiram a mesma linha. Ao menos até o ponto em que assisti.

O ar do anfiteatro estava viciado, quente, porque o ar-condicionado neoliberal não fora ligado pelos grevistas, o que acabou por compor bem o cenário de falta de arejamento intelectual do meio acadêmico brasileiro, umbilicalmente ligado ao esquerdismo mais ressentido, antes por hábito do que por reflexão.

As universidades públicas brasileiras são pesadas barcaças sem leme, há décadas distantes da terra firme, nas quais o alimento disponível é o marxismo vencido, o que explica o escorbuto ideológico que acomete a pobre tripulação.

Talvez passar um tempo em Singapura aumente a vitamina C no organismo...

30 agosto 2013

Jackson Pollock é melhor que Renato Russo

Ontem, durante o almoço, não resisti à expressão de "pidão" do Caco, o peludo e brincalhão shih tzu de meus filhos, e, após minha esposa deixar a mesa, discretamente dei-lhe umas tiras de gordura de picanha, as quais engoliu avidamente sem nem mesmo mastigar. Durou pouco a felicidade do animalzinho, que até então só provara serragem prensada, a tal ração. Não pôde conter a pressão do desarranjo intestinal e emporcalhou toda a área de serviço.

"Maldito animal de estômago delicado! Seria incapaz de sobreviver na floresta, de caçar, de competir com lobos", pensei quando vi a pintura marrom ao estilo de Jackson Pollock - um pouco mais criativa, na verdade - espalhada pela cerâmica. A empregada lavou o chão e pegou com a vizinha uns jornais para forrá-lo. À noite fui ver como estava o Caco. Chamou-me a atenção, no chão, a carranca feia de Renato Russo ineditamente formada por letrinhas, na capa do Correio Braziliense, com "z" mesmo. Era o texto completo da música Faroeste Caboclo, um épico candango, que está para Brasília como a Odisseia está para a Atenas antiga. A reportagem de capa era sobre o filme de mesmo nome que havia levado meio milhão de pessoas aos cinemas brasileiros. Apesar de já ter ouvido a música dezenas de vezes - contra a vontade, é claro -, nunca havia prestado atenção na letra. Resolvi então ler a obra prima de uma das melhores bandas de rock da história do país mais criativo e musical do mundo, o Brasil.

O título "Faroeste Caboclo" sugere que algum tiroteio acontecerá em um ambiente caipira, roceiro, sertanejo. Afinal é isso que quer dizer "caboclo", ou que o faroeste é mestiço de branco com índio. Não. Faroeste Caboclo se passa na capital da República. Vamos à história (link para a letra completa):

O destemido João de Santo Cristo era uma criança cheia de ódio no coração, desde que o pai fora morto por um soldado, que roubava doações de velhinhas a igrejas, era promíscuo sexual, aterrorizava a região onde morava, e que aos quinze anos foi enviado a um reformatório que lhe encheu de terror. Cansado do marasmo na fazenda, apesar da vida agitada que levava, e após um período filosófico em que tentou achar respostas para a discriminação que sofria, e em que tentou entender como a vida funcionava, mesmo não sendo biólogo, e também porque queria sair para ver o mar e as coisas que ele via na televisão, juntou dinheiro e foi para Salvador, onde encontrou, a tomar cafezinho, um improvável boiadeiro que lhe sugeriu ir a Brasília e lhe deu ou vendeu a passagem de ônibus.

João de Santo Cristo gostou muito de Brasília e quando chegou aqui resolveu trabalhar como carpinteiro, para a referência a Jesus Cristo ficar mais explícita. Sexta-feira gastava todo o dinheiro na zona, onde descobriu que um certo Pablo, traficante cucaracho, era seu primo. João trabalhava até não poder mais, contudo o dinheiro não era suficiente para ele se alimentar, quem sabe porque gastava tudo na zona. Às sete ligava o noticiário e ficava revoltado com as promessas de um ministro, provavelmente do trabalho, de que iria ajudar as pessoas a ganharem mais. Cansado, João resolveu plantar maconha.

João ficou rico e acabou com todos os traficantes da região, por dumping ou mandando matar. De repente, com a velocidade de um raio, sob a má influência dos boyzinhos da cidade ele começou a roubar, algo que não fazia desde a infância, quando roubava por influência do ódio que lhe dera Jesus, um filhinho de papai dono do mundo. O traficante poderoso que havia acabado com a concorrência foi preso no primeiro roubo e trancafiado na prisão. Na Papuda ele apanhou e foi estuprado.

Uma vez solto, abandonou o lucrativo tráfico de drogas que lhe deixara rico e tornou-se um bandido destemido e temido no Distrito Federal. Não tinha medo nem dos playboys que lhe influenciaram a roubar nem de generais. Nesta nova vida ele se apaixonou pela linda Maria Lúcia e arrependeu-se de seus pecados. Como ela era uma menina decente, de família, ele largou a vida de bandido destemido e voltou a ser carpinteiro, porque sempre havia vagas de trabalho na construção civil da nova capital.

O tempo passou, mas a fama de bandido e de traficante não, e um dia um senhor rico fez a João a proposta de explodir uma banca de jornal e de vender drogas em um colégio, provavelmente o Elefante Branco. João recusou a oferta de trabalho e mandou o rico malvado sair de sua casa, gritando para ele não brincar com um Peixes de ascendente Escorpião, apesar de o velho não parecer ter ido à sua casa para brincar e de, segundo os horóscopos, dois signos de elemento água acentuarem a base sensível, emotiva, interiorizada, introvertida, subjetiva da pessoa. Se fosse Hitler, teria gritado "não brinque com um Touro com ascendente em Libra". O velho, com ódio no olhar, disse "você perdeu sua vida, meu irmão".

O senhor estava apenas ameaçando, porque, do jeito que apareceu, sumiu da história, e aquele que o mataria seria Jeremias, com o perdão pelo duplo eco. Mas as palavras "você perdeu a sua vida meu irmão" entraram no coração de João e ele parou de trabalhar para se embebedar. No meio da bebedeira descobriu que sua vaga de carpinteiro havia sido preenchida, mas estava bêbado e não deve ter se importado muito. Apesar de Maria Lúcia ser a menina decente que o fizera se arrepender de seus pecados, e por quem valeria a pena continuar em uma vida correta, João falou com seu primo Pablo e retornou ao tráfico de drogas, afinal agora só havia uma vaga de carpinteiro na nova capital, sempre em construção, e ele a perdera.

Enquanto revendia em Planaltina a droga que chegava da Bolívia, João parou de ir para a casa e de ver Maria Lúcia, talvez porque ela não aprovasse esse estilo de vida ou porque simplesmente não a tinha procurado mais, por no mínimo nove meses. Maria Lúcia, entretanto, apesar de correta, casou e teve filho com um traficante de renome chamado Jeremias, que havia decidido matar João de Santo Cristo, provavelmente para controlar seus pontos de distribuição de drogas. Jeremias desvirginava mocinhas inocentes, como João quando estava no Nordeste, e dizia que era crente mas não sabia rezar. Em compensação, não roubava doações de velhinhas à Igreja, como João, e era bom organizador de "rockonhas".

