08 abril 2007

Moisés de Freud

A última obra de Freud foi o livro "Moisés e o Monoteísmo", onde o autor expõe décadas de suas dúvidas e reflexões sobre o personagem fundador do judaísmo. De fato, ele deixou este livro para ser publicado na sua velhice por temer retaliações.

Primeiramente, ele argumenta que “Mosheh” é uma palavra egípcia, provavelmente um diminutivo de um outro nome qualquer – “Thutmose”, por exemplo. Com isto, ele argumenta que Moisés não teria origem judaica mas egípcia. Freud escreve que aceitar que o seu salvador fosse egípcio seria demais para o povo judeu.

Ele acrescenta que o mito do fundador de um povo é o de um filho de um Rei que se torna um herói ao desafiar o pai. Moisés é um desvio do padrão ao ser supostamente um filho de judeus levitas que é criado como príncipe, e para Freud todo o desvio merece ser examinado com cuidado, visando encontrar sua motivação.

Segundo Freud, o judaísmo renuncia a qualquer forma de existência após a morte, além de passar a ser uma religião monoteísta, opondo-se à religião tradicional egípcia. Além disso, o judaísmo condena a feitiçaria, enquanto os egípcios faziam promessas aos deuses, entre eles Amen-Re, da cidade de Tebas, composto do deus da cabeça de carneiro e do deus solar de cabeça de falcão de On.

Foi sob a gloriosa XVIII Dinastia, por volta de 1375 a.C., que o Egito tornou-se uma potência internacional com Amenófis IV, e em seguida seu filho Akhenaton fez uma tentativa de impor o monoteísmo aos egípcios que resultou no fim da dinastia e na perseguição dos seguidores da nova religião. Curiosamente, o deus da cabeça de carneiro, Amen, era também o maior inimigo de Aton. De fato, o fortalecimento do culto a Aton pode ter sido uma reação à força dos sacerdotes de Tebas, o que levou o próprio faraó a fundar a sua cidade de Tell el-Amarna. Com a sua morte, tudo foi destruído, incluindo o seu túmulo e seu passaporte para a eternidade, enquanto os sacerdotes de Amen, ou Amon, garantiram que nenhum traço do culto a Aton sobreviveria.

Em seguida, ele argumenta que Heródoto afirmava ser a circuncisão um costume egípcio - o que viria a ser atestado por diversas múmias. Desta forma, a imposição do costume da circuncisão seria uma “egiptização” das tribos de escravos semitas. Seria um sinal do povo escolhido por Moisés. Este ponto merece ser revisitado, pois o dito “povo escolhido” talvez tenha realmente sido escolhido por Moisés para implantar algures a religião perseguida no Egito.

Moisés é retratado como um homem ardiloso, irascível, violento, capaz de matar e de planejar matanças - características que hoje atribuiríamos a um político, um aristocrata ou um general, mas raramente a um líder religioso. Outro ponto de destaque é ele ser descrito como “pesado de boca” para se dirigir ao povo, logicamente devido ao fato de um nobre egípcio não falar bem a língua de escravos semitas. Nas negociações com o faraó, não houve a necessidade de intérprete.

Não podemos esquecer que Moisés enfrentou várias revoltas contra a dureza da sua religião, e não seria difícil imaginar que no curso de uma destas revoltas ele tenha perecido. Esta hipótese é apoiada por uma tradição que vem do profeta Oséias de que Moisés teria sido assassinado por uma revolta de seu povo contra o rigor da nova religião e enterrado no deserto. Após o assassinato, a religião mosaica teria adormecido enquanto as tribos libertadas do Egito teriam se fundido com seus antigos parentes do deserto.

A origem da tribo levita é um grande mistério na tradição judaica e cabia justamente a ela as nobres funções sacerdotais. A hipótese de Freud é que os levitas seriam originariamente os escribas egípcios e sacerdotes de On que preservariam a cultura e a tradição mosaicas. Teria havido ainda um sincretismo com uma religião vulcânica de Javé, de algumas tribos do deserto, e a criação de patriarcas como Abraão, Isaac e Jacó, cuja existência negasse que a religião adotada tivesse sido importada do Egito.

