13 agosto 2013

Deuses devem ser belos

"O belo é o esplendor da ordem"
Aristóteles

Beleza é essencial? Os feios dizem que não. Muitos bonitos afirmam o mesmo, para não serem acusados de arrogantes e de não terem beleza interior, aquela que, por ser subjetiva, todos podem dizer que têm.

Não é comum mas também não é raro que pessoas bonitas desprezem as feias. Estas, em um primeiro momento, buscam a atenção das primeiras como um modo de agregar valor a si mesmas, afinal são bens quase sempre escassos e disputados, exceto na Suécia. No caso do corpo, ou se é jovem ou se tem boa genética ou força de vontade para ir à academia; ou dois ou três destes fatores combinados. Os feios, como a raposa em relação às uvas na fábula de Esopo, talvez passem a desenvolver um genuíno desprezo pela beleza, a repetir que os feios dedicam-se ao espírito para compensarem a falta de atributos físicos, e por isso são mais interessantes. Estas pessoas apreciam belos quadros, bela música, belezas naturais, aves coloridas, mas acham que a beleza humana é apenas convenção, uma ditadura estética europeia e, enfim, não é fundamental como queria Vinícius. Isto, claro, até uma bela sueca ou uma bela espanhola parecerem acessíveis, ou um Brad Pitt, no caso das mulheres. Aí beleza volta a ser importante, imprescindível até, afinal é um fator importante nas leis da atração e, portanto, foi crucial na forja do ser humano ao longo de centenas de milhares de anos.

Pesquisas demonstram que criminosos bonitos conseguem penas menores, candidatos bonitos têm mais chances de serem selecionados para uma vaga de emprego, após o contrato recebem salários maiores, ganham empréstimos mais facilmente; talvez por serem mais autoconfiantes e terem uma habilidade de comunicação desenvolvida e premiada desde a infância poderão ser líderes marcantes, como o Lula (brincadeira). Segundo o economista americano Daniel Hamermesh, nos EUA um trabalhador bonito chega a ganhar, ao longo da vida, 230 mil dólares a mais que um feio com o mesmo grau de instrução e inteligência. Pessoas bonitas tendem a ter mais contatos, e o "network" é essencial para corretores de imóveis, lobistas, arquitetos, advogados e em outras profissões.

Um Padre bonito passa a imagem de ter feito um grande sacrifício ao adotar a batina, demonstra que sua vocação foi verdadeira. O padre feio, por outro lado, parece ter recorrido ao hábito pela ausência de sinal verde das mulheres durante a infância e adolescência. As paroquianas enchem as igrejas em que o primeiro reza missa, seu sermão é mais interessante, principalmente quando fala com voz suave, elas se desdobram para ajudá-lo em tudo, na arrecadação, nas quermesses, fruem de sua beleza sabendo inconscientemente que ainda que ele não pertença a elas, não é de mais ninguém.

A aparência física influencia sobremaneira a personalidade, desde a primeira infância. O menino loiro bonito talvez seja docemente assediado pelos roqueiros neo-grunges da escola, por ser parecido com o Kurt Cobain, e adotará, com o tempo, o ar blasé, a fala mansa, o feitio de quem é indecifrável, turvará sua mente poça d'água para que pareça profunda. De tanto interpretar o personagem que seus amigos nele enxergam e, assim, para corresponder às expectativas e agradar, também para ser bajulado, acabará por incorporá-lo; tornar-se-á uma segunda natureza. O menino feio talvez ganhe a simpatia de um professor de química que nele se veja quando tinha sua idade. Será mesmo atraído para grupos de feios, que lhe darão atenção, criarão seus códigos, seus "inside jokes". Por outro lado, o feio rico comprará a amizade dos bonitos oferecendo sua casa com piscina para as festas da turma, seu carro para as noitadas, pagando as contas de restaurantes, etc. Será popular, obviamente. Se for feio, pobre e muito engraçado poderá servir como bobo da corte.

Os ricos tendem a ser bonitos e os pobres feios. Basta prestar atenção a quem surge pela porta de um carro luxuoso que acabou de estacionar: mulheres e crianças bonitas, homens que poderão ser tanto bonitos quanto feios, baixinhos, carecas, cabeludos. Grosso modo, uma mulher bonita é capaz de arranjar casamentos uma ou duas classes sociais acima, um homem feio pode conseguir mulheres bonitas uma ou duas classes sociais abaixo, um homem bonito pode casar com mulheres bonitas de mesma classe social. Sem falarmos nas lentes de contato, aparelhos dentários, salão de beleza, cremes, implantes, academia, lipos, cirurgias estéticas e outros simulacros de beleza genética acessíveis exclusivamente a quem tem dinheiro.

Antigamente a realidade era outra. Casamentos amiúde envolviam sérios interesses do resto da família. A filha não herdava os bens do pai, cuja fortuna não podia ser dispersada, devia permanecer no "sobrenome", então dependia de um bom casamento, quase sempre comprado com dotes generosos. Os nobres europeus eram feios - talvez não os bastardos, frutos de atração sexual. Dificilmente uma moça pobre e bonita casava-se com um rapaz rico. Se engravidasse, o amante negava a paternidade, ainda que pudesse contribuir materialmente na formação da criança. E a garota praticamente perdia o direito de casar até mesmo com alguém de sua classe social, por ter sido maculada. Assim elas poderiam servir, no máximo, para a diversão dos mais ricos, os quais irremediavelmente casavam-se com mulheres de sua classe social. No Rigoletto de Verdi/Piave, baseado em Victor Hugo, o conquistador Duque de Mântua - o da ária "la donna è mobile" - finge ser um estudante sem dinheiro para poder conquistar o coração da pobre e bela Gilda, filha do bobo da corte.

Se os seres humanos dão tanto valor à beleza, por que adorariam deuses feios? O Jesus histórico provavelmente era feio, afinal era a mistura de uma mulher nascida há dois mil anos no Oriente Médio e de uma pomba. Se fosse possível profetizar e se as profecias de Isaías estivessem certas, Jesus seria comprovadamente feio. Em Isaías, 53, 2 lemos:

"Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos."

Para parecer feio nas visões proféticas de um pastor de cabras da Idade do Bronze, Jesus deveria ser o cão chupando manga. Já o Cão, vulgo diabo, ao contrário, era formoso e atraente, segundo se lê em várias passagens bíblicas.

Os hebreus, talvez por não serem tão bons artistas quanto os gregos, proibiam imagens e esculturas, ainda que não fossem para adoração. Já o gentio convertido para a heresia judaica posteriormente chamada de cristianismo tratou de paganizar a nova religião, afinal às vezes é preciso mudar para as coisas continuarem como estão, como Lampedusa escreveu em seu O Leopardo. Deste modo, não foi apenas o latim que os cristãos tomaram dos romanos. Além desta língua, da própria sede ser em Roma, da arquitetura e de suas ordens, de muito da simbologia, a iconografia é a pagã.

Jesus aparece sempre majestoso, cheio de graça, atraente, alto, caucasiano, grandes olhos, nariz grego, poses clássicas, greco-romanas. Nas representações da crucifixão, deposição e ressurreição é possível ver, parcialmente coberto por uma túnica, o corpo esculpido em sessões diárias de caminhadas pelo deserto, abdominais, flexões e levantamento de pedras, talvez realizados religiosamente após aqueles sermões e parábolas edificantes. Bom, ao menos quando os artistas são de qualidade. Quando não são sempre é possível recorrer a cópias em gesso e reproduções fotográficas de obras consagradas.

A relação pessoal e profunda com Cristo tem muito a ver com a experiência de uma paixão amorosa. Como resistir às ebúrneas Afrodites e arrebatadores Adônis dos altares cristãos? Os católicos não seriam capazes de adorar deuses cuja representação não fosse sexualmente atraente, com exceção de Nossa Senhora Aparecida, aquele boneco de pau tão horroroso que até mesmo o cordato bispo Von Helder não resistiu a chutá-la. A Maria que adoram (dizem que é apenas veneração) tem os seios perfeitos, sua bunda não é caída, não tem rugas de expressão, é simétrica, cândida, é o modelo inimitável das cristãs, é a mãe virgem que lhes diz tacitamente que nunca serão boas o bastante; ou são virgens e não são mães ou são mães e - horror dos horrores - perderam o hímen ao fabricar o cristãozinho ou ao darem a luz, afinal não têm naquela membrana tanta queratina e elastina quanto a mãe de deus, que continuou virgem até mesmo depois do parto, como está escrito nos papeizinhos do Frei Galvão, ainda não autorizados pela ANVISA mas comprovadamente eficazes para o saldo bancário das freiras que os produzem.

Maria continuou bela mesmo na morte. Se após a crucifixão do filho viveu ainda por quinze anos, ascendeu aos céus com corpo e alma, de acordo com o dogma, com uns 60 anos. Sem filtro solar e creme hidratante naquelas paragens áridas da Judéia e, posteriormente, na Ilha de Patmos com João Evangelista, seu corpo, que, por definição, ocupa lugar no espaço e está algures, passível de ser visto por um ET ou por um astronauta, assemelha-se mais a uma jaca desidratada do que à Afrodite das pinturas e esculturas.

A seguir, as imagens ideais dos dois principais deuses cristãos e as imagens reais dos humanos que inspiraram a sua criação, fotografadas por J. J. Benítez durante a Operação Cavalo de Troia.

Jesus ideal, forte, majestoso, limpinho após um banho gostoso no Jordão.

Jesus ideal para os mórmons, o belo rabi desejado pelas fiéis prestativas. A tensão sexual está no ar, e para os mórmons ela será consumada em breve!


Maria ideal, virgem e mãe de feições clássicas, simétrica, limpa, coberta de ouro, tão atraente quanto intocável.
Casamento real de José e Maria, que o traíra pouco antes com o soldado romano Panthera. Aqui ela está grávida, aos treze anos.


Jesus real furioso a destruir o ganha-pão dos vendilhões do templo.
Maria real chorando durante a crucifixão do filho, e também por ter machucado a mão mais cedo ao preparar uma gororoba judaica daquela época.
Maria real aos 60 anos, olhando intrigada para a lente da Rolleiflex de Benítez. 