Santo Cristo recebeu de Pablo um rifle e decidiu esperar Jeremias desafiá-lo antes de usar a arma. Contrariando seus planos, chamou Jeremias para um duelo quando descobriu, em um belo dia em que se lembrou de que havia algures uma mulher que era o amor de sua vida, que Maria Lúcia estava casada com Jeremias e ainda por cima tinha um filho com ele. A notícia do duelo se espalhou e a polícia permitiu que a população, jornalistas, a TV e sorveteiros o acompanhassem ao vivo - atrás dos cordões de isolamento, é certo. Jeremias, mesmo sabendo que a cidade toda assistia ao duelo, aproveitou o momento em que Santo Cristo ficara de costas e atirou nele. Apesar de ter dito que iria matar Maria Lúcia também, por ser uma menina falsa que não era como a Penélope de Ulisses, que esperara vinte anos o regresso do marido sem entregar-se aos pretendentes que acamparam em seu palácio, João provavelmente lhe entregou o rifle logo que chegou na Ceilândia, local do duelo, porque após ser baleado pelas costas, o sol cegou seus olhos e ele, por ver melhor cego, reconheceu Maria Lúcia, que lhe entregou o rifle, uma Winchester 22.

João deu cinco tiros em Jeremias. Maria Lúcia, ao ver o homem que a abandonara matar o pai de seu filho, arrependeu-se e, sabe-se lá como, morreu junto com João - seu protetor, segundo um tal Renato Russo. Provavelmente morreu de arrependimento. O povo chamou Santo Cristo de santo porque achou que ele sabia morrer, afinal havia morrido direitinho - constataram-no tomado-lhe o pulso.

E João não conseguiu o que queria quando veio para Brasília. Numa espetacular reviravolta teleológica, descobrimos que ele tinha um motivo oculto até mesmo do narrador onisciente, que explana no começo da história os motivos pelos quais João deixara o Nordeste. Na verdade, ele queria admoestar o Figueiredo, presidente da República, a ajudar o povo brasileiro, que só sofre. Nunca havia sequer marcado uma audiência com um assessor de um assessor do general, para lhe fazer tal eloquente e originalíssimo pedido. Porque estava muito ocupado traficando, roubando, matando, etc.

E este é o resumo em prosa da maior obra literária que esta cidade já viu.

Após ler o texto e rir da baixa qualidade daquela imundice, pus novamente a folha de jornal no cantinho da área de serviço em que o pobre cãozinho estava encolhido e amuado. De manhã o texto épico já não podia ser lido. Estava pintado de marrom. A capa do jornal estava bela como uma pintura de Pollock...

O Caco melhorou e eu prometi a mim mesmo nunca mais lhe dar gordura de picanha. Ao menos até ver a cara feia de Renato Russo ou alguma de suas letras medíocres impressas no jornal.

14 junho 2012

Disneylândias da Europa

 Neuschwanstein no Itaimbezinho

Uma reprodução fiel de um quadro renascentista é sempre mais admirável e valiosa do que uma plotagem em tecido da fotografia da mesma obra. Pinceladas, pequenos empastes e veladuras poderão ser examinados de perto, pela visão e tato, com a certeza de que se está no lugar que o copista ocupava enquanto reproduzia a obra. É uma cópia, sim, mas exclusiva. Na impressão apreciamos as formas, tons e cores, sabendo que o valor intrínseco, físico, é pequeno: os custos dos cartuchos de tinta, do substrato e do chassis, provavelmente. Em ambos os casos, contudo, a genialidade é captada como que por um espelho, através do qual se divisa a pintura autêntica.

Quando o original se perde, é destruído, ou tem sua existência inferida pela reprodução, como algumas estátuas romanas esculpidas a partir de gregas, estas nunca admiradas senão pela Antiguidade, a cópia tem seu valor catapultado para as alturas. Ainda mais neste caso, em que muitas cópias são contemporâneas às originais e o mármore empregado, italiano, é superior, o que explica vermos mais narizes e dedos nas estátuas latinas de vinte, vinte e cinco séculos atrás, do que nas gregas de mesma idade. A cópia, nesses casos, passa a ser virtualmente a original. Grandes templos de madeira do Japão são réplicas de construções de mais de mil anos atrás, às vezes em escala reduzida, como o Todai-ji em Nara, que visitei no ano passado. O templo budista é do ano 743 e foi destruído várias vezes por incêndios e terremotos. O edifício atual é do século XVIII e 30% menor do que o primeiro, erigido pelo Imperador Shomu. Ainda assim, se não me engano, é a maior construção em madeira do mundo. Algumas catedrais medievais europeias, perante as quais turistas em êxtase imaginam artesãos de uma corporação de ofício a talhar, por várias gerações, seus contrafortes, arcobotantes, pináculos e nervuras da abóboda, são reproduções de poucas décadas atrás, erguidas em canteiros de obra modernos com tecnologia de ponta, por meio de guindastes, talhadeiras elétricas. São próteses de valiosos e únicos membros urbanos decepados em guerras ou terremotos. De igual modo, o copista hábil no óleo talvez opte por auxílio tecnológico para transpor as formas com precisão para a tela. Poderá imprimir a fotografia em tamanho natural, marcar os pontos de referência com absoluta exatidão, usar o conta-gotas do Photoshop para saber a dosagem aproximada de azuis, amarelos e vermelhos.

Não duvido que haja falsificações espalhadas por museus mundo afora. Serão tratadas como originais até serem desmascaradas. E há ainda obras de arte atuais em estilo antigo. Imaginemos uma tela de tema mitológico ao estilo de Ticiano, como se a alma deste tivesse possuído o pintor (não desastradamente como outros gênios incorporaram em Gasparetto), produzida em um loft de Nova Iorque ao som de Miles Davis, com o burburinho urbano vindo da janela, um copo de Jack Daniel's ao lado de bisnagas Winsor & Newton. Se tal obra fosse exposta no Louvre como um maneirista da escola de Ticiano, visitantes seriam arrebatados por aquela maravilha. Se vissem a mesma obra sendo criada no loft, talvez diriam com desdém: "mais um pastiche americano". Quem daria o Nobel de Literatura para o autor de um livro em grego antigo nos moldes da Odisseia? Embora sua habilidade devesse ser louvada, não poderíamos compará-lo a Homero, muito menos achar que suas obras têm importância equivalente.

O castelo de Neuschwanstein, no sudoeste da Baviera, é considerado por muitos o castelo mais bonito da Europa. "É um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o 'cartão postal' daquele país", lemos na Wikipedia.

