Mostrando postagens com marcador Andre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Andre. Mostrar todas as postagens

21 janeiro 2008

A Aurora do Mal


Proibiram o Counter-Strike no Brasil. E o role playing game de fantasia Everquest. Sabem do que estou falando? Esses jogos influenciaram muita gente má ao longo da História, de Adolf Hitler e Mao aos serial killers John Wayne Gacy e Ted Bundy.

E não vamos nos esquecer do Sr. Charles Montgomery Burns, de Springfield. Os videogames são a aurora do mal, the dawn of evil...

Até parece.

Esses jogos foram considerados “nocivos à saúde”, tsc, tsc... Nocivos à saúde? Só se for a do sedentário que passa 10 horas por dia jogando e consumindo Cheetos. Se for nocivo à mentalidade do infeliz, este tem que ter uma cabeça muito fraca e pais muito ausentes para acontecer do moleque querer matar os colegas da escola e seqüestrar a tia da cantina.

Duas esquisitices: a ação foi requerida pelo Ministério da Aeronaútica. Da Aeronáutica??? É, ele mesmo. E o processo não é contra a Electronic Arts, distribuidora do jogo, mas contra a União.

Alguns trechos do que andei lendo. Pelo visto, estão nessa o juiz de menores Siro Darlan, do Rio (que disse que Counter é uma “fábrica de bin Ladens”, sem comentários), a 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas e até uma notinha do Procon de Goiás:

“(…) traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da Organização das Nações Unidas. A polícia invade o local e é recebida a tiros (…)”

Só pode estar brincando. Tropa de Elite explode no Brasil. A maior pirataria. Aposto que os camelôs nunca lucraram tanto com um filme, que, basicamente, é a MESMA COISA que o Counter-Strike, nas poucas seqüências de ação que tem. Vejam o tamanho da hipocrisia. Os índios de Rondônia já devem ter assistido esse filme, mas será que já jogaram CS?

“O jogo “Counter Strike” (reféns, bomba, fuga, assassinato, armas, técnicas de guerra, táticas de guerrilha) reproduz a guerra entre bandidos e policiais e impressiona pelo realismo. O jogo foi criado nos Estados Unidos e adaptado para o Brasil. No vídeo-game, traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da ONU. A polícia invade o local e é recebida a tiros.”

Ui, ui, ui! Que mané... o jogo não foi “adaptado para o Brasil”. Alguém, por sinal muito bom, com um editor de níveis, criou esse mapa, mais um famoso MOD (de Modified Version, versão modificada), coisa que trocentos zilhões de adolescentes fazem no mundo inteiro, com dezenas de jogos de tiro, não apenas esse. O mapa é o cs_rio, fácil de encontrar na internet, jogava muito em lan houses lá por volta de 2001, 2002 e adorava. Pra quem não sabe, dá pra jogar offline, fora da internet, contra “bots” (inimigos controlados pela CPU, pelo computador). E é um bom mapa, por falar nisso. Boas posições de tiro e o aperto e desnível de uma favela são mesmo uma desgraça pra quem está subindo um morro.

No entanto, CS oferece pencas de mapas com as mesmas características. Hoje nem jogo mais esse nível, a não ser que encontrasse o MOD dele para o CS: Source, a nova versão. Não me interessa mais jogá-lo no Counter original, antigo, pois os gráficos são muito ruins, datados.

A propósito, proibiram o CS: Source também? Porque, que eu saiba, quase ninguém mais joga o CS velho. Ah, esses experts que decidem nossas vidas, tão bem informados.

“O participante pode escolher o lado do crime: virar bandido para defender a favela sob seu domínio. Quanto mais PM´s matar, mais pontos. A trilha sonora é um funk proibido. Nessa escala de violência, cada um escolhe suas armas: pistolas, fuzis e granadas. Na visão de especialistas, o jogo ensina técnicas de guerra, haja vista o jogador deve ter conhecimento sobre táticas de esconderijo, como se estivesse numa guerrilha.”

Levando essa lógica ridícula ao pé da letra, deveriam proibir também Sun Tzu e Maquiavel.

Como em todo mapa de CS, trata-se de terroristas versus contra-terroristas, mas tudo bem, vamos dar essa folga para o juiz e os “especialistas”. Vamos imaginar traficantes contra o BOPE. Mas CS não ensina técnicas de guerra — risos — por mais que você vicie e fique bom na coisa. Na melhor das hipóteses, te dá bons reflexos.

“O jogo “Everquest” leva o jogador ao total desvirtuamento e conflitos psicológicos “pesados”, pois as tarefas que este recebe, podem ser boas ou más. As más vão de mentiras, subornos e até assassinatos, que muitas vezes depois de executados, o jogador fica sabendo (ou não) que era apenas uma armadilha para ser testado para entrar em um clã (grupo).”

Everquest entrou de feliz na história, nem tem distribuição oficial no Brasil. É um RPG de fantasia da Sony. Já matou alguns doidinhos mundo afora, gente que não conseguia desgrudar da tela, se tornava dependente e morria, sei lá, de inanição. O mingau dentro do cerebrinho fritou. Já joguei, é muito imersivo, um universo vasto, mas RPG não faz meu estilo, apesar de gostar de Tolkien — e esse e vários outros jogos são claramente inspirados na obra dele e no mundo de Dungeons & Dragons.

Mas Everquest tem violência no nível do desenho Caverna do Dragão, francamente... É um jogo singelo. Sem sangue, sem possibilidade de sair passando fogo em civis — aldeões seria a palavra mais adequada, afinal, é fantasia...

De qualquer maneira, se o que se quer é sangue, há RPGs infinitamente mais sombrios que não foram proibidos, como a série The Elder Scrolls: Oblivion, vastíssima, com possibilidades quase infinitas, e que já deve estar na quarta ou quinta expansão, ou expansion pack. Um barato, para quem gosta do gênero. Já meu negócio é dar tiros e experimentar alguma simulação de combate. Mas algumas das expansões, como Oblivion — Shivering Isles, são mesmo belíssimas.

Quanto a isso de “tarefas boas ou más”, não são nem tanto as tarefas, mas o grau de liberdade do jogador que lhe permite seguir um caminho bom, outro perverso e dezenas de outros mesclando altruísmo e perversidade, crueldade, violência, etc et tal. RPGs sem alto grau de liberdade não tem graça.

Além do mais, Everquest é bem mais complexo do que a análise da trama divulgada e trata-se de uma mídia social sobre a qual incidem diversos pontos de vista, inclusive os bons. Nada, absolutamente nada, nem uma simples barra de cereal deixa de ter um lado negativo e outro positivo.

