12 setembro 2007
A Teoria do Mico Amestrado Telepata
Não é a primeira vez que ouvi essa idéia de que o Lula não passa de um mico amestrado e facilmente manipulável, então decidi fazer um breve histórico dessa tese. Na primeira vez que a ouvi o general Golbery do Couto e Silva, no período militar, teria poupado o Lula porque haveria um programa da CIA que visava tentar selecionar um líder sindical não-marxista e com baixa capacidade intelectual. Lula teria sido selecionado neste programa.
A versão seguinte desta teoria e que prevaleceu até o Mensalão ou depois é a de que o Lula passou a ser controlado por um grupo de ex-guerrilheiros esquerdistas liderados pelo José Dirceu, que decidiram usar o seu carisma de bom selvagem e o orientaram para que se tornasse o líder operário do Partido dos Trabalhadores.
Em oposição a esta tese temos o testemunho do Frei Betto, ex-assessor palaciano e consultor espiritual do presidente Lula, que teria dito que o presidente, apesar de não ler livros, conseguia ler pessoas, era quase um telepata. Tratar-se-ia então de um ser profundamente intuitivo. Mais um pouco e ele poderia ser recrutado como um dos mutantes do professor Xavier. Conversando com uma senhora idosa que foi vizinha da fábrica da Volkswagen no ABC, ela me disse que conheceu o Lula nos velhos tempos e que ele teria realmente um carisma pessoal incrível.
Encontrar um ponto de consenso nesta questão talvez seja impossível. Mais fácil é entender o Lula governante, porque tudo de bom é feito pelo governante e de ruim é assumido por algum subalterno maldoso e traidor. No caso do Mensalão, por um obscuro professor e tesoureiro do partido. Estas criaturas não têm o benefício da dúvida, são logo expulsas do partido e tornam-se traidores das suas causas. Este é um grave vício platônico de que sofre a esquerda, tradicionalmente utópica e idealista. As idéias são perfeitas; se não dão certo é culpa do indivíduo. Se não dão certo dez vezes é porque nunca foi feito direito.
Felizmente, a antropologia tupiniquim já superou estas questões. Afinal, para ela, se alguém se vê como indígena e é reconhecido como tal, então ele é indígena e pode virar latifundiário no Brasil. Nesta acepção, a identidade socialista da qual se imbuem os membros do PT, especialmente nos seus Congressos, pertence a eles e não lhes pode ser retirada por seus fracassos.
Acho que aí teríamos que formular a teoria do hímen complacente dos idealismos, onde a pureza dos ideais permanece apesar de todos já terem se F.... Pensando bem, acho que é tudo culpa do Platão. Quem mandou ele criar este mundo das idéias perfeitas de onde os idealismos são filhos bastardos? Daí, basta juntar ao idealismo doses generosas de narcisismo para podermos explicar grandes desastres da história da humanidade como o nazismo e o socialismo.
30 agosto 2007
Ave Serra
O meu palpite é incapacidade do Lula e do PT em ser minimamente eficientes na gestão e absolutamente incapazes de promover as reformas necessárias para o crescimento do país. Afinal, temos um território grande, uma população relativamente jovem, abundância de recursos naturais e sobra dinheiro para investimento no mundo.
É nestas horas que eu me lembro que poderia ter votado no chato e careca do Serra. Ele não teria perdido esta chance. Ele teria sido um gestor eficiente e teria tratado das reformas que atrairiam os investimentos necessários. Mas ainda não é tarde, quem sabe o Moon-Rá não decide concorrer à presidência em 2010. Então, talvez ele retome uma agenda de reformas que possa aumentar a produtividade e competitividade brasileiras, tornando o país apto a competir pelos investimentos internacionais e crescer mais.
Uma das teorias econômicas diz que para haver crescimento tem que haver investimento em setores que tenham uma produtividade mais elevada. Infelizmente, o governo Lula usa os impostos para retirar recursos de setores de alta produtividade e dá-lo a setores de baixa produtividade, como é o caso do setor público.
No Brasil, muitos jovens sonham com um emprego público, que paga melhor que o setor privado, trabalha-se pouco e tem-se estabilidade. E se, para completar, o governo ainda gerencia mal a máquina, colocando apadrinhados políticos despreparados em cargos de chefia, então os escassos recursos dos impostos são investidos no consumo da "burguesia de Estado", sem nenhum retorno para a sociedade.
Se o país quiser crescer mais que o mundo e aspirar a se tornar um país relevante, então a sociedade precisa ter um consenso em torno do que é necessário. De minha parte, vou sugerir algumas medidas que poderiam ser implementadas por um governo Serra a partir de 2010.
1) Política Salarial dos Servidores Públicos vinculada ao poder de decisão, à complexidade da atividade e à formação requerida, ao invés do poder do sindicato da categoria ou do orçamento do órgão onde se trabalha;
2) Fim do Regime Jurídico Único, conjunto de privilégios dos servidores públicos que contribui para torná-los menos produtivos que os trabalhadores do setor privado, passando-os para os mesmos direitos dos trabalhadores do setor privado;
3) Extinção da aposentadoria integral para servidores públicos e a criação de um teto igual ao dos trabalhadores do setor privado. Não tem sentido um servidor público se aposentar com um rendimento dez vezes mais alto que o do setor privado e que vá ser financiado pelos trabalhadores desse setor, que ganham muito menos, trabalham mais e por muito mais tempo;
4) Criação de um teto de arrecadação de impostos limitado a 33% do PIB, permitindo que as empresas e as pessoas decidam como aplicar 66% da renda produzida por elas;
5) Proibição do governo de gastar mais do que arrecada, pois estes gastos terão que ser pagos com emissão da dívida, que terá que ser paga pela próxima geração, que não se beneficia com o consumo da geração atual;
6) Proteção dos investimentos por meio de agências reguladores fortes, profissionais e eficientes, e, desta forma, viabilizando os necessários investimentos em infra-estrutura;
7) Privatização das estatais para que sua administração passe a buscar a eficiência ao invés de servir de moeda política do governo e fonte de caixa 2.
Algumas medidas como essas seriam um bom começo na direção do aumento da eficiência, da produtividade e da canalização da poupança para setores que poderão ajudar o PIB do país a crescer mais. Crescendo mais arrecada-se mais e se tem mais dinheiro para o governo investir no combate a pobreza, na educação e na saúde. Portanto, vamos torcer para que o chato e impopular do Serra ganhe a eleição de 2010 e implemente um monte de medidas chatas mas que possam ajudar o país a crescer. Ave Serra.
25 agosto 2007
Vida Longa aos Facínoras
Vida longa aos facínoras que destroem vidas inocentes, pois defendê-las não é tão consagrador:
"Amar os amigos até os maus amam, a virtude está em amar os inimigos."
Ou seja, amar o mau e fazê-lo prosperar é que é o máximo da bondade. Enquanto tal perversão for moralmente consagradora, o mal prosperará em nome do bem. “Bendita vaidade, capaz de subverter a razão”, diria o “diabo”.
Os piores males causados à humanidade foram feitos em nome do bem, em nome de consagradores ideais capazes de bestializar o homem em sua estúpida vaidade. As atrocidades religiosas, Stalin, Hitler, Mao, Pol Pot, etc., todos, sem exceção, ostentavam-se magnânimos, travestiam-se de “santos salvadores” com belos propósitos envaidecedores.
Tenho um texto, “Do futebol esclarecedor”, que em resumo é o seguinte:
Num jogo de futebol o torcedor do time que é favorecido pelo juiz jamais conseguirá odiá-lo, enquanto que o torcedor do time prejudicado o detestará, lançará contra ele imprecações as mais cabeludas, fará acusações e o terá na pior das contas. Já o torcedor do time beneficiado, procurará mitigar os erros do juiz, mesmo que canalhice deliberada, e se não puder fazê-lo os admitirá, mas jamais o criticará da mesma forma com que critica quando prejudica o time pelo qual torce.
Claro que, por vezes, não há uma torcida mas apenas uma adequação ao estereotipo consagrador, uma ostentação conveniente e sem muita reflexão. Tudo depende do quanto se ostenta de reprovação incisiva a um lado e, quando muito, uma “reprovação compreensiva” ao outro, ou mesmo se ignora um lado para apenas ostentar a repugnância consagradora ante a moral arbitrada para a comunidade, fugindo da análise dos fatos.
