23 abril 2008

A obsessão de Hillary

Obama tem 1667 delegados contra 1532 de Hillary e está ganhando a disputa pela indicação do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Mais do que isto, Obama transformou as primárias de um fenômeno oligárquico em um processo que tem contado com o comparecimento em massa dos filiados dos partidos, trazendo enorme legitimidade ao processo eleitoral.

A despeito de tudo isto, são necessários 2025 delegados para se obter a maioria da Convenção Democrata, que ocorrerá em agosto. A vantagem de Obama é de 135 delegados e o total de delegados ainda em jogo são 849. O complicado é que não há indício de que Hillary possa ganhar de Obama nas próximas primárias com margem suficiente para alcançar a vitória. Então, por que ela não desiste? De fato, tudo indica que ela deve perder a maioria das próximas disputas.

Ela não desiste porque ela é uma mulher obstinada e dura na queda. Ela tem 60 anos, enquanto que Obama tem 46. É provável que esta seja sua última oportunidade de chegar à Casa Branca. O fato é que existem 795 superdelegados que não são obrigados a votar no candidato ganhador da maioria. A principal esperança da Hillary seria convencer estes superdelegados a abandonarem a sua posição tradicional de apoio ao candidato vitorioso das prévias para apoiarem-na. No futebol chamamos isto de vitória no tapetão.

Quando acusada de constantemente agredir o adversário, a quem chama de inexperiente, ela se defende usando uma expressão que poderíamos traduzir como ‘não sabe brincar não desce para o play’, como diriam os cariocas. Em suas analogias, ela se coloca como Rocky, que não desiste nunca. Apesar de tudo isto, reclama que é tratada com agressividade pelos jornalistas e ocasionalmente chora para mostrar que tem sentimentos.

Outro dia, assisti a uma entrevista com um dos famosos jornalistas do caso Watergate. Ele comentava que se Hillary ganhar esta eleição, os Estados Unidos serão governados por vinte e oito anos por membros de duas famílias, os Bush e os Clinton. Portanto, a democracia americana não estaria funcionando bem.

O engraçado é que o Obama não é um consenso entre os negros. Vários intelectuais e ativistas negros se posicionaram contra a sua campanha. Eles alegam que, no caso da vitória de Obama, não seriam beneficiados pela dificuldade que o mesmo teria de favorecer os negros. Por outro lado, com Hillary como presidente, ela poderia mais concessões aos negros.

Este tipo de pragmatismo não deixa de ser irônico e talvez mal esconda a dificuldade que muitos destes intelectuais terão para explicar porque um negro chegou à presidência dos EUA, que é uma sociedade majoritariamente branca e que discrimina a minoria negra.

20 abril 2008

A Utopia de Brasília

Quando o assunto é política e envolve o Congresso Nacional, Brasília é quase sempre mencionada depreciativamente. Ironicamente, neste momento em que a política brasileira é dominada por homens que carregam a bandeira da igualdade, Brasília deveria ser glorificada por ser talvez a maior realização do igualitarismo em terras brasileiras.

Recentemente, com a atuação dos aluninhos da UnB que resultou na queda do “Reitor das Quotas” em razão da decoração fabulosa do seu duplex funcional de cobertura, Brasília demonstrou que existe uma nova geração de brasilienses de quem se pode aspirar algo melhor do que foram os eleitores de Roriz, que usou as terras públicas de Brasília para se eleger. Culpa também da falta de capacidade da burocracia local em atender as demandas populares e da classe média por moradia.

Desde o Império havia o sonho de interiorizar a capital, e a arquitetura da cidade foi elaborada por um arquiteto comunista descendente de ilustres servidores do Império. O Rio de Janeiro foi a capital por 152 anos e é um local particularmente corrupto e desigual com uma grande população negra que ainda é cidadã de segunda classe apesar de ainda ter grande quantidade de servidores públicos. Possivelmente seja por isso que o Rio de Janeiro gere tantos comunistas. A combinação de servidores públicos, de intelectuais liberais e de desigualdade gera um espaço de experiência de algo insuportável associado a um horizonte de expectativa de busca de mais igualdade nas doutrinas socialistas.

Brasília, com a sua arquitetura comunista onde todos os prédios se parecem e que, segundo dizem, lembram a Europa Oriental, tem a maioria da população empregada no serviço público com faixas salariais com um piso alto e um teto não excessivamente elevado, enfim, um delírio de igualitarismo. Enquanto os monumentos de Washington têm muitos símbolos maçons, Brasília ostenta símbolos comunistas, muitos construídos sob as barbas dos militares.

Ninguém de bom senso nega a necessidade de políticas públicas que efetivamente ataquem as causas da desigualdade na sociedade brasileira; infelizmente, nem sempre quem carrega uma bandeira a serve, e muitas vezes apenas se serve dela. Quem sabe um dia possamos aspirar a que todo Brasil seja como Brasília.

15 abril 2008

A Burocracia no Brasil

A história do estado burocrático é longa em nossa cultura. Desde meados do século XVIII, quando o marquês de Pombal eliminou a exigência de “pureza de sangue” para o acesso aos cargos públicos do estado português, passando pelas reformas do conde Lippe que 'prussianizou' o exército português estabelecendo a exigência de exames para a promoção, têm-se feito esforços no sentido de afirmar a necessidade do mérito. Apesar destes esforços e da busca da profissionalização dos quadros dos serviço público do Império, ainda havia o pecado fundamental do patrimonialismo, marcado pela falta de separação entre os haveres do Rei e seus representantes e do Estado.

Com a separação do Brasil do restante do Império, experimentou-se um retrocesso característico destes momentos revolucionários, marcado também pela necessidade de expansão das forças armadas, o que levou à promoção de oficiais menos qualificados, como também a substituição de servidores do estado português por empregados menos qualificados de origem local. As elites do Império brasileiro continuaram com fortes ligações com as portuguesas, fosse por parentesco direto, fosse por compartilharem de uma mesma cultura política. A grande parte da nobreza portuguesa não tinha 'casas', o que significava, entre outras coisas, que não era hereditária. Ser nobre estava ligado à prestação de determinados serviços e cargos, o que exigia um mínimo de capacitação. O Império brasileiro reforçaria tal concepção, que buscava conciliar a existência de uma nobreza - base do regime monárquico - e valores liberais. Neste sentido, houve uma certa coincidência entre os nobres e os que efetivamente tinham mérito, como o célebre Barão do Rio Branco.

Com o golpe militar de 1889 que pôs fim ao Império, experimentamos novo retrocesso marcado pela total subordinação do estado aos interesses das oligarquias locais, nas quais as relações de clientelismo e patrimonialismo que fazia parte do dia a dia administrativo chegou mesmo a ser reforçado. O golpe de Getúlio Vargas em 1930 teve como uma de suas bandeiras a formação de um estado burocrático manduro, dotado dos rigores de um estado burocrático no melhor estilo de Weber, criando para a promoção do mesmo o DASP – Departamento Administrativo do Serviço Público. Buscava-se erradicar os vícios anteriores.

Infelizmente, as burocracias têm como grande vício a sua crescente preocupação no cumprimento de procedimentos e menor cuidado em atingir metas, além de dispor de poucos mecanismos de incentivo à produtividade. Após o golpe de 64, tivemos a edição do Decreto Lei 200/67, que propôs a criação da administração pública indireta, efetivada pela forma de autarquias, concedendo mais autonomia, o que deveria se traduzir na prestação serviços de melhor qualidade para a população.

Com a Constituinte de 1988, tivemos novo retrocesso com a colocação de todos os servidores públicos sobre o regime jurídico único e o engessamento da atuação das fundações e autarquias. FHC, em seu discurso de posse no Congresso Nacional, informou que o seu propósito maior seria dar fim à Era Vargas. Para isto ele propôs uma Reforma do Estado marcada pela adoção de uma perspectiva gerencial, em detrimento de um perspectiva burocrática. Deu grande ênfase à venda de empresas estatais, à criação de agências reguladoras, à criação de agências públicas sob contrato de gestão e à transferência de serviços públicos para fundações de direito privado que teriam um contrato de gestão e fiscalização por metas e legalidade.

Com a eleição de Lula em 2002 tivemos novo retrocesso, desta vez marcado pela ocupação maciça de importantes posições no governo por membros de um partido - o Partido dos Trabalhadores e dos aliados - , em dimensões nunca antes vistas na história deste país. A qualidade da gestão piorou bastante, mas hoje já começa a ser discutido novamente no âmbito do Ministério da Saúde a recriação de fundações de direito privado para melhorar a qualidade da prestação de serviços de saúde à população. Há algum tempo atrás o presidente Câmara, o Arlindo Chinaglia, ensaiou encaminhar para votação uma lei que previa a efetivação do servidor no órgão no qual estivesse lotado, caracterizando o maior retrocesso administrativo desde o "trem da alegria" da Constituinte de 1988.

