Mostrando postagens com marcador Mouro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mouro. Mostrar todas as postagens

14 março 2021

Democracia - resposta a C. Mouro

 Comentando comentários de C. Mouro:


“Estamos vendo o stf respeitar as leis perfeitamente.” (em tom de ironia)


 Para um país ser considerado uma democracia, atualmente, não deve haver apenas a vontade da maioria. Deve haver princípios pétreos universalmente aceitos e não passíveis de serem alterados pelo voto. Um país em que é possível que 51% da população vote uma lei que autorize a escravidão dos demais 49% não é considerado uma democracia. Mas, claro, nada impede que se crie uma “democracia” comunista, com sovietes e outros conselhos populares decidindo inclusive por marchas forçadas de povos, e outras atrocidades.

 

 O STF agir desrespeitando as leis, num inquérito em que é vítima, investigador, advogado de acusação e juiz, é a prova de que nesta democracia há uma falha grave nos “checks and balances”. Era para o Senado colocar um freio no STF. Na verdade, no início da legislatura atual havia uma grande onda, respaldada pela sociedade, para se promover impeachment de ministro do Supremo e para ser instalada a tal CPI da Lava-Toga. Mas isto não prosperou depois que Toffoli suspendeu todas as investigações baseadas em dados obtidos do COAF sem autorização judicial – o que beneficiava o Willy Wonka, o 01, e outros culpados de peculato, no eufemismo no diminutivo chamado de “rachadinha”. A famiglia presidencial conseguiu sufocar todos os movimentos do Senado contra o STF. Este ficou mais forte, com menos freios, mais confiante, menos democrático – do jeito talvez que o nobre Mouro goste. Vivemos, assim, numa quase “undecarquia” – um governo de onze monarcas.

 

Não endeuso a democracia. Não acho que seja o melhor regime para qualquer país. Ela não funcionaria em muitos países árabes nos quais uma Irmandade Islâmica pode subir democraticamente para depois implantar uma teocracia e perseguir rivais, minorias. Como no Iraque. Americanos impõem a democracia. A maioria xiita ganha as eleições, extingue o exército sunita de Saddam, e uma força militar desempregada como essa acaba virando o Estado Islâmico – grosseiramente foi isso. Em casos assim, o melhor é um governo que garanta pela força que haja algum respeito a algumas cláusulas pétreas comuns a outras democracias. Nos Emirados Árabes: Talvez uma democracia teria feito com que o país fosse vítima da maldição do petróleo, a commodity sob cuja fronde nada nasce. E na China? Talvez fosse um perigo, um bilhão e meio de pessoas em debates democráticos, grupos separatistas... Apesar de hoje haver por lá algum respeito a contratos, cidadãos poderem sair do país se quiserem, haver uma certa liberdade - desde que não se faça oposição ao regime ditatorial -, apesar disso, acho que seria melhor que lá houvesse mais liberdade, inclusive a possibilidade de se colocar alguém ruim, mentiroso, pelo voto, desde que isso não implicasse guerras intestinas, conflitos, miséria, milhões de mortes.  A democracia é quase um luxo para poucos.

 

Quanta destruição a democracia não evitou na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial? Em quase oitenta anos? Já houve um período assim antes, na Europa? Acho que nunca houve uma guerra entre duas grandes nações democráticas. Malvinas, por exemplo, foi entre a democracia inglesa e a ditadura argentina. Na História teríamos, talvez, a Guerra do Peloponeso, a Segunda Guerra Púnica (Cartago era então uma democracia oligárquica), a guerra hispano-americana no século XIX e pequenos conflitos no século XX, como a Guerra dos Seis Dias, uma vez que Líbano e Israel eram democracias.


" ...a democracia é o Paraíso lá no futuro sem data. Exatamente igual qq Paraíso prometido ou profetizado: a cenoura na ponta da vara amarrada ao corpo do cavalo."

 

A democracia é muitas vezes implantada a partir de uma tirania, de uma ditadura, muitas vezes com a permissão do ditador, por sua vontade. Ou é implantada com um golpe, uma revolução – os quais não são nem um pouco democráticos.
E muitas ditaduras nascem na democracia, muitas vezes com o apoio do povo. Já era um pouco assim no mundo antigo, onde havia democracia direta. Lemos em “A Cidade Antiga”, de Fustel de  Coulanges, que devido a constantes guerras e a morte de nobres e de soldados, acabavam por armar as classes inferiores. Estas acabavam implementando a democracia. A democracia acabava degenerando num populismo, o populismo na tirania, a tirania era combatida por aristocratas exilados, que depois implantavam uma aristocracia, uma plutocracia que despertava inveja no povo, que queria democracia, etc. Mais recentemente, houve uma espécie de democracia monárquica por mais de mil anos em Veneza – a República Sereníssima. Napoleão pôs fim a ela; ele, um revolucionário contra o Ancient Regime... Há lugares em que talvez jamais haverá democracia. Há lugares em que é natural que haja. Há lugares em que ela vai e depois volta. Nela não se vende um fim, um ponto ideal de perfeição, para se justificar os torpes meios, como acontece em regimes como o comunista. Todos sabemos que ela é frágil e imperfeita, fruto de longas conquistas, pode desvanecer-se a qualquer momento. Ela tem suas vantagens e desvantagens. E ela tem que evoluir. Deve haver isonomia na Justiça, a representatividade pode variar, pode ser por colégios eleitorais, voto distrital misto, pode ser parlamentarismo, semipresidencialismo, etc.

 

“A Venezuela é absolutamente democrática e Maduro, tanto qto Chaves, foi eleito.”

 

Sim. E a Síria de Hafez Al Assad também era democrática. Estive lá em 1992. A votação era “sim” ou “não” para ele continuar no poder. Ganhou com 99,9% dos votos... rsrs

Quem ousa afirmar que a Venezuela não é uma ditadura porque Chávez subiu democraticamente e até porque, vá lá, o povo em algum momento votou para continuar sendo governado por um tirano, o qual dissolve parlamento, prende juízes, muda a Constituição? Isso é uma democracia? Se 51% do povo desejarem tirar Maduro no próximo pleito, isso será possível? Não? Então não é uma democracia.

 

“Sob Pinochet havia mais liberdade para a população do que atualmente as democracias européias(...)”

“NOS USA a fraude foi gritante(...)”

"As FARC na Colombia mataram mais de 50 mil pessoas. Viraram concorrentes politicos defendidas pelos mesmos que queriam punição aos corruptos milicos que mataram e terroristas."


A lista de burrices, autoritarismos, injustiças na democracia é grande.

Mas se começarmos a listar o que foi feito em regimes nada democráticos como os de Mao, Stalin, Fidel, Pinochet, Hitler, Franco, Salazar, etc., a lista será 1000 vezes maior. Entrando no mérito de um de seus exemplos: O Bolsonaro disse que tinha provas da fraude nos EUA. Mas não as apresentou. E disse que tinha provas da fraude nas eleições de 2018 no Brasil, mas nunca as apresentou. As alegações de fraude por lá não se sustentam. E eu achando que nunca havia visto nada mais ridículo do que democratas chorando e esperneando após a vitória de Trump em 2016... Mas Trump e seus seguidores conseguiram superá-los no ridículo. E que povinho aquele que invadiu o Congresso... hahaha... uma caterva de imbecis!

 

 Sobre as sanções internacionais e danos ao governo totalitário, não foi minha intenção afirmar que isso sempre ocorre. Claro que quando falamos de potências econômicas e militares violando Direitos Humanos, há rugidos inócuos da ONU, denúncias impotentes de outras democracias, etc. Mas há um consenso de que em uma democracia há temas não passíveis de serem votados, como, por exemplo, se um grupo étnico deve ou não ser exterminado em Campos de Concentração.

 

“A democracia não só pode defenestrar os maus, mas também os bons.”