Eu defendo que:
* O criminoso eventual seja separado do criminoso profissional.
* O criminoso profissional não merece respeito, já que não respeita nada além da própria conveniência.
* O criminoso deve trabalhar para pagar sua estada e despesas do aparato que demanda para mantê-lo encarcerado, sem direito ao excedente. Afinal, as vítimas não podem ser condenadas, injustamente, a sustentá-los, em muitos casos até com aquilo que a elas falta.
O facínora que é capaz de sair de casa predisposto a matar um pai inocente, muitas vezes ainda arruinando sua família, crianças inclusive, merece morrer como uma ratazana, como uma barata, pois é ainda pior do que elas. E quem se preocupa com a vida dos facínoras despreza a vida dos inocentes, é o pior tipo de pessoa, pior do que o próprio facínora, que ao menos expõe sua índole francamente. Todo defensor de facínoras é cúmplice nas vítimas que estes fazem.
Questão de Dúvida e ChanceC. Mouro, 07 de dezembro de 2004
Alega-se que um facínora tem chance de se recuperar. Assim, foca-se na “elevação moral” de se dar chance ao facínora que já cometeu atrocidades. Diante desta “bondade” se está admitindo que o facínora poderá voltar a cometer atrocidades contra inocentes, matando, torturando, estuprando, destruindo famílias e etc.. Afinal, não há certeza de que um facínora se “recupere” após cumprir uma pena que lhe permita voltar ao livre convívio com seus pares queridos e também com as vítimas; sejam as que fez e as que poderá ainda fazer.
Diante da proposição de pena definitiva, as “belas pessoas” afirmam que é desumano, intolerável, condenar um “ser humano” a uma pena definitiva; embora o facínora o faça com a tolerância das “belas pessoas”. Estas reivindicam que se lhe dê a chance de recuperação, arbitrando o “dever humanitário” de preservar a vida e a liberdade do facínora, diante da DÚVIDA sobre sua recuperação, exibindo grande “revolta humanitária” ante a proposta de pena definitiva para o facínora; por assim se estar perdendo a chance de salvar a vida do facínora que já cometeu atrocidades contra inocentes - embora essa revolta exibicionista não se manifeste ante a pena que os facínoras impõem às vítimas inocentes.
Então, como toda questão tem dois lados, cabe analisá-los:
Havendo dúvida se o facínora voltará à pratica de atrocidades contra inocentes ou se recuperará, disso resulta:
1) Pena definitiva para que ele jamais volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena branda é injusto e temerário; na visão das “más pessoas”, dos “bárbaros”, que parecem preocupados unicamente com a vida, a liberdade e demais direitos do ser humano inocente.
2) Pena branda para que o facínora volte para a liberdade, pois aplicar-lhe pena definitiva é injusto e o revolta; na visão das “boas pessoas”, dos “santos” e “humanistas”, que parecem muito preocupados com a vida, a liberdade e demais direitos do “ser humano” facínora.
Das conclusões:
Ora, é extremamente simples perceber que:
As “boas pessoas” exibem a sua “bondade” usando a dúvida como argumento para permitir que o facínora se “recupere” depois de branda pena, demonstrando assim grande zelo pelo bem estar e pela vida deste “ser humano”: Em nome da dúvida.
Mas é em nome desta MESMA DÚVIDA que os “malvados bárbaros” não querem permitir que este facínora volte a cometer atrocidades contra inocentes. Afinal, TUDO É DÚVIDA.
Os resultados possíveis ante a dúvida são:
R-1) Se o facínora é definitivamente penalizado:
Talvez ele se recuperasse. Neste caso será um FACÍNORA que já supliciou inocentes, aquele que sofrerá AS CONSEQUÊNCIAS da proposta dos “bárbaros”: de não lhe dar chances.
R-2) Se o facínora é brandamente penalizado:
Talvez ele não se recupere. Neste caso serão AS VÍTIMAS INOCENTES, quem sofrerão AS CONSEQUÊNCIAS da proposta das “belas pessoas” que, “humanitariamente”, concederam a chance do facínora fazer mais vítimas inocentes.
Conclusão lógica (não é suposição, é fato lógico):
1) As “boas pessoas”, os “santos”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE INOCENTES. Ou seja, as vítimas, pessoas honestas, trabalhadoras, e seus familiares sofrerão os suplícios individuais e destruição familiar.
2) As “más pessoas”, os “bárbaros”, tomados pela dúvida, OPTAM, ESCOLHEM, PREFEREM QUE DE SUA DÚVIDA RESULTE O SACRIFÍCIO DE FACÍNORAS que já trucidaram vítimas inocentes e arruinaram famílias.
É muita diferença de preferência.
Não é possível negar a lógica, pois está claro que haverá vítimas inocentes, já que não há certeza de “recuperação”, ou não haverá facínoras recuperados por não haver tal chance.
Assim, a “beleza” de salvar facínoras supostamente recuperáveis, necessariamente implica em produzir VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras. Em visível tolerância moral a seus crimes, quase um incentivo.
Da mesma forma a pena definitiva NECESSARIAMENTE implica em penas definitivas para FACÍNORAS CULPADOS, que já fizeram vítimas inocentes, mas que talvez se recuperassem. Em visível intolerância moral a seus crimes, para ainda intimidá-los.
Os “humanistas” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou outros direitos dos inocentes, enquanto os “bárbaros” preferem pagar por sua dúvida com a vida ou bem estar dos facínoras, que já fizeram vítimas inocentes.
É estarrecedor alguém tranqüilamente afirmar:
“3) Não existe como salvar os inocentes.”
.
Como eu disse, as “belas pessoas” consideram que as vítimas inocentes são uma fatalidade, e não se importam com elas, sequer se dedicam a tentar diminuir a ocorrência destas, dedicando-se unicamente a tentar SALVAR O MÁXIMO DE FACÍNORAS, MESMO QUE ISSO RESULTE EM MAIS VÍTIMAS INOCENTES destes facínoras.
.
Os “santos” e “humanistas” não se importam com as vítimas inocentes, pois importar-se com elas até os “bárbaros” se importam, então, ideologicamente, “não há mérito nisso”. O mérito ideológico está em “amar os inimigos”, em “dar a outra face” e proteger o mal para que ele prospere.
Com náuseas,
C. Mouro
.
23 agosto 2007
Canibalização Cultural
Por Clarissa Septimus:
O post de Janer Cristaldo, "Antropólogos protegem assassinos", suscitou aceso debate e, malgrado meu, longe de me sentir mais esclarecida quanto à situação política, económica, social e cultural do Índio Brasileiro, compreendi que o meu desconhecimento me impede de tecer a este respeito uma opinião devidamente fundamentada. Poder-se-ia continuar, quase indefinidamente, a discussão das questões lá levantadas: A inimputabilidade dos Índios, A questão do território atribuído, O contacto entre culturas, Os massacres ocorridos dentro da comunidade Índia sob custódia de práticas culturais ancestrais, A aculturação, O direito de opção por uma cultura diferente da originária, A repressão cultural, A percentagem de população Índia, A criminalidade nas grandes cidades versus criminalidade entre a cultura Índia, A riqueza do território Índio.
Considerando todas estas questões merecedoras de análise, a verdade é que lhes subjazem questões éticas, essas sim verdadeiros desafios que se colocam à sociedade civil e às directivas políticas do século XXI. Como articular, na prática do quotidiano, conceitos como Multiculturalismo, Identidade cultural, Direitos Humanos, sem aquilo a que se pode chamar uma canibalização cultural? O professor Boaventura de Sousa Santos, chamando a atenção para a necessidade de uma hermenêutica diatópica, afirma (clique aqui para o artigo completo):
"Porém, uma concepção idealista de diálogo intercultural poderá esquecer facilmente que tal diálogo só é possível através da simultaneidade temporária de duas ou mais contemporaneidades diferentes. Os parceiros no diálogo são apenas superficialmente contemporâneos; na verdade, cada um deles sente-se apenas contemporâneo da tradição histórica da sua cultura."
