08 abril 2019

Olavo de Carvalho: Analfabeto Funcional




Olavo confunde tudo quando acusa o Gen. Mourão de contradição e confusão.
O Regime Militar não foi democrático, ainda que em determinado momento houvesse pluripartidarismo com eleições diretas para governador e senador.

Mas o regime foi Legal. Quase nunca o Legal é plenamente justo. Muitas vezes é completamente injusto.Uma lei democrática pode ser injusta e uma feita por um déspota pode ser justa. O contrário é o mais comum, logicamente. Mourão não disse que o Regime Militar foi ilegal. E quando disse "Fui eleito e Geisel não", aí fica subentendido o Sufrágio Universal, não uma eleição presidencial indireta na qual os candidatos são indicados por um Regime Autoritário.
Ao colocar como uma vantagem a democracia que o elegeu como vice de Bolsonaro, não está "achincalhando" o "regime de cujo prestígio ele se beneficiou para ser eleito". Os próprios militares fizeram a transição para a democracia, por ser melhor. Simples assim, como diria a Bettina.

Olavo reconhece que Mourão foi eleito. Mas beneficiou-se mesmo do prestígio do Regime Militar? E quanto ao forte repúdio ao PT? E quanto ao voto útil dos que em princípio queriam Amoêdo, Alckmin, Álvaro Dias, mas acabaram por votar em Paulo Guedes? Este foi "mais eleito" do que o Mourão. Se o governo não apoiar Paulo Guedes, comete Estelionato Eleitoral.

Mourão não tinha por que se comparar a um vice, uma vez que na pergunta do repórter em Harvard a comparação era entre ele, Mourão, e Geisel. Perguntemos ao Olavo: "Quem é mais honesto: você ou Sarkozy?". Tanto faz a resposta. Nossa tréplica será "Você tinha que se comparar a um astrólogo, não a um presidente, ainda por cima francês".
As orelhas de jumento aparecem, às vezes mais às vezes menos, por baixo da pele de glorioso leão.




02 março 2018

As Novas Virtudes

Texto de C. Mouro

A exaltação ostensiva de porcarias, do fácil, do feio, do sujo, do fraco, do pobre, do pulha, é consequência da inveja, uma vingança contra a virtude. Uma estúpida desforra por parte daqueles que em si somente reconhecem o vício, e então se unem para exaltá-lo, ansiosos por fazerem da opinião mais visível a “verdade” consensual. Querem uma "realidade" artificial na qual se sintam mais confortáveis.

Considero que ainda se está na fase binária da razão e assim tudo é julgado por "antagonismos justificadores", de forma que o feio existe porque há o belo, e o admirável só pode existir porque existe o desprezível. Há então a necessidade de inventar antagonismos postiços, na tentativa de elevar vícios à categoria de virtude. É um mecanismo mental de auto-alimentação ou, mais propriamente, de auto-alienação mútua.

Não é fácil criar algo belo, não está ao alcance de qualquer um. Então se exalta ostensivamente o lixo para relegar o belo, o difícil, o forte, o reto, o orgulhoso, o admirável a uma avaliação menor, numa oposição artificial pretensamente esclarecedora. As dicotomias, maniqueísmos e simetrias diversas ainda são usadas para se fabricar polarizações facilitadoras para inculcação. Os tolos apreciam a facilidade das polarizações, para definirem-se perante plateias através do mínimo comum.

É absurdo, mas de fato a larga maioria humana se interessa mais pela opinião alheia sobre si do que pela própria. Sinto-me forçado a homenagear Schopenhauer ao citá-lo nessa sua constatação sobre o desejo de honra (opinião alheia favorável).

Claro que tudo é vaidade e esta constatação é milenar. A vaidade é o desejo pela opinião alheia favorável e é ela que faz da tal espiral do silêncio uma estratégia infalível para conduzir rebanhos humanos.

Acredito que a fabricação de valores anti-natureza (algo bem apontado por Nietzsche, que aproveito para homenagear) foi a forma de oferecer a um povo, cada vez mais explorado por seus governantes, uma compensação moral pelas perdas materiais que lhe seriam impostas.

Assim uma ideologia justificou, no fantasioso futuro sem data e incerto que prometia, as novas virtudes, fáceis de simular e ostentar, que fariam das antigas virtudes, difíceis, os novos vícios.
Tal oferta imediatamente seduziu tudo que não prestava e, ante a ostentação de tão confortável "asinus asinum fricat", acabou por seduzir até parcelas ansiosas não tanto pelos novos valores, mas exatamente pelo "asius asinum fricat". Daí o convívio irracional com as contradições. Afinal a verdade e o interesse, ao entrarem em conflito, induzem à opção pela "realidade irreal"; o absurdo como expressão da "convivência entre contrários".

Assim, o orgulho sincero foi considerado um vício, defeito ou pecado, por ostentar satisfação consigo mesmo, enquanto outros dele não poderiam desfrutar. A humildade, que por definição só pode expressar falsidade ou resignação, se tornou uma virtude a ser simulada como ostentação de virtude, razão para orgulho (no caso postiço). Não há como subverter a realidade, pois ela se manifesta menos perceptível, mas estará lá.

Pela mesma “ilógica” a riqueza foi amaldiçoada e a pobreza elevada à virtude individual. Porém somente para ostentação, já que intimamente não há razão para a fácil pobreza ser considerada uma virtude do indivíduo.

A fragilidade, a servidão, a fraqueza, o mal viver e etc. igualmente foram feitos virtudes novas oferecidas como vingança contra as velhas.

Assim se deu com os valores preconizados pela ideologia da anti-natureza.


Cabanel: Nascimento de Vênus. Arte tida como decadente pelos
cubistas, abstracionistas, dadaístas, críticos de arte, catedráticos, etc.

Cabanel: Nascimento de Vênus. Detalhe

Picasso: Mulher com Colar. "Arte" "genial", um consenso entre os de "gosto superior".

Por fim, até as artes foram contaminadas, e meros rabiscos feios e ao alcance das habilidades de qualquer animal se tornaram "obras de arte". Assim se deu com lixos ditos esculturas e mesmo com grunhidos e palavras soltas e acordes desconexos.

Porém se já não há mais "juízes em Berlim", ao menos é certo que ainda existem muitos com verdadeiros talentos e que os exercitam sem constrangimento. Isso é realmente confortante.

25 outubro 2016

Abbott & Cortella: Stand-up Philosophers

A filosofia já esteve perante um sol nascente siciliano, com Pitágoras; sob um pórtico pintado, com o estoico Zenão; sentada em um banquete, com o socrático Sócrates; num barril, com o cínico Diógenes; caminhando, com o estagirita peripatético; e agora, com os patéticos Karnal e Cortella, de pé com um microfone na mão.

Não inventaram a modalidade. O primeiro stand-up philosopher aparece em A História do Mundo, de Mel Brooks. A filosofia stand-up moderna incorporou traços do Bobo da Corte a entreter sua pequena audiência, de Tartufo, do otimista leibniziano Pangloss, do médico Hermes (Zadig), de Falstaff, Polônio e outros pomposos sacos de vento (pompous windbags) shakespereanos, de Dale Carnegie e seus subprodutos. Nos seus ingredientes vemos também consultas a dicionário etimológico – tal palavra não tem o significado corrente mas aquele do radical grego -, apropriação de memes internéticos anônimos, citações do Pensador UOL, piadinhas anônimas de Whatsapp, cadernos de filosofia escolar, conhecimentos científicos, econômicos, geográficos, históricos e artísticos superficiais, muitas datas e muitos nomes, principalmente em alemão, anedotas, frases de efeito, trocadilhos, críticas a conceitos como esquerda e direita, aos exageros da tecnologia. Acrescente um falar pomposo e peculiar que beire o ridículo, e voilá: teremos Abbott (Karnal) e Cortella, os maiores filósofos brasileiros vivos. Às vezes dão shows como “Os Três Filósofos”, quando a eles se junta Felipe Pondé, uma figura respeitável, na minha opinião. Com ressalvas, obviamente. E com Clóvis de Barros, para quem "a moral é aquilo que você não faria de jeito nenhum" e ética é "como devemos agir no sentido de não prejudicar muito a convivência do grupo ao qual pertencemos", fazem a cabeça dos jovens, segundo a revista IstoÉ.

E há o filósofo de Varginha, ou o ET da Virgínia. Um Brancaleone com sua armata de olavetes em busca de Aurocastro, o reino que tomará das garras da Nova Ordem Mundial. Não faz um stand-up mas um sit-down. Os ingredientes incluem tom profético, apelos à autoridade, falácias diversas, rampas escorregadias, palavrões, especialmente aqueles relacionados ao ânus, desqualificação de adversários por não terem lido certo livro que é imprescindível para qualquer aspirante a estudante de filosofia, e muitos outros já descritos na categoria anterior.

A seguir, Cortella e Karnal falam sobre Ética. Cortella:




Cortella: “Ética é o conjunto de valores e princípios que você e eu usamos para decidir as três grandes questões da vida, que são “quero, devo, posso”. Isso é ética. Quais são os princípios que eu uso? Tem coisa que eu quero mas não devo, tem coisa que eu devo mas não posso, tem coisa que eu posso mas não quero. Quando que você tem paz de espírito? Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.”


De acordo com o Pai dos Burros, Ética é a parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral. E o Conjunto de regras de conduta.

As três grandes questões da vida não são “quero, devo, posso”, e tampouco as costumeiras "de onde viemos", "para onde vamos" ou "existem deuses", uma vez que ela simplesmente não tem questões, evidentemente. Nós fazemos as indagações, as quais variam ao sabor dos tempos, dos povos e dos indivíduos. Quanto mais medíocres são os primeiros, mais ignaros os segundos e mais se é um pomposo saco de vento, mais estúpidas provavelmente serão suas "grandes questões". No caso de Cortella, uma delas é questionar-se acerca de ele próprio querer ou não querer algo. Já deve ter se cagado nas calças várias vezes. 