04 julho 2013

Quanto mais alegam querer mudar, mais querem que fique a mesma coisa

A seguir, dois comentários de C. Mouro mui sutilmente formatados por mim para se tornarem um post, com pequenas supressões, alterações na ordem das sentenças e outras violações, menores do que se um bom tradutor passasse seu texto para outro idioma. O texto original está na caixa de comentários do post anterior (Desculpe-me, Mouro, pelo abuso). Concordo com praticamente tudo que escreveu, com um pequeno lembrete: uma verdade não deixa de ser verdade quando dita por um mentiroso, por um comunista, ex-comunista, papista, tucano, arara ou o diabo. O uso do "tu quoque", reconheço, é irresistível, principalmente se ouvirmos Fidel dizer que é errado mandar oponentes para o paredão. É errado mesmo, o que faz dele, além de um monstro, um grande hipócrita manipulador. Acho Olavo um católico astrólogo herege gnóstico supersticioso monomaníaco por conspirações, Reinaldo Azevedo um desonesto defensor incondicional da Igreja Católica e do PSDB. Ambos podem dizer a verdade às vezes, fazer reflexões pertinentes sobre comunismo, bolivarianismo, gramscianismo, petismo, etc.

Quanto ao movimento das massas, sou bem cético. Mas fico curioso para ver como as esquerdas capitalizarão os resultados para si, manipuladoras mui bem organizadas que são. Usando o que o Mouro escreveu, digo que "hermeneutas" como Mino Carta poderão ver nas revoltas populares um desejo de retorno ao esquerdismo primordial, puro, ao paleopetismo da época das Diretas Já. Lutero, em meio à podridão da Igreja Católica, não desejou uma volta à pureza primordial do cristianismo, recrudescendo-o com a Reforma e recrudescendo indiretamente a Igreja Católica em sua Contra-Reforma? Os papas eram príncipes corruptos quase assumidos, alguns encomendavam talvez mais pinturas de Júpiter e Diana do que de Jeová e Maria. O cristianismo estava mais paganizado do que nunca, as plutocracias dos Medici e Sforza prosperavam. Antes aquele cristianismo - ainda assim vil, é certo - do que o "autêntico" apocalíptico e "virtuoso" de São Paulo. De igual modo, preferiria que os políticos fossem sujos e corruptos assumidos, como o Maluf e o Roriz. Mas que estivessem com focinheiras, vigiados, que fossem punidos literalmente com crueldade quando pegos. Castigos físicos em praça pública seriam divertidos. Falo sério. Quanto ao Estado, deveria ser cada vez menor, TENDENDO para a anarquia. Mas que seria odioso de qualquer modo. Basta ler os capítulos sobre a democracia grega em A Cidade Antiga de Fustel de Coulanges para nos espantarmos com o quão parecidos eram alguns de seus problemas com os atuais. Venda de votos, alternância entre formas de ditadura e aristocracia, a primeira com o apoio do povo cheio de ressentimentos e vontade de se vender por pequenos agrados e de ver os ricos sendo perseguidos pelo tirano, a segunda comandada pelos ricos, baseada na tradição, no respeito à propriedade e à democracia mas pouco preocupada em manter ocupada a população invejosa - passou a ser invejosa quando a propriedade deixou de ser divina e passou a ser cobiçável - já que dispunha de escravos. Na democracia, ao povo votante - apenas machos nascidos na Hélade e descendentes de gregos - uma opção de engordar os rendimentos era vender o voto.

Vamos ao Mouro:

Quanto mais alegam querer mudar, mais querem que fique a mesma coisa

Texto de C. Mouro

Aquilo que vejo no Brasil, com a maioria de sua população insolente, supersticiosa e guiada por morais ideológicas que não fazem qualquer concessão à ideia de ética como uma moral objetiva, em vez de subjetivamente ideológica, é um eterno oscilar entre o "mais morno" e o "menos morno". Essa moral ideológica cujos fins justificam os meios, ditando-os como receita para um nirvana qualquer, não deixará que a massa reflita conscientemente e menos ainda que atue conscientemente.

Novos profetas com novas ideias velhas ameaçam com danações qualquer ínfima reflexão que escape de sua tutela. A manutenção do clima ideológico é a fórmula do poder pleno sobre uma sociedade massificada e, assim, imbecilizada. Os que parecem sair do círculo apenas percorrem sua circunferência e, assim, sempre se acaba voltando ao ponto de partida. A disputa de castas ou, mais propriamente, irmandades e quadrilhas ideológicas não permite que se saia deste círculo com facilidade, pois as propostas dos neo-evangelizadores é mudar para ficar a mesma coisa.

Nenhum destes grupos admite o enfraquecimento do Senhor Estado Todo Poderoso e são nisso acompanhados pelos servos, para quem o ideal é o pedir para conseguir. O mero pedir ao "bondoso senhor" é algo por demais arraigado; a promessa de se estabelecer como meio de dar às gentes o que desejam é própria de novos e velhos profetas, velhos neo-evangelizadores de discursos atemorizantes ou nebulosamente salvadores, que apenas reivindicam a obediência aos intermediários do Senhor Estado. E assim a roda gira. Em círculos desenhados por faladores profissionais interessados em obter nacos do poder estatal e, por tal, absolutamente contrários à sua diminuição. De fato, há o temor de que destas manifestações heterogêneas, sem mentores absolutos, possa resultar certa perda da mística do Estado, de seu "direito divino" sobre a população.

Sim, a massa crê no direito do Estado sobre ela, para quem ele é, ou deveria ser, a fonte da sabedoria e da justiça, de modo que aquilo que decorre de seu arbítrio - na verdade, de sua hierarquia de humanos - é a expressão da verdade e da justiça. Assim, cada indivíduo cultua o Estado que lhe convém, da mesma maneira que cada um elege o seu deus arbitrário conforme seu desejo sobre o que seja considerado verdade e justiça.

Claro que isso proporciona a criação de inúmeros deuses, aparentados ou não. São vários islamismos e cristianismos, pelo menos, já que estas são as ideologias historicamente inventadas por (prefiro "úteis para") governos dominarem e explorarem populações feitas servis, não pelo abuso da boa fé destas, mas sim pelo uso de sua má fé, de impor aos demais suas convenientes "verdades". Mas tais mentirosas verdades não produzem os resultados alardeados. Então a culpa é lançada na "deturpação" e não na sacrossanta ideologia salvadora. E aí, em meio a infindáveis interpretações, pululam hermenêuticas para salvá-la, com as quais os arautos das mudanças querem uma "volta às raízes", mudam as moscas velhas pelas novas, que antes foram mudadas, ou nem tanto.

O império romano criou a moderna política universal e não será fácil livrar-se de tal sistema com facilidade. A justificativa e pretensa legitimação do poder em nome dos pobres e coitadinhos, do povo (o bem coletivo sobrepondo-se ao bem individual com alegada legitimação do arbítrio divino) e mesmo d'uma tal de pátria cuja compreensão é obscura e não refletida, uma ideia incriada sobre cuja existência ninguém quer refletir. Assim, o Estado toma posse da sociedade, o governo se apossa do Estado, este ente místico, um partido ou quadrilha se apossa do governo e a alta hierarquia deste partido ou quadrilha se apossa do partido ou quadrilha. Pronto: agora esta alta hierarquia pode arbitrar as convenientes verdade e justiça que imporá a todos. E falsas verdades e injusta justiça logo darão lugar a novas fraudes, em novas ideologias e hermenêuticas ideológicas sem fim.

Reinaldo, Nivaldo, Olavo e Cia. como maiores opositores do socialismo é mais inverossímil que história da carochinha. Curiosamente, "ex" militantes marxistas, ainda defensores do Estado árbitro sobre a sociedade segundo a subjetividade deles mesmos, aspirantes a árbitros, anunciam-se os verdadeiros combatentes do socialismo atacando estas desnorteadas manifestações como essencialmente esquerdistas por "reivindicarem mais estado" e estarem comandadas por partidos radicais que foram delas escorraçados, tendo suas bandeiras sido queimadas. Ao mesmo tempo advogam pelo PSDB e DEM, louvam FHC, que anabolizou o MST com bilhões em verbas, legitimando-o, além de inventar as indenizações a terroristas e simpatizantes, entre outras ações "capitalistas", e mesmo chegam a ser cabos eleitorais de Serra. Defendem estes pulhas marxistas neomoderados como oposição. O discurso do Papa é mais esquerdista que os "pedidos de mais estado das manifestações". A igreja em sua totalidade e a própria ideologia cristã, defendidos por estes ex militantes marxistas, são muito mais estatizantes que as tais manifestações que queimam bandeiras vermelhas e escorraçam CUT, PSOListas, PTistas, PSTUistas, PCOistas e etc.. Estão confusos, sim, mas melhor confusos do que agarrados a ideologias e partidos. A esquerda irá se aproveitar e recapturá-los com a ajuda dos "ex" marxistas adoradores do Senhor Estado, que preferem o Estado com sua costumeira mística na esperança de ainda o tomarem para si e imporem suas baboseiras ideológicas.

09 maio 2013

Deus Existe? Para uns sim. Para outros não.

Não acho que a razão pura (Platão e Descartes) seja suficiente para provar ou disprovar a existência de Deus. Também não acho que nenhum experimento científico (Hume) seja suficiente para provar ou disprovar sua existência, pois um experimento supõe uma teoria e um teste para fazer uma comprovação desta teoria sujeita a uma série de restrições e aproximações. E qualquer que seja o resultado será provisório (Popper).

Outra possibilidade seria a contemplação, meditação, concentração…Diz a tradição budista que Sidartha Gautama teria escolhido um caminho de ascetismo e práticas intensas de meditação na busca da Iluminação ou uma percepção mais direta de Deus. Aparentemente, após alguns anos de intenso treinamento ele teria recebido a graça. Para Gautama, Deus existe mas não foi fácil percebê-lo.

A tradição judaica fala que Moisés teria obtido uma percepção mais direta de Deus em contemplações no deserto. A tradição muçulmana fala que o Anjo Gabriel teria vindo a Maomé também em seu retiro anual em uma caverna no deserto. A tradição cristã fala de um retiro que Cristo teria feito no Deserto, mas de uma forma muito simbólica, sem falar nas práticas em si.