A canibalização cultural, expressão do professor Boaventura de Sousa Santos, não é, a meu ver, senão uma forma anacrónica, ineficaz e incoerente de lidar com o multiculturalismo. Proclamar a repressão, hasteando a bandeira com os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ao mesmo tempo que se ignora que o indivíduo não existe deslocado da sua cultura, e que é nessa diversidade cultural que encontramos a História da Humanidade, é ir contra as orientações fundamentais que estiveram subjacentes à filosofia da Carta dos Direitos Humanos.
20 agosto 2007
The Claps Hunter
Magoado, Lula disse que o Rio de Janeiro não sofreria retaliações de verbas pelo fiasco sofrido por ele. A assessoria do presidente tentou reagir organizando viagens ao curral eleitoral nordestino, onde ele teria apoio de todos os seus compadres. Não deu certo; ele foi novamente vaiado em Pernambuco. A assessoria então mudou a estratégia e organizou um roteiro de viagens pela América Central, e enfim Lula foi aplaudido na Nicarágua, no México e na Jamaica.
De volta ao Brasil, já recuperado, Lula comentou que tem dois ouvidos, um para vaias e o outro para aplausos. Foi então a Campos, no Rio de Janeiro, onde foi novamente vaiado. Lula reagiu mais agressivamente e recorreu ao seu estilo de ameaças veladas. Na casa de Apolônio de Carvalho, mais vaias. O ouvido que por anos estivera surdo funcionava com saúde exemplar.
O que o Lula irá dizer? Que está sendo perseguido pela elite aonde quer que vá? Talvez fosse o caso de ficar um pouco em Brasília e trabalhar. Sei que sindicalistas não têm este mau hábito, do qual ficaram livres no dia em que foram eleitos para o sindicato, mas o país precisa de um presidente que conheça os seus problemas e trabalhe para resolvê-los. Não queremos alguém que alegue desconhecimento toda vez que eles aparecem.
Sei que o Lula não concorda, mas a campanha termina quando o sujeito está eleito para o cargo. Então tem início o trabalho para cumprir as promessas que fez. Na visão dele e sua turma, a política é viajar e fazer campanha. Enquanto isto, a chefia do Executivo, cargo para o qual ele foi eleito, fica entregue à Dilma, como antes esteve nas mãos do Dirceu.
Esta é uma velha tradição das elites brasileiras; não trabalhar. Elas deixam o trabalho para ser feito pelos seus capatazes, geralmente figuras truculentas e autoritárias. Tomemos o exemplo do setor elétrico. Se ao menos os capatazes fossem competentes, as ameaças que pairam sobre o setor já teriam se dissipado, mas com eles é tudo na marra. Se as suas regras para o setor elétrico não atraem investidores, que entrem as estatais; se ninguém entra nos seus leilões, que entre a Petrobras; se há expectativa de falta energia, que se converta então usinas a gás para usinas a óleo diesel, e foda-se a vida útil dos equipamentos.
É nestas horas que eu me lembro do Serra, este sim um trabalhador (ainda que um autoritário ex-comunista), destes que dormem 4 horas por noite, com perfil para liderar projetos e capacidade técnica garantida por um PhD. Pena que ele não tinha o Duda Mendonça como marqueteiro nem seja um sujeito simpático, mas penso que ele teria sido um presidente melhor, apesar de todos os seus defeitos.
Se bem que se o PSDB não fosse tão paulicentrista teria apoiado o Tasso em 2002 e ele teria sido eleito mais ou menos com a mesma fórmula eleitoreira do Lula, que é um sindicalista paulista e retirante da seca nordestina. Tasso seria um membro da elite nordestina progressista e um empresário bem-sucedido. Para quem não sabe, São Paulo e o Nordeste são os dois maiores colégios eleitorais deste país.
15 agosto 2007
Rodoviária de Aviões
Na faculdade, tive um professor jamaicano, destes que viam a cultura brasileira com olhos de eterno forasteiro. Era um engenheiro aeronáutico com PhD na Inglaterra e havia vindo parar por aqui. Ele falava, então, que tínhamos uma mentalidade atrasada. "Aeroporto não é transporte de luxo", dizia, "é transporte de massa". Hoje, vejo que ele tinha razão.
Nesta gestão petista, caracterizada pela incompetência e falta de planejamento, os aeroportos estão se transformando naquilo que deveriam ser há muito tempo, ou seja, rodoviária de aviões. O Milton Zuanazzi, amigo da Dilma, presidente da ANAC e até outro dia um novato em aviação civil, diz que está tudo bem. Os caciques da política carioca afirmam que o Galeão está ocioso e poderia resolver o problema da Malha Aérea - mas nada é feito. Os professores da USP dizem que há três anos deveria ter sido iniciada a construção da segunda pista de Guarulhos e da conexão de metrô, o que resolveria os problemas atuais da Malha - mas está tudo bem, é o crescimento econômico, diz o Mantega. Sem falar em outras "gozações"...
Eu mesmo outro dia estava em meio ao caos do Galeão, que vivia o auge do Apagão Aéreo. Os passageiros não podiam entrar na sala de embarque porque haviam ocorrido revoltas, um avião havia até mesmo sido invadido e teve de ser desocupado pela Polícia Federal. Todos os vôos estavam atrasados e tínhamos que aguardar em pé próximos ao portão de embarque porque os painéis e o sistema de som estavam em pane. Um sujeito berrava ao megafone quando um vôo estava confirmado, para que as pessoas pudessem ir à sala de embarque.
Foi então que uma “gerente de filas” da Gol se aproximou de mim e de outras pessoas ordenando a nossa saída da área reservada às filas da companhia, demarcadas pelos postes com as fitinhas. Detalhe: não havia fila porque o atendimento estava quase encerrado. Quando a mulher gritou pela segunda vez foi enxotada aos berros por um dos passageiros. Eu não sou de gritar, porém fiquei satisfeito ao ver um membro da classe média lutar pelos seus direitos.
É por isso que a classe média é odiada pelo Lula e pelos petistas; por isso somos chamados de “elite”. Não somos nada disso; somos trabalhadores educados e cidadãos. Não somos os analfabetos funcionais que votam nele e na sua turma em troca de um Bolsa Família.
Mas deixemos os ódios para o Lula e sua corriola, que gostam de alimentar a política dos ódios de classe, de raça, de gênero, dos regionalismos,... Todos estes ódios são bons para desqualificar os críticos do governo, porque sempre serão membros da elite, egoístas, brancos que odeiam nordestinos e negros. E acabam até por carrear simpatias das vítimas de discriminações. Esta é a política do Lula e do PT: fomentar a cizânia, o ódio, para se firmarem cada vez mais como a força hegemônica na política brasileira.
10 agosto 2007
A Morte dos Ideais Petistas
Simplesmente não conseguimos ser justos. Não conseguimos encontrar um ponto neutro onde exista alguma liberdade. Muitos filósofos consideram a justiça um ideal no estilo platônico. Não acho que o idealismo seja algo positivo. Hitler era um grande idealista no melhor estilo do Senhor dos Anéis. Ele acreditava que os seus SS iriam purificar a raça ariana da miscigenação com outros povos, especialmente os judeus, e que ao cabo de algum tempo ele iria gerar "elfos" arianos que teriam superpoderes e dominariam todas as raças inferiores.
Deng Xiaoping foi um destes homens mais justos, que adaptou os ideais socialistas soviéticos à realidade, à cultura e às necessidades chinesas. Como resultado temos um país que cresce a taxas da ordem de 10% há quase três décadas. A vitória do grupo liderado por este homem tira milhões de chineses da miséria, evitou a fragmentação deste país com o fim abrupto do seu socialismo. Além disto, ajuda muito o capitalismo produzindo bens a preços baixíssimos (combate à inflação), financia o consumo americano com a compra de T-bonds e oferece uma demanda potencial que é fundamental para encurtar qualquer crise capitalista.
Na Europa, temos vários capitalismos também. Adaptações locais mais ou menos bem-sucedidas destes ideais. Temos o capitalismo de coordenação de países como Alemanha, Holanda, Suécia e Dinamarca; o capitalismo de orientação onde o Estado guia os investimentos, como na Franca, Itália e Espanha. E ainda temos capitalismos híbridos na Europa Oriental com variadas articulações Estado-mercado. Talvez os mais bem sucedidos sejam os nórdicos, que têm muita justiça social e crescimento econômico.
