
Proibiram o Counter-Strike no Brasil. E o role playing game de fantasia Everquest. Sabem do que estou falando? Esses jogos influenciaram muita gente má ao longo da História, de Adolf Hitler e Mao aos serial killers John Wayne Gacy e Ted Bundy.
E não vamos nos esquecer do Sr. Charles Montgomery Burns, de Springfield. Os videogames são a aurora do mal, the dawn of evil...
Até parece.
Esses jogos foram considerados “nocivos à saúde”, tsc, tsc... Nocivos à saúde? Só se for a do sedentário que passa 10 horas por dia jogando e consumindo Cheetos. Se for nocivo à mentalidade do infeliz, este tem que ter uma cabeça muito fraca e pais muito ausentes para acontecer do moleque querer matar os colegas da escola e seqüestrar a tia da cantina.
Duas esquisitices: a ação foi requerida pelo Ministério da Aeronaútica. Da Aeronáutica??? É, ele mesmo. E o processo não é contra a Electronic Arts, distribuidora do jogo, mas contra a União.
Alguns trechos do que andei lendo. Pelo visto, estão nessa o juiz de menores Siro Darlan, do Rio (que disse que Counter é uma “fábrica de bin Ladens”, sem comentários), a 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas e até uma notinha do Procon de Goiás:
“(…) traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da Organização das Nações Unidas. A polícia invade o local e é recebida a tiros (…)”
Só pode estar brincando. Tropa de Elite explode no Brasil. A maior pirataria. Aposto que os camelôs nunca lucraram tanto com um filme, que, basicamente, é a MESMA COISA que o Counter-Strike, nas poucas seqüências de ação que tem. Vejam o tamanho da hipocrisia. Os índios de Rondônia já devem ter assistido esse filme, mas será que já jogaram CS?
“O jogo “Counter Strike” (reféns, bomba, fuga, assassinato, armas, técnicas de guerra, táticas de guerrilha) reproduz a guerra entre bandidos e policiais e impressiona pelo realismo. O jogo foi criado nos Estados Unidos e adaptado para o Brasil. No vídeo-game, traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da ONU. A polícia invade o local e é recebida a tiros.”
Ui, ui, ui! Que mané... o jogo não foi “adaptado para o Brasil”. Alguém, por sinal muito bom, com um editor de níveis, criou esse mapa, mais um famoso MOD (de Modified Version, versão modificada), coisa que trocentos zilhões de adolescentes fazem no mundo inteiro, com dezenas de jogos de tiro, não apenas esse. O mapa é o cs_rio, fácil de encontrar na internet, jogava muito em lan houses lá por volta de 2001, 2002 e adorava. Pra quem não sabe, dá pra jogar offline, fora da internet, contra “bots” (inimigos controlados pela CPU, pelo computador). E é um bom mapa, por falar nisso. Boas posições de tiro e o aperto e desnível de uma favela são mesmo uma desgraça pra quem está subindo um morro.
No entanto, CS oferece pencas de mapas com as mesmas características. Hoje nem jogo mais esse nível, a não ser que encontrasse o MOD dele para o CS: Source, a nova versão. Não me interessa mais jogá-lo no Counter original, antigo, pois os gráficos são muito ruins, datados.
A propósito, proibiram o CS: Source também? Porque, que eu saiba, quase ninguém mais joga o CS velho. Ah, esses experts que decidem nossas vidas, tão bem informados.
“O participante pode escolher o lado do crime: virar bandido para defender a favela sob seu domínio. Quanto mais PM´s matar, mais pontos. A trilha sonora é um funk proibido. Nessa escala de violência, cada um escolhe suas armas: pistolas, fuzis e granadas. Na visão de especialistas, o jogo ensina técnicas de guerra, haja vista o jogador deve ter conhecimento sobre táticas de esconderijo, como se estivesse numa guerrilha.”