Esta arquitetura fantástica é a avó do castelinho da Bela Adormecida que vemos na Disneylândia. É um pseudo-românico enfeitado, construído com mil anos de atraso por um reizinho perdulário fanático por óperas de Wagner. Chega a ser compreensível, porque durante o romantismo houve um retorno ao medievo. Mas Neuschwanstein é meramente um belo cenário, tão mentiroso quanto qualquer cenário de ópera, embora possa ser visto de ângulos internos e externos. Sua estrutura é de concreto e suas vedações de alvenaria ordinária revestida com cascas de pedra. Esqueçamos da belísima paisagem em que Neuschwanstein está inserido. Ele só está lá porque ela é bela, não porque se necessitava de um sítio seguro, estratégico, a salvo de povos hostis munidos de tochas, catapultas e aríetes. Foi construído com técnicas modernas, nunca houve um rei a comer faisões em meio a vassalos, nunca uma corte se instalou por lá, os pesados portões nunca estiveram entre sitiados e invasores, a assimetria do conjunto de torres não se explica por acréscimos que reis fizeram através dos séculos, por demanda da necessidade, que é o ingrediente de espontaneidade dos castelos medievais; nunca arqueiros estiveram protegidos detrás de suas seteiras, que não existem para compor a estética de castelinho, adotada em motéis temáticos de beira de estrada e em réplicas sofríveis como o Chateau La Cave, em Caxias do Sul, minha cidade natal. O cartão postal alemão não traduz um estilo, uma época. Quem olha aquela arquitetura eclética não imagina que foi concluída nos estertores do século XIX.

Já me disseram que a obra de arte é uma contrafação do real, que toda arte é mentirosa. Mas arquitetura não é apenas obra de arte, como quer Niemeyer, não é mentira, como a pintura e a literatura ficcional. Não posso dizer que quatro paredes e um teto são uma imitação de uma caverna. Já a arquitetura pode ser imitada, claro. Neuschwanstein e quase tudo de Gramado são mentiras sim, ainda que o primeiro seja uma estonteante e Gramado seja uma, digamos, mentira bonitinha. O enxaimel não nasceu de uma imitação da natureza ou de um ideal estético. É uma verdade estrutural. Pilares, vigas e contraventamentos de madeira são expostos em seu estado natural, enquanto as vedações são pintadas de cores claras, amiúde. Levantarem uma casa de cimento, como fazem em Gramado, para depois pintarem “x”s marrons sobre pequenos ressaltos na argamassa, pendurarem placas em alemão com caracteres góticos e atrair turistas que quase sempre pensam estar em uma autêntica pequena Alemanha, é uma mentira bem diferente do que a que vemos em romances. É fato que existem alguns poucos enxaiméis originais em Gramado e em cidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, e é certo que turistas também vão para lá pelas belezas da Serra Gaúcha, pelo clima e também pelos parques temáticos, estes explicitamente "disneylandescos".

Outros dois exemplos de arquitetura fake europeia são o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, um autêntico gótico para inglês ver, concluído em 1870 mas com cara de séc. XIII, perto do qual há até uma estátua recente do rei cruzado Ricardo Coração de Leão, e a Sacré Coeur, um belíssimo templo neo-neo-românico-bizantino para francês ver, concluído em 1914 mas com cara de séc. IX.

Quem me dera que as imitações fossem sempre harmônicas e seguissem os cânones daquilo que pretendem copiar. Na maioria das vezes são pastiches grotescos, fora de proporção. Um exemplo é o Arco do Pontão, em Brasília. O número de vãos deve ser sempre ímpar, porque pelo centro desfilará, teoricamente, algum soberano em triunfo. Mas não. Roriz não foi um grande conquistador - basta olhar para a Weslian -, e bem ao centro temos a guaritinha do guardinha. Os arcos são abatidos, provavelmente por limitação do Código de Edificações, não há espaço para respirarem, porque mal há entablamento.

Por fim, não considero a arquitetura neoclássica, de princípios do séc. XIX, cópia do greco-romano. As ordens dórica, jônica, coríntia, compósita, toscana, a limitação estrutural da pedra ou do concreto não armado a condicionar modulações de colunas e a espessura das paredes, nunca deixaram de ser realidade, desde o helenismo até o classicismo a que me refiro. Mesmo na Renascença, a sociedade como um todo fazia um retorno ao greco-romano, no espírito, nas artes plásticas, no teatro, na filosofia. E não havia multidões de turistas gassetianos que justificassem meras "disneylândias".

07 agosto 2009

Santa Arte

Não é nenhum crime ver alguma beleza naquelas formações militares impecáveis de nazistas, fascistas, comunistas, do Império de Star Wars, nas suas construções monumentais, na música marcial, nos cartazes comunistas mostrando aqueles super-homens segurando instrumentos de trabalhadores braçais como pás e martelos, onde o peão é santificado para que fique satisfeito e orgulhoso com sua condição – algo semelhante à santificação do “humirde” e do “inguinorante” feita pela classe sacerdotal em conluio com os nobres, bem comum antes das Luzes.

Normalmente, a preocupação com a estética é grande entre ideologias que se pretendem santas, inspiradas. São lindas aquelas obras bem humanas que conferem “divindade” a alguns templos cristãos e que não deixam de ser, em grande parte, imitações da estética que conferia divindade a Júpiter e a outros deuses, como a estatuária, a cúpula, os capitéis clássicos, a colunata, os afrescos, incensos, as togas dos sacerdotes, as palavras mágicas em latim, etc.

Muitos consideram o Vaticano um bom exemplo de inspiração divina, do quão alto o homem pode ir motivado pela fé no verdadeiro deus. Ora, na Renascença, o mesmo artista que pintava uma madona ou um menino Jesus poderia pintar, enquanto a outra obra secava, uma Afrodite e um menino Hércules lutando contra serpentes. Para ambos temas às vezes eram os próprios papas os clientes, que encomendavam obras sacras para as igrejas e profanas para seus palácios. Tudo que um artista precisa é de técnica, demanda, competição, remuneração e até mesmo de um pouco de inspiração e talento.

Os devotos veem mais santidade em um lugar como a Basílica de São Pedro do que em uma capelinha miserável no interior do Piauí com rachaduras nas paredes e ar cheirando a ricota velha, ainda que para eles o pão transubstanciado em carne no interior do Piauí não deveria ser menos Cristo do que aquele transubstanciado perante o Papa B16. Mas o que a presença física do próprio Cristo pode contra Bernini, Bramante e Michelangelo? Nada! A aura "santa" que se sente no Vaticano sente-se também no Louvre, embora no primeiro caso a fé potencialize a sensação e crie aquela estupefação pretendida por Leão X.

Cave uma gruta nas cercanias de Jerusalém e diga a turistas ignorantes que foi lá onde Jesus fez a penúltima ceia com sua gangue. Ficarão arrepiados, sentirão a aura de santidade do local, tocarão nas pedras, sentirão o próprio Cristo no local. E experimente ainda acrescentar uma roseira de bronze na entrada, uma estátua de mármore muito bem talhada, acender incensos e velas; terão orgasmos múltiplos.

E a mesma sensação de direito, de santidade, de sublimação, de superioridade sentiram com a ajuda da arte aqueles que foram iludidos pelas ditaduras desastrosas que mencionei no começo do post.