30 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Outra "chupinhada" é adotarem o coelho, símbolo da fertilidade na cultura egípcia, para a páscoa. Essa sublimação esotérica representou a catalização pragmática da fuga do egito e da sombra das pirâmides.

André disse...

Ricardo Rayol lembrou muito bem essa do coelho.

Gostei da fotomontagem.

Freud é ultra-sofisticado e partilho algumas das opiniões dele. O Mal-Estar na Civilização e O Futuro de uma Ilusão são reveladores. Às vezes incomoda uma certa contemplação fria que ele fazia da realidade, todo aquele pessimismo, mas muitas vezes esse é o único recurso que resta ao intelectual, que nada tem a declarar --- exceto que se correr o bicho pega, nunca mencionando que se ficar o bicho come.

Moisés e o Monoteísmo, pelo menos o q eu tenho, é uma coletânea de ensaios dele sobre esse assunto. Não sabia q foi o último dele. Não avancei muito, e isso tem uns anos, mas parece legal. O começo é difícil de atravessar.

Já pensou, Moisés um egípcio? Seria mais ou menos como um Jesus romano, sei lá... Como diria o impagável e inacreditável (pra mim ele já é um fenômeno sobrenatural) Padre Quevedo: “Esto non ecsiste, esto non ecsiste! Esto ser um fenômena perfectamente explicável pelo Ciência!!!”


Preciso de um desses atlas importados com tudo sobre a civilização egípcia, tenho q aprender mais do q o básico sobre essa gente. Não passo do Ramsés e do Yul Brynner fazendo o faráo no Os 10 Mandamentos.

Faz sentido esse desdobamento dos egípcios direto num dos ramos mais misteriosos do judaísmo, o levita. É razoável e muito interessante. Pena q talvez jamais saibamos a verdade. A origem de Javé, aquele ciumento e sedento de sangue, o “nhônhô” de engenho q de vez em quando joga maná para os seus aqui embaixo (e eu bem q estou precisando de algum agora), também é outro mistério insolúvel.

Um livro que parece ser muito bom é Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo, de Jacques Attali, mas é um pouco denso e grandinho. Estou empacado no começo.

Por falar em contemplação fria, Raymond Aron tem uma frase legal: “Para que a História fosse comparável a um diálogo em que a Razão tivesse a última palavra seria necessário que as perguntas fossem tão razoáveis quanto as respostas, que as situações criadas por respostas anteriores ou que as coisas em si fossem tão razoáveis como as perguntas".

Que fôlego pra escrever isso, hein, pessoal?

Luisete disse...

Freud temeu retaliações...
Tentar levantar a verdade é, muitas vezes, arriscar-se a "perecer" nas mãos dos fanáticos (os petistas, flamenguistas, corintianos, etc. lembrados no post anterior); muito mais quando o assunto envolve crenças consagradas por religiões que se nutrem, justamente, da mentira.

Por isto mesmo esse blog é, sempre, muito interessante com sua proposta de discutir, com a imparcialidade possível, assuntos que os ditos fanáticos não admitem debater.

Simone Weber disse...

Heitor, não li o livro, mas uma amiga já me disse que Freud assevera que a culpa pelo assassinato de Moisés foi passada através das gerações, e é ela que move os judeus para a religião, para se 'sentirem melhor'. É verdade? As teorias de Freud e seus discípulos sempre me pareceram algo não meramente científico, mas chega-se realmente a tanto? Gostava que me explicasses melhor a conclusão a que chega Freud sobre a herança da culpa pela morte do escritor do Gênesis.

Simone Weber disse...

Vê bem: não estou a afirmar que Moisés foi assassinado.

Bocage disse...

Lendo Freud e analisando a estátua de Michelangelo deduzo que Séfora não era fiel.

Heitor Abranches disse...

Acho que eu vou voltar a falar mal do Lula...Este negocio de mexer com o Moises nao da ibope...rsrsrs

Bocage disse...

