25 novembro 2007

O Homem Justo na Bíblia

Na Bíblia temos 419 registros para "justo", segundo pesquisa no bibliacatolica.com.br . O primeiro homem chamado de justo é Noé. Obviamente, Adão não foi merecedor deste título. A seguir temos a discussão em torno da destruição de Sodoma, na qual Deus considera a possibilidade de poupar a cidade se houver um número suficiente de justos. Esta é uma discussão interessante e politicamente não correta, na medida em que mostra um deus interessado em uma elite de "justos" e desconsiderando o direito à vida dos demais.

Mais tarde Deus, por meio dos Dez Mandamentos entregues a Moisés, decreta ser pecado matar um justo e um inocente, ou seja, mais uma vez ignorando o direito universal à vida. A seguir temos a história do justo mais famoso da Bíblia: Jó. Nos Salmos temos uma série de promessas de retribuições de Deus àqueles que oprimirem os justos. De fato, em Salmos 140,5 lê-se: “Se o justo me bate é um favor, se me repreende é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará; porém, sob seus golpes, apenas rezarei.”

Em Provérbios, mais vez se enaltece os justos afirmando, em geral, que aquilo feito ou dito pelos justos é bom e aquilo feito ou ditos pelos ímpios é mau. Eis uma boa passagem: “As palavras dos ímpios são ciladas mortíferas, enquanto a boca dos justos os salva.” Em Eclesiastes o tom muda e critica-se a vaidade dos justos. O tom é mais "socialista": “Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.” Também encontramos neste livro (7, 16) esta curiosa admoestação: "Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te tornarias estúpido?"

Em Sabedoria retoma-se o tom elogioso aos justos e o elitismo por assim dizer. De fato, a vida eterna seria destinada apenas a esta elite: “Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.” Apesar da eternidade pertencer aos justos, eles não estão a salvo de morrer pelos pecados dos ímpios, como podemos ler em Lamentações: “Foi por causa dos pecados de seus profetas e das iniqüidades dos sacerdotes, que derramavam em seus muros o sangue dos justos.”

Ezequiel, por sua vez, se ocupa em falar dos justos que abandonaram o caminho: “E, se um justo abandonar a sua justiça, se praticar o mal e imitar todas as abominações cometidas pelo malvado, viverá ele? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer.”

Mateus já retoma uma visão mais conciliadora, socialista e antielitista: “Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.” O interessante é que em Mateus surge o inferno para os ímpios, enquanto antes eles tinham o nada. É uma nova abordagem, esta do Novo Testamento, de tentar atrair os ímpios. Acho meio populista.

Bem que eu desconfiava que estes apóstolos de Cristo eram meio esquerdistas, vejam só esta passagem: “Jesus respondeu-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.” Acaba com a idéia da elite dos bons e dos escolhidos. Se bem que uma coisa que eu detesto é aquele que se faz de justo, o fariseu, que atualizado seria o politicamente bonitinho, este é um sepulcro caiado. No Brasil, hoje, este personagem é aquele que veste uma camiseta do Che...Bem, desconfio que obsessão não esteja entre as qualidades dos justos...

Em João, por sua vez, há uma passagem interessante em que se discute o que é um homem justo: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.”

"Justo" na Bíblia pode ser entendido como "aquele que age de acordo com a vontade de Deus", seja ela qual for. Hoje, a disputa é por ser considerado justo, pois suas ações terão legitimidade. Infelizmente, o privilégio de agir é muitas vezes exercido em detrimento daqueles que sofrerão as consequências de suas ações.

Entramos em outra questão aqui. O que é agir? Segundo o Aurélio, a sua definição filosófica seria: "Processo que decorre da natureza ou da vontade de um ser, o agente, e de que resulta criação ou modificação da realidade." Boa definição, que considera como pré-requisito da ação a existência de vontade e como conseqüência a mudança da realidade. Neste sentido, existem muito poucas "ações", embora muitas sofram as conseqüências de ações alheias à sua vontade.

Caímos agora na questão karma e darma. As ações do ego geram karma. A definição psicanalítica de ego segundo o Aurélio é: "A parte mais superficial do id, a qual, modificada, por influência direta do mundo exterior, por meio dos sentidos, e, em conseqüência, tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do id." Os justos, como não agem obedecendo ao ego, estão livres do karma. Somente eles são livres, os demais são escravos dos sentidos e dos desejos. Logo, a única escolha estaria entre servir ao ego ou servir a Deus.

18 novembro 2007

O Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância

Hoje, na nossa vizinha Venezuela, temos um regime totalitário onde o partido único domina o Estado, e este a sociedade, sob a tutela de um líder carismático. Chatelet considera que o século XX marcou o surgimento dos regimes totalitários nos quais um partido domina o Estado em nome das massas. O próprio nazismo foi uma doutrina totalitária que misturava socialismo e racismo.

Com a queda da União Soviética e o colapso do socialismo real, concluiu-se equivocadamente que o liberalismo havia triunfado e que a História havia chegado ao fim. A euforia global terminou com as crises financeiras e a euforia americana no 11 de setembro. Com a incapacidade de estabilizar o Iraque, a crise da hipotecas e a expansão do socialismo na América Latina, o liberalismo entrou em depressão.

Este confronto entre o capitalismo e o socialismo, para muitos, é o confronto entre o bem e o mal. Ironicamente, em certo sentido, estas duas propostas surgiram de duas tendências cristãs. A corrente liberal funda-se no livre-arbítrio e na doutrina da salvação individual, enquanto a corrente socialista funda-se na comunidade de Cristo e da irmandade de todos em Cristo.

Um ponto comum dos discursos filosóficos, teológicos e políticos é a sua intenção de libertar o homem. Embora todos estejam de acordo no diagnóstico, ou seja, o homem é um escravo, os prognósticos variam radicalmente. O discurso político socialista considera que o homem é o seu trabalho e que a expropriação do seu trabalho pelos proprietários dos meios de produção gera a alienação. A corrente liberal, após o advento do cartesianismo e do utilitarismo, deu origem ao capitalismo e à sua estrutura impessoal e mecanicista de regulação das relações sociais. O fato é que independente da corrente da qual sejamos adeptos, a qualidade das idéias não garante o sucesso do seu propósito de libertar o homem.

Krishnamurti, em um discurso filosófico, disse: “A liberdade só nasce com o autoconhecimento, nas ocupações de cada dia, isto é, em nossas relações com as pessoas, coisas, idéias e a natureza.” Ainda segundo ele: “Dominar significa fazer uso de outrem para nossa satisfação própria, e na utilização de outra pessoa não pode haver amor.” Por fim, temos que: “Apenas o autoconhecimento pode trazer a tranqüilidade e a felicidade ao homem, porque o autoconhecimento é o começo da inteligência e da integração. A inteligência não é mero ajustamento superficial; nem cultivo da mente, aquisição de saber. Inteligência é a capacidade de compreender as coisas da vida, é a percepção dos valores corretos.”

A social-democracia conseguiu como triunfos os “welfare states” escandinavos, que infelizmente por diversas circunstâncias não puderam ter reproduzidos em outras partes do mundo estes paraísos de prosperidade e igualdade. Hoje, na aurora do século XXI, temos o liberalismo americano em crise enquanto que o totalitarismo chinês e o socialismo latino-americano avançam. Resta ao indivíduo que valoriza a liberdade estar atento porque, como diz o velho ditado: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.”

13 novembro 2007

Um Discurso de Ódio

Hoje fui com meu amigo comunista gramsciano assistir a um seminário em homenagem aos 90 anos da Revolução Russa. O lugar não poderia ser mais apropriado; o salão Nobre da Faculdade de Economia da UFRJ na Praia Vermelha. Infelizmente, o "camarada" Coutinho, um grande estudioso de Gramsci, faltou e teve de ser substituído por outros camaradas professores. Lamentável, na verdade.

Os dois fanfarrões, como diria o capitão Nascimento, passaram duas horas atacando a democracia e defendendo a violência como meio de libertar os trabalhadores da exploração da qual são vítimas. Quando desafiados por provocadores que falavam de Gramsci e o seu método de guerra de posições para ampliação da democracia, responderam que Gramsci era, antes de tudo, secretário-geral do Partido Comunista italiano e ninguém que ocupa um cargo destes é bonzinho.

De fato, eles afirmavam que a sociedade burguesa é essencialmente violenta em função da alienação do trabalho, que é apropriado pelos burgueses na forma de mais-valia. A solução proposta por eles é a substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva de forma que a mais-valia seja expropriada pela coletividade. Um fez questão de lembrar que o problema da Comuna de Paris foi que poucos burgueses foram fuzilados.

Assistindo ao professor fulano de tal falando e fumando, fiquei pensando que este discurso de ódio estava muito próximo de um discurso racista ou nazista, e ponderei até que ponto a instituição da liberdade de opinião não estaria em contradição com o próprio discurso. Talvez fosse o caso de se proibir discursos incitando à violência feitos por servidores do Estado em estabelecimentos públicos.

Sempre achei correta a visão dos generais japoneses ou alemães que se suicidavam após mandarem seus homens para a derrota. Melhor ainda, o lugar de um general é na linha de frente ao lado dos seus soldados. Nada mais covarde do que mandar outros para matar ou morrer por suas próprias neuras. Este é o diferencial de um Che Guevara, que podia ser também um assassino revolucionário mas não era um covarde que vivia às custas do sangue de outros.
O curioso é que estes professores são um resultado de uma academia onde eles próprios foram explorados por seus orientadores para produzir teses que lhes investiriam de um poder simbólico dando-lhe as credenciais de poder simbólico que lhe permitiriam passar ao pólo ativo desta relação sadomasoquista.

Pessoalmente, acredito que a violência não está na alienação mas na identificação, ou seja, não somos definidos pelo trabalho que produzimos e portanto a alienação deste não nos degrada como seres humanos. Antes de tudo, acredito que o que nos define como seres humanos é a não-identificação ou, como diria Freud, é o estado de consciência em que nosso ser não está refém de nenhuma idéia, emoção ou desejo. É um estado de consciência onde o indivíduo encontra-se integrado, agora como diria Jung, em um estado onde o ser se integra com a realidade transcendendo os próprios limites da individualidade.

Mas se vamos comemorar algo, que seja os 70 anos do golpe de Getúlio que fundou o Estado Novo. Violência por violência, fico com Getúlio, que prendeu os comunistas e integralistas que pretendiam fundar uma versão tropical do nazismo ou do comunismo soviético. Criou o Estado moderno brasileiro, a previdência social e lançou as bases da industrialização com um custo de violência baixíssimo se comparado aos comunistas e nazistas.

Acho que estas pessoas são alienadas da cultura brasileira. Não entendem que o jeitinho brasileiro e o clientelismo são poderosos anticorpos antiautoritarismo. Creio que o melhor é seguirmos o conselho de Geisel e caminharmos de forma lenta, gradual e segura em direção a uma democracia mais aberta e com instituições que suportem a liberdade dos indivíduos. Ao contrário do que dizem os marxistas, acredito que é necessário esforço para se libertar das identificações e criar um espírito de boa vontade que torne possível negociações que nos ajudem a enfrentar os problemas concretos de forma que todos ganhem ou que se possa negociar as perdas.

12 novembro 2007

A Vaia de Carmen Miranda

Assistindo a um documentário sobre a vida de Carmen Miranda, fiquei mais uma vez com a impressão de que não valorizamos o que é brasileiro, talvez devido aos governos se apropriarem de símbolos da nossa cultura para justificar o seu poder, como fez Getúlio Vargas, que usou a senhora Miranda como propaganda do regime. Desta forma, a repugnância a um regime acaba sendo transferida para um artista, herói, ou idéia apropriada por este regime.

