19 março 2013

Papa Paco VIº

"Toda unanimidade é burra" é obviamente uma frase de efeito, porque se todos concordassem com Nelson Rodrigues seria então burrice acreditar que a unanimidade é burra. O mesmo vale para "toda regra tem exceção". Então deve haver uma exceção para esta regra, ou seja, uma regra sem exceção?

O Papa Francisco é praticamente uma unanimidade, como Lula quando foi eleito pela primeira vez presidente. Falar mal do eneadáctilo foi, até o Mensalão, um pecado imperdoável. A imprensa venera este Papa. É um oximórico argentino humilde - e o demonstra publicamente* -, foi genial ao escolher o nome "Francisco" (ou seja: Paco, nos países hispânicos), é mais bonito do que Bento XVI, o primeiro Papa a sair vivo do cargo em 600 anos, a quem agora estão proibidos as sapatilhas vermelhas e o camauro, espera-se que ele faça uma limpa na Igreja Católica e coloque em seu devido lugar o maligno Cardeal de Richelieu, digo, Bertone. Comentemos algumas de suas frases recentes, em negrito e entre aspas:


“Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético.“

A Igreja endossou no Concílio de Viena a posição de São Tomás de Aquino, de que a alma só era inoculada no feto quando este tivesse forma humana. Não havia impedimentos para que o Espírito Santo inspirasse os altos dignitários de 1311 a afirmar o mesmo que Bergoglio, uma vez que desde o homem-macaco sabe-se que aquilo que avoluma o ventre materno invariavelmente se torna um ser humano, se o processo não for interrompido, natural ou deliberadamente. Esta constatação óbvia depende dos avanços científicos?

Na verdade, o aborto passou a se tornar pecado, em qualquer estágio de desenvolvimento do feto, apenas em 1869, após um acordo entre o papa Pio IX e o imperador Napoleão III. A baixa natalidade na França atrapalhava os planos de industrialização do governante francês.

Desde a democracia moderna e o fim dos monarcas investidos de poder divino, a relação entre governantes e religiosos passou a ter um intermediário: o povo. A consciência deste passou a ter um preço alto, e desde então os primeiros muitas vezes dependem dos segundos. Mantendo-se no centro de discussões polêmicas, muitas vezes em contradição com asserções passadas - o Espírito Santo também muda de opinião -, apelando a valores que tenta fazer crer que inventou, a Igreja Católica passa a ser peça importante no jogo democrático de dezenas de países. Assim, o último estado teocrático da Europa apita desavergonhadamente nas questões internas dos países onde sua faceta religiosa conta com prosélitos, porque, camaleônico, é estado e igreja. Núncios são recebidos mundo afora como embaixadores de um estado europeu, para tratarem sobre questões religiosas. Para os governantes, é um excelente atalho. Ao invés de lidarem com 50 milhões de consciências, acertam tudo com seis ou sete procuradores destas. Os líderes evangélicos aprenderam bem tal mecanismo, o aperfeiçoaram, e seu arrojo torna o serviço ainda mais fácil para os políticos.


“Não pretendo fazer proselitismo — eu as respeito (pessoas ateias) e me mostro como sou (...) Não diria que um ateu está condenado porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar sua honestidade — sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas.”

Conseguiu matar dois versículos do Capítulo 16 de São Marcos com uma única tolice politicamente correta:

Marcos 16:
15: E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.
16: Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.

Após a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II (link), Jesus deixou de ser o único caminho. Vale agora até adorar Baal, porque se está tateando por uma divindade nas sombras, e este impulso de adoração já basta àquele mesmo deus ciumento do Velho Testamento. Afirmar que não pretende fazer proselitismo quando se encontra com ateus diz muito sobre o novo Papa. É como ouvir às vésperas de eleições um candidato dizer que não quer convencer ninguém a votar nele. Mas esta é justamente a tática proselitista de conquistar prosélitos entre os que odeiam proselitismo.


“Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem com o transcendente."

Envolver-se com o transcendente é, porventura, invadir o terreno da metafísica? Se esta dimensão - seja lá o que for - fosse falseável, seria do campo científico. Se detectarmos sistematicamente almas saindo de pessoas recém falecidas, a metafísica não ganhará força; o mundo natural é que terá adquirido uma nova dimensão.

Há outro problema. O milagre envolve intervenção do transcendente no físico e é peça fundamental na religião. Esta depende, de certo modo, da ciência, e sem milagres é apenas "fé cega", conforme lemos no catecismo católico:

"...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'".(§156)

É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais frequentes em locais de baixo IDH. Ademais, deveria haver um milagre incontestável por habitante, uma vez que a mera narração de um prodígio volta a demandar confiança, "fé cega".


“O que não é bom é o laicismo militante, aquele que toma uma posição antitranscendental ou exige que o religioso não saia da sacristia.”

O laicista militante é tão nefasto quanto o republicano militante, o democrata militante. Não conheço laicistas que tentam impedir padres de opinar sobre quaisquer assuntos. Reclama-se de financiamento público para visitas de religiosos, para festas religiosas, reclama-se de símbolos religiosos em repartições públicas. O laicismo existe no papel, assim como a probidade administrativa. Milita-se pela aplicação daquilo que já está previsto em lei.


“Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilômetro quadrado.”

Ah, sei. O país criado por Mussolini. A Igreja possui 20% dos imóveis da Itália. E trilhões de euros em imóveis ao redor do mundo. A Igreja não possui mais nada.


“Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre.”

Digamos que, em determinado país, criaturas de hábito - padres, freiras e monges - constituam 0,1% da população (na verdade, esta é a porcentagem italiana, a maior proporção de padres e religiosos em relação à população, entre todos países) mas sejam responsáveis por 7% dos abusos documentados a menores. A chance de encontrar um pedófilo entre padres seria, portanto, 70 vezes maior do que entre os não padres, não? Estas porcentagens não são fictícias. São aproximações a partir de dados oficiais da Irlanda. E estou levando em consideração apenas a população adulta.

A porcentagem de padres pedófilos na Irlanda chegou a 10%. Não há nenhuma outra profissão que atinja tal marca. Algumas estimativas chegam a uma chance 200 vezes maior de um padre católico ser pedófilo do que uma pessoa normal, não padre (link).

Por terem desvios sexuais, muitos procuram a batina, talvez até inconscientemente, porque o sacerdócio é um bom álibi social. Não precisam casar, serem vistos com uma mulher, muitos pais baixam a guarda quando lhes confiam os próprios filhos, para tardes de catequese, como coroinhas, cantores, noites em acampamentos. Creio que os crimes contra crianças praticados por sacerdotes se devam, muitas vezes, ao fato de ser mais fácil ameaçá-las e calá-las. A profissão exige celibato e extrema retidão moral. Não é bom arriscar com amantes adultos, que um dia poderão dar com a língua nos dentes, não? Todos padres que abusam sexualmente de menores cometeriam os mesmos crimes fora da igreja? Ou seriam pedófilos não criminosos – aqueles que não consumam suas preferências sexuais, apenas sentem atração por crianças? Bispos e cardeais acobertaram crimes de pedófilos, para protegerem sua instituição. É difícil acreditar que acobertariam crimes por aí, de vizinhos ou de colegas de trabalho. Denunciariam às autoridades ainda que anonimamente. Os crimes de acobertamento por parte de superiores são o terreno fértil para germinarem os crimes dos padrecos.

THE SAVI REPORT - Sexual Abuse and Violence in Ireland

Vejamos os EUA, por exemplo: Leiam The Nature and Scope of the Problem of Sexual Abuse of Minors by Priests and Deacons - Relatório comissionado pela “Conference of Catholic Bishops”(link).

E imaginemos como era antigamente, quando a Igreja não era obrigada a se reportar à justiça comum. Como era a situação nos internatos e orfanatos conduzidos pela Igreja? E nos seminários, onde os aspirantes entravam com 7, 8 anos? E nas paróquias?

O Papa Francisco ou é safado ou pacóvio. Fico com a segunda opção, apesar de parecer que se aproveita do senso comum entre os fiéis católicos, de que são casos isolados os de pedofilia clerical e que a mídia é que faz estardalhaço, para jogar insidiosamente os dados de que 70% dos abusos são cometidos por familiares e vizinhos. Ora, se 0,1% dos crimes de pedofilia fossem cometidos por padres, o problema não seria alarmante, uma vez que estaria, bem ou mal, em harmonia com a proporção de religiosos em relação à população geral. Mas não é isto o que se percebe.


Sobre homossexuais e casamento gay: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Aqui o Papa Paco se iguala ao Silas Malafaia e ao Pastor Feliciano, com a diferença de ser incensado pela mídia, enquanto estes são execrados. A cada dia que passa vem sendo corroborada a tese de que o homossexualismo tem forte peso genético. O Silas Malafaia expôs os dados corretamente no De Frente com Gabi mas os analisou do modo estúpido que se espera de um pastor homofóbico: em várias pesquisas com milhares de gêmeos univitelinos separados no nascimento houve concordância na orientação sexual em aproximadamente 52% dos homossexuais. O Silas afirmou, então, que, se fosse genético deveria ser 100%. Ora, se não houvesse influência genética os números deveriam respeitar a porcentagem de homossexuais em relação à população, de 4 a 8% (link).

O que o pastor não levou em conta foram os genes alelos e também gatilhos ambientais. Porcentagens semelhantes foram encontradas ao se analisar em gêmeos a incidência de esquizofrenia, por exemplo, comprovadamente genética.

Assim, o Papa Paco VIº (pacóvio) faz do demônio co-criador do homem, uma vez que parte de suas características genéticas vem do Coisa-Ruim. Se o homossexualismo é natural, e também é natural a união civil entre seres humanos que têm um projeto comum de vida, e o Papa vê nisto "jogada" do Pai da Mentira (Deus mente e a Serpente diz a verdade aos sem-umbigo, no Gênesis, mas fiquemos com a versão oficial), então não consigo enxergar a coisa de modo diverso. Deus é nosso pai. Satã também. Teria sido a primeira união homossexual da história?

Casamento gay é uma ameaça à família, aos planos de Deus? E os adultos que jamais se casam? E quanto aos padres celibatários? Celibato é natural? É genético, como o homossexualismo? E o problema da superpopulação? Ela está nos planos de Deus? Quanto à questão moral, o que dois adultos fazem consensualmente entre quatro paredes não me diz respeito. Por que os religiosos se importam tanto com isso? Um grupo de pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade da Georgia, nos EUA, realizou um estudo em que se verificou que homens homofóbicos ficam excitados quando assistem à pornografia gay (link).

E aí chegamos a um ponto interessante: Qual é a porcentagem de padres gays? Segundo várias estimativas, está na faixa de 30% (link). Tomemos um exemplo: se na Irlanda a porcentagem de padres pedófilos já é maior do que a de gays na população geral, e a esmagadora maioria dos crimes de pedofilia é contra meninos, imagina-se que a porcentagem de homossexuais seja muito maior entre padres católicos do que na população como um todo.