23 fevereiro 2008

De como voltei a ser feliz

Entre meus prazeres diletos estão as óperas. Nem todas, é claro. Wagner me afasta do gênero. Der Ring des Nibelungen me assusta. Fora isto, curto Verdi, Puccini, Rossini, Donizetti, Bizet. E Mozart, obviamente. Há pelo menos três óperas que revejo umas três ou quatro vezes por ano. Don Giovanni, Die Zauberflöte e Carmen. Tenho várias interpretações de cada uma, pois cada encenação é uma outra ópera. As melhores destas três são:

- a de Don Giovanni, pela Wiener Philharmoniker, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel do personagem-título e Otto Edelman fazendo um magnífico Leporello.

- a de Die Zauberflöte, com coro e orquestra do Ludwigsburger Festspiele 1992, regida por Wolfgang Gönnenwein, com Deon Van deer Walt como Tamino e Ulrike Sonntag como Pamina. Papageno e Papagena são interpretrados por Thomas Mohr e Patrícia Rozario.

- quanto a Carmen, não é uma ópera encenada, mas filmada, com exteriores de Sevilha e Ronda. O filme é de Francesco Rosi, Plácido Domingo faz Don José e a Carmencita é interpretada por Julia Migenes. Entre as várias Carmens que tenho – uma inclusive cantada em italiano, e o efeito é ótimo – a de Rossi é a mais divina. O momento em que a gitana tenta seduzir Don José é de uma sensualidade – como direi? – espeluznante. De arrepiar.

Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.

Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du role, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.

Foi também em Paris que vi uma molecagem divina feita pela Tereza Berganza. Em Don Giovanni, quando Zerlina canta:

Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!



Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo.

Há grandes momentos em todas as grandes óperas. Mas um outro que me fascina, por seu humor, é a famosa listina de Leporello, em Don Giovanni, quando o criado enumera, a uma apaixonada e perplexa Dona Elvira, as conquistas de seu amo:

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che che amo il padron mio
Un catalogo egli è che ho fatt' io;
Osservatte, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Allemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia; in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son gia mille e tre.
V'han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V'han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse
E v'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma, d'ogni eta.
Nella bionda egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza
Nella bruna la constanza
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estare la magrotta;
E la grande maestosa,
La piccina è cognor vezzosa
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista
Sua passion predominante
E la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
Se sia brutta se sia bella
Purchè porte la gonnella,
Voi sapete quel che fa.


Saindo de minhas três diletas, uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.

ALFREDO
Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

TUTTI
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

VIOLETTA

Tra voi sapro' dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto e' follia nel mondo
Cio' che non e' piacer.
Godiam, fugace e rapido
E' il gaudio dell'amore;
E' un fior che nasce e muore,
Ne' piu' si puo' goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.

TUTTI
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo di'.


Em suma, foi em Paris que descobri o mundo da ópera. Dito isto, vivi ultimamente uns seis meses de infelicidade. Ocorre que encontrei aqui em São Paulo um restaurante dos mais charmosos, senti que ali havia espaço para música mais sofisticada, e levei a suas proprietárias dois DVDs, para que tirassem uma cópia. Um, o Don Giovanni da Wiener Philharmoniker. Outro, a Carmen, do Francesco Rosi. Confesso que levei os DVDs com certa apreensão. Eram obras muito valiosas para mim e tinha medo de perdê-las.

Não deu outra. A Carmen – a mais fascinante de minhas Carmens – foi extraviada. As moças se propuseram a encontrar uma outra. Inviável. O DVD está esgotado. Procurei tanto na Amazon como na Fnac de Paris. Nada feito. Indisponible. Vivi então estes últimos meses como se estivesse mutilado. Não seria feliz enquanto não tivesse minha Carmen de volta.

Dichosos dias estes de Internet – como diria Alonso Quijana. Em um grupo de discussões, Antonio Bemfica, um internético amigo do Canadá ouviu minhas lamúrias. Descobriu a ópera em uma biblioteca e fez uma cópia. Eu a recebi na semana passada e voltei a ser feliz.

10 fevereiro 2008

Eu sou a lenda

O filme, muito elogiado por críticos como Isabela Boscov, da Veja, e por jornalecos e blogs de cristãos - nestes casos pela semelhança com as histórias da Arca de Noé e do sacrifício de Jesus, e também por manter vivos nos crentes seus desejos escatológicos (éschatos) -, parte da interessante visão de uma Nova Iorque deserta aparentemente habitada por apenas um homem e uma cadela, para terminar como um filme B de zumbis-vampiros alucinados por carne e sangue humanos.

O filme começa em flashback. Dra. Krippin – nome que lembra Dr. Crippen, um monstro do início do séc. XX, o que não pareceu incomodar Emma Thompson – anuncia em um programa televisivo, sem muito entusiasmo, ter descoberto a cura para o câncer.

Will Smith disse recentemente, perante solidéus erguidos por cabelos arrepiados: "Até Hitler não acordava dizendo: 'deixe-me fazer a coisa mais malévola que é possível fazer hoje'. Eu acho que ele acordava de manhã e, usando uma lógica invertida, tentava fazer o que pensava ser o 'bem'".

Também com a melhor das intenções - a de livrar a humanidade do câncer -, Dra. Krippin cria sem querer um vírus que se alastra pelo ar e pelo contato, que ou mata, ou não faz nada, ou transforma os infectados – mesmo os cachorros - em zumbis-vampiros doidos por carne e sangue de humanos sadios, em bestas-feras dotadas de força extraordinária, capazes de escalar prédios com a rapidez do homem-aranha, mas sem muita inteligência e vulneráveis à luz do dia, porque os raios UV os matam em instantes (maldito vírus); sobe até fumacinha de seus corpos pelados, pálidos e translúcidos, se não tomarem cuidado (usem filtro solar, lhes diria o Pedro Bial). A perda de pêlos é um efeito colateral esperado em vários tratamentos de câncer; até aí nada de mais. Mas este é um vírus impressionante. Ao invés de debilitar o corpo ele o dota de poderes inimagináveis, apenas ao custo de redução de inteligência. No filme, os católicos deixam de ser os únicos canibais hematófagos do séc. XXI. Como sabemos, católicos literalmente comem carne humana aos domingos – pelo menos é no que acreditam.

A ciência, em sua sanha de desafiar Deus, é a grande responsável pelos males da humanidade. Não fossem os homens tão curiosos, não teriam mordido o fruto proibido e ainda viveriam no paraíso; não fossem tão audazes, não teriam construído a Torre de Babel e assim despertado a ira de Javé, que violou os seus cérebros ao neles implantar idiomas diferentes do hebraico, o único que existia até então, visando boicotar suas aspirações, dispersar aqueles que estavam unidos, confundir aqueles que se entendiam, aniquilar seu potencial.

Gênesis, 11: “Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram. E disseram uns aos outros: ‘Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.’ Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa. Depois disseram: ‘Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.’
Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens. ‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.’
Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra.”

