Em meu último post escrevi sobre João de Santo Cristo, o carpinteiro traficante que morreu antes de conseguir uma audiência com o ex-presidente Figueiredo. Este é sobre João de Deus, o não-médico de Abadiânia que faz não-cirurgias, tema da reportagem de capa da Veja Brasília da semana passada intitulada “João do céu e da terra”, ótima porque não deve ter incomodado os que creem no curandeiro, ao passo que dá informações das quais pessoas de bom senso necessitam para identificar um aldrabão.
Segundo lemos em seu site, "João de Deus é um homem nascido em família simples, que tem problemas como qualquer homem comum. Tem defeitos, limitações e é capaz de errar e sofrer como qualquer outro ser humano". Não tem visão de raio-X mas voa - sim, de avião, mas isto é algo que o medroso Chico Xavier não conseguia fazer.
João de Deus levou um tempo para achar um nicho de mercado. Começou prevendo chuvas, mas o Cacique Cobra Coral preferiu incorporar em Adelaide Scritori. Seu ponto inicial de atuação era Brasília, mas em Abadiânia os terrenos eram mais baratos - foram doados pelo prefeito. Lá ele montou seu centro difamatório do nome de Inácio de Loyola, santo que o teria queimado vivo por se dizer possuído por espíritos, e que pularia com médium e tudo em uma fogueira de São João, se hoje incorporasse de fato no curandeiro goiano.
Sua fama cresceu e atingiu o auge quando Oprah o visitou no ano passado. Como Thomaz Green Morton, o guru das estrelas dos anos 80, adora celebridades e as recebe na sua própria casa. Luís Roberto Barroso, Marconi Perillo, Xuxa e Giovanna Antonelli são as Baby Consuelo, Dina Sfat e os Tom Jobim de hoje.
O goiano afirma receber 32 entidades com poderes e personalidades distintos. De acordo com seu humor matinal deve dizer incorporar este ou aquele espírito. As almas usam seu corpo para operar e até mesmo para requebrar. O pediatra e professor de medicina da Universidade de Brasília Ícaro Batista, amigo do médium, disse que “Quando vem a Joana d’Arc, ele dá umas requebradas...”. Embora consigam operar e rebolar, após possuir seu corpo, não são capazes de falar sem sotaque seus arcaicos idiomas nativos e tampouco de dar informações úteis, passíveis de comprovação, sobre suas vidas.
Atendendo três vezes por semana, significativamente mais, portanto, que muitos médicos da rede pública de saúde, e tendo aberto seu consultório em 1976, João de Deus afirma que já atendeu 10 milhões de pessoas. Como Túlio Maravilha, deve contar os gols que fez no jardim de infância. Não se sabe quantas delas morreram da doença que as afligiu a ponto de se hospedarem em uma pousada de Abadiânia, cidade cuja população é apenas 0,17% do total de atendimentos do médium e que tem IDH semelhante ao do Gabão, em parte pela saúde precária, e de esperarem às vezes por dias atendimento ao lado de outros desesperados.
O médium recebe umas mil pessoas diariamente, das oito ao meio-dia e das quatorze às dezoito, o que dá pouco menos de 30 segundos por paciente. Todos ganham ao menos uma mão na cabeça e umas palavras mágicas diferenciadas, escolhidas caso a caso pelas entidades, e ninguém sai sem seu suplemento à base de maracujá, ou passiflora, para a coisa ficar mais científica, ao custo de R$ 50,00 o frasco. Apesar de o remédio ser o mesmo para todos, o princípio ativo é a energia espiritual calibrada especialmente para a enfermidade do paciente. No FAQ do site oficial enfatiza-se que "o suplemento é energizado espiritualmente somente para você, não apresentando benefícios se dados (sic) a outra pessoa". O poder curativo da energia de João de Deus é tanto que uma garrafa de água é vendida na Casa Dom Inácio de Loyola por R$ 1,00 enquanto a energizada sai por R$ 3,00. Os pacientes podem também tomar banho de cristal por R$ 20,00, comprar livros psicografados, camisas brancas e até alugar apartamentos durante o tratamento.
