29 maio 2007

Deus, Cidades, Pólvora e EUA

A seguir, algumas de nossas brilhantes invenções. Mas a criação de um sistema de crenças talvez seja superior a todas elas.

Deus

Talvez umas das criações humanas mais inspiradas tenha sido o próprio Deus. Como dizia um psicólogo tentando explicar por que as pessoas acreditam em Teorias da Conspiração, temos uma tendência a procurar uma causa proporcional aos efeitos causados. Por exemplo, se amanhã o Lula tomasse uma cana, escorregasse no banheiro e fosse para o beleléu, haveria aqueles que diriam que foi tudo uma conspiração e não um acidente idiota. A mesma coisa se o Aécio sofresse um acidente fatal qualquer, como aparentemente foi o caso do ultimo futuro presidente da Republica, o Luiz Eduardo Magalhães. Enfim, Deus pode ter sido a criação de um superparanóico que precisava de uma causa cataclísmica para tudo o que existe.

Cidades

A cidade propicia intercâmbio intenso entre seus moradores; foi uma fantástica criação humana (plágio de um cupinzeiro?). Não na visão de Gengis-Khan, que a desprezava. Este conquistador devastou quase todas as cidades islâmicas da Índia a Bagdá, provocando um enorme retrocesso nesta civilização - e provavelmente contribuindo muito para o progresso europeu. Ele foi o responsável pela maior Cruzada de todos os tempos e nunca recebeu um obrigado do Papa. Quanta injustiça. O primeiro Khan aparentemente não entendia por que as pessoas escolhiam viver apertadas em lugares cercados por campos arados, comércio e pastoreio. Enfim, os mongóis eram nômades e, inicialmente, viam nas cidades obstáculos à sua movimentação.

Pólvora

Quinze medidas de salitre, três de carvão e duas de enxofre. A pólvora foi inventada na China há mais de mil anos. Parece que alquimistas, ao tentarem criar um elixir da imortalidade, descobriram acidentalmente a mistura explosiva que passou a ser mais utilizada como "elixir da mortalidade". Na América pré-colombiana havia algumas cidades, havia comércio, ciência, escrita, mas eles tiveram o azar de não ter tido contato com os chineses nem ter desenvolvido tecnologia militar numa seqüência de guerras entre Estados, como foi o caso dos europeus, e encontraram pela frente as tropas de elite espanholas, que em sua época era o que havia de melhor na Europa.

Ideais americanos

Os americanos acreditam que os Estados Unidos são a terra onde o sucesso individual e não a fidalguia define a sua posição social, onde o indivíduo e a sociedade são livres da religião e de dogmatismos. Sua grande sacada, na verdade, foi a sua proposta universal de acolher os oprimidos. Foi com este contingente de miseráveis italianos, alemães, judeus, irlandeses e outros, que os EUA criaram uma densidade populacional capaz de atingir o seu Destino Manifesto duplicando o tamanho do seu país ao anexar quase metade do México, cujos descendentes de espanhóis e índios eram poucos e viviam em uma sociedade muito menos dinâmica. Obs.: Não sei por que estas propostas universais têm tanto poder sobre a nossa psique, sejam de americanos a prometer liberdade de toda a tirania e oportunidades que definirão o seu lugar na sociedade, sejam de marxistas querendo superar todos os egoísmos em prol da igualdade de todos os seres humanos.

26 maio 2007

Elemental, meu caro Watson

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Helder Sanches pelo convite para participar deste primeiro debate interblogs, cuja questão é “Será o agnosticismo mais racional que o ateísmo?” - Clique aqui para acessar o post com a exposição do tema e das regras para a discussão.

Provas da Existência de Deus

Para o filósofo (afinal estudou filosofia) Olavo de Carvalho, se analisarmos um livro com a postura da ciência em relação ao universo, reconheceremos a celulose e o nanquim mas ignoraremos sua essência, aquilo que faz dele um livro. Para ele e a maioria dos crentes, uma analogia passa a ser a prova de algo, assim como uma evidência anedótica. Dentro do espírito desta analogia, pergunto se após uma mosca cerrar seu mosaico de olhos, genufletir quatro perninhas perante um exemplar do Rei Lear e juntar as outras duas em prece para que o Bardo de Avon lhe faça sentir o abnegado amor de Cordélia pelo injusto pai, passará a ter o inseto alguma gnose da tragédia?

Orlando Fedeli, o católico taliban responsável pelo site-bomba Montfort.org.br que acusa Olavo de Carvalho de grave heresia gnóstica - logo o nobre filósofo que sacrificou a própria credibilidade em prol da causa católica - diz provar a existência de seu deus usando os desgastados argumentos contidos na Suma Teológica de Tomás de Aquino (de Aristóteles, na verdade). Especialmente a IVª Via - Dos graus de perfeição dos entes – demonstra que Orlando e Olavo desconsideram totalmente a Seleção Natural e a Mutação das Espécies.

De acordo com o catecismo, os milagres seriam provas da existência de deus: "...para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade e estabilidade 'constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência de todos', 'motivos de credibilidade' que mostram que o assentimento da fé não é 'de modo algum um movimento cego do espírito'". (§156) É desnecessário dizer que os supostos sinais não puderam ser adaptados à inteligência de todos, tanto que são (sempre foram) mais freqüentes em locais de baixíssimo IDH.

Para muitos teístas, a evidência da existência de um deus está no gosto de uma uva suculenta, na imensidão do mar, na majestade das montanhas. Como disse Ariex, “Se lhe ensinassem que os elfos causam a chuva, toda vez que chovesse você veria a prova dos elfos.” A evidência da existência do deus das moscas - se elas fossem capaz de criá-lo -, estaria no saboroso gosto de excremento, na beleza de uma ferida aberta, na majestade de um cachaço enlameado.

Também dizem que a prova de que deus existe é você poder encontrá-lo dentro de si mesmo, no mesmo lugar onde as vestais encontravam Vesta e os vikings encontravam Odin. Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para "simbologias".

Alguns crentes tentam convencer o cético garantindo-lhe que dobrará a língua quando chegar a oximórica vida após a morte. Ou "Quando Jesus voltar você verá!". Ou usam a Aposta de Pascal como argumento de que deus existe porque é melhor acreditar nele, já que só teríamos algo a perder se, ele existindo, não lhe tivéssemos dado crédito. Se Pascal tivesse levado em conta a possibilidade da existência dos deuses de todas as civilizações, inclusive anteriores à nossa era, sua aposta teria sido bem mais arriscada. É o que os participantes deste debate mais têm enfatizado: Por que ser agnóstico em relação a deus se não o somos em relação a fadas? Sujeitos inteligentes como Conan Doyle - não tanto quanto sua mais famosa criatura, o racional Sherlock Holmes - possuíam motivos suficientes para crer na existência de elementais. Acessem por aqui o livro completo de Doyle intitulado "The Coming of the Fairies" e decidam se são "a-fádicos" ou agnósticos em relação às pequeninas.

E há os quase duzentos argumentos bobos para a existência de deus, como os Ontológicos:
Eu defino Deus como algo X. Já que eu posso conceber na minha mente o X, então o X deve existir. Então, Deus existe.
Ou: Deus existe. Já que Deus existe, então ele é perfeito. Aquilo que é perfeito tem que existir. Então, Deus existe.

Sou Agnóstico em relação a Agnósticos

Apesar do termo "agnóstico" ter sido criado por Thomas Henry Huxley, as bases do agnosticismo estão em Hume e Kant. Este afirmou ser impossível a matéria ser eterna e também ser impossível ter surgido do nada. A partir daí, desiste da metafísica por não poder especular sobre ela. Acho que a questão da causa primeira, porém, tem a ver com a Navalha de Ockham. Concordamos que o universo ter sempre existido soa absurdo. Mas criar uma instância a mais, transferindo meramente a questão para “um deus ter sempre existido”, não é nada econômico. E quem criou deus?

O agnóstico é aquele que diz ser impossível que o homem possa ter o conhecimento da existência de deus. Ele não se convenceu das provas listadas acima, mas isto não obrigatoriamente o impediria de crer em um deus impessoal, descrer nos deuses mitológicos, de não se importar com tudo isso, de fingir não se importar, de sentir deus como o amputado sente seu membro fantasma, de sentir culpa por descrer e de estar ligado a toda sorte de superstições. Eu diria até que a esmagadora maioria dos crentes é formada por agnósticos teístas, já que alguém não pode crer ou descrer de algo que sabe. “Crença e descrença sugerem a possibilidade de erro; conhecimento implica em que o erro esteja além das probabilidades razoáveis”, diz Robert T. Carroll. E isto também é válido se substituirmos “crença” por “confiança”.

Os agnósticos ateístas, por sua vez, não teriam um deus mas considerariam a possibilidade de acreditar em um caso lhes fosse provada sua existência. Pensando desta maneira, praticamente todos os ateus são agnósticos, uma vez que poucos são dogmáticos a ponto de, mesmo perante provas irrefutáveis, insistirem em refutá-las sem argumentos, como os criacionistas radicais fazem em relação ao evolucionismo. Eu, por exemplo, se me deparasse com o Mickey dançando sobre minha mesa, matasse-o a garfadas, analisasse seu interior e confirmasse não se tratar de um boneco, acreditaria plenamente na sua existência. Mas afirmo que ele não existe, e meu erro está além das probabilidades razoáveis. E conheço seu criador, Walt Disney.

Conhecemos também o criador de deus. O homem tomado pelo medo e ansiedade fez um deus onipresente porque necessitava de um espantalho para manter seus pares afastados dos frutos proibidos, para não dar ao assassino a sensação de completo anonimato, o homem fez um deus onisciente para poder ser ouvido, para que fossem conhecidas suas íntimas angústias, para que a divindade lhe desse presciência por meio de sonhos e visões, e, por fim, fez um deus onipotente por não dominar senão limitadamente o mundo natural, principalmente por estar à mercê da morte e dos acidentes. E o deus onipotente é movido pelas preces, o volante do motor, que fazem com que o homem compartilhe da onipotência divina, com que possa alterar a quantidade de lava expelida pelo Krakatoa apenas juntando as mãozinhas e tendo fé. Deus, o amiguinho imaginário dos medrosos, também ajuda a lidar com a solidão e a desesperança.

A grande questão que envolve os agnósticos, ao meu ver, é: eles não aceitam as alegadas evidências da existência de deus apontadas pelo teísta dogmático, as quais calham de ser o motivo pelo qual a idéia de deus existe. Um exemplo: Blondlot, no início do século passado, disse ter descoberto um novo raio, a que chamou Raio-N, e demonstrou com aparente sucesso sua tese por meio de experiências, que foram confirmadas por dezenas de outros cientistas. Mas posteriormente foi provado que todas evidências da existência dos tais Raios-N eram ilusórias. Assim, as falsas provas que alegadamente confirmavam a existência de Raios-N confundem-se com as falsas evidências ou razões que por primeiro levaram Blondlot a pesquisá-los e até a batizá-los. Ser agnóstico em relação a Raios-N é completamente irracional. Admitir a possibilidade da existência de algo como deus ou Raios-N, como faz o agnóstico, sendo que até mesmo a possibilidade nasceu de supostas evidências ou provas que o próprio agnóstico rejeita, não é algo racional, ao meu ver.

Conclusão: os agnósticos ou são ateus que não querem muita confusão ou são crentes cheios de dúvidas. Se é que existem agnósticos...