Levando essa lógica ridícula ao pé da letra, deveriam proibir também Sun Tzu e Maquiavel.
Como em todo mapa de CS, trata-se de terroristas versus contra-terroristas, mas tudo bem, vamos dar essa folga para o juiz e os “especialistas”. Vamos imaginar traficantes contra o BOPE. Mas CS não ensina técnicas de guerra — risos — por mais que você vicie e fique bom na coisa. Na melhor das hipóteses, te dá bons reflexos.
“O jogo “Everquest” leva o jogador ao total desvirtuamento e conflitos psicológicos “pesados”, pois as tarefas que este recebe, podem ser boas ou más. As más vão de mentiras, subornos e até assassinatos, que muitas vezes depois de executados, o jogador fica sabendo (ou não) que era apenas uma armadilha para ser testado para entrar em um clã (grupo).”
Everquest entrou de feliz na história, nem tem distribuição oficial no Brasil. É um RPG de fantasia da Sony. Já matou alguns doidinhos mundo afora, gente que não conseguia desgrudar da tela, se tornava dependente e morria, sei lá, de inanição. O mingau dentro do cerebrinho fritou. Já joguei, é muito imersivo, um universo vasto, mas RPG não faz meu estilo, apesar de gostar de Tolkien — e esse e vários outros jogos são claramente inspirados na obra dele e no mundo de Dungeons & Dragons.
Mas Everquest tem violência no nível do desenho Caverna do Dragão, francamente... É um jogo singelo. Sem sangue, sem possibilidade de sair passando fogo em civis — aldeões seria a palavra mais adequada, afinal, é fantasia...
De qualquer maneira, se o que se quer é sangue, há RPGs infinitamente mais sombrios que não foram proibidos, como a série The Elder Scrolls: Oblivion, vastíssima, com possibilidades quase infinitas, e que já deve estar na quarta ou quinta expansão, ou expansion pack. Um barato, para quem gosta do gênero. Já meu negócio é dar tiros e experimentar alguma simulação de combate. Mas algumas das expansões, como Oblivion — Shivering Isles, são mesmo belíssimas.
Quanto a isso de “tarefas boas ou más”, não são nem tanto as tarefas, mas o grau de liberdade do jogador que lhe permite seguir um caminho bom, outro perverso e dezenas de outros mesclando altruísmo e perversidade, crueldade, violência, etc et tal. RPGs sem alto grau de liberdade não tem graça.
Além do mais, Everquest é bem mais complexo do que a análise da trama divulgada e trata-se de uma mídia social sobre a qual incidem diversos pontos de vista, inclusive os bons. Nada, absolutamente nada, nem uma simples barra de cereal deixa de ter um lado negativo e outro positivo.
Voltando ao Tropa de Elite, uma pequena digressão:
Em uma leitura tão cretina quanto a dos “especialistas”, diante da impossibilidade de saber quem são esses caras, podemos imaginar que recentemente uma modificação foi feita e, ao jogo, foi acrescentado o batalhão Tropa de Elite, que se popularizou após o filme de José Padilha.
Isso fez com que os jogadores preferissem o lado da polícia em oposição ao lado dos bandidos. O game foi proibido porque você não pode escolher se integrar a uma ONG de direitos humanos que atua na favela. Hackers teriam que criar uma ONG de direitos humanos no qual seus integrantes fumam maconha e redistribuem drogas em universidades de elite, evidentemente influenciados pelas cenas do filme, o que seria igualmente considerado anti-ético.
O desvirtuamento por parte dos jovens é que agora eles preferem combater os narcotraficantes e não a polícia, como acontecia desde 1999...
Fim da digressão.
“Os jogos violentos ou que tragam a tônica da violência são capazes de formar indivíduos agressivos, sobressaindo evidente que é forte o seu poder de influência sobre o psiquismo, reforçando atitudes agressivas em certos indivíduos e grupos sociais.”
