30 setembro 2007

Divagação Erudita

Introdução

Feliz 119!
Dedico este post ao novo membro do Pugnacitas, André Balsalobre, que veio à luz há exatos trinta e um anos, no reveillon do ano 88 da Era da Salvação, iniciada em 30 de setembro de 1888 do falso calendário.

Obviamente, não falo a sério. Entro no espírito de uma brincadeira feita por Nietzsche na data da conclusão de seu ensaio “O Anticristo”, 30 de setembro de 1888, há 119 anos.

30 de setembro é também o dia mundial do traidor, digo, tradutor. Traduttore = traditore, dizem os italianos. A homenagem nasceu do dia onomástico de São Jerônimoooo, padroeiro dos paraquedistas e praticantes de bungee jump e traditore da Bíblia para o latim a partir de manuscritos em grego e hebraico, no século IV d.C..

No dia 30 de setembro de 1452 Gutenberg apresentou o primeiro livro impresso: a Bíblia. Uns setenta anos depois, Lutero, valendo-se do invento do conterrâneo, difundiu pelas populações alemãs milhares de cópias do Novo Testamento traduzido por ele próprio para o alemão (saxão). Celebra-se entre os protestantes a tradução de Lutero como um símbolo de libertação em relação à Igreja de Roma. No entanto, existem várias impressões da Bíblia em alemão anteriores à versão do traditore Lutero, como podemos ler no verbete Versions of the Bible, da Catholic Encyclopedia. Trecho: “Of special interest are the five complete folio editions printed before 1477, nine from 1477 to 1522, and four in Low German, all prior to Luther's New Testament in 1522”.

Segundo os católicos conservadores, o livre exame das escrituras promovido pelos protestantes teria permitido a vulgarização e a profanação da Bíblia pela figura do "caçador de contradições". Segundo eles, as contradições apenas mostram o grave erro em que se incorreu ao dar a cada cristão a possibilidade de ser um exegeta. Como não existem explicações na própria Bíblia para as contradições, seria necessário um intérprete autorizado por Deus para harmonizar as diversas passagens, para explicar as divergências valendo-se da Tradição. A autorização de Deus viria por meio do sedizente sucessor de Pedro: o Papa. Para tais católicos seria muito melhor para a cristandade se os livros ainda fossem reproduzidos manualmente, por copistas.

“Tradição” não significa “traição”, é claro. Mas podemos traduzir a palavra para “prevalência da vontade das facções mais barulhentas e poderosas dos concílios”, “crendices populares consolidadas por gerações”, “sufocamento sistemático de 'hereges' e de inimigos da tradição", necessária esta para futuras interpretações baseadas na tradição.

Caçadores de contradições não faltam. Há milhares de sites Web afora dedicados a denunciá-las. E, como não poderia deixar de ser, outros tantos milhares a refutá-las.

Divagação Erudita

Nietzsche escreveu no supracitado ensaio, referindo-se não à hagiografia católica, como pode parecer ao se retirar o trecho de seu contexto, mas às páginas da Bíblia: “Que me importam as contradições da ‘tradição’? Como alguém pode chamar lendas de santos de ‘tradição’? As histórias de santos são a mais dúbia variedade de literatura existente; examiná-las à luz do método científico na ausência total de documentos corroborativos a mim parece condenar toda a investigação desde suas origens – isso seria simplesmente uma divagação erudita...”

Eu escrevi em determinado ponto do post Elemental, meu caro Watson: “Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para ‘simbologias’”.

Mas confesso que às vezes me apraz fazer pescaria na Bíblia, fisgar botas revestidas de untuosos plânctons, pneus (hagia pneuma) e outros trastes velhos atirados pelos pais do cristianismo ao já poluído e enturvado lago divino, verdadeiro Piscinão de Ramos em cujas águas milhões e milhões de ignorantes diariamente se banham e contraem as mais diversas moléstias, comumente aquelas que atacam o córtex cerebral, a área do cérebro responsável pela razão.

Então, nesta última hora deste 30 de setembro, faço uma inútil “divagação erudita” sobre uma pescaria que fiz um bom tempo atrás.

Em Jerash

Vocês podem não ter fé em mim, mas no dia 30 de setembro de 1992 eu e um colega de universidade visitávamos as ruínas de Jerash (Gerasa), uma cidade da Decápole Romana, chamada hoje pelos jordanianos de "Pompéia do Oriente", a mesma alcunha dada pelos sírios à Palmira (Tadmor), e naquele local eu, à época um católico “exemplar”, tive meu primeiro contato com uma contradição bíblica, mais precisamente uma impossibilidade geográfica.

Pois bem, estávamos tão extasiados a explorar as preciosas ruínas por tantos séculos esquecidas no deserto, a contemplar a perfeição da pavimentação das ruas, com sarjetas, meios-fios e calçadas, a elegância dos templos e colunatas cujas cores esquentavam-se ao crepúsculo, que perdemos o último ônibus que saía para Amã, onde eu executava algumas pinturas para o Patriarcado de Jerusalém. Cliquem aqui para ver a capa do Livro History of Modern Christianity in the Holy Land, ilustrada com um óleo de minha autoria. As cores estão mortas na reprodução. A torre contra o sol gera uma auréola na Igreja de Mádaba, cidade próxima ao Monte Nebo, camarote do qual Moisés imaginou com pesar os massacres do povo cananeu que se consumavam a poucos quilômetros. Com pesar por não ter sido autorizado a participar, claro. Quem mandou ferir a rocha duas vezes com a vara para que brotassem as águas de Meribá?

O primeiro lugar onde nos ocorreu procurar pernoite foi a igrejinha que havia em Majdal, um dos vilarejos vizinhos, de maioria muçulmana. O padre, um francês, torceu o focinho para o nosso pedido. Por sorte, um muçulmano que passava pelo local parou quando viu os dois estrangeiros e, posto a par da questão, achou que era uma boa ocasião para vender a “grandeza” de sua fé e expor a hipocrisia da concorrente. Insistiu para que o padre nos indicasse algum canto da construção principal ou de seus anexos onde pudéssemos nos recostar até a manhã seguinte. O padre, que em determinado momento parecia disposto a ceder, após a interferência petulante do islâmico recusou-se peremptoriamente a nos dar abrigo. O outro proferiu com voz empostada de muezim que a hospitalidade era um dever do muçulmano e que ainda que fosse no mihrab da Mesquita arranjaria um local para nos abrigar contra o frio da madrugada.

No fim das contas, dormimos na casa dos pais do rapaz, que deram uma pequena festa em nossa homenagem com música ritmada por derbake, sucos, frutas, pães e queijos. Acabamos retornando a Amã somente seis dias depois porque os vizinhos quiseram que dormíssemos também em suas casas para que pudessem exercitar a hospitalidade. Os convites eram feitos ríspida e guturalmente enquanto nos seguravam pelos punhos, impedindo que cruzássemos o vão da porta. De fato, apenas despertávamos sua curiosidade, tanto que na quase totalidade das vezes o preceito da hospitalidade era esquecido tão logo os anfitriões esgotassem as frases prontas em inglês e nós as em árabe...

No terceiro dia, dormimos na casa de um certo Mohammad, cujo inglês era bem aceitável, apesar do sotaque. Durante o jantar falou muito, exaltou a região e sua história, o islamismo e, como não poderia deixar de ser, criticou a fé rival: “Alá não é três, é um!”, “Jesus não é um deus. Ele é um profeta do Islã”. Desatou a listar os erros do livro sagrado dos cristãos e acabou por citar Marcos 5, onde é descrita a visita que Jesus e sua gangue fizeram à terra dos gerasenos: Gerasa, ou Jerash. Para ele, a prova de que Marcos não fora testemunha de episódios da vida de Jesus como a sua prisão no Getsêmani residia no fato de que o verdadeiro autor daquelas linhas ignorava detalhes importantes da geografia da região.

Retirado da Bíblia Católica:

Marcos, 5
Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros, pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus, que não me atormentes." É que Jesus lhe dizia: "Espírito imundo, sai deste homem!"
Perguntou-lhe Jesus: "Qual é o teu nome?" Respondeu-lhe: "Legião é o meu nome, porque somos muitos". E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte. E os espíritos suplicavam-lhe: "Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles." Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti." Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.


Impossibilidade Geográfica

Jesus atravessa o Mar da Galiléia e ainge o território dos gerasenos. Jerash está a aproximadamente 60 km a sudeste do Mar da Galiléia (vejam no mapa e na fotografia ao lado, a partir do Google Earth. Philadelphia é a atual Amã). Mesmo antigamente, o território dos gerasenos era limitado por Pella, também da Decápole, Hippus, Gadara e Raphana, não sendo lindeiro ao Mar da Galiléia - apesar do nome, um lago de água doce.

Jesus expulsa uma legião de demônios de um só possesso e, como bem avaliou Bertrand Russel, ao invés de usar seus poderes divinos para simplesmente mandá-la embora, leva o(s) suinocultor(es) desconhecido(s) à falência - e quem sabe parte da economia da região, pois eram 2000 porcos! A propósito, para quê povos da província romana da Arábia, árabes portanto, que também não consumiam este tipo de carne necessitavam de população suína tão grande? Ordenhavam as fêmeas?* - e permite que os demônios possuam os animais, causando a morte de todos eles. Não parecia ser essa sua intenção inicial mas atende às súplicas dos capetas... E como tudo isto se passa nos domínios de Gerasa, os porcos-lemingues correm mais do que uma maratona para se precipitarem na água.
“A César o que é de César”, teria dito o homem-deus. No entanto, ao autorizar o suicídio induzido de dois mil porcos lesou os cofres de Roma, que tinha direitos sobre parte dos lucros do(s) criador(es) de porcos.

Outro ponto é que não existem precipícios na orla do Mar da Galiléia, quase sempre plana, no máximo os montes que originam as Colinas de Golã, ao nordeste. Precipícios podem ser encontrados mais ao sul, na região do Mar Morto, mas mesmo lá há praias entre os rochedos e a água. Em Marcos os porcos caem diretamente no Mar da Galiléia. Jesus não se importou com a salubridade da água, que servia aos moradores daquelas paragens. Dois mil porcos em decomposição devem ter transformado a água em um caldo bacteriano extremamente nocivo, matando peixes, arruinando pescadores e impedindo os humanos de consumi-la. Não foi à toa que a população escorraçou o Galileu e sua trupe. Pela interpretação de alguns religiosos os habitantes de Gerasa expulsaram Jesus da sua terra por amarem mais os porcos do que a Deus, he he.

Em Mateus 8, 28, lemos:

“No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.”

Agora são dois os endemoniados e Jesus não desembarcou mais em Gerasa mas em Gadara, que distava uns 10 quilômetros do Mar da Galiléia. Pelo menos a chance dos porcos-lemingues morrerem afogados e não enfartados aumenta um pouco no Evangelho segundo Mateus...

Sujo falando do Mal Lavado
Mohammad irritou-se com algumas objeções que fiz. Na época argumentei que aquelas pequenas diferenças eram mais uma prova de que os Evangelhos eram autênticos, pois se o texto de Marcos tivesse sido escrito a partir do de Mateus e não por inspiração divina as informações não seriam conflitantes. Ele disse então que o livro sagrado dos muçulmanos havia sido ditado letra por letra por Alá e que por isso era muito mais confiável do que a Bíblia, “inspirada” e por isso plena de contradições.