Update: o C. Mouro comentou - e concordo com ele - que nada impede que raios que não conhecemos existam e sequer venham a ser descobertos, bem como vida inteligente hoje desconhecida. Mas o erro daquele que afirma que o mundo natural que conhecemos não sofre interferências de um deus criador movido ou não por preces está além das probabilidades razoáveis. Se há um deus criador indiferente e não há como comprovarmos sua existência, tanto faz ele existir ou não. Então, por economia, não existe. Na verdade, a idéia de deus é uma questão secundária; o que interessa realmente é se existe ou não a oximórica vida após a morte. Tudo leva a crer que não existe, mas aí entramos em outra discussão. Sem vida após a morte o conceito de deus perde todo o sentido. Não quero, com este update, dar mais visibilidade à minha resposta ao comentário do Mouro. Desejo, ao contrário, evidenciar a sua pertinente colocação. Mas o termo "agnóstico" não pode ser estendido até aí, pois seríamos todos agnósticos em relação ao que não conhecemos - o que é uma boa de uma redundância. Usei o agnóstico para fadas e Raios-N apenas como analogia.

22 maio 2007

A Herança Maldita

O chefe do Executivo, sempre quando acuado por algum problema, gosta de dizer que tudo é culpa de uma "herança maldita" vinda de FHC e outros membros de uma pestilenta elite. Ele, o homem mais poderoso do Brasil, se diz perseguido pelos meios de comunicação que não mostram "as coisas boas" do seu governo. Ele devia procurar conhecer melhor a Carta Capital, a Tribuna da Imprensa, a Agência de Notícias do Planalto, a Caros Amigos, a Hora do Brasil e outros meios de comunicação patrocinados pelos seus aliados. Acho que seu problema é querer que todo mundo fale bem dele e do seu governo. Ele não gosta de crítica nem de oposição.

Ultimamente, sentindo o ceticismo em relação à sua pessoa, tem gostado muito de dizer "vocês vão ter que me engolir", evocando o desabafo de Zagallo após vencer a Copa América. Por outro lado, quando a notícia é boa ele adora se jactar com a frase "nunca antes na história deste país" ou "da humanidade", dependendo do quanto estiver embriagado... pelo próprio discurso.

Embora ele seja um sindicalista de origem humilde e nordestina, muitos do grupo que o cerca são da famosa geração de 68. São aqueles jovens esquerdistas de classe média que queriam mudar o mundo, que participavam de Manifestações na Cinelândia, roubavam bancos, justiçavam, faziam guerrilha e praticavam atos terroristas contra o regime Militar. Queriam implantar no Brasil algo como uma Revolução Cubana. Foram vencidos pelos militares e expulsos. Mas voltaram.

O curioso é que eles vivem da herança deixada pelos seus inimigos. O Lula herdou a estabilidade econômica iniciada no governo de Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real, que venceu a inflação, e hoje o Brasil bate recordes de redução do Risco País graças à gestão do Banco Central por um ex-banqueiro internacional e ex-membro do PSDB.

O alarde em torno da autosuficiência em petróleo, que incluiu uma visita sua vestido de operador a uma plataforma, foi graças à "herança maldita" do regime militar no qual o próprio Geisel foi presidente da Petrobras e durante cujo governo passou a ser explorada a bacia Campos, que após anos de pesquisa e investimentos, durante o governo FHC, nos proporcionou finalmente a autosuficiência.

Pelas exportações agrícolas ele pode agradecer à Embrapa que, fundada pelos militares em 1973, promoveu uma verdadeira revolução em nossa agricultura, aos fortes investimentos durante o governo FHC, aos latifundiários, além, é claro, à China, que paga regiamente pelos nossos produtos. Pela Companhia Vale do Rio Doce ele também pode agradecer aos militares, bem como pela Embraer e pelo Pró-Álcool, que hoje nos abre as portas para grandes oportunidades na indústria do etanol.

Está na hora de pensar na herança maldita do PT. A desprofissionalização do Serviço Público com a introdução de milhares de cabos eleitorais do PT, a existência de mais de 300 Grupos de Trabalho Ministeriais, o uso de cargos de confiança para arrecadar dinheiro para o partido. O reconhecido uso de Caixa 2, a troca de apoio por cargos que movimentam grandes orçamentos nas empresas públicas, uma TV Oficial que terá como objetivo falar bem do governo, a transformação de altos comissários do partido em consultores de grandes empresas.

Ao menos eles foram forçados a amadurecer e abandonar parcialmente o discurso fácil, inconseqüente e superficial, como ameaçar não pagar a dívida externa, e sentem na pele as dificuldades de se fazer as coisas. Se o Brasil tiver sorte, esta será a grande herança do período Lula; uma esquerda mais amadurecida. Se não tiver sorte, teremos uma esquerda mais corrupta, mais autoritária e instituições democráticas enfraquecidas. Curiosamente, estão a se formar alguns clãs de coronéis da esquerda, irmãos, filhos e netos que herdam o poder dos seus parentes... Apenas mais uma contradição destes "socialistas".

17 maio 2007

Adiós Carismáticos?

A viagem de negócios de B16 ao Brasil foi um sucesso na visão de Ana Maria Braga, Louro José, Reinaldo Azevedo e dos jovens que lotaram o Pacaembu para saltitar ao som amplificado do inquisidor a demonizar a peça de látex que possivelmente muitos deles carregavam no bolso, preparados que deviam estar para praticar a castidade que aprenderam no Segue-me. Também foi um sucesso para as beatas, verdadeiras groupies à espera de seu Bono Vox. A saia branca armada por anáguas, as rendas, os anéis, colares, sapatilhas vermelhas, a touquinha forrada de pele de arminho, os carros de luxo, mitras e báculos do séqüito, brasões, bandeiras e o aparato militar para proteger o teocrata das fãs deixaram estas maravilhadas com o poder da divindade da qual ele se diz único representante. Para os não tão entusiasmados, os seguranças de preto ao redor do alienígena davam a impressão de que os Men In Black haviam enfim capturado o Imperador daquela famosa e distante galáxia.

A viagem foi um desastre, contudo, para as raposas de sotainas que esperam ver um Estado laico tornar obrigatório o ensino do catolicismo nas escolas, que sua multinacional não possa ser processada na justiça trabalhista, que suas isenções fiscais sejam consolidadas, que seja transferida ao governo a responsabilidade pela manutenção do patrimônio artístico e arquitetônico católico, que os missionários tenham livre acesso a reservas indígenas e a reservas ecológicas (talvez para catequizarem veados), entre outras propostas indecorosas. "Obrigatório" é uma palavra forte, e os núncios do Papa que diz respeitar a laicidade passaram óleo de peroba na cara e expuseram sua vontade ao governo brasileiro. Otávio Cabral, na revista Veja desta semana, conclui singelamente que pedir não mata ninguém; "o governo brasileiro disse que não adotaria a medida. Ponto final.". É "mais mió" pedir do que roubar...

Mas o verdadeiro êxito da visita será sentido ao longo do tempo: outra brilhante idéia de B16 é tornar sua empresa mais forte por meio de um downsizing. Para os clientes e funcionários mornos e aqueles adeptos do catolicismo à la carte a porta da rua é a serventia da casa. Ele quer fazer crer que a inevitável apostasia de católicos - há décadas uma realidade alarmante para a tesouraria de seu enclave - se dará por estratégia do líder de uma Igreja "que não faz proselitismo", usando suas palavras. As coisas existem ou não existem, acontecem ou não acontecem, por decisão do Papa. Ele já extinguiu com uma canetada o limbo, Pio IX, a grande inspiração para seu combate à modernidade, livrou Maria de um pecado original que de original não tinha nada, já que engravidar de outro antes do casamento é algo mais do que comum, Ratzinger quer fazer crer que a ICAR inventou a família, a paz, a vida, deus e o diabo (estes foram invenções da turma da qual faz parte, é mister reconhecer).

Como se sabe, o downsizing se dará em meio a um fundamentalismo que condena o relativismo - aquela bobagem advinda do Concílio Vaticano II, que ousou chamar os excomungados protestantes de "irmãos separados" e retirar o "pérfidos judeus" do missal da Sexta-feira Santa -, a música dançante ao som de instrumentos ditos profanos, até mesmo a música sacra "operística", cujo expoente máximo é a Missa de Réquiem de Giuseppe Verdi, fundamentalismo este que pretende trazer de volta a missa em latim, para seu anacrônico deus entender melhor as preces, e a separação entre a massa com ovos e a massa sem ovos: mulheres de um lado da Nave, homens de outro.

Será que a pomba jurada de morte por São José, adormecida por quase dois mil anos e recém ressuscitada pelos carismáticos, será expulsa da Igreja Católica juntamente com os elefantinhos e outros animaizinhos que dão glórias a deus ao som dos sapateados de Marcelo Rossi? O artigo 37 da lei de crimes ambientais de nº 9.605 afirma que, se o animal for nocivo às pessoas, ele pode ser sacrificado, desde que sob autorização dos órgãos competentes, que orientarão quanto à forma de abate. Sabemos que os pombos podem transmitir doenças como a toxoplasmose, que pode causar cegueira, aborto - tão combatido pela Igreja - e até a morte, além de histoplasmose, erisipela, salmonelose, candidíase e aspergilose.

A pomba só começou a operar todas as maravilhosas curas, glossolalia e visões proféticas no rebanho católico carismático após os excomungados evangélicos americanos encontrarem uma brecha na lei bíblica - o pentecostes - para inserirem a catarse de seus ritos africanos. Como os cristãos devem analisar os frutos para julgarem a qualidade da árvore - eles para os quais os fins justificam os meios - as cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, seriam boas porque permitiram que a pomba voltasse a agir na cristandade.

A debandada para seitas pentecostais seria radicalmente maior se a Renovação Carismática buscasse o contato com a pomba sem música, glossolalia, profecias, danças e catarses, apenas com as mesuras, incensos e obras polifônicas dos compositores que B16 faz revirar no túmulo cada vez que senta ao piano.

Se ele deseja retornar aos bons tempos de Pio IX, imagino que esteja abrindo mão da Renovação Carismática, filha caçula do Vaticano II, que é composta em grande parte pelos que teriam debandado para os concorrentes se a Igreja nunca tivesse brigado pela clientela.

10 maio 2007

A Culpa pelo Atraso Brasileiro

De quem é a culpa pelo atraso brasileiro? Este é um assunto recorrente nas rodas de bate papo. Quais são os problemas que impediram ou impedem o país de se desenvolver? O que se opõe ao Brasil atingir sua vocação de "gigante pela própria natureza"? Os diagnósticos são os mais variados, mas muitos deles se baseiam, na minha opinião, em preconceitos.

Temos a tese separatista, defendida geralmente por pessoas de imigração recente que acreditam que o culpado pelo nosso atraso é o Nordeste, que o Brasil carregaria nas costas, e vivem lamentando a presença dos migrantes nordestinos. Pessoalmente, considerando a origem do nosso presidente e a decisiva votação obtida por ele na região em sua reeleição, quando teve em torno de 80% dos votos, até me sinto tentado a apoiar este argumento. Entretanto, não conheço nenhum país que tenha se fortalecido dividindo-se.

Outra idéia comum, especialmente entre os intelectuais ateus, é a questão das nossas origens católicas e a incompatibilidade entre o capitalismo e o catolicismo, que via o lucro como um pecado, o que teria enfraquecido a livre-iniciativa. Além disso, acredita-se que a doutrina católica (cristã) da salvação não exige esforço individual pois haveria salvação pela graça, o que não estimula as pessoas.

A tese da colonização portuguesa também é bastante popular. Seríamos assim porque recebemos um monte de degredados da "terrinha" que trouxeram para cá todos os vícios imagináveis. Muitos adeptos desta tese lamentam a expulsão dos holandeses. O curioso é que muitos portugueses não se consideram europeus e têm uma auto-estima muito baixa. Acho que uma de nossas diferenças em relação a eles é que somos bipolares, temos momentos alternados de euforia megalômana e de depressão lusitana.