Ética não envolve eu querer ou não querer algo, eu poder (ser capaz) ou não poder algo. Apenas se devo ou não devo. Ou melhor: se devo, apenas, uma vez que sempre podemos trocar os verbos: “Devo preservar animais do sofrimento desnecessário” é mais ou menos o mesmo que “não devo impor aos animais sofrimento desnecessário”.

Por fim, Ética não tem nada a ver com você ter paz de espírito. O facínora pode cometer os piores crimes e estes não lhe tirarem o sono. Heróis podem perdê-lo diante de um dilema atroz. 

E agora Karnal:






Etienne de la Boétie escreveu um texto, um discurso sobre a Servidão Voluntária, não “um livro”. A peça, realmente preciosa e lapidar, dá pouco mais de 20 páginas.

Amizade não é o tema da obra, mas La Boétie de fato diz que “Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apoiam-se uns aos outros mas temem-se reciprocramente. Não são amigos, são cúmplices”.

Então refere-se a maus praticando juntos a crueldade, a deslealdade, a injustiça. É mais do que comum pessoas más terem amigos verdadeiros que não sabem de suas ações, ou sabem mas não se envolvem, ou que tentam mudar seu comportamento. O sujeito acima de qualquer suspeita pode ser um celerado que mantém no porão a menina raptada. Outro tem escravos, caça raposas e bate na mulher, mas vai à guerra pelo país e daria a vida por um amigo. Karnal erra feio ao afirmar que só pessoas éticas têm amigos. E é muita presunção dizer “a ideia não é nem minha nem de Aristóteles”. A “fama” de fato lhe subiu à cachola. No seu caso, a mente brilhante se deve aos cabelos que desertaram de sua cabeça.

É de um asnático simplismo seu teste “eficaz e infalível” para descobrir se estamos diante de um amigo: Falar com entusiasmo do próprio sucesso e prestar atenção na sua reação.

Por isso tantos Iagos ganharam a confiança de tantos Otellos, desde que os homens aprenderam a simular. E o teste parte do umbigo, está no singular. Desejo, com ele, confirmar se fulano é MEU amigo. Somos falíveis, ora pois. Não é raro, em sólidas amizades, o sorriso amarelo daquele que, perante o imenso sucesso exposto pelo outro, se confronta momentaneamente com a própria incapacidade de ter chegado lá. Mas se não for algo que almeje – o amigo conta exultante que finalmente chegou a chefe dos escoteiros -, muito dificilmente não dará os parabéns com entusiasmo proporcional àquele com que a notícia lhe foi dada. Se formos muito exigentes com nosso "humano demasiado humano" amigo, acabaremos trocando-o por um cachorro. Cabe à parte plena de sucesso, infelizmente, não alardeá-lo mui estrepitosamente perante os infelizes e inseguros. Que conversem sobre política, futebol, mulheres, filosofia, que debatam as grandes "questões da vida" - inclusive as do Cortella -, que lembrem dos velhos tempos. Pois amigos, no fundo, são aqueles que gostam de se encontrar, de conversar, de beber, aqueles cuja opinião interessa, que na amizade investem pensamento, tempo, energia, cujas "almas" se atraem, pela afinidade, pela curiosidade. São aqueles que já dividiram um quilo de sal, como se diz. Que têm um passado comum, envolto naquela aura de confiança e esperança comuns à juventude. Ou que percebem, após cinco minutos de uma primeira conversa, que já são amigos e o serão enquanto puderem. Tudo isso sem viadagem, obviamente.

Mas se ele AINDA for petista, depois de tudo, depois do Mensalão e do Petrolão, se usar a palavra "Golpe", aí complica... Deve haver algum grau de admiração mútua, poxa...

/////////////////////////////

Foram dois pequenos trechos. Grãos de areia no Saara. Karnal e Cortella abundam, na internet, em palestras, debates, entrevistas, aulas, discursos. Apesar das informações enciclopédicas, igualmente interessantes se lidas na Barsa, os disparates fluem ininterruptamente, dia e noite, em novos vídeos. Já atingiram a sabedoria há algum tempo. Não precisam e não têm mais tempo de ler, de estudar, de refletir - exceto a careca de Karnal -, agora só falam e suas equipes escrevem (isto é palpite).

E como se não bastasse, sob a lanosa pele de isenção com que se apresentam percebemos sempre a ponta da cauda peluda de seu esquerdismo rançoso (pleonasmo).

21 maio 2014

Leitura sobre a mesa-redonda: Cidades Transnacionais

Segundo Marcelo Teixeira, doutorando em sociologia pela UnB, obras grandiosas assinadas por arquitetos como Zaha Hadid são verdadeiras máscaras de modernidade criadas para ditaduras se justificarem perante o mundo civilizado. "Urbanismo Transnacional" é como chama o processo de criação de cidades espetaculares que abrigam a arquitetura do espetáculo. Critica o fato de tais cidades serem todas parecidas, talvez como Cesareia e Palmira se assemelhavam a Roma, e de abrigarem obras de grande visibilidade e que superam limites técnicos, quem sabe como o Farol de Alexandria e o Colosso de Rodes, e, mais recentemente, a Torre Eiffel.

Ele organizou com Lucas Brasil uma mesa-redonda, na UnB, intitulada "Urbanismo Transnacional: Ásia, África, Brasília - Que conexões haveriam entre Dubai, Brasília, Singapura e Kinshasa?", da qual participaram importantes catedráticos cujos currículos, se enfileirados, dariam várias voltas ao redor da Terra. Na plateia havia alguns professores de arquitetura e funcionários de órgãos licenciadores e de planejamento urbano de Brasília, estudantes e arquitetos. A mesa-redonda foi sua tentativa de popularizar a teoria de que "o comprometimento com o neoliberalismo, em tese, traria mais legitimidade a regimes autoritários frente a uma comunidade internacional pós-Consenso de Washington" - nas suas palavras -, que corporações multinacionais de construção civil e investimentos imobiliários constroem destrambelhadamente cidades mundo afora, com apoio de bancos e governos, como estratégia "de acumulação de capital em curto prazo", e que o planejamento urbano, sob tais atores, "privatiza-se e pulveriza-se crescentemente, reduzindo poderes municipais e cidadãos em definir os rumos de suas cidades, cada vez mais decididos além das fronteiras nacionais e inseridos na 'racionalidade neoliberal' e pró-mercado". Neoliberal deve significar "qualidade daquilo que é atual, 'neo', e está em harmonia com o pensamento de Smith, Mises e Friedman", ou um mero sinônimo de "Satanás". A fina flor da arquitetura mundial, como Norman Foster e Daniel Libeskind, seria o selo-modernidade de que os governos e corporações imobiliárias necessitariam para dar à determinada cidade um status global, como ocorreu com a ditadura de Bilbau, na Espanha, que se perpetuou no poder após contratar Frank Gehry para o projeto-espetáculo do museu Guggenheim.

Destarte, na sua tese, os governos ditatoriais, controladores e centralizadores por definição, pulverizam os poderes de seu país em definir o rumo de suas cidades, mesmo as criadas "ex nihilo", do nada, usam o urbanismo transnacional para mascararem o caráter plenipotenciário de suas ditaduras, onde tudo pertence ao estado há décadas, como na China, privatizando o país em nome de uma "racionalidade neoliberal". É o fortalecimento do Estado mediante o enfraquecimento do Estado, em prol da iniciativa privada, algo até hoje impensável. E assim nunca mais veremos a beleza daquelas centenas de milhões de camponeses famintos na China pós-Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. E o modelo agora chega à África, preocupa-se Teixeira, e as corporações imobiliárias construirão, no lugar das ocas graciosas e modestas em cuja proximidade se podia expor a poética magreza humana em fotos preto e brancas de engajados como Sebastião Salgado, odiosos arranha-céus de vidro cingidos por lagos contornados por tamareiras, idênticos aos de Singapura, Xangai, e Dubai. A tese culmina no alerta de que, via GDF, a sombra desse grupo sem rosto acerca-se de Brasília, apesar de ela não ter relevância econômica mundial, de o Brasil ter impostos acachapantes e infraestrutura precária suficientes para afugentar os mais vorazes tubarões neoliberais sem a ajuda dos Urbanistas por Brasília e de outros heróis locais. Ele acredita que o crescimento urbano é causa, não consequência. Por isso há cidades fantasmas na China. Para ele, metrópoles modernas como Singapura não fizeram primeiro uma revolução econômica e educacional, priorizando o comércio exterior, para só então terem um desenvolvimento urbano. O reboque empurra o carro para onde o motorista não deseja ir, enquanto sabemos que, na realidade, este conduz o automóvel atrelado ao qual está o reboque. Mas fora com a "racionalidade neoliberal", não?

A China foi uma ditadura comunista por mais de 50 anos. A abertura econômica gerou mais liberdade e riqueza, e desde 1980, a população urbana ganhou 700 milhões de pessoas e hoje já é mais de metade do país. As cidades precisaram crescer a toque de caixa. Cidades ditas fantasmas, como Ordos, na verdade passam um tempo subocupadas porque recebem os migrantes aos poucos, quando estes têm condições de comprar as residências, ainda que com subsídios, e equipá-las com vasos, luminárias e outros itens domésticos essenciais. Para o doutorando, a China apenas copia o modelo de Singapura. Cria cidades do nada, amplia cidades de poucas centenas de milhares de habitantes para monstros urbanos de dezenas de milhões de pessoas, as quais, para ele, devem brotar do barro. Ao contrário do que crê Teixeira, a abertura comercial obrigou paulatinamente o governo a sacralizar contratos e a aumentar a transparência de suas próprias ações. A abertura é o começo do fim da ditadura chinesa, não uma tentativa desesperada de mantê-la.

Em muitos países árabes há ditadura. Nos países ricos em petróleo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, há ditadura e riqueza, e esta, aliada à localização geográfica entre Ocidente e Oriente, possibilita a transformação de cidades em pólos de serviços onde há baixos impostos alfandegários e tributação, e as ajuda a voltarem a ser a escala entre um canto e outro do planeta, a voltarem a realizar a vocação de entreposto comercial, de grande caravançará que tiveram nos tempos áureos. Mas, para Marcelo Teixeira, estas ditaduras não poderiam mais se sustentar sem uma tal máscara neoliberal, apesar de terem se mantido sem ela por décadas, como a da Coréia do Norte, de Cuba, Síria e de tantos outros países.