Enfim, pelo menos no caso destas práticas religiosas selecionadas a experiência de Deus seria algo resultado de uma busca, de uma disciplina pessoal,…Existem outras práticas religiosas africanas ou americanas que usam cerimonias (músicas e danças) e drogas para induzir estados alterados de consciência.

A questão é que seja lá o que for que foi alcançado por estas pessoas por meio destas práticas não é algo transmissível. Talvez a presença de uma pessoa que esteja em um estado de consciência alterado seja até inspirador mas não prova para outras pessoas que Deus existe.

Talvez um erro da catequese católica seja a idéia de fé, ou seja, espera-se que os fiéis acreditem em Deus simplesmente porque existem ou existiram pessoas cujas vidas apresentaram sinais desta comunhão com Deus. Talvez seja uma abordagem pragmática, ou seja, a maioria das pessoas dificilmente vai conseguir ter uma experiência de Deus mais profunda e contínua porque ela exigiria muito, portanto, para estes a fé.

A fé parece algo tolo mas é mais usual do que parece. Por exemplo, o Direito, de forma geral, tem fé na capacidade de discernimento do indivíduo e procura responsabilizá-lo por seus atos. A psicologia, por sua vez, não tem tanta fé assim no indivíduo. O coletivismo metodológico também tece-lhe restrições.

De qualquer forma, se uma babá de duas crianças de Manhatan tivesse fé ou pelo menos medo do inferno talvez ela não tivesse matado as duas crianças das quais ela cuidava por se sentir humilhada por sua patroa. Em termos sociais, uma ética religiosa pode ser um importante fator de agregação social e redução da violência.

E, agregação social não é algo trivial. Platão, Aristóteles, os contratualistas, os utilitaristas, os neo-contratualistas gastaram séculos tentando a partir da razão encontrar ou entender as bases da vida em sociedade. E os resultados deixaram muito a desejar. Os idealistas alemães acabaram no nazismo. O marxismo chegou ao stalinismo. Na Argentina, Venezuela, e Chile temos sociedades profundamente divididas pelo peronismo, chavismo e por Pinochet.

Talvez seja melhor que Deus exista. Se alguém conseguir ter uma comunhão com ele, ótimo. Se simplesmente acreditar e em função disto tiver uma vida mais ética, muito bom. Se o medo do inferno impedir de praticar fazer mal aos outros já tá valendo.

Enfim, Deus existe? Para uns sim. Para outros não. E para você?

25 março 2013

Os Presidenciáveis


Já foi dada a largada na disputa pelo mandato de presidente da República de 2014. Dilma saiu na frente anunciando em cadeia nacional uma redução na tarifa de energia e corte de impostos na cesta básica. Como disse o deputado Roberto Freire, o corte de impostos da cesta básica foi desonestidade intelectual da presidente, que vetou projeto idêntico aprovado pelo Congresso no ano passado. Em sendo desonestidade intelectual, não será a primeira considerando que em seu currículo ela dizia que tinha doutorado em economia pela Unicamp, o que se verificou mentiroso. A culpa foi atribuída ao erro de uma secretária e o site da capes passou a exigir CPF e senha na atualização de currículo. Quanto ao setor elétrico, as distribuidoras perderam 50% do seu valor desde o ano passado e o setor só não vive um racionamento graças às térmicas emergenciais construídas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Isto porque Dilma foi a toda poderosa do setor de energia nos últimos anos. O seu mito de competência parece sobreviver mais que a realidade.

No PSDB, parece que finalmente chegou a vez do neto de Tancredo. Este playboy que muitos acusam de aspirador de pó acha que tem as credenciais para ser presidente da República em função da boa gestão que fez no estado de Minas. Dizem que o segredo do Aecinho é que ele sabe se cercar de pessoas competentes, especialmente sua irmã, que é famosa por carregar seu piano. Serra, por sua vez, até hoje não acredita que foi derrotado por Dilma. Logo ele, que foi presidente da UNE, exilado, com mestrado em economia no Chile, doutorado pela Universidade de Cornell com passagem por Princeton e professor da Unicamp, secretário de estado, deputado constituinte, várias vezes ministro, senador, prefeito e governador de São Paulo e acabou derrotado por um poste de Lula. Isto depois de ter sido derrotado pelo próprio. Pensando bem, Serra deve ser vascaíno.

Uma novidade interessante que surge no condomínio do poder é o presidente do PSB, o governador Eduardo Campos, que aspira à presidência. Campos vem de uma boa família da esquerda, como diria o Mercadante: os Arraes. Se bem que está difícil para o Ciro engolir que ele não seja o único e eterno presidenciável do PSB. Este partido se apresenta como uma alternativa interessante de poder à aliança PT/PMDB, cuja construção foi produto do Mensalão. Como disse Merval Pereira, Lula ficou tão assustado com a possibilidade de sofrer um impeachment que abraçou tudo o que havia de mais espúrio no PMDB e com isto enterrou a bandeira da ética do PT, que já estava em frangalhos.

Temos ainda a senadora Marina Silva que é uma dissidente do Partido dos Trabalhadores. Ela tem a antipatia de Lula devido a sua origem humilde e uma biografia que chega a ser mais interessante que a dele em termos de dramas pessoais. Donos de partido como Lula não dão espaço para que outros grupos cresçam e selecionam candidatos na base no dedaço como foi o caso da Dilma, que não venceu nenhuma previa partidária. Marina traz a bandeira da ética e da proteção do meio-ambiente, que parecem muito importantes para o país mas revela um culto à personalidade um pouco sinistro.

Nos bastidores Lula luta para sabotar o novo partido de Marina e para impedir a candidatura de Campos para manter a eleição no cenário familiar que é a velha disputa PT x PSDB, que ele e seus marqueteiros parecem já ter desenvolvido a fórmula para vencer. Enquanto isto, Lula vai parindo mais postes como Haddad e Lindenberg, que poderiam ser candidatos à Presidência da República um pouco mais para frente. Haddad fez uma longa gestão no Ministério da Educação marcada por sucessivos fracassos no ENEM devido a licitações no mínimo mal feitas. O desempenho do país em termos educacionais também não sofreu grandes alterações exceto o rio de dinheiro despejado na educação superior. Quanto ao Lindenberg, ou como alguns o chamam, o Lindinho, ex-lider dos caras-pintadas hoje responde a cerca de quinze inquéritos no STF por diversos desvios, especialmente irregularidades em licitações.

Outro dia Dilma disse que o Brasil devia muito ao PT.... Será? O partido que votou contra tudo que o PSDB propôs em sua gestão e que mais tarde se serviu de tudo isto como seu? Este é o partido para quem o país tem uma dívida? O partido que não fez nenhuma reforma significativa em sua gestão. Outro dia a ministra do Planejamento, na falta do que dizer disse que o governo está fazendo uma revolução silenciosa. Será? Mas a Sra. Dilma está enganada. Políticos têm mania de aclamação como se estivessem onde estão porque outros pediram e insistiram, etc. Não, ninguém pediu para ela estar lá e nem para o PT chegar ao poder. Eles ocupam o poder porque o desejaram, lutaram e derrotaram seus adversários. E, se depender deles, ficarão no poder para sempre. Abrir mão do poder é muito raro é geralmente é feito em situações como a do papa Bento XVI, que chegou à conclusão por razões de saúde, que era hora de passar o bastão. Chávez,  por sua vez, nem sofrendo de um câncer terminal entregou o poder. Na minha opinião, este é o tipo de gente que nunca deveria tê-lo tido.

19 março 2013

Papa Paco VIº

"Toda unanimidade é burra" é obviamente uma frase de efeito, porque se todos concordassem com Nelson Rodrigues seria então burrice acreditar que a unanimidade é burra. O mesmo vale para "toda regra tem exceção". Então deve haver uma exceção para esta regra, ou seja, uma regra sem exceção?

O Papa Francisco é praticamente uma unanimidade, como Lula quando foi eleito pela primeira vez presidente. Falar mal do eneadáctilo foi, até o Mensalão, um pecado imperdoável. A imprensa venera este Papa. É um oximórico argentino humilde - e o demonstra publicamente* -, foi genial ao escolher o nome "Francisco" (ou seja: Paco, nos países hispânicos), é mais bonito do que Bento XVI, o primeiro Papa a sair vivo do cargo em 600 anos, a quem agora estão proibidos as sapatilhas vermelhas e o camauro, espera-se que ele faça uma limpa na Igreja Católica e coloque em seu devido lugar o maligno Cardeal de Richelieu, digo, Bertone. Comentemos algumas de suas frases recentes, em negrito e entre aspas:


“Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético.“

A Igreja endossou no Concílio de Viena a posição de São Tomás de Aquino, de que a alma só era inoculada no feto quando este tivesse forma humana. Não havia impedimentos para que o Espírito Santo inspirasse os altos dignitários de 1311 a afirmar o mesmo que Bergoglio, uma vez que desde o homem-macaco sabe-se que aquilo que avoluma o ventre materno invariavelmente se torna um ser humano, se o processo não for interrompido, natural ou deliberadamente. Esta constatação óbvia depende dos avanços científicos?

Na verdade, o aborto passou a se tornar pecado, em qualquer estágio de desenvolvimento do feto, apenas em 1869, após um acordo entre o papa Pio IX e o imperador Napoleão III. A baixa natalidade na França atrapalhava os planos de industrialização do governante francês.

Desde a democracia moderna e o fim dos monarcas investidos de poder divino, a relação entre governantes e religiosos passou a ter um intermediário: o povo. A consciência deste passou a ter um preço alto, e desde então os primeiros muitas vezes dependem dos segundos. Mantendo-se no centro de discussões polêmicas, muitas vezes em contradição com asserções passadas - o Espírito Santo também muda de opinião -, apelando a valores que tenta fazer crer que inventou, a Igreja Católica passa a ser peça importante no jogo democrático de dezenas de países. Assim, o último estado teocrático da Europa apita desavergonhadamente nas questões internas dos países onde sua faceta religiosa conta com prosélitos, porque, camaleônico, é estado e igreja. Núncios são recebidos mundo afora como embaixadores de um estado europeu, para tratarem sobre questões religiosas. Para os governantes, é um excelente atalho. Ao invés de lidarem com 50 milhões de consciências, acertam tudo com seis ou sete procuradores destas. Os líderes evangélicos aprenderam bem tal mecanismo, o aperfeiçoaram, e seu arrojo torna o serviço ainda mais fácil para os políticos.