A tese da exploração marxista da colônia pela metrópole também é bastante forte. Segundo esta visão, os portugueses roubaram o ouro de Minas Gerais e o entregaram aos ingleses, e nos teríamos tornado preguiçosos porque tínhamos os escravos africanos para explorar. Desta forma, teriam se formado instituições decorrentes deste sistema de exploração ligados a uma elite indolente e a um povo ignorante e analfabeto que juntos teriam impedido o desenvolvimento do país.

Temos ainda um vertente nacionalista que acredita que a culpa é dos Estados Unidos, que apoiaram o golpe que derrubou o Imperador Dom Pedro II apoiando o Exército pró-república contra a Marinha Imperial. Em decorrência disto, teríamos submergido na República dos Coronéis até sermos salvos pelo "coronel", "ditador" e fundador do Estado Brasileiro, Getúlio Vargas - o "velhinho" pai dos pobres, o criador da CLT e homem que implantou a CSN em hábeis negociações com os americanos. Aliás, o pragmatismo de Vargas incomodou tanto os americanos que apoiaram a sua retirada do poder em 1945. Mais tarde, os EUA também teriam sido culpados pelo Golpe de 64, o que teria impedido o Brasil de seguir os passos gloriosos da Revolução Cubana de 1959.

Sob alguns aspectos, um país se comporta como uma pessoa. Tenho certeza que todos já viram adolescentes, adultos ou velhos culpando os seus pais ou sua família por todas as desgraças que ocorreram em suas vidas. Alguns nunca chegam a ter maturidade suficiente para assumir os seus atos. Um dos mitos a que estamos afeiçoados para atenuar as nossas responsabilidades é o de que o Brasil é um país jovem. Nem tanto; nossas primeiras ondas de colonização datam de 1530, enquanto as dos americanos começaram 100 anos depois. Acho que a solução dos nossos problemas começa com os indivíduos assumindo a responsabilidade pelos seus atos.

Não podemos nos esquecer dos agricultores japoneses que chegaram aqui há cerca de 100 anos com uma mão na frente e outra atrás, discriminados por serem orientais e que após muito trabalho plantando as suas hortinhas constituem hoje uma minoria rica e cujos filhos são temidos em todos os vestibulares.

06 maio 2007

Diderot e Nietzsche: Melhores que Nostradamus

Texto de C. Mouro

Diante da realidade que grita em todos os ouvidos e ilumina todos os olhos, muitos daqueles que se admitem esquerdistas, socialistas, marxistas e etc, quando não apelam para a esquizofrenia descarada, apelam para dissimulações e/ou afirmam a “deturpação do socialismo” ou do “comunismo/marxismo” por alguns líderes, tentando manter a aura embelezadora de tal perniciosa e perversa ideologia, que visa unicamente a defesa do poder totalitário, ou Estado Coercitivo Totalitário, em beneficio dos que dele usufruem materialmente e hierarquicamente segundo a escala de valores que este impõe como verdade.

Porém, a natureza intrinsecamente nociva da ideologia do Poder, que o preconiza como panacéia salvadora ou mesmo como utopia, antes mesmo de seu funesto resultado prático já tinha sido denunciada por Nietzsche, que põe por terra qualquer tentativa de embelezamento ou dissimulação da funesta ideologia, até como sonho utópico, deixando a nu esta teoria deliberadamente fraudulenta, comprovada na prática: uma farsa ética, fracasso moral e material. Mero projeto de Poder absoluto.

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Começo citando Diderot, em sua primorosa clarividência, aconselhando:

“Examinem todas as instituições políticas, civis e religiosas; ou eu muito me engano ou vocês verão nelas o gênero humano subjugado, a cada século mais submetido ao jugo de um punhado de meliantes”
Aproveito ainda para citar uma frase, de autor desconhecido, imperativa em sua natureza categórica:

“Quem tem por hábito usar a força para conseguir o que quer, tem por hábito querer sempre mais.”

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Já Nietzsche, escreveu o seguinte em seu livro “Humano demasiado humano”, que com "Aurora", "Para Além do Bem e do Mal’ e outros, é genial:

“O Socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo, o qual quer herdar. Suas aspirações são, portanto, no pleno sentido mais profundo, reacionárias. Pois ele deseja uma plenitude de Poder estatal como só a teve alguma vez o despotismo, e até supera todo o passado por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual lhe parece como um injustificado luxo da natureza e deve ser melhorado e transformado por ele em um ‘órgão da comunidade’ adequado a seus fins.
Devido a sua afinidade, o Socialismo sempre aparece na vizinhança de toda excessiva manifestação de poder, como o antigo socialista típico, Platão, na corte do tirano siciliano: ele deseja (e em algumas circunstâncias promove) o estado ditatorial Cesário deste século, porque, como foi dito, quer ser seu herdeiro. Mas mesmo essa herança não bastaria para seus objetivos; ele precisa da mais servil submissão de todos os cidadãos ao Estado absoluto, como nunca existiu nada igual; e como nem sequer pode contar mais com a antiga piedade religiosa ante o Estado, tendo, queira ou não, que trabalhar incessantemente por sua eliminação - pois trabalha para a eliminação de todos os Estados existentes -, não pode ter esperança de existir a não ser por curtos períodos, aqui e ali, mediante o terrorismo extremo. Por isso ele se prepara secretamente para governos de terror e empurra a palavra 'justiça' como um prego na cabeça das massas semicultas, para despojá-las totalmente de sua compreensão (depois que este entendimento já sofreu muito com a semi-educação) e criar nelas uma boa consciência para o jogo perverso que deverão jogar.“

Nietzsche estava perfeitamente certo, como a história o tem provado – acertou também sobre a comunidade européia que menciona em “Humano, Demasiado Humano”, inclusive já detectando a semi-educação (desinformação?) para o embelezamento do funesto objetivo.

Ainda Nietzsche:

“o indivíduo é nesse caso posto de lado como um inseto desagradável: está baixo demais para poder despertar por mais tempo sentimentos torturantes em um dominador do mundo. (...) Assim também se passa com o juiz injusto, com o jornalista que com pequenas deslealdades induz em erro a opinião pública.”

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Platão preconizava um Estado absolutista interferindo na vida de todos, inclusive atribuindo ao Estado a tarefa de educar as crianças uniformemente (doutriná-las: adestrá-las como a animais), em lugar das famílias que, com variadas reflexões individuais poderiam promover a busca pela verdade em meio a inúmeras visões debatidas até entre os “comuns mortais”.

A uniformização do pensamento em Platão, a ser produzida por uma única fonte, já antes de Gramsci e a uniformização de todas as fontes, já aparecia como fundamental para incutir nas mentes a hierarquia social que ele próprio propunha, vislumbrando os magnânimos “benfeitores profissionais”, cuja vontade amparada pelo Poder absoluto coagiria a humanidade à “perfeição” arbitrada segundo o interesse de pretensos e vaidosos “homens-deus”, que deliram com a idéia de exercerem sobre os “homens imperfeitos” o mesmo poder que atribuem a deuses idealizados à sua imagem e semelhança.

Platão acreditava, ou queria crer, que “iluminados” deveriam governar, determinando sobre a vida de toda a população. Já não lhes permitindo o livre-arbítrio na Terra (este concebido como justificativa para a impotência dos deuses no mundo real), para impor-lhes de fato a vontade salvadora dos “homens-deus”... Em nome do “bem comum”... É claro! E eivado de “boas intenções”, o tirano demagogo pleiteava uma hierarquia social discricionária, imposta de cima pelos “sabichões” que almejam destruir a idéia de liberdade. Platão era um aristocrata ambicioso; não era um trabalhador nem empreendedor, como os que por si realizam cientes de seus limites, mas sim um intelectual vendendo ideologia ou apologia ao poder absoluto de maníacos que querem ser como os deuses que idealizam, possuidores da fórmula da felicidade eterna, concebida em sua pretensa onisciência uniformizadora, contrária às escolhas subjetivas.

O que Nietzsche escreveu é evidente, basta que se pense e se chegará às mesmas conclusões. O maior mérito deste é que esteve mais perto do reflorescimento destas funestas idéias socialistas, antes que se pudesse ver o que produziriam em sua prática, desvendando-lhes a natureza pérfida e destruidora. Ou seja, se opôs a elas com bases vulneráveis a discursos demagógicos, teóricas, questionando-as ainda como idéias que se revelariam na prática. Atualmente, mesmo com as provas “berrando”, ainda se finge não saber a que servem tais embustes ideológicos para pleitear o poder absoluto de maníacos que o desejam, para se crerem assemelhados a suas idealizações imbecis.

Platão e as classes de uma sociedade hierarquizada “sem classes”:

"Sois todos irmãos os que fazeis parte do Estado; mas o Deus que vos criou fez entrar o ouro na composição de vós outros que sois aptos para governar. Por isso mesmo os tais são mais preciosos. Misturou prata na constituição dos guerreiros; o ferro e o cobre na dos lavradores e artífices".
O celebrado Platão reforçou sua idéia hierarquizante preconizando a segregação em classes, mais propriamente castas, só que por aptidão individual e não por hereditariedade ou “eleição de representantes”, mostrando-se elitista e estúpido, tal qual os “intelectuais” que se oferecem como ideólogos das “castas superiores” a se estabelecerem como “guias geniais” para salvar as massas.

Vejamos:

"Tendo todos uma origem comum, tereis ordinariamente filhos que se vos assemelhem. Poderá, porém, acontecer que o cidadão de raça de ouro tenha um filho de raça de prata; e, por outro lado, que o de prata produza o de ouro e, que o mesmo suceda a respeito das outras raças. Por isso ordena Deus, principalmente aos magistrados, que se ocupem acima de tudo em conhecer de que metal é feita a alma de cada criança e, que, se em seus próprios filhos encontrem alguma mescla de ferro ou cobre, os tratem sem mercê e os releguem à categoria dos artesãos ou lavradores.
Também requer Deus que, se estes últimos tiverem filhos que venham ao mundo com mescla de ouro ou prata, elevem aqueles à categoria de magistrados, estes à de guerreiros. Porque há um oráculo que diz que a república perecerá no dia em que for governada por ferro ou bronze".

Admirável mundo velho!

O preconceito elitista quer um governo de “superiores” ou “eleitos por deus” a governar em nome do “bem comum”, determinando que os que trabalham e produzem são “inferiores” ou, mais objetivamente, que os “inferiores” é que devem trabalhar para custear a hierarquia dos “bons” ou “superiores”, que devem praticar coisas “mais elevadas” como as artes, a guerra (agora a paz), a filosofia (agora descaradamente a ideologia) e a autoridade governante.

A idéia daqueles que se querem crer a “elite intelectual” ou “deuses provedores”, bem como dos oportunistas menos recalcados ou maníacos, é a de que o trabalho de produzir bens e serviços úteis não deve ser atribuição dos “virtuosos” nem das “autoridades”, mas sim dos indivíduos “menos nobres” ou “feitos de ferro”. Como se os que produzem bens e serviços úteis devam se entregar ao arbítrio dos “salvadores” que conhecem a fórmula da “felicidade universal” para homens uniformes ou uniformizados/igualados.

Estes que se postam como “salvadores de massas”, “novos messias”, entre eles o notório Hitler, pensam o mundo tal como este bem o explicitou, dizendo que os doutrinadores devem estabelecer fins, e os políticos devem fazer o que for possível em nome destes fins, utilizando-se de quaisquer meios; cabendo ao povo segui-los, obedecê-los e custeá-los. Explicitamente afirmando: independente dos fins serem ou não realizáveis. (obs.: e certamente independente da sua natureza, se bons ou não, pois que “supremos”, logo acima do bem e do mal julgados subjetivamente: o “ser coletivo” (sic) sobrepõe-se ao indivíduo).