Seria bom se o Brasil tivesse um líder do nível de um Deng Xiaping, mas infelizmente temos apenas uma herança maldita da ditadura. Um político que sobreviveu porque era considerado menos perigoso enquanto outros foram destruídos, ele e seus asseclas da geração de 68, que começaram a vida seguindo os ideais da Revolução Cubana e terminaram vendendo a alma pelo poder.
Mas isto era inevitável. Os idealistas negam a realidade seja ela qual for e praticam as maiores atrocidades para atingir os ideais que pretendiam, sendo que no processo violento em que se colocam acabam simplesmente se tornando aqueles que pretendiam destruir. O próprio Lula é um exemplo disto. Por que ao invés de acabar com o coronelismo Lula tornou-se o maior coronel que este pais já viu? Ele não é um coronelzinho qualquer, que distribui algumas cestas básicas. Ele distribui o Bolsa Família para milhões de famílias, o que o torna o titular do maior curral eleitoral da história deste pais. Nunca é demais lembrar que pessoas como Cristóvam Buarque não hesitam em afirmar que o Bolsa Família é corrupção.
Mas eles falharam porque nunca foram justos. Eram idealistas e os ideais são traiçoeiros porque se baseiam na vaidade, e acabam se tornando apenas vaidade. Depois da morte dos ideais, trucidados pela realidade da luta pelo poder, sobra apenas a vaidade e a necessidade de mantê-lo a qualquer custo. Mas até isso morrerá no dia em que os corpos decadentes dos membros da geração 68 tiverem o mesmo destino dos seus ideais.
Isto me faz pensar no enterro de Lula. Deverá ser um evento épico com direito a três dias de luto, muita cachaça, greve geral, passeata dos Sem Terra e milhares de descamisados choramingando como órfãos. Talvez se decida até mesmo por preservá-lo mumificado, a la Evita. Se for este o caso, tomara que nenhum general se apaixone pela múmia...
07 agosto 2007
Bananas
Os primeiros dois anos do terceiro mandato de Lula - via Emenda Constitucional de Emergência - seguem monótonos, com as demonstrações de esquerdismo e populismo de sempre. Todo o núcleo duro retorna: Dirceu, Palocci, Genoíno, Gushiken.
Fidel, firme e forte, visita o país. Acordos bilaterais são assinados, incluindo um de defesa mútua contra um ataque norte-americano. As FARC ganham de presente um pedaço da Amazônia. Depois se apoderam de três vezes o que receberam.
Novos e maiores escândalos de corrupção em 2012. Lula diz não saber de nada.
Economia: Palocci e aderentes caem e são substituídos por Caetano, Gal e Betânia. Maria da Conceição Tavares é nomeada presidente do Banco Central.
Com a nova queda de Dirceu, envolvido em esquemas de corrupção do programa brasileño-cubano Bolsa-Camarada, Ariano Suassuna é convidado para a Casa Civil. Aceita mas, antes que possa assumir, se vê enredado num esquema de propinas do Ministério da Educação, cuja pasta vinha ocupando, e logo num programa de sua autoria: proibir o ensino do inglês, a venda de Shakespeare e Oscar Wilde no país, a exibição de filmes norte-americanos na tv e nos cinemas e instituir Patativa do Assaré e Mané da Rabeca no currículo das escolas públicas. Acuado, escreve O Auto do Processo de Agravo de Instrumento, peça que faz muito sucesso no Supremo Tribunal Federal e livra sua cara no processo por crime de responsabilidade. Para a CNBB, escreve O Auto do Padre Vieira. Para Lula, dedica O Auto do Pau-de-Arara. Para os fósseis do PC, o Partidão, dedica O Auto da Coluna Prestes.
Fernando Henrique Cardoso termina seus dias numa cátedra de filosofia pós-moderna na Sorbonne.
Perdido, Lula tenta promover um grande debate com todos os segmentos da sociedade civil. Fracassa. Novos escândalos envolvendo membros do governo em 2011.
Um grupo dissidente nas Forças-Armadas tenta um golpe, mas os tanques não pegam e os soldados estavam em greve; não aparece ninguém.
Cansado de conversa e dizendo-se vítima de uma “orquestração golpista” por parte da “burguesia reacionária do centro-sul do país”, Lula dissolve o Congresso e baixa seu primeiro Ato Individual, o AI 1. Era pra se chamar Institucional, mas o Presidente não sabia como soletrar, muito menos escrever — e ninguém teve coragem de criticá-lo.
De qualquer forma, aproveitam pra reciclar a já famosa abreviatura. Tal ato de individual não tem nada, tendo sido redigido por um “grupo de notáveis” reunido às pressas. Participam dele Marilena Chauí, filósofa do proletariado, João Pedro Stédile, recém-empossado no Ministério da Agricultura, Dalmo de Abreu Dallari, Mino Carta e Roberto Bolaños, o ator mexicano conhecido pelos personagens Chaves e Chapolim. Frei Betto e Leonardo Boff servem de guias espirituais.
No mês seguinte, o Executivo baixa o AI 2, na verdade, só uma revisão do primeiro, devido ao excesso de obscurantismos, cortesia do filosofês cheio de Spinoza, Kant e Hegel da Marilena Chauí.
A República Federativa do Brasil é renomeada para República Democrática e Popular Brasileira.
O governo de exceção durará quatro anos. O que não incomoda muito o povo, pois a Seleção Brasileira segue ganhando as Copas do Mundo, que passam a acontecer de dois em dois anos, após intervenção do Itamaraty junto à FIFA. Ambos assinam um acordo pelo qual o Brasil se compromete a pagar por todas as despesas nas próximas dez Copas.
Medidas drásticas sufocam os últimos bolsões de insatisfação ao regime: a cerveja é incluída pelo governo na cesta básica, enquanto os canais Premiére de futebol da tv fechada são liberados para a população.
Queda vertiginosa do barril de petróleo leva a uma revolta popular na Venezuela, o que abre caminho para intervenção bem-sucedida dos EUA. Hugo Chávez, com o dinheiro do saque, se exila por aqui e vai morar no Lago Sul, onde constrói a suntuosa Mansão Bolívar.
Heloísa Helena e Babá fundam um movimento guerrilheiro campesino de fundo marxista-cristão numa igreja em Juazeiro do Norte. Padim Ciço aparece para ambos e começa a fazer milagres e lançar profecias, entre elas as da volta do Império e de Dom Sebastião. O número de romeiros triplica. A Igreja, tentando se acomodar à nova situação, canoniza o Padim rapidamente e, de quebra, beatifica Virgulino Ferreira, o Lampião.
Zé Maria, eterno candidato do PSTU, funda uma república separatista no terreno de uma faculdade pública. Logo explode uma guerra com o PCO – Partido da Causa Operária, que havia proclamado outra república ao lado. O exemplo se repete em outras faculdades pelo país. A revolta fica conhecida pelo nome de Facultada.
Remanescentes do Congresso, militares e membros da sociedade civil criam um movimento de resistência ao regime.
Enéas (não morreu, era um sósia) faz um discurso emocionado no Congresso. Clama pela Reestruturação da Ordem Nacional, no que é rotineiramente apoiado pelos 4 Poderes (os 3 conhecidos, mais o Dinheiro). O povo sai às ruas. Não para derrubar o governo, mas para comemorar mais uma vitória da Seleção. Lula desaparece. Tropas fiéis à resistência encontram em seu gabinete o rascunho do AI 3, sem maiores novidades além da supressão dos direitos que restavam, a criação de dois deveres para cada direito extinto — e a evidência clara de que Lula ainda não sabia como escrever “institucional”.
Enéas dissolve a República e proclama o Segundo Império, inspirado em Antônio Conselheiro, inaugurando um regime de índole puritana. Maria da Conceição Tavares continua firme no Banco Central, o qual já não obedece ao novo regime. Mas ela mete medo em todo o mundo, por isso preferem deixá-la quietinha em sua sala.