Enfim, como já disse alguém, a única garantia da manutenção dos avanços conquistados em gestão está associada ao fortalecimento das instituições e as instituições somente se fortalecem se elas refletirem valores para a sociedade.

09 abril 2008

Timothy I, o Rei da UnB

Acho que nesta altura do campeonato, todo mundo já ouviu falar do Timothy Mulholland, o reitor da UnB que gastou R$ 1.000,00 em uma lata de lixo quando mobiliava o seu apartamento funcional com R$ 470.000,00. Aliás, diga-se de passagem, um apartamento duplex de cobertura novinho em folha. Enquanto isto, a UnB tem dificuldades de pagar as contas de luz e água e muitas das suas instalações estão deterioradas. Quando indagado se renunciaria, Timothy foi categórico dizendo que ele foi eleito democraticamente e portanto não deixaria o cargo. Em sua defesa ele alegou que não roubou e que apenas usufruía dos alegados bens. Além disso, se disse perseguido em razão de ter implantado as quotas raciais na UnB.

Foi com pesar, mas não com surpresa que soube que a Assembléia dos Professores decidira apoiar o seu príncipe. Foi com alegria que vi um grupo de alunos tomar uma atitude cívica ao ocupar a reitoria para obrigar a comunidade universitária a discutir sobre a questão da permanência do Timothy. O problema dos questionamentos é que eles podem gerar respostas não desejadas, até por quem coloca a pergunta.

Aqui vai uma pergunta: quem deve exigir uma postura ética do rei da UnB? Acho que a resposta passa pela definição da universidade federal no Brasil, que é uma propriedade pública, não estatal sem fins lucrativos e que presta serviço de educação e pesquisa para sociedade. Este tipo de instituição goza de autonomia administrativa em relação ao estado, mas não em relação à sociedade. Portanto, o estado, a princípio não deve intervir. Quem então? A sociedade? A classe mais importante da universidade, os professores, que representam 70% do colégio eleitoral, já assumiu uma postura corporativa e colocara-se ao lado do seu príncipe. Um grupo de alunos se posicionou contra, mas existem grupos de alunos, como os da sociologia e da antropologia, que se colocou ao lado do reitor. A este grupo se soma parte dos funcionários, que eu arriscaria dizer serem na maioria gratificados. Espero que os "alunos das quotas" não venham em socorro do reitor por se sentirem devedores. As quotas são uma política de estado e não um favor de qualquer pessoa.

Já ouvi muita gente criticar a burocracia, mas uma boa burocracia resolveria o problema da falta de decoro do reitor, pois existiria regras e um procedimentos a serem seguidos de forma impessoal, com a devida publicidade e uma decisão seria tomada e assumida por um grupo de dirigentes da universidade. Infelizmente, a UnB ainda está abaixo do patamar burocrático. Lá ainda vivemos o estado patrimonialista, no qual a categoria dos professores se apropria da universidade e se identifica com o seu Rei, simplesmente se recusando a discutir ou se posicionar oficialmente sobre a questão. Isto é covardia e autoritarismo pois a categoria dos professores não assume formalmente a sua posição. Omissão de socorro é crime e a omissão dos professores seria o que? Cumplicidade.

06 abril 2008

Onde está o poder no Sistema Político Brasileiro?

Hoje somos uma República Federativa que adota o presidencialismo de coalizão. Nosso presidente tem poderes singulares nomeando os membros do Supremo Tribunal Federal e controlando o Legislativo. A vantagem desta estrutura é que a governabilidade está garantida, mas a presença de um presidente extremamente carismático e popular é paradoxalmente uma ameaça à própria democracia.

Quando os EUA adotam em 1776 o presidencialismo federativo como sistema de governo, eles romperam vários paradigmas. Primeiro, os EUA, como uma democracia liberal, deram ao Judiciário o status de poder independente, visando impedir que o assembleísmo pudesse ameaçar o direito de propriedade. Na França, o Judiciário é apenas um serviço público que media conflitos, não tendo nenhuma competência para analisar a constitucionalidade da produção legislativa. A opção brasileira foi pelo Judiciário estilo americano. Aparentemente, Lula tem respeitado esta instituição ao não nomear para o Supremo Tribunal Federal seus “companheiros”, mas reputados juristas.

Diferentemente de vários países europeus, os eleitores brasileiros votam diretamente em seus candidatos e não em partidos. Recentemente, se propôs a alteração disto com a adoção da lista fechada, o que aumentaria o poder das Executivas Nacionais dos partidos que escolheriam as pessoas que assumiriam as vagas ganhas pelo partido na eleição. Um modelo destes valorizaria a “cúpula” do partido, além de permitir a adoção de um sistema quotas para mulheres e negros. Esta direção enfraqueceria o chefe do Executivo que teria que lidar com partidos mais poderosos como Gramsci recomenda.

O nosso Congresso tem várias peculiaridades. O voto de um paulista, por exemplo, vale em média a metade do voto de qualquer outro cidadão brasileiro, pois São Paulo atingiu o teto de 70 deputados e não pode ter os 120 que uma votação igualitária lhe permitiria. O voto de um acreano vale os votos de 8 paulistas.

No Congresso americano, apenas os parlamentares seniores podem ocupar posições de destaque em comissões, sendo que estas têm bastante importância, favorecendo a especialização dos parlamentares por assuntos. No Brasil, o Congresso é controlado pelo Colégio de Líderes que indica os membros das comissões e pode afastá-los a qualquer momento. As comissões servem, na maioria das vezes, para impedir que assuntos que não sejam do interesse do governo cheguem ao plenário. Além disso, os líderes podem votar as matérias no lugar dos seus liderados, permitindo que uma "meia dúzia" caras substitua o Congresso.

O presidente brasileiro tem poderes singulares. Ele é o único que pode ter iniciativa em matérias relativas ao orçamento, ele pode fazer medidas provisórias, ele pode encaminhar uma matéria com urgência urgentíssima obrigando que a mesma seja decidida na primeira reunião do Congresso, e pode ainda trancar a pauta do Congresso com suas medidas provisórias se elas não forem votadas. Por fim, se o Congresso conseguir votar alguma coisa, o presidente ainda tem poder de veto. Além disso, o presidente do Congresso geralmente é escolhido a dedo pelo presidente da república, impedindo que qualquer dos seus vetos sejam apreciados pelo Congresso. Aliás, estão engavetadas há anos dezenas de vetos presidenciais de negociações fechadas com o Congresso. A presidência é tão poderosa que os partidos engordam ou se desidratam de acordo com o pertencimento ou não a sua base de apoio.

Além disso, no caso atual, ainda temos um presidente extremamente carismático e popular, que tem sabido surfar nas boas condições da economia. Diante disso, o que um parlamentar pode fazer? A única coisa sensata, ou seja, colaborar com o presidente esperando ganhar alguma emenda de bancada no orçamento ou, quem sabe, uma emenda individidual. Se ele pertencer ao colégio de líderes, poderá aspirar a ter algum apadrinhado em um cargo que lhe dê visibilidade ou então algum apadrinhado em uma empresa estatal com um gordo orçamento. Se um parlamentar da base contrariar o governo em alguma votação ele pode irritar o líder, perder uma emenda no orçamento, perder um apadrinhado, não ter financiamento, ser até expulso...Agora se o cara já tiver prestígio suficiente e grana ele fica menos dependente do Executivo e do partido.


O presidente Lula diante da sua popularidade recorde decidiu federalizar as eleições municipais transformando-as em um plebiscito do seu governo. Dependendo do resultado, ele poderá tentar emplacar no final de 2008 uma emenda propondo o fim da reeleição. Nesta hipótese, o seu sucessor não poderia se reeleger permitindo o seu rápido retorno. Com uma mudança constitucional como esta ainda haveria a possibilidade dele usar o Supremo para lhe facultar concorrer dentro das novas condições caso estas sejam aprovadas. Neste caso, ele nem deixaria o poder conseguindo dar um golpe como fez o Fernando Henrique que legislou em causa própria.


