Após engravidar a própria filha enquanto o futuro genro dava duro na carpintaria, descer em forma de pomba sobre o companheiro de trindade a ser banhado pelo primo locustófago, após descer como línguas de fogo sobre os membros da gangue de Ben Pantera, o Espírito Santo ficou em uma espécie de sono letárgico por quase dois milênios, limitando-se a fazer biscates como auxiliar de exegetas e a opinar em concílios, voltando há pouco a operar maravilhas nos evangélicos e carismáticos católicos após os negros de Nova Orleans acharem uma brecha na lei – o Pentecostes de Atos dos Apóstolos - para inserirem nos cultos cristãos a catarse de seus ritos africanos. Houve pequenas mudanças, claro: se nos bons tempos ele descia, hoje o Espírito baixa.Hoje a missa é considerada desanimada em comparação aos cultos evangélicos. Historicamente, no entanto, os protestantes – em especial os puritanos dos EUA – desejavam uma volta ao cristianismo primitivo, seus hábitos e cultos eram austeros, sisudos, principalmente se comparados aos católicos e seus templos em estilo pagão cujas paredes e abóbadas ornamentadas por esfuziantes esculturas e pinturas sensuais reverberavam notas de pujantes óperas sacras, melodramáticas, onde o ar recendia a incenso, onde o sacerdote coberto por paramentadas sotainas proferia, de costas para a nave, palavras mágicas em latim que ameaçavam, garantiam proteção, transubstanciavam pão em carne de teântropo. Mesmo o pietismo, um movimento surgido na Igreja Luterana onde se buscava uma experiência individual com Deus, vitalista, não era nada festivo. Algo dele influenciou os metodistas e chegou às primeiras igrejas pentecostais americanas. Mas o pentecostalismo não veio do pietismo, daquele lá do séc. XVII, como afirmam alguns católicos carismáticos.
Quando havia comércio de escravos nas Américas, o vodu cruzou o Atlântico com os negros que o praticavam e criou raízes nos EUA (Nova Orleans) e Caribe (Haiti). O vodu original de estilo africano parece ter chegado mais ou menos intacto por lá. Em um ambiente cristão severo, protestante, existiam leis contra a execução de sua música ritmada, mas com escassos resultados. William Seymour, um filho de ex-escravos de Louisiana, promoveu o sincretismo dessa espiritualidade ancestral com o cristianismo, encorajando a música ritmada na igreja como parte da busca pela experiência imediata com o Espírito Santo, assim como a glossolalia*, o transe, a dança - a catarse, enfim - essenciais na espiritualidade daqueles africanos. Horas sem se alimentar, cansaço físico, alucinações decorrentes... Do ponto de vista biológico, as catarses, ritmos e danças fazem o cérebro liberar ocitocina em boa quantidade (hormônio que atinge um pico pouco antes do orgasmo sexual), endorfina e outros hormônios do prazer que podem levar o "usuário" a querer cada vez mais catarses, mais danças, mais música ritmada.
Tal histeria - que antigamente apenas víamos nas igrejas evangélicas americanas freqüentadas por descendentes de africanos -, aquelas pessoas em transe a emitir seus “gemidos inefáveis” (Rm 8, 26), essas coisas semelhantes a rituais de vodu e candomblé só apareceram no cristianismo, portanto, com os negros dos EUA. Hoje vemos caricaturas daquele fervor, que ao menos era autêntico, nos católicos e nos evangélicos brasileiros e de outros grotões subdesenvolvidos. No caso dos Carismáticos Católicos, com seus maneirismos idênticos aos dos evangélicos, o Espírito Santo lhes sugeriu plagiar os “irmãos separados” para evitar a debandada de fiéis, que seria radicalmente maior se na RCC se buscasse o contato com Deus apenas com orações e com o velho e maçante ritual da Missa.
Como devemos olhar os frutos para julgarmos a árvore, segundo o amaldiçoador de figueiras, as antigas cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, eram boas e santas porque permitiram a volta na cristandade daquele Espírito Santo que não se via desde o Pentecostes.
*Glossolalia
Romanos 8, 26 e 27: “Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus.”
Somos fracos e não sabemos orar e o que pedir, por isso o Espírito Santo nos trata como títeres movendo nossos lábios e vibrando nossas cordas vocais para que sejam emitidos burlescos sons estilo “shá-lá-lá-lá-shimanian-nan-lá-lá” (carismáticos costumam fazer a glossolalia com sons que julgam se parecer com algo semita - árabe ou hebraico). Após isso, Deus, burocrático como sempre - não é um com o Espírito Santo? -, ouve os gemidos, os compreende, e atende. Atende, é lógico! A fé move montanhas e placas tectônicas. Eu posso rezar sem fé, mas não se é o próprio Deus que reza a Deus por mim, não? Na verdade, essa oração em línguas pode ser até um pedido para que o Haiti seja arrasado. Não há como saber, uma vez que no versículo seguinte ao disparate destacado acima lemos: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios.” Ou seja: até mesmo o terremoto no Haiti concorre para o bem dos eleitos, por isso o bom deus de Zilda Arns lhe acachapou a cabeça com uma trave de concreto.
Uma teoria maluca que elaborei hoje pela manhã: Nova Orleans, há não muito tempo, foi arrasada pelo Katrina. Neste terrível janeiro de 2010 a capital do Haiti foi destruída por um terremoto e a região de Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Paraitinga, no leste de São Paulo, foi fortemente castigada pelas chuvas. Em Paraitinga, uma igreja história de uns 200 anos veio abaixo com a força das chuvas. Essa é a região brasileira onde a Renovação Carismática Católica é mais forte. A sede da Canção Nova, por exemplo, fica em Cachoeira Paulista. Será que tudo isso está acontecendo porque Javé resolveu implicar com o Vodu, contrariando os planos do Espírito Santo? No mundo das religiões, tudo é possível!