Voltando ao Tropa de Elite, uma pequena digressão:

Em uma leitura tão cretina quanto a dos “especialistas”, diante da impossibilidade de saber quem são esses caras, podemos imaginar que recentemente uma modificação foi feita e, ao jogo, foi acrescentado o batalhão Tropa de Elite, que se popularizou após o filme de José Padilha.

Isso fez com que os jogadores preferissem o lado da polícia em oposição ao lado dos bandidos. O game foi proibido porque você não pode escolher se integrar a uma ONG de direitos humanos que atua na favela. Hackers teriam que criar uma ONG de direitos humanos no qual seus integrantes fumam maconha e redistribuem drogas em universidades de elite, evidentemente influenciados pelas cenas do filme, o que seria igualmente considerado anti-ético.

O desvirtuamento por parte dos jovens é que agora eles preferem combater os narcotraficantes e não a polícia, como acontecia desde 1999...

Fim da digressão.

“Os jogos violentos ou que tragam a tônica da violência são capazes de formar indivíduos agressivos, sobressaindo evidente que é forte o seu poder de influência sobre o psiquismo, reforçando atitudes agressivas em certos indivíduos e grupos sociais.”

Bom, isso é, em última análise, infantil. Não vou negar minha vontade ocasional de pegar um fuzil de precisão Sig Sauer, ajustar a sniper scope e mandar bala em alguns alvos (calma, esses foram selecionados, fizeram por merecer), mas não acho que mais ou menos horas de CS vão me levar a isso. Hoje, venho jogando muito Crysis, presentinho de Natal. Minha máquina quase não rodou, foi ao limite com esse, por causa do grau de detalhamento gráfico, altíssima qualidade. O mais puro combate num arquipélago cheio de soldados norte-coreanos. E, em matéria de violência, que é o nosso bone of contention aqui, o osso que queremos abocanhar, deixa CS caído no meio-fio.

“Todo consumidor goiano que se deparar com a distribuição e comercialização dos jogos virtuais “Counter-Strike” e “Everquest” deve acionar o PROCON/GO, via telefone 151 ou por meio do e-mail: consulta@procon.go.gov.br, visando a apreensão destes produtos.”

Que se “deparar”, essa foi boa... Mas vão apreender o quê, Dona Maria? E como? O meu CS não é pirata, é original, veio de graça com outro jogo, mas poderia baixá-lo por zero reais em algumas horas na internet se eu quisesse. Ou comprá-lo com o meu amigo, o contrabandista da feirinha, esse patriota malgré lui. E aí, vão fazer o quê? Fechar o Steam, serviço online da Valve, o fabricante do jogo? É pelo Steam que eu atualizo meu CS: Source e outros jogos da Valve. E jogo online se quiser.

O nível de desconhecimento de quem toma essas decisões é abissal. Algum desses idiotas já jogou esses games? Acho que não.

Eles podiam aproveitar e queimar tudo em praça pública, como os governos autoritários que gostam de fazer isso. No passado, o governo brasileiro já proibiu alguns jogos como Carmageddon, Postal, Doom e Grand Theft Auto. Jogos toscos, diga-se de passagem.

O Sr. Juiz parece não saber que na internet dá pra encontrar, com relativa facilidade, informações sobre montagem de bombas. O que sempre termina com o aspirante a wahabita se explodindo, se este for em frente com a coisa, porque montar bombas lendo instruções ou fazendo curso por correspondência é no mínimo suicida. Mas acho isso bem pior do que o mapinha cs_rio do Counter.

Mas digamos que eu fosse um designer de jogos. Se o meu produto incomodasse e fosse proibido no Brasil, fuck it, porque eu posso muito bem hospedar o meu site na Suécia, onde está o PirateBay, e continuar com a minha vida.

Sem falar que a proibição só gera mais marketing para o jogo e aumenta vertiginosamente a vontade dos jogadores de querer jogá-lo.

O Juiz que determinou a proibição disse que Counter-Strike e Everquest "trazem imanentes estímulos à subversão da ordem social, atentando contra o estado democrático e de direito e contra a segurança pública, impondo sua proibição e retirada do mercado".

As senhoras gordas da platéia, aquelas, patuscas, que ficam se refastelando de tanto rir nas fileiras de trás do programa da Hebe (nas da frente ficam as mocinhas gostosas com carinha de raposa ou de passarinho), agora devem estar com medo. Subversão da ordem social, atentado ao estado democrático de direito e à segurança pública, hummm... não sei não, mas esse tal de Counter-Strike deve ser muito bom, se faz tudo isso. E ainda por cima excitando nossos imanentes estímulos, waaal...

O Procon agora cumpre decisões que cuidam da nossa psique. Ou psiquê. Como queiram. Mas é a nossa psique que sai psicologicamente abalada depois que fazemos uma reclamação ao Procon. Aliás, o telemarketing das companhias de celular causa sérios danos psicológicos, principalmente se você pretende cancelar o seu número. Isso sem falar na conta. Um dano psicológico e tanto.

Para esses “especialistas” em violência: amar, em maior ou menor medida, também pode causar danos psicológicos. Pode levar até ao assassinato.

E clique aqui para ver o game mais violento que conheço.

15 dezembro 2007

De Volta a Bizâncio (ou: Idéias de Jerico)

Acho que o pessoal religioso, sabem, aquele, que vivia querendo nos salvar quando éramos adultos lá na Idade Média, nos purificando numa fogueirinha santa, cansou um pouco de nós e, de uns cento e poucos anos pra cá, se voltou para a salvação das almas, digamos, menores. Hoje falam muito em fetos e, claro, em aborto. Lá pelas tantas, se cansaram disso também e parecem estar dando um tempo, ou não se saíram muito bem, não sei, mas o fato é que agora querem “proteger” os embriões, os óvulos, os espermatozóides. Parece que quanto menor, melhor. Daqui a pouco vamos chegar à proteção do estágio de blástula.

E um carola Procurador-Geral da República, que deveria ter mais o que fazer, redigiu uma ação direta de inconstitucionalidade equivocada, para usar uma palavra caridosa. Aconteceu. Ah, Brasil, Brasil, minha pátria amada, idolatrada, salve, salve… o que não acontece por aqui?

Em 2005, o papalvo Cláudio Fonteles fez isso. Uma ADIn que atravancou as pesquisas com células-tronco embrionárias no país. Francamente, o cara tem que ter mingau na cabeça pra se sair com uma presepada dessas.