“Não pretendo fazer proselitismo — eu as respeito (pessoas ateias) e me mostro como sou (...) Não diria que um ateu está condenado porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar sua honestidade — sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas.”

Conseguiu matar dois versículos do Capítulo 16 de São Marcos com uma única tolice politicamente correta:

Marcos 16:
15: E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.
16: Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.

Após a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II (link), Jesus deixou de ser o único caminho. Vale agora até adorar Baal, porque se está tateando por uma divindade nas sombras, e este impulso de adoração já basta àquele mesmo deus ciumento do Velho Testamento. Afirmar que não pretende fazer proselitismo quando se encontra com ateus diz muito sobre o novo Papa. É como ouvir às vésperas de eleições um candidato dizer que não quer convencer ninguém a votar nele. Mas esta é justamente a tática proselitista de conquistar prosélitos entre os que odeiam proselitismo.


“Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem com o transcendente."

Envolver-se com o transcendente é, porventura, invadir o terreno da metafísica? Se esta dimensão - seja lá o que for - fosse falseável, seria do campo científico. Se detectarmos sistematicamente almas saindo de pessoas recém falecidas, a metafísica não ganhará força; o mundo natural é que terá adquirido uma nova dimensão.

Há outro problema. O milagre envolve intervenção do transcendente no físico e é peça fundamental na religião. Esta depende, de certo modo, da ciência, e sem milagres é apenas "fé cega", conforme lemos no catecismo católico:

"...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'".(§156)

É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais frequentes em locais de baixo IDH. Ademais, deveria haver um milagre incontestável por habitante, uma vez que a mera narração de um prodígio volta a demandar confiança, "fé cega".


“O que não é bom é o laicismo militante, aquele que toma uma posição antitranscendental ou exige que o religioso não saia da sacristia.”

O laicista militante é tão nefasto quanto o republicano militante, o democrata militante. Não conheço laicistas que tentam impedir padres de opinar sobre quaisquer assuntos. Reclama-se de financiamento público para visitas de religiosos, para festas religiosas, reclama-se de símbolos religiosos em repartições públicas. O laicismo existe no papel, assim como a probidade administrativa. Milita-se pela aplicação daquilo que já está previsto em lei.


“Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilômetro quadrado.”

Ah, sei. O país criado por Mussolini. A Igreja possui 20% dos imóveis da Itália. E trilhões de euros em imóveis ao redor do mundo. A Igreja não possui mais nada.


“Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre.”

Digamos que, em determinado país, criaturas de hábito - padres, freiras e monges - constituam 0,1% da população (na verdade, esta é a porcentagem italiana, a maior proporção de padres e religiosos em relação à população, entre todos países) mas sejam responsáveis por 7% dos abusos documentados a menores. A chance de encontrar um pedófilo entre padres seria, portanto, 70 vezes maior do que entre os não padres, não? Estas porcentagens não são fictícias. São aproximações a partir de dados oficiais da Irlanda. E estou levando em consideração apenas a população adulta.

A porcentagem de padres pedófilos na Irlanda chegou a 10%. Não há nenhuma outra profissão que atinja tal marca. Algumas estimativas chegam a uma chance 200 vezes maior de um padre católico ser pedófilo do que uma pessoa normal, não padre (link).

Por terem desvios sexuais, muitos procuram a batina, talvez até inconscientemente, porque o sacerdócio é um bom álibi social. Não precisam casar, serem vistos com uma mulher, muitos pais baixam a guarda quando lhes confiam os próprios filhos, para tardes de catequese, como coroinhas, cantores, noites em acampamentos. Creio que os crimes contra crianças praticados por sacerdotes se devam, muitas vezes, ao fato de ser mais fácil ameaçá-las e calá-las. A profissão exige celibato e extrema retidão moral. Não é bom arriscar com amantes adultos, que um dia poderão dar com a língua nos dentes, não? Todos padres que abusam sexualmente de menores cometeriam os mesmos crimes fora da igreja? Ou seriam pedófilos não criminosos – aqueles que não consumam suas preferências sexuais, apenas sentem atração por crianças? Bispos e cardeais acobertaram crimes de pedófilos, para protegerem sua instituição. É difícil acreditar que acobertariam crimes por aí, de vizinhos ou de colegas de trabalho. Denunciariam às autoridades ainda que anonimamente. Os crimes de acobertamento por parte de superiores são o terreno fértil para germinarem os crimes dos padrecos.

THE SAVI REPORT - Sexual Abuse and Violence in Ireland

Vejamos os EUA, por exemplo: Leiam The Nature and Scope of the Problem of Sexual Abuse of Minors by Priests and Deacons - Relatório comissionado pela “Conference of Catholic Bishops”(link).

E imaginemos como era antigamente, quando a Igreja não era obrigada a se reportar à justiça comum. Como era a situação nos internatos e orfanatos conduzidos pela Igreja? E nos seminários, onde os aspirantes entravam com 7, 8 anos? E nas paróquias?

O Papa Francisco ou é safado ou pacóvio. Fico com a segunda opção, apesar de parecer que se aproveita do senso comum entre os fiéis católicos, de que são casos isolados os de pedofilia clerical e que a mídia é que faz estardalhaço, para jogar insidiosamente os dados de que 70% dos abusos são cometidos por familiares e vizinhos. Ora, se 0,1% dos crimes de pedofilia fossem cometidos por padres, o problema não seria alarmante, uma vez que estaria, bem ou mal, em harmonia com a proporção de religiosos em relação à população geral. Mas não é isto o que se percebe.


Sobre homossexuais e casamento gay: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Aqui o Papa Paco se iguala ao Silas Malafaia e ao Pastor Feliciano, com a diferença de ser incensado pela mídia, enquanto estes são execrados. A cada dia que passa vem sendo corroborada a tese de que o homossexualismo tem forte peso genético. O Silas Malafaia expôs os dados corretamente no De Frente com Gabi mas os analisou do modo estúpido que se espera de um pastor homofóbico: em várias pesquisas com milhares de gêmeos univitelinos separados no nascimento houve concordância na orientação sexual em aproximadamente 52% dos homossexuais. O Silas afirmou, então, que, se fosse genético deveria ser 100%. Ora, se não houvesse influência genética os números deveriam respeitar a porcentagem de homossexuais em relação à população, de 4 a 8% (link).

O que o pastor não levou em conta foram os genes alelos e também gatilhos ambientais. Porcentagens semelhantes foram encontradas ao se analisar em gêmeos a incidência de esquizofrenia, por exemplo, comprovadamente genética.

Assim, o Papa Paco VIº (pacóvio) faz do demônio co-criador do homem, uma vez que parte de suas características genéticas vem do Coisa-Ruim. Se o homossexualismo é natural, e também é natural a união civil entre seres humanos que têm um projeto comum de vida, e o Papa vê nisto "jogada" do Pai da Mentira (Deus mente e a Serpente diz a verdade aos sem-umbigo, no Gênesis, mas fiquemos com a versão oficial), então não consigo enxergar a coisa de modo diverso. Deus é nosso pai. Satã também. Teria sido a primeira união homossexual da história?

Casamento gay é uma ameaça à família, aos planos de Deus? E os adultos que jamais se casam? E quanto aos padres celibatários? Celibato é natural? É genético, como o homossexualismo? E o problema da superpopulação? Ela está nos planos de Deus? Quanto à questão moral, o que dois adultos fazem consensualmente entre quatro paredes não me diz respeito. Por que os religiosos se importam tanto com isso? Um grupo de pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade da Georgia, nos EUA, realizou um estudo em que se verificou que homens homofóbicos ficam excitados quando assistem à pornografia gay (link).

E aí chegamos a um ponto interessante: Qual é a porcentagem de padres gays? Segundo várias estimativas, está na faixa de 30% (link). Tomemos um exemplo: se na Irlanda a porcentagem de padres pedófilos já é maior do que a de gays na população geral, e a esmagadora maioria dos crimes de pedofilia é contra meninos, imagina-se que a porcentagem de homossexuais seja muito maior entre padres católicos do que na população como um todo.


Cristina Botox kirchner, a bruxa peronista, está acabando de afundar a Argentina com seu populismo irresponsável, seu desejo de exterminar a imprensa livre e a oposição, a la Chávez, enquanto sua família enriquece, e por isso simpatizantes liberais do Papa, como o Reinaldo Azevedo, veem a inimizade entre os dois como mais um sinal de que o pontífice é sensato. Ora, ela se deve, principalmente, a divergências em temas como o casamento gay, aprovado na Argentina em 2010. Parecem estar em harmonia no resto.

Ou seja, na estupidez.

Em 2012, Bergoglio disse que as Malvinas "pertencem à Argentina". Disse que as ilhas foram usurpadas pelos britânicos. Não é preciso dizer que a escolha do Papa não foi bem recebida no Reino Unido, não pela sua nacionalidade mas pelas suas declarações enquanto cardeal.

Após o almoço que o Papa teve com Cristina, esta disse: “(…) O papa me falou da Pátria Grande, da América Latina e do papel que estão cumprindo os diferentes governantes da América Latina. Disse que era formidável o que estavam fazendo esses governantes, trabalhando unidos para a Pátria Grande — empregou esse termo, o que definitivamente me comoveu. Era o termo que empregavam San Martín e Bolívar”.

O Cardeal Bergoglio disse, no final de 2011, que (link):

"A crise econômico-social e o conseguinte aumento da pobreza tem suas causas em políticas inspiradas em formas de neoliberalismo que consideram as ganâncias e as leis de mercado como parâmetros absolutos em detrimento da dignidade das pessoas e dos povos. Neste contexto, reiteramos a convicção de que a perda de sentido de justiça e a falta de respeito pelos demais pioraram e nos levaram a uma situação de iniquidade".

Depois falou em "igualdade de oportunidades" dos danos das "transferências de capital ao estrangeiro", em "distribuição da riqueza", etc.