Se ele conseguir isto, pode ser que fique no poder o tempo suficiente para o seu partido reunir poder o suficiente para convocar uma constituinte e escrever uma nova constituição, refletindo o equilíbrio de poder interno da coalizão petista. Se isto acontecer então o populismo de Lula poderá ser apropriado pelo autoristarismo gramsciano dos petistas que saberão usar uma constituinte para transferir o poder que hoje está concentrado no presidente para um partido-príncipe a la Maquiavel.

02 abril 2008

Por que existe a pobreza?

Uma das respostas possíveis sobre a pobreza foi a de Solow, um celebrado economista neoclássico que quando entrevistado afirmou que pobreza foi a situação que ele enfrentou na sua infância e que hoje o que se chama de pobreza para ele não era pobreza.

A sabedoria popular brinca que se o sujeito não nascer rico, ele ainda tem a oportunidade de ficar rico casando. Recordo-me de um estudo americano que afirmava que grande parte da riqueza era explicada não pela educação, mas pelas escolhas de associações das pessoas. Assim, alguém que trabalha com pessoas ou em empresas bem sucedidas tem grandes possibilidades de também enriquecer. Isto contraria um pouco o consenso que tende a explicar o sucesso em decorrência da educação.

O jovem autor marxista militante Rodrigo Castelo Branco afirma que no Brasil a questão da pobreza é vista a partir da um consenso social-liberal. Na opinião dele, este consenso propõe como solução para a pobreza o aumento do foco dos gastos sociais, o que é diferente do aumento dos gastos públicos. A melhora da educação como forma de distribuição de oportunidades que permitam às pessoas ingressar no mercado de trabalho é outro ponto deste consenso.

Na sua visão marxista militante e livre do reducionismo da decadente ideologia do pensamento burguês, a pobreza se deveria a outros fatores, quais sejam: a existência da propriedade privada dos meios de produção; “condição subalternizada e passiva do trabalhador frente ao capitalista e à situação esta que se mantém pela criação de um imenso aparato político-ideológico legitimador das condições subjacentes à produção de riqueza.”

Enfim, para ele, existe a pobreza porque existe o capistalista. Todo mundo concorda que a produção de bens deve gerar excedentes, senão ela não é sustentável. Ocorre que no nível de generalização da teoria do valor do trabalho de Marx não existe tempo, nem risco, nem poder de mercado, nem sequer setores da economia, nem tecnologia, nem empreendedor: nada disto. Existe o trabalho passado na forma de capital e o trabalho presente e como o trabalho passado só contribui com depreciação, então se conclui que o excedente “mais-valia” é gerado pelo trabalhador. Para o pessoal do PSTU haveria aí um roubo do trabalhador, conforme podemos ver na lietra do Hino da Internacional, entretanto, um bom marxista sabe que o trabalhador foi remunerado pelo seu custo de renovação e que isto não é um relação de “exploração”.

Enquanto os marxistas pretendem o fim da propriedade privada e do capitalismo, os chamados social-liberais sugerem medidas como a reforma previdenciária em detrimento do servidor público, a cobrança de mensalidade em universidades públicas. É o velho debate: enquanto alguns querem reformar, outros querem revolucionar.

27 março 2008

O Manifesto da Geração Coca-Cola

Uma das minhas músicas preferidas é Geração Coca-cola do Legião Urbana. Além de ser uma música divertida para festas também é retrato da Geração posterior à famosa Geração 68. Talvez a Geração Coca-cola no Brasil tenha sido a primeira geração a se afastar da cultura européia e trocar as aulinhas de francês por inglês.

“Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.”

A Geração 68 é a que está no poder hoje no Brasil. Como já disse anteriormente, os heróis desta geração no Brasil foram Fidel Castro e os seus inimigos foram os militares. Antes que eu me esqueça, o critério que eu estou escolhendo na definição de geração são os fatos que marcaram a transição de adolescentes para a fase adulta. Um expoente da Geração 68 é o famigerado José Dirceu(1946-?).

“Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”

A Geração Coca-Cola ainda era criança quando os militares chegaram ao poder. Renato Russo (1960-1996) foi membro desta geração. Diferente da engajada Geração 68, que sonhava com o mundo dos ‘camaradas’, a geração coca-cola, identificada com o movimento punk, apregoava uma nova revolução dos costumes.


Se o Aécio Neves (1960-?) for eleito nosso próximo presidente, teremos uma troca de poder e de geração. Por outro lado, se a Dilma Roussef (1947-?) for nossa próxima mandatária, então a Geração 68 conseguirá reter o poder. Nos Estados Unidos, mais precisamente no Partido Democrata assistimos a uma luta entre a Hillary (1947-?) portanto, da geração 68 versus o Obama (1961-?).

“Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola”

Embora esta música esteja dialogando com a geração que deu o golpe de 64 e não a que lutou contra ele, podemos reinterpretá-la a partir da nossa atual experiência. Assim, a Geração Coca-Cola está preparada depois de assistir a Geração 68 mostrar “todas as manhas do jogo sujo”, depois de ter sacrificado todos os ideais juvenis no altar da obsessão do poder total. Quando vejo o Lula abraçado ao Chavez e tratá-lo por ‘pacificador’, não consigo conter o meu nojo. É o encontro de dois populistas carismáticos, um militarista e outro da Bolsa Família. Graças a Deus, o Brasil é maior que a Venezuela...

“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser”

Depois da Geração Coca-Cola, tivemos a Geração que assistiu a queda do Muro de Berlim e ao desaparecimento do mundo bipolar. Esta geração viveu com grande ceticismo a retomada da democracia, a primeira eleição direta, o governo Collor, além de ter pego os militares em uma fase mais light.

“Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis”

Por fim, tivemos a Geração FHC que assistiu ao nosso grande intelectual marxista tentar extirpar o corporativismo e o patrimonialismo do estado brasileiro, promovendo a amputação de algumas partes. Para estes jovens, o diagnóstico do velho professor marxista convertido ao liberalismo de que o maior inimigo do Brasil não eram os EUA, mas o estado corporativista no estilo Vargas, era por demais complicado para que eles pudessem digerir e muitos deles foram presas de um bando de professores preguiçosos e ressentidos tipicamente de esquerda. As gerações vão e vem e não há progresso. Também não devemos de ter vergonha por não querer carregar os valores da geração anterior. Pessoalmente, acho que o Brasil precisa ficar livre da Geração 68, pois esta já deu o que tinha que dar e já roubou o que tinha que roubar. Bye bye Geração 68.

23 março 2008

Lula e os Menores Infratores

Recentemente, um amigo teve a sua casa assaltada em São Paulo. Ele faltou vários dias ao trabalho para resolver questões como o registro de ocorrência, seguros e outros. Quando ele nos contou como a coisa se deu não fiquei surpreso da quadrilha contar com um menor. Segundo ele, uma mulher tocou a campainha e pediu para falar com um dos moradores pelo nome, o que fez a empregada abrir a porta. Em seguida, dois adultos e um adolescente invadiram a casa.

Felizmente, era uma quadrilha profissional que apenas roubou tudo o que havia de valor e amarrou os moradores no banheiro enquanto levava o carro com tudo o que podia levar. O chefe da quadrilha era um meliante na casa dos quarenta anos e nenhum deles estava chapado. Brinquei com ele que ele tivera sorte que os caras eram profissionais, que tinham ate mesmo um menor para segurar a bronca caso algo mais violento se sucedesse.

Não é uma brincadeira de bom gosto, mas é uma realidade inegável. Hoje e sempre, o Estatuto da Criança e da Adolescência serve para garantir o ingresso das crianças e adolescentes no crime. Esta quadrilha tinha uma vaga garantida para um menor exatamente para ele assumir a responsabilidade por qualquer violência que fosse cometida.

Lembrei-me dos meus tempos de Vara da Infância, quando cuidava dos processos dos menores infratores. Naquele época, a prisão temporária era de 45 dias e o processo tinha que correr rapidamente para impedir que o adolescente fosse liberado. O mais impressionante dos monstrinhos tinha mais de dez assassinatos, incluindo o massacre de um casal de namorados que havia sido surpreendido em uma carro. Quando anunciaram que o jovem iria vir para uma audiência foi um alvoroço, eu mesmo estava curioso em conhecer o autor de tantos crimes cujos detalhes eu conhecia de ler os processos.

Confesso que foi um pouco decepcionante, pois ele parecia um adolescente absolutamente normal. A origem socioeconômica dele era a classe media e nada em sua aparência sugeria o perigo que ele representava. A gente brincava que um menor podia entrar em um restaurante, metralhar todo mundo, se sentar e esperar a polícia. porque ele seria liberado quando completasse 21 anos, e com a ficha limpa.