 

Sim. A democracia pode elevar bons e maus ao poder. E pode defenestrar maus e bons. Só o poder de defenestrar os maus já vale. Se tal poder não existe, não se está em uma democracia. Simples assim. E é mais difícil se livrar de ditadores. É o caso da Venezuela, uma democracia para petistas, psolistas e para o C. Mouro. rsrs

 

“Numa ditadura pode haver mais liberdade para a população do que numa democracia.”



Sim. Alguém que fuma inveteradamente pode viver mais do que alguém que cuida muito da saúde. E daí? Eu mesmo escrevi que leis justas podem ser promulgadas numa ditadura, e leis injustas numa democracia. O fato de poder haver, eventualmente, mais liberdade em uma ditadura, não quer dizer que a ditadura seja o regime mais propício à liberdade das gentes.



“Aburdo que digam que a democracia defende as minorias, quando POR DEFINIÇÃO a democracia é exatamente a IMPOSIÇÃO DA VONTADE DA MAIORIA. Não cabendo qualquer direito as minorias eleitoralmente derrotadas.”

 

Os americanos elegeram Bush, Obama, Trump e agora Biden. Lula saiu com 90% de aprovação. Bem grosseiramente, na melhor das hipóteses 4/5 dos que votaram no Bolsonaro já foram lulistas em algum momento. Muitas vezes as “minorias eleitoralmente derrotadas” foram maioria eleitoral poucos anos antes. Os petistas derrotados em 1994 tiveram direito de fruir das vantagens do Plano Real. Um partido derrotado por uma margem pequena de votos ganha, numa democracia, o poder de ser uma forte e livre oposição. Obstrui pautas, força negociações, pode ganhar força para o próximo pleito.

 

“Porém um elito com 74 mil votos, seu voto no congresso tem o mesmo valor de um eleito com mais de um milhão de votos.”

 

Sim. Acho que nossa democracia deve evoluir muito. Parlamentarismo, voto distrital misto. De fato, a baixa representatividade do eleitor paulista em relação ao acreano é um absurdo.

02 março 2018

As Novas Virtudes

Texto de C. Mouro

A exaltação ostensiva de porcarias, do fácil, do feio, do sujo, do fraco, do pobre, do pulha, é consequência da inveja, uma vingança contra a virtude. Uma estúpida desforra por parte daqueles que em si somente reconhecem o vício, e então se unem para exaltá-lo, ansiosos por fazerem da opinião mais visível a “verdade” consensual. Querem uma "realidade" artificial na qual se sintam mais confortáveis.

Considero que ainda se está na fase binária da razão e assim tudo é julgado por "antagonismos justificadores", de forma que o feio existe porque há o belo, e o admirável só pode existir porque existe o desprezível. Há então a necessidade de inventar antagonismos postiços, na tentativa de elevar vícios à categoria de virtude. É um mecanismo mental de auto-alimentação ou, mais propriamente, de auto-alienação mútua.

Não é fácil criar algo belo, não está ao alcance de qualquer um. Então se exalta ostensivamente o lixo para relegar o belo, o difícil, o forte, o reto, o orgulhoso, o admirável a uma avaliação menor, numa oposição artificial pretensamente esclarecedora. As dicotomias, maniqueísmos e simetrias diversas ainda são usadas para se fabricar polarizações facilitadoras para inculcação. Os tolos apreciam a facilidade das polarizações, para definirem-se perante plateias através do mínimo comum.

É absurdo, mas de fato a larga maioria humana se interessa mais pela opinião alheia sobre si do que pela própria. Sinto-me forçado a homenagear Schopenhauer ao citá-lo nessa sua constatação sobre o desejo de honra (opinião alheia favorável).

Claro que tudo é vaidade e esta constatação é milenar. A vaidade é o desejo pela opinião alheia favorável e é ela que faz da tal espiral do silêncio uma estratégia infalível para conduzir rebanhos humanos.

Acredito que a fabricação de valores anti-natureza (algo bem apontado por Nietzsche, que aproveito para homenagear) foi a forma de oferecer a um povo, cada vez mais explorado por seus governantes, uma compensação moral pelas perdas materiais que lhe seriam impostas.

Assim uma ideologia justificou, no fantasioso futuro sem data e incerto que prometia, as novas virtudes, fáceis de simular e ostentar, que fariam das antigas virtudes, difíceis, os novos vícios.
Tal oferta imediatamente seduziu tudo que não prestava e, ante a ostentação de tão confortável "asinus asinum fricat", acabou por seduzir até parcelas ansiosas não tanto pelos novos valores, mas exatamente pelo "asius asinum fricat". Daí o convívio irracional com as contradições. Afinal a verdade e o interesse, ao entrarem em conflito, induzem à opção pela "realidade irreal"; o absurdo como expressão da "convivência entre contrários".

Assim, o orgulho sincero foi considerado um vício, defeito ou pecado, por ostentar satisfação consigo mesmo, enquanto outros dele não poderiam desfrutar. A humildade, que por definição só pode expressar falsidade ou resignação, se tornou uma virtude a ser simulada como ostentação de virtude, razão para orgulho (no caso postiço). Não há como subverter a realidade, pois ela se manifesta menos perceptível, mas estará lá.

Pela mesma “ilógica” a riqueza foi amaldiçoada e a pobreza elevada à virtude individual. Porém somente para ostentação, já que intimamente não há razão para a fácil pobreza ser considerada uma virtude do indivíduo.

A fragilidade, a servidão, a fraqueza, o mal viver e etc. igualmente foram feitos virtudes novas oferecidas como vingança contra as velhas.

Assim se deu com os valores preconizados pela ideologia da anti-natureza.


Cabanel: Nascimento de Vênus. Arte tida como decadente pelos
cubistas, abstracionistas, dadaístas, críticos de arte, catedráticos, etc.

Cabanel: Nascimento de Vênus. Detalhe

Picasso: Mulher com Colar. "Arte" "genial", um consenso entre os de "gosto superior".

Por fim, até as artes foram contaminadas, e meros rabiscos feios e ao alcance das habilidades de qualquer animal se tornaram "obras de arte". Assim se deu com lixos ditos esculturas e mesmo com grunhidos e palavras soltas e acordes desconexos.

Porém se já não há mais "juízes em Berlim", ao menos é certo que ainda existem muitos com verdadeiros talentos e que os exercitam sem constrangimento. Isso é realmente confortante.

06 abril 2014

Se houvesse democracia no Brasil do século XIX

Texto mui levemente adaptado de comentário anônimo em A democracia é uma M*, atribuído ao misterioso C. Mouro:

Se no século XVIII e XIX houvesse democracia como a que se pratica, sobretudo no Brasil, até hoje haveria escravidão dos negros.

Os escravos poderiam votar, mas os candidatos seriam escolhidos pelas cúpulas partidárias. Para se formar um partido teria-se que ser senhor de engenho com apoio de certa porcentagem da população, e tudo deveria ser conferido pelos mandantes vigentes: os brancos altamente beneficiados pela escravidão democrática dos negros.

Tudo que dissessem os escravocratas moderados - sim, porque abolicionistas jamais conseguiriam criar partidos - contra os escravocratas seria considerado ofensivo pelo TRE e assim haveria multas e proibição de uso do tempo pelos moderados.

As verbas e tempo de propaganda, mesmo que os brancos escravocratas se dissessem igualitários, seriam muitíssimo maiores para os grandes partidos escravocratas, que facilmente, através de seus filiados e quadrilheiros, criariam inúmeros partidos escravocratas para comporem apoio aos grandes e se beneficiarem de ainda mais verbas e tempo de propaganda.

Brancos receberiam promessas de vantagens com a escravidão dos negros, alguns negros seriam privilegiados como feitores, haveria regras partidárias com boa estratégia para inibir novidades e favorecer o de sempre, toda a apuração das urnas ficaria sob a tutela dos senhores de engenho.