A riqueza não é um processo de soma zero, como creem os socialistas. Steve Jobs não ficou bilionário explorando uma centena de trabalhadores na Califórnia, mas despertando o desejo da população terrena por seus aparelhinhos Apple. A riqueza pode ser criada, multiplicada, e a história demonstra que quanto mais os países têm mercado livre, baixa intervenção estatal e regras claras, menor a pobreza.

A demonização do mercado e dos imperialistas, a utilização de termos como "neoliberalismo", a defesa da tal "igualdade de oportunidades" (sabemos que inexiste na própria família, por uma série de motivos) o traem, a ponta da orelha peluda aparece por baixo do solidéu branquinho:

É mais um perfeito idiota latino-americano.

Glórias ao Papa Paco VIº, o Pacóvio!


*Acho ótimo que preparasse a própria comida e andasse de transporte público enquanto arcebispo de Buenos Aires. Já acho que muitas demonstrações de humildade como Papa ofendem o antecessor e servem para que seja exaltado a todo instante. Vejamos a rainha Elizabeth II da Inglaterra: passa uma humildade desafetada, sem "São Francisco" e outros ranços piedosos. Nenhuma coroa que usa é sua. Nenhuma joia sairá da realeza. Ela própria é quase uma peça do Madame Tussauds ambulante, que mal fala, uma exposição itinerante de indumentária real. Humilde é o príncipe Charles, que poderia exibir-se com espécimes femininos muito mais vistosos que Camila, Duquesa da Cornualha, mas ama esta górgona e a assume publicamente.
Exibir-se humilde na Basílica de São Pedro é engraçado. Que transfira provisoriamente a sede do papado para alguma tenda nos jardins do Vaticano, então, ou extramuros. As sapatilhas vermelhas são ridículas, claro, assim como as sotainas enfeitadas. Usá-las é que é sinal de humildade...

Créditos:
Carlos Esperança: "1º Papa a sair vivo do cargo em 600 anos"
Orlando Tambosi: "Bruxa peronista"
Janer Cristaldo: Informou-me que "Papa Paco" é como Bergoglio é chamado na Argentina.

15 março 2013

Habemus Papam Franciscum

Conheci um ou dois religiosos que tinham horror do cardeal Ratzinger e da forma como ele enquadrou o pessoal da Teologia da Libertação. O Leonardo Boff não aguentou o castigo e pediu para sair, como diria o capitão Nascimento. Pessoalmente, acredito que Ratzinger deixou um grande legado para a Igreja ao rejeitar o marxismo inerente à doutrina da Teologia da Libertação em sua atuação como Inquisidor Mor.

O marxismo é uma teoria que surge no contexto da filosofia alemã e da economia inglesa e nada tem a ver com a religiosidade semita que deu origem ao cristianismo. De fato, como disse o atual papa Francisco, sem a crença em Cristo Salvador a Igreja não passa de uma ONG piedosa. Portanto, diferente do que pensam os rahnerianos, a salvação não vem dos pobres nem o cristianismo é imanente à luta contra a desigualdade. Acho que com isto a Igreja está superando a sua crise de identidade e se assumindo como um corpo de fiéis unidos na crença em Jesus que morreu pelos pecados daqueles que acreditam nele.

Agora com Francisco chega ao papado o primeiro jesuíta da história. A Ordem Jesuíta é uma ordem fundada por um militar espanhol meio delirante e sem muito amor à vida que foi gravemente ferido em uma batalha. Na convalescênça dos ferimentos leu a Vida de Santos e enfrentou febres e delírios que teriam matado a maioria das pessoas. Recuperado, decidiu dedicar suas energias não mais às glórias em batalhas, mas à imitação de Cristo.

Fez longas peregrinações e reflexões que aparentemente o levaram a um estado qualquer de clareza mental que acabaram o tornando um grande pregador do cristianismo. Isto incomodou a Inquisição da época, que exigia uma educação teológica formal para este tipo de pregação e ele acabou tendo que cursar um curso de Teologia no qual curiosamente era considerado um aluno medíocre.

Mais tarde desenvolveu um método que ele chamava de Exercícios Espirituais, a partir da sua própria experiência de conversão. Ele havia percebido que a leitura da Vida de Cristo lhe dava uma sensação de paz, enquanto os pensamentos em torno de glórias em batalhas, embora excitantes, depois se mostravam vazios de algo. A partir daí ele desenvolveu um método que buscava treinar os praticantes na aplicação deste discernimento em suas vidas. A Ordem Jesuíta surge a partir desta prática. Portanto, é natural que o Papa Francisco, um jesuíta, entenda que a piedade e a luta contra a desigualdade no contexto da Igreja Católica sejam consequências de uma prática religiosa.

11 março 2013

Os Royalties e a Secessão do Rio de Janeiro


Quem assistiu nos últimos dias ao debate sobre os royalties do petróleo deve estar pensando que o Rio está quebrado e que foi roubado. Pode até estar quebrado mas não por causa dos royalties e se foi roubado o foi por locais. Com a derrubada do veto da presidente Dilma, a distribuição dos royalties fica assim: Após um longo período de transição, que vai até 2020, em que se mantém a arrecadação de 2010 do Rio de Janeiro, as porcentagens do estado produtor caem de 26,5% para 20% e as dos municípios produtores de 26,5% para 15%. A arrecadação do Rio de Janeiro irá cair? Não. Será mantida e tende a subir na medida em que a produção de petróleo deve dobrar até 2020, passando dos atuais 2 para 4 milhões de barris, e os preços do petróleo estão altos (US$ 110) e tendem ainda a subir. Tem um estudo recente da OCDE que projeta um teto de US$ 260 em 2020. Para se ter uma ideia, a arrecadação de royalties do Rio de Janeiro em 2013, com a derrubada do veto, deve chegar a R$ 6,7 bilhões, enquanto todos os demais estados da federação deverão receber R$ 5 bilhões pelo Fundo de Participação dos Estados.

Eu assisti à sessão que derrubou o veto da presidente Dilma. Confesso que passei do desprezo à admiração ao senador Renan Calheiros pelas baixarias que teve de aturar. O senador, pré-candidato a governador do Rio e presidente da República Lindinho se retirou da sessão com ares de ofendido quando o presidente da sessão limitou os discursos a 5 minutos, o que é usual. Como se ele tivesse muito a dizer. O deputado e dono do curral eleitoral de Campos, o Garotinho, subiu à Tribuna para gritar Fora Renan e outras pasmaceiras. Eu até entendo, pois o curral eleitoral da família que recebe mais de R$ 1 bilhão em royalties vai perder dinheiro. Depois foi a vez do deputado Molinho, que, após uma leitura literal da Constituição com ares colegiais, passou a ameaçar os estados do Paraná e Minas de que teriam muito a perder se aquela matéria fosse aprovada (energia elétrica e royalties minerais). Por fim, uma vez derrubado o veto tivemos a “greve de fome” declarada pelo governador Cabral, que mandou suspender os pagamentos do Rio de Janeiro, exceto salários de servidores públicos (dizem que ele resolveu culpar esta história dos royalties pelo péssimo estado das finanças do Rio) e a manifestação infeliz do ministro carioca do Supremo, o Luiz Fux, que acredita que o Supremo irá atacar a decisão do Congresso.

Isto me leva a pensar que talvez o Rio de Janeiro se sinta melhor fora da federação. Talvez fosse o caso do Exército Brasileiro e da Marinha retirarem suas numerosas bases do território do Rio de Janeiro. Aliás, a Marinha está praticamente concentrada lá. A Petrobras, que é controlada pela União, também poderia rever a localização das suas sedes administrativas; deve ocupar uns 20 a 30 prédios no centro do Rio de Janeiro. O BNDES também é federal e não existe nenhum motivo mais significativo para ele estar no Rio de Janeiro. E por aí vamos. Tem o IBGE, alguns ministérios, até outro dia o Rio de Janeiro tinha mais servidores públicos federais do que Brasília. Aliás, podíamos também cancelar a Copa e as Olimpíadas que estão sendo bancadas por recursos federais. Só o financiamento do BNDES para a revitalização da área do porto está na casa dos R$ 10 bilhões. Isto para não falar no Eike, o empresário carioca, por vocação, que não sai de casa sem um empréstimo do BNDES. Só nos últimos anos, o BNDES tem recebido aportes de dezenas de bilhões do Tesouro Nacional. Semana passada mesmo Eike se encontrou com Dilma e mês passado com Lula para atestar que continua prestigiado apesar das ações dos seus negócios terem virado mico.

No fim, o Cabral escolheu esta bandeira de defensor dos royalties como estratégia para fazer a população esquecer do ricamente documentado jantar dele e sua entourage em um restaurante de luxo em Paris com seu grande amigo, Fernando Cavendish, dono da construtora Delta. Quem quiser ver as fotos é só entrar no site do Garotinho. Tem secretário de Estado com foto ao lado de Ferrari de US$ 1 milhão. Talvez isto explique a falência do Estado. E falando em Garotinho, vejam como são bem gastos os recursos dos royalties na cidade de Campos, que é governada pelo clã Garotinho. Fala sério, um dos “melhores” municípios do país. O Lindinho, por sua vez, meio que vive um dilema, pois ele tem que se mostrar um defensor do Rio de Janeiro para ser eleito governador, mas tem que tomar cuidado para não ficar marcado e inviabilizar sua candidatura a presidente da República. A saída que ele encontrou na sessão que derrubou o veto foi se fazer de ofendido e vazar. O deputado Molinho fica lá marcando posição porque provavelmente quer se cacifar para o Senado.

Como vocês vem, a causa dos royalties em si não é justa, mas estes sujeitos se servem dela da melhor maneira possível. Afinal, serão atingidos níveis de produção nunca antes imaginados com a descoberta do Pré-Sal, que já é responsável pela produção de 250.000 barris por dia e em alguns anos deve passar de 1 milhão. Torço para que os cariocas não caiam no papo desses seus péssimos líderes e não se acreditem injustiçados; porque não são. O Rio de Janeiro vai muito bem, obrigado, e se tem problemas não são culpa do restante da federação, que tem é ajudado e muito.

05 março 2013

Soul Radio

"Após uma eternidade sozinho no nada com seu filho e o Espírito Santo, que são Ele próprio, Deus suscitou uma grande explosão, há quatorze mil milhões de translações terrestres anos."

Se fossem essas as primeiras linhas do Gênesis, a Bíblia teria hoje muito mais credibilidade. Contudo...