Cristina Botox kirchner, a bruxa peronista, está acabando de afundar a Argentina com seu populismo irresponsável, seu desejo de exterminar a imprensa livre e a oposição, a la Chávez, enquanto sua família enriquece, e por isso simpatizantes liberais do Papa, como o Reinaldo Azevedo, veem a inimizade entre os dois como mais um sinal de que o pontífice é sensato. Ora, ela se deve, principalmente, a divergências em temas como o casamento gay, aprovado na Argentina em 2010. Parecem estar em harmonia no resto.

Ou seja, na estupidez.

Em 2012, Bergoglio disse que as Malvinas "pertencem à Argentina". Disse que as ilhas foram usurpadas pelos britânicos. Não é preciso dizer que a escolha do Papa não foi bem recebida no Reino Unido, não pela sua nacionalidade mas pelas suas declarações enquanto cardeal.

Após o almoço que o Papa teve com Cristina, esta disse: “(…) O papa me falou da Pátria Grande, da América Latina e do papel que estão cumprindo os diferentes governantes da América Latina. Disse que era formidável o que estavam fazendo esses governantes, trabalhando unidos para a Pátria Grande — empregou esse termo, o que definitivamente me comoveu. Era o termo que empregavam San Martín e Bolívar”.

O Cardeal Bergoglio disse, no final de 2011, que (link):

"A crise econômico-social e o conseguinte aumento da pobreza tem suas causas em políticas inspiradas em formas de neoliberalismo que consideram as ganâncias e as leis de mercado como parâmetros absolutos em detrimento da dignidade das pessoas e dos povos. Neste contexto, reiteramos a convicção de que a perda de sentido de justiça e a falta de respeito pelos demais pioraram e nos levaram a uma situação de iniquidade".

Depois falou em "igualdade de oportunidades" dos danos das "transferências de capital ao estrangeiro", em "distribuição da riqueza", etc.

A riqueza não é um processo de soma zero, como creem os socialistas. Steve Jobs não ficou bilionário explorando uma centena de trabalhadores na Califórnia, mas despertando o desejo da população terrena por seus aparelhinhos Apple. A riqueza pode ser criada, multiplicada, e a história demonstra que quanto mais os países têm mercado livre, baixa intervenção estatal e regras claras, menor a pobreza.

A demonização do mercado e dos imperialistas, a utilização de termos como "neoliberalismo", a defesa da tal "igualdade de oportunidades" (sabemos que inexiste na própria família, por uma série de motivos) o traem, a ponta da orelha peluda aparece por baixo do solidéu branquinho:

É mais um perfeito idiota latino-americano.

Glórias ao Papa Paco VIº, o Pacóvio!


*Acho ótimo que preparasse a própria comida e andasse de transporte público enquanto arcebispo de Buenos Aires. Já acho que muitas demonstrações de humildade como Papa ofendem o antecessor e servem para que seja exaltado a todo instante. Vejamos a rainha Elizabeth II da Inglaterra: passa uma humildade desafetada, sem "São Francisco" e outros ranços piedosos. Nenhuma coroa que usa é sua. Nenhuma joia sairá da realeza. Ela própria é quase uma peça do Madame Tussauds ambulante, que mal fala, uma exposição itinerante de indumentária real. Humilde é o príncipe Charles, que poderia exibir-se com espécimes femininos muito mais vistosos que Camila, Duquesa da Cornualha, mas ama esta górgona e a assume publicamente.
Exibir-se humilde na Basílica de São Pedro é engraçado. Que transfira provisoriamente a sede do papado para alguma tenda nos jardins do Vaticano, então, ou extramuros. As sapatilhas vermelhas são ridículas, claro, assim como as sotainas enfeitadas. Usá-las é que é sinal de humildade...

Créditos:
Carlos Esperança: "1º Papa a sair vivo do cargo em 600 anos"
Orlando Tambosi: "Bruxa peronista"
Janer Cristaldo: Informou-me que "Papa Paco" é como Bergoglio é chamado na Argentina.

15 março 2013

Habemus Papam Franciscum

Conheci um ou dois religiosos que tinham horror do cardeal Ratzinger e da forma como ele enquadrou o pessoal da Teologia da Libertação. O Leonardo Boff não aguentou o castigo e pediu para sair, como diria o capitão Nascimento. Pessoalmente, acredito que Ratzinger deixou um grande legado para a Igreja ao rejeitar o marxismo inerente à doutrina da Teologia da Libertação em sua atuação como Inquisidor Mor.

O marxismo é uma teoria que surge no contexto da filosofia alemã e da economia inglesa e nada tem a ver com a religiosidade semita que deu origem ao cristianismo. De fato, como disse o atual papa Francisco, sem a crença em Cristo Salvador a Igreja não passa de uma ONG piedosa. Portanto, diferente do que pensam os rahnerianos, a salvação não vem dos pobres nem o cristianismo é imanente à luta contra a desigualdade. Acho que com isto a Igreja está superando a sua crise de identidade e se assumindo como um corpo de fiéis unidos na crença em Jesus que morreu pelos pecados daqueles que acreditam nele.

Agora com Francisco chega ao papado o primeiro jesuíta da história. A Ordem Jesuíta é uma ordem fundada por um militar espanhol meio delirante e sem muito amor à vida que foi gravemente ferido em uma batalha. Na convalescênça dos ferimentos leu a Vida de Santos e enfrentou febres e delírios que teriam matado a maioria das pessoas. Recuperado, decidiu dedicar suas energias não mais às glórias em batalhas, mas à imitação de Cristo.

Fez longas peregrinações e reflexões que aparentemente o levaram a um estado qualquer de clareza mental que acabaram o tornando um grande pregador do cristianismo. Isto incomodou a Inquisição da época, que exigia uma educação teológica formal para este tipo de pregação e ele acabou tendo que cursar um curso de Teologia no qual curiosamente era considerado um aluno medíocre.

Mais tarde desenvolveu um método que ele chamava de Exercícios Espirituais, a partir da sua própria experiência de conversão. Ele havia percebido que a leitura da Vida de Cristo lhe dava uma sensação de paz, enquanto os pensamentos em torno de glórias em batalhas, embora excitantes, depois se mostravam vazios de algo. A partir daí ele desenvolveu um método que buscava treinar os praticantes na aplicação deste discernimento em suas vidas. A Ordem Jesuíta surge a partir desta prática. Portanto, é natural que o Papa Francisco, um jesuíta, entenda que a piedade e a luta contra a desigualdade no contexto da Igreja Católica sejam consequências de uma prática religiosa.

11 março 2013

Os Royalties e a Secessão do Rio de Janeiro


Quem assistiu nos últimos dias ao debate sobre os royalties do petróleo deve estar pensando que o Rio está quebrado e que foi roubado. Pode até estar quebrado mas não por causa dos royalties e se foi roubado o foi por locais. Com a derrubada do veto da presidente Dilma, a distribuição dos royalties fica assim: Após um longo período de transição, que vai até 2020, em que se mantém a arrecadação de 2010 do Rio de Janeiro, as porcentagens do estado produtor caem de 26,5% para 20% e as dos municípios produtores de 26,5% para 15%. A arrecadação do Rio de Janeiro irá cair? Não. Será mantida e tende a subir na medida em que a produção de petróleo deve dobrar até 2020, passando dos atuais 2 para 4 milhões de barris, e os preços do petróleo estão altos (US$ 110) e tendem ainda a subir. Tem um estudo recente da OCDE que projeta um teto de US$ 260 em 2020. Para se ter uma ideia, a arrecadação de royalties do Rio de Janeiro em 2013, com a derrubada do veto, deve chegar a R$ 6,7 bilhões, enquanto todos os demais estados da federação deverão receber R$ 5 bilhões pelo Fundo de Participação dos Estados.

Eu assisti à sessão que derrubou o veto da presidente Dilma. Confesso que passei do desprezo à admiração ao senador Renan Calheiros pelas baixarias que teve de aturar. O senador, pré-candidato a governador do Rio e presidente da República Lindinho se retirou da sessão com ares de ofendido quando o presidente da sessão limitou os discursos a 5 minutos, o que é usual. Como se ele tivesse muito a dizer. O deputado e dono do curral eleitoral de Campos, o Garotinho, subiu à Tribuna para gritar Fora Renan e outras pasmaceiras. Eu até entendo, pois o curral eleitoral da família que recebe mais de R$ 1 bilhão em royalties vai perder dinheiro. Depois foi a vez do deputado Molinho, que, após uma leitura literal da Constituição com ares colegiais, passou a ameaçar os estados do Paraná e Minas de que teriam muito a perder se aquela matéria fosse aprovada (energia elétrica e royalties minerais). Por fim, uma vez derrubado o veto tivemos a “greve de fome” declarada pelo governador Cabral, que mandou suspender os pagamentos do Rio de Janeiro, exceto salários de servidores públicos (dizem que ele resolveu culpar esta história dos royalties pelo péssimo estado das finanças do Rio) e a manifestação infeliz do ministro carioca do Supremo, o Luiz Fux, que acredita que o Supremo irá atacar a decisão do Congresso.

Isto me leva a pensar que talvez o Rio de Janeiro se sinta melhor fora da federação. Talvez fosse o caso do Exército Brasileiro e da Marinha retirarem suas numerosas bases do território do Rio de Janeiro. Aliás, a Marinha está praticamente concentrada lá. A Petrobras, que é controlada pela União, também poderia rever a localização das suas sedes administrativas; deve ocupar uns 20 a 30 prédios no centro do Rio de Janeiro. O BNDES também é federal e não existe nenhum motivo mais significativo para ele estar no Rio de Janeiro. E por aí vamos. Tem o IBGE, alguns ministérios, até outro dia o Rio de Janeiro tinha mais servidores públicos federais do que Brasília. Aliás, podíamos também cancelar a Copa e as Olimpíadas que estão sendo bancadas por recursos federais. Só o financiamento do BNDES para a revitalização da área do porto está na casa dos R$ 10 bilhões. Isto para não falar no Eike, o empresário carioca, por vocação, que não sai de casa sem um empréstimo do BNDES. Só nos últimos anos, o BNDES tem recebido aportes de dezenas de bilhões do Tesouro Nacional. Semana passada mesmo Eike se encontrou com Dilma e mês passado com Lula para atestar que continua prestigiado apesar das ações dos seus negócios terem virado mico.

No fim, o Cabral escolheu esta bandeira de defensor dos royalties como estratégia para fazer a população esquecer do ricamente documentado jantar dele e sua entourage em um restaurante de luxo em Paris com seu grande amigo, Fernando Cavendish, dono da construtora Delta. Quem quiser ver as fotos é só entrar no site do Garotinho. Tem secretário de Estado com foto ao lado de Ferrari de US$ 1 milhão. Talvez isto explique a falência do Estado. E falando em Garotinho, vejam como são bem gastos os recursos dos royalties na cidade de Campos, que é governada pelo clã Garotinho. Fala sério, um dos “melhores” municípios do país. O Lindinho, por sua vez, meio que vive um dilema, pois ele tem que se mostrar um defensor do Rio de Janeiro para ser eleito governador, mas tem que tomar cuidado para não ficar marcado e inviabilizar sua candidatura a presidente da República. A saída que ele encontrou na sessão que derrubou o veto foi se fazer de ofendido e vazar. O deputado Molinho fica lá marcando posição porque provavelmente quer se cacifar para o Senado.