Dubai, shopping e residenciais Medinah Jumeirah: "idêntico" a Singapura


Quanto à descaracterização urbana, a cidade de Dubai, por exemplo, tal qual a conhecemos, foi criada sobre a areia. Não obstante seu caráter "transnacional", lá é corrente o uso de torres de captação de vento, típicas da região, há shoppings com aspecto de "suqs" (mercados persas), elementos estéticos árabes, mocárabes em mesquitas, azulejos, jardins internos e fontes, tapetes, tamareiras, generoso uso de pedras da região, arabescos, microcidades árabes dentro da cidade, e a preocupação cada vez maior em criar edifícios e cidades sustentáveis. Brasília, como as já citadas Cesareia e Palmira em relação a Roma, também seguiu cânones internacionais da época em que foi criada, mais precisamente da Carta de Atenas. Os panos de vidro do Congresso Nacional e dos ministérios são inadequados ao nosso clima, há uma nítida priorização do carro em relação aos pedestres, a estética não tem traços comuns à arquitetura tradicional brasileira, apesar dos esforços quase teológicos dos catedráticos em dar ao modernismo de Niemeyer uma inspiração barroco-colonial.

Após a exposição do tema a ser debatido, projetou em um telão os vídeos promocionais das cidades de urbanismo transnacional e, em determinado momento, proferiu um imparcial "vejam que absurdo". E então tiveram início os discursos dos integrantes da mesa. O primeiro não largou o microfone por quase uma hora, disse que todas grandes cidades são réplicas uma das outras, para a elite sempre se sentir em casa. Assim, segundo ele, um executivo sai do aeroporto, vai para o hotel, deste para o museu e para o restaurante no shopping. Os dois primeiros são iguais aos do resto do mundo, no museu, segundo ele, se vê as mesmas obras vistas no resto do mundo - quem viu um Tiziano viu todos, deve imaginar -, e, por fim, no restaurante se come comida chinesa, italiana, japonesa, como no resto do mundo. E o doutor concluiu que, enquanto isso, a classe trabalhadora sofre nas favelas e cortiços para manter essa elite transnacional. É óbvio! E Steve Jobs não deve ter ficado multibilionário porque o mundo inteiro desejava seus produtos Apple, mas porque ele explorava, no início, uma ou duas centenas de funcionários na Califórnia e, posteriormente, algumas dezenas de milhares ao redor do mundo, sendo a mais-valia de cada um dos vendedores, faxineiros e montadores de aparelhos estimada em milhões de dólares. Os demais debatedores, com uma honrosa exceção, seguiram a mesma linha. Ao menos até o ponto em que assisti.

O ar do anfiteatro estava viciado, quente, porque o ar-condicionado neoliberal não fora ligado pelos grevistas, o que acabou por compor bem o cenário de falta de arejamento intelectual do meio acadêmico brasileiro, umbilicalmente ligado ao esquerdismo mais ressentido, antes por hábito do que por reflexão.

As universidades públicas brasileiras são pesadas barcaças sem leme, há décadas distantes da terra firme, nas quais o alimento disponível é o marxismo vencido, o que explica o escorbuto ideológico que acomete a pobre tripulação.

Talvez passar um tempo em Singapura aumente a vitamina C no organismo...

06 abril 2014

Se houvesse democracia no Brasil do século XIX

Texto mui levemente adaptado de comentário anônimo em A democracia é uma M*, atribuído ao misterioso C. Mouro:

Se no século XVIII e XIX houvesse democracia como a que se pratica, sobretudo no Brasil, até hoje haveria escravidão dos negros.

Os escravos poderiam votar, mas os candidatos seriam escolhidos pelas cúpulas partidárias. Para se formar um partido teria-se que ser senhor de engenho com apoio de certa porcentagem da população, e tudo deveria ser conferido pelos mandantes vigentes: os brancos altamente beneficiados pela escravidão democrática dos negros.

Tudo que dissessem os escravocratas moderados - sim, porque abolicionistas jamais conseguiriam criar partidos - contra os escravocratas seria considerado ofensivo pelo TRE e assim haveria multas e proibição de uso do tempo pelos moderados.

As verbas e tempo de propaganda, mesmo que os brancos escravocratas se dissessem igualitários, seriam muitíssimo maiores para os grandes partidos escravocratas, que facilmente, através de seus filiados e quadrilheiros, criariam inúmeros partidos escravocratas para comporem apoio aos grandes e se beneficiarem de ainda mais verbas e tempo de propaganda.

Brancos receberiam promessas de vantagens com a escravidão dos negros, alguns negros seriam privilegiados como feitores, haveria regras partidárias com boa estratégia para inibir novidades e favorecer o de sempre, toda a apuração das urnas ficaria sob a tutela dos senhores de engenho.

Assim (salvo talvez por pressão externa - eu, Catellius, observo), se houvesse democracia nos seculos XVIII e XIX, até hoje os negros seriam escravos de brancos, e mesmo de alguns negros, e tudo na forma democrática e popular tão defendida por pavões que invocam a rota bandeira da democracia para abafar a bandeira da liberdade. A velha confusão de palavras, a manipulação semântica tão utilizada pela política.

Depois de a palavra "igualdade" ser exigida entre indivíduos perante as leis, sem hierarquia social e privilégios, imediatamente usaram a mesma palavra "igualdade" mas com o sentido de igualdade material, a fim de confundir e manter a diferença entre os indivíduos. Assim, igualdade já não correspondia à ausência de privilégios legais para indivíduos numa sociedade hierarquizada, mas exatamente ao oposto: indivíduos com privilégios de ação e imunidades legais ilegítimas, sob pretexto de imporem uma igualdade material - injusta, com o mérito desprezado.

Para se combater clamores pela liberdade, confunde-se esta com democracia, como se fossem sinônimos. Ninguém mais defende a liberdade, mas apenas a democracia para eleger os Senhores da Sociedade, os quais sobre esta impõem suas vontades, caprichos, subjetividades e, sobretudo, impõem o custeio de seus luxos e manias à sociedade que trabalha e produz.

Enfim, os senhores democraticamente eleitos criam as regras democráticas que permitem que as mudanças só aconteçam para que tudo permaneça o mesmo.

21 março 2014

A democracia é uma M*

O número de crianças atingidas pelo conflito na Síria chega a 5,5 milhões. Acredita-se que crianças sejam alvos preferenciais de franco-atiradores porque dificilmente serão abandonadas e irão requerer muitos cuidados. Estima-se que mais de 2 milhões de crianças irão requerer tratamento psicoterápico para se recuperar dos traumas sofridos (link). Como chegamos a isso? Certamente muitos fatores podem ter contribuído para isso, mas pretendo explorar a tese da falta de democracia na Síria.

A Síria era um regime que tinha eleições que eram sempre vencidas pelo partido da família Assad, portanto, era uma democracia de fachada. O ditador inclusive já anunciou sua intenção de se candidatar novamente em 2014. A meu ver, o problema aconteceu quando houve grande insatisfação popular que a falta de instituições democráticas foram incapazes de canalizar para uma mudança de governo. Se as tais manifestações tivessem ocorrido na Inglaterra, por exemplo, provavelmente teriam levado à queda do primeiro-ministro e possivelmente a dissolução do parlamento. Como não haviam instituições democráticas reconhecidas, o país mergulhou na guerra civil. Quem quer que ganhe essa guerra receberá um país em ruínas e um povo arrasado.

A democracia é uma M*. Nela temos que tolerar opiniões diferentes da nossa. Suportar decisões que contrariam nossos valores e interesses, mas fazemos isso com a fé e a esperança na participação e no diálogo. Quando não temos democracia, temos a situação da Venezuela onde milícias pró-governo matam manifestantes e há uma escalada de violência que provavelmente não deverá levar o país a guerra civil, mas irá agravar em muito as dificuldades econômicas e de segurança já vividas pela população.

Quando vejo pessoas defendendo o voto nulo acho que até entendo sua desilusão com o sistema democrático que é bastante falho e conta com pessoas mais falhas ainda. Entretanto, na ausência de eleições, o que nos resta para buscar um governo que atenda as expectativas da população? Resta a guerra civil que destruirá o país.

Na minha opinião, o maior feito de Mandela foi ter conduzido a transição de forma que a África do Sul não fosse mais um dos países africanos a entrar em guerra civil. O regime do apartheid já estava condenado desde fins da década de 70 e a sua elite encontrou nele o homem capaz de fazer a transição sem jogar o país no abismo. Talvez um dos segredos do processo seja a existência de instituições democráticas que foram mantidas em algum grau apesar do Congresso Nacional Africano ter ganho todas a eleições desde o fim do apartheid. Veja que não é fácil manter uma democracia viva.

No Brasil, temos o PT e um sonho de poder sem fim. Não creio que isso seja bom para o Brasil, pois não basta que haja democracia dentro do partido, é preciso que as instituições sejam democráticas e o que sustenta a democracia é a alternância de poder. Aliás, democracia de verdade não existe dentro do PT como se podem ver nas denúncias de Valter Pomar do abuso do poder econômico nas eleições internas (link).

14 outubro 2013

Titulares à sombra dos seus reservas

Hoje, na política brasileira, temos uma situação curiosa. Os três principais candidatos à presidência da República estão à sombra de seus reservas. A começar pela Dilma, que vive na sombra do Lula, passando por Aécio, que não tem a projeção nacional do Serra, e pelo Eduardo Campos, que ainda não é tão popular quanto a Marina.

Especula-se que Dilma iria para o banco de reservas se sua intenção de voto caísse abaixo de 30%. Independente disto o Lula já está em campanha. De fato, ele foi talvez o presidente que menos governou o Brasil. Ele nunca parou de fazer campanha. Infelizmente, para o Brasil, o único inimigo à altura do Lula tem sido o seu câncer. Se ganhar a próxima eleição, ele terá dominado o Brasil por mais tempo que Getúlio Vargas, que ficou 15 anos no poder.