Ad Hoc são hipóteses adotadas, na quase totalidade das vezes (porque não é apenas por ser ad hoc que é falsa), com o propósito de salvar uma teoria indefensável pela razão e pelas evidências. Têm DNA compatível com a fé cega, aparecem amiúde quando há embaraço de se admitir que se crê pelo hábito, necessidade, conveniência, esperança, não porque se adotou a hipótese mais lógica, mais sensata. É muitas vezes o contra-ataque de crentes letrados que se viram compelidos, em um primeiro momento, a se render às evidências, por brios intelectuais, para demonstrarem isenção e assim manterem a credibilidade, profissional ou em um meio social, familiar.

Exemplos abundam, quase sempre ligados a "verdades" religiosas cujas fundações estão cedendo. Uma posição pode ter sido razoável, sólida, há duzentos anos e não sê-la hoje. Por mais de três mil anos a passagem de Adão e Eva foi tida como literal pelo clero, pelo povo, por filólogos, luminares, exegetas, estes com o auxílio do próprio Espírito Santo - e de fato não há como conciliar a doutrina do pecado original com o poligenismo (Encíclica Humani Generis). A partir do momento em que foi demonstrado que temos ancestrais comuns aos macacos, tudo sempre foi metáfora, foi o modo que pastores da Idade do Bronze encontraram para reproduzir as verdades cristalinas inspiradas por Deus. Acreditava-se que o mundo havia sido criado há seis milênios e que todas as espécies surgiram de uma vez, desenhadas por Deus. A partir do momento em que foi provado que o universo existe há bilhões de anos e que os animais evoluíram por milhões de anos, tendo os dinossauros se extinguido antes mesmo do surgimento do homem, passou-se a dizer que o tempo de Deus não é o nosso, que seu dia é eras, criacionistas chegaram a afirmar que os animais petrificados haviam sido plantados por Satanás para confundir os crentes.

Cria-se na alma. À medida que os estudos do cérebro avançaram, que os movimentos, as sensações, a memória, a personalidade, os desejos e medos passaram a ser relacionados a determinadas áreas da massa craniana, a equilíbrios químicos, passou-se a afirmar que a massa cinzenta é como um receptor de rádio, sendo a alma um transmissor de ondas. Temos que concordar que os miolos de uns por aí são radinhos que reproduzem a Rádio Vaticano, mas daí a existir alma...

Analogias são necessárias para se explicar algo complexo ou técnico, para se romper bloqueios mentais. Infelizmente, falsas analogias são recurso usual de argumentadores cujas posições a lógica e as evidências não têm muito com que ajudar.

Ao contrário dos rádios que conhecemos, só há uma estação em nossa cachimônia. Para mudar a sintonia, captar ondas de frequência diversa, é necessário ir a um centro espírita e incorporar um dos fantasmas de escritores famosos e imperadores que têm licença de frequentar o espaço após um intensivão de português para principiantes no Nosso Lar (não se psicografa em grego e latim), ou em um terreiro de macumba e incorporar um quilombola ou um deus africano. Compositores de música clássica são barrados porque o pentagrama lembra o demônio e é melhor não brincar com suas transmissões radiofônicas, as quais, diga-se de passagem, pegam melhor em cultos evangélicos. Mas é necessário que o rádio tenha dial, ou seja, que se tenha a tal mediunidade.

Se o rádio tiver um componente danificado, basta trocá-lo para que volte a funcionar normalmente. Se uma área do cérebro for danificada e a substituirmos por outra idêntica, tudo ficará como antes? Argumentar-se-á que o contato com o mundo altera os capacitores e outros componentes do rádio e que, por sua vez, eles abrem caminho para outras facetas da alma ou alteram ela própria, de modo que trocar o capacitor novo por um antigo ou de outra marca limitará a transmissão da alma, ou da nova alma. Na verdade, se brincarmos com os componentes do radinho dos dualistas, a Nona Sinfonia de Beethoven passa a ser tocada com saxofone e bateria, em determinado momento, em outro com guitarras distorcidas, em seguida ela vira o Bonde do Tigrão. E sem alterarmos a emissão. Sabe-se que a memória é gravada fisicamente no cérebro. É, porventura, gravada no fantasminha, no homúnculo que vive em nós? Caso afirmativo, se a apagarmos fisicamente sem danificar o cérebro, o homúnculo consegue reimplantá-la no cérebro ou a alma também se esquecerá para sempre? Certamente a segunda opção.

E na experiência em que se ensinou uma tarefa para um rato, gravou-se as conexões mentais ligadas à memória recente em um chip e depois bloqueou-se a área do cérebro em que elas ocorreram para em seguida implantar-se o circuito eletrônico, acionando-se surpreendentemente a memória do aprendizado (link)? E quando se enviou os dados do chip pela internet e, a milhares de quilômetros do experimento original, inseriu-se as informações recebidas em outro chip, que foi implantado em um outro rato, que executou a tarefa como se fosse sua própria experiência (última Veja, Guardian e outros)? É questão de tempo até que estes avanços interfiram diretamente na vida do homem. Ora, somos, em parte, nossas memórias. Como harmonizar essas experiências com ratos e o conceito de alma? Como crer em um homúnculo imaterial que vive dentro de nós, que, se possui memória, não consegue reimplantá-la no cérebro em que foi apagada - algo que já se pode fazer com um mero chip? Como crer em alma quando tudo o que somos pode cada vez mais ser explicado fisicamente?

E como a hipótese lida com os casos de cérebros divididos (link Wikipedia – link Youtube), em que há duas consciências independentes?

Se melhorarmos a “recepção” de macacos com transplante de partes de cérebro de homens “desencarnados”, cujas almas já estão junto de seu deus, no inferno, aguardando julgamento ou no Nosso Lar de Chico Xavier, os símios passarão a ter alma ou sempre a possuíram, quiçá por terem sido criados à imagem e semelhança de Hanuman, o deus-macaco hindu, mas apenas nunca tiveram um rádio à altura?

Enfim, pelo modelo do radinho, ao longo de nossa vida nossa alma não aprende nada, já que o aprendizado se dá fisicamente, no receptor, por conexões. Desde a primeira infância melhora-se o acesso à rede de neurônios, aprende-se incontáveis coisas, obrigatoriamente esquece-se de muitas outras, nossas decisões morais são baseadas na experiência, na memória portanto, no aprendizado, inclusive emocional. A personalidade se forma assim, além das predisposições genéticas. Para quê serve a alma, nesta vida? Como se medirá seu mérito e demérito depois de desencarnada, já que estará pura, por jamais ter fixado qualquer experiência? E outro problema: não podemos gozar eternamente no paraíso enquanto nossos filhos padecem horrores no inferno, então de duas uma: ou deixamos de ser nós mesmos perdendo a memória no Rio Letes, que está no Hades ou no Purgatório de Dante, ou virando um monstrinho amoral do quilate de Deus e achando tudo bem feito, porque, afinal, eles "escolheram" estar longe do Pai. Em qualquer um dos casos deixamos de ser nós mesmos e, consequentemente, não somos nós os imortais mas uma outra consciência. Ou não existe punição e recompensa. Aí Deus é o inútil que aparenta ser, porque além de não interferir neste mundo, como constatamos, não atua no "outro".

Não subestimemos a capacidade dos crentes elásticos de empunharem novas hipóteses ad hoc, novas analogias como se fossem prova de algo. No futuro seremos, quem sabe, proxies de uma alma não atuante que incorporará nossos méritos e deméritos, que ficará mais brilhante ou mais enegrecida de acordo com nossas ações, e que será imortal como todos sempre desejamos ser. Na verdade, a crença na alma imortal se extinguirá caso se conquiste a imortalidade física, mediante o fim da decrepitude e por backups de cérebro e órgãos reimplantáveis após acidentes ou doenças. Aí os crentes relaxariam, pois já teriam conquistado aquilo que, no fundo, é um desejo não um argumento, uma esperança não uma posição racional. E quem sabe depois veriam que a imortalidade estaria mais próxima de uma maldição, sentir-se-iam talvez como os Struldbrugs das Viagens de Gulliver, cometeriam suicídio. Sabemos, por experiência, que o prazer está ligado à finitude, à efemeridade, é assim na contemplação de um pôr do sol, na graciosidade da primeira infância de nossos filhos, com nossas ingênuas conquistas juvenis, com um chope animado entre amigos, em uma noite romântica com a esposa, numa viagem que nem sempre podemos fazer. A vida é preciosa porque é efêmera.

Entre Jesus e Epicuro, fico com este, que disse, três séculos antes do sedizente "Único Caminho": "A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais." Epicuro sim venceu a morte, com sabedoria. O "çábio" judeu apenas alimentou vãs e antigas ilusões...

06 fevereiro 2013

50 Tons de Cinza

Quando uma criança é pequena precisamos ensinar de forma didática o que é ser mau e o que é ser bom. Então temos a famosa historinha do Lobo Mau, que mostra o que é ser mau. A partir do Lobo Mau podemos fazer analogias com situações da vida real para tentar dar significado a contextos para a criança. E temos uma série de outros contos que tentam mostrar o que é ser bom e o que é ser mau.

À medida que crescemos vamos percebendo que o mundo não é preto e branco e nem as pessoas são inteiramente boas ou más. As pessoas são intrinsecamente falhas, como ilustra a historinha bíblica do pecado original. Como resultado, as suas ações, mesmo aquelas bem intencionadas, também são falhas. Já dizia um velho adágio que o caminho do inferno está calçado de boas intenções.

A partir destas premissas vejamos, por exemplo, a eleição do presidente do Senado, o Renan Calheiros. Ele ganhou a eleição para esta cadeira com mais ou menos 75% dos votos dos senadores. O que isto quer dizer? Será que aqueles que votaram contra o Renan são necessariamente bons? Certamente, podemos contar entre eles o Cristovam, que recentemente propôs a federalização do ensino básico como uma panaceia para melhorar a sua qualidade e acabar com a desigualdade entre os ricos e os pobres, o velho Pedro Simon, que já está cansado de guerra, o Eduardo Suplicy, que em seu doutorado nos Estados Unidos entrou em contato com os ideais de Gary Becker de subornar mães, os quais acabaram sendo a base do Bolsa Escola e depois do Bolsa Família. Enfim, figuras que já estavam boas para se aposentar. Temos um Jarbas Vasconcelos com sua lucidez e sua estória de luta pela democracia no Brasil...