Era um tempo diferente, onde quem cantava samba eram os negros e em que a elite ainda não era americanizada e sim afrancesada e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião. Nos EUA, a sua imagem era a de uma moça ingênua como convinha a uma mulher de então. De fato, dificilmente consegue-se ser tão inteligente em outra língua quando na sua própria, e no início ela deu entrevistas onde dizia conhecer apenas duas palavras em inglês: men e money.

Outra coisa que impressiona são pessoas suas contemporâneas hoje na casa dos 80 ou 90 anos com perfeito domínio das suas faculdades falando daquele tempo e mostrando uma boa capacidade de análise crítica e imparcialidade. Nos EUA, ela foi usada pela propaganda de guerra no esforço americano de aproximação da América Latina para uso de seus mercados e matéria-prima, daí a acusação de que ela havia se americanizado.

Na primeira vez em que voltou ao Brasil após o seu grande sucesso na Broadway, decidiu fazer um show para a alta sociedade carioca. Talvez em um esforço de aproximação, cumprimentou a platéia com um good night que foi seguido de um silêncio sepulcral, e após algumas musicas teve que se retirar do palco. O resultado era previsível, afinal a elite ainda não havia se americanizado e nunca tivera nenhuma afinidade com a cultura popular dos morros. Provavelmente, havia algo de inveja também mascarado por este desprezo.

Alguém já me disse que tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. Os judeus que o digam; o seu sucesso material tem um papel importante no ódio e inveja de que são objetos, além do fato de seus antepassados terem matado Jesus e Moisés (segundo Freud). O sucesso é difícil de se engolir até hoje, a Madonna que o diga.

Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma "classe média esforçada" mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos. Um tipo de vingança. Vejam o velho Marx, por exemplo, que antes de engravidar a sua empregada não conseguiu uma vaga de professor na sua universidade e passou a vida sendo sustentado por Engels enquanto preparava os seus petardos contra o capitalismo. A inveja é foda.

10 novembro 2007

A Reconquista do Brasil

Depois de assistir ao Tropa de Elite me dei conta de algumas questões que antes ainda não estavam claras para mim. Primeiramente, o Estado não pode tolerar que bandos de criminosos assumam o controle de partes do seu território, onde eles passem a ditar a lei. Em segundo lugar, seria melhor que uma favela fosse controlada por uma milícia da comunidade do que por traficantes de drogas ou outros criminosos.

Mas antes de falarmos disso, cabe um parêntese. Curiosamente, no ano passado, quando o alquimista começou a ganhar forca na campanha presidencial, o PCC resolveu declarar guerra à cidade de São Paulo e tivemos uma seqüência de atentados que desencadearam dezenas de mortes. Passada a eleição, as coisas serenaram em uma estranha coincidência. Será que haveria uma conexão entre o PT e o PCC para garantir a eleição de Lula?

A política de segurança publica do governo Lula, por sua vez, é absolutamente maniqueísta. No início do primeiro mandato, tentaram mandar aquela de proibir a venda de armas de fogo. Os argumentos eram ridículos, afinal, é estatisticamente 100 vezes mais perigoso para uma criança viver em uma casa com uma piscina do que com uma arma de fogo, além do que a banda podre da polícia desempenha um papel muito mais relevante em armar os criminosos do que eventuais armas obtidas em assaltos a residências. Pessoalmente, creio que eles queriam desarmar a classe média e deixar os proprietários rurais à mercê do MST.

Mas voltemos às questões que ensejaram este artigo. Outro dia discutia com um amigo marxista como Arrighi e sua teoria do capitalismo e territorialismo haviam sido um avanço na teoria marxista, que não levava em sua devida consideração a questão do estado-nação. Para Arrighi, em uma perspectiva braudeliana de longa duração, o binômio capitalismo-territorialismo era uma abordagem com grande poder explicativo no contexto do longo século XX e a evolução do capitalismo. Resumidamente, Arrighi acredita que a parceria estado-nacional e capitalismo seria a fórmula histórica mais bem sucedida até o momento.

Argumentava eu com ele que Arrighi concordaria que nenhum estado pode se dar ao luxo de perder o controle sobre a essência do seu poder, o controle do seu território. Lugares onde o estado-nação não conseguiu se firmar são caóticos e miseráveis como a África ou os Bálcãs, onde os recortes territorias coloniais e históricos não acompanharam as culturas, daí seus estados serem instáveis por serem constituídos de varias nacionalidades ou tribos.

A meu ver, um traficante, ou um bando armado que queira assumir o controle de uma "comunidade" está declarando guerra ao estado-nação brasileiro. Em uma guerra, os agentes do estado têm a famosa autorização para matar e até recebem condecorações por isto. Esta seria uma maneira de se ver esta situação, ou seja, quer traficar droga, ok, sofre as penas da lei, mas se quiser assumir o controle de uma parte do território nacional então isto deveria ser um problema de segurança nacional. E, sendo este o caso, se deveria mandar o BOPE, as Forcas Especiais do Exercito, os Fuzileiros Navais para reconquistar o território brasileiro ameaçado e libertar os cidadãos sob o jugo dos tais criminosos. E não esqueçamos que a Convenção de Genebra só vale para guerra entre estados; portanto, ...

Alguém pode dizer que isto é terrorismo de Estado e eu responderia que não. Terrorismo de Estado é o que esta ocorrendo na Venezuela, onde os opositores do regime são alvejados por atiradores quando se manifestam pelas ruas e quando hordas de simpatizantes do governo atacam grupos da oposição impunemente. Isto é terrorismo de Estado. O que ora se propõe é apenas a libertação de cidadãos brasileiros vivendo no Brasil sob o jugo de grupos armados.

06 novembro 2007

1º Aniversário do Pugnacitas

Perdoem-me por este "metapost", porque é uma brutal de uma falta de assunto postar sobre posts, blogs - principalmente sobre o próprio -, blogueiros, comentários e comentaristas. Talvez faça um novo balanço em 06/11/2008, desde que até lá as orações de alguns crentes não sejam atendidas e assim os membros deste blog sobrevivam à providência divina.

As discussões sobre religião começaram há bem mais de um ano, após eu ter aberto em minha caixa postal um e-mail de meu irmão contendo uma frase de Padre Pio de Pietrelcina - um embusteiro estigmatizado (vejam este esclarecedor vídeo) que passou desta para lugar nenhum em 1968 e que virou constelação por obra do canonizador serial João Paulo II - em que afirma que uma única Missa agrada mais a Deus do que todas boas ações realizadas por todos os justos do mundo em todos os tempos. A bizantina asserção, não menos absurda do que dizer que de todos os planetas cúbicos do Sistema Solar o mais cônico é o Sol, relaciona-se à crença em que cada Missa celebrada por qualquer padreco pedófilo é literalmente Jesus a sacrificar-se movido pelo mesmo amor infinito de 1974 anos atrás.

As discussões sobre política iniciaram-se com a última campanha presidencial. Eu e o Heitor pensamos então em criar um blog onde pudéssemos organizar os textos que enviávamos por e-mail e principalmente os comentários que se seguiam, sempre perdidos, desordenados.

Um numerólogo diria que escolhemos a data 06/11/2006 porque resulta no cabalístico número sete, que é o casamento do número espiritual, o três, com o número material, o quatro; um hagiólogo diria que escolhemos pelo dia onanístico, digo, onomástico do Beato Nuno Álvares Pereira, nobre guerreiro português que tinha na invicta lâmina de sua espada gravado o nome de Maria (alguns ainda têm por hábito tatuar, digo, gravar o nome da amada na espada...), e de cuja filha originou-se a Casa de Bragança, posta para correr do Brasil por ocasião da quartelada que fundou a Resnulius, digo, a República.

Nada disso! No nosso Gênesis não há o número sete e tampouco divinos condestáveis portugueses. Cheguei em meu escritório em uma segunda-feira que por acaso era seis de novembro, deambulei por alguns sites para não sofrer uma comoção, um choque por já ir assim de cara trabalhando na segunda de manhã, e me deparei com um texto de Reinaldo Azevedo intitulado "Sunga, decoro, Mann e Musil", em cujas linhas lemos que as praias são lugares indecorosos, que é degradante a intimidade de ver a própria esposa escovando os dentes e que "os homens só existem para que, ao fim da vida, possam honrar seus pais". Comentei em seu blog que a vulgaridade não reside no tamanho das peças de roupa, que o comunismo, enquanto parcialmente oculto pela cortina de ferro, causava suspiros por aqui - como a noiva sob um véu que em um episódio do cartoon Pica-pau subia ao altar com o Abutre para na hora do beijo se revelar uma mocréia repulsiva - e que apenas cegos com sinusite (ideológicos) dele continuam enamorados. Comentei ainda que achava um absurdo o homem existir para honrar os pais, porque se assim fosse ainda apedrejaríamos adúlteras e teríamos escravos, entre outras críticas. E não é que para minha surpresa ele (ou sua equipe) moderou minha mui sincera e inofensiva opinião? Acabei criando o Eneadáctilo naquele mesmo dia para publicar meus comentários vetados por asnos tão sensíveis quanto desonestos. E o Eneadáctilo acabou se tornando o blog que já planejávamos criar.

O Heitor opinou que "Eneadáctilo" (nove dedos) era "um pouco agressivo, além de ser uma homenagem a alguém que não merece". E foi aí que surgiu o Pugnacitas, "desejo de lutar" em latim. Para amenizar o significado, usamos como ícone uma pena, sugerindo que as lutas resultariam no máximo em brutais derramamentos de tinta virtual. E não foi diferente: Blogildo, Eleitor, Patrícia M e Luisete saíram amuados por causa de nosso jeito pouco amistoso de pelejar, principalmente por estarem de alguma forma presos a ideologias e por aqui elas serem severamente atacadas, Clarissa e Lord of Erewhon saíram decepcionados pelas acusações do diabrete O+cioso de que eram a mesma pessoa, acusações as quais acabamos também por comprar, Mostardinha sumiu da blogosfera, e por fim o próprio C. Mouro escafedeu-se batendo a poeira dos sapatos e sugerindo que fungássemos uns os traseiros dos outros. O sebastianismo gerado pela saída do Mouro só se aplacará após o advento de um outro cavaleiro misterioso e sanguinário como ele, o que é bastante improvável. De fato, o verdadeiro mestre manda os discípulos para aquele lugar quando julga não ter muito mais a ensinar. Ou quando o saco pesa. Ou quando está com problemas em casa e no trabalho pelo excesso de tempo gasto em blogs de fedelhos com a metade de sua idade.

A Simone abandonou o time há pouco tempo em virtude de excesso de trabalho e das demandas do mestrado. E o nobre André Balsalobre, que já comentava assiduamente no blog desde dezembro de 2006, é agora um dos membros, um dos bons, como diria nosso Dom Sebastião. Já convidei o Bocage mas ele prefere colar textos alheios em seu blog a escrever eventualmente um post por aqui :). Pelo jeito o tempo tem sido escasso para todos. Eu mesmo tenho postado pouco e pouco visitado outros blogs.

Quero agradecer a todos os visitantes e comentaristas pela alegria que nos têm dado, mesmo quando nos mandam para a PQP, quando nos metem apelidos, mesmo quando tampam os ouvidos e berram "lá lá lá lá" durante nossas argumentações. Obrigado Eduardo Silva, C. Mouro, David, Ricardo Rayol, Bocage, Roberto Eifler, Orlando Tambosi, Anselmo Heidrich, Marcos Ferrari, a_maggiore@hotmail.com,, Luisete, Blogildo, Patrícia, Clarissa, Lord e Klatuu, Helder Sanches, Pedro Couto, Mostardinha, Holy Father, Ed, Susy Tude, André Wernner, Sônia, Alex, CostaJr, Roça, Ielpo, Glênio Gangorra, O+dioso, Anônimos, Anonymous e outros dos quais não me recordo, pelo quê peço desculpas.