Mas João de Deus não precisa tocar no enfermo para curá-lo. Basta enviar por meio de familiares ou conhecidos que estejam indo para Abadiânia "sua foto e seus dados (nome completo, data de nascimento, endereço completo e, se desejar, o nome da enfermidade)" - palavras dos responsáveis pela Casa. Em alguns casos nem esta burocracia é necessária. Lemos na Veja Brasília: "o oncologista aposentado do Hospital de Base de Brasília Roger Queiroz conta que João de Deus o curou à distância enquanto ele estava em uma UTI da capital. O médium confirma a cura."
Após a consulta, os espíritos encaminham alguns dos doentes para o centro cirúrgico, recinto distinguível dos demais pela plaquinha na porta, e pode-se optar por uma cirurgia com corte ou por uma sem corte, ambas invisíveis e igualmente curativas, segundo o FAQ do site. A esmagadora maioria opta pela última, que dispensa toda aquela aldrabice de simular incisão passando o dedo sobre a área a ser operada, de aparentemente atravessar a pele, de fingir introduzir as mãos nas entranhas do doente e, esguichando sangue de animais de um balão escondido na mão, desfazer-se de fígados, corações de galinha e outras miudezas orgânicas, jamais submetidas a testes de DNA, certamente. Além disso, nesta modalidade o não-médico não se sujeita à câmera lenta de filmagens feitas por céticos infiltrados ou por voluntários descontentes com mais sede de vingança do que direitos trabalhistas. E, afinal de contas, estas prestidigitações sangrentas são para médiuns iniciantes que querem impressionar. De fato, no FAQ do site lemos: "O tratamento na Casa de Dom Inácio é espiritual. As cirurgias, no geral, são sempre invisíveis (sem corte), e não há diferença nenhuma entre as cirurgias visíveis e invisíveis." Se você gosta de espetáculo e pede por uma cirurgia visível e depois, desapontado, não vê quaisquer marcas, é porque a cirurgia visível é idêntica à invisível.
As cirurgias são cicatrizadas com ajuda de pontos invisíveis, os quais devem ser retirados com orações, conforme lemos no FAQ do site: "Na sétima noite após a intervenção (...) deite-se antes da meia-noite com roupas brancas e não se levante antes das cinco horas da manhã. Ao deitar-se, coloque um copo de água fluidificada ao lado de sua cama e peça a Dom Inácio de Loyola que remova seus pontos espirituais e complete sua intervenção." Para quem não sabe, água fluidificada "é aquela em que fluidos medicamentosos são adicionados à água por espíritos desencarnados que, durante as sessões de fluidoterapia, fluidificam a água". Após tudo isso, o paciente morre, se seu caso for mortal, ou continua vivendo, se seu problema não for tão grave.
Segundo lemos no site, "Se você está seguindo alguma prescrição médica, a Casa aconselha que você continue com o tratamento e a medicação indicados pelo médico". Só para garantir, claro. Mas os louros pelas curas serão de João de Deus, que é do raro tipo "faça o que eu digo e faça o que eu faço". Coerente, segue aquilo que prescreve aos seus pacientes. Não descuida da medicina dos vivos. O médium sofreu obstruções na artéria do coração e tratou-se com o cardiologista da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, Roberto Kalil, que lhe implantou seis stents - reais, não imaginários.
Desesperados do mundo inteiro têm vindo parar em Abadiânia. Lemos na Veja Brasília que Stacie Mythen é terapeuta bioenergética em Seattle, nos Estados Unidos. Stacie não tinha problemas de saúde. Sentia medo. Ainda assim, fez questão de ser submetida a uma cirurgia espiritual com corte. A entidade fez uma cisão no ombro direito até o osso. Ela relata não ter sofrido com dor. “É uma experiência tão profunda que eu só posso comparar ao parto natural”, diz. Sim, parto natural é indolor. O australiano Walter Klocker não conseguia um relacionamento duradouro porque era ciumento e possessivo. Havia tentado psicanálise, todos os tipos de medicina alternativa, terapia cognitiva e rituais xamanísticos, mas somente na Casa Dom Inácio de Loyola encontrou paz e resolveu seu problema ao decidir não se envolver mais com ninguém durante uns dois anos, período em que se enclausurará em uma comunidade de monges budistas, o que sempre dá certo em filmes americanos.