Reparação de Agravo Imposta pela Justiça em defesa da fama de Dona Séfora:

"This passage has led to one longstanding tradition that Moses grew horns. This is derived from a misinterpretation of the Hebrew phrase qarnu `owr panayv (קָרַן עֹור פָּנָיו). The root קרן Q-R-N (qof, resh, nun) may be read as either "horn" or "ray [of light]", depending on vocalization. `Owr panayv (עֹור פָּנָיו) translates to "the skin of his face".
Interpreted correctly, these two words form an expression meaning that Moses was enlightened, that "the skin of his face shone" (as with a gloriole), as the KJV has it. Many rabbinical studies[citation needed] explain that the knowledge revealed to him made his face metaphorically shine with enlightenment."

Se dependendo da vocalização uma palavra em hebraico pode ser 'chifre' ou 'raio', abandono agora mesmo meu curso de bibliomancia.

Anônimo disse...

Heitor,
Sempre considerei a religião dos egípcios muito interessante e rica. Sobre essa questão do politeísmo, há estudiosos que afirmam que os antigos egípcios acreditavam em um único Deus sem nome, gênero ou forma e que os egiptólogos foram vítimas dos problemas de tradução das palavras "Neter"(lei natural, masculino) e "Netrit"(lei natural, feminino) que foram traduzidas como deus e deusa, respectivamente, assim como Yin e Yang dos chineses.
Os deuses seriam apenas nomes dos vários atributos de um único Deus.Que vc acha? Afirmam alguns que os Dez Mandamentos de Moisés teriam sido uma forma resumida das Quarenta e Duas Confissões Negativas encontradas nos antigos papiros do Livro dos Mortos do Antigo Egito. Por exemplo: Enquanto nas Confissões se diz: "Não matei seres humanos", nos 10 Mandamentos: "Não matarás", etc.
Curioso é que Deus é retratado no Antigo Testamento muito mais punitivo na base do olho por olho, dente por dente, do que Deus na religião dos egípcios. Embora seja difícil desvendar os mistérios que envolvem o tema, a pesquisa não deixa de ser prazerosa.

André disse...

Sim, Simone, existe esse conceito de culpa, que segue sua teoria do Pai Primevo, exposta eu acho em Totem e Tabu, mas q também aparece um pouco em outros livros dele. Havia esse Pai Primevo/Primordial, os filhos o mataram por não aceitar sua autoridade ou por algum outro motivo, mais tarde sentiram remorso e erigiram (ops!) — “lançaram” fica melhor — o Pai assassinado à condição de divindade. Deus teria nascido de um caso de remorso. Mais ou menos isso. A teoria é mais complicada, mas acho q consegui resumir bem. Moisés então teria sido um Pai Primevo. Freud entra em diversas áreas, então o q ele escreveu se assemelha mais a um tipo de análise cultural-filosófica profunda do que Ciência entendida em seus termos mais rigorosos. Acho q é por isso que gosto tanto dele e de Nietzsche, entre outros franco-atiradores culturais. Se arriscar é importante. Ser um generalista, não um especialista. Mas com conteúdo, q esses caras tinham de sobra.

Séfora não era fiel ou aquilo era outra coisa, como explicado acima?
É isso aí, anônimo, o deus do antigo testamento, o Javé, era bem mais punitivo...

Mesmo que esse post não renda 200 intervenções, gostei dele. É bom variar de vez em quando, com Freud ou qualquer outro assunto.
Particularmente, já cansei do PT e dessa porcaria toda que anda acontecendo no Brasil, ainda q seja importante falar no assunto. Bom, sempre sai algo de bom nesse site, mesmo quando o assunto é política nacional.

José Alberto Mostardinha disse...

Viva Heitor:

Artigo culturalmente relevante e muito interessante.
Os meus parabéns.

Só duas achegas:
1- "... o mito do fundador de um povo é o de um filho de um Rei que se torna um herói ao desafiar o pai." - hummm... os portugueses são a prova provada disso... o seu fundador não combateu o pai (porque entretanto havia morrido) mas combateu a mãe que entretanto se havia amantizado com um castelhano (espanhol);

2- Moises foi um dos "ayatholas" lá do sítio cuja motivação era idêntica aos do presente... protagonismo e revanche contra os usurpadores do seu prestígio.

Boa semana.
Um abraço,

Anonymous disse...