Raspada a conversa fiada, o trólóló, o “embasamento jurídico” e o burocratês, essa foi uma idéia de jerico, naturalmente. Por mais que ele esconda os pruridos religiosos por trás do que fez, travestidos com aquele papo de que está estritamente preso ao que a Constituição diz, que a proteção da vida, que o Direito, blá, blá, blá...

Certo, ele nunca vai admitir: “fiz isso por que a minha fé, minha crença…”. O que é tolo, mas algo revelador (no que deixa entrever um raciocínio moralista rastaqüera). E honesto, ao menos. Pode-se até dizer que, por “acaso”, a crença dele casou direitinho com a questão, com o “caso em tela”.

Se essa lontra não fosse tão irrefletida, tão inconsciente de si mesma, talvez tivesse parado por um minuto, se dando conta de duas coisas singelas:

1) ninguém pode parar o progresso tecnológico

2) no longo prazo, as células-tronco embrionárias (e não as adultas, nas quais os religiosos estão se agarrando por conveniência, sem nem mesmo uma idéia clara das diferenças entre elas e as embrionárias) e derivados vão curar ou reduzir drasticamente o estrago de várias doenças degenerativas, sem falar na possibilidade de se fabricar órgãos.

E isso só pra ficar na superfície.

Mas não adianta. O sujeito é incapaz de raciocinar, de pensar por um instante além de seu mundinho besta e vidinha idem. Sua cabeça não vai além da Palavra Revelada na Sagrada Escritura, edição autorizada pela Santa Madre Igreja. Um cara limitado, enfim, por mais respeitado, cheio de títulos e o que mais seja ou tenha. Um cara que segura na mão do padre, enquanto com a outra redige uma excrescência.

Pela mão do pároco, o cara joga para a platéia, faz o seu acting, o seu show, mas é claro — e mais uma vez — sempre podendo argumentar que não é nada disso, antes muito pelo contrário, que só está cumprindo seu dever profissional, de procurador, cidadão consciente, sei lá. O bom cristão. O pior idiota sempre é o mais consciente.

Não é à toa que o mesmo pessoal se dedique com tanto afinco para impedir a legalização do aborto de anencéfalos. Deve ser a Mãe Natureza, o instinto de autopreservação lhes dizendo: “preservem os seus”…

E olha que estamos num Estado laico… mas nem falemos nisso, já que nosso laicismo ainda é cotó demais. Vai levar mais umas décadas (séculos?) para a mentalidade de sacristia desinfetar de nosso “inconsciente coletivo”. Se desinfetar. Imagino que ele realmente acredita no que diz, que seja mesmo um crente pio. Gente assim é importante para a Igreja, para toda religião. É útil. A força do bom-mocismo desses inocentes úteis não pode ser menosprezada. E dá ibope viver se indignando com as injustiças do mundo, sempre bestificado com o que acontece — e, não vamos nos esquecer, sempre por uma “boa” causa, com aquele ar grave, sério, a cara de compungido.

Em última análise, porém, no grande esquema das coisas, ele não passa disso, de uma ovelhinha prestativa. Bonitinha, mas ordinária. Os bestificados, depois de um tempo, só servem para isso: se bestificar. Sua pose, o teatrinho vulgar que nem sabem que estão fazendo, já que acreditam no que dizem, é a regra.

Tudo isso é muito cansativo. O bom é a gente saber das coisas, o que entre outras coisas nos torna impermeáveis a surpresas, decepções e até algumas desilusões maiores. Essa prostração bovina, essa ausência do pensar por conta própria, de pensamento, ponto — que afinal é o que nos torna seres humanos completos, gente, no sentido mais amplo da palavra (eu sei, eu sei, a maioria da humanidade nunca chega nesse estágio, fica lá no de blástula, por falar nisso, mas estou falando dos 2% que sabem das coisas, que salvam, que “redimem” um pouquinho a espécie) — esse rastejamento todo é deprimente.

Sem falar na sensação de vácuo, de falta de receptividade, quando escrevo sobre essas coisas. Sobre qualquer coisa, aliás. Quantas vezes, dizendo o que me parece o óbvio, não fui tomado por uma vontade irresistível de silenciar, de cair fora, porque consciente da futilidade do que escrevo, pelo fato de que quem concorda comigo já sabe do que estou falando, enquanto quem discorda nunca vai me entender - muitos nem saberão, porque vivem na indiferença primitiva, minimalista, da sociedade brasileira, ou estão de tal forma esmagados pelo trabalho braçal, que enfrentam sem preparo físico, que nem sequer sonham que uma vida melhor é possível.

Mas as coisas mudam, felizmente. Talvez nesse caso mude rápido, acho bem provável que o Supremo derrube a ADIn.

O engraçado é que, depois da presepada, talvez vendo o tamanho dela, o lobby clerical catou uns cientistas não sei de onde e veio com um catálogo de conversa mole. Cada dia é uma. A última, a reboque da própria Ciência (a séria), foi a de que andaram fazendo progresso por aí com células adultas. Ok, nada contra, mas estas nunca terão o potencial das embrionárias, por uma penca de motivos.

Depois — e o mais divertido — ainda acharam que podiam pegar emprestado da filosofia uma questão jamais resolvida, e quem sabe até dar um jeito nela: o início da vida. Para mim, outra idéia de jerico, cortesia, “geração espontânea”, da idéia de jerico inicial. Às vezes se tem a impressão de que voltamos a Bizâncio: logo vamos discutir o sexo dos anjos, a essência da Santíssima Trindade e excentricidades metafísicas mil.

A vida começa… bem, vocês escolhem. Podem dizer que ela começa no zigoto, no rabinho do espermatozóide, no átomo da mitocôndria… A convenção católica, por exemplo, diz que ela começa na concepção. Ninguém sabe quando ou onde ela começa. A meu ver, os religiosos se deram mal na audiência pública (acho que eu e outros cinco assistiram a ela quase toda na TV Justiça) feita pelo STF sobre o assunto. Insistiram nessa estaca zero, tinham que fincá-la de alguma maneira, dizendo “a vida começa aqui, ó”. Terminaram dando voltas e se perdendo.

Mas tudo bem. O homem não cria problemas que não possa resolver. Não acho que o mundo vá regredir para alguma forma de bestialismo medieval um dia, apesar dos tropeços. Nem que tudo vá acabar em besteira generalizada ou em pseudointelectualismo, como achava um Ortega Y Gasset. Há saídas, estreitas, mas seguras e claras, dessa porcaria toda.