Lula e acólitos se instalam em Paris, na casa de Chico Buarque. Gilberto Gil morre durante atentado ao Palácio Presidencial Patrice Lumumba no Congo. Estava em uma cerimônia oficial quando houve um golpe de estado. Caetano Veloso, João Gilberto, Lenine, Chico César e dezenas de outros expoentes da MPB estavam presentes. Nunca mais retornaram, tendo sido transformados em artistas escravos pelo ditador local, um afroblacknegão com sorriso Colgate.
O Segundo Império congela praticamente todas as contas do PT no exterior, graças a um substancial caderninho apreendido pela Polícia Federal na casa de Zé Dirceu. Em Paris, Lula descobre que até sua conta foi congelada, durante uma tentativa de saque (dessa vez não ao povo, mas em frente ao caixa eletrônico mesmo). Sem dinheiro para nada, com o estoque de aguardente acabando e sem conseguir encontrar cds de Zezé Di Camargo e Luciano para sua mulher, Lula cai em depressão. Chico Buarque cobra o aluguel e a conta do hospital de um assessor do ex-Presidente. Rompimento entre Lula e Chico.
Em seu aniversário de 105 anos, Oscar Niemeyer assina um abaixo-assinado com outros duzentos nomes dos meios artístico e intelectual, repudiando o Segundo Império. No dia seguinte o governo lhe encomenda umas obras e Niemeyer joga o abaixo-assinado na lata de lixo da História — aquela mencionada por Trotski. Maria da Conceição Tavares se recusa a retirar o nome do abaixo-assinado.
Enéas adota um tom cada vez mais militarista. Com apenas um ano de governo, invade a Venezuela, reinstala Chávez no poder e diz que não vai parar até chegar ao Canal do Panamá. Os EUA esmagam os exércitos brasileiros nos arredores de Caracas e invadem o Brasil, que não oferece qualquer resistência. Chávez se esconde numa quitinete na Asa Norte (sua saudosa Mansão Bolívar virou uma casa de bingo). Traído dentro de casa por um convescote partidário de última hora, Enéas abandona a política e volta a dar aulas na faculdade de medicina.
Exilados em Paris, os remanescentes da república petista fazem ato de solidariedade e greve de fome enquanto Fidel Castro, que também estava lá, faz compras. El Comandante convida os exilados para uma visita oficial a Havana, onde morre logo ao chegar, vítima de um resfriado (não havia mais bons médicos em Cuba, todos eles foram para Cleveland). Os exilados, companheiros e camaradas alegam um complô da CIA. Cuba Socialista cai e dá lugar ao Protetorado de Cienfuegos, um subdepartamento sob a responsabilidade de Porto Rico.
Mangabeira Unger e Ciro Gomes são convidados pelos EUA para fazer parte de um novo governo provisório, parlamentarista. Logo assumem como Presidente e Primeiro-Ministro, respectivamente. Assim que os EUA se retiram, a briga começa. Hugo Chávez se torna uma figura influente na política local. Pede a volta de Lula. Ciro prefere convidar FHC, mas este recusa, dizendo que "assim não dá", que o “desrespeito às instituições democráticas é inaceitável” e continua lecionando em Paris.
Lula entra no movimento sindical francês mas perde muito dinheiro, pois as maracutaias são em francês e ele não entende nada. Pobre, tenta arrumar um emprego na Renault, outro na Citroen, mas as fábricas são totalmente automatizadas. Arruma emprego numa das fazendas de gado de seu amigo José Bové — que deixou os movimentos antiglobalização e agora vende carne para o MacDonalds — mas logo é demitido com a mecanização da ordenha. Contrabandeado para o Brasil por uma ONG, Lula vira garoto-propaganda da bebida Velho Barreiro. Enriquece novamente, se separa de D. Marisa e casa com Benedita da Silva. Finalmente, é um homem feliz.
Terremoto de 13 pontos na escala Richter engole Brasília. No governo, apenas o Legislativo pouco sofre, pois, pra variar, não havia ninguém no Congresso. A cidade é totalmente devastada. Maria da Conceição Tavares é retirada dos escombros do prédio do BC com vida. Sofre escoriações leves e passa bem.
Ciro e Mangabeira Unger morrem, junto com todo o Executivo. Chávez sai em meio aos escombros de Brasília, organiza uma carreata às pressas e toma o poder. Dissolve o parlamento, instalando sua tão sonhada Nación Bolivariana.
Marta Suplicy se casa com Chávez. Este endurece no poder, porém logo acata o conselho da patroa: “relaxa e goza” e o Brasil se redemocratiza. Maria da Conceição Tavares também se casa, com José Saramago, que a convence a sair do BC e voltar para Portugal, onde ela se filia ao bom e velho Partido Comunista português.
Internado com cirrose, Lula morre em 1º de Abril de 2019, Dia Internacional dos Bobos. É enterrado ao lado de Fidel em Havana.
Chávez mantém o discurso radical bolivariano apenas para as massas, convertendo-se habilmente num capitalista neoliberal. Até privatiza a Petrobrás, agora presidida por Evo Morales. O Brasil finalmente entra numa rota de desenvolvimento sustentável.
.
01 agosto 2007
Epitáfio ao Kokotako
Há quarenta anos meu pai foi transferido de Caxias do Sul para Videira, em Santa Catarina. Tinha vinte e um anos e recém ingressara no Banco do Brasil. Deixou para trás a noiva (minha mãe), irmãos, parentes, bons amigos, aulas de violino e um animal de estimação: o velho Kokotako, um destemido gato vira-lata libertário, ateu (todos são, não?), namorador, indolente, sempre com falhas na pelagem, mercê das assíduas pelejas com os cachorros e gatos da vizinhança. Às vezes desaparecia por semanas, e quando todos o davam como morto, supondo que perdera a terceira dimensão sob algum pneu de carro ou que caíra do campanário aonde ia para mastigar filhotes de pombo, lá estava ele sobre o muro de pedra, em frente à cozinha, a lamber-se ao sol - talvez com uma vida a menos -, exibindo-se orgulhoso para as crianças, que corriam até ele para cobri-lo de mimos. Cheio de obrigações, tenso por causa da "diferença" no caixa ao fim do expediente, longe de todos os que lhe eram caros, sob o cortante frio de mezz'anno, saudoso das longas tardes sob os parreirais a ler os clássicos com o irmão mais velho, meu jovem pai recebe uma carta do irmão dando a notícia do triste fim do bichano, finalmente vencido pelo gadanho da morte. Tão logo leu a missiva, pegou na caneta tinteiro e redigiu o mórbido porém divertido soneto (quatro quadras, na verdade) abaixo, bem ao estilo mal-do-século de Álvares de Azevedo porém ritmado como um Gonçalves Dias.
Encontrei em um armário na casa de meus pais, dia desses, uma fotografia do manuscrito tirada pelo meu tio, cujo conteúdo reproduzo aqui.
***
Ao Hades tristonho, de trevas povoado,
Mansão onde as sombras passeiam silentes -
As sombras fantásticas dos que já deixaram
A terra habitada por pobres viventes,
Ao morto país onde os ventos irados,
Torcem das árvores os galhos despidos,
Sem que da negra floresta agitada
Se escute o eco sequer de um gemido,
Às terras medonhas estéreis e tristes
Que há séculos cobre a sombra da morte,
Onde o imenso oceano estagnado descansa
Entre rochedos frios, de tétrico porte,
Partiste, herói de mil lutas gloriosas,
D. Juan das amantes que achaste por cá!
Agora teus filhos, teus netos e esposas
Soluçam e dizem: "Jamais voltará!"
***
Discute-se, na caixa de comentários, morte, vida eterna, morte eterna, gatos e o de sempre: Política e Religião.
.
27 julho 2007
A Trajetória da Geração de 68 ao Poder
Há algum tempo assisti a uma entrevista do José Dirceu ao Roberto D’Ávila onde falava de sua vida e de como a sua militância política começara. Segundo ele, tudo começou quando ele, um jovem e bonito aluno de direito da PUC/SP, organizou uma rebelião para que as turmas separadas de homens e mulheres passassem a ser mistas. Como disse uma vez o José Genoíno, enquanto ele trabalhava nos Congressos da UNE o Dirceu “passava o rodo”.