Vamos aos números.

O blog foi um sucesso até agora. Poucos posts mas muitos comentários, o que faz dele mais um fórum do que um blog. Foram 77 artigos; 47 do Heitor, 21 meus, 4 do André, 3 textos antigos cedidos pelo C. Mouro, 1 da Simone e 1 cedido pela Clarissa Septimus.

- Mais de 25000 visitas, aprox. 70/dia
- Mais de 15000 visitantes únicos, aprox. 40/dia
- Mais de 36000 exibições, aprox. 100/dia
- Dia com maior número de acessos: 1º de outubro, durante o post Divagação Erudita, e 24 de outubro, durante o post Oportunidades: 165 visitas.

- Países com maior número de visitantes: Brasil, Portugal e EUA

- Post arquivado mais acessado: Deuses e Pecados Capitais, aprox. 1700 vezes

- Total de comentários: 3885, aprox. 50/post e 10/dia
- Post mais comentado: A TV do Lula, com 176 comentários.

Se formatarmos o conteúdo da caixa de comentários do post A TV do Lula para Times New Roman tamanho 12 e projetarmos grosseiramente o resultado para o conjunto dos posts obteremos mais de 2000 páginas de textos. Apesar das repetições, links, artigos alheios colados, citações de outros comentários, etc., acho que seria possível extrair do Pugnacitas um bom e original livro escrito a trinta mãos. Parabéns a todos!

Um grande abraço!

03 novembro 2007

Faço porque posso

Por que o Chávez aprovou a reeleição sem limites na Constituição da sua Revolução socialista? Simplesmente porque ele pôde. Como disse Lord Acton, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Espero que isto nos sirva de lição e nos incentive a valorizar a democracia como uma instituição que dificulta que uma pessoa ou grupo detenha mais poder do que seria conveniente.

Infelizmente, as nossas raízes lusas são autoritárias. Em algum lugar do nosso inconsciente ainda esperamos o retorno do jovem D. Sebastião, o rei português que morreu em Alcácer-Quibir, no norte da África, uma batalha sem significado algum estratégico ou comercial, e cujo corpo jamais seria recuperado.

A perda foi um trauma para Portugal. Com a sua morte terminava a dinastia de Avis, que transformara Portugal na maior potência da Europa de então. Sem deixar herdeiros, Portugal viria a ser governado pela Espanha dos Habsburgos.

Poucos sabem, mas grande parte da Invencível Armada com a qual Felipe II atacou Elizabeth I da Inglaterra era portuguesa. A perda da sua armada foi um golpe fatal para um reino cujas possessões estavam espalhadas pelo mundo. Era o inicio de uma longa decadência, que teve na crescente dependência em relação ao poderio marítimo inglês uma faceta. Portugal dependia dos navios ingleses para conectar suas colônias e, talvez com mais urgência, para colocar as pretensões espanholas de reconquista de Portugal em cheque.

Para o populacho surgia o sebastianismo, um misto de saudade e de messianismo, que colocava as esperanças de uma vida melhor nas mãos de um rei que retornaria glorioso do Hades para devolver a Portugal o seu lugar entre as grandes nações. Nós herdamos este mito autoritário de alguém que, investido de todo o poder, faria o bem.

O problema, amigos, é que somos apenas homens, imperfeitos por natureza e, infelizmente, o “poder” não torna ninguém melhor. Muito pelo contrario, alimenta a vaidade e o narcisismo que geralmente se encontram em grande quantidade naqueles que buscam o poder absoluto e revolucionário.

Na minha limitada experiência, conheci alguns homens “excelentes” que talvez devessem ser nossos líderes. O curioso é que estes homens não desejam o poder. A sua realização não está em receber o delirante aplauso dos outros seres humanos. Talvez estes homens tenham a prudência de, mesmo podendo, não desejar a adulação dos outros, para o seu próprio bem.

De fato, acredito que este desejo, esta esperança no aparecimento de um líder autoritário que resolva todos os problemas, esconde uma preguiça doentia. É uma tentação para os fracos encontrar alguém cujo carisma prometa coisas pelas quais não precisarão se esforçar. Mais do que isto, alguém que se proponha a pensar por eles, a lhes mostrar o caminho. Alguém disposto a lhes dizer que não têm culpa de nada, que são vítimas de um passado de exploração. Infelizmente, para muitas pessoas, é melhor ser manipulado do que ter de assumir responsabilidade pela própria vida e pelo seu destino.

28 outubro 2007

Delenda est Aécio

Quem assiste ao Tarso Genro falando em refundação do PT, busca das raízes éticas e antagonizando com o grupo de José Dirceu, até fica em duvida se isto não seria algo mais do que uma tentativa de retomar um discurso de ética perdido. Quem lembra que Luciana Genro, uma das fundadoras do PSOL e uma jovem líder da esquerda radical, é sua filha até pensa que aquele radicalismo possa ter sido herdado do pai.

Infelizmente, o alto comissário do PT, o Tarso Beria, como costuma aparecer no Ex-Blog do César Maia, foi esta semana ao principado de Mônaco resgatar o Cacciola para poder jogar lama no PSDB. Sim, o ministro da Justiça foi a Mônaco para dar ao PT uma carta no seu jogo político contra o seu maior adversário, o PSDB. Quem sabe até na CPMF.

Em governos anteriores, o cargo de ministro da Justiça geralmente pertencia a alguém que viria a ser ministro do Supremo e que anteriormente tivera uma carreira de destaque como jurista, enfim, alguém respeitado no meio jurídico e com uma reputação ilibada. Hoje, temos um membro da Executiva do PT comandando o ministério ao qual se subordina a Policia Federal.

Considerando o precedente da operação deflagrada contra a Sarneyzinha no governo FHC por meio da Policia Federal, o que podemos esperar na sucessão de 2010? Lê-se no Ex-Blog do César Maia que já está em curso uma operação para destruir o Aécio Neves, que recentemente andou pegando a Miss Brasil.

Aécio Neves tem uma imagem curiosa. Conversando com um amigo mineiro, ele me diz que o Aécio é um filho da puta mas seu governo é extremamente eficaz e os seus secretários são todos profissionais de alto nível. Então, por que ele é um filho da puta? Talvez porque ele esteja solteiro e quase todo final de semana vai ao Rio participar de festas da high society.

Não podemos nos esquecer que antes da chegada do Tarso a cúpula da PF desempenhou um papel importante na reeleição do Lula ao afastar o delegado que apreendeu os petistas que tentavam comprar o dossiê contra o Serra e ao tentar proibir a divulgação de fotos do dinheiro apreendido. De fato, poucos meses depois o único interessado em prejudicar o Serra, o senador Mercadante foi “inocentado” e todos se satisfizeram com a demissão do seu assessor que tinha alguns milhões sobrando para pagar pelo dossiê.

Recentemente, já na gestão Tarso, dois lutadores cubanos foram rapidamente deportados para Cuba em uma operação da PF que contou até com jatinho fretado por Chávez. Curioso, não? Uma ação da PF em articulação com Cuba e com a Venezuela? Já sabemos que o compromisso do PT com a democracia liberal é muito tênue: lista-fechada e supremacia da ”nomenklatura” sobre a bancada, “Conselho de Ética dos Jornalistas”, defesa do fim do Senado e do centralismo versus federalismo, compra de votos no Congresso versus debate temático, compra de votos com o bolsa família, ataques à imprensa não alinhada com o governo,... Resta saber até onde eles estão dispostos a ir para garantir que em 2010 o sucessor de Lula esteja ligado ao campo da esquerda.

24 outubro 2007

Oportunidades

A oportunidade faz o furto. Qualquer nação, povo ou líder nasce ladrão. Sem falar nas muitas instituições. O sofrido (e ambíguo) anti-imperialista egípcio Gamal Abdel Nasser era, afinal, um descendente dos faraós. Até o nosso Brasilzinho incruento deu uma de realpolitik pra cima do Paraguai no Século XIX. Liquidamos quase todos os paraguaios homens, numa guerra cuja história ainda não foi satisfatoriamente contada, talvez. O curioso é que os dois maiores imperialismos dos Séc. XX, o dos EUA e o da URSS, nasceram de revoluções anti-imperialistas. O círculo e ciclo vicioso perfeitos.

Os EUA reagiram hostilmente à luta pela independência no Brasil. O próprio Jefferson esnobava nossa gente. Ah, e também houve a metamorfose da Revolução Francesa no imperialismo napoleônico, mas esse durou pouco. "As coisas devem mudar para continuarem como estão", diz Tancredi em Il Gattopardo, de Lampedusa (ilustração). Enfim, o revolucionário de hoje é o reacionário de amanhã: isso é meio verdadeiro, mas simplista, porque há muito mais por trás disso tudo.

O zé-povinho está por fora das sutis modulações do pensamento histórico. Hoje visto como imperialista, Israel era o paradigma da justiça e da virtude lá no começo. E se considera superior aos demais países, como todos os outros. O patriotismo não é só o último refúgio dos velhacos. O autor da frase, Samuel Johnson, sabia muito bem da força do condicionamento cultural, da língua, costumes, amibente, etc, sobre o indivíduo. Transferida essa força para o coletivismo da nação, da “raça”, do povo, temos os nacionalismos.

Às vezes me parece que quanto mais sofrido o grupo humano, mais paranóico. Quase todo brasileiro alfabetizado sabe que não passamos de uma Ruanda com elefantíase, mas no que fazemos bem (ou achamos que fazemos), futebol e carnaval, por exemplo, entregamo-nos a uma arrogância e insolência incríveis. Essa explosão tribal quando a Seleção ganha uma Copa poderia, em outras circunstâncias, ter sido recondicionada, digamos, para esmagar o Uruguai, a Argentina ou a Guiana Holandesa — e com todo mundo se achando do lado do “bem”. Qualquer superpatriota, seja americano, russo, chinês, israelense, árabe, nigeriano, etc, tem sempre explicações cartesianas para os atos do seu país. Não admite, em termos de nação, o irracionalismo que experimenta em si próprio. Idiota, mas verdadeiro.

Quem pode, quando pode, destrói e reprime enquanto der. Por exemplo, no último século, enquanto os comunistas matavam, os católicos se limitavam a nos condenar ao fogo eterno (e, no episódio do Holocausto, quando poderiam ter feito algo de bom, salvando muita gente, preferiram se omitir — ao menos a cúpula, no Vaticano). Uns estavam aproveitando a oportunidade, outros já haviam perdido a sua. Mas há outras formas de repressão ainda bastante ativas. Até hoje as várias Igrejas exercitam, ainda que sutilmente em muitos casos, uma certa repressão à liberdade sexual. O indivíduo com domínio e expressão de suas sensações escapa à engrenagem. A construção de todos os sistemas políticos e religiosos foi marcada pelo moralismo. O ódio entranhado de São Paulo ao sexo tinha relação com a repulsa necessária ao free for all do paganismo. Freud percebeu coisas assim, mas aceitou tudo fatalisticamente, como imprescindível ao progresso, embora considerasse impossível transformar nosso cerne biológico. Somos um animal domesticado, mas indomesticável, no fundo. Desse choque vem a nossa patologia psíquica. Uma das premissas da tradição judaico-cristã é a de que temos de ser aperfeiçoados para um destino autotranscendente, superior, ad majorem Dei gloriam. A mística da perfeição.