Se já armaram essa briga toda por causa das CTEs, imagino o que não vão armar quando começarem a clonar gente no futuro distante. Quem sabe, quando estivermos clonando gente como pãezinhos na padaria e torcendo o DNA à vontade, os incompreendidos e malvados caras de jaleco branco não aproveitam pra dar uma melhoradinha na espécie. Se alguém reclamar, podem dizer, como o Millôr, que eugenia é só uma forma científica de se ter filhos mais bonitos.

24 outubro 2007

Oportunidades

A oportunidade faz o furto. Qualquer nação, povo ou líder nasce ladrão. Sem falar nas muitas instituições. O sofrido (e ambíguo) anti-imperialista egípcio Gamal Abdel Nasser era, afinal, um descendente dos faraós. Até o nosso Brasilzinho incruento deu uma de realpolitik pra cima do Paraguai no Século XIX. Liquidamos quase todos os paraguaios homens, numa guerra cuja história ainda não foi satisfatoriamente contada, talvez. O curioso é que os dois maiores imperialismos dos Séc. XX, o dos EUA e o da URSS, nasceram de revoluções anti-imperialistas. O círculo e ciclo vicioso perfeitos.

Os EUA reagiram hostilmente à luta pela independência no Brasil. O próprio Jefferson esnobava nossa gente. Ah, e também houve a metamorfose da Revolução Francesa no imperialismo napoleônico, mas esse durou pouco. "As coisas devem mudar para continuarem como estão", diz Tancredi em Il Gattopardo, de Lampedusa (ilustração). Enfim, o revolucionário de hoje é o reacionário de amanhã: isso é meio verdadeiro, mas simplista, porque há muito mais por trás disso tudo.

O zé-povinho está por fora das sutis modulações do pensamento histórico. Hoje visto como imperialista, Israel era o paradigma da justiça e da virtude lá no começo. E se considera superior aos demais países, como todos os outros. O patriotismo não é só o último refúgio dos velhacos. O autor da frase, Samuel Johnson, sabia muito bem da força do condicionamento cultural, da língua, costumes, amibente, etc, sobre o indivíduo. Transferida essa força para o coletivismo da nação, da “raça”, do povo, temos os nacionalismos.

Às vezes me parece que quanto mais sofrido o grupo humano, mais paranóico. Quase todo brasileiro alfabetizado sabe que não passamos de uma Ruanda com elefantíase, mas no que fazemos bem (ou achamos que fazemos), futebol e carnaval, por exemplo, entregamo-nos a uma arrogância e insolência incríveis. Essa explosão tribal quando a Seleção ganha uma Copa poderia, em outras circunstâncias, ter sido recondicionada, digamos, para esmagar o Uruguai, a Argentina ou a Guiana Holandesa — e com todo mundo se achando do lado do “bem”. Qualquer superpatriota, seja americano, russo, chinês, israelense, árabe, nigeriano, etc, tem sempre explicações cartesianas para os atos do seu país. Não admite, em termos de nação, o irracionalismo que experimenta em si próprio. Idiota, mas verdadeiro.

Quem pode, quando pode, destrói e reprime enquanto der. Por exemplo, no último século, enquanto os comunistas matavam, os católicos se limitavam a nos condenar ao fogo eterno (e, no episódio do Holocausto, quando poderiam ter feito algo de bom, salvando muita gente, preferiram se omitir — ao menos a cúpula, no Vaticano). Uns estavam aproveitando a oportunidade, outros já haviam perdido a sua. Mas há outras formas de repressão ainda bastante ativas. Até hoje as várias Igrejas exercitam, ainda que sutilmente em muitos casos, uma certa repressão à liberdade sexual. O indivíduo com domínio e expressão de suas sensações escapa à engrenagem. A construção de todos os sistemas políticos e religiosos foi marcada pelo moralismo. O ódio entranhado de São Paulo ao sexo tinha relação com a repulsa necessária ao free for all do paganismo. Freud percebeu coisas assim, mas aceitou tudo fatalisticamente, como imprescindível ao progresso, embora considerasse impossível transformar nosso cerne biológico. Somos um animal domesticado, mas indomesticável, no fundo. Desse choque vem a nossa patologia psíquica. Uma das premissas da tradição judaico-cristã é a de que temos de ser aperfeiçoados para um destino autotranscendente, superior, ad majorem Dei gloriam. A mística da perfeição.

Prefiro a mística da imperfeição do homem, antes da conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo. Os gregos e romanos pregavam a imperfectibilidade do homem como condição permanente, a ser dosada por melhorias, devagar, aos poucos e com realismo. Aristóteles, principalmente. Tomás de Aquino batizou-o, postumamente, mas extraiu muito do que havia de mais sadio. Se Freud tinha razão ao dizer que os judeus assassinaram Moisés no deserto, por não agüentarem mais a tirania salvacionista do líder, estes fizeram muito bem. Em certos momentos históricos, o lema devagar e sempre merece os nossos mais altos protestos de estima e consideração.

15 outubro 2007

"01, manda subir!"

"Vai ficar todo mundo quietinho aí! Todo mundo quietinho! Ninguém sobe!" (Capitão Nascimento, o novo herói por vias tortas nacional, para um grupo de PMs na subida do morro)

E não sobem mesmo. Podem até resmungar, mas PMs comuns não sobem o morro junto com o BOPE.

Na abertura, uma citação que diz mais ou menos o seguinte: não é o caráter que determina as condições de um homem, mas, sim, o contexto social em que ele vive. Mais ou menos isso. Muita gente não deve ter gostado. Para mim, por mais forte e bem construído o caráter, o meio às vezes pode passar por cima dele e virar tudo do avesso. Não é fatalismo, mas fatalidades acontecem, e nem por isso o raciocínio geral precisa ser fatalista. Isso exige a compreensão de certas nuances, claro. Quem vê e lê as coisas nas entrelinhas as pega, as nuances, sem problema.

Excelente história (a gente sai com gostinho de quero mais, pena que dificilmente venham a fazer uma seqüência), boas seqüências de ação e táticas de combate assustadoras. Esperava ver mais cenas assim, se bem que os ataques furtivos dos caras são show...

Cruzaram bem as vidas, os “destinos”, pra quem acredita nessas coisas, do Capitão Nascimento e dos dois “aspiras”, jovens e inexperientes, mas íntegros, PMs. Aliás, dois atores ótimos.

Violento, porém sabendo que não apareceu o pior. Quase chegou lá. Nem poderiam mesmo mostrar certas coisas que as polícias do Rio e de São Paulo fazem. Talvez o livro conte mais.