Como vocês vem, a causa dos royalties em si não é justa, mas estes sujeitos se servem dela da melhor maneira possível. Afinal, serão atingidos níveis de produção nunca antes imaginados com a descoberta do Pré-Sal, que já é responsável pela produção de 250.000 barris por dia e em alguns anos deve passar de 1 milhão. Torço para que os cariocas não caiam no papo desses seus péssimos líderes e não se acreditem injustiçados; porque não são. O Rio de Janeiro vai muito bem, obrigado, e se tem problemas não são culpa do restante da federação, que tem é ajudado e muito.

05 março 2013

Soul Radio

"Após uma eternidade sozinho no nada com seu filho e o Espírito Santo, que são Ele próprio, Deus suscitou uma grande explosão, há quatorze mil milhões de translações terrestres anos."

Se fossem essas as primeiras linhas do Gênesis, a Bíblia teria hoje muito mais credibilidade. Contudo...

Ad Hoc são hipóteses adotadas, na quase totalidade das vezes (porque não é apenas por ser ad hoc que é falsa), com o propósito de salvar uma teoria indefensável pela razão e pelas evidências. Têm DNA compatível com a fé cega, aparecem amiúde quando há embaraço de se admitir que se crê pelo hábito, necessidade, conveniência, esperança, não porque se adotou a hipótese mais lógica, mais sensata. É muitas vezes o contra-ataque de crentes letrados que se viram compelidos, em um primeiro momento, a se render às evidências, por brios intelectuais, para demonstrarem isenção e assim manterem a credibilidade, profissional ou em um meio social, familiar.

Exemplos abundam, quase sempre ligados a "verdades" religiosas cujas fundações estão cedendo. Uma posição pode ter sido razoável, sólida, há duzentos anos e não sê-la hoje. Por mais de três mil anos a passagem de Adão e Eva foi tida como literal pelo clero, pelo povo, por filólogos, luminares, exegetas, estes com o auxílio do próprio Espírito Santo - e de fato não há como conciliar a doutrina do pecado original com o poligenismo (Encíclica Humani Generis). A partir do momento em que foi demonstrado que temos ancestrais comuns aos macacos, tudo sempre foi metáfora, foi o modo que pastores da Idade do Bronze encontraram para reproduzir as verdades cristalinas inspiradas por Deus. Acreditava-se que o mundo havia sido criado há seis milênios e que todas as espécies surgiram de uma vez, desenhadas por Deus. A partir do momento em que foi provado que o universo existe há bilhões de anos e que os animais evoluíram por milhões de anos, tendo os dinossauros se extinguido antes mesmo do surgimento do homem, passou-se a dizer que o tempo de Deus não é o nosso, que seu dia é eras, criacionistas chegaram a afirmar que os animais petrificados haviam sido plantados por Satanás para confundir os crentes.

Cria-se na alma. À medida que os estudos do cérebro avançaram, que os movimentos, as sensações, a memória, a personalidade, os desejos e medos passaram a ser relacionados a determinadas áreas da massa craniana, a equilíbrios químicos, passou-se a afirmar que a massa cinzenta é como um receptor de rádio, sendo a alma um transmissor de ondas. Temos que concordar que os miolos de uns por aí são radinhos que reproduzem a Rádio Vaticano, mas daí a existir alma...

Analogias são necessárias para se explicar algo complexo ou técnico, para se romper bloqueios mentais. Infelizmente, falsas analogias são recurso usual de argumentadores cujas posições a lógica e as evidências não têm muito com que ajudar.

Ao contrário dos rádios que conhecemos, só há uma estação em nossa cachimônia. Para mudar a sintonia, captar ondas de frequência diversa, é necessário ir a um centro espírita e incorporar um dos fantasmas de escritores famosos e imperadores que têm licença de frequentar o espaço após um intensivão de português para principiantes no Nosso Lar (não se psicografa em grego e latim), ou em um terreiro de macumba e incorporar um quilombola ou um deus africano. Compositores de música clássica são barrados porque o pentagrama lembra o demônio e é melhor não brincar com suas transmissões radiofônicas, as quais, diga-se de passagem, pegam melhor em cultos evangélicos. Mas é necessário que o rádio tenha dial, ou seja, que se tenha a tal mediunidade.

Se o rádio tiver um componente danificado, basta trocá-lo para que volte a funcionar normalmente. Se uma área do cérebro for danificada e a substituirmos por outra idêntica, tudo ficará como antes? Argumentar-se-á que o contato com o mundo altera os capacitores e outros componentes do rádio e que, por sua vez, eles abrem caminho para outras facetas da alma ou alteram ela própria, de modo que trocar o capacitor novo por um antigo ou de outra marca limitará a transmissão da alma, ou da nova alma. Na verdade, se brincarmos com os componentes do radinho dos dualistas, a Nona Sinfonia de Beethoven passa a ser tocada com saxofone e bateria, em determinado momento, em outro com guitarras distorcidas, em seguida ela vira o Bonde do Tigrão. E sem alterarmos a emissão. Sabe-se que a memória é gravada fisicamente no cérebro. É, porventura, gravada no fantasminha, no homúnculo que vive em nós? Caso afirmativo, se a apagarmos fisicamente sem danificar o cérebro, o homúnculo consegue reimplantá-la no cérebro ou a alma também se esquecerá para sempre? Certamente a segunda opção.

E na experiência em que se ensinou uma tarefa para um rato, gravou-se as conexões mentais ligadas à memória recente em um chip e depois bloqueou-se a área do cérebro em que elas ocorreram para em seguida implantar-se o circuito eletrônico, acionando-se surpreendentemente a memória do aprendizado (link)? E quando se enviou os dados do chip pela internet e, a milhares de quilômetros do experimento original, inseriu-se as informações recebidas em outro chip, que foi implantado em um outro rato, que executou a tarefa como se fosse sua própria experiência (última Veja, Guardian e outros)? É questão de tempo até que estes avanços interfiram diretamente na vida do homem. Ora, somos, em parte, nossas memórias. Como harmonizar essas experiências com ratos e o conceito de alma? Como crer em um homúnculo imaterial que vive dentro de nós, que, se possui memória, não consegue reimplantá-la no cérebro em que foi apagada - algo que já se pode fazer com um mero chip? Como crer em alma quando tudo o que somos pode cada vez mais ser explicado fisicamente?

E como a hipótese lida com os casos de cérebros divididos (link Wikipedia – link Youtube), em que há duas consciências independentes?

Se melhorarmos a “recepção” de macacos com transplante de partes de cérebro de homens “desencarnados”, cujas almas já estão junto de seu deus, no inferno, aguardando julgamento ou no Nosso Lar de Chico Xavier, os símios passarão a ter alma ou sempre a possuíram, quiçá por terem sido criados à imagem e semelhança de Hanuman, o deus-macaco hindu, mas apenas nunca tiveram um rádio à altura?

Enfim, pelo modelo do radinho, ao longo de nossa vida nossa alma não aprende nada, já que o aprendizado se dá fisicamente, no receptor, por conexões. Desde a primeira infância melhora-se o acesso à rede de neurônios, aprende-se incontáveis coisas, obrigatoriamente esquece-se de muitas outras, nossas decisões morais são baseadas na experiência, na memória portanto, no aprendizado, inclusive emocional. A personalidade se forma assim, além das predisposições genéticas. Para quê serve a alma, nesta vida? Como se medirá seu mérito e demérito depois de desencarnada, já que estará pura, por jamais ter fixado qualquer experiência? E outro problema: não podemos gozar eternamente no paraíso enquanto nossos filhos padecem horrores no inferno, então de duas uma: ou deixamos de ser nós mesmos perdendo a memória no Rio Letes, que está no Hades ou no Purgatório de Dante, ou virando um monstrinho amoral do quilate de Deus e achando tudo bem feito, porque, afinal, eles "escolheram" estar longe do Pai. Em qualquer um dos casos deixamos de ser nós mesmos e, consequentemente, não somos nós os imortais mas uma outra consciência. Ou não existe punição e recompensa. Aí Deus é o inútil que aparenta ser, porque além de não interferir neste mundo, como constatamos, não atua no "outro".

Não subestimemos a capacidade dos crentes elásticos de empunharem novas hipóteses ad hoc, novas analogias como se fossem prova de algo. No futuro seremos, quem sabe, proxies de uma alma não atuante que incorporará nossos méritos e deméritos, que ficará mais brilhante ou mais enegrecida de acordo com nossas ações, e que será imortal como todos sempre desejamos ser. Na verdade, a crença na alma imortal se extinguirá caso se conquiste a imortalidade física, mediante o fim da decrepitude e por backups de cérebro e órgãos reimplantáveis após acidentes ou doenças. Aí os crentes relaxariam, pois já teriam conquistado aquilo que, no fundo, é um desejo não um argumento, uma esperança não uma posição racional. E quem sabe depois veriam que a imortalidade estaria mais próxima de uma maldição, sentir-se-iam talvez como os Struldbrugs das Viagens de Gulliver, cometeriam suicídio. Sabemos, por experiência, que o prazer está ligado à finitude, à efemeridade, é assim na contemplação de um pôr do sol, na graciosidade da primeira infância de nossos filhos, com nossas ingênuas conquistas juvenis, com um chope animado entre amigos, em uma noite romântica com a esposa, numa viagem que nem sempre podemos fazer. A vida é preciosa porque é efêmera.

Entre Jesus e Epicuro, fico com este, que disse, três séculos antes do sedizente "Único Caminho": "A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais." Epicuro sim venceu a morte, com sabedoria. O "çábio" judeu apenas alimentou vãs e antigas ilusões...

06 fevereiro 2013

50 Tons de Cinza

Quando uma criança é pequena precisamos ensinar de forma didática o que é ser mau e o que é ser bom. Então temos a famosa historinha do Lobo Mau, que mostra o que é ser mau. A partir do Lobo Mau podemos fazer analogias com situações da vida real para tentar dar significado a contextos para a criança. E temos uma série de outros contos que tentam mostrar o que é ser bom e o que é ser mau.

À medida que crescemos vamos percebendo que o mundo não é preto e branco e nem as pessoas são inteiramente boas ou más. As pessoas são intrinsecamente falhas, como ilustra a historinha bíblica do pecado original. Como resultado, as suas ações, mesmo aquelas bem intencionadas, também são falhas. Já dizia um velho adágio que o caminho do inferno está calçado de boas intenções.

A partir destas premissas vejamos, por exemplo, a eleição do presidente do Senado, o Renan Calheiros. Ele ganhou a eleição para esta cadeira com mais ou menos 75% dos votos dos senadores. O que isto quer dizer? Será que aqueles que votaram contra o Renan são necessariamente bons? Certamente, podemos contar entre eles o Cristovam, que recentemente propôs a federalização do ensino básico como uma panaceia para melhorar a sua qualidade e acabar com a desigualdade entre os ricos e os pobres, o velho Pedro Simon, que já está cansado de guerra, o Eduardo Suplicy, que em seu doutorado nos Estados Unidos entrou em contato com os ideais de Gary Becker de subornar mães, os quais acabaram sendo a base do Bolsa Escola e depois do Bolsa Família. Enfim, figuras que já estavam boas para se aposentar. Temos um Jarbas Vasconcelos com sua lucidez e sua estória de luta pela democracia no Brasil...