Hoje sabe-se que inúmeras outras versões do Alcorão foram deliberadamente destruídas durante os primeiros califados. Em Sana, no Iêmen, encontraram nos anos 70 fragmentos de um Alcorão da metade do séc. VIII que continha passagens diferentes das que vemos na versão atual, o que deveria sepultar a ridícula crença dos muçulmanos de que cada vírgula de seu livro sagrado foi ditada pelo enViado de Alá, o anjo Gabriel, o mesmo que fez o primeiro exame pré-natal em Maria. Mas seria exigir demais dos pobres muçulmanos. Quando ouvem falar dos manuscritos de Sana dão as explicações Ad Hoc de qualquer religioso fanático: "aquilo foi plantado pelo Shitan (diabo) para confundir os crentes".

Não quero perder meu tempo pescando no imundo charco do Alcorão. Minhas “divagações eruditas” não descem tão baixo...

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* - update: Certamente havia uma boa quantidade de romanos e de povos helenizados na região, ainda mais na Decápole, e não viam problemas em desfrutar de um bom lombinho assado de vez em quando. Infelizmente sem as rodelas de abacaxi, afinal os fenícios, caso tenham estado na América antes de Colombo, esqueceram-se de carregar para a Síria mudas da preciosa bromélia.

27 setembro 2007

República Popular do Brasil

Em 2022, na comemoração dos 200 anos da independência política em relação a Portugal, estaremos comemorando os 20 anos da chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores. O Brasil terá então sofrido algumas mudanças em direção à democracia socialista, com novas atribuições do Estado, cuja estrutura política decorrerá de uma Constituinte que terá acontecido entre 2010 e 2020.


Para começar, o Brasil deixará de ser uma federação e o poder central terá sido consideravelmente ampliado em detrimento das oligarquias regionais. O Senado terá deixado de existir, juntamente com a federação, e os Estados se tornarão unidades administrativas com menor autonomia. Retornaremos ao sistema getulista.

Com o fim do Senado, o Congresso passará a ser unicameral. Além disso, terá então sido implementada a lista fechada. Os cidadãos votarão nos partidos, que nomearão os deputados de acordo com a lista definida pela Executiva do Partido. Os parlamentares que votarem contra decisões da Executiva perderão o mandato. O PT continuará como principal legenda de uma ampla coligação da esquerda e de alguns partidos clientelistas.

Lula deixará a presidência e passará a ser o secretário-geral da Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores. Juntamente com os demais membros da Executiva escolherá os membros da bancada do partido no Congresso, cujo maior partido certamente será o PT.

O Estado se imiscuirá nos grandes projetos do setor privado por meio de PACS. Caso um projeto do setor privado não estiver incluído no PAC será um código para que não haja apoio de órgãos do governo ao projeto. Para garantir a colaboração dos órgãos da administração, todos eles serão dirigidos por companheiros do partido, cuja indicação passará pelo Gabinete Civil da Presidência e cuja permanência dependerá da assiduidade no pagamento da contribuição para o partido. Haverá então mais de 100.000 filiados em cargos de confiança gerando uma expressiva receita para o partido, que finalmente realizará o seu sonho de instalar um diretório em cada um dos 5.000 municípios brasileiros.

O Brasil fará uma aliança militar com a Bolívia, Argentina, Venezuela e Cuba para a defesa mútua das democracias socialistas. Os militares e policiais brasileiros farão cursos de aperfeiçoamento e desenvolvimento em Cuba e na Venezuela, sendo que o Ministério da Justiça será sempre dirigido por um membro da Executiva Nacional do Partido. A ABIN será reformulada e ampliada, passando a ser dirigida também por um membro da Executiva.

Os brasileiros que não estiverem satisfeitos com o estado geral das coisas emigrarão para os Estados Unidos, Canadá ou para a Europa. O país perderá um pouco de mão-de-obra qualificada, que será substituída por cubanos também muito bem educados. Aliás, para garantir a qualidade da educação, a autonomia das escolas particulares será sensivelmente reduzida e os livros didáticos sofrerão amplas revisões para garantir que as lutas sociais recebam o destaque que merecem.

A Globo então já terá abandonado qualquer crítica ao governo, em troca de mais propagandas e financiamentos do BNDES, e a TV do Executivo apresentará uma série de programas educativos e informativos sobre as ações do governo. Com isto estará eliminado o risco de uma ditadura da imprensa. A Marta será embaixadora do Brasil em Paris, onde não causará mais estragos ao partido, e o Jacques Wagner será presidente da Republica. Nossa bandeira sofrerá leves alterações; continuará verde mas terá acrescida uma estrela vermelha, e a divisa mudará talvez para Liberdade e Eqüidade.

Leia também o post Brasil 2022, de quando eu não tinha uma bola de cristal.

21 setembro 2007

A xícara de chá quebrou

Há uma frase de Auden, de um poema dos anos 30, que contém tudo o que eu gostaria de dizer neste post: “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead”. A tradução é chata. A melhor palavra para crack seria racha, mas soa mal em pelo menos dois sentidos. A frase, em inglês, à parte a harmonia maravilhosa (“opens a lane to the land” é o fino) não tem uma palavra latina, corre em monossílabos e dissílabos, o que lhe dá uma dureza perfeita para contrastar com a imagem aparentemente suave da morte do conteúdo. Mal traduzida, mas literalmente: “A racha na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.”

A xícara de chá representa a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. A rachadura, a quebra dessa ordem, abrindo a vereda (a base da aristocracia, de títulos e de dinheiro, dos ingleses, é o campo) para as hecatombes de 1914 e 1939. A xícara de chá há muito foi arquivada na cristaleira. Hoje a Coca-Cola é o que já está rachando e, com ela, o cálice papal e outros utensílios domésticos vendidos às velhas gerações como inquebráveis. Pois Auden pegou foi o momento exato da quebra, que ainda estamos vivendo e que parece, estranhamente, institucionalizado. Nossa civilização lembra aqueles quartos horríveis onde agora põem as pessoas à morte nos hospitais. Tudo no corpo da vítima, já morta para efeitos práticos, é controlado eletronicamente. O moribundo vai se arrebentando aqui e ali. O “sismógrafo” registra a quebra. Entra alguém e tapa o buraco. A agonia se prolonga.

Mas nosso organismo, para ficar na imagem médica, não decai como um todo. Partes dele tentam sobreviver, rebelam-se, mantém uma exasperada vida própria, resistindo. Quem esperava a Igreja Católica refletida por João XXIII? Nem Olavo de Carvalho nem eu. Só o totalitarismo da Igreja, sedimentado em séculos e sugerindo uma ilusória coexistência de opiniões diversas — assim como alguns prédios velhos parecem ter em cada canto uma arquitetura única diferente do conjunto — só o totalitarismo preservou a fé institucionalizada (a fé de cada um é outra conversa, infinitamente variável) em face do furacão do materialismo, onde, no mínimo, três “bestas” apocalípticas são visíveis: Darwin, Marx e Freud. João XXIII achava que o melhor do crisitianismo, o respeito ao indivíduo, o desprendimento de coisas materiais, a caridade, etc, poderiam influenciar o pensamento moderno, e resolveu abrir a porta para esse cavalheiro. Foi o mesmo que convidar um leão a entrar na arena.

Depois de 44 anos de stalinismo, alguém esperava a Primavera de Praga? Nem o Departamento de Estado dos EUA nem eu — o primeiro só descansou quando a URSS restabeleceu a “verdadeira” democracia na Tchecoslováquia. Tão ou mais preocupados do que os burocratas do Kremlin com aquela revolução estavam os americanos. Já pensaram no efeito de um socialismo democrático na Europa Ocidental e no resto do mundo, àquela época? O que deteve o comunismo não foi o anticomunismo bestialógico, hoje exemplificado de maneira grotesca em um Olavão, mas o medo da classe média de uma tirania de partido único.

Os velhos sistemas racharam de vez, como dizia Auden. Não tem conserto, mas curiosamente ainda está para acontecer o desabamento. Talvez por isso os mandarins do pensamento antigo acreditam que vão sobreviver, melhorando e reformulando suas receitas de salvação. Os católicos mais progressistas acham que o pensamento moderno é um tigre de papel, domesticável. Ou, na pior das hipóteses, capaz de ser fundido com o cristianismo. É possível, mas improvável. Toda a filosofia moderna destina-se a demonstrar o caráter finito do homem, sua prisão dentro do corpo. Cumprida a nossa sentença na Terra, acabamos. Nem mesmo a idéia de uma ordem cósmica, no sentido idealista, resisitiu a Einstein, que, depois, talvez chocado com as implicações do que descobriu (à maneira de Darwin), passou o resto da vida tentando refutar-se a si próprio, inutilmente.

Não deixa de ser irônico que tanta gente genial tenha se esforçado tanto para convencer-se e convencer-nos de que somos umas porcarias, válidos, lúcidos e inseridos no contexto por uns meros 60 ou 70 anos.

O velho cristianismo dizia o contrário: isso aqui é uma porqueira, mas se a gente agüentar firme, com fé, sem revoltar-se, vai sem escalas para o paraíso eterno. Os jovens católicos e outros progressistas (ou esquerdistas) da Igreja estão certos, naturalmente, quando dizem que essa imagem de cristandade serviu de pretexto para que os ricos explorassem os pobres crentes que iriam à forra no além. Um dos motivos principais das perseguições de revolucionários franceses, russos e outros à Igreja era exatamente esse. Esse também era o motivo do sucesso da Igreja tradicional junto às camadas dirigentes, as quais, na hora da morte, pediam perdão pelos seus pecados terrenos.

Claro, estou fazendo uma caricatura. Todo mundo sempre acha que está fazendo o bem. Qualquer teólogo pode produzir 300 textos “antigos” da Igreja contra a exploração do homem pelo homem (e os materialistas outros 300, onde a posição se inverte). Culturalmente, porém, o divisor de águas entre a nova e a velha Igreja é a militância social. Nenhum católico progressista ou moderno admitiria dizer hoje, como São Paulo: “Os senhores poderão ir à igreja acompanhados de seus escravos.” Os católicos do tipo Olavo de Carvalho, por sua vez, nem deixariam os escravos entrarem.

Algumas pessoas acreditam que uma das conquistas revolucionárias do cristianismo foi a conceituação da inviolabilidade do indivíduo, a valorização por igual de todas as almas perante Deus. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que rejeitava como transitória a vida neste vale de lágrimas, defendia essa vida para todos os homens, sem distinções, condenando inclusive o direito ao suicídio. De qualquer maneira, só quem conhece História sabe o tournant que esse pensamento representou no destino humano.

Não estou sugerindo que o cristianismo fosse cumprido à risca em qualquer época. O darwinismo, antes de Darwin postulá-lo, é que sempre foi a lei da Terra. E não raro manipulado pelos mentores do próprio cristianismo “pela maior glória de Deus”, slogan que um comunista do passado converteria para “em defesa da revolução proletária”. Por trás do blá, blá, blá, naturalmente, processava-se a sobrevivência dos mais aptos. Mas, dizem, o cristianismo fincou a idéia da inviolabilidade do ser humano, ao menos na consciência das chamadas minorias esclarecidas. Mesmo os humanistas ateus e materialistas que o combateram como corrupto, esclerosado e inconsistente com a realidade do mundo, a partir do Séc. XVIII, teriam aceitado a premissa cristã do direito individual, que inexistia (?) na Antigüidade.

De qualquer maneira, em nosso tempo é que houve uma curiosa reversão. As ideologias modernas põem um abstrato bem coletivo acima do indivíduo. Os maiores crimes, de Hitler, Stalin, Pol Pot e o diabo lá sabe quantos mais, foram e são cometidos em nome dos ideais exaltados da democracia, do comunismo e da herrenvolk (os nazistas, a bem da verdade, eram mais sinceros do que os outros em seu darwinismo, botando pra quebrar em benefício próprio, escancaradamente). Há nisso também um paradoxo. O materialismo declara finita a vida do homem na Terra. E, no entanto, os ideólogos do salvacionismo pela política acham justo o sacrifício de milhões de indivíduos — sem vida eterna — em favor de uma hipotética sociedade justa no futuro. Há método nessa loucura, mas loucura é.