João de Deus, como Houdini, é mestre em safar-se de situações perigosas. Abusou sexualmente de uma moça de 16 anos em um atendimento durante o qual exigiu que o pai ficasse de costas, mas a juíza da comarca de Abadiânia, Rosângela Rodrigues Santos, o absolveu sob o seguinte argumento: “Com efeito, a conduta do acusado, ao afastar-se dos princípios éticos e da caridade que norteiam os ensinamentos de Allan Kardec, foi imoral, mas não caracteriza a violação sexual mediante fraude, por ausência de suas principais elementares”. Poucos sabem que a lei brasileira cita explicitamente os princípios de Allan Kardec como norteadores da ética e da caridade. Segundo pessoas conhecidas que já foram a Abadiânia, alguns processos por abuso sexual correm em segredo de justiça. João de Deus "escravizou" a bela alcoólatra Clarissa Vanazzi por sessenta meses pagando-lhe apenas R$ 29,00 por semana, como se fosse uma médica cubana. Oficialmente, no entanto, deu-lhe uma esmeralda de sete mil reais e, em contrapartida, ela serviu cinco anos gratuitamente na Casa Dom Inácio de Loyola, que fatura 7,2 milhões de reais ao ano e representa a metade do PIB de Abadiânia. Ela jamais prestou queixa, claro. Hoje é dona de uma rentável joalheria e, feliz da vida, credita seu sucesso a João de Deus.
Mostrando postagens com marcador Veja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Veja. Mostrar todas as postagens
06 setembro 2013
17 dezembro 2012
Apocalypse Simulator Release 2012
Lemos na última Veja que uma em cada dez pessoas acredita que o mundo acabará em 2012, segundo pesquisa Ipsos Global Public Affairs, em 21 países.
Perdi uma boa oportunidade de enriquecer licitamente. Abordando transeuntes aqui e no exterior, não teria sido difícil descobrir alguns dos 700 milhões que creem no tal Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa. Se eu abordasse 500 chegaria provavelmente a 50 crentes. Se dentre estes um único acedesse a me vender suas propriedades pela metade do preço de mercado, recebendo no ato o pagamento mas delas mantendo o usufruto até 21 de dezembro, quando então a posse passaria para mim, aí eu teria feito um grande investimento. No dia 22 de dezembro eu possuiria, por exemplo, um imóvel de 1 milhão que me teria custado 500 mil. O crente apocalíptico, embora pobre, estaria vivo, a contemplar pássaros, a natureza, na presença de familiares e amigos – quer prêmio maior? No caso de acabar o mundo, teve alguns meses para dissipar uma pequena fortuna, sem sair de seu lar, sem perder o aluguel de suas propriedades.
Na prática, contudo, seria assaz difícil encontrar alguém tão parvo. Muitos veados chapados devem ter vendido suas propriedades e se mudado para a Chapada dos Veadeiros, mas quantos simplesmente as abandonaram ou distribuíram os dividendos obtidos na venda? Aposto que nenhum. Schopenhauer dixit : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.” Numa fábula de Esopo, enquanto o navio afunda, um rico reza para Atena e lhe promete mil oferendas caso se salve. Um náufrago adverte: “Convoca Atena e também teus braços”. No fundo, mesmo os fanáticos creem sabendo que podem estar errados, senão não creriam, saberiam. Senão não seriam tão truculentos com a descrença alheia, posto que saberiam ou teriam plena convicção de que indizíveis tormentos os aguardariam na outra vida. Não creio que o céu seja azul, que as árvores sejam verdes. Sei que são.