Entretanto, o processo mais aterrorizante que eu já tive acesso foi o de uma dupla de garotos que estuprara uma conhecida em um terreno baldio apos se encontrarem com ela em uma lanchonete. Depois de a matarem, arrancaram o seu útero pela vagina. As fotos estavam lá no processo, que corria em segredo de justiça.

Nestas horas, eu me lembro do Mercadante, que se opôs à redução da maioridade penal e do Lula, na ocasião da morte do João Hélio, arrastado durante o roubo do carro da sua mãe, que afirmou que estes jovens não podiam ser punidos pois eram vitimas de problemas sociais. De fato, graças à imunidade garantida pelo Estatuto da Criança e Adolescência, se está garantindo o primeiro emprego de muitos jovens em boas quadrilhas. O Lula devia estar feliz pois o seu programa do primeiro emprego pelo menos está tendo algum efeito, além de engordar a sua base eleitoral.

21 março 2008

Jesus Salva...e Marx também

Hoje é sexta-feira santa e, talvez por ser um dia religioso, observei vários carros com inscrições como Jesus Salva ou Ele é o Caminho, ou coisas do tipo. Vi um grupo de moças bem vestidas que, ao passarmos por elas, nos entregaram um folheto dizendo que todo o sofrimento cessaria se fossemos para a igreja delas. Na hora, confesso que me lembrei de Buda e as Nobres Verdades.

Ontem, um 'quase doutorando' em Economia, bastante erudito, com quem eu conversava me disse que quando os trabalhadores tomarem o poder e impuserem a ditadura dos trabalhadores, cessará todo o conflito de classes e a verdadeira história da humanidade comecará ... Não pude deixar de retrucar que esta era um idéia messiânica, ou mesmo escatológica.

A realizacão da profecia marxista depende da vitória dos 'trabalhadores' na guerra de classes. Gramsci propôs então a atualização de Maquiavel, substituindo o príncipe pelo partido, ou seja, a estratégia seria fortalecer o partido, englobando a sociedade civil e substituindo as instituições pela hegemonia do partido.

O futuro construído pelos companheiros trabalhadores seria marcado pela substituição da propriedade privada e da livre iniciativa pela submissão a instâncias burocráticas de coordenação política da produção. Curiosamente, o Partido Comunista Chinês, o partido mais poderoso do mundo, age justamente na direcão contrária: monopoliza o poder e libera a livre iniciativa, além de caminhar na direção da propriedade privada. E que Império terrível é o chinês: a colônia tibetana que o diga.

Curiosamente, o marxismo se alimenta da burguesia como o próprio Marx, que passou a vida sendo sustentado por um milionário. A idéia de uma sociedade de iguais criada com a queda do Antigo Regime e o consequente fim dos privilégios da fidalguia é uma concepção burguesa e liberal. Uma das mais remotas fontes desta idéia é o próprio cristianismo com seu ideal da formação da comunidade dos irmãos em Cristo. As doutrinas religiosas monoteístas fizeram muito pela unificação política dos estados. O cristianismo, para muitos, teria criado a Europa a partir da idéia de cristandade. No marxismo, os irmãos em Cristo se tornam os companheiros trabalhadores e, certamente, quando os companheiros trabalhadores dominarem o mundo, cessará todo o sofrimento . Quem conhece minimamente um sindicato não alimenta tantas esperanças.

A propriedade privada é uma instituição recente, com uns duzentos anos ou menos na maioria dos países. Assim, quando d. Joao VI expropria casas no Rio para o corte, estava em seu direito. No feudalismo, se podia até comprar uma propriedade, mas não se podia retirar os servos que estavam ligados à terra e não necessariamente aos senhores dela. Somente com a Revolução Industrial, e mais intensamente no século XIX, foi possível expulsar os servos das propriedades.

Assim, o marxismo depende da idéia burguesa e cristã da igualdade, da ética burguesa e protestante do trabalho, sobre a qual ele baseia toda a sua teoria do valor-trabalho que afinal vem de Adam Smith. Disto Marx deduziu que a existencia da propriedade privada é fruto da exploracao de classe por meio da extracao da mais-valia. Como disse Lenin, Marx se apoiou na economia politica inglesa, na filosofia alemã "invertida" e na teoria política francesa.

Não podemos nos esquecer que no século XIX emergia o Estado como uma instituição de controle de toda a sociedade. Anteriormente, o mais poderoso Rei 'absolutista' jamais sonharia com o poder que o Estado teria a partir do século XIX. Antes, um Rei distribuia justiça e fazia a guerra, enquanto que o Estado de polícia iniciado nos finais do antigo regime ampliou-se progressivamente, atuando na disciplinarização dos corpos para a promoção do bem-comum.

O que o futuro nos reserva? Será que o PT e aliados conseguirão se fortalecer em detrimento das demais instituições até passarem a exercer a hegemonia? Será que as novas igrejas que pregam o sucesso e a felicidade substituirão a velha Igreja Católica? Será que as pessoas entregarão a responsabilidade pela sua felicidade e bem-estar ao Estado? Aguardem na próxima semana, na mesma BatHora, no mesmo BatCanal!

17 março 2008

O que são os EUA?

Em DST's, sexo, moraleiros&negócios, o autor diz:

"A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !"

O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois "eram muito cristãos". O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.
Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.
Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é "mais", o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei... Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, "liberdades". Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de "hipocrisia".
Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas... "Como aqui pode ser chamado de 'país da liberdade' se não me deixam andar na rua?" Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos "cidades carolas" como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.
Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: "Como? A droga não é proibida?" Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou "inferindo", chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido a existência da 2ª...
Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos... Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?
A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente... De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois uma certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo "raciocínio organicista" que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianômami.
Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a "liberdade de proibir", o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta "ditadura da maioria", como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.
Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.
Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico - ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda...). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais "burocratizadamente" porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.
O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de "engenharia social" típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.
Em suma (baita pretensão...), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.
Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um "equilíbrio perfeito", harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, "o troço" acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.
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PS: Quanto aos "30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST", nada encontrei, por enquanto... Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve...

06 março 2008

Os Últimos Dias de Bush

Bush ganhou uma eleição roubada por um juiz da Suprema Corte indicado por seu pai que mandou suspender a recontagem dos votos a pedido de uma procuradora indicada por seu irmão. Na verdade, ele somente conseguiu ser governador do Texas e o indicado do Partido Republicano para a presidência porque seu pai foi um homem extraordinário. O velho Bush foi piloto de mais de uma centena de missões na Segunda Guerra Mundial, tornou-se milionário no Texas, senador, diretor da CIA, embaixador na China, presidente do Comitê das Forças Armadas no Senado, vice-presidente e presidente dos EUA e ainda é o nome do aeroporto do Texas. Por fim, deu porrada no velho Saddam quando ele tentou conquistar o Kwait.

No 11 de setembro, os EUA são atacados por sauditas que haviam sido outrora treinados para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Bush atacou o Afeganistão e devastou os Talibãs, seus antigos aliados em busca de Bin Laden, mas falha completamente ao enviar poucas tropas e ao assistir o ressurgimento das guerrilhas. Novamente, os gringos falharam e não terminaram o serviço, afinal, quando os soviéticos foram derrotados com o apoio americano, o Afeganistão estava devastado e foi entregue a uma população composta em sua maioria por menores de 18 anos e as armas estavam em poder de fanáticos religiosos muito úteis na luta contra os soviéticos mas absolutamente incapazes de entender um mundo não tribal.

O ataque ao Iraque foi no sentido de completar o serviço iniciado por seu pai, que quando derrota Saddam abandona os oposicionistas do regime, que são massacrados pelo ditador quando as tropas americanas decidem não invadir o Iraque. Isto e conquistar muito petróleo. O problema é que hoje os EUA não podem sair do Iraque sem que ele caia sob a influência do Irã. Por outro lado, os democratas querem deixar o serviço feito pela metade. Os republicanos compreendem que, ou se estabiliza o Iraque ou os EUA sofrerão uma derrota de proporções imprevisíveis que junto com a crise econômica e o festival de massacres nas universidades poderiam lançar os EUA em uma profunda depressão.

Bush é um cara simpático, na High School americana devia ser aquele sujeito boa praça que levava os amigos para brincar na mansão do pai e ainda deve ter sido o Rei do Baile de Formatura. Mais tarde se tornou um alcoólatra, falido e salvo por Deus e seu pai do vício e da pobreza. Acho que desde a Revolução Francesa não houve um “Imperador” tão desmoralizado como o Bush. Na TV, ele já tem duas séries de humor dedicadas a ridicularizá-lo e tem fornecido material para os comediantes há anos. A desmoralização do Rei é sempre perigosa, como pode ser atestado pela Revolução Francesa. Fidel Castro mesmo é extremamente intolerante contra a crítica ou o ridículo do governante porque como um revolucionário prático ele conhece o seu poder. Para ele, lugar de comediante é apodrecendo na prisão.