George Orwell está certo quando diz que ideologias, filosofias e crenças de toda espécie perdem todo e qualquer sentido se desacompanhados de um respeito decente pelo próximo. A opção, em última análise, tem de ser moral. A pergunta que nos devemos fazer é: você gostaria de ser tratado como milhões de seres humanos são tratados por aí? Ainda que pela “maior glória” do Deus que você adorar?

Quanto maior a repressão ética, maior a violência repressiva de seus proponentes, como se a grandeza dos fins exigisse uma baixeza equivalente dos meios usados para alcançá-la.

A meu ver, nada disso mais dá pé. Por exemplo, duvido que uma “nova” igreja, mesmo moderninha, volte a interessar à maior parcela pensante da humanidade. Quanto ao padre sujo, de batina puída, de pasta corroída, onde se encontra o mapa do Céu, que ele nunca nos mostra, preferindo descrever a planta do inferno, esse já era. Aliás, porcaria e moralismo, se não são inseparáveis, dão-se muito bem. O odor da “santidade” de São Jerônimo, cuja intolerância do gênero humano fez com que ele impedisse sua mãe de vê-lo quando ele estava à morte, tornou-se um caso clássico da psicanálise. Essa relação do homem com detritos, seus e externos, é uma forma de expressão sexual, segundo Freud. Esse item do conhecimento já deve ter entrado nos seminários depois que João XXIII levantou a tampa do sarcófago, mas no passado ainda se admirava São Francisco de Assis provando cocô de burro (relutantemente, diga-se em favor dele), como punição por suas insignificantes transgressões monásticas.

E duvido que reformem o socialismo, seja lá o que isso signifique, bem como qualquer outra utopia. E, muito menos, o establishment norte-americano vai se corrigir. Vai é manter ilesa sua estrutura, como deseja a plutocracia esclarecida dos EUA. A economia americana é mais ou menos igual a imperialismo. Exige uma crescente expansão imperialista. Ponto final.

Sem falar que certos lugares estão acordando. Para ficar num só: a Rússia está renascendo, aos trancos, como de costume, mas está.

Os antigos sistemas pifaram. Muita coisa feia ainda vai acontecer. Nossa década talvez ainda seja lembrada como uma calmaria igual àquela que quase destamancou o Pedro Álvares.

18 setembro 2007

Lições Hollywoodianas

Outro dia eu estava assistindo a Jornada nas Estrelas, a 18ª geração ou sei lá. Que saudades do capitão Kirk e do velho Spock. Neste episodio, a nova tripulação enfrentava uns tais Borgs, seres meio humanóides e meio máquinas cujas mentes estavam ligadas a uma rede chamada de "Coletividade". Não podia ser tão óbvio; os mocinhos estavam lutando contra um regime socialista e totalitário onde as individualidades haviam desaparecido! Que lição mais proveitosa para as criancinhas. Ali já estava presente o incentivo ao individualismo e o culto ao mérito, que encontra seu ápice nos super-heróis.

Falando neles, temos o Super-Homem, um extraterrestre de Kripton que acaba se tornando o melhor dos americanos. Existe um monte de Super-Homens nos EUA, estrangeiros literalmente vindos de lugares que os americanos nem imaginam onde ficam e que acabam se tornando o sal da terra da América. Muitos deles são filhos de elites de todo o mundo que não vêem possibilidades em seus países e acham que seus filhos terão mais oportunidades em um país que valorize o mérito e o esforço individual.

Os americanos são obcecados pelo sucesso. Tudo começa na escola, como já vimos em milhares de filmes de "High School". Aparentemente, na escola deles ocorre uma estratificação dos alunos em grupos definidos por suas habilidades. Temos os intelectuais, que amanhã podem ir trabalhar no Vale do Silício, as patricinhas, que podem ser tornar modelos, atrizes ou casar com homens ricos; temos os atletas, que podem se tornar jovens milionários; temos os debatedores, que podem vir a ser líderes de alguma coisa, políticos ou jornalistas. Mas o grande valor parece ser sempre o inconformismo com o grupo e a busca pela inovação. A necessidade de acreditar em si mesmo, não ser apenas mais um, de trabalhar e não ser um "loser".

Infelizmente, ninguém consegue ser tão especial e tão invencível exceto os Jason Bournes e o policial de Die Hard, que teve ter uns 8 litros de sangue no corpo. Afinal, são homens aparentemente normais que escondem uma determinação implacável e uma capacidade incrível de suportar a dor. Estes filmes são verdadeiras catarses. Curiosamente, são heróis solitários, livres da busca neurótica pela companheira perfeita.

Mais uma vez, tudo culpa de Hollywood. Ainda sou apaixonado pela Branca de Neve, embora hoje prefira a Trinity de Matrix; podemos revivê-las com um beijo. Considerando-se as balas perdidas de nossa perdida guerra civil, seria um boa habilidade de se ter em uma companheira... Esperar a perfeição em alguém é tão injusto quanto esperá-la em si mesmo. Como se depreende da Bíblia, a partir do simbolismo do pecado original, somos seres essencialmente falhos e destinados a não durar....dust in the wind.

A liberdade é o maior valor para os americanos e vale tudo em Hollywood para exaltá-la. Quantos filmes falando da Guerra da Independência e quão poucos sobre a conquista de metade do México. Quantos filmes sobre a paranóia do cidadão contra o Estado e suas elites políticas, que sempre conspiram pelo totalitarismo. Para eles é melhor morrer livre do que viver como um escravo. Em outros, é melhor morrer rico do que viver pobre...

14 setembro 2007

Quem Planta Vento...

Depois que eu soube da salvação de Renan Calheiros prometi a mim mesmo que não falaria no assunto. Surpreendentemente, ninguém falou nada até a hora do almoço, quando um amigo sugeriu que melhor seria acabar com o Senado. Não resisti. Disse-lhe que isto era idéia de um petista de terceira categoria...

Mais tarde, eu estava assistindo à Roseana Sarney, líder do governo Lula no Senado, comentar que o governo não terá dificuldade em aprovar a renovação da CPMF pois terá maioria, assim como teve maioria para salvar Renan Calheiros. Confesso que fiquei um pouco surpreso com a afirmação. Afinal, o Lula se deu ao trabalho de arranjar um álibi viajando para a Escandinávia para tentar convencer os analfabetos funcionais que não tivera nada a ver com a salvação de Renan Calheiros.

O engraçado é que poucos anos antes a senadora Roseana disputava para ser lançada pelo PFL como vice-presidente na chapa do PSDB à presidência, que seria encabeçada pelo Tasso Jereissati. Como todos sabem, uma operação deflagrada pelo setor paulista do PSDB revelou a existência de uma fortuna em espécie na empresa do marido da senadora, supostamente arrecadado para despesas eleitorais, enterrando as suas chances. Hoje, talvez aquela pilhazinha de dinheiro não resultasse em nada.

Lembro-me bem que no Senado houve um confronto entre o papai Sarney ultrajado e um ilustre senador do PSDB. Os discursos foram inflamados e surgiu uma mágoa terrível que levou os Sarney a se tornarem aliados de primeira hora do Lula e do PT. O mesmo Sarney que era presidente do PDS, o partido que sucedeu a ARENA. Uma magoa e um admirável instinto de sobrevivência e oportunidade transformavam o velho Ribamar de lambe-botas de generais no senador da confiança de Lula e do PT, até mesmo para a eventualidade da sucessão de Calheiros.

Os americanos gostam de dizer que um homem pode fazer a diferença. Dizem que foi o que ocorreu ontem na votação da cassação de Renan Calheiros, quando Mercadante supostamente conseguiu que seis senadores do PT votassem em branco em uma votação secreta. Ato de uma covardia extrema: abstenção em uma votação secreta. Um ato digno de um Mercadante, que defendeu que o extrato do cartão de credito corporativo da presidência era segredo de Estado e que enterrou a proposta de redução da maioridade penal para 16 anos, além do escândalo do dossiê.

Depois dessa, acho que o Lula já pode perdoar o Mercadante por ter tido seu assessor envolvido na compra do dossiê fraudulento contra o Serra e que praticamente tirou a vitória de Lula no primeiro turno da reeleição. Mas o Lula só pôde ser reeleito porque o FHC semeou a reeleição e a CPMF só poderá ser renovada porque o PSDB a inventou para “salvar a saúde”.

Como já disse o Lula: “Política e pôr a mão na merda”. Para isto, o PT parece estar bem servido pela senadora Ideli Salvatti, sua líder no Senado. Além de horrorosa e truculenta, ela é uma lutadora incansável pelas causas mais imorais do partido, que vão desde o Mensalão até a salvação do Calheiros. Se houver um céu para os socialistas ateus ela certamente irá para lá pelos seus sacrifícios pelo partido e pela causa.

Lembro-me das afirmações inocentes de jovens feministas, que diziam que a mulher era naturalmente mais honesta que os homens e que em um mundo dominado por elas sequer haveria guerras. Só posso rir e lembrar que a líder do governo do Senado, a líder do PT no Senado, a Marta “Relaxa e Goza” Suplicy e para não mencionar a sucessora do Jose Dirceu, são todas mulheres e o mundo não se tornou mais honesto nem mais harmonioso (a resposta que fica implícita no post “Todo Poder às Mulheres"). Não podemos nos esquecer da velha ex-senadora Benedita da Silva e da viagem oficial para rezar na Argentina. Coisinha boba pelos padrões vigentes desta administração.

E o PT ainda tem coragem de falar em Reforma Política para moralizar o sistema? O problema destes caras é que tudo começa cheio de boas intenções para terminar na velha jogada de mudar o sistema político de forma a favorecer o seu partido. Todos já fizeram isto: os militares, o PSDB, o Chávez, e chegou a hora do PT tentar a sua Reforma Política.

Para os petistas a “democracia” se faz dentro do partido pelo seu centralismo democrático que escolhe o Diretório e a Executiva Nacional do Partido. A bancada eleita pelo povo é apenas um órgão subordinado da Executiva Nacional. Para eles, o debate deve ocorrer dentro do partido entre os pares de cada órgão do partido. Para eles, o Congresso é o lugar onde se trocam favores, cargos, emendas no orçamento e postos estratégicos em estatais com grandes orçamentos de investimento para se atingir os fins propostos pelo partido. Será que alguém acredita que um partido que tem esta práxis democrática vai propor alguma coisa capaz de melhorar o funcionamento da nossa democracia representativa?

Mas não se enganem, ontem, o que foi salvo não foi apenas o senador Renan Calheiros, velho companheiro de Collor, que aliás se manteve muito discreto neste episódio e deve ter votado em favor de Calheiros por uma questão de princípios. Ontem se salvou o governo Lula da fúria de Renan Calheiros. Afinal, se as revelações de Roberto Jefferson quase levaram Lula ao impeachment, imaginem o que as revelações de um Renan Calheiros poderiam fazer!

Este é um momento em que precisamos renovar nosso voto de confiança no Congresso e na democracia liberal e representativa. Não podemos permitir que este ato praticado por uma maioria construída pelo governo do Lula e pelo PT em troca de todos os tipos de favores possa abalar nossa fé na necessidade de haver uma instituição aberta, transparente e representativa de toda a sociedade. Enquanto isto, vamos torcer para que o PT entenda que na democracia quem tem voto tem voz e quem não tem, mesmo se for da Executiva Nacional, deve ficar quieto e deixar os representantes do povo tomarem as decisões.