Assim (salvo talvez por pressão externa - eu, Catellius, observo), se houvesse democracia nos seculos XVIII e XIX, até hoje os negros seriam escravos de brancos, e mesmo de alguns negros, e tudo na forma democrática e popular tão defendida por pavões que invocam a rota bandeira da democracia para abafar a bandeira da liberdade. A velha confusão de palavras, a manipulação semântica tão utilizada pela política.

Depois de a palavra "igualdade" ser exigida entre indivíduos perante as leis, sem hierarquia social e privilégios, imediatamente usaram a mesma palavra "igualdade" mas com o sentido de igualdade material, a fim de confundir e manter a diferença entre os indivíduos. Assim, igualdade já não correspondia à ausência de privilégios legais para indivíduos numa sociedade hierarquizada, mas exatamente ao oposto: indivíduos com privilégios de ação e imunidades legais ilegítimas, sob pretexto de imporem uma igualdade material - injusta, com o mérito desprezado.

Para se combater clamores pela liberdade, confunde-se esta com democracia, como se fossem sinônimos. Ninguém mais defende a liberdade, mas apenas a democracia para eleger os Senhores da Sociedade, os quais sobre esta impõem suas vontades, caprichos, subjetividades e, sobretudo, impõem o custeio de seus luxos e manias à sociedade que trabalha e produz.

Enfim, os senhores democraticamente eleitos criam as regras democráticas que permitem que as mudanças só aconteçam para que tudo permaneça o mesmo.

04 julho 2013

Quanto mais alegam querer mudar, mais querem que fique a mesma coisa

A seguir, dois comentários de C. Mouro mui sutilmente formatados por mim para se tornarem um post, com pequenas supressões, alterações na ordem das sentenças e outras violações, menores do que se um bom tradutor passasse seu texto para outro idioma. O texto original está na caixa de comentários do post anterior (Desculpe-me, Mouro, pelo abuso). Concordo com praticamente tudo que escreveu, com um pequeno lembrete: uma verdade não deixa de ser verdade quando dita por um mentiroso, por um comunista, ex-comunista, papista, tucano, arara ou o diabo. O uso do "tu quoque", reconheço, é irresistível, principalmente se ouvirmos Fidel dizer que é errado mandar oponentes para o paredão. É errado mesmo, o que faz dele, além de um monstro, um grande hipócrita manipulador. Acho Olavo um católico astrólogo herege gnóstico supersticioso monomaníaco por conspirações, Reinaldo Azevedo um desonesto defensor incondicional da Igreja Católica e do PSDB. Ambos podem dizer a verdade às vezes, fazer reflexões pertinentes sobre comunismo, bolivarianismo, gramscianismo, petismo, etc.

Quanto ao movimento das massas, sou bem cético. Mas fico curioso para ver como as esquerdas capitalizarão os resultados para si, manipuladoras mui bem organizadas que são. Usando o que o Mouro escreveu, digo que "hermeneutas" como Mino Carta poderão ver nas revoltas populares um desejo de retorno ao esquerdismo primordial, puro, ao paleopetismo da época das Diretas Já. Lutero, em meio à podridão da Igreja Católica, não desejou uma volta à pureza primordial do cristianismo, recrudescendo-o com a Reforma e recrudescendo indiretamente a Igreja Católica em sua Contra-Reforma? Os papas eram príncipes corruptos quase assumidos, alguns encomendavam talvez mais pinturas de Júpiter e Diana do que de Jeová e Maria. O cristianismo estava mais paganizado do que nunca, as plutocracias dos Medici e Sforza prosperavam. Antes aquele cristianismo - ainda assim vil, é certo - do que o "autêntico" apocalíptico e "virtuoso" de São Paulo. De igual modo, preferiria que os políticos fossem sujos e corruptos assumidos, como o Maluf e o Roriz. Mas que estivessem com focinheiras, vigiados, que fossem punidos literalmente com crueldade quando pegos. Castigos físicos em praça pública seriam divertidos. Falo sério. Quanto ao Estado, deveria ser cada vez menor, TENDENDO para a anarquia. Mas que seria odioso de qualquer modo. Basta ler os capítulos sobre a democracia grega em A Cidade Antiga de Fustel de Coulanges para nos espantarmos com o quão parecidos eram alguns de seus problemas com os atuais. Venda de votos, alternância entre formas de ditadura e aristocracia, a primeira com o apoio do povo cheio de ressentimentos e vontade de se vender por pequenos agrados e de ver os ricos sendo perseguidos pelo tirano, a segunda comandada pelos ricos, baseada na tradição, no respeito à propriedade e à democracia mas pouco preocupada em manter ocupada a população invejosa - passou a ser invejosa quando a propriedade deixou de ser divina e passou a ser cobiçável - já que dispunha de escravos. Na democracia, ao povo votante - apenas machos nascidos na Hélade e descendentes de gregos - uma opção de engordar os rendimentos era vender o voto.

Vamos ao Mouro:

Quanto mais alegam querer mudar, mais querem que fique a mesma coisa

Texto de C. Mouro

Aquilo que vejo no Brasil, com a maioria de sua população insolente, supersticiosa e guiada por morais ideológicas que não fazem qualquer concessão à ideia de ética como uma moral objetiva, em vez de subjetivamente ideológica, é um eterno oscilar entre o "mais morno" e o "menos morno". Essa moral ideológica cujos fins justificam os meios, ditando-os como receita para um nirvana qualquer, não deixará que a massa reflita conscientemente e menos ainda que atue conscientemente.

Novos profetas com novas ideias velhas ameaçam com danações qualquer ínfima reflexão que escape de sua tutela. A manutenção do clima ideológico é a fórmula do poder pleno sobre uma sociedade massificada e, assim, imbecilizada. Os que parecem sair do círculo apenas percorrem sua circunferência e, assim, sempre se acaba voltando ao ponto de partida. A disputa de castas ou, mais propriamente, irmandades e quadrilhas ideológicas não permite que se saia deste círculo com facilidade, pois as propostas dos neo-evangelizadores é mudar para ficar a mesma coisa.

Nenhum destes grupos admite o enfraquecimento do Senhor Estado Todo Poderoso e são nisso acompanhados pelos servos, para quem o ideal é o pedir para conseguir. O mero pedir ao "bondoso senhor" é algo por demais arraigado; a promessa de se estabelecer como meio de dar às gentes o que desejam é própria de novos e velhos profetas, velhos neo-evangelizadores de discursos atemorizantes ou nebulosamente salvadores, que apenas reivindicam a obediência aos intermediários do Senhor Estado. E assim a roda gira. Em círculos desenhados por faladores profissionais interessados em obter nacos do poder estatal e, por tal, absolutamente contrários à sua diminuição. De fato, há o temor de que destas manifestações heterogêneas, sem mentores absolutos, possa resultar certa perda da mística do Estado, de seu "direito divino" sobre a população.

Sim, a massa crê no direito do Estado sobre ela, para quem ele é, ou deveria ser, a fonte da sabedoria e da justiça, de modo que aquilo que decorre de seu arbítrio - na verdade, de sua hierarquia de humanos - é a expressão da verdade e da justiça. Assim, cada indivíduo cultua o Estado que lhe convém, da mesma maneira que cada um elege o seu deus arbitrário conforme seu desejo sobre o que seja considerado verdade e justiça.

Claro que isso proporciona a criação de inúmeros deuses, aparentados ou não. São vários islamismos e cristianismos, pelo menos, já que estas são as ideologias historicamente inventadas por (prefiro "úteis para") governos dominarem e explorarem populações feitas servis, não pelo abuso da boa fé destas, mas sim pelo uso de sua má fé, de impor aos demais suas convenientes "verdades". Mas tais mentirosas verdades não produzem os resultados alardeados. Então a culpa é lançada na "deturpação" e não na sacrossanta ideologia salvadora. E aí, em meio a infindáveis interpretações, pululam hermenêuticas para salvá-la, com as quais os arautos das mudanças querem uma "volta às raízes", mudam as moscas velhas pelas novas, que antes foram mudadas, ou nem tanto.