O que pensam estes que se querem impor como elites salvadoras, “de ouro” ou mesmo de “prata”, é semelhante ao que nos esclarece Platão, partilhando da mesma fantasia. Assim, artistas se colocam acima dos “comuns mortais” achando que o governo deve tirar dos que produzem bens e serviços úteis, para sustentar-lhes o fausto; tentando justificar isso na “superioridade da cultura e das artes”. As autoridades e altos burocratas também querem se ver como “superiores que defenderão os pobres da ganância dos malvados”; atletas querem convencerem-se que são o “supra-sumo da espécie” que representam seu povo; também pleiteando que o povo os sustente a tripa forra. Os clérigos não ficam atrás, pois se acham “escolhidos de deus” e querem privilégios e comando (arbitrar a moral). E por aí vão, vaidosos, os que se querem “de prata” e “de ouro”, reivindicando que os “de ferro ou bronze” trabalhem e produzam para sustentá-los. (Obs.: a verborréia da “luta” tem a ver com “os bons”, os “valiosos guerreiros” de prata em defesa de idéias de ouro).

Assim, para realizarem suas manias de glória e hierarquia social (status), não percebem outro meio que não um Poder Coercitivo Absoluto, o Estado Totalitário, capaz de explorar os que trabalham para custear “os melhores da espécie humana”. Não passam de espertalhões e maníacos a seduzir imbecis e recalcados.

Fazem política, então, para doutrinar imbecis e frustrados/invejosos, elevando o Estado à categoria de “deus” abstrato, que existe através dos “homens-deus” que o controlam e determinam as suas magnânimas vontades. Como não poderia deixar de ser, enquanto os “servos do deus” trabalham e produzem para o rebanho (coletivo), os que lhe dão vida destes se utilizam para se locupletarem e realizarem suas manias e glórias - isto é humano, demasiado humano.

Contudo, penso que estes que se querem “rodeados de servos” possuem mesmo é excremento em sua constituição, a julgar pelas asneiras que produzem e as desgraças à que têm empurrado a humanidade. É a vaidade que os ensandece. ...cuisp!

C. Mouro

01 maio 2007

Espaço, Silêncio e Tempo

Certa vez estava assistindo a um especialista em luxo definir o que era luxo em sua opinião, e ao invés de dizer que era ter um super carro, roupas de marca ou os últimos lançamentos tecnológicos, era simplesmente ter espaço, silêncio e tempo. Fiquei intrigado com sua definição e após alguma reflexão só pude concordar com ele.

De fato, é só olhar os novos lançamentos imobiliários onde são oferecidos apartamentos de 3 quartos com 80 m² nos centros de algumas cidades como sendo "de luxo" e a preços elevadíssimos para se perceber que algo está errado. Não demorará até que passemos a morar em apartamentos com ambientes divididos por biombos japoneses. Na minha opinião, por mais mármore, câmeras de segurança, fitness e office centres agregados ao empreendimento, as unidades não poderão ser chamadas de luxuosas. Luxo é dispor de espaço.

Não são poucos os que trabalham nas famosas baias de escritório e são expostos à intimidade tóxica de outras pessoas, obrigados a conhecer detalhes sórdidos de suas vidas, especialmente os mais desagradáveis como valor da pensão para os filhos, o dinheiro emprestado a parentes ou então a viagem para a Europa com a terceira esposa. Mas algumas pessoas são assim, como elas mesmas gostam de dizer, "autênticas". Parecem nutrir um prazer secreto em incomodar os outros. Luxo é dispor de silêncio.

Por fim, temos a questão do tempo. Eu, pelo menos, às vezes tenho uma sensação de aceleração do tempo. Hoje mesmo nem parece que já estamos em maio. O tempo voa e cada vez mais rápido. Não sei como é este fenômeno, que talvez tenha muito de ansiedade e medo da velhice. Lembro-me que quando eu era criança 15 minutos eram uma eternidade, e hoje não são nada (talvez a eternidade a que se referem os religiosos seja um estado mental). E o tempo passa. Em 1/3 dele estamos dormindo e nos 2/3 restantes sonhando ou tendo pesadelos acordados. Luxo é dispor de tempo.

Um dos problemas parece ser a excessiva urbanização. Hoje, em alguns lugares, é um privilégio se ver um pedaço de céu. Em outros, se alguém quiser ver uma nesga de chão não asfaltado terá de ir a um parque. Árvores só as vemos em regiões ou ruas um pouco mais "luxuosas". Para que tudo isto? Afinal, já não vivemos em uma sociedade do conhecimento, altamente informatizada e com um amplo espectro de possibilidades de comunicação? Então, por que mantemos o hábito da Revolução Industrial de nos apinharmos em centros urbanos?

Além disso, precisamos considerar que o impacto dos cada vez mais numerosos seres humanos sobre o meio ambiente é crescente, e crescimento econômico neste contexto tende a ampliar esta exploração, como diriam os ecologistas marxistas. Embora não seja ecologista do tipo Marina Anti-hidroelétrica da Silva e muito menos marxista, acho que se as pessoas se espalhassem um pouco mais, geograficamente, daria para mais pessoas viverem em imóveis maiores, verem o céu, andarem à sobra das árvores e até mesmo reduzir a pressão sobre sistemas hídricos à beira do colapso, sem a necessidade de muito crescimento econômico. Resta a questão: Como fazer isto?

25 abril 2007

O Impeachment de Lula

Outro dia, tive o privilégio de assistir a uma palestra de um experiente negociador que nos últimos 20 anos lidou com diferentes empresas e diferentes governos. Quando falou sobre a política brasileira sintetizou sua evolução recente em três palavras: empáfia, inflação e corrupção. Segundo ele, elas explicam a dinâmica dos principais eventos dos últimos 20 anos.

Em sua opinião, a combinação dos três fatores é igual a impeachment. A última vez em que esta combinação ocorreu foi com o Collor, cuja insistência em pilotar caças da FAB, lutar caratê e andar de jet-ski era percebida como empáfia. A inflação, que ele enfrentou com o truculento e traumático Plano Collor, estava voltando e, por fim, seu próprio irmão foi à TV dizer que ele era corrupto. Portanto, a combinação destas três percepções teria resultado no famoso Domingo Negro e no seu impeachment. Para completar, ele pertencia a um partido minúsculo e não controlava o Presidente da Câmara.

José Sarney, seu antecessor, deixou o país com uma inflação de 80% ao mês, além de ser percebido como um oligarca maranhense corrupto e baba-ovo dos militares. Mas o povo e os servidores públicos o viam como um pai complacente, e este ex-líder da ARENA deu ao PMDB em 1986 a maior vitória nas urnas da historia, às custas do Plano Cruzado, que poderia, se bem administrado, ter acabado com a inflação de então. Apesar disto tudo, o Zé do Bigode ainda ganhou um ano extra de governo e hoje, juntamente com sua filha, é um dos grandes aliados do Lula. Ele e seu horrível governo teriam sobrevivido apenas porque ele não tinha empáfia.

O Itamar, vulgo homem do topete, teve o bom senso de convidar Fernando Henrique para ser ministro da Fazenda, que por sua vez chamou os criadores do Plano Cruzado para desenvolverem o Plano Real. O Plano teve sucesso inicialmente, e Fernando Henrique, apesar de ter empáfia, deu esperanças de vitória sobre a inflação, além de ser percebido como um homem correto. Graças a isto, impôs a segunda derrota ao Lula candidato a presidente. Depois de perder uma terceira vez, Lula decidiu refundar o PT sob a coordenação de José Dirceu e fazer uma mudança de imagem com a ajuda do grande marqueteiro Duda Mendonça, que inventou o Lula Light, sucesso absoluto de vendas.

O episódio da aprovação da reeleição e as denúncias envolvendo as privatizações eliminaram a percepção de que FHC fosse correto, e a isto somada sua empáfia de uspiano marxista, faltou apenas que perdesse o controle da inflação para que as coisas se complicassem - e isto quase aconteceu em 1999, quando alguns economistas chegaram a prever uma inflação de 40% ao ano, com o fim da âncora cambial.

Finalmente, temos o eneadáctilo, o homem cuja humildade se contrapunha ao professoral e aristocrático FHC. O homem que era percebido como honesto e que prometera continuar os programas que mantinham a inflação sobre controle. Com isto, e com a insistência do paulistério em apoiar Serra e não Tasso, Lula finalmente chega ao poder. Eu apostaria que uma chapa encabeçada por Tasso e com Roseana como vice teria ganho.

No poder, Lula rebatizou o Bolsa Escola de Bolsa Família, enterrou os traços de marketing do Plano Real para que o governo anterior fosse esquecido - como faz todo governante, sejamos honestos - mas deu continuidade ao programa econômico com uma equipe da mesma linha, entregou a administração ao José Dirceu, como hoje está entregue à Dilma, e continuou a fazer o que sabe: campanha.

O Zé Dirceu tentou fazer a refundação da Republica, mas hoje está cassado e sendo denunciado no Supremo como chefe da quadrilha do Mensalão. Com isto, Lula passou a ser percebido como corrupto, mas nunca foi percebido como arrogante e tampouco perdeu o controle da inflação. Pelo contrario, honrou todos os contratos e hoje o Brasil bate recordes de Risco-País. Por isto, não reúne as condições para sofrer um impeachment. Neste sentido, parece-me um pouco estéril a oposição continuar a bater na tecla da corrupção, porque ela sozinha não é suficiente para inviabilizar seu governo. De fato, mesmo que ele perdesse o controle da inflação, sua habilidade de ser percebido como alguém do povo, com toda a "humildade" que isto envolve, além de contar com um PT forte e com o controle do Presidente da Câmara, inviabilizariam seu impeachment. Na pior das hipóteses ele seria um presidente fraco e desmoralizado como foi Sarney, mas continuaria no cargo até 2010, pelo menos.

19 abril 2007

"Santo Subito"

Mais de um bilhão de ouvintes e telespectadores nos quatro cantos da orbe escutaram a voz de deus a bradar “Santo Subito” por meio dos trezentos mil fiéis e curiosos apinhados na Praça de São Pedro que recomendavam aos vermes dos porões da basílica, construída com os dividendos da venda de indulgências, o corpo de Karol Wojtyla, ex-teocrata do único Estado do mundo onde não há partos (embora não seja possível conceber o número de concepções que se deram sob os olhares dos santos de pedra, bronze e têmpera que habitam os aposentos secretos).

“A voz do povo é a voz de deus”, diz o povo, ou seja, deus. Embora seja sabido que um padre polonês e membros da igreja de seu país distribuíram às pessoas os cartazes com o despacho e tenham puxado o coro popular, indicado a deus o que deveria berrar, em nome deste clamor JPII foi beatificado pouco mais de um mês após sua morte, em um discreto atropelo do Código de Direito Canônico vigente.

Para a canonização não será imprescindível procurar por um milagre, uma vez que os advogados eclesiásticos já têm à mão Marie-Simon-Pierre, uma religiosa de 46 anos que assegurou, tremendo dos pés à cabeça de emoção, ter sido curada de maneira inexplicável do mal de Parkinson graças à intercessão de JPII. De maneira inexplicável ou inexplicada? Quando se tem muita fé nos médicos, como é o caso dos religiosos, tão afeitos a ter fé, se os doutures não explicam algo ele passa automaticamente a ser “inexplicável”. Segundo Carlos Esperança, a Igreja Católica se dá ao luxo de esconder milagres provados: "a impunidade do homicídio do chefe da Guarda Suiça, da mulher e de um soldado. O Vaticano atribuiu o assassínio do casal ao último, que se suicidou com a mesma pistola e uma bala de calibre diferente. Milagre!"