Sobre a violência do treinamento. Alguma violência funciona e é necessária, só que nem todos os grupos de elite fazem assim. Muitos não fazem absolutamente nada disso, nem pensar. Em muitos deles o treinamento em si é tão massacrante que simplesmente não há necessidade de espancamento e humilhações. Claro que isso varia muito de país para país, mas não é a norma, por exemplo, no Special Air Service, o SAS inglês. Mas é — a brutalidade — nos Spetsnaz russos. Depende. A mim me parece uma questão cultural, de cultura militar, de tradições guerreiras, chamem como quiserem.

Não estou querendo sugerir que os britânicos sejam um “doce”, enquanto os russos são, bem, os russos. Antes muito pelo contrário... Mas um treinamento não precisa de violência, física ou psicológica, para ser cruel. Sempre há outros meios. Poderia citar outras unidades de elite menos conhecidas e seus métodos, mas a lista é longa, vamos ficar por aqui. O que interessa é que o treinamento desses caras é ainda mais pesado e diversificado, mais voltado para resistência e sobrevivência, além de coleta de informações/espionagem, assassinato, seqüestros, atentados, demolições, reconhecimento, guerra convencional e irregular, enfim, tudo. Diferente do BOPE do Rio, sem dúvida.

O que não quer dizer que o BOPE seja inferior. Fazem intercâmbio com alguns grupos estrangeiros até. Mas estamos falando de guerrilha urbana, de polícias de elite, nada a ver com grupos militares de elite. No entanto, em matéria de infiltração e furtividade, surpresa, o BOPE é dez. Por outro lado, treina unidades militares estrangeiras, nesses particulares, nesse ambiente, não só forças policiais de fora. Eis a grande diferença. Além do que, no Brasil há outros grupos assim, policiais e militares, nunca sequer mencionados. Bem, o BOPE existe desde 1978, a guerra nos morros do Rio é antiga e ele só ficou famoso agora, não?

Eles chegam a escalar paredões, encostas, cientes de que os traficantes não esperam um ataque naquela direção. Acho que dá pra ver isso numa cena. Tudo para não perder o elemento surpresa. Acredito no oficial do grupo que, sob anonimato, disse que há muito mais que não foi mostrado no filme. E imagino que não foram só técnicas de tortura, mas de combate, de guerra, que ficaram de fora. Ainda assim, o que foi mostrado é bem legal: táticas de assalto silenciosas, rápidas, letais e, claro, o tiro de precisão dos snipers.

Destaque para a cena em que pegam um traficante, que pede para não ser “finalizado” com um tiro no rosto, para sair bem no enterro. O oficial do BOPE não só ignora o pedido como pega um rifle de repetição calibre 12, antes de passar essa execução para um colega. Não poderia haver estrago maior do que o causado por essa arma...

Mas não é só tiros, não. Expõe a corrupção generalizada e arrasa com a classe média e média alta. O melhor, a meu ver.

Sabem, não tenho raiva nem (muita, he, he) inveja de um Luciano Huck, digamos - esse membro da "elite branca" atacado pela própria, bem como por supostos representantes dos "excluídos" (não existem mais pobres, sabiam?) depois daquela entrevista, do roubo do Rolex. Independente do que cada um pense dele, razão ele tem em ficar com medo e revoltado. E a gente em ficar preocupado. Afinal, isso pode acontecer com qualquer um de nós. Não sei, por exemplo, se o Luciano Huck realmente faz o que diz que faz pelas crianças carentes, com tanta dedicação, por meio de uma ONG numa favela. Imagino que sim, que faça. Bom, não acho que essa seja a questão, nem vou entrar nesse assunto agora.

O fato é que parte dessa elite retratada no filme — só se for elite do ponto de vista da renda, porque intelectualmente é uma negação — realmente é de dar nos nervos.

A parte da discussão universitária parece meio artificial, ensaiadinha demais, mas me lembrou tanto de certas aulas na faculdade... Aqueles universitários de direito fazendo o trabalhinho sobre Foucault. Ah, eu passei por isso. Repetidas vezes. Com 98% de semelhança. Tive que ler essa joça, entre outras. Os coleguinhas, quase todos exatamente como aqueles, tolos, alienados e, também quase todos, consciente ou inconscientemente, de esquerda ou “libertários contestadores do sistema”. Do livrinho chatóide do Foucault, aquele picareta “pós-moderno” francês, entrávamos nas lições de filosofia (risos) de Marilena Chauí. Li, voando, como um médium psicografando textos do Além, muitas piroquetagens modernosas importadas de Paris e da Alemanha. E o discurso em academês do professor? Perfeito.

Só faltou o BOPE entrar em sala de aula. Aquela linguagem seca, o “01, manda descer!”, dentro da faculdade, já pensou?

Dentro disso tudo, a melhor frase foi a do policial para a ex-namorada: "Não se preocupe com seus amigos seqüestrados: os traficantes têm consciência social." Não tinham, lógico, e deu no que deu.

Depois de salvar dois PMs encurralados num morro, o Capitão Nascimento olha para eles e pergunta: “Os Srs. estão feridos? Os Srs. são policiais? Pois agora os Srs. vão aprender a carregar corpo.” Pois é: ou você se corrompe ou finge que não é com você ou entra na guerra.

21 setembro 2007

A xícara de chá quebrou

Há uma frase de Auden, de um poema dos anos 30, que contém tudo o que eu gostaria de dizer neste post: “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead”. A tradução é chata. A melhor palavra para crack seria racha, mas soa mal em pelo menos dois sentidos. A frase, em inglês, à parte a harmonia maravilhosa (“opens a lane to the land” é o fino) não tem uma palavra latina, corre em monossílabos e dissílabos, o que lhe dá uma dureza perfeita para contrastar com a imagem aparentemente suave da morte do conteúdo. Mal traduzida, mas literalmente: “A racha na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.”

A xícara de chá representa a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. A rachadura, a quebra dessa ordem, abrindo a vereda (a base da aristocracia, de títulos e de dinheiro, dos ingleses, é o campo) para as hecatombes de 1914 e 1939. A xícara de chá há muito foi arquivada na cristaleira. Hoje a Coca-Cola é o que já está rachando e, com ela, o cálice papal e outros utensílios domésticos vendidos às velhas gerações como inquebráveis. Pois Auden pegou foi o momento exato da quebra, que ainda estamos vivendo e que parece, estranhamente, institucionalizado. Nossa civilização lembra aqueles quartos horríveis onde agora põem as pessoas à morte nos hospitais. Tudo no corpo da vítima, já morta para efeitos práticos, é controlado eletronicamente. O moribundo vai se arrebentando aqui e ali. O “sismógrafo” registra a quebra. Entra alguém e tapa o buraco. A agonia se prolonga.