Do lado de Renan temos figuras como o velho Sarney e seu pragmatismo absolutamente amoral. Talvez Sarney tenha feito o pior governo da história deste país quando presidente da República, mas acabou sendo excelente para o fortalecimento do PMDB, o que de certa forma viabilizou o nascimento do PSDB, que seria o partido que mais tarde acabaria com a inflação no país. Ironicamente, os técnicos que montaram o Plano Cruzado para Sarney foram mais ou menos os mesmos que montaram o Plano Real para o Fernando Henrique. A diferença é que FHC teve a liderança e o espírito republicano necessário para fazer os dolorosos ajustes necessários ao Plano, apesar das crises do México, da Rússia e da Ásia.

Outra historinha bíblica é a do Bezerro de Ouro, em que Moisés é surpreendido pela fraqueza do povo em adorá-lo. A reação do profeta foi forte mas, apesar disto, o povo não aprendeu e nunca irá aprender. Faz parte da sua natureza a necessidade de idolatrar. No Brasil, temos a idolatria do Lula e seus apóstolos petistas defensoras dos fracos e da ética. Os fatos desmentiram estas pretensões mas, nem mesmo eles são mais fortes do que a idolatria que desafia a razão. De fato, temos aqueles que poderíamos qualificar como os do PT do B, ou seja, PT da Boquinha e outros menos venais. Há até mesmo aqueles que poderíamos chamar de bons.

Mas o mundo é cinza e de boas intenções a estrada para o inferno está calçada. Lembro-me que há alguns anos, o fala mansa do Palocci era um grande defensor da Reforma Constitucional no Brasil. Outro menos discreto como o Dirceu defendia a criação de um Conselho de Ética para os Jornalistas enquanto que Franklin Martins defende o controle “social” da mídia. Temos ainda aquela velha lenga lenga da Reforma Política na qual o PT insiste na criação do voto de lista fechada. O voto de lista fechada é o voto pacote da net. Se quiser tem que comprar todos os canais senão não assina. Assim, o partido garantiria a eleição daqueles nos quais nem o povo votaria.

Curiosamente, não foram os bons do PT os maiores adversários destas teses sinistras e pouco democráticas. Foram justamente os bandidos do PMDB e de outros partidos aqueles que souberam enxergar sob este manto de cordeiro. Afinal, nada como um bom canalha para reconhecer outro. Desta forma, e servindo aos seus interesses mais egoístas, o PMDB buscou preservar sua base de poder, o Brasil. E, assim, a meu ver, serviram a democracia. É, seria muito difícil explicar para uma criança que o lobo mau às vezes pode ser bom e os bons em sua fraqueza e ilusões podem servir o mal. Não é qualquer um que entende que por trás de grandes ideais e boas intenções justificam-se grandes atrocidades.

02 fevereiro 2013

A Ilha Misteriosa

João e Carlos caminhavam pela ilha a poucos quilômetros da qual naufragara seu barco de pesca, após enfrentar horas de tempestade. Rádio, sinalizadores e celulares foram a pique com ele.

- Creio que seja deserta. - disse João, quebrando o silêncio. Parando de repente, gritou: - Veja! Uma casa sobre aquelas rochas!

Correram até lá. A casa simples, de duas águas e um pequeno alpendre, parecia ser recém construída. Carlos estranhou não haver caminhos próximos ou mesmo pegadas. A porta estava fechada. Carlos espiou pela janela e pode ver, através de um pequeno vão entre as cortinas, que lá não havia móveis, apenas o que parecia ser a maquete de uma construção. Foi o máximo que a penumbra lhe permitiu discernir.

- É a casa de um arquiteto? E os jardins, os caminhos para acessá-la, os móveis, o pano de vidro para aproveitar a vista? – disse Carlos.

- Certamente é habitada. É nova. Ô de casa! – gritou João.

Sentaram na varandinha e esperaram um longo tempo. Nada. João forçou a porta umas vezes e depois tentou arrombá-la. A construção inteira tremeu com suas investidas. Relutante a princípio, Carlos arremessou uma grande pedra contra a janela, mas o vidro não quebrou.

- É uma fortaleza! – espantou-se João.

Prosseguiram a exploração da ilha. Após cruzarem um vale escarpado, acharam uma casa quase idêntica à primeira, um pouco maior, velha e mal acabada. Não possuía porta frontal, apenas uma entrada de serviço nos fundos. Tinha uma chaminé, mas muito estreita para eles passarem.

O sol se pôs e uma fina chuva os fez montar acampamento no alpendre da casa velha. “Por que esta varanda, se não é acessada por porta alguma?”, pensou Carlos.

De manhã, encontraram nas imediações outras casas, todas lacradas, parecidas mas de tamanhos levemente diferentes, uma ligeiramente mais escura, outra com cumeeira não centralizada, as que tinham chaminé não possuíam porta frontal. Percorreram toda a ilha, que era pequena, e não encontraram viva alma. Retornaram à primeira casa. João espiou pela janela.

- Levaram a maquete. A sala está vazia!

- Talvez os responsáveis morem no continente, ou em outra ilha, e venham cá apenas para experiências arquitetônicas.

Não restavam dúvidas de que alguém erguera aquelas construções e que estava por perto - a maquete ter desaparecido da sala o corroborava. E, afinal de contas, as casas não poderiam ser fruto do acaso. Mas Carlos pensou, intrigado: “Por que fazer maquete se todas as casas são muito parecidas? Para um cliente entender o projeto?” Acamparam no alpendre e decidiram que não sairiam de lá até toparem com alguém e obterem explicações e ajuda.

Após uns dias, durante os quais se revezaram para catar cocos e caçar pequenos animais, ficando sempre um a montar guarda na casa, testemunharam algo maravilhoso. Acordaram à noite com ruídos que pareciam vir do vale, ecoando por suas paredes. Algo parecia se arrastar, depois ouviu-se um impacto estrondoso, voltou o arrastamento, novamente o impacto, em uma nítida cadência, o som cada vez mais alto, próximo. Esconderam-se em uma fresta nas rochas a alguns metros da casa, e quase não acreditaram quando viram uma grande mansão de dois andares surgir de repente, tombar em frente ao telheiro da outra e, perante os dois pescadores boquiabertos, na casinha introduzir sua chaminé pela porta frontal, aquela inexpugnável porta! Depois de uns instantes o sobrado endireitou-se, como se centenas de homens o içassem com cordas e polias, e sumiu desajeitadamente por onde surgira.

Impossível descrever o assombro de João e Carlos. Não saíram antes que nascesse o sol e, como se sonhassem acordados – de fato, não conseguiram pregar os olhos um instante sequer -, andaram de um lado pro outro desatinados, sem chão. Carlos, parecendo recobrar um pouco suas faculdades, acercou-se da janela, espiou e caiu para trás:

- Uma maquete!

Inexplicável! Ficaram por lá mais umas noites, protegendo-se das intempéries na toca que encontraram, sem terem coragem de dormir novamente próximos àquela bizarrice em forma de casa. Contudo, espiavam pela janela e viam a maquete um pouco maior a cada dia, até que ela, agora em escala 1:10, saiu sozinha pela porta da frente, ficou um pouco sob o alpendre e depois se arrastou, como um filhote de tartaruga, em direção ao vale.

- Deveras impressionante! Então ninguém as construiu. As casas são vivas, reproduzem-se, são levemente diferentes umas das outras. – empolgou-se Carlos, ainda assustado, contudo. – Envelhecem e ficam mal acabadas, como aquele “macho” que vimos no vale.

- Que estupidez – replicou João. – Um arquiteto com formação em mecatrônica as construiu, as programou para se replicarem. Deve estar escondido por aí. Deve ter um plano.

- Por que alpendre nos “machos”, se não possuem porta frontal? Havia reparado, inclusive, em nossa excursão pelo vale, que as “fêmeas” têm como que uma cicatriz de chaminé na cumeeira. Por que projetar tais elementos inúteis?

João passou semanas gritando a plenos pulmões para que o arquiteto aparecesse, enquanto Carlos explorava a ilha. Encontrou, em umas cavernas do vale, restos petrificados de casas bem diferentes daquelas que se viam erguidas na ilha, pedaços de outras em um charco próximo que possuíam algo idêntico a um motor de popa junto à porta dos fundos. Quando Carlos mostrava suas descobertas a João, este, irritado, o criticava por não ajudá-lo a procurar pelo arquiteto. Depois, convencido de que este era invisível, passou a acreditar que além de criar as casas comandava a ilha, de modo que passou a lhe pedir em voz alta por chuva quando fazia muito calor, por comida quando tinha fome. Às vezes era atendido, às vezes não, principalmente quando era exigente e muito específico. Mas sempre, em agradecimento, deixava peixes e frutas sobre grandes pedras que empilhara conforme ordens que o próprio arquiteto lhe dera em sonhos.

Um dia João escorregou do alto de suas pedras, quando tentava aumentar a pilha, despencou no chão, rasgou a perna e bateu a cabeça. Carlos cuidou do amigo, passou nos ferimentos sal marinho que isolara em piscinas de evaporação, protegeu-os com panos limpos, deu-lhe água e comida.

Quando se sentiu novamente disposto, João foi à sua pilha de pedras agradecer ao arquiteto por ter tratado de seus ferimentos. Carlos, entendendo que o outro precisava do amiguinho imaginário para sobreviver naquela ilha sem sentido no meio do nada, prosseguiu tentando entendê-la e com pesar deixou de lado seu desvairado companheiro, que agora sonhava com o dia em que o arquiteto cumpriria sua promessa de o levar para o Palácio de Versalhes invisível que se erguia majestoso sobre as nuvens...

Quem achou esta alegoria esquisita é porque não assistiu à 6ª temporada de Lost...

15 janeiro 2013

A Ditadura de Chávez

Mais uma vez a democracia Venezuelana se revela uma farsa e seu país se mostra profundamente dividido. O homem que se pretendia o líder do socialismo do século XXI revela-se mais um caudillo e sua carreira política termina como começou, com um golpe. Inflação de mais de 1000%, escalada de violência, profunda divisão nacional e escassez de alimentos são marca de seu governo, que iria para o 14º ano. Seu estado de saúde é segredo de Estado só conhecido por alguns colaboradores com o apoio do serviço secreto cubano. De fato, ignora-se mesmo se o líder da Revolução Bolivariana encontra-se morto e esteja sendo usado como o cavaleiro castelhano “El Cid”, cuja lenda diz que seu cadáver foi vestido em uma armadura e montado em seu cavalo Babieca para elevar a moral da tropa ou mesmo para ganhar uma batalha, dependendo da versão.

Chávez era um misto de presidente da República e Silvio Santos com seu programa dominical, onde usava a sua verve para atacar os Estados Unidos, que também é seu maior cliente e comprador de petróleo, maior fonte de riquezas nacional. Mas falar mal dos gringos é um passatempo muito popular na América Latina, assim como fazer compras em Miami.