Bom, isso é, em última análise, infantil. Não vou negar minha vontade ocasional de pegar um fuzil de precisão Sig Sauer, ajustar a sniper scope e mandar bala em alguns alvos (calma, esses foram selecionados, fizeram por merecer), mas não acho que mais ou menos horas de CS vão me levar a isso. Hoje, venho jogando muito Crysis, presentinho de Natal. Minha máquina quase não rodou, foi ao limite com esse, por causa do grau de detalhamento gráfico, altíssima qualidade. O mais puro combate num arquipélago cheio de soldados norte-coreanos. E, em matéria de violência, que é o nosso bone of contention aqui, o osso que queremos abocanhar, deixa CS caído no meio-fio.
“Todo consumidor goiano que se deparar com a distribuição e comercialização dos jogos virtuais “Counter-Strike” e “Everquest” deve acionar o PROCON/GO, via telefone 151 ou por meio do e-mail: consulta@procon.go.gov.br, visando a apreensão destes produtos.”
Que se “deparar”, essa foi boa... Mas vão apreender o quê, Dona Maria? E como? O meu CS não é pirata, é original, veio de graça com outro jogo, mas poderia baixá-lo por zero reais em algumas horas na internet se eu quisesse. Ou comprá-lo com o meu amigo, o contrabandista da feirinha, esse patriota malgré lui. E aí, vão fazer o quê? Fechar o Steam, serviço online da Valve, o fabricante do jogo? É pelo Steam que eu atualizo meu CS: Source e outros jogos da Valve. E jogo online se quiser.
O nível de desconhecimento de quem toma essas decisões é abissal. Algum desses idiotas já jogou esses games? Acho que não.
Eles podiam aproveitar e queimar tudo em praça pública, como os governos autoritários que gostam de fazer isso. No passado, o governo brasileiro já proibiu alguns jogos como Carmageddon, Postal, Doom e Grand Theft Auto. Jogos toscos, diga-se de passagem.
O Sr. Juiz parece não saber que na internet dá pra encontrar, com relativa facilidade, informações sobre montagem de bombas. O que sempre termina com o aspirante a wahabita se explodindo, se este for em frente com a coisa, porque montar bombas lendo instruções ou fazendo curso por correspondência é no mínimo suicida. Mas acho isso bem pior do que o mapinha cs_rio do Counter.
Mas digamos que eu fosse um designer de jogos. Se o meu produto incomodasse e fosse proibido no Brasil, fuck it, porque eu posso muito bem hospedar o meu site na Suécia, onde está o PirateBay, e continuar com a minha vida.
Sem falar que a proibição só gera mais marketing para o jogo e aumenta vertiginosamente a vontade dos jogadores de querer jogá-lo.
O Juiz que determinou a proibição disse que Counter-Strike e Everquest "trazem imanentes estímulos à subversão da ordem social, atentando contra o estado democrático e de direito e contra a segurança pública, impondo sua proibição e retirada do mercado".
As senhoras gordas da platéia, aquelas, patuscas, que ficam se refastelando de tanto rir nas fileiras de trás do programa da Hebe (nas da frente ficam as mocinhas gostosas com carinha de raposa ou de passarinho), agora devem estar com medo. Subversão da ordem social, atentado ao estado democrático de direito e à segurança pública, hummm... não sei não, mas esse tal de Counter-Strike deve ser muito bom, se faz tudo isso. E ainda por cima excitando nossos imanentes estímulos, waaal...
O Procon agora cumpre decisões que cuidam da nossa psique. Ou psiquê. Como queiram. Mas é a nossa psique que sai psicologicamente abalada depois que fazemos uma reclamação ao Procon. Aliás, o telemarketing das companhias de celular causa sérios danos psicológicos, principalmente se você pretende cancelar o seu número. Isso sem falar na conta. Um dano psicológico e tanto.