Em sua famosa apologia da vadiagem, Jesus diz:

“Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”

Dra. Krippin tenta adicionar alguns côvados além dos incontáveis já acrescentados à duração da vida humana pela torpe medicina, ciência de pagãos que ousam se preocupar com o amanhã. Cirurgias, antibióticos, vacinas? Torres de Babel que só causaram confusão, só prolongaram o sofrimento nesta falsa vida, só retardaram o grande encontro com o estilista dos lírios, na verdadeira vida. “Don't worry about the things”, ouve-se pela voz de Bob Marley a todo momento, no filme; esqueçamos da ciência e confiemos na providência, caso contrário perderemos nossas almas e viraremos seres das trevas, zumbis-vampiros malditos.

12 novembro 2007

A Vaia de Carmen Miranda

Assistindo a um documentário sobre a vida de Carmen Miranda, fiquei mais uma vez com a impressão de que não valorizamos o que é brasileiro, talvez devido aos governos se apropriarem de símbolos da nossa cultura para justificar o seu poder, como fez Getúlio Vargas, que usou a senhora Miranda como propaganda do regime. Desta forma, a repugnância a um regime acaba sendo transferida para um artista, herói, ou idéia apropriada por este regime.

Era um tempo diferente, onde quem cantava samba eram os negros e em que a elite ainda não era americanizada e sim afrancesada e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião. Nos EUA, a sua imagem era a de uma moça ingênua como convinha a uma mulher de então. De fato, dificilmente consegue-se ser tão inteligente em outra língua quando na sua própria, e no início ela deu entrevistas onde dizia conhecer apenas duas palavras em inglês: men e money.

Outra coisa que impressiona são pessoas suas contemporâneas hoje na casa dos 80 ou 90 anos com perfeito domínio das suas faculdades falando daquele tempo e mostrando uma boa capacidade de análise crítica e imparcialidade. Nos EUA, ela foi usada pela propaganda de guerra no esforço americano de aproximação da América Latina para uso de seus mercados e matéria-prima, daí a acusação de que ela havia se americanizado.

Na primeira vez em que voltou ao Brasil após o seu grande sucesso na Broadway, decidiu fazer um show para a alta sociedade carioca. Talvez em um esforço de aproximação, cumprimentou a platéia com um good night que foi seguido de um silêncio sepulcral, e após algumas musicas teve que se retirar do palco. O resultado era previsível, afinal a elite ainda não havia se americanizado e nunca tivera nenhuma afinidade com a cultura popular dos morros. Provavelmente, havia algo de inveja também mascarado por este desprezo.

Alguém já me disse que tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. Os judeus que o digam; o seu sucesso material tem um papel importante no ódio e inveja de que são objetos, além do fato de seus antepassados terem matado Jesus e Moisés (segundo Freud). O sucesso é difícil de se engolir até hoje, a Madonna que o diga.

Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma "classe média esforçada" mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos. Um tipo de vingança. Vejam o velho Marx, por exemplo, que antes de engravidar a sua empregada não conseguiu uma vaga de professor na sua universidade e passou a vida sendo sustentado por Engels enquanto preparava os seus petardos contra o capitalismo. A inveja é foda.

01 agosto 2007

Epitáfio ao Kokotako

Há quarenta anos meu pai foi transferido de Caxias do Sul para Videira, em Santa Catarina. Tinha vinte e um anos e recém ingressara no Banco do Brasil. Deixou para trás a noiva (minha mãe), irmãos, parentes, bons amigos, aulas de violino e um animal de estimação: o velho Kokotako, um destemido gato vira-lata libertário, ateu (todos são, não?), namorador, indolente, sempre com falhas na pelagem, mercê das assíduas pelejas com os cachorros e gatos da vizinhança. Às vezes desaparecia por semanas, e quando todos o davam como morto, supondo que perdera a terceira dimensão sob algum pneu de carro ou que caíra do campanário aonde ia para mastigar filhotes de pombo, lá estava ele sobre o muro de pedra, em frente à cozinha, a lamber-se ao sol - talvez com uma vida a menos -, exibindo-se orgulhoso para as crianças, que corriam até ele para cobri-lo de mimos.

Cheio de obrigações, tenso por causa da "diferença" no caixa ao fim do expediente, longe de todos os que lhe eram caros, sob o cortante frio de mezz'anno, saudoso das longas tardes sob os parreirais a ler os clássicos com o irmão mais velho, meu jovem pai recebe uma carta do irmão dando a notícia do triste fim do bichano, finalmente vencido pelo gadanho da morte. Tão logo leu a missiva, pegou na caneta tinteiro e redigiu o mórbido porém divertido soneto (quatro quadras, na verdade) abaixo, bem ao estilo mal-do-século de Álvares de Azevedo porém ritmado como um Gonçalves Dias.

Encontrei em um armário na casa de meus pais, dia desses, uma fotografia do manuscrito tirada pelo meu tio, cujo conteúdo reproduzo aqui.

***

Ao Hades tristonho, de trevas povoado,
Mansão onde as sombras passeiam silentes -
As sombras fantásticas dos que já deixaram
A terra habitada por pobres viventes,

Ao morto país onde os ventos irados,
Torcem das árvores os galhos despidos,
Sem que da negra floresta agitada
Se escute o eco sequer de um gemido,

Às terras medonhas estéreis e tristes
Que há séculos cobre a sombra da morte,
Onde o imenso oceano estagnado descansa
Entre rochedos frios, de tétrico porte,

Partiste, herói de mil lutas gloriosas,
D. Juan das amantes que achaste por cá!
Agora teus filhos, teus netos e esposas
Soluçam e dizem: "Jamais voltará!"


***
Discute-se, na caixa de comentários, morte, vida eterna, morte eterna, gatos e o de sempre: Política e Religião.
.

20 março 2007

Arte e Poder

Mecenato

Caio Mecenas foi um grande patrono das letras. Conselheiro de Otávio Augusto, usou a fortuna da família para financiar um círculo literário que incluía nomes como Horácio e Virgilio. Sua reputação se deve ao altruísmo e aos frutos que ele gerou. O mecenato de poderosos, contudo, é mais antigo e sempre teve a autopromoção, ou a promoção de algo, como verdadeiro fim. Com o passar dos anos, épicos, pinturas, esculturas e maravilhas arquitetônicas foram parcialmente substituídos pelo nada eterno marketing, e gênios como Duda Mendonça, capaz de atingir metas que desanimariam São Judas Tadeu, fazem as vezes de artistas como o já citado Virgílio, que, além de usufruir da generosidade de Caio Mecenas, aceitou a encomenda de Otávio Augusto para escrever a Eneida, um épico tão artificial quanto Os Lusíadas, em cujas páginas o poeta latino inventa uma origem troiana para os romanos, além de criar uma correspondência entre Enéas e Augusto.

Como escrevi a um anônimo na sessão de comentários do post Galvão e a Transubstanciação, onde está o poder estão os artistas, engenheiros, arquitetos. Necessitam, quais rêmoras, de um tubarão influente e rico no qual fixar a barbatana-ventosa, para aguardarem o momento em que lhes financiará os tão caros devaneios. Há, na verdade, uma interdependência, já que os poderosos usam a arte e grandes feitos de engenharia para promoverem sua superioridade, vide os Medici, os Sforza, Justiniano, Mehmet II, os Papas, Faraós e nosso bom e velho Otávio Augusto.