Há alguns anos, perambulando por um sebo, encontrei um livro organizado pelo Guido Mantega, então porta-voz dos economistas do PT, chamado Sexo e Poder. Segundo João Domingos, no artigo de Mantega “Sexo e Poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da dominação” podemos ler: “...a construção do homem novo e a conquista da liberdade vão muito além da destruição do Estado capitalista.” Hoje, 30 anos depois, podemos nos arriscar a dizer que a Revolução Sexual e a erosão dos valores vitorianos não destruiu o capitalismo.
Todos conhecem a outra expoente da sexualidade do PT paulista, a ministra do Turismo Marta “Relaxa e Goza” Suplicy. Ela é talvez a principal expoente feminista pela libertação sexual do partido, participando todos os anos da passeata dos GLBTS, embora, segundo seu filho Supla, não seria mais do que uma burguesinha se não fosse o seu pai, o ilustre senador Eduardo Suplicy. Foi ele quem, ainda nos anos 80, propôs o Programa de Garantia de Renda Mínima. Seria assim quase um “pai” do Bolsa Família.
Se bem que é opinião comum até entre os petistas que este ícone da ética seja meio lesado. Vai ver foi por isso que a Marta, então prefeita de São Paulo, deu-lhe um pé na bunda para ficar com o franco-argentino Luis Favre - ou seria Felipe Belisário Wermus, envolvido no esquema de Caixa 2 do Partido dos Trabalhadores e na negociata envolvendo a Portugal Telecom juntamente com Naji Nahas, o homem que quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989, quebra da qual esta Bolsa nunca se recuperou? É muito irônico! De mulher do “homem perfeito” à mulher de bandido.
Segundo os boatos, quem lucrou dando este “corner” em Nahas foi um jovem economista chamado Daniel Dantas, do qual, segundo se comenta, o professor Simonsen disse tratar-se do aluno mais brilhante que já tivera. De fato, mais tarde Nahas se aliaria à Telecom Itália e ao PT contra Dantas na disputa pela Brasil Telecom. Dantas contrataria a Kroll para espionar a cúpula petista e acusaria o governo Lula e o PT de tentar cobrar US$ 50 Milhões para que a Anatel e os fundos de pensão estatais o apoiassem na questão da Brasil Telecom.
Em 1968, o jovem cheio de hormônios José Dirceu participou do rompimento com o Partidão e se aproximou de grupos como a ALN liderada por Carlos Marighela e Dilma Roussef. A sua decisão pela luta armada duraria pouco, pois no mesmo ano foi preso no XXX Congresso Nacional da União dos Estudantes (UNE), realizado em um sitio em Ibiúna em São Paulo – aliás, coisa de “gênio” aquele congresso supostamente secreto. Em seguida, é trocado pelo Embaixador americano seqüestrado pela ALN e MR8 e é exilado.
No exílio fez supletivo de guerrilha em Cuba mas não se tem conhecimento de nenhuma ação em que tenha estado envolvido. O engraçado é que os velhos comunistas ainda têm mágoa destes caras da Geração de 68 que declararam guerra aos militares e foram para o exílio enquanto eles ficavam aqui levando porrada. Mais tarde, a Geração de 68 pratica o segundo rompimento com o Partidão fundando o PT em 1980.
Com a fundação do PT, a Geração de 68 começa a desistir da luta armada como caminho para se chegar ao poder. O discurso agressivo nacionalista e anti-corrupção do PT foi muito bem sucedido na década de 80 e nos estertores do pior governo brasileiro do século XX, o governo Sarney, que terminou o mandato com inflação de 80% ao mês. Eles talvez conquistariam o poder se não fosse pela intervenção da Rede Globo, que editou o debate com o Collor e explorou muito bem o episódio do seqüestro do empresário Abílio Diniz por um guerrilheiro esquerdista chileno. Não podemos esquecer também da amante do Lula e da sua filha fora do casamento que lhe causaram algum embaraço e da ameaça do Collor com a 'pasta'. Enfim, na ocasião o Lula afinou e segundo gente que era do partido na época foi tomar uísque com a direção da TV Globo.
Nesta época, o PT ainda acreditava nas Comunidades Eclesiais de Base como uma forma de aproximação com o povo. Mais tarde, o Bolsa Família se mostraria muito mais eficiente. De fato, o Bolsa Família foi capaz de substituir a perda de parte da classe média após o Mensalão. Mesmo nos piores momentos o PT sempre teve o apoio do MST, da CUT e dos sindicatos de servidores públicos - a burguesia de estado -, que, em geral, foram comprados com bons aumentos, embora tenham de tolerar chefes geralmente incompetentes oriundos do partido, como o Milton Zuanazzi, presidente da ANAC, que de vereador amigo da Dilma e sem experiência em aviação civil virou a principal autoridade civil na área.
Na década de 90, após a derrota de Lula duas vezes para FHC, a cúpula petista percebe a necessidade de mudar a orientação do PT, e José Dirceu é encarregado de subverter a ordem petista com o Campo Majoritário, cujo poder se sobrepõe as tendências, disciplinando-as. Mais tarde, Lula adota uma linha quase hippie de paz e amor chamada de “Lula Light” sob a orientação do publicitário Duda Mendonça e conquista o centro do espectro político.
O PT aceita que o povo não gosta de inflação nem de bravatas do tipo que não fará o pagamento da divida externa e o IBGE mostra que com o fim da inflação começa-se a redução da concentração de renda. De fato, a proposta de FHC, pai da teoria da dependência e ex-discipulo de Florestan Fernandes era reduzir o Estado e desta forma atacar a burguesia que vive as custas dos favores deste. Chavez e a sua boli que o digam.
Semana passada, discutindo com alguns ex-alunos da Maria da Conceição, que comemoravam a morte do ACM, eles me diziam que Dirceu é na verdade um herói, um verdadeiro Robin Hood que descobrira um novo caminho para a Revolução Socialista, o caminho da corrupção. Segundo eles, o abrandamento do discurso petista e a adoção do Caixa 2 punha o partido em condições de igualdade na disputa eleitoral com os demais partidos permitindo-lhe efetivamente chegar ao poder. Para eles, é natural que diante de uma burguesia corrupta a melhor estratégia seria adotar o seu jogo e usá-lo contra os próprios burgueses.
Embora o Caixa 2 tenha dado melhores condições de disputa eleitoral ao PT, foi o Bolsa Família que efetivamente deu a Lula a sua reeleição com os fantásticos índices de aprovação em torno de 80% no Nordeste. Cristóvam Buarque não hesita em afirmar que o Bolsa Família é corrupção. É coronelismo mas é realpolitik e funciona. Acho que nunca o certinho do Eduardo Suplicy imaginou a utilidade eleitoral de sua idéia, que visava dar cidadania às pessoas e não construir o maior curral eleitoral que já se viu na história deste país. O Cristovam Buarque foi o homem que teve a melhor idéia daquela geração propondo o Bolsa Escola, ou seja, a extensão do sistema de bolsas para os alunos carentes desde o ensino fundamental.
A partir disto, o aparelhamento do Estado passa a ser na verdade condição necessária para que os recursos do Estado sejam desviados para os movimentos sociais aliados do governo e da “Revolução”. Afinal, se os grandes fazendeiros “roubam” o Banco do Brasil, por que os Sem Terra e outros movimentos sociais não têm direito a algum recurso a fundo perdido do Tesouro? Isto é apenas distribuição de renda. E se existe corrupção nas estatais e nos fundos de pensão, que se cobre a parte do partido e dos aliados. E para isto ser feito da melhor maneira é preciso nomear os companheiros de confiança para estes cargos, independente das suas qualificações profissionais.
Mas política também é aprendizado e o PT aprendeu com a cassação de Collor. Construiu uma maioria no Congresso com cargos, emendas no orçamento, favores e por que não, dinheiro (o Mensalão). Hoje, o PMDB é o melhor partido que o dinheiro pode comprar e com ele o governo consegue maioria no Congresso, elege os presidentes das duas Casas e controla a agenda legislativa. Afinal de contas, por que o PMDB luta há meses para nomear diretores na Petrobras? Será preocupação para que esta empresa seja bem administrada ou uma maneira de garantir o seu quinhão no butim?