O império romano criou a moderna política universal e não será fácil livrar-se de tal sistema com facilidade. A justificativa e pretensa legitimação do poder em nome dos pobres e coitadinhos, do povo (o bem coletivo sobrepondo-se ao bem individual com alegada legitimação do arbítrio divino) e mesmo d'uma tal de pátria cuja compreensão é obscura e não refletida, uma ideia incriada sobre cuja existência ninguém quer refletir. Assim, o Estado toma posse da sociedade, o governo se apossa do Estado, este ente místico, um partido ou quadrilha se apossa do governo e a alta hierarquia deste partido ou quadrilha se apossa do partido ou quadrilha. Pronto: agora esta alta hierarquia pode arbitrar as convenientes verdade e justiça que imporá a todos. E falsas verdades e injusta justiça logo darão lugar a novas fraudes, em novas ideologias e hermenêuticas ideológicas sem fim.

Reinaldo, Nivaldo, Olavo e Cia. como maiores opositores do socialismo é mais inverossímil que história da carochinha. Curiosamente, "ex" militantes marxistas, ainda defensores do Estado árbitro sobre a sociedade segundo a subjetividade deles mesmos, aspirantes a árbitros, anunciam-se os verdadeiros combatentes do socialismo atacando estas desnorteadas manifestações como essencialmente esquerdistas por "reivindicarem mais estado" e estarem comandadas por partidos radicais que foram delas escorraçados, tendo suas bandeiras sido queimadas. Ao mesmo tempo advogam pelo PSDB e DEM, louvam FHC, que anabolizou o MST com bilhões em verbas, legitimando-o, além de inventar as indenizações a terroristas e simpatizantes, entre outras ações "capitalistas", e mesmo chegam a ser cabos eleitorais de Serra. Defendem estes pulhas marxistas neomoderados como oposição. O discurso do Papa é mais esquerdista que os "pedidos de mais estado das manifestações". A igreja em sua totalidade e a própria ideologia cristã, defendidos por estes ex militantes marxistas, são muito mais estatizantes que as tais manifestações que queimam bandeiras vermelhas e escorraçam CUT, PSOListas, PTistas, PSTUistas, PCOistas e etc.. Estão confusos, sim, mas melhor confusos do que agarrados a ideologias e partidos. A esquerda irá se aproveitar e recapturá-los com a ajuda dos "ex" marxistas adoradores do Senhor Estado, que preferem o Estado com sua costumeira mística na esperança de ainda o tomarem para si e imporem suas baboseiras ideológicas.

25 agosto 2007

Vida Longa aos Facínoras

Apresentação: Na caixa de comentários do post passado a Clarissa e o Bocage manifestaram-se contrários à pena de morte, e este disse ser da opinião de que os presos deveriam trabalhar para ter algo mais do que um colchão e um pão duros mas "poderiam ficar com o excedente do custeio das ditas regalias ou enviá-lo a parentes". O Mouro fez um longo comentário, contundente como sempre, e eu tomei a liberdade de excluí-lo para publicá-lo como um post.
*****
Texto de C. Mouro

Vida longa aos facínoras que destroem vidas inocentes, pois defendê-las não é tão consagrador:

"Amar os amigos até os maus amam, a virtude está em amar os inimigos."

Ou seja, amar o mau e fazê-lo prosperar é que é o máximo da bondade. Enquanto tal perversão for moralmente consagradora, o mal prosperará em nome do bem. “Bendita vaidade, capaz de subverter a razão”, diria o “diabo”.

Os piores males causados à humanidade foram feitos em nome do bem, em nome de consagradores ideais capazes de bestializar o homem em sua estúpida vaidade. As atrocidades religiosas, Stalin, Hitler, Mao, Pol Pot, etc., todos, sem exceção, ostentavam-se magnânimos, travestiam-se de “santos salvadores” com belos propósitos envaidecedores.

Tenho um texto, “Do futebol esclarecedor”, que em resumo é o seguinte:

Num jogo de futebol o torcedor do time que é favorecido pelo juiz jamais conseguirá odiá-lo, enquanto que o torcedor do time prejudicado o detestará, lançará contra ele imprecações as mais cabeludas, fará acusações e o terá na pior das contas. Já o torcedor do time beneficiado, procurará mitigar os erros do juiz, mesmo que canalhice deliberada, e se não puder fazê-lo os admitirá, mas jamais o criticará da mesma forma com que critica quando prejudica o time pelo qual torce.

Claro que, por vezes, não há uma torcida mas apenas uma adequação ao estereotipo consagrador, uma ostentação conveniente e sem muita reflexão. Tudo depende do quanto se ostenta de reprovação incisiva a um lado e, quando muito, uma “reprovação compreensiva” ao outro, ou mesmo se ignora um lado para apenas ostentar a repugnância consagradora ante a moral arbitrada para a comunidade, fugindo da análise dos fatos.

Eu defendo que:

* O criminoso eventual seja separado do criminoso profissional.
* O criminoso profissional não merece respeito, já que não respeita nada além da própria conveniência.
* O criminoso deve trabalhar para pagar sua estada e despesas do aparato que demanda para mantê-lo encarcerado, sem direito ao excedente. Afinal, as vítimas não podem ser condenadas, injustamente, a sustentá-los, em muitos casos até com aquilo que a elas falta.

O facínora que é capaz de sair de casa predisposto a matar um pai inocente, muitas vezes ainda arruinando sua família, crianças inclusive, merece morrer como uma ratazana, como uma barata, pois é ainda pior do que elas. E quem se preocupa com a vida dos facínoras despreza a vida dos inocentes, é o pior tipo de pessoa, pior do que o próprio facínora, que ao menos expõe sua índole francamente. Todo defensor de facínoras é cúmplice nas vítimas que estes fazem.

Questão de Dúvida e ChanceC. Mouro, 07 de dezembro de 2004

Alega-se que um facínora tem chance de se recuperar. Assim, foca-se na “elevação moral” de se dar chance ao facínora que já cometeu atrocidades. Diante desta “bondade” se está admitindo que o facínora poderá voltar a cometer atrocidades contra inocentes, matando, torturando, estuprando, destruindo famílias e etc.. Afinal, não há certeza de que um facínora se “recupere” após cumprir uma pena que lhe permita voltar ao livre convívio com seus pares queridos e também com as vítimas; sejam as que fez e as que poderá ainda fazer.

Diante da proposição de pena definitiva, as “belas pessoas” afirmam que é desumano, intolerável, condenar um “ser humano” a uma pena definitiva; embora o facínora o faça com a tolerância das “belas pessoas”. Estas reivindicam que se lhe dê a chance de recuperação, arbitrando o “dever humanitário” de preservar a vida e a liberdade do facínora, diante da DÚVIDA sobre sua recuperação, exibindo grande “revolta humanitária” ante a proposta de pena definitiva para o facínora; por assim se estar perdendo a chance de salvar a vida do facínora que já cometeu atrocidades contra inocentes - embora essa revolta exibicionista não se manifeste ante a pena que os facínoras impõem às vítimas inocentes.

Então, como toda questão tem dois lados, cabe analisá-los:

Havendo dúvida se o facínora voltará à pratica de atrocidades contra inocentes ou se recuperará, disso resulta:

1) Pena definitiva para que ele jamais volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena branda é injusto e temerário; na visão das “más pessoas”, dos “bárbaros”, que parecem preocupados unicamente com a vida, a liberdade e demais direitos do ser humano inocente.

2) Pena branda para que o facínora volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena definitiva é injusto e o revolta; na visão das “boas pessoas”, dos “santos” e “humanistas”, que parecem muito preocupados com a vida, a liberdade e demais direitos do “ser humano” facínora.