Prefiro a mística da imperfeição do homem, antes da conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo. Os gregos e romanos pregavam a imperfectibilidade do homem como condição permanente, a ser dosada por melhorias, devagar, aos poucos e com realismo. Aristóteles, principalmente. Tomás de Aquino batizou-o, postumamente, mas extraiu muito do que havia de mais sadio. Se Freud tinha razão ao dizer que os judeus assassinaram Moisés no deserto, por não agüentarem mais a tirania salvacionista do líder, estes fizeram muito bem. Em certos momentos históricos, o lema devagar e sempre merece os nossos mais altos protestos de estima e consideração.

20 outubro 2007

A Vocação Estatizante

Um dia desses eu jantava com um grupo de professores de faculdades particulares e um dos assuntos era o desempenho de seus ex-alunos em concursos públicos. Um dos professores arregalou os olhos surpreso diante das notícias enquanto o outro aproveitou a oportunidade para ressalvar que se suas faculdades eram ruins o resto dos cursos não era melhor. Um outro aproveitou a chance para enfatizar como são mercenários os donos destas fábricas de diploma e começou a elencar as piores faculdades.

Um jovem esquerdopata aproveitou para lembrar que estas faculdades haviam sido criadas na gestão do Paulo Renato, no governo FHC, que pretendia privatizar as universidades públicas. Os tempos mudaram, como sempre mudam, e o maléfico FHC está dando aula na Brown University enquanto o Lulinha Paz e Amor está no poder a aplicar sua filosofia de gestão baseada em contratações maciças de servidores públicos.

Será que os pobres alunos são vítimas proletárias dos inescrupulosos capitalistas do ensino? Afinal, se o curso é fraco e o currículo dos alunos egressos destas arapucas vai para o lixo na primeira peneirada de uma seleção de uma empresa qualquer, então o que está acontecendo?

O fato é que os pobres aluninhos querem um diploma de nível superior para fazer concurso público e poder se tornar um típico membro da burguesia de Estado, e muitos deles vivem camuflados em um discurso de esquerda que mascara e justifica a escolha do seu estilo de vida acomodado aos privilégios do Estado.

É uma tragédia para a nossa sociedade. Uma parte considerável da inteligência brasileira, cerca de 5 milhões de pessoas, está mobilizada em aprender coisas inúteis (direito administrativo, código disso e daquilo) para conseguir um emprego no qual, na maioria das vezes, se terá uma baixa produtividade. De fato, há órgãos na administração que funcionam em meio expediente e setores inteiros cuja ação é inteiramente ineficaz.

O Estado neste caso funciona como um transferidor de riqueza, como diria o Eduardo Gianetti, recolhe impostos de pessoas que trabalham de 40 a 60 horas por semana e transfere para pessoas que trabalham 35 horas e ganham salários muitas vezes 2 a 3 vezes maiores com uma produtividade muito menor. Ou seja, o Estado transfere o escasso capital social para investimentos de baixo retorno social à custa de onerar a produção e inviabilizar inúmeros investimentos.

Apesar dos seus muitos erros, FHC percebeu este terrível desvio da nossa sociedade viciada no Estado. Para os pobres, temos a promessa das bolsas. Para a classe média temos a promessa dos bons empregos. Para os ricos temos a promessa de linhas de financiamento e benefícios especiais.

Falta apenas alguém que se disponha a mentir para todos e agenciar as trocas de favores. Alguém que cobre impostos dos ricos e da classe média em troca dos empregos e favores que dispõe. Alguém que dê bolsas para os pobres em troca de votos. Alguém que conceda benefícios para os empresários em troca de financiamento para as campanhas políticas. Aí entra o Lula e seus companheiros com a sua disposição em dar bolsas para os pobres, empregos seguros para a classe média e favores e PACs para os ricos.

Com isto, todos se deixam enganar e a maioria fica acomodada. Muitos pobres acomodam-se com suas bolsas, uma grande parte da classe média acomoda-se com os seus empregos públicos e muitos ricos acomodam-se com os seus benefícios. E para a tranqüilidade de todos ainda teremos alguns acadêmicos marxistas que dirão que a culpa de nossas mazelas é da exploração do nosso povo pelos terríveis capitalistas americanos, que receberão toda a culpa.

15 outubro 2007

"01, manda subir!"

"Vai ficar todo mundo quietinho aí! Todo mundo quietinho! Ninguém sobe!" (Capitão Nascimento, o novo herói por vias tortas nacional, para um grupo de PMs na subida do morro)

E não sobem mesmo. Podem até resmungar, mas PMs comuns não sobem o morro junto com o BOPE.

Na abertura, uma citação que diz mais ou menos o seguinte: não é o caráter que determina as condições de um homem, mas, sim, o contexto social em que ele vive. Mais ou menos isso. Muita gente não deve ter gostado. Para mim, por mais forte e bem construído o caráter, o meio às vezes pode passar por cima dele e virar tudo do avesso. Não é fatalismo, mas fatalidades acontecem, e nem por isso o raciocínio geral precisa ser fatalista. Isso exige a compreensão de certas nuances, claro. Quem vê e lê as coisas nas entrelinhas as pega, as nuances, sem problema.

Excelente história (a gente sai com gostinho de quero mais, pena que dificilmente venham a fazer uma seqüência), boas seqüências de ação e táticas de combate assustadoras. Esperava ver mais cenas assim, se bem que os ataques furtivos dos caras são show...

Cruzaram bem as vidas, os “destinos”, pra quem acredita nessas coisas, do Capitão Nascimento e dos dois “aspiras”, jovens e inexperientes, mas íntegros, PMs. Aliás, dois atores ótimos.

Violento, porém sabendo que não apareceu o pior. Quase chegou lá. Nem poderiam mesmo mostrar certas coisas que as polícias do Rio e de São Paulo fazem. Talvez o livro conte mais.

Sobre a violência do treinamento. Alguma violência funciona e é necessária, só que nem todos os grupos de elite fazem assim. Muitos não fazem absolutamente nada disso, nem pensar. Em muitos deles o treinamento em si é tão massacrante que simplesmente não há necessidade de espancamento e humilhações. Claro que isso varia muito de país para país, mas não é a norma, por exemplo, no Special Air Service, o SAS inglês. Mas é — a brutalidade — nos Spetsnaz russos. Depende. A mim me parece uma questão cultural, de cultura militar, de tradições guerreiras, chamem como quiserem.

Não estou querendo sugerir que os britânicos sejam um “doce”, enquanto os russos são, bem, os russos. Antes muito pelo contrário... Mas um treinamento não precisa de violência, física ou psicológica, para ser cruel. Sempre há outros meios. Poderia citar outras unidades de elite menos conhecidas e seus métodos, mas a lista é longa, vamos ficar por aqui. O que interessa é que o treinamento desses caras é ainda mais pesado e diversificado, mais voltado para resistência e sobrevivência, além de coleta de informações/espionagem, assassinato, seqüestros, atentados, demolições, reconhecimento, guerra convencional e irregular, enfim, tudo. Diferente do BOPE do Rio, sem dúvida.

O que não quer dizer que o BOPE seja inferior. Fazem intercâmbio com alguns grupos estrangeiros até. Mas estamos falando de guerrilha urbana, de polícias de elite, nada a ver com grupos militares de elite. No entanto, em matéria de infiltração e furtividade, surpresa, o BOPE é dez. Por outro lado, treina unidades militares estrangeiras, nesses particulares, nesse ambiente, não só forças policiais de fora. Eis a grande diferença. Além do que, no Brasil há outros grupos assim, policiais e militares, nunca sequer mencionados. Bem, o BOPE existe desde 1978, a guerra nos morros do Rio é antiga e ele só ficou famoso agora, não?

Eles chegam a escalar paredões, encostas, cientes de que os traficantes não esperam um ataque naquela direção. Acho que dá pra ver isso numa cena. Tudo para não perder o elemento surpresa. Acredito no oficial do grupo que, sob anonimato, disse que há muito mais que não foi mostrado no filme. E imagino que não foram só técnicas de tortura, mas de combate, de guerra, que ficaram de fora. Ainda assim, o que foi mostrado é bem legal: táticas de assalto silenciosas, rápidas, letais e, claro, o tiro de precisão dos snipers.

Destaque para a cena em que pegam um traficante, que pede para não ser “finalizado” com um tiro no rosto, para sair bem no enterro. O oficial do BOPE não só ignora o pedido como pega um rifle de repetição calibre 12, antes de passar essa execução para um colega. Não poderia haver estrago maior do que o causado por essa arma...

Mas não é só tiros, não. Expõe a corrupção generalizada e arrasa com a classe média e média alta. O melhor, a meu ver.

Sabem, não tenho raiva nem (muita, he, he) inveja de um Luciano Huck, digamos - esse membro da "elite branca" atacado pela própria, bem como por supostos representantes dos "excluídos" (não existem mais pobres, sabiam?) depois daquela entrevista, do roubo do Rolex. Independente do que cada um pense dele, razão ele tem em ficar com medo e revoltado. E a gente em ficar preocupado. Afinal, isso pode acontecer com qualquer um de nós. Não sei, por exemplo, se o Luciano Huck realmente faz o que diz que faz pelas crianças carentes, com tanta dedicação, por meio de uma ONG numa favela. Imagino que sim, que faça. Bom, não acho que essa seja a questão, nem vou entrar nesse assunto agora.

O fato é que parte dessa elite retratada no filme — só se for elite do ponto de vista da renda, porque intelectualmente é uma negação — realmente é de dar nos nervos.

A parte da discussão universitária parece meio artificial, ensaiadinha demais, mas me lembrou tanto de certas aulas na faculdade... Aqueles universitários de direito fazendo o trabalhinho sobre Foucault. Ah, eu passei por isso. Repetidas vezes. Com 98% de semelhança. Tive que ler essa joça, entre outras. Os coleguinhas, quase todos exatamente como aqueles, tolos, alienados e, também quase todos, consciente ou inconscientemente, de esquerda ou “libertários contestadores do sistema”. Do livrinho chatóide do Foucault, aquele picareta “pós-moderno” francês, entrávamos nas lições de filosofia (risos) de Marilena Chauí. Li, voando, como um médium psicografando textos do Além, muitas piroquetagens modernosas importadas de Paris e da Alemanha. E o discurso em academês do professor? Perfeito.

Só faltou o BOPE entrar em sala de aula. Aquela linguagem seca, o “01, manda descer!”, dentro da faculdade, já pensou?

Dentro disso tudo, a melhor frase foi a do policial para a ex-namorada: "Não se preocupe com seus amigos seqüestrados: os traficantes têm consciência social." Não tinham, lógico, e deu no que deu.

Depois de salvar dois PMs encurralados num morro, o Capitão Nascimento olha para eles e pergunta: “Os Srs. estão feridos? Os Srs. são policiais? Pois agora os Srs. vão aprender a carregar corpo.” Pois é: ou você se corrompe ou finge que não é com você ou entra na guerra.

13 outubro 2007

Vítimas e Vilões

Um dia desses, li surpreso uma carta de Clara Becker publicada no UOL defendendo a honra e a integridade de José Dirceu. Esta senhora é a famosa esposa que ele teve no período em que viveu escondido no Brasil e que, segundo conta a lenda, havia sido abandonada por ele. Ela nega este fato e defende o pai do seu filho, atual prefeito da sua cidade.


A motivação para escrever a carta foi o seu repúdio à invasão da sua privacidade pelo autor de novelas da TV Globo, Aguinaldo Silva, que disse ter se inspirado em José Dirceu e em sua famosa plástica para compor o personagem da novela Duas Caras. Eu diria que este é um ônus por ter sido casada com José Dirceu e ser mãe de um jovem que é seu herdeiro político.