12 setembro 2007

A Teoria do Mico Amestrado Telepata

Outro dia fiquei feliz em conhecer um economista marxista assumido. A maioria não consegue sair do armário, diz-se pós-keynesiana. Ele, além de assumido, participa de um Grupo de Estudos Marxistas e é um interlocutor de um bom nível. O engraçado foi quando o assunto chegou ao Lula e ele me disse que o presidente “é vítima dos nove ditadores do Banco Central”, que o manipulariam e o impediriam de baixar a taxa de juros.

Não é a primeira vez que ouvi essa idéia de que o Lula não passa de um mico amestrado e facilmente manipulável, então decidi fazer um breve histórico dessa tese. Na primeira vez que a ouvi o general Golbery do Couto e Silva, no período militar, teria poupado o Lula porque haveria um programa da CIA que visava tentar selecionar um líder sindical não-marxista e com baixa capacidade intelectual. Lula teria sido selecionado neste programa.

A versão seguinte desta teoria e que prevaleceu até o Mensalão ou depois é a de que o Lula passou a ser controlado por um grupo de ex-guerrilheiros esquerdistas liderados pelo José Dirceu, que decidiram usar o seu carisma de bom selvagem e o orientaram para que se tornasse o líder operário do Partido dos Trabalhadores.

Em oposição a esta tese temos o testemunho do Frei Betto, ex-assessor palaciano e consultor espiritual do presidente Lula, que teria dito que o presidente, apesar de não ler livros, conseguia ler pessoas, era quase um telepata. Tratar-se-ia então de um ser profundamente intuitivo. Mais um pouco e ele poderia ser recrutado como um dos mutantes do professor Xavier. Conversando com uma senhora idosa que foi vizinha da fábrica da Volkswagen no ABC, ela me disse que conheceu o Lula nos velhos tempos e que ele teria realmente um carisma pessoal incrível.

Encontrar um ponto de consenso nesta questão talvez seja impossível. Mais fácil é entender o Lula governante, porque tudo de bom é feito pelo governante e de ruim é assumido por algum subalterno maldoso e traidor. No caso do Mensalão, por um obscuro professor e tesoureiro do partido. Estas criaturas não têm o benefício da dúvida, são logo expulsas do partido e tornam-se traidores das suas causas. Este é um grave vício platônico de que sofre a esquerda, tradicionalmente utópica e idealista. As idéias são perfeitas; se não dão certo é culpa do indivíduo. Se não dão certo dez vezes é porque nunca foi feito direito.

Felizmente, a antropologia tupiniquim já superou estas questões. Afinal, para ela, se alguém se vê como indígena e é reconhecido como tal, então ele é indígena e pode virar latifundiário no Brasil. Nesta acepção, a identidade socialista da qual se imbuem os membros do PT, especialmente nos seus Congressos, pertence a eles e não lhes pode ser retirada por seus fracassos.

Acho que aí teríamos que formular a teoria do hímen complacente dos idealismos, onde a pureza dos ideais permanece apesar de todos já terem se F.... Pensando bem, acho que é tudo culpa do Platão. Quem mandou ele criar este mundo das idéias perfeitas de onde os idealismos são filhos bastardos? Daí, basta juntar ao idealismo doses generosas de narcisismo para podermos explicar grandes desastres da história da humanidade como o nazismo e o socialismo.

30 agosto 2007

Ave Serra

O Brasil está perdendo a melhor chance de crescimento dos últimos 30 anos. Na década 80 não crescemos devido à inflação e à dívida externa. A inflação foi estabilizada pelo Plano Real, a dívida externa deixou de ser um problema com os saldos da balança comercial "turbinados" pela valorização de commodities (efeito China). Na década de 90, o Brasil cresceu menos que o mundo devido às enormes taxas de juros do Plano Real. A partir de 2001, o Federal Reserve, como reação ao choque do atentado de 11 de Setembro, promoveu uma enorme redução das taxas de juros, que foi seguida pelo Brasil. Então, por que não crescemos mais que o mundo?

O meu palpite é incapacidade do Lula e do PT em ser minimamente eficientes na gestão e absolutamente incapazes de promover as reformas necessárias para o crescimento do país. Afinal, temos um território grande, uma população relativamente jovem, abundância de recursos naturais e sobra dinheiro para investimento no mundo.

É nestas horas que eu me lembro que poderia ter votado no chato e careca do Serra. Ele não teria perdido esta chance. Ele teria sido um gestor eficiente e teria tratado das reformas que atrairiam os investimentos necessários. Mas ainda não é tarde, quem sabe o Moon-Rá não decide concorrer à presidência em 2010. Então, talvez ele retome uma agenda de reformas que possa aumentar a produtividade e competitividade brasileiras, tornando o país apto a competir pelos investimentos internacionais e crescer mais.

Uma das teorias econômicas diz que para haver crescimento tem que haver investimento em setores que tenham uma produtividade mais elevada. Infelizmente, o governo Lula usa os impostos para retirar recursos de setores de alta produtividade e dá-lo a setores de baixa produtividade, como é o caso do setor público.

No Brasil, muitos jovens sonham com um emprego público, que paga melhor que o setor privado, trabalha-se pouco e tem-se estabilidade. E se, para completar, o governo ainda gerencia mal a máquina, colocando apadrinhados políticos despreparados em cargos de chefia, então os escassos recursos dos impostos são investidos no consumo da "burguesia de Estado", sem nenhum retorno para a sociedade.

Se o país quiser crescer mais que o mundo e aspirar a se tornar um país relevante, então a sociedade precisa ter um consenso em torno do que é necessário. De minha parte, vou sugerir algumas medidas que poderiam ser implementadas por um governo Serra a partir de 2010.

1) Política Salarial dos Servidores Públicos vinculada ao poder de decisão, à complexidade da atividade e à formação requerida, ao invés do poder do sindicato da categoria ou do orçamento do órgão onde se trabalha;

2) Fim do Regime Jurídico Único, conjunto de privilégios dos servidores públicos que contribui para torná-los menos produtivos que os trabalhadores do setor privado, passando-os para os mesmos direitos dos trabalhadores do setor privado;

3) Extinção da aposentadoria integral para servidores públicos e a criação de um teto igual ao dos trabalhadores do setor privado. Não tem sentido um servidor público se aposentar com um rendimento dez vezes mais alto que o do setor privado e que vá ser financiado pelos trabalhadores desse setor, que ganham muito menos, trabalham mais e por muito mais tempo;

4) Criação de um teto de arrecadação de impostos limitado a 33% do PIB, permitindo que as empresas e as pessoas decidam como aplicar 66% da renda produzida por elas;

5) Proibição do governo de gastar mais do que arrecada, pois estes gastos terão que ser pagos com emissão da dívida, que terá que ser paga pela próxima geração, que não se beneficia com o consumo da geração atual;

6) Proteção dos investimentos por meio de agências reguladores fortes, profissionais e eficientes, e, desta forma, viabilizando os necessários investimentos em infra-estrutura;

7) Privatização das estatais para que sua administração passe a buscar a eficiência ao invés de servir de moeda política do governo e fonte de caixa 2.

Algumas medidas como essas seriam um bom começo na direção do aumento da eficiência, da produtividade e da canalização da poupança para setores que poderão ajudar o PIB do país a crescer mais. Crescendo mais arrecada-se mais e se tem mais dinheiro para o governo investir no combate a pobreza, na educação e na saúde. Portanto, vamos torcer para que o chato e impopular do Serra ganhe a eleição de 2010 e implemente um monte de medidas chatas mas que possam ajudar o país a crescer. Ave Serra.

25 agosto 2007

Vida Longa aos Facínoras

Apresentação: Na caixa de comentários do post passado a Clarissa e o Bocage manifestaram-se contrários à pena de morte, e este disse ser da opinião de que os presos deveriam trabalhar para ter algo mais do que um colchão e um pão duros mas "poderiam ficar com o excedente do custeio das ditas regalias ou enviá-lo a parentes". O Mouro fez um longo comentário, contundente como sempre, e eu tomei a liberdade de excluí-lo para publicá-lo como um post.
*****
Texto de C. Mouro

Vida longa aos facínoras que destroem vidas inocentes, pois defendê-las não é tão consagrador:

"Amar os amigos até os maus amam, a virtude está em amar os inimigos."

Ou seja, amar o mau e fazê-lo prosperar é que é o máximo da bondade. Enquanto tal perversão for moralmente consagradora, o mal prosperará em nome do bem. “Bendita vaidade, capaz de subverter a razão”, diria o “diabo”.

Os piores males causados à humanidade foram feitos em nome do bem, em nome de consagradores ideais capazes de bestializar o homem em sua estúpida vaidade. As atrocidades religiosas, Stalin, Hitler, Mao, Pol Pot, etc., todos, sem exceção, ostentavam-se magnânimos, travestiam-se de “santos salvadores” com belos propósitos envaidecedores.

Tenho um texto, “Do futebol esclarecedor”, que em resumo é o seguinte:

Num jogo de futebol o torcedor do time que é favorecido pelo juiz jamais conseguirá odiá-lo, enquanto que o torcedor do time prejudicado o detestará, lançará contra ele imprecações as mais cabeludas, fará acusações e o terá na pior das contas. Já o torcedor do time beneficiado, procurará mitigar os erros do juiz, mesmo que canalhice deliberada, e se não puder fazê-lo os admitirá, mas jamais o criticará da mesma forma com que critica quando prejudica o time pelo qual torce.

Claro que, por vezes, não há uma torcida mas apenas uma adequação ao estereotipo consagrador, uma ostentação conveniente e sem muita reflexão. Tudo depende do quanto se ostenta de reprovação incisiva a um lado e, quando muito, uma “reprovação compreensiva” ao outro, ou mesmo se ignora um lado para apenas ostentar a repugnância consagradora ante a moral arbitrada para a comunidade, fugindo da análise dos fatos.

Eu defendo que:

* O criminoso eventual seja separado do criminoso profissional.
* O criminoso profissional não merece respeito, já que não respeita nada além da própria conveniência.
* O criminoso deve trabalhar para pagar sua estada e despesas do aparato que demanda para mantê-lo encarcerado, sem direito ao excedente. Afinal, as vítimas não podem ser condenadas, injustamente, a sustentá-los, em muitos casos até com aquilo que a elas falta.

O facínora que é capaz de sair de casa predisposto a matar um pai inocente, muitas vezes ainda arruinando sua família, crianças inclusive, merece morrer como uma ratazana, como uma barata, pois é ainda pior do que elas. E quem se preocupa com a vida dos facínoras despreza a vida dos inocentes, é o pior tipo de pessoa, pior do que o próprio facínora, que ao menos expõe sua índole francamente. Todo defensor de facínoras é cúmplice nas vítimas que estes fazem.

Questão de Dúvida e ChanceC. Mouro, 07 de dezembro de 2004

Alega-se que um facínora tem chance de se recuperar. Assim, foca-se na “elevação moral” de se dar chance ao facínora que já cometeu atrocidades. Diante desta “bondade” se está admitindo que o facínora poderá voltar a cometer atrocidades contra inocentes, matando, torturando, estuprando, destruindo famílias e etc.. Afinal, não há certeza de que um facínora se “recupere” após cumprir uma pena que lhe permita voltar ao livre convívio com seus pares queridos e também com as vítimas; sejam as que fez e as que poderá ainda fazer.

Diante da proposição de pena definitiva, as “belas pessoas” afirmam que é desumano, intolerável, condenar um “ser humano” a uma pena definitiva; embora o facínora o faça com a tolerância das “belas pessoas”. Estas reivindicam que se lhe dê a chance de recuperação, arbitrando o “dever humanitário” de preservar a vida e a liberdade do facínora, diante da DÚVIDA sobre sua recuperação, exibindo grande “revolta humanitária” ante a proposta de pena definitiva para o facínora; por assim se estar perdendo a chance de salvar a vida do facínora que já cometeu atrocidades contra inocentes - embora essa revolta exibicionista não se manifeste ante a pena que os facínoras impõem às vítimas inocentes.