Para esses “especialistas” em violência: amar, em maior ou menor medida, também pode causar danos psicológicos. Pode levar até ao assassinato.
E clique aqui para ver o game mais violento que conheço.
E não vamos nos esquecer do Sr. Charles Montgomery Burns, de Springfield. Os videogames são a aurora do mal, the dawn of evil...
Até parece.
Esses jogos foram considerados “nocivos à saúde”, tsc, tsc... Nocivos à saúde? Só se for a do sedentário que passa 10 horas por dia jogando e consumindo Cheetos. Se for nocivo à mentalidade do infeliz, este tem que ter uma cabeça muito fraca e pais muito ausentes para acontecer do moleque querer matar os colegas da escola e seqüestrar a tia da cantina.
Duas esquisitices: a ação foi requerida pelo Ministério da Aeronaútica. Da Aeronáutica??? É, ele mesmo. E o processo não é contra a Electronic Arts, distribuidora do jogo, mas contra a União.
Alguns trechos do que andei lendo. Pelo visto, estão nessa o juiz de menores Siro Darlan, do Rio (que disse que Counter é uma “fábrica de bin Ladens”, sem comentários), a 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas e até uma notinha do Procon de Goiás:
“(…) traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da Organização das Nações Unidas. A polícia invade o local e é recebida a tiros (…)”
Só pode estar brincando. Tropa de Elite explode no Brasil. A maior pirataria. Aposto que os camelôs nunca lucraram tanto com um filme, que, basicamente, é a MESMA COISA que o Counter-Strike, nas poucas seqüências de ação que tem. Vejam o tamanho da hipocrisia. Os índios de Rondônia já devem ter assistido esse filme, mas será que já jogaram CS?
“O jogo “Counter Strike” (reféns, bomba, fuga, assassinato, armas, técnicas de guerra, táticas de guerrilha) reproduz a guerra entre bandidos e policiais e impressiona pelo realismo. O jogo foi criado nos Estados Unidos e adaptado para o Brasil. No vídeo-game, traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da ONU. A polícia invade o local e é recebida a tiros.”
Ui, ui, ui! Que mané... o jogo não foi “adaptado para o Brasil”. Alguém, por sinal muito bom, com um editor de níveis, criou esse mapa, mais um famoso MOD (de Modified Version, versão modificada), coisa que trocentos zilhões de adolescentes fazem no mundo inteiro, com dezenas de jogos de tiro, não apenas esse. O mapa é o cs_rio, fácil de encontrar na internet, jogava muito em lan houses lá por volta de 2001, 2002 e adorava. Pra quem não sabe, dá pra jogar offline, fora da internet, contra “bots” (inimigos controlados pela CPU, pelo computador). E é um bom mapa, por falar nisso. Boas posições de tiro e o aperto e desnível de uma favela são mesmo uma desgraça pra quem está subindo um morro.
No entanto, CS oferece pencas de mapas com as mesmas características. Hoje nem jogo mais esse nível, a não ser que encontrasse o MOD dele para o CS: Source, a nova versão. Não me interessa mais jogá-lo no Counter original, antigo, pois os gráficos são muito ruins, datados.
A propósito, proibiram o CS: Source também? Porque, que eu saiba, quase ninguém mais joga o CS velho. Ah, esses experts que decidem nossas vidas, tão bem informados.
“O participante pode escolher o lado do crime: virar bandido para defender a favela sob seu domínio. Quanto mais PM´s matar, mais pontos. A trilha sonora é um funk proibido. Nessa escala de violência, cada um escolhe suas armas: pistolas, fuzis e granadas. Na visão de especialistas, o jogo ensina técnicas de guerra, haja vista o jogador deve ter conhecimento sobre táticas de esconderijo, como se estivesse numa guerrilha.”
Levando essa lógica ridícula ao pé da letra, deveriam proibir também Sun Tzu e Maquiavel.