Das conclusões:

Ora, é extremamente simples perceber que:
As “boas pessoas” exibem a sua “bondade” usando a dúvida como argumento para permitir que o facínora se “recupere” depois de branda pena, demonstrando assim grande zelo pelo bem estar e pela vida deste “ser humano”: Em nome da dúvida.

Mas é em nome desta MESMA DÚVIDA que os “malvados bárbaros” não querem permitir que este facínora volte a cometer atrocidades contra inocentes. Afinal, TUDO É DÚVIDA.

Os resultados possíveis ante a dúvida são:

R-1) Se o facínora é definitivamente penalizado:
Talvez ele se recuperasse. Neste caso será um FACÍNORA que já supliciou inocentes, aquele que sofrerá AS CONSEQUÊNCIAS da proposta dos “bárbaros”: de não lhe dar chances.

R-2) Se o facínora é brandamente penalizado:
Talvez ele não se recupere. Neste caso serão AS VÍTIMAS INOCENTES, quem sofrerão AS CONSEQUÊNCIAS da proposta das “belas pessoas” que, “humanitariamente”, concederam a chance do facínora fazer mais vítimas inocentes.

Conclusão lógica (não é suposição, é fato lógico):

1) As “boas pessoas”, os “santos”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE INOCENTES. Ou seja, as vítimas, pessoas honestas, trabalhadoras, e seus familiares sofrerão os suplícios individuais e destruição familiar.

2) As “más pessoas”, os “bárbaros”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE FACÍNORAS que já trucidaram vítimas inocentes e arruinaram famílias.

É muita diferença de preferência.
Não é possível negar a lógica, pois está claro que haverá vítimas inocentes, já que não há certeza de “recuperação”, ou não haverá facínoras recuperados por não haver tal chance.

Assim, a “beleza” de salvar facínoras supostamente recuperáveis, necessariamente implica em produzir VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras. Em visível tolerância moral a seus crimes, quase um incentivo.

Da mesma forma a pena definitiva NECESSARIAMENTE implica em penas definitivas para FACÍNORAS CULPADOS, que já fizeram vítimas inocentes, mas que talvez se recuperassem. Em visível intolerância moral a seus crimes, para ainda intimidá-los.

Os “humanistas” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou outros direitos dos inocentes, enquanto os “bárbaros” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou bem estar dos facínoras, que já fizeram vítimas inocentes.

É estarrecedor alguém tranqüilamente afirmar:

“3) Não existe como salvar os inocentes.”
.
Como eu disse, as “belas pessoas” consideram que as vítimas inocentes são uma fatalidade, e não se importam com elas, sequer se dedicam a tentar diminuir a ocorrência destas, dedicando-se unicamente a tentar SALVAR O MÁXIMO DE FACÍNORAS, MESMO QUE ISSO RESULTE EM MAIS VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras.
.
Os “santos” e “humanistas” não se importam com as vítimas inocentes, pois importar-se com elas até os “bárbaros” se importam, então, ideologicamente, “não há mérito nisso”. O mérito ideológico está em “amar os inimigos”, em “dar a outra face” e proteger o mal para que ele prospere.

Com náuseas,
C. Mouro
.


15 junho 2007

Cicatrizes e Beiços de Pau

Texto de C. Mouro

Se indivíduos são capazes de forjar cicatrizes em si e até rasgar o lábio para nele introduzir um disco de madeira, mais fácil é exibir adoção de ideologia redentora, de benevolência, santidade e qualquer coisa que os valorize num meio, sobretudo se triunfante, gabola.

Cicatrizes

Uma moral que crie valores consensuais, mesmo que sem valor algum fora da expectativa de consenso, é dos mais potentes narcóticos que o homem conseguiu criar. Certa vez, li sobre tribos onde a "moral" valorizava o indivíduo pelo número de cicatrizes que exibisse no seu corpo. Imagino que em tudo pode haver uma tentativa de razão. E esta tentativa por vezes revela-se uma caricatura onde a vontade de criar aparências faz com que se exagere o destaque das características marcantes, que por si garantem a associação com a figura real. Assim, pode-se imaginar que cicatrizes são característica de um caçador ou guerreiro, e, portanto, possuí-las é indicativo de valor individual. Isso porque para uma tribo o caçador e o guerreiro são de grande utilidade, presumindo-se valentia e habilidade em quem a estas atividades se dedique. Diante de tal "moral" os silvícolas ansiavam por cicatrizes, culminando com o desenvolvimento até de rituais para produzir cicatrizes nos chefes, guerreiros e caçadores, para que desta forma pudessem exibir o seu valor aos demais.

É claro que cicatrizes podem ser conseqüência da inabilidade e até obtidas num acidente durante uma fuga vergonhosa. Porém a estreiteza das dicotomias de aparências concebe que quem não caça e nem combate, restringindo-se a "tarefas menores", dificilmente terá cicatrizes, enquanto que mesmo um guerreiro ou caçador hábil as possuirá, dado os enfrentamentos em que se envolve. Tipo: só se machuca quem faz, quem não faz não erra nem se machuca. Não é muito racional, é uma "lógica" apressada e burra, mas serve como referência de aparência fácil para criar valores opostos; não é preciso pensar e julgar, basta ver cicatrizes. Então, na miscelânea mental das aparências fáceis, o indivíduo que possui cicatrizes é alguém admirável e qualificado; alguém valioso por presumidas qualidades. E pronto! Então, vai daí que produzir cicatrizes em si torna-se o mesmo que possuir as qualidades que estas possam caracterizar. Desta forma, quem tem, ou quer, valor para exibir, facilmente o consegue exibindo suas "cicatrizes", mesmo artificialmente produzidas para tal fim. (Obs. 1)

Digo mesmo que impressionar pelo menos um dos sentidos torna-se o "ideal de comprovação" para aqueles que desejam enganar, tanto quanto para os que desejam ser enganados, ou se enganar, amparados na preguiça e incapacidade de pensar e julgar que acomete as massas (estas tomam a forma que lhe dão). A verborragia insistente, contrária aos fatos que se pode perceber racionalmente, é uma tentativa de fazer com que aquilo captado pelos ouvidos se sobreponha ao que pode ser captado pela razão - palavras podem ser percebidas por todos os ouvidos sãos, mas nem todos os cérebros, mesmo sãos, captam e julgam a realidade. Se indivíduos tendem a aderir a consensos, as palavras são mais fortes que raciocínios, tanto mais quanto mais emocionam.

Elaborar julgamentos é algo já de há muito condenado: "não julgueis para não serdes julgados", propondo o conveniente acobertamento mútuo, corporativo. Assim, finge-se a verdade através de falsas aparências e ao mesmo tempo finge-se crer nela, também exibindo falsa aparência. Assim, dizer que se quer o bem é querê-lo, sobretudo quando se o "prova" opondo-se ao que se afirma ser o mal: amar o pobre e o assalariado é facilmente "provado" pelo ódio que se afirma ao rico e ao empresário; ou seja, uma coisa é boa porque se opõe a outra que é má; ou "X" é verdadeiro porque se opõe a "Y" que é falso. Nada mais fácil e antigo para os estultos adotarem "valores" e verdades, através de falácias, lógica chinfrim.

Beiços de Pau

Outra questão interessantíssima envolve as tribos de índios "beiços de pau" aqui mesmo no Brasil. Vi uma entrevista com determinado cacique botocudo, e este explicava que os meninos tinham que fazer um corte abaixo do lábio inferior e nele introduzir um semidisco de madeira. Faziam isso para demonstrar valor, possivelmente coragem, resistência, masculinidade ou coisas do gênero. Não fazê-lo era depreciativo para o indivíduo. Quanto maior o disco de madeira mais caracterizada a qualidade do sujeito. Os mais velhos, mais habituados, exibiam grandes "beiços". O velho índio informava que o início "doía muito, muiiito" e que ele ia para a mata tentando resistir a tal suplício sem expor sua angústia.