Comparando o Brasil a seus hermanos, acho que estamos em vantagem. Em nossa história, golpes militares foram dados por generais ou marechais. Nos nossos vizinhos, qualquer coronel achava que podia fundar um novo governo. O tenente-coronel Chávez deu o seu golpe em 1992, mas fracassou e foi preso. Em retrospecto, o maior erro do presidente Perez foi ter perdoado o golpista. Às vezes, a tentação para a conciliação se revela uma grande e desastrosa fraqueza.

A história da Venezuelana é cheia de golpes e de ditadores. O mais famoso foi Juan Vicente Gomez em cujo governo o petróleo foi descoberto no lago Maracaibo. Chávez sonhava em permanecer no poder por 30 anos, mais tempo do que Gomez, que ficou de 1908 a 1935. Em seu governo, o Exército ajudava a cuidar do gado do ilustre ditador e a Venezuela era sua grande hacienda. A maioria dos seus cerca de 64 filhos encontrou empregos ou favores no governo.

Após a partida deste ditador, teve-se mais alguns golpes e um ambiente político polarizado pelo COPEI e pela Ação Democrática. Apesar disso tudo podemos destacar o ministro venezuelano Juan Pérez Alfonzo, que foi um dos fundadores da OPEP ao lado do sheik Abdhullah Tariki. Alfonso, após amargar o exílio nos Estados Unidos, voltou para servir no governo após a queda do ditador Gomez. Ficou impressionado com a riqueza que encontrou na capital e com o desperdício da era do petróleo. Mandou o carro que usava nos Estados Unidos, um Singer, e só foi avisado de sua chegada ao porto 3 meses depois do fato. Quando mandou um mecânico buscar o carro ele já se encontrava enferrujado. O mecânico descuidou de verificar o óleo e fundiu o motor e o carro chegou a sua casa de reboque. Fez questão de colocar o carro em seu jardim como um símbolo do desperdício em seu país vivendo na opulência do petróleo.

Talvez este seja o problema da Venezuela. Ditaduras, petróleo e populismo. Talvez este seja o segredo de Chávez que, como todo líder carismático, também conta com a sorte a seu lado e no caso dele um petróleo próximo da casa dos US$ 100. Para se ter uma ideia, quando ele assumiu valia menos de US$ 20. Enfim, os filhos do grande papai Chávez desfilarão nas ruas e matarão em seu nome órfãos de suas promessas e a espera de mais alguém que os venha salvar.

04 janeiro 2013

O Milagre de Foot Grain



O minúsculo grânulo de rocha ígnea cuja fotografia apreciamos acima é muito especial, protagonista de um verdadeiro prodígio. Sua forma não tem igual em todo universo. Com comprimento de aproximadamente meio milímetro, lembra um pouco um pé humano, devido em parte a manchas brancas intermitentes de sílica e feldspato, o que levou à alcunha "Foot Grain" pela qual tem sido chamado. Foi descoberto após um evento extraordinário, com probabilidade virtualmente nula de ocorrer, ou melhor: uma em um trilhão.

Em Pismo Beach, Califórnia, o japonês Arima-no Miko, vendado, andou às cegas pela praia em uma área demarcada de 1000 m², inseriu a mão na areia e isolou, após esfregar o polegar e o indicador, justamente o Foot Grain. Exatamente ele! O cálculo da probabilidade foi feito levando-se em conta a quantidade de dez grãos por mm² e uma profundidade de 10 cm. Perante uma multidão emocionada, o precioso grãozinho foi transferido para a Igreja de São Paulo Apóstolo, também em Pismo Beach, onde hoje pode ser venerado através de potentes lentes de aumento e projetores. Cópias em tamanho ampliado já estão sendo vendidas em lojas da vizinhança, assim como camisetas com os dizeres "one in a trillion = miracle". Curas têm sido atribuídas à pedra miraculosa, hoje mais famosa do que o meteorito da Caaba, um ganhador da loteria afirmou ter segurado uma réplica do diorito, enquanto escolhia os números. Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que Foot Grain não era conhecido antes do episódio, sequer tinha nome próprio, que não há nada de especial em sua composição geológica, que só se parece com um pé de um único ângulo e com muita boa vontade, que não havia a intenção de sorteá-lo exatamente ele, e que o escolhido poderia ter sido um outro grão qualquer e que a coisa toda era um completo desvario.




Fotografia de Foot Grain com outros grãos de areia tirada por Mark A. Wilson, do Departamento de Geologia do Wooster College.

O caso chamou a atenção do mundo, mas às vezes esquecemos que o simples fato de estarmos aqui é um milagre muito mais impressionante do que o do grão de areia. Se a Terra não estivesse à distância que está do Sol, se a colisão com um planeta chamado Theia ou sucessivos e intensos terremotos não tivessem inclinado seu eixo de rotação, o que propiciou as estações do ano, se não houvesse Lua, se há 65 milhões de anos um meteoro não tivesse caído por aqui e extinguido os dinossauros, após o quê tiveram oportunidade de evoluir para símios os pequenos mamíferos que de fendas e tocas viam passar as colossais patorras daqueles predadores pecilotérmicos, se tudo não tivesse ocorrido precisamente do jeito que ocorreu, hoje as coisas não seriam exatamente como são. Aqui seria Marte ou outro planeta do Sistema Solar que está em outra órbita, que tem outro tamanho e que não tem vida, e obviamente ninguém estaria escrevendo estas pérolas e ninguém as estaria lendo (quanto a isto, pouco mudaria). A probabilidade de tudo ter acontecido do jeitinho que aconteceu é, para inventar um número "exosférico", de uma em milhões de decilhões, ou seja: Milagre! Deus existe! E sem falarmos que cada uma das sete bilhões de pessoas do planeta nasceu vencedora, é o miraculoso fruto do espermatozoide ganhador de uma disputa acirradíssima no útero materno, mais concorrida do que qualquer mega-sena, contra 300 milhões de concorrentes. Não estou contando com os dias inférteis da mulher e com os "girinos" desperdiçados, às vezes com chances nulas de encontrar pela frente algo diverso de uma membrana de látex (entre outras possibilidades). Há quem argumente (adivinhem quem) que se fosse qualquer outro espermatozoide a fecundar o óvulo, consideraríamos milagre do mesmo modo, porque analisamos os fatos após terem ocorrido.

Há milagres não tão espetaculares mas com a peculiaridade de terem data prevista e repetições amiudadas. A mega-sena, por exemplo, citada no parágrafo anterior. Segundo os estatísticos, para cada jogo a probabilidade é de aproximadamente 1 em 50 milhões. Na verdade, a chance é maior (o que torna o milagre menor), uma vez que as bolas armazenam em uma memória quântica - muito bem explicada no filme "Quem Somos Nós" (What the Bleep Do We Know!?) e nas experiências de Masaru Emoto -, os números decimais em algarismos arábicos, repelindo combinações em sequência, progressões perfeitas aritméticas, principalmente com diferença comum de uma dezena, e números que saíram na edição anterior. Contudo, dígitos que saíram muitas vezes, como o 5, imprimem-se também quanticamente na mente dos milhões de apostadores e mesmo na dos auditores presentes no sorteio, aumentando a probabilidade de saírem novamente.

Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que, pela lei dos grandes números, sempre nos depararemos com eventos incomuns, que teremos provavelmente 3 ganhadores quando 150 milhões de apostas forem feitas, e que nos resultados nunca se viu números em sequência ou progressões aritméticas como 10, 20, 30, 40, 50 e 60, porque o número de edições da mega-sena é pequeno em relação às milhões de possibilidades. São 105 sorteios no ano, então seriam necessários 500 mil anos com dois sorteios semanais para que talvez víssemos sair um resultado como 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Dizem que as bolinhas não sabem qual número está impresso nelas, não são vivas e sequer consciência possuem, além de não possuírem controle sobre seu corpo esférico, e a probabilidade de saírem dígitos em sequência é a mesma de sair qualquer outra combinação. Os céticos, cada vez mais em descrédito nesta sociedade de verdades plurais, podem até ser especialistas em ciência física, mas certamente não o são em ciência metafísica quântica. Parecem desconhecer, por exemplo, a sincronicidade, provada, por meio do próprio testemunho, por Carl Gustav Jung nos anos vinte do século passado. Invocam a Lei de Littlewood, um cientista obscuro, de menos prestígio que o psicólogo suíço, segundo a qual uma coisa acontece por segundo, em um mês acontecem um milhão de coisas, para quem é ativo por oito horas diárias, e, definindo-se milagre como um evento com probabilidade de uma em um milhão de ocorrer, todo mês presenciamos um milagre. Com tal irônica falácia tentam tirar a poesia do mundo, o milagre de nosso dia a dia (por que apenas mensal?), a nossa razão de viver. Fugindo um pouco do assunto, a respeito da mega-sena, dizem ainda que é um imposto sobre a estupidez, que loterias oficiais são um jeito que governos usam, desde antes de Cristo, para aumentar a arrecadação sobre a massa ignara sem apelar para impopulares impostos formais, porque as chances de ganhar tendem a zero e o governo sempre ficará com a maioria do dinheiro.

Eventos como o encontro miraculoso de Foot Grain calarão por hora a boca dessa malta de estraga-prazeres. Aguardemos o momento em que mostrarão de novo suas garrinhas envenenadas!

28 dezembro 2012

Falta-lhes a focinheira adotada por aqui

Manda o bom senso que fiquemos alertas quando a maioria religiosa oprimida repete sem cessar gritos de ordem contra um grupo religioso minoritário opressor, como ocorre hoje contra muçulmanos na Europa, como aconteceu contra judeus pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Guardemos as devidas proporções, logicamente; a principal diferença é que judeus eram discretos e cometiam crimes como possuir dinheiro e emprestá-lo a juros, e presidir academias de arte e conservatórios de música - passíveis portanto de despertar ódio incomensurável em artistas geniais rejeitados -, enquanto os muçulmanos são de fato atrasados, invejosos, belicosos, uma ameaça à democracia e imperdoavelmente feios. Crimes de grandes proporções contra muçulmanos são raros, mas incidentes como intimidações, brigas, vandalismos e pichações com termos injuriosos têm sido cada vez mais comuns. Incomodam também turistas, mesmo que estes não o confessem, que preferem topar com europeus claros quando viajam, porque estes compõem melhor o cenário de castelos antigos e montanhas com neve. Mesmo se abundassem, loiros de olhos azuis convertidos à ala ruidosa do islamismo não incomodariam tanto quanto cristãos africanos negros cordatos, por não enfearem a paisagem. Turistas do extremo oriente também irritam, pois são todos iguais e usam bonés, chegam aos milhares e tornam insuportáveis os locais cuja manutenção depende sobretudo de seu dinheiro. Mas pelo menos estão de passagem, são bonzinhos e tomam banho.

Seria impossível um mundo islâmico tolerante?

Estudo feito pelo Pew Research Center's Forum on Religion & Public Life, divulgado em agosto de 2011, expõe que quase um terço da população mundial vive em países onde há restrições à liberdade religiosa, relacionadas a governo ou hostilidades sociais. Destes países, sete em dez são islâmicos. Contudo...