Para Eduardo Campos, sua candidatura seria inviável se ele não crescer na intenção de voto, pois simplesmente não haveria segundo turno, o que forçaria a entrada de Marina como cabeça de chapa. De qualquer forma, é melhor para o PSB ter duas cabeças, pois o jogo é duro contra o PT. Depois do anúncio da candidatura, o PSB perdeu 20 deputados. Bom trabalho Lula. Se bem que uma parte dos que saíram estão ligados ao Ciro, que teve um ataque de pelanca por não ser ele o candidato. Cá entre nós, trocar o Ciro pela Marina parece ótimo negócio.

Para Aécio, a situação é mais confortável, pois a tendência é que os votos da direita venham para ele. E ele ainda é senador e controla a máquina do partido, portanto as chances de Serra são menores, mas em política tudo é possível. Considerando que ele enfrenta os eternos boatos de que é um cheirador...Será que teriam coragem de usar isto contra ele? Só se ele crescesse muito.

O PT chegou a representar a renovação na política quando, em 1979, rompeu a polarização entre ARENA e MDB. Foi também um avanço por não ter sido uma das siglas criadas por Getúlio, mas hoje o PT representa um novo tipo de autoritarismo à semelhança dos militares e seu projeto de poder passa pela monopolização da política brasileira, o que em última instância visa deixar as pessoas sem possibilidade de escolher seus governantes. O PT irá escolher por elas em seus quadros. Como diz o gigante João Santana, os anões irão se destruir. Espero que não pelo bem do Brasil.

Ontem li algo que mostra o que é o Brasil do PT. A direção do Fundo de Pensão dos Correios perdeu cerca de R$ 1 bilhão em operações duvidosas. O resultado disso foi a demissão do diretor financeiro indicado pelo PMDB, mas o presidente do Fundo indicado pelo PT continua como se não tivesse nada a ver com isto. Se o PT faz isso com a aposentadoria dos trabalhadores, imagina como está administrado mal este nosso Brasil. É por isso que precisamos de opção, de alternância de poder, para que haja consequência para os governantes pela sua má administração.

30 setembro 2013

O Conflito Social

Atravessamos nossas vidas tentando administrar o conflito. Algumas vezes fugindo, evitando, e outras vezes confrontando. Mas, o conflito é maior que todos nós porque é algo ligado à natureza humana e à vida em sociedade. Quase todo romance gira em torno de um conflito, a maior parte dos telejornais narram conflitos e não passa um dia sem que tenhamos que enfrentá-los. Não vejo solução para eles, que, em boa medida, estão fora do nosso controle e da nossa capacidade de previsão. Resta-nos lidar com eles com todas as limitações inerentes à natureza humana.

Vejo as religiões, em boa parte, como uma engenharia humana que tenta administrar o conflito. Karen Armstrong, em seu estudo sobre o islamismo, enxerga nesta religião uma construção institucional de uma hipertribo que permitiu aos povos árabes abandonar alguns tribalismos e passar a viver como “os crentes”, portanto, uma forma de superar intermináveis vendettas. No cristianismo temos a ideia da comunhão dos irmãos em Cristo. Não temos o mesmo sangue, mas comungamos do “sangue” de Cristo e comemos da sua “carne”. Antes disso, a ideia judaica de um Deus pai já tornava irmãos aqueles que compartilhassem desta crença. Marx, de certa forma, reconhecia este papel da religião em amenizar o conflito e a acusava de ser o ópio do povo.

A teoria marxista defende a tese do conflito de classes como o motor da história, portanto, se este acabasse chegaríamos ao fim da história e, quem sabe, ao paraíso na terra. Para ele, o conflito estava essencialmente ligado a propriedade privada que, em última análise, seria a origem de todo o conflito entre os homens. Esta concepção se aproxima de Rousseau, que supunha que o homem era corrompido pela sociedade, deformada pela propriedade, e, ao contrário de outros contratualistas, recusava a legitimidade do contrato social por entender que este só beneficiava a alguns. Mas Marx e Rousseau estavam errados; sociedades que aboliram a propriedade privada não ficaram livres do conflito.

Nos Estados Unidos, assistimos à disputa entre outras escolas de pensamento que tinham abordagens diversas em relação a questão do conflito. A escola funcionalista via no conflito basicamente uma disfunção social. Os elitistas, a partir de Weber, enxergam o conflito como algo essencialmente ligado à disputa pelo poder e entendiam que este ocorria, em maior ou menor medida, quando parcelas das elites mobilizavam massas para travar suas batalhas. Os pluralistas americanos defendiam a tese de que o poder estava disperso pela sociedade e que era proporcional à capacidade de organização de alguns grupos. Mas não parece que o conflito esteja restrito a dinheiro e poder. Os romances de Agatha Christie traçam um panorama bem mais sombrio da natureza humana.

O conflito não é algo remoto, presente em teorias sociológicas ou romances, ele está presente em nosso dia a dia em sociedade. Quantas vezes já ouvimos pais falarem para filhos que não levem desaforos para casa ou que se apanharem na rua apanharão duas vezes em casa? O discurso mais politicamente correto é que as crianças precisam aprender a se defender. Em função disso, os pais põem seus filhos para fazer judô, karatê, jiu-jitsu na esperança de que eles pelo menos não sejam vítimas.

Apesar dos esforços das religiões, dos pais e das teorias sociológicas, o conflito persiste e talvez persista enquanto a sociedade humana existir. As ideias de justiça, de direitos, de mérito e de igualdade talvez sejam aproximações para atribuir significado aos conflitos. Quando assistimos a um jogo de futebol, classificamos agressões como “raça” ou “desleal” em função da nossa interpretação do conjunto das regras e da conduta do jogador. Existem até pessoas que, em função, de uma profunda identificação com um “time” são basicamente incapazes de ver qualquer razão ou reconhecer qualquer mérito em um time que não seja o seu. Muitos destes “doentes” fazem parte de torcidas organizadas, outros fazem parte dos Black Blocks e outros, ainda mais sofisticados, são líderes políticos hábeis em alimentar conflitos sociais em seu próprio benefício.

Lula, por exemplo, é um exímio manipulador de conflitos. Vejam o caso deste Programa Mais Médicos; ele é questionável em várias dimensões, desde o uso de “mão-de-obra escrava cubana”, passando pela falta de estrutura local para apoiar os médicos, seu impacto sobre a saúde pública no Brasil é questionável, a truculência da sua implantação por Medida Provisória é digna dos militares, enfim, é uma política que gera muito conflito e cujos resultados até o momento são nulos. Entretanto, em termos eleitorais, a turminha do PT conseguiu lançar nacionalmente o Padilha, ministro da Saúde, como candidato a governador de São Paulo. Com este jeito truculento ele se projeta e se cacifa para ser governador deste estado que tem um grande desafio de segurança pública a ser enfrentado.

A política de cotas raciais é outro tipo de política de resultados muito duvidosos. Nos EUA, onde foi aplicada por décadas, tem um resultado bastante ambíguo. Existem aqueles que afirmam que não foi possível mostrar o efeito positivo sobre a comunidade negra em função da ação devastadora do crack. Apesar disso, é uma plataforma eleitoral que ganha cada vez mais legitimidade no Brasil, apesar de contar com uma turminha revoltada daqueles que acham que a vida lhes deve algo e eles estão aqui para cobrar. Esta atitude não tem cor, ela está presente em muitas pessoas que só têm desprezo para oferecer a seus semelhantes.

Isto para não falar daqueles que querem mesmo é ver o circo pegar fogo. Tem gente que gosta de conflito, se sente vivo com aquela descarga de adrenalina, com ampliação dos sentidos e com aquela presença necessária para garantir a sobrevivência. Basta ver os Black Blocks em seu êxtase “revolucionário” e destrutivo. Talvez uma sessão de destruição dê um barato melhor que cocaína. Os militantes do PT não ficam atrás com aquelas suas bandeirinhas que, quando rejeitadas, são prontamente transformadas em porretes.

As religiões diriam que eles também são filhos de Deus e que não nos cabe julgá-los. Talvez amá-los não seja a solução para o problema do conflito, mas seja um passo para conseguirmos encontrar paz em nós mesmos. Não podemos procurar a paz pelos outros e muito menos obrigá-los a buscá-la, mas podemos fazer a nossa parte. Ainda não acredito em oferecer a outra face porque acredito que estou certo.

20 setembro 2013

Salve Marina, Aécio e Campos. Ou: a Importância da Alternância de Poder

Se Deus quiser, Marina, Aécio e Campos desafiarão a hegemonia petista em 2014, quando completará 12 anos de dominação do Brasil. Se conquistar a próxima eleição, o PT superará Vargas em sua primeira fase, quando ficou 15 anos no poder. Mais uma eleição e eles igualam os militares, a quem tanto odeiam, que ficaram 20 anos no poder. Mas, o sonho mesmo é chegar a ser um PRI, que ficou 70 anos ininterruptos ocupando o poder no México. Que belo trabalho eles fizeram pelo México! Para a democracia e para o fortalecimento das instituições, é importante a alternância de poder, pois, como já dizia o velho ditado, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.”

O exercício do poder corrompe. Vejam o caso do STF, daqui a alguns anos não haverá um juiz lá que não tenha sido indicado pelo PT. Mesmo assumindo que eles pertençam a correntes diferentes do Partido, tenham sido indicados por coalizões diferentes, ainda assim estarão controlados em algum grau pelas redes de favores e influência petista. O interessante deste julgamento do Mensalão é que ele torna evidente o poder que alguns altos dirigentes do Partido dos Trabalhadores têm sobre alguns membros do STF. Na Venezuela, por exemplo, a lisura da Suprema Corte em relação ao governo é nula. Isto é difícil até nos EUA, onde uma decisão da Suprema Corte resultou na eleição do Bush Júnior. Não por acaso seu pai havia indicado o cara que tomou a decisão.