Em certo sentido, para as famílias de uma esquerda brasileira, suas biografias são uma herança que deixarão para seus filhos, que poderão ocupar importantes posições no partido e na vida pública. Uma breve relação de filhos e netos herdeiros das biografias da esquerda começa pelos Genro, Ponte, Arraes e muitos outros.

Uma das melhores coisas do fim da ditadura foi o fim desta relação de vilão e vítima entre direita e esquerda. Hoje, os esquerdistas não são mais aqueles jovens coitadinhos perseguidos pelos militares. Foi-se o tempo da esquerda como vítima. Muitos deles já passaram há algum tempo para o papel de vilões e não têm sequer capacidade para perceber isto. Afinal, eles são como todo mundo e seguem a velha máxima: “democracia é quando eu estou no poder e ditadura é quando eu estou na oposição”.

Será que o Aguinaldo Silva não poderia se inspirar na vida de José Dirceu? Ou será que a Veja não poderia fazer uma reportagem sobre as incoerências entre o idealista romântico Che Guevara e o guerrilheiro pragmático que fazia o que era necessário para assegurar a vitória? Nestas questões, ainda sinto presente na esquerda um ranço de vítima que me parece incompatível com a realidade em que eles são o grupo hegemônico que controla o governo.

Talvez seja intrínseco ao discurso da esquerda o discurso de vítima. É o discurso dos oprimidos e dos desfavorecidos. Acho que mesmo quando eles dominam a cena política eles não conseguem nem querem mudar o discurso de vítima pois ele tem os seus benefícios; mantém um clima de ameaça constante, denuncia o "vilão" sempre a postos, armado e perigoso, e neste "embate" "desvantajoso" no qual posam de fracos arranjam as justificativas para todas suas atitudes e resposta para todas as críticas que recebem. Lula, o vitorioso de duas eleições presidenciais continua sendo a vítima da perseguição dos veículos de comunicação da mídia burguesa que tenta implantar uma ditadura da mídia no Brasil.


Muitos se surpreendem com a alteração dos livros de história da Venezuela ou dos livros comprados pelo Ministério da Educação no Brasil. Não deveria haver surpresa pois os vitoriosos escrevem a história e decidem quem são os vilões e os mocinhos. Para uns, Mao foi um sociopata enquanto que para um petista ordinário ele é o libertador dos chineses.

Vejo nisto traços de totalitarismo. Um vencedor que usa um discurso de vítima. Um partido do governo que quer ocupar o espaço da oposição. Um governo que não quer ser criticado. E homens e mulheres fiéis ao governo cujas práticas se explicam apenas pelo plano de manter o seu grupo no poder custe o que custar.


06 outubro 2007

Tropa de Elite

Amigos, Inimigos e Desconhecidos leitores do Pugnacitas, acabei de assistir a Tropa de Elite, o filme que está na capa da revista esquerdista e governista Carta Capital e simplesmente adorei. Tornou-se absolutamente imperativo uma edição especial do Pugnacitas. Quem nunca olhou para aquelas manifestações de maconheiros pacificistas vestidos de branco e não teve vontade de entrar numa delas distribuindo porrada naqueles hipócritas que financiam o tráfico de drogas?


O Wagner Moura é o melhor ator desta geração. A atuação dele no papel do capitão do BOPE dividido entre a família e o dever é genial. O retrato do Rio de Janeiro é absolutamente fidedigno. A corrupção presente nas menores coisas do dia a dia. O clientelismo que vem desde a Corte Imperial. As panelinhas e o mercado de troca de favores. Para os amigos, os favores, para os inimigos a lei.

Quem conhece o Rio de Janeiro sabe do seu baixíssimo nível de civilidade. Andando pelas ruas, quando se cruza com grupos de pessoas elas não abrem passagem, pelo contrário, quase passam por cima da gente. Mulheres com carrinhos de bebê são como ambulâncias para os pedestres, vão abrindo caminho. Em ambientes AA como clubes de montaria, não deixe o seu jornal desacompanhado pois poderá ser roubado por uma madame.

Meus amigos esquerdistas fãs de José Dirceu consideram a corrupção a suprema arma revolucionária. Para eles, Tropa de Elite é um filme reacionário, pró-tortura e contra os direitos humanos. Eles vêem a corrupção como a prova da inviabilidade da sociedade aberta, individualista e da democracia liberal. Nestas horas, eles se esquecem das tríades chinesas, das máfias russa e cubana, mas tudo bem.

Quando aquela criança de cinco anos foi arrastada por um grupo de criminosos menores de idade no Rio de Janeiro por algumas dezenas de metros durante o roubo do carro em que se encontrava eu não me esqueço das baboseiras ditas pelo Lula, que aquilo era um problema social e que a redução da maioridade penal não teria o apoio do PT. Isto foi bem enfatizado no Senado por Mercadante, que conseguiu enterrar a iniciativa dos Democratas de reduzir a maioridade penal para 16 anos.

Falando em esquerdistas, quem poderia se esquecer de Brizola, um dos mais espirituosos oradores que já vi, que era casado com a irmã de João Goulart? A partir dele, o Estado no Rio de Janeiro perdeu o controle das favelas com a sua política de proibir a policia de subir nos morror. Se bem que o Brizola, comparado a esses caras que estão aí, era mil vezes melhor. Ele e o Darcy Ribeiro pelo menos pensavam em dar educação para o povo, enquanto os companheiros do PT preferem distribuir esmolas. Concluindo, vamos ao lema de Tropa de Elite: “Caveira” ou uma outra frase ótima do filme: “senta o dedo”.

05 outubro 2007

Dissonâncias Cognitivas e Tensões do Dia a Dia

Esta semana tentei prestar mais atenção ao meu corpo, afinal, como dizem alguns filósofos, é a parte mais real de mim mesmo. Reparei surpreso em como fico tenso no trabalho. Na verdade, tenho uma colega que só de vê-la já me crispam o maxilar e os ombros. A tensão que sinto é tamanha que deve ser perceptível.


Então pensei: preciso relaxar. Afinal, se fulana não é legal não é motivo para eu passar o dia tenso. De fato, em retrospecto, mudam os fulanos mas as tensões continuam as mesmas, então a culpa não deve ser deles. No caso desta colega, a tensão se deve a ela ser uma concorrente natural, ter se aliado a um cara com quem eu tive uma discussão, de não gostar de mim e de ser muito espertinha, além de competente.

Mas uma coisa a gente precisa reconhecer: as pessoas têm o direito de competir. E competem com ou sem a nossa autorização. O fato é que passar o dia tenso não muda isto. É preciso aprender a fazer como eles, competir e sorrir. Quando eu vejo o sorriso da tal garota eu sinto três coisas: desconfiança, satisfação pela consideração e um certo alívio na minha tensão. É uma sensação dissonante. Como seria bom sentir-se em harmonia com as pessoas.

A relação com os amigos, por outro lado, também pode ser complicada. Queremos agradá-los e também receber atenção. Às vezes, a ansiedade envolvendo um amigo é tamanha que estressamos. Isto quando não temos algo para provar a ele ou dele não desejamos alguma coisa.

É uma tensão cujo alivio só vem quando o deixamos para então, doentiamente, reexaminarmos os momentos que passamos com ele. É muita neurose para pouco psicanalista. Aí está uma outra relação complicada. Se o analista não se importa não confiamos no cara, se o analista se importa demais ficamos desconfiados de que seja mais maluco do que nós.

Danem-se todos, os inimigos e os amigos, e vamos aproveitar e que se danem também os desconhecidos, a começar por aquelas mulheres assustadoras que ralam a bolsa em você no ônibus. Considerando o tamanho da bunda de algumas delas, bem que poderiam ter retrovisor e pisca-alerta. Como diria alguém, mardita celulite.

Em seus delírios narcisistas os jovens adoram pensar que podem mudar o mundo. A verdade é que o mundo só muda se nós mudarmos primeiro. Senão sempre haverá fulanos - amigos, inimigos e desconhecidos - que nos trarão uma tensão desnecessária. E o que haverá além desta tensão, da respiração ansiosa e dos vazamentos de um inconsciente torturado? Talvez apenas um nada. Se for assim, então pelo menos será alguma coisa.

30 setembro 2007

Divagação Erudita

Introdução

Feliz 119!
Dedico este post ao novo membro do Pugnacitas, André Balsalobre, que veio à luz há exatos trinta e um anos, no reveillon do ano 88 da Era da Salvação, iniciada em 30 de setembro de 1888 do falso calendário.

Obviamente, não falo a sério. Entro no espírito de uma brincadeira feita por Nietzsche na data da conclusão de seu ensaio “O Anticristo”, 30 de setembro de 1888, há 119 anos.

30 de setembro é também o dia mundial do traidor, digo, tradutor. Traduttore = traditore, dizem os italianos. A homenagem nasceu do dia onomástico de São Jerônimoooo, padroeiro dos paraquedistas e praticantes de bungee jump e traditore da Bíblia para o latim a partir de manuscritos em grego e hebraico, no século IV d.C..

No dia 30 de setembro de 1452 Gutenberg apresentou o primeiro livro impresso: a Bíblia. Uns setenta anos depois, Lutero, valendo-se do invento do conterrâneo, difundiu pelas populações alemãs milhares de cópias do Novo Testamento traduzido por ele próprio para o alemão (saxão). Celebra-se entre os protestantes a tradução de Lutero como um símbolo de libertação em relação à Igreja de Roma. No entanto, existem várias impressões da Bíblia em alemão anteriores à versão do traditore Lutero, como podemos ler no verbete Versions of the Bible, da Catholic Encyclopedia. Trecho: “Of special interest are the five complete folio editions printed before 1477, nine from 1477 to 1522, and four in Low German, all prior to Luther's New Testament in 1522”.

Segundo os católicos conservadores, o livre exame das escrituras promovido pelos protestantes teria permitido a vulgarização e a profanação da Bíblia pela figura do "caçador de contradições". Segundo eles, as contradições apenas mostram o grave erro em que se incorreu ao dar a cada cristão a possibilidade de ser um exegeta. Como não existem explicações na própria Bíblia para as contradições, seria necessário um intérprete autorizado por Deus para harmonizar as diversas passagens, para explicar as divergências valendo-se da Tradição. A autorização de Deus viria por meio do sedizente sucessor de Pedro: o Papa. Para tais católicos seria muito melhor para a cristandade se os livros ainda fossem reproduzidos manualmente, por copistas.

“Tradição” não significa “traição”, é claro. Mas podemos traduzir a palavra para “prevalência da vontade das facções mais barulhentas e poderosas dos concílios”, “crendices populares consolidadas por gerações”, “sufocamento sistemático de 'hereges' e de inimigos da tradição", necessária esta para futuras interpretações baseadas na tradição.

Caçadores de contradições não faltam. Há milhares de sites Web afora dedicados a denunciá-las. E, como não poderia deixar de ser, outros tantos milhares a refutá-las.

Divagação Erudita

Nietzsche escreveu no supracitado ensaio, referindo-se não à hagiografia católica, como pode parecer ao se retirar o trecho de seu contexto, mas às páginas da Bíblia: “Que me importam as contradições da ‘tradição’? Como alguém pode chamar lendas de santos de ‘tradição’? As histórias de santos são a mais dúbia variedade de literatura existente; examiná-las à luz do método científico na ausência total de documentos corroborativos a mim parece condenar toda a investigação desde suas origens – isso seria simplesmente uma divagação erudita...”

Eu escrevi em determinado ponto do post Elemental, meu caro Watson: “Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para ‘simbologias’”.