Como em todo mapa de CS, trata-se de terroristas versus contra-terroristas, mas tudo bem, vamos dar essa folga para o juiz e os “especialistas”. Vamos imaginar traficantes contra o BOPE. Mas CS não ensina técnicas de guerra — risos — por mais que você vicie e fique bom na coisa. Na melhor das hipóteses, te dá bons reflexos.
“O jogo “Everquest” leva o jogador ao total desvirtuamento e conflitos psicológicos “pesados”, pois as tarefas que este recebe, podem ser boas ou más. As más vão de mentiras, subornos e até assassinatos, que muitas vezes depois de executados, o jogador fica sabendo (ou não) que era apenas uma armadilha para ser testado para entrar em um clã (grupo).”
Everquest entrou de feliz na história, nem tem distribuição oficial no Brasil. É um RPG de fantasia da Sony. Já matou alguns doidinhos mundo afora, gente que não conseguia desgrudar da tela, se tornava dependente e morria, sei lá, de inanição. O mingau dentro do cerebrinho fritou. Já joguei, é muito imersivo, um universo vasto, mas RPG não faz meu estilo, apesar de gostar de Tolkien — e esse e vários outros jogos são claramente inspirados na obra dele e no mundo de Dungeons & Dragons.
Mas Everquest tem violência no nível do desenho Caverna do Dragão, francamente... É um jogo singelo. Sem sangue, sem possibilidade de sair passando fogo em civis — aldeões seria a palavra mais adequada, afinal, é fantasia...
De qualquer maneira, se o que se quer é sangue, há RPGs infinitamente mais sombrios que não foram proibidos, como a série The Elder Scrolls: Oblivion, vastíssima, com possibilidades quase infinitas, e que já deve estar na quarta ou quinta expansão, ou expansion pack. Um barato, para quem gosta do gênero. Já meu negócio é dar tiros e experimentar alguma simulação de combate. Mas algumas das expansões, como Oblivion — Shivering Isles, são mesmo belíssimas.
Quanto a isso de “tarefas boas ou más”, não são nem tanto as tarefas, mas o grau de liberdade do jogador que lhe permite seguir um caminho bom, outro perverso e dezenas de outros mesclando altruísmo e perversidade, crueldade, violência, etc et tal. RPGs sem alto grau de liberdade não tem graça.
Além do mais, Everquest é bem mais complexo do que a análise da trama divulgada e trata-se de uma mídia social sobre a qual incidem diversos pontos de vista, inclusive os bons. Nada, absolutamente nada, nem uma simples barra de cereal deixa de ter um lado negativo e outro positivo.
Voltando ao Tropa de Elite, uma pequena digressão:
Em uma leitura tão cretina quanto a dos “especialistas”, diante da impossibilidade de saber quem são esses caras, podemos imaginar que recentemente uma modificação foi feita e, ao jogo, foi acrescentado o batalhão Tropa de Elite, que se popularizou após o filme de José Padilha.
Isso fez com que os jogadores preferissem o lado da polícia em oposição ao lado dos bandidos. O game foi proibido porque você não pode escolher se integrar a uma ONG de direitos humanos que atua na favela. Hackers teriam que criar uma ONG de direitos humanos no qual seus integrantes fumam maconha e redistribuem drogas em universidades de elite, evidentemente influenciados pelas cenas do filme, o que seria igualmente considerado anti-ético.
O desvirtuamento por parte dos jovens é que agora eles preferem combater os narcotraficantes e não a polícia, como acontecia desde 1999...
Fim da digressão.
“Os jogos violentos ou que tragam a tônica da violência são capazes de formar indivíduos agressivos, sobressaindo evidente que é forte o seu poder de influência sobre o psiquismo, reforçando atitudes agressivas em certos indivíduos e grupos sociais.”