O poder é uma merda. Com o passar do tempo, as redes que vão sendo trançadas em torno dos cargos vão se tornando cada vez mais degeneradas. Muitas vezes algumas pessoas simplesmente não podem ser demitidas, pois conhecem os podres de muita gente. E, se são demitidas, têm que ganhar uma compensação adequada para que dossiês não comecem a vazar para a imprensa. Recentemente, descobriram um assessor da Casa Civil acusado de mais de 10 estupros de menores em condições de vulnerabilidade. Ele foi delicadamente demitido, mas ninguém falou em expulsão do Partido dos Trabalhadores. Em minha opinião, este rapaz deve saber demais.

O sistema político americano é dominado por dois partidos que se alternam no poder. Quando isso ocorre há uma tendência a que o partido que está ocupando a presidência evite criar muitos cargos e outras vantagens, pois corre o risco de estar fortalecendo o outro partido, que tem boas chances de chegar ao poder. Quando este risco não é real, então temos uma tendência para a tirania, na medida em que o partido encastelado no poder começa a ampliar seu poder sem medo de ter de entregá-lo ao adversário ou inimigo, a depender da situação institucional do país.

São as instituições, as regras do jogo que permitem que o jogo político seja disputado por adversários. Quando não há instituições, ou elas estão muito fracas, a disputa pelo poder degenera como no caso do ditador da Síria. Lá não há mais adversários, pois não há regras para a disputa. Lá temos inimigos, pois vale tudo, até matar criancinhas com gás venenoso. Por que a Síria não tem instituições? Por que não há regras de alternância de poder. Há a dominação de um grupo que não tolera qualquer oposição.

Falando em oposição inimiga, temos o caso da Venezuela. Recentemente, o Maduro criou o 0800 denuncie um sabotador da revolução. Este é um sintoma da intolerância com a oposição, das crescentes perseguições políticas e de um Estado policial onde as vozes discordantes são criminalizadas. Aliás, esta história de sabotadores vem da União Soviética, da China e outros paraísos esquerdistas onde se unia o útil ao agradável, ou seja, procurar bodes expiatórios e perseguir os inimigos.

A Marina, o Campos e o Aécio não são perfeitos. Longe disso. Duvido que a Marina seja a santa que pintam. O Aécio é um playboy que outro dia estava no Rock in Rio. Quanto ao Campos, tenho certeza que o PT está desenterrando seus podres. De qualquer forma, a chegada de qualquer um deles ao poder será bem-vinda pois serão desmanteladas, ou pelo menos renovadas, amplas redes de corrupção e influência. No mínimo os operadores terão que ser trocados. O governo poderá criticar alguns erros, pois não serão seus e o país avançará mais um pouco, até que chegará a hora de trocar de novo.

16 setembro 2013

Que mérito há?

Baal, um exemplo de deus de pedra
Jesus disse, conforme se lê em Mateus 5, 47: “Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?” É aquele tão famoso quanto nocivo e antinatural "amai vossos inimigos", que, por ser impraticável, é útil para produzir pecadores, muitos dos quais submeter-se-ão de rastros aos administradores da salvação, os representantes de Deus na Terra.

Elencarei os meus “que mérito há”, ressalvando, com palavras de José Ingenieros, que “as verdades gerais não são irreverentes; deixam entreaberta uma frincha, por onde escapam as exceções particulares”.

Antes gostaria de assinalar a diferença entre mérito e aptidão, mérito e qualidades dele independentes. Exemplos: parti do zero e hoje tenho 100 milhões de reais, menos portanto do que alguém que herdou 200 milhões e nunca trabalhou. Determinado romano conhecia mais do latim, em todas suas nuances, do que um PhD nesse idioma, nos dias de hoje. Este tem mais méritos do que aquele, que poderia ser um retardado mental de toga. Já a palavra "meritocracia" relaciona-se a "aptidão"; talvez fosse etimologicamente apropriado usar "meliocracia". Mas agora que o termo já existe, fiquemos com ele.

Que mérito há em ser bom, puro, quando se é criança e não se tem mais maldade que um bichinho irracional qualquer? Mérito há em ser bom quando se conhece o mal e se é capaz de praticá-lo, de preferência sem prejuízo imediato para si. Todos facínoras foram crianças puras. Quantas crianças puras serão adultos probos? Adão e Eva só passaram a ter mérito em serem bons depois de aceitarem a sugestão da serpente e comerem o fruto proibido.

Que mérito há em gostar de uma sinfonia de Schubert, da Carmen de Bizet? Isso lá demanda empenho, sabedoria, denota nobreza? Pessoas muito menos distintas que cachorras de baile funk já se deleitaram, no século XIX, com Verdi e Rossini. Mérito há em ter composto suas óperas, em saber executar a parte de um instrumento, ao menos em ser um grande connoisseur. Julgo que haja demérito em não se apreciar Beethoven, em não conhecer o pensamento de Nietzsche, em ser incapaz de compreender seus livros, ainda que se viesse a divergir de tudo. Entretanto, o demérito de uns não implica em mérito dos outros. Muitos serem desonestos não faz de mim um herói merecedor de medalhas, se apenas cumpro com meu dever. Escrevi um post sobre isso. Saber quem foi Aristóteles, conhecer o que os pináculos de nossa espécie fizeram pela nossa evolução - não darwinianamente falando - é obrigação de homo sapiens. Mas o mérito é de Aristóteles, não de quem o compreendeu. Poderão me questionar: "então posso afirmar que é nosso dever ser bom. Demérito há em ser mau". Discernir o bem do mal, ser justo, nem sempre é fácil. É necessário empenho constante, que se medite, filosofe, que se arque com eventuais prejuízos imediatos. Não furtar é obrigação.

Que mérito há em ser humilde quando não se tem do que se orgulhar? Muitas vezes o sábio, que poderia jactar-se de seus conhecimentos, descortina a infinitésima parte de um universo diante do qual se sente um grão de areia, daí adota uma postura humilde. Não perante os homens; é-o para si mesmo e para o universo. Como Sócrates, diz "só sei que nada sei". Há o humilde como mero sinônimo de pobre, que pode ser orgulhoso, cheio de brios. Se tem um amigo bem de vida e seu fausto o incomoda - ainda que não o admita -, aguarda uma brincadeira inocente do amigo, um pretexto qualquer para, mui ofendido, mostrar que é pobre, mas tem honra e dignidade, e então priva-o de sua companhia. E há o que se humilha para ser exaltado, porque a humildade passou a ser um valor em si, desde que a moral do escravo (cristianismo) passou a viger.

Que mérito há em perdoar quando não se pode retaliar? Hoje perdoa-se como terapia, para não se intoxicar com a bílis corrosiva da revolta, para não se prejudicar o sono, para se tirar um fardo das costas e voltar a viver. Portanto, pela própria saúde, perdoa-se os poderosos que nos prejudicaram e que estão acima do bem e do mal, os facínoras foragidos ou mortos. Há aqueles que perdoam sem pensar no próprio bem-estar, por boa índole, ou por cacoete cristão, talvez contraído por obediência contumaz ou pela promessa dos galardões celestiais - a inatingível cenoura suspensa diante de seus olhos. E, por fim, há aqueles que querem e podem retaliar, mas perdoam magnanimamente, talvez com uma pitada de desprezo. Ter a oportunidade para retaliar impunemente talvez já funcione como a própria desforra, não?

Que mérito há em fazer caridade sem ela representar algum tipo de sacrifício, se é feita com o dinheiro alheio, ainda mais quando o efeito colateral é o proselitismo religioso ou o político-partidário, no caso de esmolas estatais? A liberalidade com o dinheiro de outrem é fácil, principalmente quando temos nossos altos custos missionários pagos por ele. Mérito há em doar do próprio bolso. O generoso, como o herói, desfaz-se de algo que é seu e de que necessita, em prol de outros. Aristóteles já defendia a propriedade privada porque, entre outras razões, as pessoas somente podem ser generosas se têm algo para dar.

Não há mérito em ser casto quando não se é mais atormentado por hormônios sexuais. Muitos velhos que já aproveitaram sua juventude, agora enfastiados, meio amargurados pela morte cada vez mais próxima, ressentem-se da juventude, do sexo, da vida desfrutada inconsequentemente por seres imaturos de pele viçosa, cheios de energia e de paixões. O velho preconiza veementemente que cuidem do espírito, que não incorram nos erros que ele próprio cometeu. Ora, maior é o mérito do jovem bonito casado torturado pelos próprios hormônios, sem medo de represálias divinas, em terra estrangeira e sem testemunhas, assediado pelo belo sexo, e que mesmo assim mantém o contrato de monogamia com a esposa. Se a ama muito e não pensa em mais ninguém, o mérito diminui um pouco. Poderão me questionar: "não disseste que o demérito de uns não implica no mérito de outros?". Sim, mas são outros quinhentos quando a carne tiraniza... Enfim, se o sujeito é feio, não é assediado, tem medo do inferno, não é vítima dos próprios hormônios, não vejo muito mérito em sua castidade. Que mérito há no único homem de uma ilha não ter querelas com outros seres humanos? É evidente que a velhice suscita mil méritos, pelo cenário de decadência física e consequentes provações, pela tendência ao pessimismo e à casmurrice. Montaigne produzir aqueles profundos, deliciosos e otimistas ensaios sob as atrozes dores de parto de suas pedras nos rins aumenta, definitivamente, seu mérito em tê-los escrito.

Que mérito há em ser ateu quando se tem saúde e dinheiro? Não existe ateu em aviões caindo, dizem. Muito pelo contrário. Quando eu voltava do Japão, o avião sofreu uma violenta turbulência. Olhei para os lados e reparei nas expressões dos passageiros. Praticamente todos estavam de olhos fechados e balbuciavam orações. Fiquei com vontade de rir e minha esposa censurou-me com um empurrão, com medo de que eu gargalhasse. O voo normalizou e todos devem ter agradecido a Deus pela graça alcançada, porque certamente o avião teria caído se ninguém tivesse rezado. Eu, por meu turno, confio nas estatísticas. Voltando, o mérito em ser ateu pode ser menor, mas não confio tanto no juízo de quem perdeu a frieza de raciocínio, cultivada nos tempos em que pensava livre de ameaças e de medos, por temor da morte.