Não há uma crença mas uma atração e um desejo de Apocalipse. Esperá-lo é, de certo modo, vivenciá-lo. Será quando o vizinho que seguramente enriqueceu roubando, porque sou superior a ele e ainda assim mais pobre, pagará seus pecados, será quando todas as casas ricas serão destruídas junto com meu apartamento de dois quartos, quando não precisarei mais me olhar no espelho, trabalhar e competir para sobreviver. É uma atração suicida que também demanda destruição, típica de ressentidos, como esses losers que abrem fogo contra inocentes em escolas. Não é à toa que o que dá prazer para gente desse tipo é imaginar - amiúde com uma ajudinha de Hollywood - o Empire State e a Torre Eiffel sendo destruídos, como gigantescas estátuas de Buda escavadas na rocha virando farinha sob os pés encardidos dos Talibãs. Não tem graça imaginar africanos famintos sendo arrastados com suas malocas por ondas de centenas de metros de altura. Ora, formigas morrem todo dia. Qual a atração nisso?
Qualquer coisa é motivo para se vaticinar o fim do mundo. Efeito Estufa, Guerra Atômica, números decimais cheios de zeros: o ano 1000, por exemplo. O belo número cheio de bolinhas perde completamente a importância quando pensamos que o sistema poderia ser duodecimal e não decimal. A escala básica seria: 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 (x) (y) 10 - o "10" seria uma dúzia. “X” e “Y” seriam signos originais, como os números de 1 a 9. O "20" seria a grafia para duas dúzias. O ano 1000 duodecimal aconteceria no 1728 decimal, um anozinho como qualquer outro; nada, digamos, cabalístico. O universo não está nem aí para nossas convenções. Não tem sequer consciência. Mas é claro que as forças do destino usam a convenção humana para estabelecer eventos marcantes, principalmente os futuros.
Sempre foi fascinante o caos iminente pregado por profetas ensandecidos, que, alheios à lógica dos homens estão portanto mais próximos da lógica de Deus, segundo o sapientíssimo senso comum. Como nas montanhas-russas, que simulam situações limite, de quase morte, ou em filmes de serial killers, quando, na pele da vítima mas na segurança de nossas poltronas sentimos a morte se aproximar sabendo que terminaremos o filme vivos, de igual modo os crentes no fim do mundo se reúnem em fazendas, como se adentrassem uma Arca de Noé, para aguardar a grande destruição que jamais virá, fruem de toda preparação, das preliminares que não redundarão em orgasmos, dão as mãos, rezam, têm pesadelos, abraçam-se e... como em todas as vezes anteriores, veem amanhecer o Day After, idêntico ao Day Before, e comemoram o milagre: “Nossas orações foram atendidas! Deus cancelou nada mais nada menos do que o Fim do Mundo por conta de nossas poderosas orações!” E retornam felizes da vida para as propriedades de que jamais se desfariam.
E há aqueles que dão cabo da própria vida, quase sempre em grupo, pouco antes do fim anunciado. Estes são meros suicidas que desejam entrar para a glória da história por meio de uma nota de rodapé em algum jornal, como os emos que pulavam do alto do Shopping Pátio Brasil, ou muito estultos por perderem o grandioso espetáculo cinematográfico apocalíptico, durante o qual poderiam facilmente, para evitarem a terrível dor da submersão em lava, meter uma bala de 38 na cabecinha oca...
Perdi uma boa oportunidade de enriquecer licitamente. Abordando transeuntes aqui e no exterior, não teria sido difícil descobrir alguns dos 700 milhões que creem no tal Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa. Se eu abordasse 500 chegaria provavelmente a 50 crentes. Se dentre estes um único acedesse a me vender suas propriedades pela metade do preço de mercado, recebendo no ato o pagamento mas delas mantendo o usufruto até 21 de dezembro, quando então a posse passaria para mim, aí eu teria feito um grande investimento. No dia 22 de dezembro eu possuiria, por exemplo, um imóvel de 1 milhão que me teria custado 500 mil. O crente apocalíptico, embora pobre, estaria vivo, a contemplar pássaros, a natureza, na presença de familiares e amigos – quer prêmio maior? No caso de acabar o mundo, teve alguns meses para dissipar uma pequena fortuna, sem sair de seu lar, sem perder o aluguel de suas propriedades.