Bom, isso é, em última análise, infantil. Não vou negar minha vontade ocasional de pegar um fuzil de precisão Sig Sauer, ajustar a sniper scope e mandar bala em alguns alvos (calma, esses foram selecionados, fizeram por merecer), mas não acho que mais ou menos horas de CS vão me levar a isso. Hoje, venho jogando muito Crysis, presentinho de Natal. Minha máquina quase não rodou, foi ao limite com esse, por causa do grau de detalhamento gráfico, altíssima qualidade. O mais puro combate num arquipélago cheio de soldados norte-coreanos. E, em matéria de violência, que é o nosso bone of contention aqui, o osso que queremos abocanhar, deixa CS caído no meio-fio.
“Todo consumidor goiano que se deparar com a distribuição e comercialização dos jogos virtuais “Counter-Strike” e “Everquest” deve acionar o PROCON/GO, via telefone 151 ou por meio do e-mail: consulta@procon.go.gov.br, visando a apreensão destes produtos.”
Que se “deparar”, essa foi boa... Mas vão apreender o quê, Dona Maria? E como? O meu CS não é pirata, é original, veio de graça com outro jogo, mas poderia baixá-lo por zero reais em algumas horas na internet se eu quisesse. Ou comprá-lo com o meu amigo, o contrabandista da feirinha, esse patriota malgré lui. E aí, vão fazer o quê? Fechar o Steam, serviço online da Valve, o fabricante do jogo? É pelo Steam que eu atualizo meu CS: Source e outros jogos da Valve. E jogo online se quiser.
O nível de desconhecimento de quem toma essas decisões é abissal. Algum desses idiotas já jogou esses games? Acho que não.
Eles podiam aproveitar e queimar tudo em praça pública, como os governos autoritários que gostam de fazer isso. No passado, o governo brasileiro já proibiu alguns jogos como Carmageddon, Postal, Doom e Grand Theft Auto. Jogos toscos, diga-se de passagem.
O Sr. Juiz parece não saber que na internet dá pra encontrar, com relativa facilidade, informações sobre montagem de bombas. O que sempre termina com o aspirante a wahabita se explodindo, se este for em frente com a coisa, porque montar bombas lendo instruções ou fazendo curso por correspondência é no mínimo suicida. Mas acho isso bem pior do que o mapinha cs_rio do Counter.
Mas digamos que eu fosse um designer de jogos. Se o meu produto incomodasse e fosse proibido no Brasil, fuck it, porque eu posso muito bem hospedar o meu site na Suécia, onde está o PirateBay, e continuar com a minha vida.
Sem falar que a proibição só gera mais marketing para o jogo e aumenta vertiginosamente a vontade dos jogadores de querer jogá-lo.
O Juiz que determinou a proibição disse que Counter-Strike e Everquest "trazem imanentes estímulos à subversão da ordem social, atentando contra o estado democrático e de direito e contra a segurança pública, impondo sua proibição e retirada do mercado".
As senhoras gordas da platéia, aquelas, patuscas, que ficam se refastelando de tanto rir nas fileiras de trás do programa da Hebe (nas da frente ficam as mocinhas gostosas com carinha de raposa ou de passarinho), agora devem estar com medo. Subversão da ordem social, atentado ao estado democrático de direito e à segurança pública, hummm... não sei não, mas esse tal de Counter-Strike deve ser muito bom, se faz tudo isso. E ainda por cima excitando nossos imanentes estímulos, waaal...
O Procon agora cumpre decisões que cuidam da nossa psique. Ou psiquê. Como queiram. Mas é a nossa psique que sai psicologicamente abalada depois que fazemos uma reclamação ao Procon. Aliás, o telemarketing das companhias de celular causa sérios danos psicológicos, principalmente se você pretende cancelar o seu número. Isso sem falar na conta. Um dano psicológico e tanto.
Para esses “especialistas” em violência: amar, em maior ou menor medida, também pode causar danos psicológicos. Pode levar até ao assassinato.
E clique aqui para ver o game mais violento que conheço.