Logo após o jejum de quarenta dias e quarenta noites, superado pelo carioca Erikson Leif, que ficou comprovadamente 52 dias sem comer, Jesus foi tentado pelo demônio. Que mérito há em rejeitar os reinos terrestres que o diabo oferece quando se é o próprio cocriador de tudo o que existe e de tudo se pode dispor quando bem entender? O C. Mouro bem disse: "É como alguém querer subornar o filho do Bill Gates oferecendo-lhe uma cópia pirata do Windows 95".

Que mérito há em realizar profecias como "entrar em Jerusalém montado num jumentinho", quando é tão fácil roubar um para cumpri-las? Para aqueles "lírios do campo", difícil seria trabalhar para conquistar o próprio meio de transporte, isso sim. Ok, Jesus ordenou aos discípulos que, se o dono dos animais reclamasse, lhe dissessem que necessitava da jumenta e do jumentinho e que sem demora os devolveria.

Que mérito há em dar a vida pela humanidade sabendo que se ressuscitará no terceiro dia? O herói que dá a própria vida ou que a arrisca por outros que não conhece – sacrificar-se pelos familiares demanda menos heroísmo – sabe que a terá perdido irremediavelmente, com todos os encantos que pode proporcionar. Quantos não pulariam do alto de penhascos se soubessem que voltariam a viver depois de 36 horas? Creio que haveria parques de diversões “radicais” onde viciados em adrenalina morreriam em acidentes de avião para sentirem na pele toda a emoção do desastre. Esbaldar-se-iam em uma festa de arromba de lápide, chamada por exemplo de “Ressurrection Rave”, após letargias de 36 horas em sepulcros de luxo como o de José de Arimatéia, amigo de Jesus que lhe emprestou sua tumba com a condição de que a desocupasse em pouco tempo.

Ah, e que mérito há em ter seus erros resgatados por outrem?

Que mérito há em um deus onipotente criar todas as coisas? Deve ter-lhe custado menos que a tartaruga ganhar a corrida da lebre, na fábula de Esopo, dado menos trabalho do que um bezerro recém parido equilibrar-se sobre os cambitos. Além do mais, um ser perfeito não age senão do melhor modo possível, nunca se vê no dilema de escolher entre duas ou mais opções, não precisa de discernimento porque não escolhe, não tem livre-arbítrio; se não o possui, não tem mérito, não é inteligente, é uma engrenagem natural, é como uma pedra. Baal não era de pedra e, não obstante, era deus? Pensando bem, as palavras gravadas no tambor cilíndrico da base da cúpula da Basílica de São Pedro, retiradas de Mateus 16, 18, são bem verdadeiras se as considerarmos direcionadas para Javé: "Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam mean" - Tu és Pedro (pedra) e sobre esta pedra edificarei minha igreja.

No Gênesis, Javé parecia-se mais com um deus vivo. Até mesmo descansou no 7º dia... Na verdade, aquele era o primeiro dia em que o homem criava deus, e este era ainda mal acabado, recém saído do barro. Cometia erros e arrependia-se. De moral torta, afogava crianças em dilúvios, sua onisciência e onipresença não estavam plenas e ele precisava perguntar às criaturas o que faziam, descer de seu trono para ver de perto a torre construída em Babel, era ciumento, iracundo. Hoje, no sexto dia da criação, seus atributos presentes retroagiram e ele sempre foi um onipotente, onisciente, onipresente e bondoso deus cristão panteísta zen-budista, que salvará até mesmo os ateus malvados, porque não sabem o que fazem e portanto devem ser perdoados, como pediu Jesus enquanto estava pregado na cruz - pregado mas divinamente anestesiado, imagino.

Concluo este post com uma última pergunta retórica, sob a premissa, claro, de que somos regidos por um deus capaz de tomar decisões: Se devemos amar os inimigos, porque não há mérito em amar os que nos amam, que mérito há em salvar apenas os crentes bondosos? Qualquer deus é capaz disso. Mérito há em destinar ao paraíso ateus irônicos que se riem das sagradas histórias da carochinha contadas por aqui desde que passamos a ter medo da morte...

06 setembro 2013

Um aldrabão, 10 milhões de...

Em meu último post escrevi sobre João de Santo Cristo, o carpinteiro traficante que morreu antes de conseguir uma audiência com o ex-presidente Figueiredo. Este é sobre João de Deus, o não-médico de Abadiânia que faz não-cirurgias, tema da reportagem de capa da Veja Brasília da semana passada intitulada “João do céu e da terra”, ótima porque não deve ter incomodado os que creem no curandeiro, ao passo que dá informações das quais pessoas de bom senso necessitam para identificar um aldrabão.

Segundo lemos em seu site, "João de Deus é um homem nascido em família simples, que tem problemas como qualquer homem comum. Tem defeitos, limitações e é capaz de errar e sofrer como qualquer outro ser humano". Não tem visão de raio-X mas voa - sim, de avião, mas isto é algo que o medroso Chico Xavier não conseguia fazer.

João de Deus levou um tempo para achar um nicho de mercado. Começou prevendo chuvas, mas o Cacique Cobra Coral preferiu incorporar em Adelaide Scritori. Seu ponto inicial de atuação era Brasília, mas em Abadiânia os terrenos eram mais baratos - foram doados pelo prefeito. Lá ele montou seu centro difamatório do nome de Inácio de Loyola, santo que o teria queimado vivo por se dizer possuído por espíritos, e que pularia com médium e tudo em uma fogueira de São João, se hoje incorporasse de fato no curandeiro goiano.

Sua fama cresceu e atingiu o auge quando Oprah o visitou no ano passado. Como Thomaz Green Morton, o guru das estrelas dos anos 80, adora celebridades e as recebe na sua própria casa. Luís Roberto Barroso, Marconi Perillo, Xuxa e Giovanna Antonelli são as Baby Consuelo, Dina Sfat e os Tom Jobim de hoje.

O goiano afirma receber 32 entidades com poderes e personalidades distintos. De acordo com seu humor matinal deve dizer incorporar este ou aquele espírito. As almas usam seu corpo para operar e até mesmo para requebrar. O pediatra e professor de medicina da Universidade de Brasília Ícaro Batista, amigo do médium, disse que “Quando vem a Joana d’Arc, ele dá umas requebradas...”. Embora consigam operar e rebolar, após possuir seu corpo, não são capazes de falar sem sotaque seus arcaicos idiomas nativos e tampouco de dar informações úteis, passíveis de comprovação, sobre suas vidas.

Atendendo três vezes por semana, significativamente mais, portanto, que muitos médicos da rede pública de saúde, e tendo aberto seu consultório em 1976, João de Deus afirma que já atendeu 10 milhões de pessoas. Como Túlio Maravilha, deve contar os gols que fez no jardim de infância. Não se sabe quantas delas morreram da doença que as afligiu a ponto de se hospedarem em uma pousada de Abadiânia, cidade cuja população é apenas 0,17% do total de atendimentos do médium e que tem IDH semelhante ao do Gabão, em parte pela saúde precária, e de esperarem às vezes por dias atendimento ao lado de outros desesperados.

O médium recebe umas mil pessoas diariamente, das oito ao meio-dia e das quatorze às dezoito, o que dá pouco menos de 30 segundos por paciente. Todos ganham ao menos uma mão na cabeça e umas palavras mágicas diferenciadas, escolhidas caso a caso pelas entidades, e ninguém sai sem seu suplemento à base de maracujá, ou passiflora, para a coisa ficar mais científica, ao custo de R$ 50,00 o frasco. Apesar de o remédio ser o mesmo para todos, o princípio ativo é a energia espiritual calibrada especialmente para a enfermidade do paciente. No FAQ do site oficial enfatiza-se que "o suplemento é energizado espiritualmente somente para você, não apresentando benefícios se dados (sic) a outra pessoa". O poder curativo da energia de João de Deus é tanto que uma garrafa de água é vendida na Casa Dom Inácio de Loyola por R$ 1,00 enquanto a energizada sai por R$ 3,00. Os pacientes podem também tomar banho de cristal por R$ 20,00, comprar livros psicografados, camisas brancas e até alugar apartamentos durante o tratamento.

Mas João de Deus não precisa tocar no enfermo para curá-lo. Basta enviar por meio de familiares ou conhecidos que estejam indo para Abadiânia "sua foto e seus dados (nome completo, data de nascimento, endereço completo e, se desejar, o nome da enfermidade)" - palavras dos responsáveis pela Casa. Em alguns casos nem esta burocracia é necessária. Lemos na Veja Brasília: "o oncologista aposentado do Hospital de Base de Brasília Roger Queiroz conta que João de Deus o curou à distância enquanto ele estava em uma UTI da capital. O médium confirma a cura."

Após a consulta, os espíritos encaminham alguns dos doentes para o centro cirúrgico, recinto distinguível dos demais pela plaquinha na porta, e pode-se optar por uma cirurgia com corte ou por uma sem corte, ambas invisíveis e igualmente curativas, segundo o FAQ do site. A esmagadora maioria opta pela última, que dispensa toda aquela aldrabice de simular incisão passando o dedo sobre a área a ser operada, de aparentemente atravessar a pele, de fingir introduzir as mãos nas entranhas do doente e, esguichando sangue de animais de um balão escondido na mão, desfazer-se de fígados, corações de galinha e outras miudezas orgânicas, jamais submetidas a testes de DNA, certamente. Além disso, nesta modalidade o não-médico não se sujeita à câmera lenta de filmagens feitas por céticos infiltrados ou por voluntários descontentes com mais sede de vingança do que direitos trabalhistas. E, afinal de contas, estas prestidigitações sangrentas são para médiuns iniciantes que querem impressionar. De fato, no FAQ do site lemos: "O tratamento na Casa de Dom Inácio é espiritual. As cirurgias, no geral, são sempre invisíveis (sem corte), e não há diferença nenhuma entre as cirurgias visíveis e invisíveis." Se você gosta de espetáculo e pede por uma cirurgia visível e depois, desapontado, não vê quaisquer marcas, é porque a cirurgia visível é idêntica à invisível.