Mas confesso que às vezes me apraz fazer pescaria na Bíblia, fisgar botas revestidas de untuosos plânctons, pneus (hagia pneuma) e outros trastes velhos atirados pelos pais do cristianismo ao já poluído e enturvado lago divino, verdadeiro Piscinão de Ramos em cujas águas milhões e milhões de ignorantes diariamente se banham e contraem as mais diversas moléstias, comumente aquelas que atacam o córtex cerebral, a área do cérebro responsável pela razão.

Então, nesta última hora deste 30 de setembro, faço uma inútil “divagação erudita” sobre uma pescaria que fiz um bom tempo atrás.

Em Jerash

Vocês podem não ter fé em mim, mas no dia 30 de setembro de 1992 eu e um colega de universidade visitávamos as ruínas de Jerash (Gerasa), uma cidade da Decápole Romana, chamada hoje pelos jordanianos de "Pompéia do Oriente", a mesma alcunha dada pelos sírios à Palmira (Tadmor), e naquele local eu, à época um católico “exemplar”, tive meu primeiro contato com uma contradição bíblica, mais precisamente uma impossibilidade geográfica.

Pois bem, estávamos tão extasiados a explorar as preciosas ruínas por tantos séculos esquecidas no deserto, a contemplar a perfeição da pavimentação das ruas, com sarjetas, meios-fios e calçadas, a elegância dos templos e colunatas cujas cores esquentavam-se ao crepúsculo, que perdemos o último ônibus que saía para Amã, onde eu executava algumas pinturas para o Patriarcado de Jerusalém. Cliquem aqui para ver a capa do Livro History of Modern Christianity in the Holy Land, ilustrada com um óleo de minha autoria. As cores estão mortas na reprodução. A torre contra o sol gera uma auréola na Igreja de Mádaba, cidade próxima ao Monte Nebo, camarote do qual Moisés imaginou com pesar os massacres do povo cananeu que se consumavam a poucos quilômetros. Com pesar por não ter sido autorizado a participar, claro. Quem mandou ferir a rocha duas vezes com a vara para que brotassem as águas de Meribá?

O primeiro lugar onde nos ocorreu procurar pernoite foi a igrejinha que havia em Majdal, um dos vilarejos vizinhos, de maioria muçulmana. O padre, um francês, torceu o focinho para o nosso pedido. Por sorte, um muçulmano que passava pelo local parou quando viu os dois estrangeiros e, posto a par da questão, achou que era uma boa ocasião para vender a “grandeza” de sua fé e expor a hipocrisia da concorrente. Insistiu para que o padre nos indicasse algum canto da construção principal ou de seus anexos onde pudéssemos nos recostar até a manhã seguinte. O padre, que em determinado momento parecia disposto a ceder, após a interferência petulante do islâmico recusou-se peremptoriamente a nos dar abrigo. O outro proferiu com voz empostada de muezim que a hospitalidade era um dever do muçulmano e que ainda que fosse no mihrab da Mesquita arranjaria um local para nos abrigar contra o frio da madrugada.

No fim das contas, dormimos na casa dos pais do rapaz, que deram uma pequena festa em nossa homenagem com música ritmada por derbake, sucos, frutas, pães e queijos. Acabamos retornando a Amã somente seis dias depois porque os vizinhos quiseram que dormíssemos também em suas casas para que pudessem exercitar a hospitalidade. Os convites eram feitos ríspida e guturalmente enquanto nos seguravam pelos punhos, impedindo que cruzássemos o vão da porta. De fato, apenas despertávamos sua curiosidade, tanto que na quase totalidade das vezes o preceito da hospitalidade era esquecido tão logo os anfitriões esgotassem as frases prontas em inglês e nós as em árabe...

No terceiro dia, dormimos na casa de um certo Mohammad, cujo inglês era bem aceitável, apesar do sotaque. Durante o jantar falou muito, exaltou a região e sua história, o islamismo e, como não poderia deixar de ser, criticou a fé rival: “Alá não é três, é um!”, “Jesus não é um deus. Ele é um profeta do Islã”. Desatou a listar os erros do livro sagrado dos cristãos e acabou por citar Marcos 5, onde é descrita a visita que Jesus e sua gangue fizeram à terra dos gerasenos: Gerasa, ou Jerash. Para ele, a prova de que Marcos não fora testemunha de episódios da vida de Jesus como a sua prisão no Getsêmani residia no fato de que o verdadeiro autor daquelas linhas ignorava detalhes importantes da geografia da região.

Retirado da Bíblia Católica:

Marcos, 5
Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros, pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus, que não me atormentes." É que Jesus lhe dizia: "Espírito imundo, sai deste homem!"
Perguntou-lhe Jesus: "Qual é o teu nome?" Respondeu-lhe: "Legião é o meu nome, porque somos muitos". E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte. E os espíritos suplicavam-lhe: "Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles." Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti." Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.


Impossibilidade Geográfica

Jesus atravessa o Mar da Galiléia e ainge o território dos gerasenos. Jerash está a aproximadamente 60 km a sudeste do Mar da Galiléia (vejam no mapa e na fotografia ao lado, a partir do Google Earth. Philadelphia é a atual Amã). Mesmo antigamente, o território dos gerasenos era limitado por Pella, também da Decápole, Hippus, Gadara e Raphana, não sendo lindeiro ao Mar da Galiléia - apesar do nome, um lago de água doce.

Jesus expulsa uma legião de demônios de um só possesso e, como bem avaliou Bertrand Russel, ao invés de usar seus poderes divinos para simplesmente mandá-la embora, leva o(s) suinocultor(es) desconhecido(s) à falência - e quem sabe parte da economia da região, pois eram 2000 porcos! A propósito, para quê povos da província romana da Arábia, árabes portanto, que também não consumiam este tipo de carne necessitavam de população suína tão grande? Ordenhavam as fêmeas?* - e permite que os demônios possuam os animais, causando a morte de todos eles. Não parecia ser essa sua intenção inicial mas atende às súplicas dos capetas... E como tudo isto se passa nos domínios de Gerasa, os porcos-lemingues correm mais do que uma maratona para se precipitarem na água.
“A César o que é de César”, teria dito o homem-deus. No entanto, ao autorizar o suicídio induzido de dois mil porcos lesou os cofres de Roma, que tinha direitos sobre parte dos lucros do(s) criador(es) de porcos.

Outro ponto é que não existem precipícios na orla do Mar da Galiléia, quase sempre plana, no máximo os montes que originam as Colinas de Golã, ao nordeste. Precipícios podem ser encontrados mais ao sul, na região do Mar Morto, mas mesmo lá há praias entre os rochedos e a água. Em Marcos os porcos caem diretamente no Mar da Galiléia. Jesus não se importou com a salubridade da água, que servia aos moradores daquelas paragens. Dois mil porcos em decomposição devem ter transformado a água em um caldo bacteriano extremamente nocivo, matando peixes, arruinando pescadores e impedindo os humanos de consumi-la. Não foi à toa que a população escorraçou o Galileu e sua trupe. Pela interpretação de alguns religiosos os habitantes de Gerasa expulsaram Jesus da sua terra por amarem mais os porcos do que a Deus, he he.

Em Mateus 8, 28, lemos:

“No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.”

Agora são dois os endemoniados e Jesus não desembarcou mais em Gerasa mas em Gadara, que distava uns 10 quilômetros do Mar da Galiléia. Pelo menos a chance dos porcos-lemingues morrerem afogados e não enfartados aumenta um pouco no Evangelho segundo Mateus...

Sujo falando do Mal Lavado
Mohammad irritou-se com algumas objeções que fiz. Na época argumentei que aquelas pequenas diferenças eram mais uma prova de que os Evangelhos eram autênticos, pois se o texto de Marcos tivesse sido escrito a partir do de Mateus e não por inspiração divina as informações não seriam conflitantes. Ele disse então que o livro sagrado dos muçulmanos havia sido ditado letra por letra por Alá e que por isso era muito mais confiável do que a Bíblia, “inspirada” e por isso plena de contradições.

Hoje sabe-se que inúmeras outras versões do Alcorão foram deliberadamente destruídas durante os primeiros califados. Em Sana, no Iêmen, encontraram nos anos 70 fragmentos de um Alcorão da metade do séc. VIII que continha passagens diferentes das que vemos na versão atual, o que deveria sepultar a ridícula crença dos muçulmanos de que cada vírgula de seu livro sagrado foi ditada pelo enViado de Alá, o anjo Gabriel, o mesmo que fez o primeiro exame pré-natal em Maria. Mas seria exigir demais dos pobres muçulmanos. Quando ouvem falar dos manuscritos de Sana dão as explicações Ad Hoc de qualquer religioso fanático: "aquilo foi plantado pelo Shitan (diabo) para confundir os crentes".

Não quero perder meu tempo pescando no imundo charco do Alcorão. Minhas “divagações eruditas” não descem tão baixo...

--//--

* - update: Certamente havia uma boa quantidade de romanos e de povos helenizados na região, ainda mais na Decápole, e não viam problemas em desfrutar de um bom lombinho assado de vez em quando. Infelizmente sem as rodelas de abacaxi, afinal os fenícios, caso tenham estado na América antes de Colombo, esqueceram-se de carregar para a Síria mudas da preciosa bromélia.

27 setembro 2007

República Popular do Brasil

Em 2022, na comemoração dos 200 anos da independência política em relação a Portugal, estaremos comemorando os 20 anos da chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores. O Brasil terá então sofrido algumas mudanças em direção à democracia socialista, com novas atribuições do Estado, cuja estrutura política decorrerá de uma Constituinte que terá acontecido entre 2010 e 2020.


Para começar, o Brasil deixará de ser uma federação e o poder central terá sido consideravelmente ampliado em detrimento das oligarquias regionais. O Senado terá deixado de existir, juntamente com a federação, e os Estados se tornarão unidades administrativas com menor autonomia. Retornaremos ao sistema getulista.

Com o fim do Senado, o Congresso passará a ser unicameral. Além disso, terá então sido implementada a lista fechada. Os cidadãos votarão nos partidos, que nomearão os deputados de acordo com a lista definida pela Executiva do Partido. Os parlamentares que votarem contra decisões da Executiva perderão o mandato. O PT continuará como principal legenda de uma ampla coligação da esquerda e de alguns partidos clientelistas.

Lula deixará a presidência e passará a ser o secretário-geral da Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores. Juntamente com os demais membros da Executiva escolherá os membros da bancada do partido no Congresso, cujo maior partido certamente será o PT.

O Estado se imiscuirá nos grandes projetos do setor privado por meio de PACS. Caso um projeto do setor privado não estiver incluído no PAC será um código para que não haja apoio de órgãos do governo ao projeto. Para garantir a colaboração dos órgãos da administração, todos eles serão dirigidos por companheiros do partido, cuja indicação passará pelo Gabinete Civil da Presidência e cuja permanência dependerá da assiduidade no pagamento da contribuição para o partido. Haverá então mais de 100.000 filiados em cargos de confiança gerando uma expressiva receita para o partido, que finalmente realizará o seu sonho de instalar um diretório em cada um dos 5.000 municípios brasileiros.

O Brasil fará uma aliança militar com a Bolívia, Argentina, Venezuela e Cuba para a defesa mútua das democracias socialistas. Os militares e policiais brasileiros farão cursos de aperfeiçoamento e desenvolvimento em Cuba e na Venezuela, sendo que o Ministério da Justiça será sempre dirigido por um membro da Executiva Nacional do Partido. A ABIN será reformulada e ampliada, passando a ser dirigida também por um membro da Executiva.