Ate a UNE que gerou grandes lideranças no passado como Jose Serra que foi seu presidente em 63/64 e foi exilado, hoje virou capacho do governo. No exterior, ao invés de cursinho de guerrilha Serra fez doutorado em Economia em Cornell e foi professor em Princeton. De volta ao Brasil, se tornou professor da UNICAMP, propôs a lei que capitaliza o BNDES com 40% dos recursos do FAT, a principal fonte de recursos para o setor privado, alem da conhecida lei dos genéricos. Hoje, esta UNE, outrora maternal dos futuros politicos, apóia o Lula na crise do Mensalao e vive do comercio entre fraudulento e negligente de carteirinhas de estudante.
O próprio Mensalão não é algo sem precedentes. Quem não se lembra da denúncia de que o Maluf estaria comprando os membros do colégio eleitoral em 1986 ou de que o FHC teria comprado votos a R$ 200.000 por cabeça para aprovar a sua reeleição em 1996? Portanto, o Mensalão é apenas uma questão de aprendizagem.
Quanto à Globo, em breve ela enfrentará a concorrência da TV Lula, capitaneada pelo Franklin Martins, que certamente está ansioso para dar o troco na emissora que o demitiu. A Veja vai mal das pernas, a Primeira Leitura fechou e a imprensa é constantemente atacada por membros do governo, senão pelo próprio Lula. Enquanto isto, a imprensa amiga do governo vai se fortalecendo financeiramente com o aparecimento de patrocinadores dispostos a por dinheiro a fundo perdido em diversos órgãos. A circulação da Carta Capital cresce cada vez mais.
As resistências vão cedendo e a “Revolução Socialista da Geração de 68” vai se tornando uma realidade. Não pela Revolução Sexual, não com a libertação da mulher, não pela Luta Armada como fez o seu ídolo Fidel, não com o combate à corrupção, não com as Comunidades Eclesiais de Base mas com um líder sindical carismático semiculto e com muita corrupção.
O grande general sifilítico Mao conquistou a China com a Grande Marcha. Lênin conquistou uma Rússia esgotada pela Primeira Guerra Mundial e cuja elite afrancesada havia perdido o contato com as bases sociais. Lula dominou o Brasil com um pouco de corrupção e com o Bolsa Família. E a TV Lula só tende a aumentar esta hegemonia dando a cobertura “correta” aos acontecimentos nacionais e se preparando para ser uma alternativa caso um dia se tenha que chegar ao extremo de discutir o controle “democrático e social” da concessão da TV Globo.
21 julho 2007
As Angústias de um Engravatado
Não apenas trabalho mas projetos interessantes. Afinal, o trabalho deveria nos prover não apenas o pão mas também a realização... Ridículo, não? Esta é a típica neura da classe média "full of shit". Não seria mais fácil simplesmente ter desejado ficar rico ou ter um bom emprego público, como o de um juiz ou promotor?
O ambiente de trabalho moderno é um desafio ao ego. É muito dinâmico. As relações são marcadas por competição e colaboração às vezes quase simultâneas. O espaço físico é cada vez menos pessoal, mais grupal. Mesmo nos ambientes de escritório americanos, vemos que o espaço privado é um privilégio cada vez maior.
Já disse um "filósofo" chamado Gurdjieff, certa vez, que o homem quer "dormir" e o conforto ajuda muito nisto. Ter um emprego, uma certa estabilidade e a esperança de uma carreira são uma armadilha e tanto. O dormir para ele é igual a estar passivo interiormente, é o deixar-se levar pela maré.
O trágico desta estória é que geralmente quase todos "despertam" na velhice, quando a vida já passou. De que adianta a sabedoria de um velho? Ele provavelmente nunca a usou e o jovem que o ouve também não acreditará nele. Os jovens preferem aqueles que falam a insensatez que eles queiram ouvir, afinal, a Verdade não é algo agradável ao nosso ego, que vive da mentira e de cultivar as suas pequenas ilusões.
Talvez seja por isso que a velhice contenha sabedoria, afinal, um dia, por mais que neguemos, não conseguiremos mais nos iludir. Se bem que agora me lembrei que meus colegas de blog não acreditam n’A Verdade. Acho que A Verdade começa quando aceitamos o que somos aqui e agora.
E quem somos nós? Sugiro um minuto de silêncio interior para que esta pergunta possa ecoar um pouco antes de ser ansiosamente respondida ou desclassificada pela nossa mente. Eu mesmo estive tentado a escrever o que acho, mas penso que cada um deve responder por si mesmo.
As palavras são apenas códigos que nos permitem comunicar, pois supomos que elas estão associadas a objetos comuns. O problema é que quanto mais subjetiva se torna a comunicação menor a chance das palavras se referirem aos mesmos objetos. Neste caso, não há comunicação. Acho que esta é a tragédia dos “livros sagrados”, que tentam nos dizer quem somos.
Vamos tentar de outro jeito; se vocês não acreditam n’A Verdade, então vocês devem acreditar n’A Mentira? E se A Mentira existe, então dialeticamente existe um pouco de Verdade na sua própria negação, ou seja, A Mentira.
Se bem que existem pessoas que confundem Verdade, sinceridade, com algum tipo de incontinência verbal. O caso clássico é quando alguém chega para você e começa a frase dizendo: “Eu queria te dizer umas verdades...”
Eu sempre tive pouca fé, mas acho que todo mundo deve escolher no que acreditar. Seja no lucro, seja em Marx ou então, quem sabe, na liberdade. Existe liberdade? Segundo uma psicanalista amiga minha, não. Somos escravos de algum desejo que tivemos algum dia e que submergiu em nossa inconsciência. E de lá domina toda a nossa existência.
A boa nova, segundo um outro autor que li, seria que se não somos livres então também não podemos pecar. Neste sentido, um santo que lutou toda a sua vida para se libertar de todas as paixões poderia em um momento pecar mais que nós em toda a nossa a vida. Tem um lado meu que não consegue evitar o pensamento: “Se fudeu.” Tanto esforço para se tornar um pecador, kkkk.
Meu ego agora está feliz...transformei as minhas angústias em palavras e ainda mostrei como sou profundo. Isto é que é um bom ego! Ele se orgulha até das próprias angústias. Será que algum dia ficaremos livres dele?
17 julho 2007
O Congresso é um Prostíbulo
Para os brasileiros que assistem à novela de Renan Calheiros, nas últimas semanas o Congresso tornou-se um antro de ladrões e prostitutas que se vendem por favores a construtoras. Mas nem todos estão desapontados. O Palácio do Planalto está feliz que os escândalos estejam localizados na Câmara alta, único local onde o seu poder não é absoluto - lá e na imprensa. Como diz o pesquisador Werneck Viana, vive-se em um novo Estado Novo onde Lula faz as vezes de Getulio Vargas, tendo cooptado as lideranças da sociedade civil em troca de cargos no governo. Veja-se o caso do próprio Mangabeira Unger, que anteriormente criticava o seu governo.
Nas rodinhas de bate-papo, muitos falam que seria melhor fechar o Congresso. Acho que isto seria uma tolice, pois o poder iria simplesmente migrar para outro prostíbulo. Certa vez, ouvi uma historia de que no governo de Pinochet era de fato necessário sair em busca da puta de um general específico para que ela intermediasse um favor a ser pedido. Com o Congresso aberto, pelo menos o prostíbulo fica mais transparente e uma parcela mais ampla da sociedade pode ser mobilizada pela imprensa, formando a opinião publica e influenciando a decisão.
A esquerda aproveitou a oportunidade para lançar a idéia de que o Senado é uma instituição antiquada e que deveríamos abolir o sistema bicameral. Ocorre que é ele que impede que o rolo compressor do governo termine de atropelar o Congresso. As votações nas duas casas ampliam as discussões em torno dos temas e dão mais vagar às suas aprovações, o que, a meu ver, também é positivo.
Sei que muitos petistas gostam da idéia de um regime castrista ou chavista onde multidões de correligionários comparecem nas praças para urrar em apoio ao seu líder e participar da aparência de uma democracia popular. Mas nestes regimes o poder de fato está nas mãos de grupinhos de familiares ou aliados, como atesta a indicação do irmão de Fidel para substituí-lo.