Enfim, já que o Bush fracassou completamente em termos geopolíticos e mais recentemente econômicos com o avanço da China, ressurgimento da Rússia, desvalorização do dólar, recessão, fracasso no apoio ao golpe contra Chávez, e ainda temos o ressurgimento do socialismo na América Latina, então ele talvez pudesse nos fazer um favor e jogar uma bomba no Palácio Presidencial de Chávez. Com isto, ficaríamos livre de uma corrida armamentista e uma possível guerra. Quanto aos efeitos colaterais, seriam mínimos pois tenho certeza que Chávez não conseguiria se tornar um mártir, afinal, Che fica bem melhor em uma camiseta.

02 março 2008

A Esquerda e a Guerra na América do Sul

Recentemente, foi morto um dos sete membros do secretariado das FARC, cujo acampamento estava 2 quilômetros dentro do território do Equador. Diante deste incidente, Chávez respondeu que se algo semelhante ocorresse na Venezuela, poderia ser a razão para uma guerra. Diante destes eventos, lembrei-me das minhas professorinhas do ensino médio e da sua mania de dizer que vivíamos em um lugar de paz eterna na América do Sul e que, portanto, não havia sentido em gastar dinheiro com armas em um país onde as pessoas passavam fome.

A Colômbia está em guerra civil há quarenta anos com esta guerrilha do Partido Comunista Colombiano que conta com simpatizantes pelo mundo afora, inclusive o mais popular historiador marxista, o Eric Hobsbawm, que criticou as injustiças do estado colombiano, a quem nega legitimidade. Enfim, agora sabemos como a elite das FARC sobrevive: alguns estão na floresta venezuelana, outros na equatoriana, e talvez haja alguns em território brasileiro. Depois da declaração de Chávez, podemos ter certeza de que parte do secretariado das FARC está escondida na Venezuela.

Apesar de não vivermos no Brasil em uma guerra civil declarada, entre 1996 e 2006 foram assassinados meio milhão de brasileiros. Os esquerdistas culpam a existência de armas de fogo e a injustiça social por isso. De fato, creio que boa parte destas mortes é explicada pela ação das quadrilhas de traficantes de drogas e pela existência de grupos de extermínio. O nível atual de organização das quadrilhas de traficantes de drogas deve muito aos antigos presos políticos da esquerda. Quanto aos grupos de extermínio, são a solução encontrada pela comunidade e por comerciantes, que pagam a policiais para exterminar jovens criminosos. De fato, a eliminação destes jovens pode até ser um fator de redução do número de assassinatos. Enquanto isto, os esquerdistas vêm com este papo furado politicamente correto defendendo a proibição da venda de armas e com campanhas para desarmar os cidadãos corretos, que pagam os impostos que sustentam a corja dos companheiros ,como vimos detalhadamente no escândalo do Mensalão, dos Cartões e das ONGs.

Mas voltando à questão da segurança sul-americana, temos agora uma possibilidade de guerra real à vista, caso o governo colombiano mate algum membro da elite das FARC na fronteira com a Venezuela. Uma guerra na floresta amazônica iria obrigar a mobilização do exército brasileiro na floresta para evitar que ela fosse usada pelas forças em conflito. A simples presença das forças brasileiras, por outro lado, aumenta o risco de “acidentes”. Levando em consideração os nossos atuais governantes, o peso das nossas forças poderia ser colocado ao lado dos venezuelanos, enquanto os Estados Unidos perfilariam ao lado da Colômbia... E poderíamos dar adeus à longa paz sul-americana. Mas o que alguém poderia esperar destas odiosas doutrinas marxistas que explicam a história pelo conflito entre opressores e oprimidos?

Devemos agradecer muito disso ao grande Fidel Castro; em um artigo surpreendente do Mino Carta ele se pergunta o que teria acontecido na América do Sul se a Geração 68 não tivesse se deslumbrado com a Revolução Cubana e desejado adotar o seu modelo. Talvez a história tivesse sido diferente e os americanos tivessem reagido menos histericamente os governos populistas que aos seus olhos se tornavam um foco de comunistas ansiosos por se aliar à União Soviética. Em certo sentido, tudo começa com a reação exagerada dos EUA diante da perda da sua influência em Cuba, o que acabou jogando Castro no colo dos soviéticos.


Fidel fez um grande estrago, as repercussoes da Crise dos Misseis mataram Kennedy, derrubaram Kruchev e lançaram os americanos em um Cruzada contra os seguidores dos grandes heróis cubanos na America do Sul. Neste ponto, uno-me à saudação de John McCain, que, a respeito da saída de Fidel do poder, desejou-lhe uma partida breve para o inferno para se encontrar com Karl Marx.

27 fevereiro 2008

A Herança Maldita da Esquerda

O presidente Luiz Inácio “Não sabe de Nada” da Silva costumava dizer que tinha recebido uma herança maldita de Fernando Henrique. Dizia que a venda das empresas de telecomunicação pelo dobro do preço do mercado como ficou demonstrado um ano depois havia sido “entreguismo”. No fundo, nós sabemos o que incomoda a cambada petista, foi a eliminação de mais de 200 cargos de diretores que havia no Sistema Telebrás que teria permitido a nomeação de muitos “companheiros”.

O crime organizado deve muito aos antigos presos políticos que ajudaram a formar várias grandes organizações criminosas. No Rio de Janeiro, houve a gestão Brizola que proibiu a polícia de subir o morro e com isto destruiu a ação do Estado na acepção weberiana de monopólio da violência nestas regiões. O padrão histórico da expansão da cidade do Rio de Janeiro havia sido o de expulsar os pobres ocupantes de áreas não regularizadas para a periferia. Graças a Brizola ficou marcado uma inversão deste paradigma. Mas o Brizola ainda está alguns níveis acima desta cambada petista graças a sua preocupação com educação e a atuação de Darci Ribeiro. Recentemente, tivemos a denúncia de envolvimento do secretário da ex-prefeita Marta “Relaxa e Goza” Suplicy com o PCC por ele ter pedido emprego para seis dos seus membros. Ele quase foi eleito presidente do PT, mas aí ia ser muita bandeira.

O maior legado da gestão Lula foi a destruição do Bolsa Escola, este programa que havia sido bolado pelo ex-companheiro Cristóvam Buarque e que tinha como meta tirar as crianças da rua e colocá-las na escola. O companheiro Lula percebeu que este plano era um programa de estado mas não gerava voto afinal estudante não vota. Preferiu transformar este plano em um Bolsa Família e expandi-lo para o atendimento de pessoas com direito a voto. Graças a sua jogada ele conseguiu se reeleger com o apoio de mais de 80%¨dos votos do Nordeste. Lula se tornou o grande coronel que substituiu as cestas básicas dos coronéis nordestinos pelo cartão do governo federal. E falando em coronelismo chegamos ao patrimonialismo desta gestão.

Os companheiros pensam que a administração pública é a casa deles, ou seja, patrimonialismo, como ficou bem claro pelas notícias acerca do uso do cartão corporativo do governo que andou sendo usado em tudo, inclusive manicura e padaria. Curiosamente, os dois usuários denunciados cuja utilização do cartão escandalizou as pessoas normais estão ligados ao tema das quotas raciais. A ministra das Quotas, gastou mais de R$ 100.000 com aluguel de carro somente em um ano, cá entre nós, acho que ela estava tentando ser ressarcida da “dívida histórica”. E, por fim, tivemos o reitor gringo da UnB, o Mulholland que liderou a implantação das quotas raciais na UnB e que gastou quase R$ 500 mil na reforma do apartamento funcional além de ter facilitado a contratação de consultorias para duas prefeituras petistas.

Sempre achei que este papo de vítima e de coitadinho acaba dando nisso pois se a pessoa se sente credora e tem a oportunidade de meter a mão, então ela pode fazer isso sem dor na consciência. Isto é, se tiver consciência. Por fim, chegamos ao terrível Mensalão que transformou o Estado e seus recursos em instrumento do Partido dos Trabalhadores no exercício da sua vocação totalitária e gramsciana. Hoje, temos dezenas de ONGs se locupletando com os recursos dos contribuintes incluindo a que foi fundada pelo próprio Delúbio que aparentemente os companheiros não deixaram na mão considerando a sua aparência sorridente.