Então, como toda questão tem dois lados, cabe analisá-los:

Havendo dúvida se o facínora voltará à pratica de atrocidades contra inocentes ou se recuperará, disso resulta:

1) Pena definitiva para que ele jamais volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena branda é injusto e temerário; na visão das “más pessoas”, dos “bárbaros”, que parecem preocupados unicamente com a vida, a liberdade e demais direitos do ser humano inocente.

2) Pena branda para que o facínora volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena definitiva é injusto e o revolta; na visão das “boas pessoas”, dos “santos” e “humanistas”, que parecem muito preocupados com a vida, a liberdade e demais direitos do “ser humano” facínora.

Das conclusões:

Ora, é extremamente simples perceber que:
As “boas pessoas” exibem a sua “bondade” usando a dúvida como argumento para permitir que o facínora se “recupere” depois de branda pena, demonstrando assim grande zelo pelo bem estar e pela vida deste “ser humano”: Em nome da dúvida.

Mas é em nome desta MESMA DÚVIDA que os “malvados bárbaros” não querem permitir que este facínora volte a cometer atrocidades contra inocentes. Afinal, TUDO É DÚVIDA.

Os resultados possíveis ante a dúvida são:

R-1) Se o facínora é definitivamente penalizado:
Talvez ele se recuperasse. Neste caso será um FACÍNORA que já supliciou inocentes, aquele que sofrerá AS CONSEQUÊNCIAS da proposta dos “bárbaros”: de não lhe dar chances.

R-2) Se o facínora é brandamente penalizado:
Talvez ele não se recupere. Neste caso serão AS VÍTIMAS INOCENTES, quem sofrerão AS CONSEQUÊNCIAS da proposta das “belas pessoas” que, “humanitariamente”, concederam a chance do facínora fazer mais vítimas inocentes.

Conclusão lógica (não é suposição, é fato lógico):

1) As “boas pessoas”, os “santos”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE INOCENTES. Ou seja, as vítimas, pessoas honestas, trabalhadoras, e seus familiares sofrerão os suplícios individuais e destruição familiar.

2) As “más pessoas”, os “bárbaros”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE FACÍNORAS que já trucidaram vítimas inocentes e arruinaram famílias.

É muita diferença de preferência.
Não é possível negar a lógica, pois está claro que haverá vítimas inocentes, já que não há certeza de “recuperação”, ou não haverá facínoras recuperados por não haver tal chance.

Assim, a “beleza” de salvar facínoras supostamente recuperáveis, necessariamente implica em produzir VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras. Em visível tolerância moral a seus crimes, quase um incentivo.

Da mesma forma a pena definitiva NECESSARIAMENTE implica em penas definitivas para FACÍNORAS CULPADOS, que já fizeram vítimas inocentes, mas que talvez se recuperassem. Em visível intolerância moral a seus crimes, para ainda intimidá-los.

Os “humanistas” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou outros direitos dos inocentes, enquanto os “bárbaros” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou bem estar dos facínoras, que já fizeram vítimas inocentes.

É estarrecedor alguém tranqüilamente afirmar:

“3) Não existe como salvar os inocentes.”
.
Como eu disse, as “belas pessoas” consideram que as vítimas inocentes são uma fatalidade, e não se importam com elas, sequer se dedicam a tentar diminuir a ocorrência destas, dedicando-se unicamente a tentar SALVAR O MÁXIMO DE FACÍNORAS, MESMO QUE ISSO RESULTE EM MAIS VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras.
.
Os “santos” e “humanistas” não se importam com as vítimas inocentes, pois importar-se com elas até os “bárbaros” se importam, então, ideologicamente, “não há mérito nisso”. O mérito ideológico está em “amar os inimigos”, em “dar a outra face” e proteger o mal para que ele prospere.

Com náuseas,
C. Mouro
.


23 agosto 2007

Canibalização Cultural

Por Clarissa Septimus:

O post de Janer Cristaldo, "Antropólogos protegem assassinos", suscitou aceso debate e, malgrado meu, longe de me sentir mais esclarecida quanto à situação política, económica, social e cultural do Índio Brasileiro, compreendi que o meu desconhecimento me impede de tecer a este respeito uma opinião devidamente fundamentada. Poder-se-ia continuar, quase indefinidamente, a discussão das questões lá levantadas: A inimputabilidade dos Índios, A questão do território atribuído, O contacto entre culturas, Os massacres ocorridos dentro da comunidade Índia sob custódia de práticas culturais ancestrais, A aculturação, O direito de opção por uma cultura diferente da originária, A repressão cultural, A percentagem de população Índia, A criminalidade nas grandes cidades versus criminalidade entre a cultura Índia, A riqueza do território Índio.

Considerando todas estas questões merecedoras de análise, a verdade é que lhes subjazem questões éticas, essas sim verdadeiros desafios que se colocam à sociedade civil e às directivas políticas do século XXI. Como articular, na prática do quotidiano, conceitos como Multiculturalismo, Identidade cultural, Direitos Humanos, sem aquilo a que se pode chamar uma canibalização cultural? O professor Boaventura de Sousa Santos, chamando a atenção para a necessidade de uma hermenêutica diatópica, afirma (clique aqui para o artigo completo):

"Porém, uma concepção idealista de diálogo intercultural poderá esquecer facilmente que tal diálogo só é possível através da simultaneidade temporária de duas ou mais contemporaneidades diferentes. Os parceiros no diálogo são apenas superficialmente contemporâneos; na verdade, cada um deles sente-se apenas contemporâneo da tradição histórica da sua cultura."

A canibalização cultural, expressão do professor Boaventura de Sousa Santos, não é, a meu ver, senão uma forma anacrónica, ineficaz e incoerente de lidar com o multiculturalismo. Proclamar a repressão, hasteando a bandeira com os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ao mesmo tempo que se ignora que o indivíduo não existe deslocado da sua cultura, e que é nessa diversidade cultural que encontramos a História da Humanidade, é ir contra as orientações fundamentais que estiveram subjacentes à filosofia da Carta dos Direitos Humanos.


20 agosto 2007

The Claps Hunter

Tudo começou no Maracanã quando Lula foi inaugurar os jogos pan-americanos. Por algum descuido, a assessoria do Planalto esqueceu-se da claque dos Sem Terra, dos pelegos da CUT, de alguma ONG financeiramente ligada ao governo e decidiu expô-lo à população em geral. Além das gratuidades, os ingressos vendidos foram nos setores A a D, variando de R$ 10 a R$ 50, portanto pode ter ocorrido a exclusão dos beneficiários do Bolsa Família, para o azar do nosso mandatário. Nesta ocasião, ele foi vaiado todas as vezes em que tentou falar, e acabou tendo de se retirar para não mais voltar, nem para o encerramento do evento esportivo.

Magoado, Lula disse que o Rio de Janeiro não sofreria retaliações de verbas pelo fiasco sofrido por ele. A assessoria do presidente tentou reagir organizando viagens ao curral eleitoral nordestino, onde ele teria apoio de todos os seus compadres. Não deu certo; ele foi novamente vaiado em Pernambuco. A assessoria então mudou a estratégia e organizou um roteiro de viagens pela América Central, e enfim Lula foi aplaudido na Nicarágua, no México e na Jamaica.

De volta ao Brasil, já recuperado, Lula comentou que tem dois ouvidos, um para vaias e o outro para aplausos. Foi então a Campos, no Rio de Janeiro, onde foi novamente vaiado. Lula reagiu mais agressivamente e recorreu ao seu estilo de ameaças veladas. Na casa de Apolônio de Carvalho, mais vaias. O ouvido que por anos estivera surdo funcionava com saúde exemplar.

O que o Lula irá dizer? Que está sendo perseguido pela elite aonde quer que vá? Talvez fosse o caso de ficar um pouco em Brasília e trabalhar. Sei que sindicalistas não têm este mau hábito, do qual ficaram livres no dia em que foram eleitos para o sindicato, mas o país precisa de um presidente que conheça os seus problemas e trabalhe para resolvê-los. Não queremos alguém que alegue desconhecimento toda vez que eles aparecem.

Sei que o Lula não concorda, mas a campanha termina quando o sujeito está eleito para o cargo. Então tem início o trabalho para cumprir as promessas que fez. Na visão dele e sua turma, a política é viajar e fazer campanha. Enquanto isto, a chefia do Executivo, cargo para o qual ele foi eleito, fica entregue à Dilma, como antes esteve nas mãos do Dirceu.

Esta é uma velha tradição das elites brasileiras; não trabalhar. Elas deixam o trabalho para ser feito pelos seus capatazes, geralmente figuras truculentas e autoritárias. Tomemos o exemplo do setor elétrico. Se ao menos os capatazes fossem competentes, as ameaças que pairam sobre o setor já teriam se dissipado, mas com eles é tudo na marra. Se as suas regras para o setor elétrico não atraem investidores, que entrem as estatais; se ninguém entra nos seus leilões, que entre a Petrobras; se há expectativa de falta energia, que se converta então usinas a gás para usinas a óleo diesel, e foda-se a vida útil dos equipamentos.

É nestas horas que eu me lembro do Serra, este sim um trabalhador (ainda que um autoritário ex-comunista), destes que dormem 4 horas por noite, com perfil para liderar projetos e capacidade técnica garantida por um PhD. Pena que ele não tinha o Duda Mendonça como marqueteiro nem seja um sujeito simpático, mas penso que ele teria sido um presidente melhor, apesar de todos os seus defeitos.

Se bem que se o PSDB não fosse tão paulicentrista teria apoiado o Tasso em 2002 e ele teria sido eleito mais ou menos com a mesma fórmula eleitoreira do Lula, que é um sindicalista paulista e retirante da seca nordestina. Tasso seria um membro da elite nordestina progressista e um empresário bem-sucedido. Para quem não sabe, São Paulo e o Nordeste são os dois maiores colégios eleitorais deste país.

15 agosto 2007

Rodoviária de Aviões

Quando eu era criança, um dos programas de final de semana era ir ao aeroporto. Meu pai juntava a gente, punha dentro do carro e lá íamos passear no aeroporto, que era um lugar chique e interessante. Só não podíamos pedir nada porque tudo por lá era caro. De vez em quando eu até viajava de avião, em algumas férias muito especiais. Então, tudo era muito fino, as aeromoças bonitas, os almoços bem apresentados em caixinhas, a possibilidade de escolher vários tipos de refrigerante... E foi em uma dessas viagens que eu descobri de onde vinham alguns talheres engraçados que tínhamos em casa.

Na faculdade, tive um professor jamaicano, destes que viam a cultura brasileira com olhos de eterno forasteiro. Era um engenheiro aeronáutico com PhD na Inglaterra e havia vindo parar por aqui. Ele falava, então, que tínhamos uma mentalidade atrasada. "Aeroporto não é transporte de luxo", dizia, "é transporte de massa". Hoje, vejo que ele tinha razão.

Nesta gestão petista, caracterizada pela incompetência e falta de planejamento, os aeroportos estão se transformando naquilo que deveriam ser há muito tempo, ou seja, rodoviária de aviões. O Milton Zuanazzi, amigo da Dilma, presidente da ANAC e até outro dia um novato em aviação civil, diz que está tudo bem. Os caciques da política carioca afirmam que o Galeão está ocioso e poderia resolver o problema da Malha Aérea - mas nada é feito. Os professores da USP dizem que há três anos deveria ter sido iniciada a construção da segunda pista de Guarulhos e da conexão de metrô, o que resolveria os problemas atuais da Malha - mas está tudo bem, é o crescimento econômico, diz o Mantega. Sem falar em outras "gozações"...