Os brasileiros que não estiverem satisfeitos com o estado geral das coisas emigrarão para os Estados Unidos, Canadá ou para a Europa. O país perderá um pouco de mão-de-obra qualificada, que será substituída por cubanos também muito bem educados. Aliás, para garantir a qualidade da educação, a autonomia das escolas particulares será sensivelmente reduzida e os livros didáticos sofrerão amplas revisões para garantir que as lutas sociais recebam o destaque que merecem.

A Globo então já terá abandonado qualquer crítica ao governo, em troca de mais propagandas e financiamentos do BNDES, e a TV do Executivo apresentará uma série de programas educativos e informativos sobre as ações do governo. Com isto estará eliminado o risco de uma ditadura da imprensa. A Marta será embaixadora do Brasil em Paris, onde não causará mais estragos ao partido, e o Jacques Wagner será presidente da Republica. Nossa bandeira sofrerá leves alterações; continuará verde mas terá acrescida uma estrela vermelha, e a divisa mudará talvez para Liberdade e Eqüidade.

Leia também o post Brasil 2022, de quando eu não tinha uma bola de cristal.

21 setembro 2007

A xícara de chá quebrou

Há uma frase de Auden, de um poema dos anos 30, que contém tudo o que eu gostaria de dizer neste post: “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead”. A tradução é chata. A melhor palavra para crack seria racha, mas soa mal em pelo menos dois sentidos. A frase, em inglês, à parte a harmonia maravilhosa (“opens a lane to the land” é o fino) não tem uma palavra latina, corre em monossílabos e dissílabos, o que lhe dá uma dureza perfeita para contrastar com a imagem aparentemente suave da morte do conteúdo. Mal traduzida, mas literalmente: “A racha na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.”

A xícara de chá representa a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. A rachadura, a quebra dessa ordem, abrindo a vereda (a base da aristocracia, de títulos e de dinheiro, dos ingleses, é o campo) para as hecatombes de 1914 e 1939. A xícara de chá há muito foi arquivada na cristaleira. Hoje a Coca-Cola é o que já está rachando e, com ela, o cálice papal e outros utensílios domésticos vendidos às velhas gerações como inquebráveis. Pois Auden pegou foi o momento exato da quebra, que ainda estamos vivendo e que parece, estranhamente, institucionalizado. Nossa civilização lembra aqueles quartos horríveis onde agora põem as pessoas à morte nos hospitais. Tudo no corpo da vítima, já morta para efeitos práticos, é controlado eletronicamente. O moribundo vai se arrebentando aqui e ali. O “sismógrafo” registra a quebra. Entra alguém e tapa o buraco. A agonia se prolonga.

Mas nosso organismo, para ficar na imagem médica, não decai como um todo. Partes dele tentam sobreviver, rebelam-se, mantém uma exasperada vida própria, resistindo. Quem esperava a Igreja Católica refletida por João XXIII? Nem Olavo de Carvalho nem eu. Só o totalitarismo da Igreja, sedimentado em séculos e sugerindo uma ilusória coexistência de opiniões diversas — assim como alguns prédios velhos parecem ter em cada canto uma arquitetura única diferente do conjunto — só o totalitarismo preservou a fé institucionalizada (a fé de cada um é outra conversa, infinitamente variável) em face do furacão do materialismo, onde, no mínimo, três “bestas” apocalípticas são visíveis: Darwin, Marx e Freud. João XXIII achava que o melhor do crisitianismo, o respeito ao indivíduo, o desprendimento de coisas materiais, a caridade, etc, poderiam influenciar o pensamento moderno, e resolveu abrir a porta para esse cavalheiro. Foi o mesmo que convidar um leão a entrar na arena.

Depois de 44 anos de stalinismo, alguém esperava a Primavera de Praga? Nem o Departamento de Estado dos EUA nem eu — o primeiro só descansou quando a URSS restabeleceu a “verdadeira” democracia na Tchecoslováquia. Tão ou mais preocupados do que os burocratas do Kremlin com aquela revolução estavam os americanos. Já pensaram no efeito de um socialismo democrático na Europa Ocidental e no resto do mundo, àquela época? O que deteve o comunismo não foi o anticomunismo bestialógico, hoje exemplificado de maneira grotesca em um Olavão, mas o medo da classe média de uma tirania de partido único.

Os velhos sistemas racharam de vez, como dizia Auden. Não tem conserto, mas curiosamente ainda está para acontecer o desabamento. Talvez por isso os mandarins do pensamento antigo acreditam que vão sobreviver, melhorando e reformulando suas receitas de salvação. Os católicos mais progressistas acham que o pensamento moderno é um tigre de papel, domesticável. Ou, na pior das hipóteses, capaz de ser fundido com o cristianismo. É possível, mas improvável. Toda a filosofia moderna destina-se a demonstrar o caráter finito do homem, sua prisão dentro do corpo. Cumprida a nossa sentença na Terra, acabamos. Nem mesmo a idéia de uma ordem cósmica, no sentido idealista, resisitiu a Einstein, que, depois, talvez chocado com as implicações do que descobriu (à maneira de Darwin), passou o resto da vida tentando refutar-se a si próprio, inutilmente.

Não deixa de ser irônico que tanta gente genial tenha se esforçado tanto para convencer-se e convencer-nos de que somos umas porcarias, válidos, lúcidos e inseridos no contexto por uns meros 60 ou 70 anos.

O velho cristianismo dizia o contrário: isso aqui é uma porqueira, mas se a gente agüentar firme, com fé, sem revoltar-se, vai sem escalas para o paraíso eterno. Os jovens católicos e outros progressistas (ou esquerdistas) da Igreja estão certos, naturalmente, quando dizem que essa imagem de cristandade serviu de pretexto para que os ricos explorassem os pobres crentes que iriam à forra no além. Um dos motivos principais das perseguições de revolucionários franceses, russos e outros à Igreja era exatamente esse. Esse também era o motivo do sucesso da Igreja tradicional junto às camadas dirigentes, as quais, na hora da morte, pediam perdão pelos seus pecados terrenos.

Claro, estou fazendo uma caricatura. Todo mundo sempre acha que está fazendo o bem. Qualquer teólogo pode produzir 300 textos “antigos” da Igreja contra a exploração do homem pelo homem (e os materialistas outros 300, onde a posição se inverte). Culturalmente, porém, o divisor de águas entre a nova e a velha Igreja é a militância social. Nenhum católico progressista ou moderno admitiria dizer hoje, como São Paulo: “Os senhores poderão ir à igreja acompanhados de seus escravos.” Os católicos do tipo Olavo de Carvalho, por sua vez, nem deixariam os escravos entrarem.

Algumas pessoas acreditam que uma das conquistas revolucionárias do cristianismo foi a conceituação da inviolabilidade do indivíduo, a valorização por igual de todas as almas perante Deus. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que rejeitava como transitória a vida neste vale de lágrimas, defendia essa vida para todos os homens, sem distinções, condenando inclusive o direito ao suicídio. De qualquer maneira, só quem conhece História sabe o tournant que esse pensamento representou no destino humano.

Não estou sugerindo que o cristianismo fosse cumprido à risca em qualquer época. O darwinismo, antes de Darwin postulá-lo, é que sempre foi a lei da Terra. E não raro manipulado pelos mentores do próprio cristianismo “pela maior glória de Deus”, slogan que um comunista do passado converteria para “em defesa da revolução proletária”. Por trás do blá, blá, blá, naturalmente, processava-se a sobrevivência dos mais aptos. Mas, dizem, o cristianismo fincou a idéia da inviolabilidade do ser humano, ao menos na consciência das chamadas minorias esclarecidas. Mesmo os humanistas ateus e materialistas que o combateram como corrupto, esclerosado e inconsistente com a realidade do mundo, a partir do Séc. XVIII, teriam aceitado a premissa cristã do direito individual, que inexistia (?) na Antigüidade.

De qualquer maneira, em nosso tempo é que houve uma curiosa reversão. As ideologias modernas põem um abstrato bem coletivo acima do indivíduo. Os maiores crimes, de Hitler, Stalin, Pol Pot e o diabo lá sabe quantos mais, foram e são cometidos em nome dos ideais exaltados da democracia, do comunismo e da herrenvolk (os nazistas, a bem da verdade, eram mais sinceros do que os outros em seu darwinismo, botando pra quebrar em benefício próprio, escancaradamente). Há nisso também um paradoxo. O materialismo declara finita a vida do homem na Terra. E, no entanto, os ideólogos do salvacionismo pela política acham justo o sacrifício de milhões de indivíduos — sem vida eterna — em favor de uma hipotética sociedade justa no futuro. Há método nessa loucura, mas loucura é.

George Orwell está certo quando diz que ideologias, filosofias e crenças de toda espécie perdem todo e qualquer sentido se desacompanhados de um respeito decente pelo próximo. A opção, em última análise, tem de ser moral. A pergunta que nos devemos fazer é: você gostaria de ser tratado como milhões de seres humanos são tratados por aí? Ainda que pela “maior glória” do Deus que você adorar?

Quanto maior a repressão ética, maior a violência repressiva de seus proponentes, como se a grandeza dos fins exigisse uma baixeza equivalente dos meios usados para alcançá-la.

A meu ver, nada disso mais dá pé. Por exemplo, duvido que uma “nova” igreja, mesmo moderninha, volte a interessar à maior parcela pensante da humanidade. Quanto ao padre sujo, de batina puída, de pasta corroída, onde se encontra o mapa do Céu, que ele nunca nos mostra, preferindo descrever a planta do inferno, esse já era. Aliás, porcaria e moralismo, se não são inseparáveis, dão-se muito bem. O odor da “santidade” de São Jerônimo, cuja intolerância do gênero humano fez com que ele impedisse sua mãe de vê-lo quando ele estava à morte, tornou-se um caso clássico da psicanálise. Essa relação do homem com detritos, seus e externos, é uma forma de expressão sexual, segundo Freud. Esse item do conhecimento já deve ter entrado nos seminários depois que João XXIII levantou a tampa do sarcófago, mas no passado ainda se admirava São Francisco de Assis provando cocô de burro (relutantemente, diga-se em favor dele), como punição por suas insignificantes transgressões monásticas.

E duvido que reformem o socialismo, seja lá o que isso signifique, bem como qualquer outra utopia. E, muito menos, o establishment norte-americano vai se corrigir. Vai é manter ilesa sua estrutura, como deseja a plutocracia esclarecida dos EUA. A economia americana é mais ou menos igual a imperialismo. Exige uma crescente expansão imperialista. Ponto final.

Sem falar que certos lugares estão acordando. Para ficar num só: a Rússia está renascendo, aos trancos, como de costume, mas está.

Os antigos sistemas pifaram. Muita coisa feia ainda vai acontecer. Nossa década talvez ainda seja lembrada como uma calmaria igual àquela que quase destamancou o Pedro Álvares.

18 setembro 2007

Lições Hollywoodianas

Outro dia eu estava assistindo a Jornada nas Estrelas, a 18ª geração ou sei lá. Que saudades do capitão Kirk e do velho Spock. Neste episodio, a nova tripulação enfrentava uns tais Borgs, seres meio humanóides e meio máquinas cujas mentes estavam ligadas a uma rede chamada de "Coletividade". Não podia ser tão óbvio; os mocinhos estavam lutando contra um regime socialista e totalitário onde as individualidades haviam desaparecido! Que lição mais proveitosa para as criancinhas. Ali já estava presente o incentivo ao individualismo e o culto ao mérito, que encontra seu ápice nos super-heróis.