Quem nao acredita em Deus acredita em cada coisa... tsc tsc tsc

Catellius disse...

"... o mito do fundador de um povo é o de um filho de um Rei que se torna um herói ao desafiar o pai."

Principalmente no caso de Zeus, que teve de cortar os bagos de seu pai, Cronos, para assumir sua posição.
Na história dos hebreus é sempre do mesmo jeito. Um menino franzino e pobre como David vira rei, outro nasce em uma manjedoura - ainda que não seja rei deste mundo (e de nenhum outro) -, outro surge das águas em um cesto.
Na mitologia brasileira não poderia ser diferente. O metalúrgico chega ao poder após uma infância pobre e um êxodo do deserto para o Egito (São Paulo), após vender amendoins em Santos. Não derrota os rivais de primeira, como os demais reis mitológicos, mas na quarta tentativa, e reinventa o mundo. A historinha do sapo (barbudo) que vira príncipe tem tudo a ver com essa ascensão.

Heitor, parabéns! Estou um pouco ocupado com uns trabalhos (entrega de projeto). Volto ainda neste post para comentar melhor o texto e as opiniões dos nobres participantes.
Abraços a todos

André disse...

Catellius,

Moisés Lampião saiu do Egito (SP) para o mundo. Esqueceu dos povos do deserto (Nordeste), só lembra deles em época de eleição (censo faraônico). Tem até o Nilo (Amazonas) à sua disposição. Mas não sabe o que fazer com seu reino.

Lembra das Sete Pragas do Egito? Pois é, ele vale por 7 1/2 pragas. E todas de uma vez.

O mal é q entre salvador do povo, da "pátria", e faraó, ele preferiu o último.

Anônimo disse...

Já vi que o Deus desse pessoal da direita é o lucro...tsc,tsc,tsc

Catellius disse...

Heitor,

Escrevi, no post passado:
" Se Jesus existiu, se morreu crucificado e se seu corpo sumiu do túmulo, temos duas possibilidades: 1 - os discípulos retiraram o corpo enquanto os guardas dormiam ou os subornaram. Impossível, já que todos os apóstolos viram ele vivo, incluindo o notoriamente incrédulo Tomé, e eles não tinham nenhum motivo para inventar isso.
2 - o corpo ressuscitou e até hoje ocupa algum lugar no espaço - já que é o mesmíssimo corpo -, passível de ser visto por um E.T. que não foi salvo por ele por não ser humano, ou por um astronauta "da NASA" -, um corpo inútil, ainda com intestino reto e próstata, que flutua enquanto sua alma continua onipresente, agindo por aí e por aqui..."

Deixando de lado o restante das especulações, se o monoteísmo veio ou não do Egito, penso que se Moisés existiu ele era egípcio. A história do faraó ordenar que matassem todos os primogênitos hebreus por meio das parteiras e estas não conseguirem porque toda hebréia era forte e dava à luz antes de elas chegarem (ha ha), e depois mandar jogar no rio todo menino homem, é no mínimo ridícula. Se ele temesse rebeliões ou que os hebreus se aliassem a um invasor, mandaria matar as mulheres em idade de engravidar, os homens em idade de lutar, ou recolheria as crianças para vendê-las como escravas algures - há milhares de possibilidades não tão estúpidas, afinal não estamos falando de um povinho como o hebreu mas dos egípcios, muito mais evoluídos.

Segundo Heschel, “O Judaísmo é uma religião da história, uma religião do tempo. O Deus de Israel não é encontrado de forma primária em fatos da natureza. Ele fala através de eventos na história”. Por isso os conflitos entre história/arqueologia e o judaísmo/cristianismo são freqüentes, e raros no caso do budismo, por exemplo.

Quanto ao êxodo, entre os diversos arquivos encontrados em estados limítrofes ao Egito, não há quaisquer referências ao processo de estabelecimento do povo hebreu em Canaã. Na Bíblia (1Rs 6:1) está escrito que o êxodo ocorreu 480 anos antes da construção do Templo de Jerusalém, ou seja, algo em torno de 1430 a.C. No entanto, o Êxodo explica que os judeus cativos construíram a cidade de Ramsés (Ex 1:11) o que leva os estudiosos a datar o evento para algum momento posterior a 1290 a.C. E há, realmente, um processo de desenvolvimento urbano em Canaã no período entre 1250 e 1050 a.C. “por pessoas que eram íntimas da cultura cananéia e fazendeiros experimentados”, segundo Edgard Leite.