Do lado de Renan temos figuras como o velho Sarney e seu pragmatismo absolutamente amoral. Talvez Sarney tenha feito o pior governo da história deste país quando presidente da República, mas acabou sendo excelente para o fortalecimento do PMDB, o que de certa forma viabilizou o nascimento do PSDB, que seria o partido que mais tarde acabaria com a inflação no país. Ironicamente, os técnicos que montaram o Plano Cruzado para Sarney foram mais ou menos os mesmos que montaram o Plano Real para o Fernando Henrique. A diferença é que FHC teve a liderança e o espírito republicano necessário para fazer os dolorosos ajustes necessários ao Plano, apesar das crises do México, da Rússia e da Ásia.

Outra historinha bíblica é a do Bezerro de Ouro, em que Moisés é surpreendido pela fraqueza do povo em adorá-lo. A reação do profeta foi forte mas, apesar disto, o povo não aprendeu e nunca irá aprender. Faz parte da sua natureza a necessidade de idolatrar. No Brasil, temos a idolatria do Lula e seus apóstolos petistas defensoras dos fracos e da ética. Os fatos desmentiram estas pretensões mas, nem mesmo eles são mais fortes do que a idolatria que desafia a razão. De fato, temos aqueles que poderíamos qualificar como os do PT do B, ou seja, PT da Boquinha e outros menos venais. Há até mesmo aqueles que poderíamos chamar de bons.

Mas o mundo é cinza e de boas intenções a estrada para o inferno está calçada. Lembro-me que há alguns anos, o fala mansa do Palocci era um grande defensor da Reforma Constitucional no Brasil. Outro menos discreto como o Dirceu defendia a criação de um Conselho de Ética para os Jornalistas enquanto que Franklin Martins defende o controle “social” da mídia. Temos ainda aquela velha lenga lenga da Reforma Política na qual o PT insiste na criação do voto de lista fechada. O voto de lista fechada é o voto pacote da net. Se quiser tem que comprar todos os canais senão não assina. Assim, o partido garantiria a eleição daqueles nos quais nem o povo votaria.

Curiosamente, não foram os bons do PT os maiores adversários destas teses sinistras e pouco democráticas. Foram justamente os bandidos do PMDB e de outros partidos aqueles que souberam enxergar sob este manto de cordeiro. Afinal, nada como um bom canalha para reconhecer outro. Desta forma, e servindo aos seus interesses mais egoístas, o PMDB buscou preservar sua base de poder, o Brasil. E, assim, a meu ver, serviram a democracia. É, seria muito difícil explicar para uma criança que o lobo mau às vezes pode ser bom e os bons em sua fraqueza e ilusões podem servir o mal. Não é qualquer um que entende que por trás de grandes ideais e boas intenções justificam-se grandes atrocidades.

02 fevereiro 2013

A Ilha Misteriosa

João e Carlos caminhavam pela ilha a poucos quilômetros da qual naufragara seu barco de pesca, após enfrentar horas de tempestade. Rádio, sinalizadores e celulares foram a pique com ele.

- Creio que seja deserta. - disse João, quebrando o silêncio. Parando de repente, gritou: - Veja! Uma casa sobre aquelas rochas!

Correram até lá. A casa simples, de duas águas e um pequeno alpendre, parecia ser recém construída. Carlos estranhou não haver caminhos próximos ou mesmo pegadas. A porta estava fechada. Carlos espiou pela janela e pode ver, através de um pequeno vão entre as cortinas, que lá não havia móveis, apenas o que parecia ser a maquete de uma construção. Foi o máximo que a penumbra lhe permitiu discernir.

- É a casa de um arquiteto? E os jardins, os caminhos para acessá-la, os móveis, o pano de vidro para aproveitar a vista? – disse Carlos.

- Certamente é habitada. É nova. Ô de casa! – gritou João.

Sentaram na varandinha e esperaram um longo tempo. Nada. João forçou a porta umas vezes e depois tentou arrombá-la. A construção inteira tremeu com suas investidas. Relutante a princípio, Carlos arremessou uma grande pedra contra a janela, mas o vidro não quebrou.

- É uma fortaleza! – espantou-se João.

Prosseguiram a exploração da ilha. Após cruzarem um vale escarpado, acharam uma casa quase idêntica à primeira, um pouco maior, velha e mal acabada. Não possuía porta frontal, apenas uma entrada de serviço nos fundos. Tinha uma chaminé, mas muito estreita para eles passarem.

O sol se pôs e uma fina chuva os fez montar acampamento no alpendre da casa velha. “Por que esta varanda, se não é acessada por porta alguma?”, pensou Carlos.

De manhã, encontraram nas imediações outras casas, todas lacradas, parecidas mas de tamanhos levemente diferentes, uma ligeiramente mais escura, outra com cumeeira não centralizada, as que tinham chaminé não possuíam porta frontal. Percorreram toda a ilha, que era pequena, e não encontraram viva alma. Retornaram à primeira casa. João espiou pela janela.

- Levaram a maquete. A sala está vazia!

- Talvez os responsáveis morem no continente, ou em outra ilha, e venham cá apenas para experiências arquitetônicas.

Não restavam dúvidas de que alguém erguera aquelas construções e que estava por perto - a maquete ter desaparecido da sala o corroborava. E, afinal de contas, as casas não poderiam ser fruto do acaso. Mas Carlos pensou, intrigado: “Por que fazer maquete se todas as casas são muito parecidas? Para um cliente entender o projeto?” Acamparam no alpendre e decidiram que não sairiam de lá até toparem com alguém e obterem explicações e ajuda.

Após uns dias, durante os quais se revezaram para catar cocos e caçar pequenos animais, ficando sempre um a montar guarda na casa, testemunharam algo maravilhoso. Acordaram à noite com ruídos que pareciam vir do vale, ecoando por suas paredes. Algo parecia se arrastar, depois ouviu-se um impacto estrondoso, voltou o arrastamento, novamente o impacto, em uma nítida cadência, o som cada vez mais alto, próximo. Esconderam-se em uma fresta nas rochas a alguns metros da casa, e quase não acreditaram quando viram uma grande mansão de dois andares surgir de repente, tombar em frente ao telheiro da outra e, perante os dois pescadores boquiabertos, na casinha introduzir sua chaminé pela porta frontal, aquela inexpugnável porta! Depois de uns instantes o sobrado endireitou-se, como se centenas de homens o içassem com cordas e polias, e sumiu desajeitadamente por onde surgira.

Impossível descrever o assombro de João e Carlos. Não saíram antes que nascesse o sol e, como se sonhassem acordados – de fato, não conseguiram pregar os olhos um instante sequer -, andaram de um lado pro outro desatinados, sem chão. Carlos, parecendo recobrar um pouco suas faculdades, acercou-se da janela, espiou e caiu para trás:

- Uma maquete!

Inexplicável! Ficaram por lá mais umas noites, protegendo-se das intempéries na toca que encontraram, sem terem coragem de dormir novamente próximos àquela bizarrice em forma de casa. Contudo, espiavam pela janela e viam a maquete um pouco maior a cada dia, até que ela, agora em escala 1:10, saiu sozinha pela porta da frente, ficou um pouco sob o alpendre e depois se arrastou, como um filhote de tartaruga, em direção ao vale.

- Deveras impressionante! Então ninguém as construiu. As casas são vivas, reproduzem-se, são levemente diferentes umas das outras. – empolgou-se Carlos, ainda assustado, contudo. – Envelhecem e ficam mal acabadas, como aquele “macho” que vimos no vale.

- Que estupidez – replicou João. – Um arquiteto com formação em mecatrônica as construiu, as programou para se replicarem. Deve estar escondido por aí. Deve ter um plano.

- Por que alpendre nos “machos”, se não possuem porta frontal? Havia reparado, inclusive, em nossa excursão pelo vale, que as “fêmeas” têm como que uma cicatriz de chaminé na cumeeira. Por que projetar tais elementos inúteis?

João passou semanas gritando a plenos pulmões para que o arquiteto aparecesse, enquanto Carlos explorava a ilha. Encontrou, em umas cavernas do vale, restos petrificados de casas bem diferentes daquelas que se viam erguidas na ilha, pedaços de outras em um charco próximo que possuíam algo idêntico a um motor de popa junto à porta dos fundos. Quando Carlos mostrava suas descobertas a João, este, irritado, o criticava por não ajudá-lo a procurar pelo arquiteto. Depois, convencido de que este era invisível, passou a acreditar que além de criar as casas comandava a ilha, de modo que passou a lhe pedir em voz alta por chuva quando fazia muito calor, por comida quando tinha fome. Às vezes era atendido, às vezes não, principalmente quando era exigente e muito específico. Mas sempre, em agradecimento, deixava peixes e frutas sobre grandes pedras que empilhara conforme ordens que o próprio arquiteto lhe dera em sonhos.

Um dia João escorregou do alto de suas pedras, quando tentava aumentar a pilha, despencou no chão, rasgou a perna e bateu a cabeça. Carlos cuidou do amigo, passou nos ferimentos sal marinho que isolara em piscinas de evaporação, protegeu-os com panos limpos, deu-lhe água e comida.

Quando se sentiu novamente disposto, João foi à sua pilha de pedras agradecer ao arquiteto por ter tratado de seus ferimentos. Carlos, entendendo que o outro precisava do amiguinho imaginário para sobreviver naquela ilha sem sentido no meio do nada, prosseguiu tentando entendê-la e com pesar deixou de lado seu desvairado companheiro, que agora sonhava com o dia em que o arquiteto cumpriria sua promessa de o levar para o Palácio de Versalhes invisível que se erguia majestoso sobre as nuvens...

Quem achou esta alegoria esquisita é porque não assistiu à 6ª temporada de Lost...

