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08 fevereiro 2021

MÍDIA-LIXO

A Mídia-Lixo - doravante designada "ML" - deve, logicamente, ser comparada ao lixo convencional. Este pode ser objetos descartados ainda apropriados para uso, como sofás e cadeiras velhos, objetos cujas partes podem eventualmente ser reaproveitadas, como eletrodomésticos avariados, itens facilmente recicláveis, como latas de alumínio, caixas de papelão, sacos plásticos, garrafas, e também rejeitos orgânicos, os quais podem servir como adubo e até mesmo biogás. E há a Mídia-Resíduo-Hospitalar-Tóxico - doravante designada "MRHT" -, que deve ser comparada aos expurgos contaminados raramente recicláveis, incluindo o ameaçador Césio 137, neste caso quando, raríssimas vezes, têm alguma cor e brilho próprio. 

A ML é aquela que não pode alterar seu Nome Fantasia, do qual depende para viver, e é por isso que até hoje responde perante a opinião pública por posições políticas adotadas 50 anos atrás, é aquela cujos jornalistas são de carne e osso, que tem algo a perder e por isso não pode dar tantas largas a seu viés político-ideológico, sob risco de perder credibilidade, é aquela que pode dar muita ênfase a um lado da história, jogar holofotes sobre opiniões fruto do oportunismo ou de julgamento tendencioso, mas é obrigada a se retratar quando necessário, a citar a defesa dos acusados e réus, ao menos para dar impressão de confiabilidade, já que pretende manter seu Nome Fantasia por mais outras tantas décadas.

A ML é uma hidra de umas poucas cabeças com nome e sobrenome. Uma conquista da Civilização, é um monstro cujos tumores são dificilmente extirpáveis sem um remédio pior do que a doença. Já a MRHT é fruto de um grande efeito colateral da tecnologia, capaz de amplificar ad surditas zumbidos de pernilongos, roçar de pernas de carrapato e empódios de ácaros, e o sorver de varejeiras. Não há inseticidas disponíveis para combater seus excessos, e estes são sua essência; aqui, o câncer é o próprio sujeito; são miríades de microcéfalos em displicente trabalho involuntário de alastrar a contaminação. Cada um, quando decepado, faz eclodir um sem-número de ovinhos, sementes para cabecinhas mais ousadas, mais mendazes, mais tóxicas. Se não são combatidas, multiplicam-se de igual modo, sofrem mutações e se adaptam aos ambientes mais hostis.

A ML é citada como fonte pela MRHT, muitas vezes falsamente, para auferir credibilidade a alguma leitura oportunista que faz dos fatos, para dar peso a alguma opinião. Citar outra cabecinha não convence. E há, claro, algumas delas que são confundidas como parte da ML por transitarem na larga fronteira entre esta mídia e a outra. Através dos tempos, a ML sempre gerou desempregados, aposentadorias forçadas, ostracismo. Mas não hoje. Invariavelmente, o expurgo profissional que produz, incluindo rejeitos senis, empresta seu nome, currículo, cãs e rosto manjado para a MRHT, a qual precisa desesperadamente de alguma credibilidade semelhante à da ML. E assim nos deparamos às vezes com algum aparelho de raio-x abandonado contendo Césio 137, brilhante como purpurina, tão Lixo-hospitalar quanto pedaços descartados de um intestino extirpado, tomado por uma superbactéria. Mas muito mais perigoso.

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Caiu-me em mãos, recentemente, “O Bem e o Mal”, do português Camilo Castelo Branco. Quase não abro romances desde que saí da adolescência, mas achei que a leitura poderia ser mais leve e adequada a uns dias de férias que tirei com a família na praia do que páginas de Nietzsche ou Tocqueville.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Deparei-me com o seguinte trecho, em nosso belo idioma em sua versão oitocentista portuguesa:


A Vedeta da Liberdade, jornal portuense, publicou uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em grypho: que um estudante militar, appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, insultára. E accrescentava: O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costellas quebradas.

O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.

Casimiro leu a correspondencia em voz alta.

E Ladislau perguntou:

—Que é isso?

—É uma gazeta—disse o vigario.

—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.

—Sim.

—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?

—Isso que, meu irmão?

—Como se estampam esses insultos?

—Estampam-se.

—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?

—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.

Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:

—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!

Casimiro sorriu, e disse:

—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.



Roma: Estátua de II Pasquino, do séc. III a.C.

 

 O ódio à Mídia-Lixo é uma característica do extremismo à direita e à esquerda. É uma característica da barbárie, não da civilização.

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