Mais de vinte anos antes, deus já se esforçara em transformar JPII em “Santo Subito” através do martírio - o que reduziria sobremaneira a burocracia para sua canonização. Preparou tudo para que o instante glorioso se desse logo após a bem sucedida morte de John Lennon, que o havia ofendido ao dizer que sua banda de rock era mais famosa que seu filho, mas na hora H, em uma grave ingerência celestial, a Senhora de Fátima desviou os projéteis disparados por Ali Agca, os quais acertariam a cabeça do Papa, para outras partes do corpo. Bem que lhe ocorrera desviar totalmente de JPII as balas, mas lembrou-se que ainda não havia um padroeiro para o mal de Parkinson, e assim achou por bem fazer a coisa ao seu modo. Revelaram-me (ao que não acreditar cabe desmenti-lo) que a Virgem de Guadalupe, que no momento do atentado estava em Cancun ajudando um porto-riquenho a vencer uma partida de arremesso de dardos, zombou da pontaria da portuguesa, e desde então as duas não se falam. Nossa Senhora Aparecida, que segundo os preconceituosos entrou para o panteão romano pelo mesmo sistema de cotas que beneficiou São Benedito, tentou ser a mediatrice, mas as duas não lhe deram ouvidos.

Os percalços foram superados. Karol será mais um semideus da religião que é, na verdade, o próprio politeísmo do Império Romano travestido na heresia judaica chamada cristianismo, cuja sede nunca deixou de ser a Cidade Eterna. “Por que semideus?” – pergunta o católico indignado – “O santo é tão somente um exemplo. Se um parente pode rezar por mim, por que um santo não pode fazê-lo?” Ora, ele ganha poderes especiais após a morte, passa a ser onipresente, já que de qualquer canto do universo poderá ser acionado por meio de preces, ainda que feitas de maneiras diversas por um bilhão de pessoas ao mesmo tempo; passa a ser praticamente onisciente, já que desmascara aquele que mente, o que pensa mal de si, terá presciência; e passa a ser quase onipotente, já que os fiéis, cansados da burocracia de terem de pedir por intercessão, pedincham as coisas diretamente ao semideus, sem delongas, chamando-o de poderoso, conferindo-lhe especializações, invocando-o como casamenteiro, protetor de viajantes, de doentes, etc. Se fossem meros intercessores, por que motivo Júpiter, oops, deus deixaria de atender a um pedido de São Paulo - que no Novo Testamento manifestou-se contra o casamento - para que uma beata encontrasse um varão para chamar de seu, mas atenderia o mesmo pedido feito pelo mesmo créu a Santo Antônio, o casamenteiro oficial?

E qual seria a especialidade de Bento XVI, que acabou de entrar na casa dos 80 e já trilha o caminho da santidade, antevista nas conciliadoras palavras da palestra de Regensburg, no legítimo combate ao secularismo? Padroeiro das raposas? Dos criadores de Rottweilers? Padroeiro do justo conclave? O tempo dirá...

13 abril 2007

A Ressurreição do Socialismo

Há algum tempo, os pensadores americanos imaginavam que a história havia acabado, com a queda do Muro de Berlim e a fragmentação do gigante soviético. Pensavam que o socialismo estava condenado diante da falência do socialismo real. O próprio FHC, um grande ex-pensador marxista, achava que a Globalização Americana seria irresistível e que a tecnologia da informação jogaria a sociedade mundial em uma nova era de crescimento infinito, e de nada adiantava ao Brasil resistir...Era melhor entrar na ALCA e com isto tirar o melhor proveito.

Três crises financeiras depois, além do estouro da bolha da Nasdaq, e a promessa de riqueza infinita e estabilidade foi comprometida. Isto para não mencionarmos a corrupção que caracterizou privatizações em todos os países do mundo. De repente, de onde ninguém esperava, da China, veio a salvação do capitalismo. Os chineses e o Wall Mart controlaram a inflação americana, impediram uma superdesvalorização do dólar, começaram a financiar o consumo americano comprando T-Bonds e a elevar os preços das commodities em todo o mundo.

Quando as Torres Gêmeas caíram, diante da ação dos antigos aliados mujahedins, os EUA passaram a procurar os seus inimigos nos muçulmanos. Seus intelectuais viam nisso uma guerra de civilizações onde o Ocidente, não mais dividido entre socialismo e capitalismo, lutava contra a civilização muçulmana e oriental de forma geral. O diagnóstico era que estas eram civilizações incompatíveis. Na verdade, era uma nova roupagem para a velha idéia de que quem não tivesse uma economia de mercado e uma democracia nos moldes ocidentais era um inimigo em potencial. Aquela velha idéia americana de que as democracias estão destinadas a viver em paz.

Enquanto os americanos se focavam em sua nova guerra contra os muçulmanos, uma série de governos populistas crescia e se desenvolvia sob suas barbas, aproveitando a ressaca da globalização da década de 90. Chegando ao poder, pegaram carona no efeito China, que valorizou suas commodities, como é o caso da Venezuela, que se beneficiou de um aumento do preço do barril de petróleo de US$ 11 para US$ 60, no governo de Chávez. Enquanto os americanos estão ocupados no Iraque, as taxas de juros estão baixas e o efeito China gera grandes superávits comerciais para exportadores de commodities, estes governos populistas se mantêm no poder distribuindo a riqueza do tal efeito China.

Não adianta mais reclamar que estes governos esquerdistas e populistas são corruptos. São mesmo. Tão corruptos quanto os governos anteriores, e a cada dia sabem usar o Estado melhor para servir aos interesses que eles julgam ser também os interesses da democracia e do povo dos seus países, afinal, em suas cabeças, nada seria melhor para os seus países do que a sua permanência indefinida no poder. E eles são criativos, desenvolvem esquemas novos. Dominam as estruturas formais de poder e hoje só lhes falta ampliar seu domínio sobre a imprensa.

A história é quase sempre a mesma. Eles chegam ao poder nos braços da classe média, de ressaca com a malfadada globalização da década de 90 e com esperanças em uma mudança mais nacionalista. E quando chegam lá se tornam corruptos e mudam suas bases para uma clientela mais pobre e menos exigente. Hoje, a preocupação destes partidos esquerdistas é fidelizar estas bases pobres, doutriná-las e ensiná-las que o Estado é como uma divindade que distribui maná abundante, e que este papo neoliberal de que há escassez e necessidade de disciplina de capital é bobagem. Para isto, estão drenando recursos do Estado para montar uma rede de ONGs usando uma série de bandeiras reivindicatórias que permitirão mobilizar estas massas fora da estrutura partidária, criando uma estrutura que talvez possa em algum momento, como foi no caso da Bolívia, tirar o poder das mãos dos partidos tradicionais e suas democracias burguesas.

Bandeiras e ideais são os pretextos para as mobilizações, afinal, as multidões são percebidas pelos meios de comunicação como uma expressão popular. Infelizmente, raras vezes são; manifestações espontâneas e populares são raras. Na maioria das vezes, é um grupo de estudantes matando aula, liderado por um bando de sindicalistas desocupados, transportado por ônibus de alguma ONG e usando o carro de som do sindicato.

O islamismo era a segunda religião preferida do Papa João Paulo II, que a considerava muito semelhante ao cristianismo. Apesar disto, os intelectuais americanos acham que o Islã é o inimigo, e se esquecem de que o verdadeiro problema não são os muçulmanos mas a ressurreição dos socialistas e populistas, que crescem na onda chinesa. Talvez seja hora dos americanos reverem suas prioridades e voltarem a pensar no Ocidente, que está se dividindo novamente. Desta vez, se eles fizerem direito e não movidos pelo protecionismo nacionalista de um lado e pela ganância de Wall Street de outro, talvez haja um crescimento estável na Globalização e uma esperança para a democracia e para o desenvolvimento dos povos.

08 abril 2007

Moisés de Freud

A última obra de Freud foi o livro "Moisés e o Monoteísmo", onde o autor expõe décadas de suas dúvidas e reflexões sobre o personagem fundador do judaísmo. De fato, ele deixou este livro para ser publicado na sua velhice por temer retaliações.

Primeiramente, ele argumenta que “Mosheh” é uma palavra egípcia, provavelmente um diminutivo de um outro nome qualquer – “Thutmose”, por exemplo. Com isto, ele argumenta que Moisés não teria origem judaica mas egípcia. Freud escreve que aceitar que o seu salvador fosse egípcio seria demais para o povo judeu.

Ele acrescenta que o mito do fundador de um povo é o de um filho de um Rei que se torna um herói ao desafiar o pai. Moisés é um desvio do padrão ao ser supostamente um filho de judeus levitas que é criado como príncipe, e para Freud todo o desvio merece ser examinado com cuidado, visando encontrar sua motivação.

Segundo Freud, o judaísmo renuncia a qualquer forma de existência após a morte, além de passar a ser uma religião monoteísta, opondo-se à religião tradicional egípcia. Além disso, o judaísmo condena a feitiçaria, enquanto os egípcios faziam promessas aos deuses, entre eles Amen-Re, da cidade de Tebas, composto do deus da cabeça de carneiro e do deus solar de cabeça de falcão de On.

Foi sob a gloriosa XVIII Dinastia, por volta de 1375 a.C., que o Egito tornou-se uma potência internacional com Amenófis IV, e em seguida seu filho Akhenaton fez uma tentativa de impor o monoteísmo aos egípcios que resultou no fim da dinastia e na perseguição dos seguidores da nova religião. Curiosamente, o deus da cabeça de carneiro, Amen, era também o maior inimigo de Aton. De fato, o fortalecimento do culto a Aton pode ter sido uma reação à força dos sacerdotes de Tebas, o que levou o próprio faraó a fundar a sua cidade de Tell el-Amarna. Com a sua morte, tudo foi destruído, incluindo o seu túmulo e seu passaporte para a eternidade, enquanto os sacerdotes de Amen, ou Amon, garantiram que nenhum traço do culto a Aton sobreviveria.

Em seguida, ele argumenta que Heródoto afirmava ser a circuncisão um costume egípcio - o que viria a ser atestado por diversas múmias. Desta forma, a imposição do costume da circuncisão seria uma “egiptização” das tribos de escravos semitas. Seria um sinal do povo escolhido por Moisés. Este ponto merece ser revisitado, pois o dito “povo escolhido” talvez tenha realmente sido escolhido por Moisés para implantar algures a religião perseguida no Egito.

Moisés é retratado como um homem ardiloso, irascível, violento, capaz de matar e de planejar matanças - características que hoje atribuiríamos a um político, um aristocrata ou um general, mas raramente a um líder religioso. Outro ponto de destaque é ele ser descrito como “pesado de boca” para se dirigir ao povo, logicamente devido ao fato de um nobre egípcio não falar bem a língua de escravos semitas. Nas negociações com o faraó, não houve a necessidade de intérprete.

Não podemos esquecer que Moisés enfrentou várias revoltas contra a dureza da sua religião, e não seria difícil imaginar que no curso de uma destas revoltas ele tenha perecido. Esta hipótese é apoiada por uma tradição que vem do profeta Oséias de que Moisés teria sido assassinado por uma revolta de seu povo contra o rigor da nova religião e enterrado no deserto. Após o assassinato, a religião mosaica teria adormecido enquanto as tribos libertadas do Egito teriam se fundido com seus antigos parentes do deserto.