A rêmora Mascagni fixou-se em Mussolini, Wagner fixou-se em Ludwig II da Baviera, Niemeyer fixou-se em Juscelino, o Gilberto Gil artista fixou-se no Gilberto Gil ministro. Dizem que não se entendem muito bem, porque um quer sempre tomar o lugar do outro. Nosso ministro-artista é a reedição do Nero inventado por Sienkiewicz. Incendiou a ONU com a ajuda de Kofi Annan. Soltaram a franga e, assim, puniram os cristãos presentes de um modo bem mais cruel do que se tivessem soltado as costumeiras feras dos circos romanos. Claro que muitos artistas não almejavam fama e dinheiro, mas habitavam regiões de pujança econômica, onde novas idéias artísticas e filosóficas fervilhavam.

No Brasil, tudo vai à contramão do mundo civilizado. Os artistas produzem melhor sob ameaça de bordoadas, prisão e extradição do que quando favorecidos por leis de incentivo à cultura ou por outras formas de mecenato oficial. Mesmo com o cenário favorável de supressão das liberdades individuais, alguns artistas não se sentiam suficientemente perseguidos e se auto-exilavam, como Caetano Veloso, para não serem abandonados pelas musas. Quando colocamos lado a lado o que Chico Buarque e outras mentes privilegiadas produziram nos bons tempos da repressão e o que fazem hoje, percebemos o quão vertiginosa foi sua decadência. E idade não é desculpa. Quase todos os grandes compositores clássicos escreveram suas melhores obras no fim da vida, aos trinta e poucos anos (rs).

Menos Poder...

Mas nada como a arquitetura para eternizar um povo, um governo, um governante. O próprio arquiteto do universo, o deus dos maçons, foi eternizado pela sua magnífica obra - o universo -, encomendada pelo supra-deus, que sempre preferiu o anonimato. Como bem lembrou Balzac, os eventos da vida humana, públicos ou privados, estão tão intimamente relacionados à arquitetura, que podemos reconstruir nações ou indivíduos a partir dos vestígios de seus monumentos e residências. Churchill disse que nós moldamos nossos edifícios, e a partir de então passamos a ser moldados por eles.

Poderosa como nenhuma outra instituição religiosa em toda história, a Igreja Católica financiou as mais belas construções dos últimos dois mil anos. Moldou os templos e a cristandade foi moldada por eles. Os primeiros cristãos congregavam-se em catacumbas ou escondidos em suas casas, mas após o Édito de Milão, de Constantino, apropriaram-se das ricas e imponentes basílicas romanas, e acrescentaram um transepto para que a planta formasse uma cruz. As igrejas antigas tinham uma superioridade natural sobre os prédios que as circundavam. O gabarito máximo do resto da cidade era limitado pelos pés do padroeiro ou pelas torres das catedrais. Grandes praças e largos funcionavam como espaço de transição entre a cidade e o espaço dito sagrado, além de remeterem ao átrio do Templo de Salomão. Eram marcos visuais, a identidade de uma cidade. Dentro, a nave simbolizava a Arca da Salvação, a Barca de Pedro, a maternidade da Igreja. A galilé, de onde os não batizados podiam assistir à Missa, simbolizava a jornada de Jesus da Galiléia até Jerusalém, local do sacrifício no Calvário. Sobre a galilé ficava o coro, em uma espécie de mezanino, invisível para os fiéis, afastado do altar. As igrejas eram desenhadas para ser a imagem do Corpo Místico de Cristo posto a serviço de sua cabeça: o deus dos cristãos. O forro plano da antiga basílica deu lugar à abóbada, para simbolizar o firmamento celeste. Era, amiúde, sustentada por doze colunas simbolizando os apóstolos, e o leão, o homem, o carneiro e a águia – símbolos dos evangelistas – ornamentavam as colunas do cruzeiro. As fachadas contavam com inúmeras estátuas que eram uma espécie de catecismo, em frente às quais os professores ensinavam a história bíblica ao povo.

O ocaso da supremacia da Igreja Católica se deu no final do século XIV e século XV, quando o conhecimento científico entrou em conflito com as crenças cristãs e a cosmologia bíblica, e com o advento do protestantismo, que se opunha, entre incontáveis outras coisas, ao vil comércio de indulgências, que perdoavam pecados passados, presentes e futuros, cujos dividendos eram o combustível de trabalhadores braçais de todos os cantos da Itália, artesãos e artistas como Bramante, que se empenhavam na edificação da mais suntuosa construção sacra de toda cristandade: A Basílica de São Pedro. Indiretamente, esta grande obra foi responsável pela asquerosidade dos templos católicos construídos nos dias de hoje.

Mais adiante, os ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entraram em sério conflito com a Igreja. O dízimo foi suprimido e ela teve muitos de seus bens confiscados. Na França, em 1790, foi separada do Estado e os clérigos obrigados a se submeter à constituição do país. A Igreja Católica não viu problema em justificar as decapitações promovidas pelos revolucionários franceses, já que aceitou transferir para o imperador deles, Napoleão, o direito divino que pouco antes pertencia aos nobres guilhotinados. Napoleão, contudo, em um lapso de sabedoria, tomou a coroa do próprio papa Pio VII e a pousou sobre a própria cabeça.

Na Itália, em 1860, Vittorio Emanuele derrotou o esquálido exército papal e se apropriou da Umbria e de Marches. No mesmo ano, tomou todos os territórios pontifícios, inclusive Roma, deixando para a Igreja Católica apenas o quarteirão do Vaticano, de onde um raivoso Pio IX ameaçou com a excomunhão todos católicos que votassem nas iminentes eleições. Teve de abrir mão da outrora abominada punição quando viu que acabaria perdendo quase toda a clientela italiana se insistisse no disparate.

...Menos Arte

A Igreja perdeu poder e, como em um passe de mágica, restringiu radicalmente o mecenato, passando a arcar apenas com a comissão de artistas menores, para não dizer medíocres. Antes, artistas judeus, maçons, agnósticos ou irreligiosos (e católicos, claro) compunham missas e requiems de tirar o fôlego. Hoje, a Igreja conta apenas com a inspiração divina, por esta razão as canções do padre Zeca, do padre Marcelo Rossi e do padre Jonas não impressionam tanto quanto a Missa Solemnis de Beethoven.