Uma teoria interessante para explicar a origem do povo judeu é a de G. Mendenhall. A partir da correspondência de Amarna, identificou o grupo étnico dos ‘apiru/habiru. Estes são, nos textos egípcios, caracterizados como escravos fugitivos ou camponeses sem terra. Mendenhall propôs então que essa palavra poderia estar conectada de alguma forma com o vocábulo que identifica o hebreu, ‘ibri, yrbu. Assim, os primeiros israelitas seriam camponeses marginais, segmentos sociais resistentes ao poder, muitos deles talvez oriundos do próprio Egito, que ocupavam regiões agrárias em torno das cidades cananéias. Oprimidos pelo universo urbano e estatal cananeu, acabaram por erguer-se em um movimento social-revolucionário que buscava a justiça e o estabelecimento de leis de harmonia e igualdade social . Os barbudos eram antepassados do MST, he he. Alguns acham difícil a associação entre habi-ru/’ibri . Mas isso não parece ser um obstáculo à tese . A teoria de Mendenhall apresentou a interessante possibilidade de explicar a insistência judaica na Justiça e na igualdade, principalmente em questões fundiárias. Igualmente permitiu compreender o caráter contestador do pensamento político hebreu e sua denúncia do processo de organização estatal e as expropriações subseqüentes, cujas conseqüências mais claras encontram-se no profetismo posterior.

Catellius disse...

Ricardo,

Os ovos, de pato e outras aves, enfeitados e presenteados com a chegada da primavera eram comuns na Pérsia, China e em inúmeras outras culturas, milhares de anos antes dos hebreus usurparem a terra dos cananeus (segundo a Bíblia).

André,

Ótimos comentários. Dá para ver que você também leu esse livro e está bem familiarizado com os termos freudianos. Fale a verdade; você é psicólogo, he he.
Recebi os mp3. Valeu mesmo, amigo.

Luisete,

Hoje é fácil qualquer um falar o que quiser. "Machos" eram Giordano Bruno, Galileu e outros como Fernão de Magalhães, que disse, para escândalo do clero: "A Igreja diz que a Terra é achatada, mas sei que ela é redonda, porque vi a sombra dela na Lua, e acredito mais numa sombra do que na igreja."

Bocage,

Gostei da brincadeira com Séfora. A questão da vocalização é mais do que pertinente. Já estudei um pouco de hebraico, na época em que estive em Israel. Em textos antigos é difícil identificar a diferença entre algumas palavras, pela ausência de vogais ou indicação de vocalização. O deus bíblico deveria ter ensinado o grego ou o latim aos sem-umbigo, se desejava uma boa comunicação com os homens, mas preferiu aquela porcaria típica de povos tribais. Ben Yehuda reinventou o hebraico no séc. XIX para que o capenga idioma pudesse ser falado por povos civilizados, porque a língua possuía poucas palavras, era muito pragmática e não se prestava, absolutamente, a exercícios mentais, à muita subjetividade... Nem Kant conseguiria produzir sua filosofia com as limitações do hebraico antigo, imagine então o criador do mundo... Deu no que deu... Os exegetas se esfregam naquelas páginas como pintos no lixo, he he.

Anônimo,

Excelentes colocações. Apareça mais por aqui, por favor, he he.