15 janeiro 2013

A Ditadura de Chávez

Mais uma vez a democracia Venezuelana se revela uma farsa e seu país se mostra profundamente dividido. O homem que se pretendia o líder do socialismo do século XXI revela-se mais um caudillo e sua carreira política termina como começou, com um golpe. Inflação de mais de 1000%, escalada de violência, profunda divisão nacional e escassez de alimentos são marca de seu governo, que iria para o 14º ano. Seu estado de saúde é segredo de Estado só conhecido por alguns colaboradores com o apoio do serviço secreto cubano. De fato, ignora-se mesmo se o líder da Revolução Bolivariana encontra-se morto e esteja sendo usado como o cavaleiro castelhano “El Cid”, cuja lenda diz que seu cadáver foi vestido em uma armadura e montado em seu cavalo Babieca para elevar a moral da tropa ou mesmo para ganhar uma batalha, dependendo da versão.

Chávez era um misto de presidente da República e Silvio Santos com seu programa dominical, onde usava a sua verve para atacar os Estados Unidos, que também é seu maior cliente e comprador de petróleo, maior fonte de riquezas nacional. Mas falar mal dos gringos é um passatempo muito popular na América Latina, assim como fazer compras em Miami.

Comparando o Brasil a seus hermanos, acho que estamos em vantagem. Em nossa história, golpes militares foram dados por generais ou marechais. Nos nossos vizinhos, qualquer coronel achava que podia fundar um novo governo. O tenente-coronel Chávez deu o seu golpe em 1992, mas fracassou e foi preso. Em retrospecto, o maior erro do presidente Perez foi ter perdoado o golpista. Às vezes, a tentação para a conciliação se revela uma grande e desastrosa fraqueza.

A história da Venezuelana é cheia de golpes e de ditadores. O mais famoso foi Juan Vicente Gomez em cujo governo o petróleo foi descoberto no lago Maracaibo. Chávez sonhava em permanecer no poder por 30 anos, mais tempo do que Gomez, que ficou de 1908 a 1935. Em seu governo, o Exército ajudava a cuidar do gado do ilustre ditador e a Venezuela era sua grande hacienda. A maioria dos seus cerca de 64 filhos encontrou empregos ou favores no governo.

Após a partida deste ditador, teve-se mais alguns golpes e um ambiente político polarizado pelo COPEI e pela Ação Democrática. Apesar disso tudo podemos destacar o ministro venezuelano Juan Pérez Alfonzo, que foi um dos fundadores da OPEP ao lado do sheik Abdhullah Tariki. Alfonso, após amargar o exílio nos Estados Unidos, voltou para servir no governo após a queda do ditador Gomez. Ficou impressionado com a riqueza que encontrou na capital e com o desperdício da era do petróleo. Mandou o carro que usava nos Estados Unidos, um Singer, e só foi avisado de sua chegada ao porto 3 meses depois do fato. Quando mandou um mecânico buscar o carro ele já se encontrava enferrujado. O mecânico descuidou de verificar o óleo e fundiu o motor e o carro chegou a sua casa de reboque. Fez questão de colocar o carro em seu jardim como um símbolo do desperdício em seu país vivendo na opulência do petróleo.

Talvez este seja o problema da Venezuela. Ditaduras, petróleo e populismo. Talvez este seja o segredo de Chávez que, como todo líder carismático, também conta com a sorte a seu lado e no caso dele um petróleo próximo da casa dos US$ 100. Para se ter uma ideia, quando ele assumiu valia menos de US$ 20. Enfim, os filhos do grande papai Chávez desfilarão nas ruas e matarão em seu nome órfãos de suas promessas e a espera de mais alguém que os venha salvar.

04 janeiro 2013

O Milagre de Foot Grain



O minúsculo grânulo de rocha ígnea cuja fotografia apreciamos acima é muito especial, protagonista de um verdadeiro prodígio. Sua forma não tem igual em todo universo. Com comprimento de aproximadamente meio milímetro, lembra um pouco um pé humano, devido em parte a manchas brancas intermitentes de sílica e feldspato, o que levou à alcunha "Foot Grain" pela qual tem sido chamado. Foi descoberto após um evento extraordinário, com probabilidade virtualmente nula de ocorrer, ou melhor: uma em um trilhão.

Em Pismo Beach, Califórnia, o japonês Arima-no Miko, vendado, andou às cegas pela praia em uma área demarcada de 1000 m², inseriu a mão na areia e isolou, após esfregar o polegar e o indicador, justamente o Foot Grain. Exatamente ele! O cálculo da probabilidade foi feito levando-se em conta a quantidade de dez grãos por mm² e uma profundidade de 10 cm. Perante uma multidão emocionada, o precioso grãozinho foi transferido para a Igreja de São Paulo Apóstolo, também em Pismo Beach, onde hoje pode ser venerado através de potentes lentes de aumento e projetores. Cópias em tamanho ampliado já estão sendo vendidas em lojas da vizinhança, assim como camisetas com os dizeres "one in a trillion = miracle". Curas têm sido atribuídas à pedra miraculosa, hoje mais famosa do que o meteorito da Caaba, um ganhador da loteria afirmou ter segurado uma réplica do diorito, enquanto escolhia os números. Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que Foot Grain não era conhecido antes do episódio, sequer tinha nome próprio, que não há nada de especial em sua composição geológica, que só se parece com um pé de um único ângulo e com muita boa vontade, que não havia a intenção de sorteá-lo exatamente ele, e que o escolhido poderia ter sido um outro grão qualquer e que a coisa toda era um completo desvario.




Fotografia de Foot Grain com outros grãos de areia tirada por Mark A. Wilson, do Departamento de Geologia do Wooster College.

O caso chamou a atenção do mundo, mas às vezes esquecemos que o simples fato de estarmos aqui é um milagre muito mais impressionante do que o do grão de areia. Se a Terra não estivesse à distância que está do Sol, se a colisão com um planeta chamado Theia ou sucessivos e intensos terremotos não tivessem inclinado seu eixo de rotação, o que propiciou as estações do ano, se não houvesse Lua, se há 65 milhões de anos um meteoro não tivesse caído por aqui e extinguido os dinossauros, após o quê tiveram oportunidade de evoluir para símios os pequenos mamíferos que de fendas e tocas viam passar as colossais patorras daqueles predadores pecilotérmicos, se tudo não tivesse ocorrido precisamente do jeito que ocorreu, hoje as coisas não seriam exatamente como são. Aqui seria Marte ou outro planeta do Sistema Solar que está em outra órbita, que tem outro tamanho e que não tem vida, e obviamente ninguém estaria escrevendo estas pérolas e ninguém as estaria lendo (quanto a isto, pouco mudaria). A probabilidade de tudo ter acontecido do jeitinho que aconteceu é, para inventar um número "exosférico", de uma em milhões de decilhões, ou seja: Milagre! Deus existe! E sem falarmos que cada uma das sete bilhões de pessoas do planeta nasceu vencedora, é o miraculoso fruto do espermatozoide ganhador de uma disputa acirradíssima no útero materno, mais concorrida do que qualquer mega-sena, contra 300 milhões de concorrentes. Não estou contando com os dias inférteis da mulher e com os "girinos" desperdiçados, às vezes com chances nulas de encontrar pela frente algo diverso de uma membrana de látex (entre outras possibilidades). Há quem argumente (adivinhem quem) que se fosse qualquer outro espermatozoide a fecundar o óvulo, consideraríamos milagre do mesmo modo, porque analisamos os fatos após terem ocorrido.

Há milagres não tão espetaculares mas com a peculiaridade de terem data prevista e repetições amiudadas. A mega-sena, por exemplo, citada no parágrafo anterior. Segundo os estatísticos, para cada jogo a probabilidade é de aproximadamente 1 em 50 milhões. Na verdade, a chance é maior (o que torna o milagre menor), uma vez que as bolas armazenam em uma memória quântica - muito bem explicada no filme "Quem Somos Nós" (What the Bleep Do We Know!?) e nas experiências de Masaru Emoto -, os números decimais em algarismos arábicos, repelindo combinações em sequência, progressões perfeitas aritméticas, principalmente com diferença comum de uma dezena, e números que saíram na edição anterior. Contudo, dígitos que saíram muitas vezes, como o 5, imprimem-se também quanticamente na mente dos milhões de apostadores e mesmo na dos auditores presentes no sorteio, aumentando a probabilidade de saírem novamente.

Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que, pela lei dos grandes números, sempre nos depararemos com eventos incomuns, que teremos provavelmente 3 ganhadores quando 150 milhões de apostas forem feitas, e que nos resultados nunca se viu números em sequência ou progressões aritméticas como 10, 20, 30, 40, 50 e 60, porque o número de edições da mega-sena é pequeno em relação às milhões de possibilidades. São 105 sorteios no ano, então seriam necessários 500 mil anos com dois sorteios semanais para que talvez víssemos sair um resultado como 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Dizem que as bolinhas não sabem qual número está impresso nelas, não são vivas e sequer consciência possuem, além de não possuírem controle sobre seu corpo esférico, e a probabilidade de saírem dígitos em sequência é a mesma de sair qualquer outra combinação. Os céticos, cada vez mais em descrédito nesta sociedade de verdades plurais, podem até ser especialistas em ciência física, mas certamente não o são em ciência metafísica quântica. Parecem desconhecer, por exemplo, a sincronicidade, provada, por meio do próprio testemunho, por Carl Gustav Jung nos anos vinte do século passado. Invocam a Lei de Littlewood, um cientista obscuro, de menos prestígio que o psicólogo suíço, segundo a qual uma coisa acontece por segundo, em um mês acontecem um milhão de coisas, para quem é ativo por oito horas diárias, e, definindo-se milagre como um evento com probabilidade de uma em um milhão de ocorrer, todo mês presenciamos um milagre. Com tal irônica falácia tentam tirar a poesia do mundo, o milagre de nosso dia a dia (por que apenas mensal?), a nossa razão de viver. Fugindo um pouco do assunto, a respeito da mega-sena, dizem ainda que é um imposto sobre a estupidez, que loterias oficiais são um jeito que governos usam, desde antes de Cristo, para aumentar a arrecadação sobre a massa ignara sem apelar para impopulares impostos formais, porque as chances de ganhar tendem a zero e o governo sempre ficará com a maioria do dinheiro.

Eventos como o encontro miraculoso de Foot Grain calarão por hora a boca dessa malta de estraga-prazeres. Aguardemos o momento em que mostrarão de novo suas garrinhas envenenadas!
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