Eu mesmo outro dia estava em meio ao caos do Galeão, que vivia o auge do Apagão Aéreo. Os passageiros não podiam entrar na sala de embarque porque haviam ocorrido revoltas, um avião havia até mesmo sido invadido e teve de ser desocupado pela Polícia Federal. Todos os vôos estavam atrasados e tínhamos que aguardar em pé próximos ao portão de embarque porque os painéis e o sistema de som estavam em pane. Um sujeito berrava ao megafone quando um vôo estava confirmado, para que as pessoas pudessem ir à sala de embarque.

Foi então que uma “gerente de filas” da Gol se aproximou de mim e de outras pessoas ordenando a nossa saída da área reservada às filas da companhia, demarcadas pelos postes com as fitinhas. Detalhe: não havia fila porque o atendimento estava quase encerrado. Quando a mulher gritou pela segunda vez foi enxotada aos berros por um dos passageiros. Eu não sou de gritar, porém fiquei satisfeito ao ver um membro da classe média lutar pelos seus direitos.

É por isso que a classe média é odiada pelo Lula e pelos petistas; por isso somos chamados de “elite”. Não somos nada disso; somos trabalhadores educados e cidadãos. Não somos os analfabetos funcionais que votam nele e na sua turma em troca de um Bolsa Família.

Mas deixemos os ódios para o Lula e sua corriola, que gostam de alimentar a política dos ódios de classe, de raça, de gênero, dos regionalismos,... Todos estes ódios são bons para desqualificar os críticos do governo, porque sempre serão membros da elite, egoístas, brancos que odeiam nordestinos e negros. E acabam até por carrear simpatias das vítimas de discriminações. Esta é a política do Lula e do PT: fomentar a cizânia, o ódio, para se firmarem cada vez mais como a força hegemônica na política brasileira.

10 agosto 2007

A Morte dos Ideais Petistas

A política partidária talvez seja necessariamente odiosa porque simplesmente traduz o funcionamento normal do cérebro humano. Acho que em grande parte somos binários: sim ou não, a favor ou contra, PT ou PSDB e socialista ou capitalista. E ainda existem os maus e ignorantes cuja política e baseada no agravamento das diferenças. A política das quotas, das minorias, dos sexos, dos nacionalismos exacerbados, das disputas religiosas e que mostra seus resultados mais agudos no Oriente Médio e nos Bálcãs.

Simplesmente não conseguimos ser justos. Não conseguimos encontrar um ponto neutro onde exista alguma liberdade. Muitos filósofos consideram a justiça um ideal no estilo platônico. Não acho que o idealismo seja algo positivo. Hitler era um grande idealista no melhor estilo do Senhor dos Anéis. Ele acreditava que os seus SS iriam purificar a raça ariana da miscigenação com outros povos, especialmente os judeus, e que ao cabo de algum tempo ele iria gerar "elfos" arianos que teriam superpoderes e dominariam todas as raças inferiores.

Deng Xiaoping foi um destes homens mais justos, que adaptou os ideais socialistas soviéticos à realidade, à cultura e às necessidades chinesas. Como resultado temos um país que cresce a taxas da ordem de 10% há quase três décadas. A vitória do grupo liderado por este homem tira milhões de chineses da miséria, evitou a fragmentação deste país com o fim abrupto do seu socialismo. Além disto, ajuda muito o capitalismo produzindo bens a preços baixíssimos (combate à inflação), financia o consumo americano com a compra de T-bonds e oferece uma demanda potencial que é fundamental para encurtar qualquer crise capitalista.

Na Europa, temos vários capitalismos também. Adaptações locais mais ou menos bem-sucedidas destes ideais. Temos o capitalismo de coordenação de países como Alemanha, Holanda, Suécia e Dinamarca; o capitalismo de orientação onde o Estado guia os investimentos, como na Franca, Itália e Espanha. E ainda temos capitalismos híbridos na Europa Oriental com variadas articulações Estado-mercado. Talvez os mais bem sucedidos sejam os nórdicos, que têm muita justiça social e crescimento econômico.

Seria bom se o Brasil tivesse um líder do nível de um Deng Xiaping, mas infelizmente temos apenas uma herança maldita da ditadura. Um político que sobreviveu porque era considerado menos perigoso enquanto outros foram destruídos, ele e seus asseclas da geração de 68, que começaram a vida seguindo os ideais da Revolução Cubana e terminaram vendendo a alma pelo poder.

Mas isto era inevitável. Os idealistas negam a realidade seja ela qual for e praticam as maiores atrocidades para atingir os ideais que pretendiam, sendo que no processo violento em que se colocam acabam simplesmente se tornando aqueles que pretendiam destruir. O próprio Lula é um exemplo disto. Por que ao invés de acabar com o coronelismo Lula tornou-se o maior coronel que este pais já viu? Ele não é um coronelzinho qualquer, que distribui algumas cestas básicas. Ele distribui o Bolsa Família para milhões de famílias, o que o torna o titular do maior curral eleitoral da história deste pais. Nunca é demais lembrar que pessoas como Cristóvam Buarque não hesitam em afirmar que o Bolsa Família é corrupção.

Mas eles falharam porque nunca foram justos. Eram idealistas e os ideais são traiçoeiros porque se baseiam na vaidade, e acabam se tornando apenas vaidade. Depois da morte dos ideais, trucidados pela realidade da luta pelo poder, sobra apenas a vaidade e a necessidade de mantê-lo a qualquer custo. Mas até isso morrerá no dia em que os corpos decadentes dos membros da geração 68 tiverem o mesmo destino dos seus ideais.

Isto me faz pensar no enterro de Lula. Deverá ser um evento épico com direito a três dias de luto, muita cachaça, greve geral, passeata dos Sem Terra e milhares de descamisados choramingando como órfãos. Talvez se decida até mesmo por preservá-lo mumificado, a la Evita. Se for este o caso, tomara que nenhum general se apaixone pela múmia...

07 agosto 2007

Bananas

Texto de André Balsalobre

Os primeiros dois anos do terceiro mandato de Lula - via Emenda Constitucional de Emergência - seguem monótonos, com as demonstrações de esquerdismo e populismo de sempre. Todo o núcleo duro retorna: Dirceu, Palocci, Genoíno, Gushiken.

Fidel, firme e forte, visita o país. Acordos bilaterais são assinados, incluindo um de defesa mútua contra um ataque norte-americano. As FARC ganham de presente um pedaço da Amazônia. Depois se apoderam de três vezes o que receberam.

Novos e maiores escândalos de corrupção em 2012. Lula diz não saber de nada.

Economia: Palocci e aderentes caem e são substituídos por Caetano, Gal e Betânia. Maria da Conceição Tavares é nomeada presidente do Banco Central.

Com a nova queda de Dirceu, envolvido em esquemas de corrupção do programa brasileño-cubano Bolsa-Camarada, Ariano Suassuna é convidado para a Casa Civil. Aceita mas, antes que possa assumir, se vê enredado num esquema de propinas do Ministério da Educação, cuja pasta vinha ocupando, e logo num programa de sua autoria: proibir o ensino do inglês, a venda de Shakespeare e Oscar Wilde no país, a exibição de filmes norte-americanos na tv e nos cinemas e instituir Patativa do Assaré e Mané da Rabeca no currículo das escolas públicas. Acuado, escreve O Auto do Processo de Agravo de Instrumento, peça que faz muito sucesso no Supremo Tribunal Federal e livra sua cara no processo por crime de responsabilidade. Para a CNBB, escreve O Auto do Padre Vieira. Para Lula, dedica O Auto do Pau-de-Arara. Para os fósseis do PC, o Partidão, dedica O Auto da Coluna Prestes.

Fernando Henrique Cardoso termina seus dias numa cátedra de filosofia pós-moderna na Sorbonne.

Perdido, Lula tenta promover um grande debate com todos os segmentos da sociedade civil. Fracassa. Novos escândalos envolvendo membros do governo em 2011.

Um grupo dissidente nas Forças-Armadas tenta um golpe, mas os tanques não pegam e os soldados estavam em greve; não aparece ninguém.

Cansado de conversa e dizendo-se vítima de uma “orquestração golpista” por parte da “burguesia reacionária do centro-sul do país”, Lula dissolve o Congresso e baixa seu primeiro Ato Individual, o AI 1. Era pra se chamar Institucional, mas o Presidente não sabia como soletrar, muito menos escrever — e ninguém teve coragem de criticá-lo.

De qualquer forma, aproveitam pra reciclar a já famosa abreviatura. Tal ato de individual não tem nada, tendo sido redigido por um “grupo de notáveis” reunido às pressas. Participam dele Marilena Chauí, filósofa do proletariado, João Pedro Stédile, recém-empossado no Ministério da Agricultura, Dalmo de Abreu Dallari, Mino Carta e Roberto Bolaños, o ator mexicano conhecido pelos personagens Chaves e Chapolim. Frei Betto e Leonardo Boff servem de guias espirituais.

No mês seguinte, o Executivo baixa o AI 2, na verdade, só uma revisão do primeiro, devido ao excesso de obscurantismos, cortesia do filosofês cheio de Spinoza, Kant e Hegel da Marilena Chauí.

A República Federativa do Brasil é renomeada para República Democrática e Popular Brasileira.

O governo de exceção durará quatro anos. O que não incomoda muito o povo, pois a Seleção Brasileira segue ganhando as Copas do Mundo, que passam a acontecer de dois em dois anos, após intervenção do Itamaraty junto à FIFA. Ambos assinam um acordo pelo qual o Brasil se compromete a pagar por todas as despesas nas próximas dez Copas.

Medidas drásticas sufocam os últimos bolsões de insatisfação ao regime: a cerveja é incluída pelo governo na cesta básica, enquanto os canais Premiére de futebol da tv fechada são liberados para a população.

Queda vertiginosa do barril de petróleo leva a uma revolta popular na Venezuela, o que abre caminho para intervenção bem-sucedida dos EUA. Hugo Chávez, com o dinheiro do saque, se exila por aqui e vai morar no Lago Sul, onde constrói a suntuosa Mansão Bolívar.

Heloísa Helena e Babá fundam um movimento guerrilheiro campesino de fundo marxista-cristão numa igreja em Juazeiro do Norte. Padim Ciço aparece para ambos e começa a fazer milagres e lançar profecias, entre elas as da volta do Império e de Dom Sebastião. O número de romeiros triplica. A Igreja, tentando se acomodar à nova situação, canoniza o Padim rapidamente e, de quebra, beatifica Virgulino Ferreira, o Lampião.

Zé Maria, eterno candidato do PSTU, funda uma república separatista no terreno de uma faculdade pública. Logo explode uma guerra com o PCO – Partido da Causa Operária, que havia proclamado outra república ao lado. O exemplo se repete em outras faculdades pelo país. A revolta fica conhecida pelo nome de Facultada.

Remanescentes do Congresso, militares e membros da sociedade civil criam um movimento de resistência ao regime.

Enéas (não morreu, era um sósia) faz um discurso emocionado no Congresso. Clama pela Reestruturação da Ordem Nacional, no que é rotineiramente apoiado pelos 4 Poderes (os 3 conhecidos, mais o Dinheiro). O povo sai às ruas. Não para derrubar o governo, mas para comemorar mais uma vitória da Seleção. Lula desaparece. Tropas fiéis à resistência encontram em seu gabinete o rascunho do AI 3, sem maiores novidades além da supressão dos direitos que restavam, a criação de dois deveres para cada direito extinto — e a evidência clara de que Lula ainda não sabia como escrever “institucional”.

Enéas dissolve a República e proclama o Segundo Império, inspirado em Antônio Conselheiro, inaugurando um regime de índole puritana. Maria da Conceição Tavares continua firme no Banco Central, o qual já não obedece ao novo regime. Mas ela mete medo em todo o mundo, por isso preferem deixá-la quietinha em sua sala.