A origem da tribo levita é um grande mistério na tradição judaica e cabia justamente a ela as nobres funções sacerdotais. A hipótese de Freud é que os levitas seriam originariamente os escribas egípcios e sacerdotes de On que preservariam a cultura e a tradição mosaicas. Teria havido ainda um sincretismo com uma religião vulcânica de Javé, de algumas tribos do deserto, e a criação de patriarcas como Abraão, Isaac e Jacó, cuja existência negasse que a religião adotada tivesse sido importada do Egito.

04 abril 2007

Discutindo Marx

O homem Karl Marx (1818-1883) era um burguês judeu da classe média prussiana que não conseguiu uma vaga de professor por ser um hegeliano de esquerda. Teve cinco filhos dos quais dois morreram provavelmente em função da sua condição miserável. Foram fundamentais as ajudas recebidas do seu amigo rico, Engels, para sua subsistência. Teve também um filho com a empregada de sua casa, que foi criado por Engels. Como bom pai vitoriano, não queria que suas filhas casassem com esquerdistas e buscou casá-las bem.

Ele inverte a causalidade do hegelianismo criando o materialismo histórico, onde a organização da produção material de bens é o determinante último do funcionamento da sociedade e da subjetividade dos indivíduos. Sua teoria foi criticada por Popper, que considerou uma contradição supor que a história obedece a uma lei que torne possível antecipar o futuro, daí considerava inconsistente a previsão da vitória final do socialismo. Além disso, Popper considera suas afirmações não refutáveis e portanto não científicas.

No âmbito da teoria econômica, o seu conceito de mais-valia é o mais celebrado. Entretanto, a mais-valia como explicação para a diferença entre o valor pago aos trabalhadores e o valor dos produtos gerados é apenas uma teoria. Assim como Adam Smith considerava que o valor é gerado pelo trabalho e não pela propriedade da terra, Marx supôs que o mais-valor é roubado dos trabalhadores.

O mainstream da teoria econômica lidou com este problema simplesmente abandonando a teoria do valor-trabalho de Adam Smith e passando a utilizar o conceito de utilidade marginal, a teoria do valor-utilidade. Desta forma, se o mercado estiver equilibrado, os fatores econômicos forem remunerados e ainda houver lucro, passou-se a considerar que estes são decorrentes de risco da atividade ou poder de mercado.

Apesar de descartado pelo mainstream econômico, o conceito de mais-valia foi apropriado por outras ciências sociais, que passaram a utilizá-lo em outros contextos. Desta forma, com o Imperialismo de Lênin, a exploração entre classes passou a ser entre países, e posteriormente passou-se a usar o ângulo de explicação das relações sociais como relações de conflito e exploração de forma generalizada. Duroselle critica esta abordagem ao afirmar que as relações sociais são primeiramente de colaboração e que o conflito subsistiria de forma secundária.

No Brasil, este pensamento foi importado por Florestan Fernandes e pela USP, que viviam o seu recalque no coração do capitalismo tupiniquim bem como Fernando Henrique Cardoso, que ataca a teoria das vantagens comparativas de Ricardo ao afirmar que isto condenaria o Brasil a uma relação de eterno exportador de matérias-primas baratas. Fernandes tornou-se um dos contestadores da idéia de miscigenação racial e passou a afirmar que havia uma relação de exploração também entre raças. Existe também uma leitura marxista para as relações de gênero.

Lacan chegou inclusive a aplicar a idéia de exploração e extração da mais-valia às relações entre superego e ego, onde o superego impediria o mais-gozo. Apesar disto, ele afirmava que a "Revolução" deveria começar dentro de cada um, pois enquanto houvesse explorações nas relações entre os líderes do partido e os liderados não haveria um verdadeiro socialismo. Enfim, espero com esta breve revisão oferecer material que possa subsidiar o debate sobre este pensador que, certo ou errado, muito nos influencia.

31 março 2007

Flamenguistas e Petistas

A partir de um comentário do C. Mouro, comecei a refletir sobre as nossas escolhas, e penso que às vezes seria melhor que as chamássemos de "identificações".

Tenho um colega que, apesar de ter nascido em Ipanema, é flamenguista. A explicação é simples; seu pai torce para o Flamengo. Creio que ser rubro-negro não tenha sido exatamente uma escolha para ele. Tenho um outro amigo que é filho de um casal de professores petistas, destes que em todas as eleições vão às ruas agitar bandeiras. Ele é ótima pessoa, correto, bom amigo, mas nenhum argumento conseguiria abalar sua fé no partido. Ele é um torcedor. O sujeito tem até mestrado, mas quando a questão é o PT, nenhuma lógica é capaz de tocá-lo.

Em seu caso, de meu colega flamenguista e no da maioria dos religiosos, acho que a questão não é a escolha mas a identificação, ou seja, no desenvolvimento dos sujeitos houve algum momento em que, ao se aproximarem dos pais, tomaram para si seus valores, e creio que não possam mais deles se desvencilhar por qualquer motivo razoável, salvo em poucas exceções. A legião de jovens vira-casacas botafoguenses, vascaínos e tricolores que o time de Zico e Júnior arrebanhou no começo da década de 80 não pode ser classificada como exceção, é certo.

Se o Flamengo joga mal a culpa é do juiz, que certamente é ladrão, e o torcedor não se importa se o gol do título foi ilegal, pois o que vale é a vitoria. Não quero dizer com isto que eu não tenha identificações; óbvio que sim. Entretanto, tento sempre questionar se minhas preferências refletem algo bom ou se são simplesmente um hábito, uma concessão afetiva ou uma propensão. Contudo, sei que qualquer apóstata terá de lidar com uma crise onde se verá obrigado a redefinir sua relação com seus pais, amigos, com a própria sociedade. Este não é um motivo desprezível para manter as coisas como estão. Pertencer a uma religião, ser de um partido político ou torcer por um time de futebol pode ser um dos poucos vínculos que conseguimos estabelecer com outros seres humanos.

Neste blog tentamos fazer o que aqueles comentaristas de futebol se propõem, ou seja, comentar "desapaixonadamente" e de forma crítica os jogadores políticos. Vocês hão de concordar que o Lula batendo bola no Maracanã só dá força a esta metáfora. Evidentemente, nenhum comentário é imparcial, mas pode ser bem fundamentado. Os torcedores são um pouco mais irritantes, pois necessitam de gritos de ordem... mas podia ser pior.

Na vida real, fora da blogosfera e de fóruns políticos, o torcedor pode ser um sujeito perigoso, um hooligan, e ai daqueles que pertençam a outras agremiações. Endeusa os que vestem camisas iguais à sua e espanca os demais. É por isso que não condeno os adesistas, os vira-casacas; eles simplesmente têm um instinto de autopreservação mais bem desenvolvido do que o nosso. Finalizando; acho que esta é uma atitude a ser buscada: a de comentaristas e críticos dos jogadores. Quem sabe um dia o técnico não nos escuta?

27 março 2007

A TV do Lula

No início do primeiro mandato os petralhas, como diz a Patrícia, tentaram emplacar um Conselho com poderes para cassar os registros profissionais de jornalistas que não tivessem um comportamento considerado ético. A proposta parecia inocente. O catch estava na Comissão de Notáveis para julgar os pares. Era aí que o PT apostava suas fichas. Felizmente, a proposta foi abortada. A esta altura alguns jornalistas já teriam sido cassados, a começar por aquele gringo que insistia no presidente ser chegado em uma cana.

Segundo mandato, estratégia nova. Lá vêm eles de novo, agora com a proposta de juntar a SECOM com a Radiobras para criar uma TV do Executivo sob o comando do jornalista Franklin Martins. Estima-se um orçamento de R$ 250.000.000,00, fora os anúncios das estatais. Lulinha, o jovem magnata das comunicações deve estar felicíssimo com as oportunidades que se avizinham.

Depois que o mito da honestidade dos petistas foi “desprovado” pela sua elite dirigente envolvida em Caixa 2, Mensalão, escândalo do Lixo e outros eventos, agora tentam provar que também não são democráticos, que estão mais interessados em aumentar o seu poder e que este negócio de democracia era papo de quando estavam na oposição. Infelizmente, parece que não basta ao Lula ser o chefe do Executivo. Ele quer ter reuniões semanais com os seus cupinchas no Legislativo. Daqui a pouco terá nomeado os 11 juízes do Supremo e, como se não bastasse, também quer ter uma importante participação no quarto poder, a Imprensa.

Graças ao controle da execução do Orçamento, do poder de nomear para cargos que dão prestígio e cargos que administram grandes orçamentos nas estatais, o presidente constrói uma maioria fisiológica no Congresso da qual espera o voto a seus projetos, sem questionamentos. Isto já seria uma violação do equilíbrio dos poderes. Quando o presidente nomeia os juízes do Supremo, está garantindo que a Constituição será interpretada como ele desejar. Agora, ele ainda quer pautar um poderoso órgão de comunicação que dirá ao povo o que pensar do seu governo. Imaginem como será difícil controlar esta TV durante as eleições… Aliás, o próximo presidente do TSE já terá sido nomeado pelo presidente.

O erro deste projeto é seu pressuposto autoritário de que o próximo chefe do Executivo, eleito em 2010, será seu aliado, caso contrário, ele terá criado mais poder para um inimigo. Portanto, a eleição deverá ser ainda mais violenta, pois o risco de perder o poder pode ser ainda mais desastroso. Este é o problema com projetos autoritários, como a reeleição do FHC; começam visando ampliar o próprio poder, enfraquecem a democracia e tornam a disputa pelo poder ainda mais sangrenta.

2010 é problema do Lula, o problema da democracia é que precisamos de um ambiente onde os poderes funcionem de forma independente, quiçá harmoniosa. Ou seja, o Executivo administra, o Legislativo legisla, o Judíciário julga e a Imprensa informa. De fato, já é um erro a Presidência da República dispor de tantos recursos para fazer propaganda. É por isto que sou contra a TV Lula, que reedita o desejo dos militares por um canal simpático ao regime, como foi o famoso projeto de promoção da Rede Globo na ocasião. Viver com críticas é desagradável mas é mais seguro para todos. Por fim, este desejo de aumento de poder do Lula vai acirrar a guerra que será a eleição de 2010, onde ele próprio poderá concorrer novamente amparado por alguma consulta ao Supremo.

20 março 2007

Arte e Poder

Mecenato

Caio Mecenas foi um grande patrono das letras. Conselheiro de Otávio Augusto, usou a fortuna da família para financiar um círculo literário que incluía nomes como Horácio e Virgilio. Sua reputação se deve ao altruísmo e aos frutos que ele gerou. O mecenato de poderosos, contudo, é mais antigo e sempre teve a autopromoção, ou a promoção de algo, como verdadeiro fim. Com o passar dos anos, épicos, pinturas, esculturas e maravilhas arquitetônicas foram parcialmente substituídos pelo nada eterno marketing, e gênios como Duda Mendonça, capaz de atingir metas que desanimariam São Judas Tadeu, fazem as vezes de artistas como o já citado Virgílio, que, além de usufruir da generosidade de Caio Mecenas, aceitou a encomenda de Otávio Augusto para escrever a Eneida, um épico tão artificial quanto Os Lusíadas, em cujas páginas o poeta latino inventa uma origem troiana para os romanos, além de criar uma correspondência entre Enéas e Augusto.

Como escrevi a um anônimo na sessão de comentários do post Galvão e a Transubstanciação, onde está o poder estão os artistas, engenheiros, arquitetos. Necessitam, quais rêmoras, de um tubarão influente e rico no qual fixar a barbatana-ventosa, para aguardarem o momento em que lhes financiará os tão caros devaneios. Há, na verdade, uma interdependência, já que os poderosos usam a arte e grandes feitos de engenharia para promoverem sua superioridade, vide os Medici, os Sforza, Justiniano, Mehmet II, os Papas, Faraós e nosso bom e velho Otávio Augusto.