A Turquia tem praticamente 100% de muçulmanos. Atatürk substituiu os trajes árabes no trabalho pelo terno e gravata, promoveu a educação e o trabalho para mulheres e liberou-as da obrigatoriedade do véu, adotou o alfabeto latino, descriminalizou imagens figurativas na pintura e escultura, converteu em museu a Santa Sofia, antiga basílica transformada em mesquita por Mehmet II, passando a exibir, juntamente com os dizeres "Alá é Grande e Maomé é seu profeta", mosaicos antigos cristãos; encomendou a tradução, do árabe para o turco, do Alcorão, que só podia ser lido no idioma ditado pelo anjo Gabriel, o mesmo que fez o exame pré-natal em Maria. Recentemente, 12 mil turcos saíram às ruas em defesa da sociedade secular, ameaçada por extremistas islâmicos. O Azerbaijão tem 95% de muçulmanos e é, como a Turquia ( e Bósnia e Herzegovina), um país secular onde há liberdade religiosa.

A Malásia tem maioria muçulmana e há liberdade religiosa, sendo reconhecida pelo Estado a conversão do Islã para outras religiões.

Não seria nenhuma surpresa se a Indonésia, com seus quase 90% de islâmicos, cancelasse as leis contra a blasfêmia e a hostilidade contra outras religiões. É um país rico e com algumas características democráticas - embora não seja uma Turquia -, com quase 10% de cristãos e seis religiões reconhecidas pelo Estado. Bangladesh também tem aproximadamente 90% da população muçulmana, e os casos de intolerância eram raros até uns anos atrás.

O Irã, 100% islâmico, foi um dos países mais abertos do oriente, até 1979, com uma vanguarda cultural e uma indústria sofisticada de cinema e televisão. Mulheres fumavam, usavam minissaia, iam à universidade, namoravam em público. O Afeganistão tinha realidade semelhante: maioria islâmica e liberdade.

Os muçulmanos, certamente apesar do Alcorão, criaram nos tempos antigos um padrão para a tolerância religiosa ao qual o mundo não estava acostumado. Muçulmanos protegeram judeus contra cristãos, cristãos orientais contra católicos romanos. Em Bagdá, sob os abássidas, e na Península Ibérica, sob os omíadas, muçulmanos eram mais tolerantes do que cristãos, ainda que às vezes as minorias devessem pagar um imposto para poderem professar a própria fé em sossego. Após a Reconquista, judeus e muçulmanos, que viviam pacificamente no Califado de Córdoba, passaram a ser ferozmente perseguidos, mesmo após se converterem ao cristianismo. Um cristão não comer porco às vezes era o suficiente para ser tratado como judeu: linchado, claro. Os muçulmanos sob o reinado de Saladino eram mais tolerantes do que seus contemporâneos cristãos, nomeadamente os cruzados. Exemplos abundam. No mundo muçulmano prosperaram a matemática, a astronomia, as letras, a filosofia.

E isso tudo sob o mesmíssimo Alcorão. O que falta aos muçulmanos é uma sociedade secular forte para lhes meter uma focinheira reforçada. Falta-lhes um Atatürk, um Napoleão, um grande domador de feras.

Cristãos sempre foram tolerantes?

O Novo Testamento não era diferente nas épocas de Savonarola e Torquemada. E o que os cristãos fizeram com os judeus nos últimos dois milênios? Qual era o sentimento da cristandade em relação a eles, pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, há algumas décadas?

Há pouco mais de 100 anos, Pio IX ameaçou de excomunhão quem apoiasse a democracia, quem votasse, quem promovesse a igualdade de direitos das mulheres e a liberdade religiosa, numa época em que o anátema valia alguma coisa, pois o excomungado era banido da vida social, em geral em torno à Igreja. Esta foi se adaptando à força, deixando de ser religião oficial em países latinos, avançou a reboque dos próprios fiéis e dos de outras denominações, dos críticos e dos descrentes, sempre rugindo e esperneando, excomungando, proibindo livros, associando-se a ditadores e a qualquer tábua que lhe ajudasse a se manter na superfície do poder. E hoje está bem mais branda. Na verdade, está praticamente extinta. Seus fiéis não conhecem sua doutrina. A grande religião do ocidente agora é o cristianismo à la carte, em que se apanha o que interessa e se abandona o que se julga inconveniente, onde se considera literal o que está em harmonia com princípios humanistas seculares, e simbólico e "fruto do pensamento da época" o que vai de encontro a eles. E adora-se uma mistura de Deus bíblico com panteísta, zen budista. Um deus politicamente bonitinho que gosta de veados e putas, e apoia suas atitudes, e que não manda ninguém para o inferno porque é bonzinho. Incentiva todos nossos projetos e nos ajuda a achar vaga em estacionamento concorrido.

O que os muçulmanos precisam aprender com os cristãos é considerar simbólicas algumas passagens do Alcorão, ou fruto do pensamento da época, é colocar os princípios humanistas acima dos divinos, é criar um Alá hippie à la carte, um Maomé Superstar.


Lê-se na Veja Online:

"Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais."

O comportamento de um flamenguista numa multidão de vascaínos é um, em meio a milhares de flamenguistas é outro, principalmente se avistar um vascaíno desgarrado por perto. A História o demonstra. Se não houver policiais (sociedade secular forte), o grupo preponderante tenderá a agir com intolerância. O que a religião desperta no indivíduo que se sente autorizado e reforçado pelo grupo é muito semelhante ao que o clube do coração desperta no torcedor quando se sente parte de uma massa sem rosto, onde anonimamente pode dar largas a tudo o que individualmente não teria coragem de fazer, principalmente se for um ressentido, como é a totalidade dos fanáticos. A culpa é dividida em milhares e, afinal de contas, "dei apenas um chutinho no estômago, não sou o responsável pela sua morte". A massa soma força, não inteligência.

Tanto cristianismo quanto islamismo são perigosos quando a sociedade está nas mãos de seus líderes, quando ela vive sob suas boas intenções. Quando os líderes cristãos e muçulmanos e toda a religião estão sujeitos a leis superiores às divinas - as humanas, regidas por princípios de liberdade, pela convivência -, aí sim é possível ter paz e tolerância. E é por isso que aos católicos incomodam mais os laicistas do que os muçulmanos. Ambas religiões veem no secularismo uma ameaça às suas mordomias e aspirações totalitárias, ainda que em estado de dormência. Onde há humor, liberdade religiosa e de opinião, onde não há leis contra a blasfêmia, os líderes religiosos não conseguem aquela gosmenta aura de importância sacra tão imprescindível para que seus absurdos escorreguem goela abaixo dos homens, às vezes tão questionadores e sensatos.

Enfatizo alguns pontos, por fim:

- Acho os muçulmanos atrasados e condeno as atitudes daqueles que usufruem do que o continente europeu tem de bom e se valem da democracia para condená-la, o que é um contrassenso.

- Apoio a decisão da Noruega de não aceitar financiamento para a edificação de mesquitas quando vem de países que proíbem a construção de templos de outras religiões.

- Não deve haver tolerância para com a intolerância, leis diferentes aplicadas a grupos diferentes em um mesmo país.

- Penso que a Europa deva preservar as características arquitetônicas e históricas de determinadas áreas (o Vaticano, por exemplo, rsrs). Contudo, não vejo problema algum na construção de mesquitas por lá. Que construam um milhão.

- Vaticano e Islâmicos são ambos ameaças ao sadio espírito secular europeu, conquistado a duras penas, o primeiro uma ameaça latente, o segundo uma ameaça real e direta.

- Acho que o próprio Novo Testamento levado ao pé da letra é extremamente perigoso, e o Velho Testamento está na Bíblia, Jesus não o aboliu, aquilo é um verdadeiro manual de maus costumes, do nível do Alcorão. Se foi possível domesticar os cristãos e vários países de maioria muçulmana já tiveram longos períodos de tolerância, entendo que o problema é uma religião hegemônica ter muito poder, influência sobre o Estado, é estar acostumada a ditar o que todos devem fazer.

27 dezembro 2012

Código do Bento

O Papa Bento XVI inaugurou presépio no Vaticano incluindo diversos personagens inexistentes na mais famosa manjedoura da história, entre eles o burro e a vaca.

Conforme o recém lançado livro "A Infância de Jesus", que o pontífice escreveu após mui importantes e exaustivos estudos, orações e a votação do Colégio Cardinalício, esses animais não estavam na manjedoura no momento exato do nascimento de Jesus. Os pastores mantinham as bestas no presépio de dia e as levavam para pastar à noite quando a estrebaria fazia as vezes de hotel para divindades, em anos de recenseamento. O jumento que Maria montou de Nazaré a Belém também foi barrado. A confusão nasceu provavelmente do relato de um pastor, que teria avistado no santo sítio um animal com chifres, mas talvez fosse apenas um comentário relacionado à reputação de Maria, que naqueles tempos ainda não era imaculada. Não se sabe se o verdadeiro pai estava no local, porque não foram avistados nem pombas nem o soldado romano Pantera, famoso em Nazaré por encomendar 20 mesas para o carpinteiro José e de nunca as ter apanhado.

A primeira representação do presépio no Natal foi feita em 1223 por São Francisco de Assis, com personagens vivos. Contudo, devido a cacoete adquirido na juventude, Herr Ratzinger considera, no livro, que a ideia de encher o presépio de animais foi dos judeus, no século VII.

Lemos em Mateus, 2,1: "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.". B16 afirma, no entanto, que os magos vieram da Andaluzia, na Espanha. Como a Bíblia não pode estar errada, historiadores já estão pensando em retirar de Fernão de Magalhães o crédito pela primeira viagem de circunavegação da Terra.

Ainda no mesmo capítulo de Mateus, no versículo 9, lemos: "Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.". Contudo, após assistir a vários documentários do Discovery Channel, B16 chegou à conclusão, também exposta no livro, de que a Estrela de Belém era, na verdade, uma supernova. Contra aqueles que querem enxergar no Papa uma visão por demais materialista do evento, pode-se argumentar que uma supernova ir precedendo magos espanhóis vindos do oriente e parar sobre um estábulo sem animais em Belém é um milagre ainda mais assombroso do que aquele em que até ontem cria a cristandade.

Jesus Diaz, da Gizmodo australiana, disse tudo: Como Dan Brown, o Papa esclarece vários mistérios bíblicos por apenas US$ 13!

17 dezembro 2012

Apocalypse Simulator Release 2012

Lemos na última Veja que uma em cada dez pessoas acredita que o mundo acabará em 2012, segundo pesquisa Ipsos Global Public Affairs, em 21 países.