Bem, talvez irrefletidamente pretendessem exibir, previamente, capacidade de resistir à dor sem esmorecer, já que de fato esta é uma qualidade útil a quem a possui. Mas talvez tenha surgido apenas como um desafio. Quando um ou mais sujeitos resolveram que realizar algo incomum, muito difícil e contrário à natureza humana, era algo que os fazia mais "valiosos" (Obs. 2). Isso até parece lógico, porém desprovido da análise racional é apenas uma estupidez. Contudo, a tendência de tomar o suplício como atributo de valor (e redentor), sem maiores reflexões, tornou-se uma realidade baseada em falso e pretenso silogismo de "lógica irracional": consigo tudo que outros conseguem; outros não conseguem tudo que consigo; donde sou superior. Isto é uma estultice, posto que aquilo que consigo além dos outros não traz qualquer benefício, ao contrário, só prejudica quem o consegue. Demonstrando, sim, o quão insano é aquele que se prejudica injustamente, almejando aparentar "superioridade" física ou moral. Particularmente, eu considero isso prova inversa, ou seja, de nítida inferioridade. Por exemplo, um ricaço que se lança na miséria em busca de aparência santa é um néscio, um traste sem valor algum.

No final das contas, todos, ou a maioria, acabam por supliciarem-se apenas para não se verem depreciados perante a triunfante opinião alardeada de um indivíduo (ou grupo) que se gaba, com espalhafato, de ser, em oculta realidade, mais tolo que os demais. Mesmo assim, ante a gabolice triunfante, legiões são arrastadas para a estupidez e até para o suplício ao tentar repetir em si o "orgulho" que outros parecem exibir por determinados fatos, como indicativo de valor, agindo assim apenas porque ninguém ousou gabar-se, com a mesma visibilidade, de não partilhar de tal imbecilidade. Pois, funesto que seja, aquilo que não se exibe para a fácil percepção da turba é algo que "não existe". Logo, se ninguém cria um valor oposto àquele alardeado, igualmente alardeando-o com espalhafatosa efusão, tem-se a impressão que a jactância do tolo é uma sincera manifestação de glória sentida, decorrente dos motivos que apresenta (verdadeira), fazendo com que os demais pretendam igualmente senti-la (repeti-la em si - herança símia), imitando aquele que a exibe. Ou mesmo, apenas imitam a atitude alheia, cada um receoso que outros pensem que é inferior àquele que exibe tal "orgulho", aceitando até submeterem-se a suplícios para esconderem sua possível inferioridade ou para que ninguém suspeite de que seja inferior. O "valor" da humildade alheia é reconhecido por esta esconder o prazer consigo, capaz de ferir quem não o sente. E, como não poderia deixar de ser, sendo a humildade um valor consensual, muitos apenas a exibem por mera arrogância (ostentação de orgulho simulado). Ou seja, escondem a confiança e o orgulho sinceros com um simulacro valorizado - um estúpido arrogante dogmático não devia ser repulsivo por ser arrogante, mas sim por ser estúpido: na minha opinião, mais vale um antipático com razão do que um simpático sem razão.

O Rei está Nu

É algo como na estória do rei que se vestia com "belas roupas" só percebidas pelas "melhores pessoas", de forma que todos, cientes de tal pretenso fato, queriam se exibir como integrantes do grupo dos "melhores", e passaram a exibir sua anuência para com a beleza das "roupas" do rei, num consenso de mútua atribuição do conceito de "melhor pessoa". A estória dá a entender que todos acreditavam que os outros realmente viam as roupas, onde cada um tentava esconder dos outros e de si o fato de não as enxergar. Sendo então despertados de seu estúpido transe quando uma criança teve a impensada ousadia de gritar "o rei está nu!" - criança ainda
não se preocupa com a opinião alheia.

Esta é uma estória, porém na realidade as coisas não são tão simples, até pelo fato de que nem todos conseguem acreditar que as "belas roupas" existam, apenas exibindo sua anuência com tal no intuito de obter os ganhos morais e/ou até materiais só possíveis adequando-se ao consenso predominante (mais visível), pouco importando-se com a realidade do fato, e muito com o que dele se possa usufruir. No mundo real, tão logo alguém grite que "o rei está nu!", interesses e conveniências fazem com que outros imediatamente gritem que uma "má pessoa" se revelou. Fazem isso antes que mais alguém revele a nudez do rei, e diga que só estúpidos fingem ver suas roupas, ameaçando assim o habitat conveniente com a possibilidade de dissidência no conveniente grupo das "melhores pessoas", ainda sob risco dos dissidentes formarem outros consensos; e até mesmo o grupo triunfante dos que não se deixam enganar por fantasias.

Lamentável que seja, a discrição e a imobilidade contra os canalhas é tudo o que eles precisam para prosperar, pois que as massas vivem atrás de "valores" consensuais exibidos com estardalhaço, transitando alegremente entre morais ou ideologias que os ofereçam, por mais inverossímeis e contraditórias que se apresentem. O que impressiona a massa é o consenso sobre valores exibidos num grupo e os mútuos afagos corporativos, com exibição de prazer e autoconvencimento, para atrair carentes, frustrados e receosos da opinião alheia. Grupos criam consensos morais valorizadores, e aqueles que não exibem valorização mútua, corporativa, tornam-se dispersos e não atraem o "homem massa" para seu grupo, pois nem mesmo tal grupamento existe. Ou seja, aqueles que não exibem um objetivo moral triunfante (ideologia) que os represente como "algo superior" e redentor, não atraem as massas. Daí que a liberdade deve ser defendida sobretudo como um objetivo moral, um fim, e não apenas como o meio de progresso material.

Por mais aberrante que seja, para seres ditos racionais, a sedução da louvação mútua, principalmente explícita, tem sobre os indivíduos efeito semelhante ao das drogas. É o pior dos vícios. Tanto mais sentirão sua necessidade quanto mais frágeis em sua auto-imagem. O temor da repulsa também exerce grande influência na decisão. A combinação da necessidade de aprovação com o temor da repulsa, tem o efeito irresistível de induzir ao agrupamento corporativo. Pois, deste modo, os membros do grupo perdem o medo da repulsa externa, compensados pela louvação interna. É bem conhecido o fato de que indivíduos, quando em grupo, serem capazes de atitudes que não tomariam sem o apoio de seus pares (Jung). A violência que certos grupos manifestam só é possível pela adoção, por parte dos integrantes, de uma obscura "consciência coletiva" do grupo. Substituindo a razão própria pela ostentada aprovação grupal a seu integrante, contra o meio externo. Ou seja, o grupo cria uma moral particular para relacionar-se com o meio externo, e outra para uso interno, entre membros. Assim, cada integrante, enquanto presumir o apoio do grupo, com base na sua moral particular, não terá medida para seus atos contra o meio externo, tão pouco se importando com a censura da moral externa, já que almeja, antes de tudo, o apoio corporativo de seus pares.

Isso faz com que indivíduos incapazes da prática de atitudes que condenariam se sozinhos, ao integrarem-se num grupo presumindo apoio mútuo, percam completamente o controle e pratiquem atrocidades, sem qualquer remorso enquanto amparados pelo "calor" grupal ou "consciência coletiva". A anuência passiva e principalmente o apoio a atos racionalmente condenáveis por parte de seus parceiros dão ao indivíduo a tranqüilidade que sua consciência talvez não permitisse, sobretudo se, ao contrário, fosse bombardeada por censuras insistentes. As gangues e o crime organizado são exemplos característicos de implacável moral interna, necessária para impedir concessões ao meio externo e enfraquecimento da união corporativa dos membros. Os grupos surgem motivados por objetivos e interesses comuns, e as dissidências sempre tendem a gerar novos grupos de ideologia aparentada ou objetivos semelhantes.