25 fevereiro 2008

Putin, o Czar da Rússia

Com o fim da União Soviética, a Rússia decidiu aderir ao capitalismo. As máfias existentes em seu país se aliaram a antigos burocratas do partido para privatizar os principais ativos e deixar o povo na miséria. Este processo expoliatório fez o PIB russo encolher mais de 50%, superando as perdas sofridas na Segunda Guerra Mundial. Para completar, o país era governando por um alcoólatra, em processo de perda das faculdades mentais. O último ato de Boris Ieltsin foi nomear um ex-oficial da KGB para assumir o seu cargo.

Vladímir Vladímirovitch Putin foi diretor para assuntos externos da KGB até 1991, passando a diretor de política externa de Ieltsin em 1996 e principal ministro em 1999. Assumiu como presidente interino e foi eleito presidente da Federação da Rússia em 2000. Desde que chegou à presidência, 13 jornalistas que faziam oposição a seu regime foram eliminados, já viram que lá jornalista chato não tem vez.

Com o aumento do preço do petróleo, a partir de 2000 e com uma política de nacionalização de ativos, Putin conseguiu iniciar a retomada da economia russa e começar a colocar a União Européia em uma posição de grave dependência de seu gás.

De acordo com Robert Amsterdã, a estratégia russa está muito ligado à sua estatal de gás, a Gazprom, cujo presidente, Dmitry Mdvedev, deverá ser o futuro presidente da Rússia, enquanto o próprio Putin deverá ser o próximo presidente da Gazprom.

“A estratégia da Gazprom apóia-se em três táticas: cooptação - cultivando parcerias com determinados países, líderes políticos e companhias, como alavancas de seus interesses; preempção - usando as mais altas esferas de poder e a diplomacia russa para manipular condições de mercado e arrebanhar ativos; e desagregação - cindindo a UE mediante acordos bilaterais.”

Na União Européia, a Rússia usa sua parceria preferencial com a Alemanha para dividir os interesses dos países europeus, usando e abusando de acordos bilaterais. A concorrência iraniana é dificultada pela própria ação americana, que reduz a capacidade de investimento daquele país. Quanto à Ucrânia, recentemente a Rússia cortou o fornecimento de energia devido ao povo ter eleito um governo considerado não alinhado aos interesses russos.

Enfim, a poderosa Shell teve investimentos multibilionários expropriados por meio de intimidação, enquanto empresas privadas do país sofrem pressão de uma coalizão de mafiosos, ex-agentes da KGB e de agentes do governo, que obriga os concorrentes da Gazprom a buscar parcerias com a gigante estatal.

Por fim, no plano da política externa, a Gazprom mostra ambição em ampliar a sua influência por meio da troca de ativos com a Argélia, uma das maiores produtoras de gás do mundo. Com isto, a influência russa poderia ser estendida a todo o planeta. Os Estados Unidos, tentam incentivar a Turquia e as ex-repúblicas soviéticas a montar suas próprias infra-estruturas de fornecimento, mas até o momento a política russa tem triunfando.

23 fevereiro 2008

De como voltei a ser feliz

Entre meus prazeres diletos estão as óperas. Nem todas, é claro. Wagner me afasta do gênero. Der Ring des Nibelungen me assusta. Fora isto, curto Verdi, Puccini, Rossini, Donizetti, Bizet. E Mozart, obviamente. Há pelo menos três óperas que revejo umas três ou quatro vezes por ano. Don Giovanni, Die Zauberflöte e Carmen. Tenho várias interpretações de cada uma, pois cada encenação é uma outra ópera. As melhores destas três são:

- a de Don Giovanni, pela Wiener Philharmoniker, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel do personagem-título e Otto Edelman fazendo um magnífico Leporello.

- a de Die Zauberflöte, com coro e orquestra do Ludwigsburger Festspiele 1992, regida por Wolfgang Gönnenwein, com Deon Van deer Walt como Tamino e Ulrike Sonntag como Pamina. Papageno e Papagena são interpretrados por Thomas Mohr e Patrícia Rozario.

- quanto a Carmen, não é uma ópera encenada, mas filmada, com exteriores de Sevilha e Ronda. O filme é de Francesco Rosi, Plácido Domingo faz Don José e a Carmencita é interpretada por Julia Migenes. Entre as várias Carmens que tenho – uma inclusive cantada em italiano, e o efeito é ótimo – a de Rossi é a mais divina. O momento em que a gitana tenta seduzir Don José é de uma sensualidade – como direi? – espeluznante. De arrepiar.

Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.

Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du role, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.

Foi também em Paris que vi uma molecagem divina feita pela Tereza Berganza. Em Don Giovanni, quando Zerlina canta:

Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!



Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo.

Há grandes momentos em todas as grandes óperas. Mas um outro que me fascina, por seu humor, é a famosa listina de Leporello, em Don Giovanni, quando o criado enumera, a uma apaixonada e perplexa Dona Elvira, as conquistas de seu amo:

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che che amo il padron mio
Un catalogo egli è che ho fatt' io;
Osservatte, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Allemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia; in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son gia mille e tre.
V'han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V'han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse
E v'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma, d'ogni eta.
Nella bionda egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza
Nella bruna la constanza
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estare la magrotta;
E la grande maestosa,
La piccina è cognor vezzosa
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista
Sua passion predominante
E la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
Se sia brutta se sia bella
Purchè porte la gonnella,
Voi sapete quel che fa.


Saindo de minhas três diletas, uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.

ALFREDO
Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

TUTTI
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

VIOLETTA

Tra voi sapro' dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto e' follia nel mondo
Cio' che non e' piacer.
Godiam, fugace e rapido
E' il gaudio dell'amore;
E' un fior che nasce e muore,
Ne' piu' si puo' goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.

TUTTI
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo di'.


Em suma, foi em Paris que descobri o mundo da ópera. Dito isto, vivi ultimamente uns seis meses de infelicidade. Ocorre que encontrei aqui em São Paulo um restaurante dos mais charmosos, senti que ali havia espaço para música mais sofisticada, e levei a suas proprietárias dois DVDs, para que tirassem uma cópia. Um, o Don Giovanni da Wiener Philharmoniker. Outro, a Carmen, do Francesco Rosi. Confesso que levei os DVDs com certa apreensão. Eram obras muito valiosas para mim e tinha medo de perdê-las.

Não deu outra. A Carmen – a mais fascinante de minhas Carmens – foi extraviada. As moças se propuseram a encontrar uma outra. Inviável. O DVD está esgotado. Procurei tanto na Amazon como na Fnac de Paris. Nada feito. Indisponible. Vivi então estes últimos meses como se estivesse mutilado. Não seria feliz enquanto não tivesse minha Carmen de volta.

Dichosos dias estes de Internet – como diria Alonso Quijana. Em um grupo de discussões, Antonio Bemfica, um internético amigo do Canadá ouviu minhas lamúrias. Descobriu a ópera em uma biblioteca e fez uma cópia. Eu a recebi na semana passada e voltei a ser feliz.

Rodízio Democrático no Poder

Como dizem os teóricos, partido não feito para ficar na oposição mas para chegar ao governo. E quando chega ao governo nenhum partido fica satisfeito em governar. Ele quer sempre propor alterações na Constituição porque todo partido quer mudar o estado e a Constituição é ao mesmo tempo estruturada pelas instituições e estruturante do Estado.

Tudo na vida é dirigido por pessoas, inclusive os partidos. Como disse Churchill quando estava sentado no parlamento, os adversários sentam-se à frente mas os inimigos estão atrás e ao nosso lado. Neste sentido, em todos os partidos, muitas pessoas e grupos sonham em exercer o poder. Mas uma vez que um grupo consiga controlar um partido e uma pessoa consiga controlar um grupo ele tentará se manter pelo maior tempo que puder apesar dos líderes terem estatisticamente uma expectativa de vida menor que os cidadãos. O poder garante uma dose embriagante de atenção para velhos que de outra forma seriam esquecidos.

Quando um partido chega ao poder ele pretende tornar a máquina administrativa do estado em um instrumento do seu poder. Ele nomeia milhares e apadrinha outros milhares e garante que ninguém ligado a grupos que não façam parte da sua coalizão possa exercer cargos na sua administração. Todo partido desviará recursos dos cidadãos para fortalecer as suas ONGs que por sua vez fortalecerá o partido. E no fim, todo partido acredita que tudo é justificado porque o seu interesse é o interesse da sociedade, e, portanto, roubá-la é para o seu próprio bem.