A rêmora Mascagni fixou-se em Mussolini, Wagner fixou-se em Ludwig II da Baviera, Niemeyer fixou-se em Juscelino, o Gilberto Gil artista fixou-se no Gilberto Gil ministro. Dizem que não se entendem muito bem, porque um quer sempre tomar o lugar do outro. Nosso ministro-artista é a reedição do Nero inventado por Sienkiewicz. Incendiou a ONU com a ajuda de Kofi Annan. Soltaram a franga e, assim, puniram os cristãos presentes de um modo bem mais cruel do que se tivessem soltado as costumeiras feras dos circos romanos. Claro que muitos artistas não almejavam fama e dinheiro, mas habitavam regiões de pujança econômica, onde novas idéias artísticas e filosóficas fervilhavam.

No Brasil, tudo vai à contramão do mundo civilizado. Os artistas produzem melhor sob ameaça de bordoadas, prisão e extradição do que quando favorecidos por leis de incentivo à cultura ou por outras formas de mecenato oficial. Mesmo com o cenário favorável de supressão das liberdades individuais, alguns artistas não se sentiam suficientemente perseguidos e se auto-exilavam, como Caetano Veloso, para não serem abandonados pelas musas. Quando colocamos lado a lado o que Chico Buarque e outras mentes privilegiadas produziram nos bons tempos da repressão e o que fazem hoje, percebemos o quão vertiginosa foi sua decadência. E idade não é desculpa. Quase todos os grandes compositores clássicos escreveram suas melhores obras no fim da vida, aos trinta e poucos anos (rs).

Menos Poder...

Mas nada como a arquitetura para eternizar um povo, um governo, um governante. O próprio arquiteto do universo, o deus dos maçons, foi eternizado pela sua magnífica obra - o universo -, encomendada pelo supra-deus, que sempre preferiu o anonimato. Como bem lembrou Balzac, os eventos da vida humana, públicos ou privados, estão tão intimamente relacionados à arquitetura, que podemos reconstruir nações ou indivíduos a partir dos vestígios de seus monumentos e residências. Churchill disse que nós moldamos nossos edifícios, e a partir de então passamos a ser moldados por eles.

Poderosa como nenhuma outra instituição religiosa em toda história, a Igreja Católica financiou as mais belas construções dos últimos dois mil anos. Moldou os templos e a cristandade foi moldada por eles. Os primeiros cristãos congregavam-se em catacumbas ou escondidos em suas casas, mas após o Édito de Milão, de Constantino, apropriaram-se das ricas e imponentes basílicas romanas, e acrescentaram um transepto para que a planta formasse uma cruz. As igrejas antigas tinham uma superioridade natural sobre os prédios que as circundavam. O gabarito máximo do resto da cidade era limitado pelos pés do padroeiro ou pelas torres das catedrais. Grandes praças e largos funcionavam como espaço de transição entre a cidade e o espaço dito sagrado, além de remeterem ao átrio do Templo de Salomão. Eram marcos visuais, a identidade de uma cidade. Dentro, a nave simbolizava a Arca da Salvação, a Barca de Pedro, a maternidade da Igreja. A galilé, de onde os não batizados podiam assistir à Missa, simbolizava a jornada de Jesus da Galiléia até Jerusalém, local do sacrifício no Calvário. Sobre a galilé ficava o coro, em uma espécie de mezanino, invisível para os fiéis, afastado do altar. As igrejas eram desenhadas para ser a imagem do Corpo Místico de Cristo posto a serviço de sua cabeça: o deus dos cristãos. O forro plano da antiga basílica deu lugar à abóbada, para simbolizar o firmamento celeste. Era, amiúde, sustentada por doze colunas simbolizando os apóstolos, e o leão, o homem, o carneiro e a águia – símbolos dos evangelistas – ornamentavam as colunas do cruzeiro. As fachadas contavam com inúmeras estátuas que eram uma espécie de catecismo, em frente às quais os professores ensinavam a história bíblica ao povo.

O ocaso da supremacia da Igreja Católica se deu no final do século XIV e século XV, quando o conhecimento científico entrou em conflito com as crenças cristãs e a cosmologia bíblica, e com o advento do protestantismo, que se opunha, entre incontáveis outras coisas, ao vil comércio de indulgências, que perdoavam pecados passados, presentes e futuros, cujos dividendos eram o combustível de trabalhadores braçais de todos os cantos da Itália, artesãos e artistas como Bramante, que se empenhavam na edificação da mais suntuosa construção sacra de toda cristandade: A Basílica de São Pedro. Indiretamente, esta grande obra foi responsável pela asquerosidade dos templos católicos construídos nos dias de hoje.

Mais adiante, os ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entraram em sério conflito com a Igreja. O dízimo foi suprimido e ela teve muitos de seus bens confiscados. Na França, em 1790, foi separada do Estado e os clérigos obrigados a se submeter à constituição do país. A Igreja Católica não viu problema em justificar as decapitações promovidas pelos revolucionários franceses, já que aceitou transferir para o imperador deles, Napoleão, o direito divino que pouco antes pertencia aos nobres guilhotinados. Napoleão, contudo, em um lapso de sabedoria, tomou a coroa do próprio papa Pio VII e a pousou sobre a própria cabeça.

Na Itália, em 1860, Vittorio Emanuele derrotou o esquálido exército papal e se apropriou da Umbria e de Marches. No mesmo ano, tomou todos os territórios pontifícios, inclusive Roma, deixando para a Igreja Católica apenas o quarteirão do Vaticano, de onde um raivoso Pio IX ameaçou com a excomunhão todos católicos que votassem nas iminentes eleições. Teve de abrir mão da outrora abominada punição quando viu que acabaria perdendo quase toda a clientela italiana se insistisse no disparate.

...Menos Arte

A Igreja perdeu poder e, como em um passe de mágica, restringiu radicalmente o mecenato, passando a arcar apenas com a comissão de artistas menores, para não dizer medíocres. Antes, artistas judeus, maçons, agnósticos ou irreligiosos (e católicos, claro) compunham missas e requiems de tirar o fôlego. Hoje, a Igreja conta apenas com a inspiração divina, por esta razão as canções do padre Zeca, do padre Marcelo Rossi e do padre Jonas não impressionam tanto quanto a Missa Solemnis de Beethoven.

As casas de deus foram as que mais sofreram com o secularismo. O deus dos católicos, um caso típico de nobre europeu empobrecido, viu-se obrigado a adaptar suas casas de campo para hotéis, muitos de seus castelos para museus, a ceder, endividado, belos palácios para milionários americanos. Mudou-se para cortiços nos trópicos ou, quando conseguia orquestrar um mutirão entre as atrasadas populações locais, para monstruosidades como a Basílica de Aparecida. Assim, as casas de deus foram ficando cada vez mais grotescas e desproporcionais. Hoje, submetem-se às normas ordinárias do código de edificações e são superadas por grandiosos prédios de escritórios, museus, bibliotecas, e edifícios públicos. A arquitetura de museus, aliás, atrai os grandes nomes da arte mundial e também os grandes investimentos. O arquiteto Mario Botta disse que, na cidade de hoje, o museu cumpre um papel análogo àquele da catedral antigamente. O museu é, na sua opinião, aonde as pessoas vão para entrar em estado de graça. O sentimento “transcendental” que até um ateu experimenta ao adentrar a Basílica de São Pedro, por exemplo, nada mais é do que o estado de contemplação da grandeza do próprio homem, de sua capacidade técnica e artística. Lá admiramos Bernini, Bramante, Michelangelo ou Rafaello, não a "santidade" da Igreja Católica e de seu panteão de semideuses. Estamos em um museu; esta é a grande verdade.

Para muitos católicos tradicionalistas, a culpa não é da perda de poder mas do Concílio Vaticano II, que permitiu que maneirismos protestantes se infiltrassem no seio da Igreja Católica. O protestantismo, naturalmente estéril, teria sido incapaz de produzir um estilo próprio de arquitetura, então os heresiarcas teriam aceitado o culto em galpões e auditórios, o que teria acabado por influenciar negativamente a Igreja de Roma, não sem a ajuda do pusilânime João XXIII e sua mania de ecumenismo e reconciliação. Talvez, realmente, o motivo não esteja na perda de poder mas no fato de que ela almeja principalmente o outrora proibido lucro, que pode, hoje em dia, ser obtido honestamente de milhares de maneiras. Por que a Igreja Católica desperdiçaria na construção de Igrejas seu precioso dinheirinho conseguido a duras penas em Colégios salesianos, rogacionistas, maristas, em universidades, hospitais, estacionamentos pagos, editoras, no aluguéis de imóveis, em rádios, televisões, jornais, em isenções fiscais? Se o Papa autorizar a camisinha entre casados, não duvidem que breve as veremos nas Editoras Paulinas, com a imagem da Sagrada Família impressa na embalagem e os dizeres "Lembre-se, eles só tiveram um filho". Claro que a Igreja gasta um pouco mais em centros de peregrinação que possam alavancar os negócios, mas normalmente deixa que os fiéis se organizem e, ajudados pela providência divina, erijam os projetos arrojados dos padres-arquitetos-frustrados e plantem ao redor a vegetação que os irá esconder. Frank Lloyd Wright disse “A doctor can bury his mistakes but an architect can only advise his clients to plant vines” (já vi atribuírem esta frase a George Sand).

Cinco Exemplos

A arquitetura religiosa daqui de Brasília, com exceções como a Igreja Dom Bosco e a Catedral Metropolitana, é o que de pior o homem pode produzir. A seguir, alguns exemplos de casas de deus no centro da capital do maior país católico de todo o universo conhecido e desconhecido.


Igreja de São Miguel Arcanjo e Santo Expedito.

O anjo padroeiro da Igreja Católica pisa em um homem morcego, que imagino ser satanás, uma vez que o Batman não se deixaria apanhar tão facilmente.
Do lado direito, também pisando em um ser negro alado, Santo Expedito, o das causas urgentes, foi o responsável pela construção da igreja a toque de caixa. Claro que se tivesse levado 400 anos na construção, a casa de deus teria ficado tão boa quanto a Catedral de Colônia, mas o Santo quer tudo “Hodie” (hoje), e este templo foi o melhor que pôde providenciar.
O orelhão da Brasil Telecom significa que na Igreja se pode conversar com deus, o semicilindro envidraçado representa a abóbada vertical, mistério cujo significado ninguém até hoje compreendeu, e os principais elementos arquitetônicos ainda não cresceram, apesar do adubo fortificado doado pelo viveiro cujo dono é devoto do santo de quem espera um aumento urgente nas vendas.


Igreja de Nossa Senhora da Consolata.

A planta é um círculo, simbolizando o boloteiro dos engenheiros, e as aberturas são arcos em ferradura, para simbolizar o modelo de sapato preferido dos atuais arquitetos religiosos. Os vitrais totalmente transparentes simbolizam a luz divina, que tudo atravessa.
Hoje, apenas o tronco da árvore protege a visão do transeunte. A idéia é plantar muitas trepadeiras nas paredes externas e rezar por uma ingerência de Santo Expedito para que cresçam rapidamente.


Igreja do Verbo Divino

O porte-cochère que "sai" da porta de entrada simboliza uma língua, o verbo divino, que fala para as paredes, ou melhor, para a parede curvada que construíram para substituir a vegetação que demorou demais para crescer.