Mas nosso organismo, para ficar na imagem médica, não decai como um todo. Partes dele tentam sobreviver, rebelam-se, mantém uma exasperada vida própria, resistindo. Quem esperava a Igreja Católica refletida por João XXIII? Nem Olavo de Carvalho nem eu. Só o totalitarismo da Igreja, sedimentado em séculos e sugerindo uma ilusória coexistência de opiniões diversas — assim como alguns prédios velhos parecem ter em cada canto uma arquitetura única diferente do conjunto — só o totalitarismo preservou a fé institucionalizada (a fé de cada um é outra conversa, infinitamente variável) em face do furacão do materialismo, onde, no mínimo, três “bestas” apocalípticas são visíveis: Darwin, Marx e Freud. João XXIII achava que o melhor do crisitianismo, o respeito ao indivíduo, o desprendimento de coisas materiais, a caridade, etc, poderiam influenciar o pensamento moderno, e resolveu abrir a porta para esse cavalheiro. Foi o mesmo que convidar um leão a entrar na arena.

Depois de 44 anos de stalinismo, alguém esperava a Primavera de Praga? Nem o Departamento de Estado dos EUA nem eu — o primeiro só descansou quando a URSS restabeleceu a “verdadeira” democracia na Tchecoslováquia. Tão ou mais preocupados do que os burocratas do Kremlin com aquela revolução estavam os americanos. Já pensaram no efeito de um socialismo democrático na Europa Ocidental e no resto do mundo, àquela época? O que deteve o comunismo não foi o anticomunismo bestialógico, hoje exemplificado de maneira grotesca em um Olavão, mas o medo da classe média de uma tirania de partido único.

Os velhos sistemas racharam de vez, como dizia Auden. Não tem conserto, mas curiosamente ainda está para acontecer o desabamento. Talvez por isso os mandarins do pensamento antigo acreditam que vão sobreviver, melhorando e reformulando suas receitas de salvação. Os católicos mais progressistas acham que o pensamento moderno é um tigre de papel, domesticável. Ou, na pior das hipóteses, capaz de ser fundido com o cristianismo. É possível, mas improvável. Toda a filosofia moderna destina-se a demonstrar o caráter finito do homem, sua prisão dentro do corpo. Cumprida a nossa sentença na Terra, acabamos. Nem mesmo a idéia de uma ordem cósmica, no sentido idealista, resisitiu a Einstein, que, depois, talvez chocado com as implicações do que descobriu (à maneira de Darwin), passou o resto da vida tentando refutar-se a si próprio, inutilmente.

Não deixa de ser irônico que tanta gente genial tenha se esforçado tanto para convencer-se e convencer-nos de que somos umas porcarias, válidos, lúcidos e inseridos no contexto por uns meros 60 ou 70 anos.

O velho cristianismo dizia o contrário: isso aqui é uma porqueira, mas se a gente agüentar firme, com fé, sem revoltar-se, vai sem escalas para o paraíso eterno. Os jovens católicos e outros progressistas (ou esquerdistas) da Igreja estão certos, naturalmente, quando dizem que essa imagem de cristandade serviu de pretexto para que os ricos explorassem os pobres crentes que iriam à forra no além. Um dos motivos principais das perseguições de revolucionários franceses, russos e outros à Igreja era exatamente esse. Esse também era o motivo do sucesso da Igreja tradicional junto às camadas dirigentes, as quais, na hora da morte, pediam perdão pelos seus pecados terrenos.

Claro, estou fazendo uma caricatura. Todo mundo sempre acha que está fazendo o bem. Qualquer teólogo pode produzir 300 textos “antigos” da Igreja contra a exploração do homem pelo homem (e os materialistas outros 300, onde a posição se inverte). Culturalmente, porém, o divisor de águas entre a nova e a velha Igreja é a militância social. Nenhum católico progressista ou moderno admitiria dizer hoje, como São Paulo: “Os senhores poderão ir à igreja acompanhados de seus escravos.” Os católicos do tipo Olavo de Carvalho, por sua vez, nem deixariam os escravos entrarem.

Algumas pessoas acreditam que uma das conquistas revolucionárias do cristianismo foi a conceituação da inviolabilidade do indivíduo, a valorização por igual de todas as almas perante Deus. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que rejeitava como transitória a vida neste vale de lágrimas, defendia essa vida para todos os homens, sem distinções, condenando inclusive o direito ao suicídio. De qualquer maneira, só quem conhece História sabe o tournant que esse pensamento representou no destino humano.

Não estou sugerindo que o cristianismo fosse cumprido à risca em qualquer época. O darwinismo, antes de Darwin postulá-lo, é que sempre foi a lei da Terra. E não raro manipulado pelos mentores do próprio cristianismo “pela maior glória de Deus”, slogan que um comunista do passado converteria para “em defesa da revolução proletária”. Por trás do blá, blá, blá, naturalmente, processava-se a sobrevivência dos mais aptos. Mas, dizem, o cristianismo fincou a idéia da inviolabilidade do ser humano, ao menos na consciência das chamadas minorias esclarecidas. Mesmo os humanistas ateus e materialistas que o combateram como corrupto, esclerosado e inconsistente com a realidade do mundo, a partir do Séc. XVIII, teriam aceitado a premissa cristã do direito individual, que inexistia (?) na Antigüidade.

De qualquer maneira, em nosso tempo é que houve uma curiosa reversão. As ideologias modernas põem um abstrato bem coletivo acima do indivíduo. Os maiores crimes, de Hitler, Stalin, Pol Pot e o diabo lá sabe quantos mais, foram e são cometidos em nome dos ideais exaltados da democracia, do comunismo e da herrenvolk (os nazistas, a bem da verdade, eram mais sinceros do que os outros em seu darwinismo, botando pra quebrar em benefício próprio, escancaradamente). Há nisso também um paradoxo. O materialismo declara finita a vida do homem na Terra. E, no entanto, os ideólogos do salvacionismo pela política acham justo o sacrifício de milhões de indivíduos — sem vida eterna — em favor de uma hipotética sociedade justa no futuro. Há método nessa loucura, mas loucura é.

George Orwell está certo quando diz que ideologias, filosofias e crenças de toda espécie perdem todo e qualquer sentido se desacompanhados de um respeito decente pelo próximo. A opção, em última análise, tem de ser moral. A pergunta que nos devemos fazer é: você gostaria de ser tratado como milhões de seres humanos são tratados por aí? Ainda que pela “maior glória” do Deus que você adorar?