Mostardinha,

Aquele Moisés não valia nada. Que sujeito odioso! E pensar que cheguei a me emocionar quando estive no Wadi Moussa (Vale de Moisés) e visitei uma fonte que brota de dentro de uma mesquita e que seria a água que demorou para jorrar com as cajadadas de "pouca fé" de Moisés, o que o teria impedido de entrar na tal Terra Prometida. A mesquita fica perto da entrada das fabulosas ruínas de Petra, na Jordânia, onde foi filmado o final de "Indiana Jones e a Última Cruzada". Hospedei-me, aliás, no mesmo hotel que o Harrison Ford e o Spielberg, e vi seus nomes no livro de assinaturas (ohhh). A porcaria do filme ficava passando sem parar no pobre hall de entrada do hotelzinho (Moussa Spring Hotel). Após uns dias eu não agüentava mais aquela desgraça, he he. Petra não foi construída por hebreus mas por nabateus, obviamente. Os hebreus, segundo os próprios, estiveram por séculos no Egito e construíram a cidade de Ramsés. Mas eram tão estúpidos que nunca conseguiram reproduzir nada digno de nota em sua suposta terra natal. A explicação que podem dar, claro, é que não tinham escravos. Não tinham é técnica, talento, devoção, nem cultura suficientes. O que sobrou do tal fabuloso templo de Jesuralém foi o Muro das Lamentações, que os judeus ortodoxos tentam derrubar a cabeçadas, ha ha... Vendo aquilo lá, percebemos que até os Incas lidavam melhor com a pedra, eram mais refinados. Mas não sejamos injustos; aqueles camelos eram os melhores na arte da mentira. Os judeus de hoje, em oposição, são superiores a todos nós. Mais ou menos 0,5% da população mundial e mais de 40% dos prêmios Nobel. Os responsáveis devem ter sido os séculos de "seleção natural" que lhes impuseram os piedosos cristãos, ha ha ha.

André disse...

Não, Catellius, ainda quero ler Moises e o Monoteísmo. Não é grande. Mas a letra é de bula de remédio.

Acho que sou psicólogo, psicanalista, caso de estudo (às vezes), tradutor amador, jurista do Código de Hammurabi, fazedor de concursos públicos, consumista, assessor de assuntos aleatórios, diletante profissional, historiador nas horas vagas, filósofo incompreendido, profeta desarmado, eminência parda no lugar errado e um emérito ocioso.

De vez em quando a Terra é chata porque as pessoas nela o são.

Kant, Hegel e outros caras dados a fazer paralelepípedos verbais escreveram certas coisas q simplesmente não tem tradução razoável pra nenhuma língua. Dizem q o alemão é a língua perfeita para veicular certos conceitos filosóficos, o problema é q as coisas ficam presas nela, não saem.

Indiana Jones, só o primeiro, excelente, e partes do segundo. O terceiro é fraquinho. Sean Connery deu uma segurada, claro. E lá vem o quarto, q só vai se salvar se a história for muito criativa, pq acho a maior forçação de barra o Harrison Ford, nessa idade, voltar a fazer o Dr. Jones.

Enquanto isso, espero pelo 22º Bond, James Bond. Um vodka martini, por favor, sacudido, não mexido...

Os judeus/israelenses dão excelentes pensadores revolucionários, banqueiros, violinistas, pianistas, soldados e guerreiros em geral. Uma cultura militar q não se perdeu, como a árabe, q já foi forte. E dão bons estadistas também, dentro e fora de Israel. Vide Kissinger e Benjamin Disraeli, Earl (Conde) de Beaconsfield. Mas nas artes em geral, exceto música, são o vácuo completo.

Digam o q disserem, são um povo resistente. E, depois de passar por tudo o q eles passaram, acho q entendo a mentalidade reinante ali. O sionismo foi um erro, mas era previsível, ia acabar acontecendo. Outros povos desapareceram por muito menos e não teriam agüentado o q eles agüentaram. Sua história apenas fortaleceu sua religião, suas características exclusivistas e de luta ferrenha. Anos atrás, ouvindo relatos de sobreviventes de campos de extermínio lá em São Paulo mas tomando cuidado pra não me meter muito na conversa, minha impressão é a de q Deus se “exilou”, como disse o judeu gnóstico Harold Bloom. “O horror, o horror...” como escreveu Joseph Conrad. Não cabe em palavras, ponto.

Mas acho q a vida continua, apesar de tudo.

André disse...

Em sobreviventes de grandes tragédias q atingem famílias inteiras, como foi o Holocausto, o mais freqüente é a pessoa se perguntar "por quê?" Por quê ela escapou e os outros não? Envelhecem com isso na cabeça. Aliás, intelectos refinados como Primo Levi e Bruno Bettelheim sobreviveram mas lá na frente não suportaram e cometeram suicídio.