Na prática, contudo, seria assaz difícil encontrar alguém tão parvo. Muitos veados chapados devem ter vendido suas propriedades e se mudado para a Chapada dos Veadeiros, mas quantos simplesmente as abandonaram ou distribuíram os dividendos obtidos na venda? Aposto que nenhum. Schopenhauer dixit : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.” Numa fábula de Esopo, enquanto o navio afunda, um rico reza para Atena e lhe promete mil oferendas caso se salve. Um náufrago adverte: “Convoca Atena e também teus braços”. No fundo, mesmo os fanáticos creem sabendo que podem estar errados, senão não creriam, saberiam. Senão não seriam tão truculentos com a descrença alheia, posto que saberiam ou teriam plena convicção de que indizíveis tormentos os aguardariam na outra vida. Não creio que o céu seja azul, que as árvores sejam verdes. Sei que são.
Não há uma crença mas uma atração e um desejo de Apocalipse. Esperá-lo é, de certo modo, vivenciá-lo. Será quando o vizinho que seguramente enriqueceu roubando, porque sou superior a ele e ainda assim mais pobre, pagará seus pecados, será quando todas as casas ricas serão destruídas junto com meu apartamento de dois quartos, quando não precisarei mais me olhar no espelho, trabalhar e competir para sobreviver. É uma atração suicida que também demanda destruição, típica de ressentidos, como esses losers que abrem fogo contra inocentes em escolas. Não é à toa que o que dá prazer para gente desse tipo é imaginar - amiúde com uma ajudinha de Hollywood - o Empire State e a Torre Eiffel sendo destruídos, como gigantescas estátuas de Buda escavadas na rocha virando farinha sob os pés encardidos dos Talibãs. Não tem graça imaginar africanos famintos sendo arrastados com suas malocas por ondas de centenas de metros de altura. Ora, formigas morrem todo dia. Qual a atração nisso?
Qualquer coisa é motivo para se vaticinar o fim do mundo. Efeito Estufa, Guerra Atômica, números decimais cheios de zeros: o ano 1000, por exemplo. O belo número cheio de bolinhas perde completamente a importância quando pensamos que o sistema poderia ser duodecimal e não decimal. A escala básica seria: 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 (x) (y) 10 - o "10" seria uma dúzia. “X” e “Y” seriam signos originais, como os números de 1 a 9. O "20" seria a grafia para duas dúzias. O ano 1000 duodecimal aconteceria no 1728 decimal, um anozinho como qualquer outro; nada, digamos, cabalístico. O universo não está nem aí para nossas convenções. Não tem sequer consciência. Mas é claro que as forças do destino usam a convenção humana para estabelecer eventos marcantes, principalmente os futuros.
Sempre foi fascinante o caos iminente pregado por profetas ensandecidos, que, alheios à lógica dos homens estão portanto mais próximos da lógica de Deus, segundo o sapientíssimo senso comum. Como nas montanhas-russas, que simulam situações limite, de quase morte, ou em filmes de serial killers, quando, na pele da vítima mas na segurança de nossas poltronas sentimos a morte se aproximar sabendo que terminaremos o filme vivos, de igual modo os crentes no fim do mundo se reúnem em fazendas, como se adentrassem uma Arca de Noé, para aguardar a grande destruição que jamais virá, fruem de toda preparação, das preliminares que não redundarão em orgasmos, dão as mãos, rezam, têm pesadelos, abraçam-se e... como em todas as vezes anteriores, veem amanhecer o Day After, idêntico ao Day Before, e comemoram o milagre: “Nossas orações foram atendidas! Deus cancelou nada mais nada menos do que o Fim do Mundo por conta de nossas poderosas orações!” E retornam felizes da vida para as propriedades de que jamais se desfariam.
E há aqueles que dão cabo da própria vida, quase sempre em grupo, pouco antes do fim anunciado. Estes são meros suicidas que desejam entrar para a glória da história por meio de uma nota de rodapé em algum jornal, como os emos que pulavam do alto do Shopping Pátio Brasil, ou muito estultos por perderem o grandioso espetáculo cinematográfico apocalíptico, durante o qual poderiam facilmente, para evitarem a terrível dor da submersão em lava, meter uma bala de 38 na cabecinha oca...
Marcadores:
Catellius,
Ceticismo,
Comportamento,
Religiao,
Veja
Assinar:
Postagens (Atom)