Falando neles, temos o Super-Homem, um extraterrestre de Kripton que acaba se tornando o melhor dos americanos. Existe um monte de Super-Homens nos EUA, estrangeiros literalmente vindos de lugares que os americanos nem imaginam onde ficam e que acabam se tornando o sal da terra da América. Muitos deles são filhos de elites de todo o mundo que não vêem possibilidades em seus países e acham que seus filhos terão mais oportunidades em um país que valorize o mérito e o esforço individual.

Os americanos são obcecados pelo sucesso. Tudo começa na escola, como já vimos em milhares de filmes de "High School". Aparentemente, na escola deles ocorre uma estratificação dos alunos em grupos definidos por suas habilidades. Temos os intelectuais, que amanhã podem ir trabalhar no Vale do Silício, as patricinhas, que podem ser tornar modelos, atrizes ou casar com homens ricos; temos os atletas, que podem se tornar jovens milionários; temos os debatedores, que podem vir a ser líderes de alguma coisa, políticos ou jornalistas. Mas o grande valor parece ser sempre o inconformismo com o grupo e a busca pela inovação. A necessidade de acreditar em si mesmo, não ser apenas mais um, de trabalhar e não ser um "loser".

Infelizmente, ninguém consegue ser tão especial e tão invencível exceto os Jason Bournes e o policial de Die Hard, que teve ter uns 8 litros de sangue no corpo. Afinal, são homens aparentemente normais que escondem uma determinação implacável e uma capacidade incrível de suportar a dor. Estes filmes são verdadeiras catarses. Curiosamente, são heróis solitários, livres da busca neurótica pela companheira perfeita.

Mais uma vez, tudo culpa de Hollywood. Ainda sou apaixonado pela Branca de Neve, embora hoje prefira a Trinity de Matrix; podemos revivê-las com um beijo. Considerando-se as balas perdidas de nossa perdida guerra civil, seria um boa habilidade de se ter em uma companheira... Esperar a perfeição em alguém é tão injusto quanto esperá-la em si mesmo. Como se depreende da Bíblia, a partir do simbolismo do pecado original, somos seres essencialmente falhos e destinados a não durar....dust in the wind.

A liberdade é o maior valor para os americanos e vale tudo em Hollywood para exaltá-la. Quantos filmes falando da Guerra da Independência e quão poucos sobre a conquista de metade do México. Quantos filmes sobre a paranóia do cidadão contra o Estado e suas elites políticas, que sempre conspiram pelo totalitarismo. Para eles é melhor morrer livre do que viver como um escravo. Em outros, é melhor morrer rico do que viver pobre...

14 setembro 2007

Quem Planta Vento...

Depois que eu soube da salvação de Renan Calheiros prometi a mim mesmo que não falaria no assunto. Surpreendentemente, ninguém falou nada até a hora do almoço, quando um amigo sugeriu que melhor seria acabar com o Senado. Não resisti. Disse-lhe que isto era idéia de um petista de terceira categoria...

Mais tarde, eu estava assistindo à Roseana Sarney, líder do governo Lula no Senado, comentar que o governo não terá dificuldade em aprovar a renovação da CPMF pois terá maioria, assim como teve maioria para salvar Renan Calheiros. Confesso que fiquei um pouco surpreso com a afirmação. Afinal, o Lula se deu ao trabalho de arranjar um álibi viajando para a Escandinávia para tentar convencer os analfabetos funcionais que não tivera nada a ver com a salvação de Renan Calheiros.

O engraçado é que poucos anos antes a senadora Roseana disputava para ser lançada pelo PFL como vice-presidente na chapa do PSDB à presidência, que seria encabeçada pelo Tasso Jereissati. Como todos sabem, uma operação deflagrada pelo setor paulista do PSDB revelou a existência de uma fortuna em espécie na empresa do marido da senadora, supostamente arrecadado para despesas eleitorais, enterrando as suas chances. Hoje, talvez aquela pilhazinha de dinheiro não resultasse em nada.

Lembro-me bem que no Senado houve um confronto entre o papai Sarney ultrajado e um ilustre senador do PSDB. Os discursos foram inflamados e surgiu uma mágoa terrível que levou os Sarney a se tornarem aliados de primeira hora do Lula e do PT. O mesmo Sarney que era presidente do PDS, o partido que sucedeu a ARENA. Uma magoa e um admirável instinto de sobrevivência e oportunidade transformavam o velho Ribamar de lambe-botas de generais no senador da confiança de Lula e do PT, até mesmo para a eventualidade da sucessão de Calheiros.

Os americanos gostam de dizer que um homem pode fazer a diferença. Dizem que foi o que ocorreu ontem na votação da cassação de Renan Calheiros, quando Mercadante supostamente conseguiu que seis senadores do PT votassem em branco em uma votação secreta. Ato de uma covardia extrema: abstenção em uma votação secreta. Um ato digno de um Mercadante, que defendeu que o extrato do cartão de credito corporativo da presidência era segredo de Estado e que enterrou a proposta de redução da maioridade penal para 16 anos, além do escândalo do dossiê.

Depois dessa, acho que o Lula já pode perdoar o Mercadante por ter tido seu assessor envolvido na compra do dossiê fraudulento contra o Serra e que praticamente tirou a vitória de Lula no primeiro turno da reeleição. Mas o Lula só pôde ser reeleito porque o FHC semeou a reeleição e a CPMF só poderá ser renovada porque o PSDB a inventou para “salvar a saúde”.

Como já disse o Lula: “Política e pôr a mão na merda”. Para isto, o PT parece estar bem servido pela senadora Ideli Salvatti, sua líder no Senado. Além de horrorosa e truculenta, ela é uma lutadora incansável pelas causas mais imorais do partido, que vão desde o Mensalão até a salvação do Calheiros. Se houver um céu para os socialistas ateus ela certamente irá para lá pelos seus sacrifícios pelo partido e pela causa.

Lembro-me das afirmações inocentes de jovens feministas, que diziam que a mulher era naturalmente mais honesta que os homens e que em um mundo dominado por elas sequer haveria guerras. Só posso rir e lembrar que a líder do governo do Senado, a líder do PT no Senado, a Marta “Relaxa e Goza” Suplicy e para não mencionar a sucessora do Jose Dirceu, são todas mulheres e o mundo não se tornou mais honesto nem mais harmonioso (a resposta que fica implícita no post “Todo Poder às Mulheres"). Não podemos nos esquecer da velha ex-senadora Benedita da Silva e da viagem oficial para rezar na Argentina. Coisinha boba pelos padrões vigentes desta administração.

E o PT ainda tem coragem de falar em Reforma Política para moralizar o sistema? O problema destes caras é que tudo começa cheio de boas intenções para terminar na velha jogada de mudar o sistema político de forma a favorecer o seu partido. Todos já fizeram isto: os militares, o PSDB, o Chávez, e chegou a hora do PT tentar a sua Reforma Política.

Para os petistas a “democracia” se faz dentro do partido pelo seu centralismo democrático que escolhe o Diretório e a Executiva Nacional do Partido. A bancada eleita pelo povo é apenas um órgão subordinado da Executiva Nacional. Para eles, o debate deve ocorrer dentro do partido entre os pares de cada órgão do partido. Para eles, o Congresso é o lugar onde se trocam favores, cargos, emendas no orçamento e postos estratégicos em estatais com grandes orçamentos de investimento para se atingir os fins propostos pelo partido. Será que alguém acredita que um partido que tem esta práxis democrática vai propor alguma coisa capaz de melhorar o funcionamento da nossa democracia representativa?

Mas não se enganem, ontem, o que foi salvo não foi apenas o senador Renan Calheiros, velho companheiro de Collor, que aliás se manteve muito discreto neste episódio e deve ter votado em favor de Calheiros por uma questão de princípios. Ontem se salvou o governo Lula da fúria de Renan Calheiros. Afinal, se as revelações de Roberto Jefferson quase levaram Lula ao impeachment, imaginem o que as revelações de um Renan Calheiros poderiam fazer!

Este é um momento em que precisamos renovar nosso voto de confiança no Congresso e na democracia liberal e representativa. Não podemos permitir que este ato praticado por uma maioria construída pelo governo do Lula e pelo PT em troca de todos os tipos de favores possa abalar nossa fé na necessidade de haver uma instituição aberta, transparente e representativa de toda a sociedade. Enquanto isto, vamos torcer para que o PT entenda que na democracia quem tem voto tem voz e quem não tem, mesmo se for da Executiva Nacional, deve ficar quieto e deixar os representantes do povo tomarem as decisões.

12 setembro 2007

A Teoria do Mico Amestrado Telepata

Outro dia fiquei feliz em conhecer um economista marxista assumido. A maioria não consegue sair do armário, diz-se pós-keynesiana. Ele, além de assumido, participa de um Grupo de Estudos Marxistas e é um interlocutor de um bom nível. O engraçado foi quando o assunto chegou ao Lula e ele me disse que o presidente “é vítima dos nove ditadores do Banco Central”, que o manipulariam e o impediriam de baixar a taxa de juros.

Não é a primeira vez que ouvi essa idéia de que o Lula não passa de um mico amestrado e facilmente manipulável, então decidi fazer um breve histórico dessa tese. Na primeira vez que a ouvi o general Golbery do Couto e Silva, no período militar, teria poupado o Lula porque haveria um programa da CIA que visava tentar selecionar um líder sindical não-marxista e com baixa capacidade intelectual. Lula teria sido selecionado neste programa.

A versão seguinte desta teoria e que prevaleceu até o Mensalão ou depois é a de que o Lula passou a ser controlado por um grupo de ex-guerrilheiros esquerdistas liderados pelo José Dirceu, que decidiram usar o seu carisma de bom selvagem e o orientaram para que se tornasse o líder operário do Partido dos Trabalhadores.

Em oposição a esta tese temos o testemunho do Frei Betto, ex-assessor palaciano e consultor espiritual do presidente Lula, que teria dito que o presidente, apesar de não ler livros, conseguia ler pessoas, era quase um telepata. Tratar-se-ia então de um ser profundamente intuitivo. Mais um pouco e ele poderia ser recrutado como um dos mutantes do professor Xavier. Conversando com uma senhora idosa que foi vizinha da fábrica da Volkswagen no ABC, ela me disse que conheceu o Lula nos velhos tempos e que ele teria realmente um carisma pessoal incrível.

Encontrar um ponto de consenso nesta questão talvez seja impossível. Mais fácil é entender o Lula governante, porque tudo de bom é feito pelo governante e de ruim é assumido por algum subalterno maldoso e traidor. No caso do Mensalão, por um obscuro professor e tesoureiro do partido. Estas criaturas não têm o benefício da dúvida, são logo expulsas do partido e tornam-se traidores das suas causas. Este é um grave vício platônico de que sofre a esquerda, tradicionalmente utópica e idealista. As idéias são perfeitas; se não dão certo é culpa do indivíduo. Se não dão certo dez vezes é porque nunca foi feito direito.

Felizmente, a antropologia tupiniquim já superou estas questões. Afinal, para ela, se alguém se vê como indígena e é reconhecido como tal, então ele é indígena e pode virar latifundiário no Brasil. Nesta acepção, a identidade socialista da qual se imbuem os membros do PT, especialmente nos seus Congressos, pertence a eles e não lhes pode ser retirada por seus fracassos.

Acho que aí teríamos que formular a teoria do hímen complacente dos idealismos, onde a pureza dos ideais permanece apesar de todos já terem se F.... Pensando bem, acho que é tudo culpa do Platão. Quem mandou ele criar este mundo das idéias perfeitas de onde os idealismos são filhos bastardos? Daí, basta juntar ao idealismo doses generosas de narcisismo para podermos explicar grandes desastres da história da humanidade como o nazismo e o socialismo.
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