Quanto maior a repressão ética, maior a violência repressiva de seus proponentes, como se a grandeza dos fins exigisse uma baixeza equivalente dos meios usados para alcançá-la.

A meu ver, nada disso mais dá pé. Por exemplo, duvido que uma “nova” igreja, mesmo moderninha, volte a interessar à maior parcela pensante da humanidade. Quanto ao padre sujo, de batina puída, de pasta corroída, onde se encontra o mapa do Céu, que ele nunca nos mostra, preferindo descrever a planta do inferno, esse já era. Aliás, porcaria e moralismo, se não são inseparáveis, dão-se muito bem. O odor da “santidade” de São Jerônimo, cuja intolerância do gênero humano fez com que ele impedisse sua mãe de vê-lo quando ele estava à morte, tornou-se um caso clássico da psicanálise. Essa relação do homem com detritos, seus e externos, é uma forma de expressão sexual, segundo Freud. Esse item do conhecimento já deve ter entrado nos seminários depois que João XXIII levantou a tampa do sarcófago, mas no passado ainda se admirava São Francisco de Assis provando cocô de burro (relutantemente, diga-se em favor dele), como punição por suas insignificantes transgressões monásticas.

E duvido que reformem o socialismo, seja lá o que isso signifique, bem como qualquer outra utopia. E, muito menos, o establishment norte-americano vai se corrigir. Vai é manter ilesa sua estrutura, como deseja a plutocracia esclarecida dos EUA. A economia americana é mais ou menos igual a imperialismo. Exige uma crescente expansão imperialista. Ponto final.

Sem falar que certos lugares estão acordando. Para ficar num só: a Rússia está renascendo, aos trancos, como de costume, mas está.

Os antigos sistemas pifaram. Muita coisa feia ainda vai acontecer. Nossa década talvez ainda seja lembrada como uma calmaria igual àquela que quase destamancou o Pedro Álvares.

07 agosto 2007

Bananas

Texto de André Balsalobre

Os primeiros dois anos do terceiro mandato de Lula - via Emenda Constitucional de Emergência - seguem monótonos, com as demonstrações de esquerdismo e populismo de sempre. Todo o núcleo duro retorna: Dirceu, Palocci, Genoíno, Gushiken.

Fidel, firme e forte, visita o país. Acordos bilaterais são assinados, incluindo um de defesa mútua contra um ataque norte-americano. As FARC ganham de presente um pedaço da Amazônia. Depois se apoderam de três vezes o que receberam.

Novos e maiores escândalos de corrupção em 2012. Lula diz não saber de nada.

Economia: Palocci e aderentes caem e são substituídos por Caetano, Gal e Betânia. Maria da Conceição Tavares é nomeada presidente do Banco Central.

Com a nova queda de Dirceu, envolvido em esquemas de corrupção do programa brasileño-cubano Bolsa-Camarada, Ariano Suassuna é convidado para a Casa Civil. Aceita mas, antes que possa assumir, se vê enredado num esquema de propinas do Ministério da Educação, cuja pasta vinha ocupando, e logo num programa de sua autoria: proibir o ensino do inglês, a venda de Shakespeare e Oscar Wilde no país, a exibição de filmes norte-americanos na tv e nos cinemas e instituir Patativa do Assaré e Mané da Rabeca no currículo das escolas públicas. Acuado, escreve O Auto do Processo de Agravo de Instrumento, peça que faz muito sucesso no Supremo Tribunal Federal e livra sua cara no processo por crime de responsabilidade. Para a CNBB, escreve O Auto do Padre Vieira. Para Lula, dedica O Auto do Pau-de-Arara. Para os fósseis do PC, o Partidão, dedica O Auto da Coluna Prestes.

Fernando Henrique Cardoso termina seus dias numa cátedra de filosofia pós-moderna na Sorbonne.

Perdido, Lula tenta promover um grande debate com todos os segmentos da sociedade civil. Fracassa. Novos escândalos envolvendo membros do governo em 2011.

Um grupo dissidente nas Forças-Armadas tenta um golpe, mas os tanques não pegam e os soldados estavam em greve; não aparece ninguém.

Cansado de conversa e dizendo-se vítima de uma “orquestração golpista” por parte da “burguesia reacionária do centro-sul do país”, Lula dissolve o Congresso e baixa seu primeiro Ato Individual, o AI 1. Era pra se chamar Institucional, mas o Presidente não sabia como soletrar, muito menos escrever — e ninguém teve coragem de criticá-lo.

De qualquer forma, aproveitam pra reciclar a já famosa abreviatura. Tal ato de individual não tem nada, tendo sido redigido por um “grupo de notáveis” reunido às pressas. Participam dele Marilena Chauí, filósofa do proletariado, João Pedro Stédile, recém-empossado no Ministério da Agricultura, Dalmo de Abreu Dallari, Mino Carta e Roberto Bolaños, o ator mexicano conhecido pelos personagens Chaves e Chapolim. Frei Betto e Leonardo Boff servem de guias espirituais.

No mês seguinte, o Executivo baixa o AI 2, na verdade, só uma revisão do primeiro, devido ao excesso de obscurantismos, cortesia do filosofês cheio de Spinoza, Kant e Hegel da Marilena Chauí.

A República Federativa do Brasil é renomeada para República Democrática e Popular Brasileira.

O governo de exceção durará quatro anos. O que não incomoda muito o povo, pois a Seleção Brasileira segue ganhando as Copas do Mundo, que passam a acontecer de dois em dois anos, após intervenção do Itamaraty junto à FIFA. Ambos assinam um acordo pelo qual o Brasil se compromete a pagar por todas as despesas nas próximas dez Copas.

Medidas drásticas sufocam os últimos bolsões de insatisfação ao regime: a cerveja é incluída pelo governo na cesta básica, enquanto os canais Premiére de futebol da tv fechada são liberados para a população.

Queda vertiginosa do barril de petróleo leva a uma revolta popular na Venezuela, o que abre caminho para intervenção bem-sucedida dos EUA. Hugo Chávez, com o dinheiro do saque, se exila por aqui e vai morar no Lago Sul, onde constrói a suntuosa Mansão Bolívar.

Heloísa Helena e Babá fundam um movimento guerrilheiro campesino de fundo marxista-cristão numa igreja em Juazeiro do Norte. Padim Ciço aparece para ambos e começa a fazer milagres e lançar profecias, entre elas as da volta do Império e de Dom Sebastião. O número de romeiros triplica. A Igreja, tentando se acomodar à nova situação, canoniza o Padim rapidamente e, de quebra, beatifica Virgulino Ferreira, o Lampião.