As cirurgias são cicatrizadas com ajuda de pontos invisíveis, os quais devem ser retirados com orações, conforme lemos no FAQ do site: "Na sétima noite após a intervenção (...) deite-se antes da meia-noite com roupas brancas e não se levante antes das cinco horas da manhã. Ao deitar-se, coloque um copo de água fluidificada ao lado de sua cama e peça a Dom Inácio de Loyola que remova seus pontos espirituais e complete sua intervenção." Para quem não sabe, água fluidificada "é aquela em que fluidos medicamentosos são adicionados à água por espíritos desencarnados que, durante as sessões de fluidoterapia, fluidificam a água". Após tudo isso, o paciente morre, se seu caso for mortal, ou continua vivendo, se seu problema não for tão grave.

Segundo lemos no site, "Se você está seguindo alguma prescrição médica, a Casa aconselha que você continue com o tratamento e a medicação indicados pelo médico". Só para garantir, claro. Mas os louros pelas curas serão de João de Deus, que é do raro tipo "faça o que eu digo e faça o que eu faço". Coerente, segue aquilo que prescreve aos seus pacientes. Não descuida da medicina dos vivos. O médium sofreu obstruções na artéria do coração e tratou-se com o cardiologista da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, Roberto Kalil, que lhe implantou seis stents - reais, não imaginários.

Desesperados do mundo inteiro têm vindo parar em Abadiânia. Lemos na Veja Brasília que Stacie Mythen é terapeuta bioenergética em Seattle, nos Estados Unidos. Stacie não tinha problemas de saúde. Sentia medo. Ainda assim, fez questão de ser submetida a uma cirurgia espiritual com corte. A entidade fez uma cisão no ombro direito até o osso. Ela relata não ter sofrido com dor. “É uma experiência tão profunda que eu só posso comparar ao parto natural”, diz. Sim, parto natural é indolor. O australiano Walter Klocker não conseguia um relacionamento duradouro porque era ciumento e possessivo. Havia tentado psicanálise, todos os tipos de medicina alternativa, terapia cognitiva e rituais xamanísticos, mas somente na Casa Dom Inácio de Loyola encontrou paz e resolveu seu problema ao decidir não se envolver mais com ninguém durante uns dois anos, período em que se enclausurará em uma comunidade de monges budistas, o que sempre dá certo em filmes americanos.

João de Deus, como Houdini, é mestre em safar-se de situações perigosas. Abusou sexualmente de uma moça de 16 anos em um atendimento durante o qual exigiu que o pai ficasse de costas, mas a juíza da comarca de Abadiânia, Rosângela Rodrigues Santos, o absolveu sob o seguinte argumento: “Com efeito, a conduta do acusado, ao afastar-se dos princípios éticos e da caridade que norteiam os ensinamentos de Allan Kardec, foi imoral, mas não caracteriza a violação sexual mediante fraude, por ausência de suas principais elementares”. Poucos sabem que a lei brasileira cita explicitamente os princípios de Allan Kardec como norteadores da ética e da caridade. Segundo pessoas conhecidas que já foram a Abadiânia, alguns processos por abuso sexual correm em segredo de justiça. João de Deus "escravizou" a bela alcoólatra Clarissa Vanazzi por sessenta meses pagando-lhe apenas R$ 29,00 por semana, como se fosse uma médica cubana. Oficialmente, no entanto, deu-lhe uma esmeralda de sete mil reais e, em contrapartida, ela serviu cinco anos gratuitamente na Casa Dom Inácio de Loyola, que fatura 7,2 milhões de reais ao ano e representa a metade do PIB de Abadiânia. Ela jamais prestou queixa, claro. Hoje é dona de uma rentável joalheria e, feliz da vida, credita seu sucesso a João de Deus.

30 agosto 2013

Jackson Pollock é melhor que Renato Russo

Ontem, durante o almoço, não resisti à expressão de "pidão" do Caco, o peludo e brincalhão shih tzu de meus filhos, e, após minha esposa deixar a mesa, discretamente dei-lhe umas tiras de gordura de picanha, as quais engoliu avidamente sem nem mesmo mastigar. Durou pouco a felicidade do animalzinho, que até então só provara serragem prensada, a tal ração. Não pôde conter a pressão do desarranjo intestinal e emporcalhou toda a área de serviço.

"Maldito animal de estômago delicado! Seria incapaz de sobreviver na floresta, de caçar, de competir com lobos", pensei quando vi a pintura marrom ao estilo de Jackson Pollock - um pouco mais criativa, na verdade - espalhada pela cerâmica. A empregada lavou o chão e pegou com a vizinha uns jornais para forrá-lo. À noite fui ver como estava o Caco. Chamou-me a atenção, no chão, a carranca feia de Renato Russo ineditamente formada por letrinhas, na capa do Correio Braziliense, com "z" mesmo. Era o texto completo da música Faroeste Caboclo, um épico candango, que está para Brasília como a Odisseia está para a Atenas antiga. A reportagem de capa era sobre o filme de mesmo nome que havia levado meio milhão de pessoas aos cinemas brasileiros. Apesar de já ter ouvido a música dezenas de vezes - contra a vontade, é claro -, nunca havia prestado atenção na letra. Resolvi então ler a obra prima de uma das melhores bandas de rock da história do país mais criativo e musical do mundo, o Brasil.

O título "Faroeste Caboclo" sugere que algum tiroteio acontecerá em um ambiente caipira, roceiro, sertanejo. Afinal é isso que quer dizer "caboclo", ou que o faroeste é mestiço de branco com índio. Não. Faroeste Caboclo se passa na capital da República. Vamos à história (link para a letra completa):

O destemido João de Santo Cristo era uma criança cheia de ódio no coração, desde que o pai fora morto por um soldado, que roubava doações de velhinhas a igrejas, era promíscuo sexual, aterrorizava a região onde morava, e que aos quinze anos foi enviado a um reformatório que lhe encheu de terror. Cansado do marasmo na fazenda, apesar da vida agitada que levava, e após um período filosófico em que tentou achar respostas para a discriminação que sofria, e em que tentou entender como a vida funcionava, mesmo não sendo biólogo, e também porque queria sair para ver o mar e as coisas que ele via na televisão, juntou dinheiro e foi para Salvador, onde encontrou, a tomar cafezinho, um improvável boiadeiro que lhe sugeriu ir a Brasília e lhe deu ou vendeu a passagem de ônibus.

João de Santo Cristo gostou muito de Brasília e quando chegou aqui resolveu trabalhar como carpinteiro, para a referência a Jesus Cristo ficar mais explícita. Sexta-feira gastava todo o dinheiro na zona, onde descobriu que um certo Pablo, traficante cucaracho, era seu primo. João trabalhava até não poder mais, contudo o dinheiro não era suficiente para ele se alimentar, quem sabe porque gastava tudo na zona. Às sete ligava o noticiário e ficava revoltado com as promessas de um ministro, provavelmente do trabalho, de que iria ajudar as pessoas a ganharem mais. Cansado, João resolveu plantar maconha.

João ficou rico e acabou com todos os traficantes da região, por dumping ou mandando matar. De repente, com a velocidade de um raio, sob a má influência dos boyzinhos da cidade ele começou a roubar, algo que não fazia desde a infância, quando roubava por influência do ódio que lhe dera Jesus, um filhinho de papai dono do mundo. O traficante poderoso que havia acabado com a concorrência foi preso no primeiro roubo e trancafiado na prisão. Na Papuda ele apanhou e foi estuprado.

Uma vez solto, abandonou o lucrativo tráfico de drogas que lhe deixara rico e tornou-se um bandido destemido e temido no Distrito Federal. Não tinha medo nem dos playboys que lhe influenciaram a roubar nem de generais. Nesta nova vida ele se apaixonou pela linda Maria Lúcia e arrependeu-se de seus pecados. Como ela era uma menina decente, de família, ele largou a vida de bandido destemido e voltou a ser carpinteiro, porque sempre havia vagas de trabalho na construção civil da nova capital.

O tempo passou, mas a fama de bandido e de traficante não, e um dia um senhor rico fez a João a proposta de explodir uma banca de jornal e de vender drogas em um colégio, provavelmente o Elefante Branco. João recusou a oferta de trabalho e mandou o rico malvado sair de sua casa, gritando para ele não brincar com um Peixes de ascendente Escorpião, apesar de o velho não parecer ter ido à sua casa para brincar e de, segundo os horóscopos, dois signos de elemento água acentuarem a base sensível, emotiva, interiorizada, introvertida, subjetiva da pessoa. Se fosse Hitler, teria gritado "não brinque com um Touro com ascendente em Libra". O velho, com ódio no olhar, disse "você perdeu sua vida, meu irmão".

O senhor estava apenas ameaçando, porque, do jeito que apareceu, sumiu da história, e aquele que o mataria seria Jeremias, com o perdão pelo duplo eco. Mas as palavras "você perdeu a sua vida meu irmão" entraram no coração de João e ele parou de trabalhar para se embebedar. No meio da bebedeira descobriu que sua vaga de carpinteiro havia sido preenchida, mas estava bêbado e não deve ter se importado muito. Apesar de Maria Lúcia ser a menina decente que o fizera se arrepender de seus pecados, e por quem valeria a pena continuar em uma vida correta, João falou com seu primo Pablo e retornou ao tráfico de drogas, afinal agora só havia uma vaga de carpinteiro na nova capital, sempre em construção, e ele a perdera.

Enquanto revendia em Planaltina a droga que chegava da Bolívia, João parou de ir para a casa e de ver Maria Lúcia, talvez porque ela não aprovasse esse estilo de vida ou porque simplesmente não a tinha procurado mais, por no mínimo nove meses. Maria Lúcia, entretanto, apesar de correta, casou e teve filho com um traficante de renome chamado Jeremias, que havia decidido matar João de Santo Cristo, provavelmente para controlar seus pontos de distribuição de drogas. Jeremias desvirginava mocinhas inocentes, como João quando estava no Nordeste, e dizia que era crente mas não sabia rezar. Em compensação, não roubava doações de velhinhas à Igreja, como João, e era bom organizador de "rockonhas".