Lula e acólitos se instalam em Paris, na casa de Chico Buarque. Gilberto Gil morre durante atentado ao Palácio Presidencial Patrice Lumumba no Congo. Estava em uma cerimônia oficial quando houve um golpe de estado. Caetano Veloso, João Gilberto, Lenine, Chico César e dezenas de outros expoentes da MPB estavam presentes. Nunca mais retornaram, tendo sido transformados em artistas escravos pelo ditador local, um afroblacknegão com sorriso Colgate.

O Segundo Império congela praticamente todas as contas do PT no exterior, graças a um substancial caderninho apreendido pela Polícia Federal na casa de Zé Dirceu. Em Paris, Lula descobre que até sua conta foi congelada, durante uma tentativa de saque (dessa vez não ao povo, mas em frente ao caixa eletrônico mesmo). Sem dinheiro para nada, com o estoque de aguardente acabando e sem conseguir encontrar cds de Zezé Di Camargo e Luciano para sua mulher, Lula cai em depressão. Chico Buarque cobra o aluguel e a conta do hospital de um assessor do ex-Presidente. Rompimento entre Lula e Chico.

Em seu aniversário de 105 anos, Oscar Niemeyer assina um abaixo-assinado com outros duzentos nomes dos meios artístico e intelectual, repudiando o Segundo Império. No dia seguinte o governo lhe encomenda umas obras e Niemeyer joga o abaixo-assinado na lata de lixo da História — aquela mencionada por Trotski. Maria da Conceição Tavares se recusa a retirar o nome do abaixo-assinado.

Enéas adota um tom cada vez mais militarista. Com apenas um ano de governo, invade a Venezuela, reinstala Chávez no poder e diz que não vai parar até chegar ao Canal do Panamá. Os EUA esmagam os exércitos brasileiros nos arredores de Caracas e invadem o Brasil, que não oferece qualquer resistência. Chávez se esconde numa quitinete na Asa Norte (sua saudosa Mansão Bolívar virou uma casa de bingo). Traído dentro de casa por um convescote partidário de última hora, Enéas abandona a política e volta a dar aulas na faculdade de medicina.

Exilados em Paris, os remanescentes da república petista fazem ato de solidariedade e greve de fome enquanto Fidel Castro, que também estava lá, faz compras. El Comandante convida os exilados para uma visita oficial a Havana, onde morre logo ao chegar, vítima de um resfriado (não havia mais bons médicos em Cuba, todos eles foram para Cleveland). Os exilados, companheiros e camaradas alegam um complô da CIA. Cuba Socialista cai e dá lugar ao Protetorado de Cienfuegos, um subdepartamento sob a responsabilidade de Porto Rico.

Mangabeira Unger e Ciro Gomes são convidados pelos EUA para fazer parte de um novo governo provisório, parlamentarista. Logo assumem como Presidente e Primeiro-Ministro, respectivamente. Assim que os EUA se retiram, a briga começa. Hugo Chávez se torna uma figura influente na política local. Pede a volta de Lula. Ciro prefere convidar FHC, mas este recusa, dizendo que "assim não dá", que o “desrespeito às instituições democráticas é inaceitável” e continua lecionando em Paris.

Lula entra no movimento sindical francês mas perde muito dinheiro, pois as maracutaias são em francês e ele não entende nada. Pobre, tenta arrumar um emprego na Renault, outro na Citroen, mas as fábricas são totalmente automatizadas. Arruma emprego numa das fazendas de gado de seu amigo José Bové — que deixou os movimentos antiglobalização e agora vende carne para o MacDonalds — mas logo é demitido com a mecanização da ordenha. Contrabandeado para o Brasil por uma ONG, Lula vira garoto-propaganda da bebida Velho Barreiro. Enriquece novamente, se separa de D. Marisa e casa com Benedita da Silva. Finalmente, é um homem feliz.

Terremoto de 13 pontos na escala Richter engole Brasília. No governo, apenas o Legislativo pouco sofre, pois, pra variar, não havia ninguém no Congresso. A cidade é totalmente devastada. Maria da Conceição Tavares é retirada dos escombros do prédio do BC com vida. Sofre escoriações leves e passa bem.

Ciro e Mangabeira Unger morrem, junto com todo o Executivo. Chávez sai em meio aos escombros de Brasília, organiza uma carreata às pressas e toma o poder. Dissolve o parlamento, instalando sua tão sonhada Nación Bolivariana.

Marta Suplicy se casa com Chávez. Este endurece no poder, porém logo acata o conselho da patroa: “relaxa e goza” e o Brasil se redemocratiza. Maria da Conceição Tavares também se casa, com José Saramago, que a convence a sair do BC e voltar para Portugal, onde ela se filia ao bom e velho Partido Comunista português.

Internado com cirrose, Lula morre em 1º de Abril de 2019, Dia Internacional dos Bobos. É enterrado ao lado de Fidel em Havana.

Chávez mantém o discurso radical bolivariano apenas para as massas, convertendo-se habilmente num capitalista neoliberal. Até privatiza a Petrobrás, agora presidida por Evo Morales. O Brasil finalmente entra numa rota de desenvolvimento sustentável.
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01 agosto 2007

Epitáfio ao Kokotako

Há quarenta anos meu pai foi transferido de Caxias do Sul para Videira, em Santa Catarina. Tinha vinte e um anos e recém ingressara no Banco do Brasil. Deixou para trás a noiva (minha mãe), irmãos, parentes, bons amigos, aulas de violino e um animal de estimação: o velho Kokotako, um destemido gato vira-lata libertário, ateu (todos são, não?), namorador, indolente, sempre com falhas na pelagem, mercê das assíduas pelejas com os cachorros e gatos da vizinhança. Às vezes desaparecia por semanas, e quando todos o davam como morto, supondo que perdera a terceira dimensão sob algum pneu de carro ou que caíra do campanário aonde ia para mastigar filhotes de pombo, lá estava ele sobre o muro de pedra, em frente à cozinha, a lamber-se ao sol - talvez com uma vida a menos -, exibindo-se orgulhoso para as crianças, que corriam até ele para cobri-lo de mimos.

Cheio de obrigações, tenso por causa da "diferença" no caixa ao fim do expediente, longe de todos os que lhe eram caros, sob o cortante frio de mezz'anno, saudoso das longas tardes sob os parreirais a ler os clássicos com o irmão mais velho, meu jovem pai recebe uma carta do irmão dando a notícia do triste fim do bichano, finalmente vencido pelo gadanho da morte. Tão logo leu a missiva, pegou na caneta tinteiro e redigiu o mórbido porém divertido soneto (quatro quadras, na verdade) abaixo, bem ao estilo mal-do-século de Álvares de Azevedo porém ritmado como um Gonçalves Dias.

Encontrei em um armário na casa de meus pais, dia desses, uma fotografia do manuscrito tirada pelo meu tio, cujo conteúdo reproduzo aqui.

***

Ao Hades tristonho, de trevas povoado,
Mansão onde as sombras passeiam silentes -
As sombras fantásticas dos que já deixaram
A terra habitada por pobres viventes,

Ao morto país onde os ventos irados,
Torcem das árvores os galhos despidos,
Sem que da negra floresta agitada
Se escute o eco sequer de um gemido,

Às terras medonhas estéreis e tristes
Que há séculos cobre a sombra da morte,
Onde o imenso oceano estagnado descansa
Entre rochedos frios, de tétrico porte,

Partiste, herói de mil lutas gloriosas,
D. Juan das amantes que achaste por cá!
Agora teus filhos, teus netos e esposas
Soluçam e dizem: "Jamais voltará!"


***
Discute-se, na caixa de comentários, morte, vida eterna, morte eterna, gatos e o de sempre: Política e Religião.
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27 julho 2007

A Trajetória da Geração de 68 ao Poder

A Geração de 68 é um símbolo para muitos jovens. É a geração dos hippies, da paz e amor, da Era de Aquarius, daqueles que iriam mudar o mundo. Hoje, em 2007, estão chegando aos 60 anos e, no Brasil, são a geração que fundou o PT e chegou ao poder com Lula. A nossa Geração de 68 pregava a Luta Armada e nutria grandes simpatias por Cuba. Pretendo analisar a sua trajetória até o poder e mostrar quanto daquele romantismo restou e quanto apenas virou hipocrisia.


Há algum tempo assisti a uma entrevista do José Dirceu ao Roberto D’Ávila onde falava de sua vida e de como a sua militância política começara. Segundo ele, tudo começou quando ele, um jovem e bonito aluno de direito da PUC/SP, organizou uma rebelião para que as turmas separadas de homens e mulheres passassem a ser mistas. Como disse uma vez o José Genoíno, enquanto ele trabalhava nos Congressos da UNE o Dirceu “passava o rodo”.

Há alguns anos, perambulando por um sebo, encontrei um livro organizado pelo Guido Mantega, então porta-voz dos economistas do PT, chamado Sexo e Poder. Segundo João Domingos, no artigo de Mantega “Sexo e Poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da dominação” podemos ler: “...a construção do homem novo e a conquista da liberdade vão muito além da destruição do Estado capitalista.” Hoje, 30 anos depois, podemos nos arriscar a dizer que a Revolução Sexual e a erosão dos valores vitorianos não destruiu o capitalismo.

Todos conhecem a outra expoente da sexualidade do PT paulista, a ministra do Turismo Marta “Relaxa e Goza” Suplicy. Ela é talvez a principal expoente feminista pela libertação sexual do partido, participando todos os anos da passeata dos GLBTS, embora, segundo seu filho Supla, não seria mais do que uma burguesinha se não fosse o seu pai, o ilustre senador Eduardo Suplicy. Foi ele quem, ainda nos anos 80, propôs o Programa de Garantia de Renda Mínima. Seria assim quase um “pai” do Bolsa Família.

Se bem que é opinião comum até entre os petistas que este ícone da ética seja meio lesado. Vai ver foi por isso que a Marta, então prefeita de São Paulo, deu-lhe um pé na bunda para ficar com o franco-argentino Luis Favre - ou seria Felipe Belisário Wermus, envolvido no esquema de Caixa 2 do Partido dos Trabalhadores e na negociata envolvendo a Portugal Telecom juntamente com Naji Nahas, o homem que quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989, quebra da qual esta Bolsa nunca se recuperou? É muito irônico! De mulher do “homem perfeito” à mulher de bandido.

Segundo os boatos, quem lucrou dando este “corner” em Nahas foi um jovem economista chamado Daniel Dantas, do qual, segundo se comenta, o professor Simonsen disse tratar-se do aluno mais brilhante que já tivera. De fato, mais tarde Nahas se aliaria à Telecom Itália e ao PT contra Dantas na disputa pela Brasil Telecom. Dantas contrataria a Kroll para espionar a cúpula petista e acusaria o governo Lula e o PT de tentar cobrar US$ 50 Milhões para que a Anatel e os fundos de pensão estatais o apoiassem na questão da Brasil Telecom.

Em 1968, o jovem cheio de hormônios José Dirceu participou do rompimento com o Partidão e se aproximou de grupos como a ALN liderada por Carlos Marighela e Dilma Roussef. A sua decisão pela luta armada duraria pouco, pois no mesmo ano foi preso no XXX Congresso Nacional da União dos Estudantes (UNE), realizado em um sitio em Ibiúna em São Paulo – aliás, coisa de “gênio” aquele congresso supostamente secreto. Em seguida, é trocado pelo Embaixador americano seqüestrado pela ALN e MR8 e é exilado.