Zé Maria, eterno candidato do PSTU, funda uma república separatista no terreno de uma faculdade pública. Logo explode uma guerra com o PCO – Partido da Causa Operária, que havia proclamado outra república ao lado. O exemplo se repete em outras faculdades pelo país. A revolta fica conhecida pelo nome de Facultada.

Remanescentes do Congresso, militares e membros da sociedade civil criam um movimento de resistência ao regime.

Enéas (não morreu, era um sósia) faz um discurso emocionado no Congresso. Clama pela Reestruturação da Ordem Nacional, no que é rotineiramente apoiado pelos 4 Poderes (os 3 conhecidos, mais o Dinheiro). O povo sai às ruas. Não para derrubar o governo, mas para comemorar mais uma vitória da Seleção. Lula desaparece. Tropas fiéis à resistência encontram em seu gabinete o rascunho do AI 3, sem maiores novidades além da supressão dos direitos que restavam, a criação de dois deveres para cada direito extinto — e a evidência clara de que Lula ainda não sabia como escrever “institucional”.

Enéas dissolve a República e proclama o Segundo Império, inspirado em Antônio Conselheiro, inaugurando um regime de índole puritana. Maria da Conceição Tavares continua firme no Banco Central, o qual já não obedece ao novo regime. Mas ela mete medo em todo o mundo, por isso preferem deixá-la quietinha em sua sala.

Lula e acólitos se instalam em Paris, na casa de Chico Buarque. Gilberto Gil morre durante atentado ao Palácio Presidencial Patrice Lumumba no Congo. Estava em uma cerimônia oficial quando houve um golpe de estado. Caetano Veloso, João Gilberto, Lenine, Chico César e dezenas de outros expoentes da MPB estavam presentes. Nunca mais retornaram, tendo sido transformados em artistas escravos pelo ditador local, um afroblacknegão com sorriso Colgate.

O Segundo Império congela praticamente todas as contas do PT no exterior, graças a um substancial caderninho apreendido pela Polícia Federal na casa de Zé Dirceu. Em Paris, Lula descobre que até sua conta foi congelada, durante uma tentativa de saque (dessa vez não ao povo, mas em frente ao caixa eletrônico mesmo). Sem dinheiro para nada, com o estoque de aguardente acabando e sem conseguir encontrar cds de Zezé Di Camargo e Luciano para sua mulher, Lula cai em depressão. Chico Buarque cobra o aluguel e a conta do hospital de um assessor do ex-Presidente. Rompimento entre Lula e Chico.

Em seu aniversário de 105 anos, Oscar Niemeyer assina um abaixo-assinado com outros duzentos nomes dos meios artístico e intelectual, repudiando o Segundo Império. No dia seguinte o governo lhe encomenda umas obras e Niemeyer joga o abaixo-assinado na lata de lixo da História — aquela mencionada por Trotski. Maria da Conceição Tavares se recusa a retirar o nome do abaixo-assinado.

Enéas adota um tom cada vez mais militarista. Com apenas um ano de governo, invade a Venezuela, reinstala Chávez no poder e diz que não vai parar até chegar ao Canal do Panamá. Os EUA esmagam os exércitos brasileiros nos arredores de Caracas e invadem o Brasil, que não oferece qualquer resistência. Chávez se esconde numa quitinete na Asa Norte (sua saudosa Mansão Bolívar virou uma casa de bingo). Traído dentro de casa por um convescote partidário de última hora, Enéas abandona a política e volta a dar aulas na faculdade de medicina.

Exilados em Paris, os remanescentes da república petista fazem ato de solidariedade e greve de fome enquanto Fidel Castro, que também estava lá, faz compras. El Comandante convida os exilados para uma visita oficial a Havana, onde morre logo ao chegar, vítima de um resfriado (não havia mais bons médicos em Cuba, todos eles foram para Cleveland). Os exilados, companheiros e camaradas alegam um complô da CIA. Cuba Socialista cai e dá lugar ao Protetorado de Cienfuegos, um subdepartamento sob a responsabilidade de Porto Rico.

Mangabeira Unger e Ciro Gomes são convidados pelos EUA para fazer parte de um novo governo provisório, parlamentarista. Logo assumem como Presidente e Primeiro-Ministro, respectivamente. Assim que os EUA se retiram, a briga começa. Hugo Chávez se torna uma figura influente na política local. Pede a volta de Lula. Ciro prefere convidar FHC, mas este recusa, dizendo que "assim não dá", que o “desrespeito às instituições democráticas é inaceitável” e continua lecionando em Paris.

Lula entra no movimento sindical francês mas perde muito dinheiro, pois as maracutaias são em francês e ele não entende nada. Pobre, tenta arrumar um emprego na Renault, outro na Citroen, mas as fábricas são totalmente automatizadas. Arruma emprego numa das fazendas de gado de seu amigo José Bové — que deixou os movimentos antiglobalização e agora vende carne para o MacDonalds — mas logo é demitido com a mecanização da ordenha. Contrabandeado para o Brasil por uma ONG, Lula vira garoto-propaganda da bebida Velho Barreiro. Enriquece novamente, se separa de D. Marisa e casa com Benedita da Silva. Finalmente, é um homem feliz.

Terremoto de 13 pontos na escala Richter engole Brasília. No governo, apenas o Legislativo pouco sofre, pois, pra variar, não havia ninguém no Congresso. A cidade é totalmente devastada. Maria da Conceição Tavares é retirada dos escombros do prédio do BC com vida. Sofre escoriações leves e passa bem.

Ciro e Mangabeira Unger morrem, junto com todo o Executivo. Chávez sai em meio aos escombros de Brasília, organiza uma carreata às pressas e toma o poder. Dissolve o parlamento, instalando sua tão sonhada Nación Bolivariana.

Marta Suplicy se casa com Chávez. Este endurece no poder, porém logo acata o conselho da patroa: “relaxa e goza” e o Brasil se redemocratiza. Maria da Conceição Tavares também se casa, com José Saramago, que a convence a sair do BC e voltar para Portugal, onde ela se filia ao bom e velho Partido Comunista português.

Internado com cirrose, Lula morre em 1º de Abril de 2019, Dia Internacional dos Bobos. É enterrado ao lado de Fidel em Havana.

Chávez mantém o discurso radical bolivariano apenas para as massas, convertendo-se habilmente num capitalista neoliberal. Até privatiza a Petrobrás, agora presidida por Evo Morales. O Brasil finalmente entra numa rota de desenvolvimento sustentável.
.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...