As casas de deus foram as que mais sofreram com o secularismo. O deus dos católicos, um caso típico de nobre europeu empobrecido, viu-se obrigado a adaptar suas casas de campo para hotéis, muitos de seus castelos para museus, a ceder, endividado, belos palácios para milionários americanos. Mudou-se para cortiços nos trópicos ou, quando conseguia orquestrar um mutirão entre as atrasadas populações locais, para monstruosidades como a Basílica de Aparecida. Assim, as casas de deus foram ficando cada vez mais grotescas e desproporcionais. Hoje, submetem-se às normas ordinárias do código de edificações e são superadas por grandiosos prédios de escritórios, museus, bibliotecas, e edifícios públicos. A arquitetura de museus, aliás, atrai os grandes nomes da arte mundial e também os grandes investimentos. O arquiteto Mario Botta disse que, na cidade de hoje, o museu cumpre um papel análogo àquele da catedral antigamente. O museu é, na sua opinião, aonde as pessoas vão para entrar em estado de graça. O sentimento “transcendental” que até um ateu experimenta ao adentrar a Basílica de São Pedro, por exemplo, nada mais é do que o estado de contemplação da grandeza do próprio homem, de sua capacidade técnica e artística. Lá admiramos Bernini, Bramante, Michelangelo ou Rafaello, não a "santidade" da Igreja Católica e de seu panteão de semideuses. Estamos em um museu; esta é a grande verdade.

Para muitos católicos tradicionalistas, a culpa não é da perda de poder mas do Concílio Vaticano II, que permitiu que maneirismos protestantes se infiltrassem no seio da Igreja Católica. O protestantismo, naturalmente estéril, teria sido incapaz de produzir um estilo próprio de arquitetura, então os heresiarcas teriam aceitado o culto em galpões e auditórios, o que teria acabado por influenciar negativamente a Igreja de Roma, não sem a ajuda do pusilânime João XXIII e sua mania de ecumenismo e reconciliação. Talvez, realmente, o motivo não esteja na perda de poder mas no fato de que ela almeja principalmente o outrora proibido lucro, que pode, hoje em dia, ser obtido honestamente de milhares de maneiras. Por que a Igreja Católica desperdiçaria na construção de Igrejas seu precioso dinheirinho conseguido a duras penas em Colégios salesianos, rogacionistas, maristas, em universidades, hospitais, estacionamentos pagos, editoras, no aluguéis de imóveis, em rádios, televisões, jornais, em isenções fiscais? Se o Papa autorizar a camisinha entre casados, não duvidem que breve as veremos nas Editoras Paulinas, com a imagem da Sagrada Família impressa na embalagem e os dizeres "Lembre-se, eles só tiveram um filho". Claro que a Igreja gasta um pouco mais em centros de peregrinação que possam alavancar os negócios, mas normalmente deixa que os fiéis se organizem e, ajudados pela providência divina, erijam os projetos arrojados dos padres-arquitetos-frustrados e plantem ao redor a vegetação que os irá esconder. Frank Lloyd Wright disse “A doctor can bury his mistakes but an architect can only advise his clients to plant vines” (já vi atribuírem esta frase a George Sand).

Cinco Exemplos

A arquitetura religiosa daqui de Brasília, com exceções como a Igreja Dom Bosco e a Catedral Metropolitana, é o que de pior o homem pode produzir. A seguir, alguns exemplos de casas de deus no centro da capital do maior país católico de todo o universo conhecido e desconhecido.


Igreja de São Miguel Arcanjo e Santo Expedito.

O anjo padroeiro da Igreja Católica pisa em um homem morcego, que imagino ser satanás, uma vez que o Batman não se deixaria apanhar tão facilmente.
Do lado direito, também pisando em um ser negro alado, Santo Expedito, o das causas urgentes, foi o responsável pela construção da igreja a toque de caixa. Claro que se tivesse levado 400 anos na construção, a casa de deus teria ficado tão boa quanto a Catedral de Colônia, mas o Santo quer tudo “Hodie” (hoje), e este templo foi o melhor que pôde providenciar.
O orelhão da Brasil Telecom significa que na Igreja se pode conversar com deus, o semicilindro envidraçado representa a abóbada vertical, mistério cujo significado ninguém até hoje compreendeu, e os principais elementos arquitetônicos ainda não cresceram, apesar do adubo fortificado doado pelo viveiro cujo dono é devoto do santo de quem espera um aumento urgente nas vendas.


Igreja de Nossa Senhora da Consolata.

A planta é um círculo, simbolizando o boloteiro dos engenheiros, e as aberturas são arcos em ferradura, para simbolizar o modelo de sapato preferido dos atuais arquitetos religiosos. Os vitrais totalmente transparentes simbolizam a luz divina, que tudo atravessa.
Hoje, apenas o tronco da árvore protege a visão do transeunte. A idéia é plantar muitas trepadeiras nas paredes externas e rezar por uma ingerência de Santo Expedito para que cresçam rapidamente.


Igreja do Verbo Divino

O porte-cochère que "sai" da porta de entrada simboliza uma língua, o verbo divino, que fala para as paredes, ou melhor, para a parede curvada que construíram para substituir a vegetação que demorou demais para crescer.


Igreja de Nossa Senhora da Esperança

A sacação aqui foi usar todas as formas geométricas possíveis, o triângulo, o círculo, o quadrado, o retângulo. Outros dizem que o triângulo invertido encimado pelo semicírculo simboliza o cálice e a hóstia transubstanciada. Êita corpão de Cristo, sô!


Igreja de São Camilo de Lelis

O pé-direito baixo, as excrescências pictóricas no altar (anjinhos ao redor de nuvens de algodão estilo "Meu Querido Pônei") e a fachada caótica compõem este até que aceitável templo católico. Mas ficará melhor e mais verde em breve.
São Camilo, um médico caridoso, e seu patrão celestial são protegidos dos malfeitores por lanças perfurantes, verdadeiras ameaças de estigmatização. Vociferam silenciosamente: "tentem entrar aqui e suas mãos ficarão como as do Cristo crucificado".

Em São Mateus, 5, lemos:

39. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
40. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
41. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
42. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.


Hoje, os mendigos não se amontoam mais em frente às escadarias das igrejas, como antigamente. São barrados por lanças ameaçadoras, afinal esmolas são contra a cidadania. Só podemos dá-las durante o ofertório, confiá-las aos padres que nada necessitam para si, que moram nos fundos da sacristia em despojadas celas, nas quais repousam seus alquebrados ossos sobre duros colchões de pedra.

08 novembro 2006

Saddam e Cocoons

Ganhei a fotografia ao lado de um jordaniano pouco após a Guerra do Golfo de 1991, quando visitei a região. Na montagem sobre propaganda da Marlboro (a impressão é que todos fumam por lá) o paladino cavalga com as cabeças de Isaac Shamir e de Bush (pai) espetadas no mastro da bandeira iraquiana com a inscrição "Allahu Akbar" (Deus é o maior) bem destacada.

É uma pena que Saddam, o Harum Al Rachid de nossos dias, que tem até seu nome gravado nas ruínas da antiga Babilônia (uma depredaçãozinha básica), tenha seu fim, por enforcamento, anunciado. Essas coisas são sempre lamentáveis. Fora as mortes que causou, a opressão que impôs ao seu povo, o mau gosto de seus palácios e de suas embaixadas, ele era um cara muito legal. Parece até que recebia pessoas humildes em seu palácio aos sábados pela manhã para ouvir o que desejavam. Como Harum Al Rachid, das Mil e Uma Noites. Claro que as audiências eram televisionadas.