Infelizmente, não basta gritar que o rei está nu, é preciso fornecer um novo objetivo moral a quem afirma ver as "roupas" do rei por interesse, necessidade ou medo, almejando integrar-se em um grupo com um consenso moral consagrador, pelo simples fato que pouco se importam com o mundo real ou com a razão, apenas querem, sim, um consenso que os faça parecer melhores do que imaginam ser.

Canto da Sereia

Em âmbito mais audacioso, qualquer grupo de indivíduos que afirme, em consenso, um foco moral alardeado como atributo de superioridade ou consagração de seus integrantes ao pódio dos "benfeitores da humanidade", respaldados pela mútua louvação interna, encantará muitos que de tal louvação espalhafatosa desejam participar, na esperança de que, como suspeitos para afirmarem-se "os melhores", poderão contar com o apoio alheio, de seus pares, para afirmá-lo, simulando um desinteresse próprio através da consciência alheia "insuspeita", consciência esta que adere aos integrantes do grupo palavras que já contém em si um conceito, como se dispensando o público restante de analisar suas idéias e conceituá-las (julgá-las e por elas aos adeptos). Assim procedem pela utilização de palavras e inferências com conceitos e significados já cristalizados nas mentes, embora a análise das idéias a que tais palavras são associadas possam levar a conclusões opostas aos conceitos que estas palavras transmitem.

A coisa funciona propondo-se uma idéia afirmando-a previamente como um "bem geral", logo, quem se opõe a tal proposta é automaticamente associado ao mal, como alguém que não queira o "bem geral" - mesmo que este "bem geral", se analisado, possa revelar-se um "bem grupal" ou um mal, ou ainda as idéias propostas para alcançá-lo não conduzam a sua realização, constituindo-se apenas uma fraude para ludibriar incautos de mentes preguiçosas, ou ainda para atingir outros objetivos encobertos em sua complexidade, que poderão ser efetivamente desejados por quem não tem a coragem de afirmar tal intenção.

Analisar idéias e suas conseqüências não é das tarefas mais fáceis, geralmente exige esforço. No mais, deixar-se hipnotizar por fantasias, tentando vivenciá-las na imaginação até que se revelem à realidade, não deixa de ser um prazer, pois que imagina-se exatamente o que se deseja. A ressaca ou dependência é só para o futuro, e o que importa é saborear o momento. Depois é só adotar uma nova fantasia e aguardar até que seja desmoralizada. Enquanto isso, saboreia-se o "canto da sereia" até que as rochas provoquem novo naufrágio, até a próxima dose. Enfim, um "indo e vindo infinito".

Observações:

1) As exibições artificiais para produzir a "percepção" alheia daquilo que se deseja que pensem, de forma que qualquer tolo possa ser sugestionado. Prova-se "amor aos pobres" manifestando ódio aos ricos; preferência pelo assalariado ao depreciar os patrões e etc. Ou seja, diante da dificuldade de convencer e aliciar pelo que se propõe, apela-se para a destruição do simétrico, até fazendo-o antagônico, para facilitar a "demonstração". Esso é a política ao alcance dos néscios. Como disse Arthur Schopenhauer: "para uma sociedade de homens comuns, a concórdia é conseguida por meios corriqueiros, por exemplo: chá ou café? servem a este objetivo." Schopenhauer perguntaria aos intelectuais e povança da atualidade: Socialismo ou "Capitalismo"? ricos ou pobres?, patrões ou empregados? .e certamente... Esquerda ou
direita?...só isso já ocuparia o tamanho dos intelectos. Retornar

2) No maniqueísmo fácil ou dicotomia facilitadora, as platéias tendem a crer naqueles que exibem menor afeição por si que pelo "coletivo", considerando-os desinteressados e, então, confiáveis. Pois pouco se importar com o próprio mal pode "provar" potencial para o bem de outros (os alvos), por mais falsas, falaciosas, inócuas e insinceras que sejam tais exibições. Retornar

C. Mouro

06 maio 2007

Diderot e Nietzsche: Melhores que Nostradamus

Texto de C. Mouro

Diante da realidade que grita em todos os ouvidos e ilumina todos os olhos, muitos daqueles que se admitem esquerdistas, socialistas, marxistas e etc, quando não apelam para a esquizofrenia descarada, apelam para dissimulações e/ou afirmam a “deturpação do socialismo” ou do “comunismo/marxismo” por alguns líderes, tentando manter a aura embelezadora de tal perniciosa e perversa ideologia, que visa unicamente a defesa do poder totalitário, ou Estado Coercitivo Totalitário, em beneficio dos que dele usufruem materialmente e hierarquicamente segundo a escala de valores que este impõe como verdade.

Porém, a natureza intrinsecamente nociva da ideologia do Poder, que o preconiza como panacéia salvadora ou mesmo como utopia, antes mesmo de seu funesto resultado prático já tinha sido denunciada por Nietzsche, que põe por terra qualquer tentativa de embelezamento ou dissimulação da funesta ideologia, até como sonho utópico, deixando a nu esta teoria deliberadamente fraudulenta, comprovada na prática: uma farsa ética, fracasso moral e material. Mero projeto de Poder absoluto.

--//--

Começo citando Diderot, em sua primorosa clarividência, aconselhando:

“Examinem todas as instituições políticas, civis e religiosas; ou eu muito me engano ou vocês verão nelas o gênero humano subjugado, a cada século mais submetido ao jugo de um punhado de meliantes”
Aproveito ainda para citar uma frase, de autor desconhecido, imperativa em sua natureza categórica:

“Quem tem por hábito usar a força para conseguir o que quer, tem por hábito querer sempre mais.”

--//--

Já Nietzsche, escreveu o seguinte em seu livro “Humano demasiado humano”, que com "Aurora", "Para Além do Bem e do Mal’ e outros, é genial:

“O Socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo, o qual quer herdar. Suas aspirações são, portanto, no pleno sentido mais profundo, reacionárias. Pois ele deseja uma plenitude de Poder estatal como só a teve alguma vez o despotismo, e até supera todo o passado por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual lhe parece como um injustificado luxo da natureza e deve ser melhorado e transformado por ele em um ‘órgão da comunidade’ adequado a seus fins.
Devido a sua afinidade, o Socialismo sempre aparece na vizinhança de toda excessiva manifestação de poder, como o antigo socialista típico, Platão, na corte do tirano siciliano: ele deseja (e em algumas circunstâncias promove) o estado ditatorial Cesário deste século, porque, como foi dito, quer ser seu herdeiro. Mas mesmo essa herança não bastaria para seus objetivos; ele precisa da mais servil submissão de todos os cidadãos ao Estado absoluto, como nunca existiu nada igual; e como nem sequer pode contar mais com a antiga piedade religiosa ante o Estado, tendo, queira ou não, que trabalhar incessantemente por sua eliminação - pois trabalha para a eliminação de todos os Estados existentes -, não pode ter esperança de existir a não ser por curtos períodos, aqui e ali, mediante o terrorismo extremo. Por isso ele se prepara secretamente para governos de terror e empurra a palavra 'justiça' como um prego na cabeça das massas semicultas, para despojá-las totalmente de sua compreensão (depois que este entendimento já sofreu muito com a semi-educação) e criar nelas uma boa consciência para o jogo perverso que deverão jogar.“

Nietzsche estava perfeitamente certo, como a história o tem provado – acertou também sobre a comunidade européia que menciona em “Humano, Demasiado Humano”, inclusive já detectando a semi-educação (desinformação?) para o embelezamento do funesto objetivo.

Ainda Nietzsche:

“o indivíduo é nesse caso posto de lado como um inseto desagradável: está baixo demais para poder despertar por mais tempo sentimentos torturantes em um dominador do mundo. (...) Assim também se passa com o juiz injusto, com o jornalista que com pequenas deslealdades induz em erro a opinião pública.”