A maior tolice cometida por Fernando Henrique foi o crime cometido contra a democracia ao permitir a reeleição de uma pessoa para um cargo majoritário. Este tipo de instituição favorece o poder carismático criado entre indivíduos que consigam hipnotizar grandes multidões. Além disso, ele legislou em causa própria, mais um dos grandes vícios dos governantes .

Uma instituição que poderia favorecer o aperfeiçoamento da democracia seria a proibição da reeleição e ainda a proibição de um partido permanecer na coalizão que controla um governo majoritário por mais de dois períodos. Ao se proibir um partido de concorrer a um terceiro mandato estaríamos libertando a máquina administrativa do Estado dos vícios instaurados e se estaria fazendo uma faxina na rede clientelar instalada. Uma medida desta ainda teria a vantagem de garantir leis mais justas porque todo partido saberia que não lhe interessaria fortalecer demasiadamente o governo porque com certeza de tempos em tempos ele iria ter de ficar na oposição.

22 fevereiro 2008

A Estabilidade no Emprego para os Maus Empregados

O presidente Lula continua embriagado com a sua popularidade assustadora, apesar dos recorrentes escândalos do seu governo. Hoje, anunciou que irá encaminhar ao Congresso proposta no sentido de proibir a demissão imotivada e ontem defendeu a ministra que tentou tirar do cartão corporativo toda a “dívida histórica” da sociedade para com os negros.

Nunca na história deste país houve tanta corrupção. Antes quem roubava era a elite. Agora milhares de companheiros encontram-se espalhados pela administração pública e montados cada um no seu cartãozinho corporativo, que lhe faculta algumas despesas pessoais com o dinheiro dos contribuintes. Para o povo fica o cartão Família dado pelo "pai Lula".

Quanto à proposta de estabilidade dos empregados, acho preocupante porque quem irá decidir se um empregador poderá demitir um empregado será um juiz do trabalho. E como todos sabemos, de bumbum de neném e de cabeça de juiz nunca se sabe o que sairá. De fato, o empregador terá o ônus da prova, ou seja, será culpado até que se prove o contrário.

Existem várias maneiras de se tentar resolver os problemas criados por esta lei e a cultura do jeitinho brasileiro existe exatamente por isso, para lidar com leis criadas por bandidos em gentezinha bem intencionada. Os bandidos sabem que se estará criando milhares de empregos para advogados, criando mais centenas de vagas para juízes do trabalho e aumentando o poder dos sindicatos que poderão interferir nestas questões. Em Brasília está sendo construída mais um gigantesco palácio para os juízes do trabalho e este ano os sindicatos estão comemorando recordes de arrecadação do imposto sindical.

Conheço empresários que já estão acostumados a ser extorquidos por sindicalistas e que agora terão de pagar, além das indenizações previstas para a demissão, ao empregado um extra pelo menos igual ao custo de uma ação trabalhista. Vamos ter situações ridículas de empregados dispensados do trabalho, sendo remunerados e aguardando a decisão da justiça.

Para as pessoas sensatas, entre as quais espero me incluir, isto simplesmente significa o aumento dos custos para o empregador, o que pode resultar em salários menores, menos contratações, e perda de dinamismo para a economia. Talvez para os socialistas do governo, tudo isto seja uma vitória, porque eles provavelmente acharão que os coitadinhos dos trabalhadores estarão sendo tutelados pelo sindicato e pela justiça e protegidos contra o demoníaco capitalista. Enfim, os serviços vendidos por eles estarão com uma demanda garantida. Quanto ao bom empregado, bem educado, bem qualificado que não precisa de nada disso, caberá a ele financiar a boa vida desta turma toda.

17 fevereiro 2008

O Pecado Original da Propriedade Privada

Como já disse inúmeras vezes Paulo Francis, marxismo é religião. Vindo de um ex-trotskista, isto pode não ser grande coisa. Arnold Toynbee escreveu que o comunismo é uma heresia cristã. Seria uma doutrina adequada aos homens cientificistas e positivistas do século XIX. O fato é que temos alguns paralelos bastante interessantes nas duas doutrinas.

Um das principais questões teológicas é o pecado original, que explicaria porque o homem é um ser imperfeito, que não desfrutaria da comunhão com Deus, a partir da sua expulsão do paraíso. Rousseau, um dos pais do socialismo, acreditava que o pecado original se deu quando alguém disse que algo lhe pertencia.

Engels se baseia neste acontecimento de natureza econômica, o advento da propriedade privada, para explicar o nascimento do Estado moderno, que seria algo equivalente à expulsão do homem do paraíso. Para ele, o nascimento da propriedade privada enseja a divisão do trabalho, a formação das classes, o surgimento do Estado de polícia para proteger o status quo.

Marx, por sua vez, se propunha a ser um novo apóstolo João ao propor o Apocalipse do estado moderno e do capitalismo. Em seu Evangelho sobre o capitalismo ele explica que as contradições materiais do sistema levarão à sua queda.

Marx conseguiu transformar o sistema de produção capitalista em pecado por meio da invenção da mais-valia. Grosseiramente, o produto vale mais que os insumos necessários para a produção e o único insumo que pode ser remunerado com menos valor do que vale seria o insumo trabalho, porque o insumo equipamentos sofre depreciação. A partir deste raciocínio, ele considera que o capitalista é um ladrão e que os verdadeiros donos de tudo são os trabalhadores. Ele menospreza questões como risco, complexidade da produção, poder de mercado e se refugia na produção média em equilíbrio para sustentar este argumento.

Marx era um economista clássico como o pastor Adam Smith que definia as pessoas pelo trabalho e considerava que se estas tinham perdido parte do seu valor e não controlavam as condições nas quais elas produziam, então elas haviam perdido a graça. Para recuperar a graça perdida era preciso tomar consciência e escapar de um estado de alienação. Mais religião, as pessoas estavam cegas e perdidas na ilusão. A verdade era a consciência de classe.

Por fim, após a expiação dos pecados com o sacrifício dos inocentes que morreriam na Revolução, o homem retornaria ao seu Estado original, no qual a comunhão com os outros homens seria restabelecida com o fim do estado e com o desaparecimento da propriedade privada. Seria o fim da história e início do paraíso na terra, onde todos os homens seriam irmãos trabalhadores, teriam segundo as suas necessidades e produziriam segundo as suas possibilidades.

No comunismo real, como toda a religião, as punições para os descrentes foram terríveis, condenados pela Inquisição, tivemos: o banimento de milhões para os gulags da União Soviética, o envio de outros tantos para o campo na Revolução Cultural Chinesa, que buscava restabelecer a pureza dos camponeses na corrupta população urbana, e o assassinato de praticamente todas as pessoas alfabetizadas do Camboja pelo Khmer Vermelho. As pessoas morrem mas as utopias assassinas são eternas.

16 fevereiro 2008

O Público e o Privado

Temos assistido recentemente como os conceitos de público e privado não estão claros na cabeça de vários petistas. A ministra Matilde alegou em sua defesa que não compreendia as regras de uso do cartão corporativo do governo federal, tendo efetuado as despesas* por ter sido mal orientada por dois assessores, que já haviam sido desligados: pelo menos para estes o “justiçamento” foi rápido.

Esta não é mesmo uma questão trivial. Para Toffoli – advogado de campanha do Lula, do Dirceu e da República –, as informações privadas dos cidadãos que o Estado reuniu devem ser disponibilizadas entre os seus vários órgãos, ampliando o seu uso em benefício do bem-comum. Assim, a declaração de renda, movimentação bancária e outros circulariam entre os órgãos do governo.

No Antigo Regime, quando tivemos Reis Absolutistas, que governavam sem um contrato social e sem constituições, nunca houve tamanho controle sobre a população. Um Rei podia muito, mas estava limitado pelas tradições, pelas corporações e pela sua ignorância sobre seus súditos. Enquanto isto, a democracia petista se debate entre ter que prestar contas à sociedade dos gastos feitos pelos seus agentes que ocupam posições importantes no governo, mas não titubeia quanto a impor aos cidadãos uma total transparência diante dos órgãos do Estado.

Este é um problema que não se circunscreve ao Brasil. Na Venezuela, hoje considerado o país mais corrupto da América Latina, temos a “boli”, a elite bolivariana, formada de militares, membros do partido e servidores públicos que tornaram a república socialista bolivariana no maior consumidor per capita de uísque escocês da América Latina. Lula bem que poderia ser um bom garoto propaganda da nossa cachaça, junto a esta nova elite...