Clique na imagem ao lado para ler um texto delicioso sobre Saddam Hussein divulgado nas escolas do DF pelo Departamento de Imprensa da Embaixada do Iraque em Brasília. O livreto também inclui os textos de três estudantes ganhadoras de um concurso de redação cujo tema era "O Iraque". Uma boa iniciativa, aliás.

Há muitos anos recebi o material publicitário quando visitei a embaixada, um prédio isolado das demais representações estrangeiras e próximo a uma estação de tratamento de esgoto. Quem passa por lá pode até acreditar que o forte odor vem da arquitetura do edifício, que tenta debalde reproduzir um palácio modernista - afinal a embaixada é em Brasília. A caixa de fósforos tem um alpendre com colunas dispostas aos pares, em "V", pretensamente niemeyerianas mas que devem ser canos de esgoto engrossados na base e cobertos de massa.

Falando em arquitetura ruim, ninguém me convence que o Memorial JK não é de um mau gosto iraquiano. A estátua de Juscelino é praticamente igual àquela do ditador que foi posta abaixo pelos seus súditos. A obra deles está um pouco melhor. O corpo do fundador da nossa capital é um tubo e o braço levantado que saúda o nascer do sol é desproporcionalmente grande, simiesco. O pedestal em forma de foice (aff), o prédio um tronco de pirâmide, como se fosse o túmulo de um grande faraó... Para piorar, espalharam pela grama em frente ao mausoléu não uma mas dezenas de esculturas esféricas de Darlan Rosa, verdadeiros cocoons, iluminadas internamente.

Coincidentemente, em frente à Embaixada do Iraque há um desses cocoons (os casulos do filme "Cocoon"), coroando ridiculamente um pórtico na Faculdade Euro-Americana.
Mais coincidentemente ainda, em frente ao Arco do Triunfo das Vitórias Militares do Exército Brasiliense, no Pontão do Lago Sul, encontramos outra esfera darlaniana.

Será que é só edificar algo de estética questionável para os cocoons brotarem ao redor?

Logo logo eles surgirão, quais cogumelos, nas imediações do descomunal ovo semi-enterrado que Niemeyer projetou para esconder a Catedral de Brasília, próximos ao CIEP que o arquiteto colocou detrás do Touring...

07 novembro 2006

A Última Esplanada



Comparação meramente formal entre a Última Ceia de Da Vinci e a nossa Esplanada dos Ministérios.

- Os dois edifícios do Congresso Nacional são a dualidade de Cristo - Homem e Deus -, que os bizantinos representavam como estrabismo ou como os dedos indicador e médio em riste;

- O vermelho e o azul de sua vestimenta podem também representar essa dualidade: a situação - homem, tentações, sangue, vermelho - e a oposição - Deus, Celestial, Azul (O PSDB está longe de ser divino, não me entenda mal...);

- A mão de Cristo com a palma para cima é a Câmara e a outra, com a palma para baixo, o Senado. A primeira recebe do alto (a voz do povo é a voz de Deus) e a segunda sanciona;

- As três janelas ao fundo são os três poderes; a trindade é o governo tripartite; o Legislativo é o Pai, que deu a lei aos homens, o Judiciário é Jesus, que julgará os vivos e os mortos, e o Executivo é o Espírito Santo, que age no mundo. Haveria aí uma contradição, pois nos itens anteriores comparei Jesus ao Congresso, o Legislativo. Mas também temos o Jesus que nos deu o mandamento "Amai ao próximo como eu vos amei", o Jesus que legislou;

- O Graal poderia ser a Catedral Metropolitana, que tem a óbvia forma de um cálice, mas está fora da cena (ou ceia);

- Como não poderia deixar de ser, os Apóstolos são os Ministérios; da direita para a esquerda são, se não me engano: Simão, Tadeu, Mateus, Filipe, Tiago (o Maior), Tomé, João, Judas, Pedro, André, Tiago (o Menor) e Bartolomeu. Fica difícil compará-los aos ministérios existentes, pois o número dos apóstolos de Lula supera em muito o de Cristo, e as sedes mudam constantemente. Contudo, me pergunto: Judas seria qual ministério? O de José Dirceu? Lula não citou nomes quando disse que se sentia traído;

- O pão e o vinho, a comunhão, deveriam ser a conexão do parlamentar com o povo. Mas essa idéia, hoje em dia, é surreal! Alguns acreditam que a Santa Ceia da Democracia está prestes a terminar, antes da sobremesa. Há mais Judas do que imaginamos por aqui.

Assim na Terra como no Céu

- Se a partir da perspectiva de um pedestre na Rodoviária vemos a Última Ceia, vista do alto Brasília é uma cidade crucificada, de braços abertos. As chagas nas mãos são os Setores Hospitalares Sul e Norte. Os pés são a Rodoferroviária, por meio da qual o povo vai e vem - o migrante, símbolo da chaga social chamada desigualdade. O Coração é o Setor Comercial Sul, a única área da cidade que manteve o espírito urbano tradicional, com esquinas, gente, confusão. A coroa de espinhos é o agressivo Mastro da bandeira, de Sérgio Bernardes. Acima da cabeça, qual firmamento, mui azul, está o Lago Paranoá. Acima do firmamento, as mansões do Lago. Abaixo dos pés, a maioria das cidades satélites (não, não são o inferno, he he). Apenas para os brasilienses: Quem falar na Torre de TV será excomungado;

- Finalizando, Brasília seria um "proxy" do Brasil. O Brasil tem a proporção de um corpo com os braços abertos, onde a altura - do Rio Grande do Sul ao Amapá (ou Roraima) - é praticamente igual à envergadura - do Acre a Pernambuco. O coração do Brasil "crucificado" é a própria Brasília, que recebe sangue do resto da nação e o bombeia de volta (em teoria). Bom, Amapá não é a cabeça do país, mesmo sendo representado no Senado pelo sapientíssimo autor de Marimbondos de Fogo. Toda comparação tem seus pontos falhos...

Carta Capital: Leporello

Uma das primeiras coisas que Leporello canta na ópera de Mozart é "Voglio far il gentiluomo E non voglio più servir..." (Quero ser um cavalheiro e não quero mais servir).
A Carta Capital quer servir ao "empio non punito" enquanto Leporello não quer mais servir ao "empio punito" - alcunha de Don Giovanni (ou dissoluto).

Leporello até que é honesto e quase sempre diz a verdade (na cena do catálogo), sofre com o patrão, que seduz a sua esposa (ou namorada). Como ele apanha no lugar de Don Giovanni inúmeras vezes, Leporello pode ser a alegoria de todo primeiro escalão petista, que caiu no lugar do patrão.

Se a História tiver lição de moral e a vida imitar a ópera, o nosso Don Giovanni será tragado pelas chamas infernais no auge de sua arrogância.

Leporello, como não poderia deixar de ser, após a queda do patrão canta "Ed io vado all'osteria A trovar padron miglior" (vou para a cantina para encontrar um patrão melhor).

Mas a Carta Capital não ficará órfã. Encontrará seu futuro patrão nos botecos, as igrejinhas dos petistas.
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