Santo Cristo recebeu de Pablo um rifle e decidiu esperar Jeremias desafiá-lo antes de usar a arma. Contrariando seus planos, chamou Jeremias para um duelo quando descobriu, em um belo dia em que se lembrou de que havia algures uma mulher que era o amor de sua vida, que Maria Lúcia estava casada com Jeremias e ainda por cima tinha um filho com ele. A notícia do duelo se espalhou e a polícia permitiu que a população, jornalistas, a TV e sorveteiros o acompanhassem ao vivo - atrás dos cordões de isolamento, é certo. Jeremias, mesmo sabendo que a cidade toda assistia ao duelo, aproveitou o momento em que Santo Cristo ficara de costas e atirou nele. Apesar de ter dito que iria matar Maria Lúcia também, por ser uma menina falsa que não era como a Penélope de Ulisses, que esperara vinte anos o regresso do marido sem entregar-se aos pretendentes que acamparam em seu palácio, João provavelmente lhe entregou o rifle logo que chegou na Ceilândia, local do duelo, porque após ser baleado pelas costas, o sol cegou seus olhos e ele, por ver melhor cego, reconheceu Maria Lúcia, que lhe entregou o rifle, uma Winchester 22.

João deu cinco tiros em Jeremias. Maria Lúcia, ao ver o homem que a abandonara matar o pai de seu filho, arrependeu-se e, sabe-se lá como, morreu junto com João - seu protetor, segundo um tal Renato Russo. Provavelmente morreu de arrependimento. O povo chamou Santo Cristo de santo porque achou que ele sabia morrer, afinal havia morrido direitinho - constataram-no tomado-lhe o pulso.

E João não conseguiu o que queria quando veio para Brasília. Numa espetacular reviravolta teleológica, descobrimos que ele tinha um motivo oculto até mesmo do narrador onisciente, que explana no começo da história os motivos pelos quais João deixara o Nordeste. Na verdade, ele queria admoestar o Figueiredo, presidente da República, a ajudar o povo brasileiro, que só sofre. Nunca havia sequer marcado uma audiência com um assessor de um assessor do general, para lhe fazer tal eloquente e originalíssimo pedido. Porque estava muito ocupado traficando, roubando, matando, etc.

E este é o resumo em prosa da maior obra literária que esta cidade já viu.

Após ler o texto e rir da baixa qualidade daquela imundice, pus novamente a folha de jornal no cantinho da área de serviço em que o pobre cãozinho estava encolhido e amuado. De manhã o texto épico já não podia ser lido. Estava pintado de marrom. A capa do jornal estava bela como uma pintura de Pollock...

O Caco melhorou e eu prometi a mim mesmo nunca mais lhe dar gordura de picanha. Ao menos até ver a cara feia de Renato Russo ou alguma de suas letras medíocres impressas no jornal.

29 agosto 2013

Eduardo Sabóia, um ser humano

Eduardo Sabóia foi o diplomata que decidiu retirar o senador boliviano que estava asilado na embaixada brasileira na Bolívia e trazê-lo para o Brasil. Procurando justificar para a elite petista dirigente sua ação, ele comparou a situação do asilado na embaixada à dos presos políticos no Brasil. A presidente Dilma ficou indignada com esta comparação e mostrou mais uma vez o seu destempero ao abominá-la com os olhos marejados. Defendo, entretanto, que Eduardo Sabóia foi um ser humano, pois procurou agir de acordo com a sua consciência.

De acordo com os jornais, o tal senador obteve asilo no Brasil e de acordo com um tratado de Caracas, entre países latino-americanos, quando isto ocorre, deve ser concedido o salvo conduto para que a pessoa deixe o país. O governo indígena esquerdista boliviano desrespeitou o tratado e o Itamaraty se omitiu na questão para não contrariá-lo. De fato, de acordo com o jurista Miguel Reale Jr, até mesmo o abominável Pinochet concedia salvo conduto a asilados políticos permitindo a sua saída do Chile.

Esta situação escandalosa para Dilma se aproxima da situação do sujeito do Wikileaks que está sendo processado por estupro na Suécia, se não me engano, e para escapar de uma extradição se refugiou na embaixada do Peru. A Grã-Bretanha se recusa a conceder o salvo conduto. O tal senador é acusado de corrupção e alega perseguição política assim como o fundador do Wikileaks. As esquerdas consideram absurda a atuação da Grã-Bretanha enquanto aceitam a postura da Bolívia, afinal não é um deles.

Talvez o mais importante desta questão seja a discussão em torno da ação do Eduardo Sabóia. Recentemente, tivemos um filme excelente sobre Hannah Arendt onde é discutida a sua tese da banalidade do mal. Uma das questões centrais do filme foi a sua avaliação de Eichmann, o sujeito que foi sequestrado e condenado à morte por Israel, que estava longe de ser um psicopata, que foi responsável por coordenar os trens que encaminhavam os judeus para os campos de concentração. Era pouco mais que um burocrata, uma pessoa essencialmente medíocre, buscando aceitação social, ascensão profissional e muito provavelmente seria considerado normal em uma avaliação psiquiátrica. Apesar disso, fez parte da engrenagem burocrática que matou milhões.

O Eduardo Sabóia fez justamente aquilo que Eichmann não fez. Ele questionou as ordens recebidas de acordo com a sua consciência e a despeito das pressões políticas e do que provavelmente irá se suceder com a sua carreira no Itamaraty optou por agir de uma forma humana. Sua ação foi condenada pela própria presidente da República, a chefe do Executivo. Sua carreira no Itamaraty provavelmente está terminada. Ele entrou na lista dos inimigos do partido que está no poder. Talvez ele não seja um bom burocrata mas acredito que seja um ser humano no sentido dado por Hannah Arendt.

28 agosto 2013

Hemorroidas de ouro

Conforme lemos na Bíblia, nos capítulos 5 e 6 de I Samuel, os filisteus apoderaram-se da Arca da Aliança e meteram-na no templo de Dagon, colocando-a junto do ídolo. No dia seguinte viram-no estendido com o rosto por terra diante da Arca. Ergueram-no e na manhã seguinte estava novamente deitado, mas sua cabeça e suas mãos estavam desprendidas e jaziam perto do limiar do templo. E o fogo do Senhor desceu sobre a população e queimou-lhes... melhor dizendo, feriu por sete meses com hemorroidas os habitantes de cinco cidades filisteias pelas quais a Arca passou, desde bebês de colo aos mais idosos, e muitos acabaram morrendo. Depois que as fileiras inimigas sofreram este devastador ataque pela retaguarda, os adivinhos e sacerdotes de Dagon apelaram para a magia simpática e aconselharam os príncipes a devolver aos hebreus a Arca e que pusessem em seu interior, guardados em um cofre, ratos e hemorroidas de ouro como ofertas expiatórias. Os líderes filisteus assim o fizeram e a ira de Javé não se abateu mais sobre a população.

A intuição dos adivinhos e sacerdotes do pobre deus filisteu esquartejado serenou Javé e inspirou em Israel a formação de um departamento especializado de expiadores de pecados em uma inédita modalidade de holocausto em que não havia sangramento de cordeiros em altares, ainda que os sangramentos fossem mantidos. Aqueles que não encontravam trabalho melhor eram recrutados para ingerirem pouco líquido, pouca fibra e passarem o dia sentados. Se nada disso adiantava, os iracundos levitas conduziam-nos para trás da cortina de linho do Santo dos Santos para ajudá-los a produzir entre as bochechas inferiores a odiosa e dolente couve-flor entumecida. Quando atingia-se o objetivo, os funcionários sentavam no gesso úmido, e este era, definitivamente, o momento mais aprazível da profissão. Seco o molde, os levitas enchiam de ouro líquido o côncavo no cal endurecido.

Lá do alto Javé seguia todo processo murmurando "assim, assim, isso...". Quando levavam as hemorroidas de ouro ao templo, dentro da Arca da Aliança, o criador do universo aguardava as portas se fecharem, transportava para o céu as pedrinhas, brilhantes como estrelas, e as contemplava, deleitando-se com a agonia que representavam. "Serão símbolo de sofrimento e também de expiação, estarão nos altares do mundo inteiro, em Roma haverá uma hemorroida descomunal esculpida em mármore de Carrara por Vincenzo Gemito e em Assis os afrescos de Giotto di Bondone lembrarão à cristandade o supremo sacrifício do Messias, morto empalado", pensou um dia. Mil anos depois, precisamente no ano 70 a.C., enquanto assistia de camarote à divertida morte de Espártaco na cruz, lembrou-se de que ele próprio é que sofreria lá no Gólgota toda aquela agonia que planejara, mudou de ideia e conduziu os acontecimentos de modo que fosse crucificado pelos romanos 103 anos depois.

Apesar de Jesus ter de fato morrido na cruz, o linguista alemão Alois Walde defendia que na Roma antiga o termo "crucifixão" também podia se referir a empalamento. Isto deriva do fato de a cruz ser formada pelo esteio e pelo patíbulo, a trave horizontal que o sentenciado carregava, e de os romanos usarem o primeiro termo para designar ambos empalamento e crucifixão, distinguíveis apenas no contexto dos escritos. Além disso, a palavra grega Staurós (σταυρός), traduzida na Bíblia como "cruz", significava originalmente estaca ou poste. Daí a confusão que muitos fazem em torno ao modo como o Messias morreu. Eles também não consideram profecia a seguinte passagem nos Salmos: "Traspassaram minhas mãos e meus pés".

Seiscentos anos depois Javé decidiu mitigar a agonia daqueles que seguiram seu filho (ele mesmo) - os cristãos -, e lhes enviou São Fiacre, hoje o padroeiro de quem sofre de hemorroidas. Este irlandês padecia da desagradável enfermidade, chamada posteriormente na alta Idade Média de "Mal de São Fiacre", e num belo dia sentou-se em uma pedra e foi milagrosamente curado. Hoje peregrinos vão à igreja que leva o nome do santo, na Bretanha, e imploram por uma cura enquanto assistem à missa inteira ajoelhados, por fé e também porque as doações não permitiram ainda acolchoar os bancos. Quando o santo não os cura apelam para a cirurgia e depois agradecem a Deus por tanto amá-los...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...