Na UnB, a separação entre o público e privado também anda confusa. O professor Timothy Mulholland, americano naturalizado brasileiro e um dos maiores responsáveis pela implementação da política de quotas raciais na UnB, morava até recentemente em uma cobertura duplex da universidade, dispunha de um carro executivo de luxo pago não pela universidade, mas por uma instituição dedicada ao financiamento da pesquisa, além de uma lata de lixo de R$ 990,00. Em sua defesa, ele alegou que não desviou nada mas que era apenas usuário daqueles bens pertencentes a universidade.

Estas constatações estão alinhadas com as percepções de Roberto Campos, que afirmava que o Brasil havia descoberto um novo tipo de capitalismo, pelo qual o Tesouro e os contribuintes são explorados por uma nova classe, os burgueses de estado.

Enfim, onde ficamos? Esta nova elite brasileira de petistas e altos tecnocratas, como o reitor Mulholland, será capaz de promover a felicidade do povo e criar aqui um estado de bem estar social ou está apenas se servindo de utopias que os legitimem como nova classe dominante?

* Gastos da ministra: 126 000 reais: aluguel de carros;35 700 reais: hotéis e resorts;4 500 reais: bares, restaurantes e padaria;460 reais: free shop;4 800 reais: despesas diversas.

15 fevereiro 2008

Existe o que se chama “democracia radical”?

– Comentário ao Liberdade de Imprensa, DEMOCRACIA e Liberdade de Expressão[i] de Ralf Rickli


Prelúdio

O que significa, exatamente, uma “democracia expandida até seu limite máximo”? Se algo é radical, isto é, se vai até suas raízes, uma democracia radical não seria plutocrática, tal qual a ateniense?

Se definirmos democracia como algo mais que a ordem da maioria, mas algo que pressupõe a existência de uma minoria, então a democracia é mais do que um fazer valer majoritário. Além de seu fim, ela depende de um meio, processo dir-se-ia que consiste numa “regulação de conflitos”. Se “a guerra nada mais é que a continuação da política por outros meios”, como poderia atestar Clausewitz, a democracia é a possibilidade da política sem a guerra.

Informação democrática

Podemos concordar que a imprensa, para aqueles que defendem alternativas a sua relação com a democracia, não é democrática. Sim, mas a alternativa não passa por uma regulação (estatal) da própria imprensa. Assim como segue o raciocínio de que para a democracia se faz necessário “mais democracia”, uma “democracia radical”, para a imprensa vale a mesma medida, mesma posologia. A solução para a tendenciosidade, desinformação, manipulação não é um controle sobre a imprensa existente, mas justamente, “mais imprensa”, mais veículos de informação discrepantes que venham a traçar uma salutar competição interna que expresse os dissensos externos.

Didaticamente falando, soluções para o oligopólio da informação brasileira, rádio e TV não consistem no monopólio da informação tal como se vê na Venezuela de Chávez.

Seguindo a mesma lógica, se os “detentores de capital” têm maior liberdade que os não detentores, qual a solução? Ou se estatiza ou se privatiza? Esta é uma falsa questão e o mundo não acaba aí. Evidentemente que nossas privatizações, não raro, substituíram modelos monopolistas públicos(sic) por modelos oligopolistas privados, o que significa trocar seis por meia dúzia. Por outro lado, se não há gradação entre o que é publico (ou se é estatal ou não é), o mesmo não vale para a esfera privada. Podemos ter 51% das ações de uma empresa nas mãos de um único grupo ou podemos ter seu capital “esfarelado” por mais acionistas. Da mesma forma podemos ter várias empresas descentralizadas competindo num mercado de informações e é aí que reside alguma “democratização da informação” como produtor da mesma e não meramente como consumidor desta.

Somos indivíduos, somos opressores

Forças armadas também são públicas. Por seu turno, civil não é militar. Trocando em miúdos, se “ser civil” é um atributo público (e privado), nem tudo que é público pode ser civil. A questão é de como se estrutura o “público” e de como se é civil. Mas, isto depende do meio de cultura em que se insere. Evidentemente, em um país como o Brasil, “público” não quer dizer, necessariamente, propriedade comum ou bem de todos, ainda mais quando levamos nossa tradição patrimonialista em consideração, na qual ocorre uma apropriação (não capitalista) de um bem coletivo de forma ilegítima e por vezes ilícita. Já “civil” em paises como os EUA incluem tantas obrigações quanto direitos. Diferentemente daqui, civil não é passe livre para um “deixa estar” ou “deixa sangrar”... Ser civil inclui ter ordem. Muitos tomam esta palavra como o oposto de liberdade, o que não é verdade. Podemos ter uma ordem livre que se oponha a um caos livre. Isto não significa um simples jogo de palavras, uma mera discussão semântica. Como exemplos teríamos a discrepância entre uma ideologia anarco-punk e o pensamento liberal.

Se “o Estado tem sido mesmo (...) uma força opressora da população” e “o poder econômico não-estatal nunca foi menos”, então, com a permissão do sofisma, a opressão é um meio de relacionamento normal. “Estado”, “poder econômico” são categorias analíticas coletivas e se pautar por elas implica em adotar um método onde a esfera da ação individual fique imersa nestas próprias categorias anulando os indivíduos, sua existência e ações reais. As categorias coletivas só existem porque existem indivíduos e não o contrário. Quando se fala em “estado”, “poder econômico” se suprime o que há de real, a saber: indivíduos, ações e interações. Reitero, o que temos que focalizar não é a categoria coletiva, que não passa de um efeito, mas sim suas causas, isto é, a ação e interação individuais. A partir desta premissa podemos ver que há sim dominação, opressão, luta, guerra e toda sorte de manipulações, mas também há cooperação, parcerias, associativismo, concorrência etc.

Quando descemos das nuvens da abstração para a concretude do chão, quando deixamos de falar em nomes que representam grandes números e vagas imagens para o aqui e agora, pessoas e lugares, datas e episódios é que compreendemos que o mais simples nos leva a entender o mais complexo e, não o contrário. A história da humanidade não é uma história da luta de classes, nem uma história de opressão, opressores e oprimidos. É uma história de indivíduos em que opressão e libertação caminharam juntas e, não raro, de mãos dadas. Luta é a palavra tomada como intermezzo, enquanto que na verdade é a própria perenidade.

Definições e equivalências

A “invenção democrática” não foi implantada, efetivamente, em nenhum lugar? O socialismo, tal qual concebido, também não o foi. So what? O que propomos? Que se pense a democracia não enquanto projeto ideal, mas enquanto realidade. Ao invés de partirmos de uma análise lamuriosa, com um wishful thinking pessimista da “democracia que poderia ser”, tal qual se faz com o socialismo, o que deveríamos fazer é analisar a democracia que aí está, tal qual se faz com o capitalismo. O projeto utópico implica em revolução, que sempre nega o dissenso. O realismo reformista parte do pragmatismo com um plano viável e objetivos exeqüíveis. Melhor seria pecar pela humildade da construção social tentando adequar interesses muitas vezes díspares do que pelo excesso, cujas externalidades podem nos colocar sete palmos abaixo do chão.

Não se pode contribuir para o objeto de paixão com argumentos, igualmente, passionais.

Democracia não é antônimo de Liberalismo, mas de Ditadura. Liberalismo é sim antônimo de Socialismo, dada a conjuntura histórica entre os séculos XIX e XX. A primeira oposição parece óbvia, a segunda nem tanto, mas se nos atermos a questão da Propriedade Privada vs. Propriedade Estatal fica claro entender por que. A propriedade privada evoluiu historicamente, mas não num sentido linear. Vez por outra seu direito reflui, como foi o caso do Medievo e das Revoluções Socialistas. Daí que toda sorte de totalitarismos, seja teocrático ou marxista corrobora para o ataque a liberdade, inclusive a de ter propriedade.

Voltando a questão da informação, a propriedade de “manipular cabeças” é a mesma liberdade de manipulação existente entre humanos, seja num clã, tribo ou agrupamento mais complexo. Esta “tirania” não tem “fim” senão pelo próprio contrapeso de outras “manipulações” dadas democraticamente. Como uma doença crônica, ela nunca tem fim, mas pode ser administrada, controlada até. A questão é menos do sentido de manipular do que do direito de manipular, exceto se alguém acredita em total isenção de valores. Crer em um mundo de pessoas neutras e com o mesmo sentido de valores me parece mais um sonho de uma “sociedade técnica”, algo que agradaria Comte ou Spencer.

(Continua...)
[i] Itens 1 e 2.
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