Perdi uma boa oportunidade de enriquecer licitamente. Abordando transeuntes aqui e no exterior, não teria sido difícil descobrir alguns dos 700 milhões que creem no tal Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa. Se eu abordasse 500 chegaria provavelmente a 50 crentes. Se dentre estes um único acedesse a me vender suas propriedades pela metade do preço de mercado, recebendo no ato o pagamento mas delas mantendo o usufruto até 21 de dezembro, quando então a posse passaria para mim, aí eu teria feito um grande investimento. No dia 22 de dezembro eu possuiria, por exemplo, um imóvel de 1 milhão que me teria custado 500 mil. O crente apocalíptico, embora pobre, estaria vivo, a contemplar pássaros, a natureza, na presença de familiares e amigos – quer prêmio maior? No caso de acabar o mundo, teve alguns meses para dissipar uma pequena fortuna, sem sair de seu lar, sem perder o aluguel de suas propriedades.

Na prática, contudo, seria assaz difícil encontrar alguém tão parvo. Muitos veados chapados devem ter vendido suas propriedades e se mudado para a Chapada dos Veadeiros, mas quantos simplesmente as abandonaram ou distribuíram os dividendos obtidos na venda? Aposto que nenhum. Schopenhauer dixit : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.” Numa fábula de Esopo, enquanto o navio afunda, um rico reza para Atena e lhe promete mil oferendas caso se salve. Um náufrago adverte: “Convoca Atena e também teus braços”. No fundo, mesmo os fanáticos creem sabendo que podem estar errados, senão não creriam, saberiam. Senão não seriam tão truculentos com a descrença alheia, posto que saberiam ou teriam plena convicção de que indizíveis tormentos os aguardariam na outra vida. Não creio que o céu seja azul, que as árvores sejam verdes. Sei que são.

Não há uma crença mas uma atração e um desejo de Apocalipse. Esperá-lo é, de certo modo, vivenciá-lo. Será quando o vizinho que seguramente enriqueceu roubando, porque sou superior a ele e ainda assim mais pobre, pagará seus pecados, será quando todas as casas ricas serão destruídas junto com meu apartamento de dois quartos, quando não precisarei mais me olhar no espelho, trabalhar e competir para sobreviver. É uma atração suicida que também demanda destruição, típica de ressentidos, como esses losers que abrem fogo contra inocentes em escolas. Não é à toa que o que dá prazer para gente desse tipo é imaginar - amiúde com uma ajudinha de Hollywood - o Empire State e a Torre Eiffel sendo destruídos, como gigantescas estátuas de Buda escavadas na rocha virando farinha sob os pés encardidos dos Talibãs. Não tem graça imaginar africanos famintos sendo arrastados com suas malocas por ondas de centenas de metros de altura. Ora, formigas morrem todo dia. Qual a atração nisso?

Qualquer coisa é motivo para se vaticinar o fim do mundo. Efeito Estufa, Guerra Atômica, números decimais cheios de zeros: o ano 1000, por exemplo. O belo número cheio de bolinhas perde completamente a importância quando pensamos que o sistema poderia ser duodecimal e não decimal. A escala básica seria: 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 (x) (y) 10 - o "10" seria uma dúzia. “X” e “Y” seriam signos originais, como os números de 1 a 9. O "20" seria a grafia para duas dúzias. O ano 1000 duodecimal aconteceria no 1728 decimal, um anozinho como qualquer outro; nada, digamos, cabalístico. O universo não está nem aí para nossas convenções. Não tem sequer consciência. Mas é claro que as forças do destino usam a convenção humana para estabelecer eventos marcantes, principalmente os futuros.

Sempre foi fascinante o caos iminente pregado por profetas ensandecidos, que, alheios à lógica dos homens estão portanto mais próximos da lógica de Deus, segundo o sapientíssimo senso comum. Como nas montanhas-russas, que simulam situações limite, de quase morte, ou em filmes de serial killers, quando, na pele da vítima mas na segurança de nossas poltronas sentimos a morte se aproximar sabendo que terminaremos o filme vivos, de igual modo os crentes no fim do mundo se reúnem em fazendas, como se adentrassem uma Arca de Noé, para aguardar a grande destruição que jamais virá, fruem de toda preparação, das preliminares que não redundarão em orgasmos, dão as mãos, rezam, têm pesadelos, abraçam-se e... como em todas as vezes anteriores, veem amanhecer o Day After, idêntico ao Day Before, e comemoram o milagre: “Nossas orações foram atendidas! Deus cancelou nada mais nada menos do que o Fim do Mundo por conta de nossas poderosas orações!” E retornam felizes da vida para as propriedades de que jamais se desfariam.

E há aqueles que dão cabo da própria vida, quase sempre em grupo, pouco antes do fim anunciado. Estes são meros suicidas que desejam entrar para a glória da história por meio de uma nota de rodapé em algum jornal, como os emos que pulavam do alto do Shopping Pátio Brasil, ou muito estultos por perderem o grandioso espetáculo cinematográfico apocalíptico, durante o qual poderiam facilmente, para evitarem a terrível dor da submersão em lava, meter uma bala de 38 na cabecinha oca...

18 julho 2012

Churrasco francês é razoável?

Meu primo escreveu:

"...Há uma (...) categoria de experiências - não verificáveis, singulares porque não são generalizáveis, portanto não científicas, mas que merecem outra atitude, não necessariamente a aceitação, mas pelo menos o benefício da dúvida, uma vez relatadas por pessoas saudáveis, que não se enquadram em nenhum dos numerosos indicadores que caracterizam os farsantes.
Joana d'Arc (estou lendo uma biografia dela apoiada em registros de seu julgamento, dos quais nos chegaram diferentes versões) é um bom exemplo. As adulterações produzidas para condená-la visavam incriminá-la de bruxaria. Era uma jovem camponesa distante da política e que, lá pelas tantas, começou a falar que ouvia uma voz que, para ela, era a voz de Deus.
Ninguém precisa endossar essa alegação. É apenas um exemplo do tipo de singularidade a ser examinada atentamente, uma vez que a hipótese de delírio não se confirma em suas falas. A forma de se conduzir nas diversas situações em que fracassavam políticos, diplomatas e militares atestam - diferentemente de um delírio - uma refinadíssima capacidade de lidar com a realidade. Ao invés de jogar todas as singularidades dentro do mesmo saco de lixo, caberia nos perguntarmos: O que aconteceu com Joana d'Arc? Se a ciência chegar um dia a explicar e a replicar, tanto melhor! Em sã consciência, uma boa resposta é 'não sabemos'. Em sã consciência, também, é possível algo na linha de 'eu acredito que... (inserir a crença que faz mais sentido para cada sujeito)'. Apenas deve ficar claro que 'eu acredito' não é prova de nada, não é justificativa para imposição da mesma crença a quem quer que seja, nem deve servir de pretexto para fechar questão. (...)"


Devemos estar abertos à possibilidade de duendes existirem e se protegerem da chuva sob cogumelos? Sim, por que não? Tão logo apareçam evidências, os de fato racionais se renderão a elas. Ou passarão a ser crentes na não existência de duendes, do quilate dos que acreditam que o homem não foi à Lua.

Quem precisa apresentar evidências da existência de algo extraordinário são aqueles que a defendem. Quase sempre os que não acreditam não terão como prová-la falsa. Não se demonstra cientificamente que ETs não existem, ainda que cada milímetro quadrado do universo seja esquadrinhado, porque não se pode ter absoluta certeza de que não sejam capazes de ficar invisíveis, por travessura ou por medo. Por isso devemos pensar em termos de graus de razoabilidade. Creio que as probabilidades de haver vida fora da Terra não sejam remotas, mas é improvável que ETs estejam entre nós, que empilharam pesados blocos de pedra no Peru há milhares de anos (só porque não sabemos como quechuas e lhamas os possam ter transportado), que aparecem para caipiras, atores da Globo e ufólogos, que sempre se escondem dos céticos, como fazem justamente os parentes desencarnados, os anjos e as fadas.

É racional crer na existência do Bóson de Higgs, ainda mais agora, que a probabilidade de que exista é de 99,9999%, segundo li. Por outro lado, pode-se dizer que há 0,0001% de certeza de que o criador do mundo falou com uma francesa de nome Joana mais de meio milênio atrás? Acho o número superestimado. A propósito: Criador do mundo? Ele existe? Existe o supra-deus, o criador do criador?

O que eu tenho certeza é de que onde há contradição não há verdade. Sim, quanticamente, o Gato de Schrödinger pode estar vivo ou morto. Mas não poderá estar vivo e não-vivo ao mesmo tempo, salvo com malabarismos linguísticos nos quais teólogos, marxistas e outros homo ideologicus são versados. Digamos que as alegações de Joana d'Arc sejam verdadeiras. Então a Bíblia é falsa, porque agora não se trata de conflitos entre Novo e Velho Testamentos. O Novo vige, não? E Jesus, que não era um nacionalista zelote a  bradar "romans go home" pela Palestina, como Brian, não ordenaria cristãos que falam francês a matarem correligionários anglófonos para os primeiros retomarem Orleans. Se a Bíblia é falsa, como crer em um Jesus divino, em sua ressurreição, na absurda trindade de Tertuliano? E a partir daí, como acreditar na própria Joana d'Arc?

E mais: por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana? Endossaria, no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana d'Arc, desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira até o assassínio em nome de um deus, ou de fronteiras.

A "refinadíssima capacidade de lidar com a realidade" elevaria o grau de razoabilidade das alegações da santa guerreira cuja influência sobre blockbusters atuais tem sido tão nefasta, de Alice no País das Maravilhas à Branca de Neve e o Caçador, que culminam irritantemente com pias Joanas d'Arc a conduzir exércitos contra o mal após discursos de sindicalista?

Se Einstein, acreditando prestar um grande serviço à uma crença que professasse, tivesse afirmado que a Teoria da Relatividade havia sido ditada por anjos, os céticos ficariam em uma sinuca de bico. Calar-se-iam por um tempo, provavelmente. A brilhante teoria não seria prova de que existem anjos, mas conferiria autoridade para inverdades não relacionadas a ela, professadas por seu autor. "Como um ser humano sozinho amontoaria tantos números e letras para derrubar verdades físicas tão assentes?", "por que mentiria tal nobre homem?", "como se enganaria dessa maneira um homem tão meticuloso e sábio?", seriam possíveis comentários de líderes religiosos em júbilo. Contudo, bastaria um fóton superar a velocidade da luz, em um acelerador, séculos depois que fosse, para derrubar o postulado de Einstein de que não se pode ultrapassá-la. E os anjos cairiam também, de uma altura que só Lúcifer conheceu - existam tais inúteis mensageiros alados ou não. Já uma francesa da Baixa Idade Média, em uma época de guerras santas, intolerância, superstição, em que a Igreja Católica definia até a posição em que se podia fabricar mais cristãos, naquela época de Terra Plana, de monstros marinhos, de pogroms pios, peregrinações fanáticas, cilícios e flagelos, de grotescas relíquias, em que o continente inteiro estava defumado em incenso, alguém falar com seriedade sobre fantasias tidas como tão verdadeiras quanto a realidade tangível não reforça em nada a probabilidade de serem verdadeiras.

Em tal contexto, apelar para o "Deus ordenou" talvez fosse o único modo de uma menina com sanha guerreira ingressar na diplomacia e nas armas, afinal estamos no século XV. E sem falar na profecia, da virgem de Lorena que reconquistará a França, responsável em parte pela aceitação geral - após um rigoroso exame ginecológico, é claro.

