Mais tarde Deus, por meio dos Dez Mandamentos entregues a Moisés, decreta ser pecado matar um justo e um inocente, ou seja, mais uma vez ignorando o direito universal à vida. A seguir temos a história do justo mais famoso da Bíblia: Jó. Nos Salmos temos uma série de promessas de retribuições de Deus àqueles que oprimirem os justos. De fato, em Salmos 140,5 lê-se: “Se o justo me bate é um favor, se me repreende é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará; porém, sob seus golpes, apenas rezarei.”
Em Provérbios, mais vez se enaltece os justos afirmando, em geral, que aquilo feito ou dito pelos justos é bom e aquilo feito ou ditos pelos ímpios é mau. Eis uma boa passagem: “As palavras dos ímpios são ciladas mortíferas, enquanto a boca dos justos os salva.” Em Eclesiastes o tom muda e critica-se a vaidade dos justos. O tom é mais "socialista": “Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.” Também encontramos neste livro (7, 16) esta curiosa admoestação: "Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te tornarias estúpido?"
Em Sabedoria retoma-se o tom elogioso aos justos e o elitismo por assim dizer. De fato, a vida eterna seria destinada apenas a esta elite: “Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.” Apesar da eternidade pertencer aos justos, eles não estão a salvo de morrer pelos pecados dos ímpios, como podemos ler em Lamentações: “Foi por causa dos pecados de seus profetas e das iniqüidades dos sacerdotes, que derramavam em seus muros o sangue dos justos.”
Ezequiel, por sua vez, se ocupa em falar dos justos que abandonaram o caminho: “E, se um justo abandonar a sua justiça, se praticar o mal e imitar todas as abominações cometidas pelo malvado, viverá ele? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer.”
Mateus já retoma uma visão mais conciliadora, socialista e antielitista: “Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.” O interessante é que em Mateus surge o inferno para os ímpios, enquanto antes eles tinham o nada. É uma nova abordagem, esta do Novo Testamento, de tentar atrair os ímpios. Acho meio populista.
Bem que eu desconfiava que estes apóstolos de Cristo eram meio esquerdistas, vejam só esta passagem: “Jesus respondeu-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.” Acaba com a idéia da elite dos bons e dos escolhidos. Se bem que uma coisa que eu detesto é aquele que se faz de justo, o fariseu, que atualizado seria o politicamente bonitinho, este é um sepulcro caiado. No Brasil, hoje, este personagem é aquele que veste uma camiseta do Che...Bem, desconfio que obsessão não esteja entre as qualidades dos justos...
Em João, por sua vez, há uma passagem interessante em que se discute o que é um homem justo: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.”
"Justo" na Bíblia pode ser entendido como "aquele que age de acordo com a vontade de Deus", seja ela qual for. Hoje, a disputa é por ser considerado justo, pois suas ações terão legitimidade. Infelizmente, o privilégio de agir é muitas vezes exercido em detrimento daqueles que sofrerão as consequências de suas ações.
Entramos em outra questão aqui. O que é agir? Segundo o Aurélio, a sua definição filosófica seria: "Processo que decorre da natureza ou da vontade de um ser, o agente, e de que resulta criação ou modificação da realidade." Boa definição, que considera como pré-requisito da ação a existência de vontade e como conseqüência a mudança da realidade. Neste sentido, existem muito poucas "ações", embora muitas sofram as conseqüências de ações alheias à sua vontade.
Caímos agora na questão karma e darma. As ações do ego geram karma. A definição psicanalítica de ego segundo o Aurélio é: "A parte mais superficial do id, a qual, modificada, por influência direta do mundo exterior, por meio dos sentidos, e, em conseqüência, tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do id." Os justos, como não agem obedecendo ao ego, estão livres do karma. Somente eles são livres, os demais são escravos dos sentidos e dos desejos. Logo, a única escolha estaria entre servir ao ego ou servir a Deus.