No exílio fez supletivo de guerrilha em Cuba mas não se tem conhecimento de nenhuma ação em que tenha estado envolvido. O engraçado é que os velhos comunistas ainda têm mágoa destes caras da Geração de 68 que declararam guerra aos militares e foram para o exílio enquanto eles ficavam aqui levando porrada. Mais tarde, a Geração de 68 pratica o segundo rompimento com o Partidão fundando o PT em 1980.

Com a fundação do PT, a Geração de 68 começa a desistir da luta armada como caminho para se chegar ao poder. O discurso agressivo nacionalista e anti-corrupção do PT foi muito bem sucedido na década de 80 e nos estertores do pior governo brasileiro do século XX, o governo Sarney, que terminou o mandato com inflação de 80% ao mês. Eles talvez conquistariam o poder se não fosse pela intervenção da Rede Globo, que editou o debate com o Collor e explorou muito bem o episódio do seqüestro do empresário Abílio Diniz por um guerrilheiro esquerdista chileno. Não podemos esquecer também da amante do Lula e da sua filha fora do casamento que lhe causaram algum embaraço e da ameaça do Collor com a 'pasta'. Enfim, na ocasião o Lula afinou e segundo gente que era do partido na época foi tomar uísque com a direção da TV Globo.

Nesta época, o PT ainda acreditava nas Comunidades Eclesiais de Base como uma forma de aproximação com o povo. Mais tarde, o Bolsa Família se mostraria muito mais eficiente. De fato, o Bolsa Família foi capaz de substituir a perda de parte da classe média após o Mensalão. Mesmo nos piores momentos o PT sempre teve o apoio do MST, da CUT e dos sindicatos de servidores públicos - a burguesia de estado -, que, em geral, foram comprados com bons aumentos, embora tenham de tolerar chefes geralmente incompetentes oriundos do partido, como o Milton Zuanazzi, presidente da ANAC, que de vereador amigo da Dilma e sem experiência em aviação civil virou a principal autoridade civil na área.

Na década de 90, após a derrota de Lula duas vezes para FHC, a cúpula petista percebe a necessidade de mudar a orientação do PT, e José Dirceu é encarregado de subverter a ordem petista com o Campo Majoritário, cujo poder se sobrepõe as tendências, disciplinando-as. Mais tarde, Lula adota uma linha quase hippie de paz e amor chamada de “Lula Light” sob a orientação do publicitário Duda Mendonça e conquista o centro do espectro político.

O PT aceita que o povo não gosta de inflação nem de bravatas do tipo que não fará o pagamento da divida externa e o IBGE mostra que com o fim da inflação começa-se a redução da concentração de renda. De fato, a proposta de FHC, pai da teoria da dependência e ex-discipulo de Florestan Fernandes era reduzir o Estado e desta forma atacar a burguesia que vive as custas dos favores deste. Chavez e a sua boli que o digam.

Semana passada, discutindo com alguns ex-alunos da Maria da Conceição, que comemoravam a morte do ACM, eles me diziam que Dirceu é na verdade um herói, um verdadeiro Robin Hood que descobrira um novo caminho para a Revolução Socialista, o caminho da corrupção. Segundo eles, o abrandamento do discurso petista e a adoção do Caixa 2 punha o partido em condições de igualdade na disputa eleitoral com os demais partidos permitindo-lhe efetivamente chegar ao poder. Para eles, é natural que diante de uma burguesia corrupta a melhor estratégia seria adotar o seu jogo e usá-lo contra os próprios burgueses.

Embora o Caixa 2 tenha dado melhores condições de disputa eleitoral ao PT, foi o Bolsa Família que efetivamente deu a Lula a sua reeleição com os fantásticos índices de aprovação em torno de 80% no Nordeste. Cristóvam Buarque não hesita em afirmar que o Bolsa Família é corrupção. É coronelismo mas é realpolitik e funciona. Acho que nunca o certinho do Eduardo Suplicy imaginou a utilidade eleitoral de sua idéia, que visava dar cidadania às pessoas e não construir o maior curral eleitoral que já se viu na história deste país. O Cristovam Buarque foi o homem que teve a melhor idéia daquela geração propondo o Bolsa Escola, ou seja, a extensão do sistema de bolsas para os alunos carentes desde o ensino fundamental.

A partir disto, o aparelhamento do Estado passa a ser na verdade condição necessária para que os recursos do Estado sejam desviados para os movimentos sociais aliados do governo e da “Revolução”. Afinal, se os grandes fazendeiros “roubam” o Banco do Brasil, por que os Sem Terra e outros movimentos sociais não têm direito a algum recurso a fundo perdido do Tesouro? Isto é apenas distribuição de renda. E se existe corrupção nas estatais e nos fundos de pensão, que se cobre a parte do partido e dos aliados. E para isto ser feito da melhor maneira é preciso nomear os companheiros de confiança para estes cargos, independente das suas qualificações profissionais.

Mas política também é aprendizado e o PT aprendeu com a cassação de Collor. Construiu uma maioria no Congresso com cargos, emendas no orçamento, favores e por que não, dinheiro (o Mensalão). Hoje, o PMDB é o melhor partido que o dinheiro pode comprar e com ele o governo consegue maioria no Congresso, elege os presidentes das duas Casas e controla a agenda legislativa. Afinal de contas, por que o PMDB luta há meses para nomear diretores na Petrobras? Será preocupação para que esta empresa seja bem administrada ou uma maneira de garantir o seu quinhão no butim?

Ate a UNE que gerou grandes lideranças no passado como Jose Serra que foi seu presidente em 63/64 e foi exilado, hoje virou capacho do governo. No exterior, ao invés de cursinho de guerrilha Serra fez doutorado em Economia em Cornell e foi professor em Princeton. De volta ao Brasil, se tornou professor da UNICAMP, propôs a lei que capitaliza o BNDES com 40% dos recursos do FAT, a principal fonte de recursos para o setor privado, alem da conhecida lei dos genéricos. Hoje, esta UNE, outrora maternal dos futuros politicos, apóia o Lula na crise do Mensalao e vive do comercio entre fraudulento e negligente de carteirinhas de estudante.

O próprio Mensalão não é algo sem precedentes. Quem não se lembra da denúncia de que o Maluf estaria comprando os membros do colégio eleitoral em 1986 ou de que o FHC teria comprado votos a R$ 200.000 por cabeça para aprovar a sua reeleição em 1996? Portanto, o Mensalão é apenas uma questão de aprendizagem.

Quanto à Globo, em breve ela enfrentará a concorrência da TV Lula, capitaneada pelo Franklin Martins, que certamente está ansioso para dar o troco na emissora que o demitiu. A Veja vai mal das pernas, a Primeira Leitura fechou e a imprensa é constantemente atacada por membros do governo, senão pelo próprio Lula. Enquanto isto, a imprensa amiga do governo vai se fortalecendo financeiramente com o aparecimento de patrocinadores dispostos a por dinheiro a fundo perdido em diversos órgãos. A circulação da Carta Capital cresce cada vez mais.

As resistências vão cedendo e a “Revolução Socialista da Geração de 68” vai se tornando uma realidade. Não pela Revolução Sexual, não com a libertação da mulher, não pela Luta Armada como fez o seu ídolo Fidel, não com o combate à corrupção, não com as Comunidades Eclesiais de Base mas com um líder sindical carismático semiculto e com muita corrupção.

O grande general sifilítico Mao conquistou a China com a Grande Marcha. Lênin conquistou uma Rússia esgotada pela Primeira Guerra Mundial e cuja elite afrancesada havia perdido o contato com as bases sociais. Lula dominou o Brasil com um pouco de corrupção e com o Bolsa Família. E a TV Lula só tende a aumentar esta hegemonia dando a cobertura “correta” aos acontecimentos nacionais e se preparando para ser uma alternativa caso um dia se tenha que chegar ao extremo de discutir o controle “democrático e social” da concessão da TV Globo.

21 julho 2007

As Angústias de um Engravatado

É curioso como às vezes pensamos em escrever uma coisa mas quando nos sentamos somos guiados pelas nossas angústias para escrever outras. Hoje, saindo do trabalho, olhei para os prédios em volta e para as pessoas passando por mim e pensei que era ali que eu havia desejado estar, ou seja, em um local cheio de pessoas, de prédios e de trabalho.

Não apenas trabalho mas projetos interessantes. Afinal, o trabalho deveria nos prover não apenas o pão mas também a realização... Ridículo, não? Esta é a típica neura da classe média "full of shit". Não seria mais fácil simplesmente ter desejado ficar rico ou ter um bom emprego público, como o de um juiz ou promotor?

O ambiente de trabalho moderno é um desafio ao ego. É muito dinâmico. As relações são marcadas por competição e colaboração às vezes quase simultâneas. O espaço físico é cada vez menos pessoal, mais grupal. Mesmo nos ambientes de escritório americanos, vemos que o espaço privado é um privilégio cada vez maior.

Já disse um "filósofo" chamado Gurdjieff, certa vez, que o homem quer "dormir" e o conforto ajuda muito nisto. Ter um emprego, uma certa estabilidade e a esperança de uma carreira são uma armadilha e tanto. O dormir para ele é igual a estar passivo interiormente, é o deixar-se levar pela maré.

O trágico desta estória é que geralmente quase todos "despertam" na velhice, quando a vida já passou. De que adianta a sabedoria de um velho? Ele provavelmente nunca a usou e o jovem que o ouve também não acreditará nele. Os jovens preferem aqueles que falam a insensatez que eles queiram ouvir, afinal, a Verdade não é algo agradável ao nosso ego, que vive da mentira e de cultivar as suas pequenas ilusões.

Talvez seja por isso que a velhice contenha sabedoria, afinal, um dia, por mais que neguemos, não conseguiremos mais nos iludir. Se bem que agora me lembrei que meus colegas de blog não acreditam n’A Verdade. Acho que A Verdade começa quando aceitamos o que somos aqui e agora.

E quem somos nós? Sugiro um minuto de silêncio interior para que esta pergunta possa ecoar um pouco antes de ser ansiosamente respondida ou desclassificada pela nossa mente. Eu mesmo estive tentado a escrever o que acho, mas penso que cada um deve responder por si mesmo.

As palavras são apenas códigos que nos permitem comunicar, pois supomos que elas estão associadas a objetos comuns. O problema é que quanto mais subjetiva se torna a comunicação menor a chance das palavras se referirem aos mesmos objetos. Neste caso, não há comunicação. Acho que esta é a tragédia dos “livros sagrados”, que tentam nos dizer quem somos.

Vamos tentar de outro jeito; se vocês não acreditam n’A Verdade, então vocês devem acreditar n’A Mentira? E se A Mentira existe, então dialeticamente existe um pouco de Verdade na sua própria negação, ou seja, A Mentira.

Se bem que existem pessoas que confundem Verdade, sinceridade, com algum tipo de incontinência verbal. O caso clássico é quando alguém chega para você e começa a frase dizendo: “Eu queria te dizer umas verdades...”

Eu sempre tive pouca fé, mas acho que todo mundo deve escolher no que acreditar. Seja no lucro, seja em Marx ou então, quem sabe, na liberdade. Existe liberdade? Segundo uma psicanalista amiga minha, não. Somos escravos de algum desejo que tivemos algum dia e que submergiu em nossa inconsciência. E de lá domina toda a nossa existência.

A boa nova, segundo um outro autor que li, seria que se não somos livres então também não podemos pecar. Neste sentido, um santo que lutou toda a sua vida para se libertar de todas as paixões poderia em um momento pecar mais que nós em toda a nossa a vida. Tem um lado meu que não consegue evitar o pensamento: “Se fudeu.” Tanto esforço para se tornar um pecador, kkkk.

Meu ego agora está feliz...transformei as minhas angústias em palavras e ainda mostrei como sou profundo. Isto é que é um bom ego! Ele se orgulha até das próprias angústias. Será que algum dia ficaremos livres dele?
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