Sei q isso não tem nada a ver com o tópico do post, mas achei necessário escrever esse complemento ao meu último pitaco aí em cima.

Catellius disse...

Muito bem, André,

Entenda a minha frase "Os responsáveis devem ter sido os séculos de 'seleção natural' que lhes impuseram os piedosos cristãos..." apenas como uma crítica aos cristãos.

"Mas nas artes em geral, exceto música, são o vácuo completo."

Vácuo completo? Acho que está longe disso. Encontramos incontáveis atores e diretores de teatro e cinema, desde Chaplin a Woody Allen. Compositores como Mendelssohn, Meyerbeer, Mahler, Bernstein. Pintores como Lucien Freud, Frida Kahlo, Roy Lichtenstein, Modigliani, Pissarro, Chagall e outros, além de escultores, escritores como Isaac Asimov, Noah Gordon, Anne Frank, o genial KAFKA, Arthur Miller, Boris Pasternak - do Doutor Jivago -, Marcel Proust, e muitos outros. Não estou levando em conta se professavam a fé judaica, é claro, apenas se tinham ascendência judia.

Abração

亲亲宝贝 disse...

Cattelius
Xingue menos os religiosos de estupidos, idiotas e camelos e as pessoas prestarao mais atencao ao que vc esta falando

André disse...

Nossa, me esqueci do cinema e da pintura. Pois é, Modigliani, Woody Allen, Chagall, Kafka (adoro aqueles textos q dão voltas, aqueles enigmas, mas q dizem muito, diferente da enrolação pseudointelectual q se vê hoje). Acho q estava pensando em arquitetura e em sei lá o q mais.

André disse...

E a da "seleção natural" imposta pelos cristãos aos judeus foi mais uma boa tirada.

Catellius disse...

André,

Na arquitetura? Pois é, nem citei arquitetos. Frank Gehry, o celebrado autor do Guggenheim de Bilbao, Louis Kahn, Richard Meier - um dos maiores do mundo, atualmente - Erich Mendelsohn, o expressionista da Torre Einstein, Peter Eisenman, etc. N UnB fui aluno de Golubov, Burgmeister, Gorowitz e outros.
Abraços

Senhor 亲亲宝贝,

O "estúpidos" que usei para os hebreus foi para dizer que construíram a cidade de Ramsés mas desaprenderam tudo na hora de usar a habilidade na Terra Prometida. Teria sido falta de chicote? Foi um jeito de dizer que a história está bem mal contada.
Quanto ao "camelo", peço desculpas. Não queria ofender o pobre animal. Comparar o dócil - ainda que ranzinza - e prestativo animal aos carniceiros hebreus é uma grande injustiça.
Não me lembro de ter usado "idiota", apenas de ter pensado. Mas peço desculpas pelos pensamentos pecaminosos também.
Ablaços, 亲亲宝贝 e volte semple.

A propósito,

A travessia do Mar Vermelho dispensa comentários, he he. Vejam o mapa do Êxodo: Partiram de Ramsés para Sucot, daí seguiram a Etam, de onde foram até Piairot, ponto em que partiram e atravessaram o mar, acampando em Mara, no Deserto de Etam. (Ex. 13,20; 14.2.9.15; 15,22; Nm 33, 5-8). A região atravessada, conhecida como "Mar dos Juncos", é um banhado que devia estar meio seco à época, e o rebanho de hebreus achou que aquilo era, de algum modo, divino.
Se, no futuro, tudo o que restasse sobre Vasco da Gama fosse Os Lusíadas, muitos acreditariam que tudo não passava de imaginação. Quando os crédulos de meu exemplo encontrassem vestígios de que Vasco da Gama realmente existiu, atravessou o Cabo das Tormentas, etc., passariam a ver aí também a prova da existência de tágides - as ninfas do Rio Tejo... Temos que ter paciência com os crédulos...
Abraços a todos

André disse...

Bom, há judeus em tudo. Como não iriam estar na arquitetura, uma área tão vasta? Acho q me expressei mal, desde lá do início. Um pouquinho, he, he.