--//--

Platão preconizava um Estado absolutista interferindo na vida de todos, inclusive atribuindo ao Estado a tarefa de educar as crianças uniformemente (doutriná-las: adestrá-las como a animais), em lugar das famílias que, com variadas reflexões individuais poderiam promover a busca pela verdade em meio a inúmeras visões debatidas até entre os “comuns mortais”.

A uniformização do pensamento em Platão, a ser produzida por uma única fonte, já antes de Gramsci e a uniformização de todas as fontes, já aparecia como fundamental para incutir nas mentes a hierarquia social que ele próprio propunha, vislumbrando os magnânimos “benfeitores profissionais”, cuja vontade amparada pelo Poder absoluto coagiria a humanidade à “perfeição” arbitrada segundo o interesse de pretensos e vaidosos “homens-deus”, que deliram com a idéia de exercerem sobre os “homens imperfeitos” o mesmo poder que atribuem a deuses idealizados à sua imagem e semelhança.

Platão acreditava, ou queria crer, que “iluminados” deveriam governar, determinando sobre a vida de toda a população. Já não lhes permitindo o livre-arbítrio na Terra (este concebido como justificativa para a impotência dos deuses no mundo real), para impor-lhes de fato a vontade salvadora dos “homens-deus”... Em nome do “bem comum”... É claro! E eivado de “boas intenções”, o tirano demagogo pleiteava uma hierarquia social discricionária, imposta de cima pelos “sabichões” que almejam destruir a idéia de liberdade. Platão era um aristocrata ambicioso; não era um trabalhador nem empreendedor, como os que por si realizam cientes de seus limites, mas sim um intelectual vendendo ideologia ou apologia ao poder absoluto de maníacos que querem ser como os deuses que idealizam, possuidores da fórmula da felicidade eterna, concebida em sua pretensa onisciência uniformizadora, contrária às escolhas subjetivas.

O que Nietzsche escreveu é evidente, basta que se pense e se chegará às mesmas conclusões. O maior mérito deste é que esteve mais perto do reflorescimento destas funestas idéias socialistas, antes que se pudesse ver o que produziriam em sua prática, desvendando-lhes a natureza pérfida e destruidora. Ou seja, se opôs a elas com bases vulneráveis a discursos demagógicos, teóricas, questionando-as ainda como idéias que se revelariam na prática. Atualmente, mesmo com as provas “berrando”, ainda se finge não saber a que servem tais embustes ideológicos para pleitear o poder absoluto de maníacos que o desejam, para se crerem assemelhados a suas idealizações imbecis.

Platão e as classes de uma sociedade hierarquizada “sem classes”:

"Sois todos irmãos os que fazeis parte do Estado; mas o Deus que vos criou fez entrar o ouro na composição de vós outros que sois aptos para governar. Por isso mesmo os tais são mais preciosos. Misturou prata na constituição dos guerreiros; o ferro e o cobre na dos lavradores e artífices".
O celebrado Platão reforçou sua idéia hierarquizante preconizando a segregação em classes, mais propriamente castas, só que por aptidão individual e não por hereditariedade ou “eleição de representantes”, mostrando-se elitista e estúpido, tal qual os “intelectuais” que se oferecem como ideólogos das “castas superiores” a se estabelecerem como “guias geniais” para salvar as massas.

Vejamos:

"Tendo todos uma origem comum, tereis ordinariamente filhos que se vos assemelhem. Poderá, porém, acontecer que o cidadão de raça de ouro tenha um filho de raça de prata; e, por outro lado, que o de prata produza o de ouro e, que o mesmo suceda a respeito das outras raças. Por isso ordena Deus, principalmente aos magistrados, que se ocupem acima de tudo em conhecer de que metal é feita a alma de cada criança e, que, se em seus próprios filhos encontrem alguma mescla de ferro ou cobre, os tratem sem mercê e os releguem à categoria dos artesãos ou lavradores.
Também requer Deus que, se estes últimos tiverem filhos que venham ao mundo com mescla de ouro ou prata, elevem aqueles à categoria de magistrados, estes à de guerreiros. Porque há um oráculo que diz que a república perecerá no dia em que for governada por ferro ou bronze".

Admirável mundo velho!

O preconceito elitista quer um governo de “superiores” ou “eleitos por deus” a governar em nome do “bem comum”, determinando que os que trabalham e produzem são “inferiores” ou, mais objetivamente, que os “inferiores” é que devem trabalhar para custear a hierarquia dos “bons” ou “superiores”, que devem praticar coisas “mais elevadas” como as artes, a guerra (agora a paz), a filosofia (agora descaradamente a ideologia) e a autoridade governante.

A idéia daqueles que se querem crer a “elite intelectual” ou “deuses provedores”, bem como dos oportunistas menos recalcados ou maníacos, é a de que o trabalho de produzir bens e serviços úteis não deve ser atribuição dos “virtuosos” nem das “autoridades”, mas sim dos indivíduos “menos nobres” ou “feitos de ferro”. Como se os que produzem bens e serviços úteis devam se entregar ao arbítrio dos “salvadores” que conhecem a fórmula da “felicidade universal” para homens uniformes ou uniformizados/igualados.

Estes que se postam como “salvadores de massas”, “novos messias”, entre eles o notório Hitler, pensam o mundo tal como este bem o explicitou, dizendo que os doutrinadores devem estabelecer fins, e os políticos devem fazer o que for possível em nome destes fins, utilizando-se de quaisquer meios; cabendo ao povo segui-los, obedecê-los e custeá-los. Explicitamente afirmando: independente dos fins serem ou não realizáveis. (obs.: e certamente independente da sua natureza, se bons ou não, pois que “supremos”, logo acima do bem e do mal julgados subjetivamente: o “ser coletivo” (sic) sobrepõe-se ao indivíduo).

O que pensam estes que se querem impor como elites salvadoras, “de ouro” ou mesmo de “prata”, é semelhante ao que nos esclarece Platão, partilhando da mesma fantasia. Assim, artistas se colocam acima dos “comuns mortais” achando que o governo deve tirar dos que produzem bens e serviços úteis, para sustentar-lhes o fausto; tentando justificar isso na “superioridade da cultura e das artes”. As autoridades e altos burocratas também querem se ver como “superiores que defenderão os pobres da ganância dos malvados”; atletas querem convencerem-se que são o “supra-sumo da espécie” que representam seu povo; também pleiteando que o povo os sustente a tripa forra. Os clérigos não ficam atrás, pois se acham “escolhidos de deus” e querem privilégios e comando (arbitrar a moral). E por aí vão, vaidosos, os que se querem “de prata” e “de ouro”, reivindicando que os “de ferro ou bronze” trabalhem e produzam para sustentá-los. (Obs.: a verborréia da “luta” tem a ver com “os bons”, os “valiosos guerreiros” de prata em defesa de idéias de ouro).

Assim, para realizarem suas manias de glória e hierarquia social (status), não percebem outro meio que não um Poder Coercitivo Absoluto, o Estado Totalitário, capaz de explorar os que trabalham para custear “os melhores da espécie humana”. Não passam de espertalhões e maníacos a seduzir imbecis e recalcados.

Fazem política, então, para doutrinar imbecis e frustrados/invejosos, elevando o Estado à categoria de “deus” abstrato, que existe através dos “homens-deus” que o controlam e determinam as suas magnânimas vontades. Como não poderia deixar de ser, enquanto os “servos do deus” trabalham e produzem para o rebanho (coletivo), os que lhe dão vida destes se utilizam para se locupletarem e realizarem suas manias e glórias - isto é humano, demasiado humano.

Contudo, penso que estes que se querem “rodeados de servos” possuem mesmo é excremento em sua constituição, a julgar pelas asneiras que produzem e as desgraças à que têm empurrado a humanidade. É a vaidade que os ensandece. ...cuisp!

C. Mouro
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...