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. É uma lei básica. Infelizmente, não vale para os que amam crer mais do que amam o bom senso e a verdade.

25 junho 2012

Torturadores e Torturados

Recentemente foi criada a Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Pessoalmente, acho este nome muito inconveniente. Parece aquelas coisas da cultura corporativa do tipo Código de Ética. Mas, afinal, faz parte do marketing político dar-se um nome bonito para uma coisa não tão bonita. Por exemplo, quem não gosta chama de cotas raciais e quem gosta chama de ação afirmativa.

Para começar, quem criou a tal Comissão foi justamente um grupo de pessoas que foram torturadas. Conhecendo a natureza humana, um motivo que parece óbvio é a busca de vingança. Os ex-torturados dizem que não, que querem apenas a Verdade. Bem, para garantir que a Verdade deles seja encontrada, eles mesmos designaram os membros desta Comissão ilustre.

Não se trata aqui de defender a tortura. Esta é uma prática covarde, para dizer o mínimo. Nos Estados Unidos, recentemente, houve quem a defendesse com base na possibilidade de se salvar centenas de vidas de atentados terroristas. De qualquer forma, a falta de empatia que é necessária para tal prática é algo sub-humano. De fato, não se poderia descrever tal prática nem como animal, não é algo sequer digno de um réptil.

Há 40 anos vivia-se uma guerra civil deflagrada por um grupo esquerdista radical que pretendia instalar no Brasil uma ditadura ao estilo cubano. Aí chegamos ao que realmente está em questão na Comissão da Verdade, na minha opinião. Hoje, temos um grupo que chegou ao poder que é constituído por vários dos ex-torturados. Chegaram a ele não pelas armas, nem tampouco para instalar uma ditadura cubana mas por caminhos democráticos.

Estas pessoas passaram por um grande calvário, várias delas passaram anos presas e outras na clandestinidade. Por outro lado, se os militares não tivessem vencido tal sublevação, ainda poderíamos estar vivendo a situação da Colômbia, por exemplo, que vive uma guerra civil há quase 50 anos, ou, se eles tivessem vencido, teríamos quem sabe uma nova Cuba. Enfim, prefiro a vitória dos militares.

O que está em questão, eu acho, é a necessidade destas pessoas de afirmarem que sua causa era justa. Na minha opinião, não era. Uma coisa é a tortura de inimigos do Estado, outra é dizer que eles estavam certos. Creio que eles estavam errados e acho que a tortura aplicada foi também um grande equívoco. Um equívoco tão grande que lançou uma sombra na vitória dos militares sobre esta insurreição que teria sido tão negativa para o país.

Creio que os verdadeiros heróis daquela ocasião não eram estes rapazes da geração 68 nem tampouco os militares. Penso que os verdadeiros heróis tenham sido os membros do antigo MDB e outros que foram os verdadeiros responsáveis pela redemocratização do Brasil. Lula, por exemplo, com sua liderança no ABC, foi um dos que nunca foram torturados e que muito mais contribuíram para a redemocratização do país.

14 junho 2012

Disneylândias da Europa

 Neuschwanstein no Itaimbezinho

Uma reprodução fiel de um quadro renascentista é sempre mais admirável e valiosa do que uma plotagem em tecido da fotografia da mesma obra. Pinceladas, pequenos empastes e veladuras poderão ser examinados de perto, pela visão e tato, com a certeza de que se está no lugar que o copista ocupava enquanto reproduzia a obra. É uma cópia, sim, mas exclusiva. Na impressão apreciamos as formas, tons e cores, sabendo que o valor intrínseco, físico, é pequeno: os custos dos cartuchos de tinta, do substrato e do chassis, provavelmente. Em ambos os casos, contudo, a genialidade é captada como que por um espelho, através do qual se divisa a pintura autêntica.

Quando o original se perde, é destruído, ou tem sua existência inferida pela reprodução, como algumas estátuas romanas esculpidas a partir de gregas, estas nunca admiradas senão pela Antiguidade, a cópia tem seu valor catapultado para as alturas. Ainda mais neste caso, em que muitas cópias são contemporâneas às originais e o mármore empregado, italiano, é superior, o que explica vermos mais narizes e dedos nas estátuas latinas de vinte, vinte e cinco séculos atrás, do que nas gregas de mesma idade. A cópia, nesses casos, passa a ser virtualmente a original. Grandes templos de madeira do Japão são réplicas de construções de mais de mil anos atrás, às vezes em escala reduzida, como o Todai-ji em Nara, que visitei no ano passado. O templo budista é do ano 743 e foi destruído várias vezes por incêndios e terremotos. O edifício atual é do século XVIII e 30% menor do que o primeiro, erigido pelo Imperador Shomu. Ainda assim, se não me engano, é a maior construção em madeira do mundo. Algumas catedrais medievais europeias, perante as quais turistas em êxtase imaginam artesãos de uma corporação de ofício a talhar, por várias gerações, seus contrafortes, arcobotantes, pináculos e nervuras da abóboda, são reproduções de poucas décadas atrás, erguidas em canteiros de obra modernos com tecnologia de ponta, por meio de guindastes, talhadeiras elétricas. São próteses de valiosos e únicos membros urbanos decepados em guerras ou terremotos. De igual modo, o copista hábil no óleo talvez opte por auxílio tecnológico para transpor as formas com precisão para a tela. Poderá imprimir a fotografia em tamanho natural, marcar os pontos de referência com absoluta exatidão, usar o conta-gotas do Photoshop para saber a dosagem aproximada de azuis, amarelos e vermelhos.

Não duvido que haja falsificações espalhadas por museus mundo afora. Serão tratadas como originais até serem desmascaradas. E há ainda obras de arte atuais em estilo antigo. Imaginemos uma tela de tema mitológico ao estilo de Ticiano, como se a alma deste tivesse possuído o pintor (não desastradamente como outros gênios incorporaram em Gasparetto), produzida em um loft de Nova Iorque ao som de Miles Davis, com o burburinho urbano vindo da janela, um copo de Jack Daniel's ao lado de bisnagas Winsor & Newton. Se tal obra fosse exposta no Louvre como um maneirista da escola de Ticiano, visitantes seriam arrebatados por aquela maravilha. Se vissem a mesma obra sendo criada no loft, talvez diriam com desdém: "mais um pastiche americano". Quem daria o Nobel de Literatura para o autor de um livro em grego antigo nos moldes da Odisseia? Embora sua habilidade devesse ser louvada, não poderíamos compará-lo a Homero, muito menos achar que suas obras têm importância equivalente.

O castelo de Neuschwanstein, no sudoeste da Baviera, é considerado por muitos o castelo mais bonito da Europa. "É um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o 'cartão postal' daquele país", lemos na Wikipedia.

Esta arquitetura fantástica é a avó do castelinho da Bela Adormecida que vemos na Disneylândia. É um pseudo-românico enfeitado, construído com mil anos de atraso por um reizinho perdulário fanático por óperas de Wagner. Chega a ser compreensível, porque durante o romantismo houve um retorno ao medievo. Mas Neuschwanstein é meramente um belo cenário, tão mentiroso quanto qualquer cenário de ópera, embora possa ser visto de ângulos internos e externos. Sua estrutura é de concreto e suas vedações de alvenaria ordinária revestida com cascas de pedra. Esqueçamos da belísima paisagem em que Neuschwanstein está inserido. Ele só está lá porque ela é bela, não porque se necessitava de um sítio seguro, estratégico, a salvo de povos hostis munidos de tochas, catapultas e aríetes. Foi construído com técnicas modernas, nunca houve um rei a comer faisões em meio a vassalos, nunca uma corte se instalou por lá, os pesados portões nunca estiveram entre sitiados e invasores, a assimetria do conjunto de torres não se explica por acréscimos que reis fizeram através dos séculos, por demanda da necessidade, que é o ingrediente de espontaneidade dos castelos medievais; nunca arqueiros estiveram protegidos detrás de suas seteiras, que não existem para compor a estética de castelinho, adotada em motéis temáticos de beira de estrada e em réplicas sofríveis como o Chateau La Cave, em Caxias do Sul, minha cidade natal. O cartão postal alemão não traduz um estilo, uma época. Quem olha aquela arquitetura eclética não imagina que foi concluída nos estertores do século XIX.

Já me disseram que a obra de arte é uma contrafação do real, que toda arte é mentirosa. Mas arquitetura não é apenas obra de arte, como quer Niemeyer, não é mentira, como a pintura e a literatura ficcional. Não posso dizer que quatro paredes e um teto são uma imitação de uma caverna. Já a arquitetura pode ser imitada, claro. Neuschwanstein e quase tudo de Gramado são mentiras sim, ainda que o primeiro seja uma estonteante e Gramado seja uma, digamos, mentira bonitinha. O enxaimel não nasceu de uma imitação da natureza ou de um ideal estético. É uma verdade estrutural. Pilares, vigas e contraventamentos de madeira são expostos em seu estado natural, enquanto as vedações são pintadas de cores claras, amiúde. Levantarem uma casa de cimento, como fazem em Gramado, para depois pintarem “x”s marrons sobre pequenos ressaltos na argamassa, pendurarem placas em alemão com caracteres góticos e atrair turistas que quase sempre pensam estar em uma autêntica pequena Alemanha, é uma mentira bem diferente do que a que vemos em romances. É fato que existem alguns poucos enxaiméis originais em Gramado e em cidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, e é certo que turistas também vão para lá pelas belezas da Serra Gaúcha, pelo clima e também pelos parques temáticos, estes explicitamente "disneylandescos".

Outros dois exemplos de arquitetura fake europeia são o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, um autêntico gótico para inglês ver, concluído em 1870 mas com cara de séc. XIII, perto do qual há até uma estátua recente do rei cruzado Ricardo Coração de Leão, e a Sacré Coeur, um belíssimo templo neo-neo-românico-bizantino para francês ver, concluído em 1914 mas com cara de séc. IX.

Quem me dera que as imitações fossem sempre harmônicas e seguissem os cânones daquilo que pretendem copiar. Na maioria das vezes são pastiches grotescos, fora de proporção. Um exemplo é o Arco do Pontão, em Brasília. O número de vãos deve ser sempre ímpar, porque pelo centro desfilará, teoricamente, algum soberano em triunfo. Mas não. Roriz não foi um grande conquistador - basta olhar para a Weslian -, e bem ao centro temos a guaritinha do guardinha. Os arcos são abatidos, provavelmente por limitação do Código de Edificações, não há espaço para respirarem, porque mal há entablamento.

Por fim, não considero a arquitetura neoclássica, de princípios do séc. XIX, cópia do greco-romano. As ordens dórica, jônica, coríntia, compósita, toscana, a limitação estrutural da pedra ou do concreto não armado a condicionar modulações de colunas e a espessura das paredes, nunca deixaram de ser realidade, desde o helenismo até o classicismo a que me refiro. Mesmo na Renascença, a sociedade como um todo fazia um retorno ao greco-romano, no espírito, nas artes plásticas, no teatro, na filosofia. E não havia multidões de turistas gassetianos que justificassem meras "disneylândias".
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