Não discuto travessias mitológicas nem grandes períodos de exílio, pq a gente sabe q muita coisa é inventada pra aumentar o heroísmo do povo e justificar tudo o q foi feito e o q existe entre o céu e a terra. O interesse é esse, mitológico. Legal esses detalhes q vc escreveu sobre a travessia do Mar Vermelho.

Terminei o primeiro cd de mp3. Mais dois e acabo. Quem sabe lá pra semana q vem. No final, muito Mozart, Beethoven, Chopin, algum Bach, Vivaldi e outros. Está ficando legal.

Ah, sim, não conheço muito de história da arte, por isso aquele e-mail sobre quem foi Caravaggio e outros assuntos foi muito bom. Conheço as obras, não as vidas.

Bocage disse...

Gostei de tua colocação sobre Vasco da Gama e as tágides. Nada mais possível.

Faço algumas colocações sobre a fábula de Moisés, baseando-me em textos que li, em primeiro lugar do Livro dos Mortos (deu-me um trabalho decifrar aquilo):

- Princesas não se banhavam no Nilo. O risco de serem surpreendidas por uma bolsa de crocodilo a boiar cheia de dentes era maior do que se depararem com um cesto contendo um bebê, rsrs

- Moisés, tomado por conflitos e pela desordem mental, deixou a cidade de Ramsés e foi para o deserto, onde conheceu os árabes Séfora, a virtuosa que, segundo uns, lhe teria posto os raios de luz na testa, e Jetro, o sogro. O mar não precisou abrir-se para ele sozinho, justamente porque não deve ter atravessado um mar e sim um charco, banhado - e olha lá.

- O ex-príncipe deve ter permanecido na casa de Jetro forever, ou alguém crê que após assassinar o contramestre egípcio (sim, Moisés era um assassino) ele podia colocar o dedo em riste na cara do próprio Faraó impunemente?

- A horda que abandonou o Egito devia ser de uns vinte e poucos mil e não seiscentos mil como querem os especialistas em bibliomancia.

- Novamente o problema da língua hebraica. Alguns lingüistas não distinguem "Mar Vermelho" de "Mar dos Juncos".

- Por que Moisés pastoreou a manada contornando o deserto e não diretamente pela estrada do norte que já existia ligando o Egito à Ásia, uma famosa rota comercial? Porque existiam patrulhas de soldados egípcios na estrada principal, em decorrência de uma guerra contra os hititas, e os hebreus temiam encontrar a patrulha e serem despojados do "ouro, prata e cobre" que carregavam.

- Mesmo com crianças, velhos, mulheres e animais no rebanho de hebreus, é impossível demorar 40 anos para cobrir uma distância de 500 km. O povo teria de percorrer trinta metros por dia, para tal façanha. É certo que "40 anos" para aquele povo tribal devia significar "muito muito tempo", rsrs

André disse...

Sim, uma fantasia logística: cobrir 500km... em 40 anos.

Mas se falassem q levou 200, 500 ou 1000, alguém ia dar um jeito de "justificar" com atrasos verdadeiramente divinos.

Foi a má vontade de Javé em lhes mostrar o caminho!

Catellius disse...

André,

Valeu pela preparação do CD de mp3.

Bocage,

Ri da bolsa de couro de crocodilo a flutuar pelo Nilo, ainda com dentes na boca. Então as princesas não se banhavam no Nilo? De onde tirou isso, he he?

Marcio B disse...

Quando se tem uma fábula, tudo é valido para se comentar, até mesmo imaginar. Uma coisa é certa, tudo não passa de uma armação por aqueles que querem deter o poder, e desde a cifra($)

Egon disse...

Caro Heitor, eu pensei primeiramente em comentar seu excelente e muito bem escrito artigo, até porque o assunto me interessa muitíssimo (especialmente as considerações freudianas sobre este e outros temas correlatos, já que sou psicanalista), mas depois de ler os comentários suscitados pelo texto, fiquei mais propenso a somente elogiar você e os leitores do blog, pois me impressionou a qualidade das argumentações apresentadas. Parabéns a todos pela discussão crítica e inteligente!

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