Igreja de Nossa Senhora da Esperança

A sacação aqui foi usar todas as formas geométricas possíveis, o triângulo, o círculo, o quadrado, o retângulo. Outros dizem que o triângulo invertido encimado pelo semicírculo simboliza o cálice e a hóstia transubstanciada. Êita corpão de Cristo, sô!


Igreja de São Camilo de Lelis

O pé-direito baixo, as excrescências pictóricas no altar (anjinhos ao redor de nuvens de algodão estilo "Meu Querido Pônei") e a fachada caótica compõem este até que aceitável templo católico. Mas ficará melhor e mais verde em breve.
São Camilo, um médico caridoso, e seu patrão celestial são protegidos dos malfeitores por lanças perfurantes, verdadeiras ameaças de estigmatização. Vociferam silenciosamente: "tentem entrar aqui e suas mãos ficarão como as do Cristo crucificado".

Em São Mateus, 5, lemos:

39. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
40. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
41. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
42. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.


Hoje, os mendigos não se amontoam mais em frente às escadarias das igrejas, como antigamente. São barrados por lanças ameaçadoras, afinal esmolas são contra a cidadania. Só podemos dá-las durante o ofertório, confiá-las aos padres que nada necessitam para si, que moram nos fundos da sacristia em despojadas celas, nas quais repousam seus alquebrados ossos sobre duros colchões de pedra.

15 março 2007

Democracia e Corrupção

Aqueles que já assistiram ao filme Matrix talvez se lembrem da fala de Cypher quando traía os seus companheiros, revelando que escolhera esquecer a Verdade. Ele preferia uma vida feliz no interior da Matrix. Hoje, me dei conta que a Verdade tem um preço muito alto, é um remédio amargo. Quando você ouve boatos de corrupção, jogadas, favorecimentos, venda de cargos e coisas do tipo, sente-se numa areia movediça. Dá-se conta de que não há respeito pelo trabalho e muito menos pelos seus resultados. Não seria melhor ignorar essas coisas, levar a vidinha e deixar as armações desses caras para lá.?

Uma colega minha teve uma reação histérica ao boato de que cargos estavam sendo vendidos - coisa de petista histórica em crise. Disse que este país não está preparado para a democracia, que precisava mesmo era de um Getúlio Vargas para dar ordem ao caos e que a lei de Gerson deveria ser incluída na Constituição por ser uma tradição do nosso povo. Na opinião dela, existe apenas aparência de democracia, afinal pessoas que nunca haviam pleiteado votos estavam decidindo o futuro do país apenas por ocuparem altos postos na hierarquia do partido ou mesmo na hierarquia informal.

Na minha opinião, apesar do Executivo ter cooptado o Congresso com cargos, favores e só Deus sabe o quê, ainda vivemos em uma democracia. Pessoas como eu não são proibidas de criticar o governo; apesar do Presidente da República ter nomeado a maioria do STF, não pode amanhã arrancar os caras de lá. Mesmo que o Presidente da Câmara seja da Tendência do presidente no partido e não permita CPIs contra o governo, ainda assim estamos em uma democracia. E, como eu disse à minha amiga, o poder sempre será uma Guerra.

A vantagem da democracia é que existe um espaço - o Congresso Nacional - onde os interesses de grupos da sociedade são legitimamente representados e onde se procura estabelecer coalizões e alianças de forma a manter a governabilidade e a disputa pelo poder dentro dos limites das instituições. Na ausência da democracia, esta disputa simplesmente se daria em outro lugar. Talvez na cozinha ou na cama do ditador.

Na democracia, a disputa de interesses no Congresso é legitima e as eleições são a forma de disputar civilizadamente (na medida do possível) o poder. De preferência, sem matar ninguém. O poder é maravilhoso. Seja quem for que chegar lá - eu incluso - procurará ficar por lá até morrer. A democracia busca limitar a permanência e estabelecer uma mínima reciclagem para evitar que sejamos dirigidos por uma gerontocracia pós-stalinista.

Não percamos a fé na democracia pois os excessos que se observam no momento são apenas uma confirmação da necessidade de se persistir neste caminho. Corrupção sempre haverá em uma forma ou outra, mesmo que se acabe com a venda de cargos. O que podemos aspirar é a um nível de corrupção dos países desenvolvidos, onde uma empresa (tarefa) demanda 30% de corrupção e 70% de profissionalismo e competência. “Por aca” ainda contamos com 70% de corrupção, amizades e favores, e 30% de profissionalismo e competência. Mas com o tempo e com investimento na formação das novas elites esta proporção pode melhorar.

08 março 2007

Sou do Contra

Quando FHC estava no poder eu o criticava em bases diárias. Eu dizia que aquele negócio de reeleição era um ataque à democracia, que o aumento dos juros e da exposição cambial para combater a inflação era uma estratégia caríssima e que a ALCA era a entrega do Brasil aos americanos. Achava um absurdo a crítica e a depreciação pública dos servidores, mas a gota d'água foi o ataque da Polícia Federal contra a Roseana, além da "paulistada" ter impedido o Tasso de ser o candidato à presidência pelo PSDB.

Com o Lula no poder não tem sido diferente. Eu acho estes esquemas do Mensalão e do Bolsa Família montados pelo José Dirceu infames para a democracia, um absurdo o Lula desperdiçar a chance histórica de crescimento que estamos tendo, patinando na incompetência dos companheiros, e a política externa do PT nos mostra como fracos negociadores e nos enfraquece a ponto do Paraguai querer nos extorquir também. Acho um absurdo dizerem que tudo é culpa das elites e o papo de "nunca antes neste país". E convenhamos, nem ele mais é pobre e tampouco pai dos pobres - pelo menos um dos seus filhos já é milionário.

Já estou cansado do Lula. Quem será o próximo presidente que irei criticar? Ou talvez já seja hora de mudar de atitude? Tem um amigo meu, aliás, bem mais bem sucedido que eu, que diz que sou muito crítico. Ele é muito mais esperto que eu. Quando o FHC estava no poder ele era FHC e agora ele é Lula. Outro dia, ele quase virou gerente de uma divisão... Segundo ele, só perdeu o posto porque um outro gerente conheceu biblicamente a gerente que arrematou o cargo, e liderou a campanha vencedora. Claro que ficou aborrecido, mas vivia de gentilezas com a mulher e quando o referido gerente chamou-o para tomar um vinho e avaliar se a mágoa lhe teria criado mais um inimigo, ele foi, feliz e animado. Resultado: está pronto para a próxima oportunidade que pintar.

No governo anterior, vimos pessoas ligadas ao PSDB enriquecer e prosperar. Desta vez, é a chance da turma do PT. Eu diria que a melhor estratégia é sempre ficar na turma que está no poder. E é melhor para o país assim. É até patriótico. Afinal de contas, se vocês pensarem bem, de que é feito um partido? Eu diria que de um terço de idealistas que enxergam o mundo cor-de-rosa, um terço de invejosos e críticos como eu e um terço de administradores de interesses e gerentes de egos.

Quando um partido está na oposição, a proa é liderada pelos invejosos e idealistas como a Heloísa Helena, mas quando ele chega ao poder os homens que estavam no porão, como o José Dirceu, sobem ao convés para comandar e são confrontados pelos idealistas alienados, agora críticos do próprio partido. Ele precisa mesmo é de adesistas, daqueles que sempre estarão por cima - e é aí que entra o meu amigo. Ele e outros como ele ajudarão o partido a manusear o timão, porque os que assumiram o navio são marinheiros de primeira viagem.

Este é um mundo complexo onde às vezes mais vale um corrupto competente do que um santo incapaz de governar. Neste aspecto, até que não estamos mal de presidentes, pois os dois últimos são daqueles que preferem administrar interesses e gerenciar egos. Podia ser pior se o atual presidente tivesse uma inveja mortal das elites ou se fosse um revolucionário idealista e iconoclasta que preferisse nos fazer regredir às cavernas para começar tudo de novo. É, podia ser bem pior.

05 março 2007

Os frutos das Revoluções

Quando criança eu tinha uma professora de história entusiasta da Revolução Francesa. Era uma jovem socialista casada com um gerente de banco. Gostava muito da parte em que o povo tomava a Bastilha e da parte em que a Rainha era guilhotinada. Também falava com entusiasmo do assassinato de Marat pela sua amante e do fim de Robespierre. Devo dizer que na ocasião fiquei bastante impressionado pela cena de Marat se esvaindo em sua banheira.

Hoje entendo que a Revolução Francesa juntamente com a lógica hegeliana foram as bases para o pensamento político de Marx. Acredito que essa coisa de tese, antítese, síntese, conflito de classes e Revolução inspiraram o velho Karl sobre o futuro da humanidade. Seus seguidores viam nas crises oportunidades para que as profecias do grande pensador se concretizassem. As Revoluções passaram a ser admiradas e desejadas. Os adolescentes almejavam-na para romper com a autoridade e não se submeter ao mundo que desafiavam.

Creio eu que a primeira Revolução da história documentada tenha ocorrido alguns milhares de anos antes, liderada por Akhenaton. No reinado de seu pai, Amenhotep III, o Egito estendeu sua influência a todo o Oriente Médio mantendo sua liderança hegemônica no primeiro sistema de relações internacionais de que se tem notícia. Usava-se então o ouro da Núbia para manter mercenários que garantiam a superioridade militar egípcia. No harém do faraó havia princesas de todos os reinos vassalos do norte, a paz reinava diante do temor dos egípcios e havia prosperidade. O único porém era o faraó dividir seu poder com o clero politeísta.

Akhenaton e seus conselheiros provavelmente acharam que se adotassem o monoteísmo com o faraó como sumo-sacerdote de um único Deus poderiam concentrar mais poder no soberano. Entretanto, esta jogada política resultou no fim da 18ª Dinastia, sendo seu filho Tutankamon assassinado antes da maioridade. Sua tumba foi profanada e seus seguidores forçados a se esconder. O Egito sofreu enorme retrocesso, enfrentou várias guerras civis, invasões, e a decadência acelerou-se.

Certa vez, Deng Xiao Ping, perguntado sobre a Revolução Francesa, teria dito que ainda era cedo para se ter uma opinião definitiva sobre aqueles eventos. Curiosamente, o grande beneficiário da Revolução Francesa foi o Imperador Napoleão, que com o seu exército de cidadãos quase conquistou toda a Europa espalhando os valores revolucionários, como a Constituição.

Nem Lênin nem Trotsky sobreviveram à Revolução Russa, quem sobreviveu foi o “czar” soviético Stalin, que mandou milhões para os campos de concentração da Sibéria e que transformou o governo provisório dos sovietes em um pesadelo de centralização, burocracia e perseguições. Apesar disto tudo, ainda vemos pessoas celebrarem ou admirarem Revoluções sem entender o que estão celebrando.

Celebram eventos que começam com a falta de esperança do povo transformada em histeria e liderada pelo oportunista da ocasião que lhes promete tudo. Aqueles que duvidam se tornam traidores e são assassinados, presos ou exilados. Os que sobrevivem ao turbilhão vivem apenas para ver os ideais renegados e o libertador se tornar um ditador.

Estou exagerando? Olhem para o Fidel e seu povo muito bem educado, orgulhoso e maltrapilho. Olhem para o Chávez e sua truculenta Revolução Bolivariana. São homens que mesmo cheios de boas intenções são ditadores e a negação viva daquilo que defendem. Esta é a grande ironia destas Revoluções, derrubam um Rei e o substituem por um Imperador. E no processo, queimam, destroem, matam e a sociedade se empobrece e civilizações decaem. E, por fim, a geração seguinte tem o trabalho de reinventar a roda, quando muito.
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