O bicameralismo é uma herança da Antigüidade Clássica. "Senado" é o nome romano para o conselho de anciãos - daí o nome, de "senex", idoso, de onde vem também a palavra "senil" -, conselho que existia no oriente há vários milhares de anos. Pelo nosso "conselho de anciãos" já passaram velhos como a Heloísa Helena, que entrou na casa antes de completar quarenta anos, e veneráveis sábios como Joaquim Roriz, Gim Argello, Luiz Estevão, Jader Barbalho e ACM.
Antigamente, buscava-se pessoas que tivessem uma certa dignidade e compostura para o Senado. No governo militar tivemos o ilustre senador Jarbas Passarinho que, apesar de ser um coronel com viés autoritário, costumava ter o respeito dos seus adversários no antigo MDB. Hoje em dia, ser honesto virou até mote de campanha política, um "diferencial". Ainda assim, fica difícil listar os senadores com reputação de honestidade. Além do Cristóvam, do Pedro Simon, do Eduardo Suplicy, do Jefferson Peres e do Romeu Tuma, alguém se lembra de algum outro?
No quesito dignidade, acho que merece menção o senador Delcídio, que cumpriu as funções de Relator da CPI dos Correios apurando todos os fatos, não poupando ninguém, apresentando o relatório apesar das pressões imorais sofridas dentro e fora do Plenário, como o comprovou o triste episódio envolvendo o deputado Bittar, que o agrediu durante a sessão. A sua função foi cumprida para com o país e com a democracia, tendo sido apresentado no prazo o relatório que resultou na denúncia dos 40 ladrões pela Procuradoria Geral da Republica.
A propósito, só faltou o Ali Babá, mas quem sabe agora, nos escândalos da Petrobras, não se chega a ele? De novo, o escândalo tem grande potencial, afinal a presidência do conselho da empresa é ocupada pelo atual ministro-chefe do gabinete civil, a Dilma Roussef. Mas a disputa contra a apuração dos fatos é grande e a Petrobras obteve liminar contra o pedido do TCU para ter acesso à intranet da companhia.
11 julho 2007
Frases de Luminares
Ele, um católico fervoroso e muitíssimo inteligente, contestou cada uma delas, fiz minhas tréplicas, com algum cuidado para não o ofender, e a partir delas fez suas últimas objeções. A discussão prosseguiu ao vivo, quando ele esteve em Brasília, e, embora não tenhamos nem de longe chegado aos "finalmentes", como quase aconteceu entre o Heitor e seu amigo petista, fato descrito no post anterior, não nego que tivemos de mudar de assunto quando o mal-estar típico desses embates verbais se avizinhou. De fato, a discussão por escrito é a alternativa viável quando não há um mediador que impeça um argüente de cortar a exposição do raciocínio do outro e que discurse além do tempo conveniente. Nas caixas de comentários de blogs, passamos ao comentário seguinte quando percebemos que o debatedor perdeu-se dourando a pílula ou repetindo algo que já havia escrito.
Inspirado no conflito entre amizade e ideologias/filosofias incompatíveis, colo aqui uma pequena amostra da discussão, adiantando que não há muita novidade na maioria dos argumentos, de ambos os lados.
Primo: Realmente não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade. A crença em Deus não é anti-racional. É extra-racional. Quem entende corretamente o cristianismo, não teme a Deus, mas O ama. Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião, assim como um mau cientista não serve de base para se condenar a ciência.
Eu: Extra-racional? Que diabos vem a ser isto?
" Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião,..."
Entre os religiosos que detiveram algum tipo de poder - portanto agora não estou falando da massa de prosélitos - o abuso de autoridade não apenas não foi exceção mas quase uma regra.
Primo: Extra-racional, supra-racional, mas não irracional. Os sentidos, que captam as informações sobre o mundo, podem fazê-lo de modo direto – através de sensações “em primeira mão” – ou indireto – através de relatos, testemunhos etc. Os que tiveram experiências extraordinárias “em primeira mão”, quando não são doentes mentais, têm menos dificuldade em aceitar a existência de uma realidade que não fica óbvia no quotidiano. Os outros, que ouvem dizer, usam seus próprios recursos de filtragem, seu pensamento, seu sentimento, suas intuições, o conjunto de seus próprios recursos, conscientes e inconscientes, para aceitarem ou rejeitarem o lhes narram. É fácil rejeitar uma história do “Chicó” e seu “não sei... só sei que foi assim...”. Já não é tão fácil rejeitar os fenômenos vistos no sol em Fátima. Os dois tipos de relato parecem partilhar o “absurdo”. Só que um é engraçado e ninguém em sã consciência levaria a sério; o outro entra numa categoria diferente.
Um indivíduo que possuísse apenas a razão seria um “aleijado”, assim como aquele que dela não dispusesse.
Nem um mau religioso, nem bilhões, sejam eles do povo ou dos governos, servem de base para condenar a religião (não esta ou aquela forma de viver a religião, não este ou aquele uso da religião, mas a religião). Dezenas de reis corruptos ou milhares de religiosos sanguinários não tornam a religião ruim. Mas um só Jesus, uma só Teresa de Lisieux, um só Padre Pio ... serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade. Este argumento se aplica a diversas frases aqui citadas, por isso não voltarei a repeti-lo.
Eu: Extra-racionais deviam ser as provas da existência de Júpiter para muitos devotos romanos. Por si só aquela fé não teria sucumbido tão facilmente; foi necessário o cristianismo para sepultá-la - ou adaptá-la. Da mesma maneira, só foi possível quebrar, em uma grande parcela dos cristãos, o reforço comunal da intercessão dos santos com uma dissidência que surgiu com "pureza", força, "verdade" e, teoricamente, poucos podres no currículo: o protestantismo.
Reforço Comunal é o nome do processo pelo qual uma afirmação se torna uma crença profunda pela repetida confirmação pelos membros de uma comunidade. Robert T. Carroll explica que o processo é independente de a afirmação ter sido investigada ou de existirem dados que dêem suporte a ela. Muitas vezes os meios de comunicação contribuem para este processo, divulgando a afirmação sem qualquer suporte factual, como a larga cobertura que a imprensa deu (e dá) a Chico Xavier e a histórias de assombração, etc.
Outros exemplos abundam: ET de Varginha, Caso Roswell, raptos por extraterrestres, projeções astrais, idéias racistas, influência da lua cheia no corte de cabelo, o sexo com virgem para se livrar da AIDS - os supostos casos de êxito alastraram a prática em algumas regiões da África -, etc. Muitos cristãos costumam rir dessas coisas, sem atinarem que existem aqueles que acham a mesma graça das estátuas que choram, das aparições, dos milagres que acontecem com hora marcada no Grupo de Oração das cinco, da Renovação Carismática.
Sem falar na alucinação coletiva.
“Muitas testemunhas de milagres concordam nos seus relatos porque têm as mesmas expectativas. E mais, relatos distintos convergem para a harmonia quando o tempo passa e o relato vai sendo recontado. Os que nada vêem de extraordinário e o admitem são postos de lado por não terem fé. Outros, sem dúvida, não vêem nada mas em vez de admitirem que falharam... imitam o relato dos outros e, subseqüentemente, acreditam que de fato observaram o que inicialmente fingiram que observaram" (Rawcliffe).
“...uma só Teresa de Lisieux (...) serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade.”
Então apenas um comunista bom serve para demonstrar o que o comunismo pode significar para a humanidade? Aquele comunismo soviético?
Primo: Sim, e daí, Schopenhauer? Se a proclamação anunciasse a anulação de todas as leis criminais, também não seríamos protegidos pela ética, nem pela filosofia etc. Isto quer dizer que a ética e a filosofia são supérfluas?
Eu: Ninguém acredita que a ética, a moral e a filosofia existam independentemente do homem, muito menos que interfiram conscientemente nos acontecimentos naturais. E ninguém reza a elas por proteção. Pelamordeseudeus!
Primo: Achar que o fundamento da religião é eu merecer mais do que os outros por ser religioso não corresponde aos ensinamentos de Jesus. Ele já nos dizia: “Acreditais por acaso que aqueles homens mortos pelo desabamento da torre de Siloé eram piores do que vós?” Corremos o risco de aplicar às relações com Deus nossos vícios políticos (somos amigos do chefe, então teremos privilégios sobre os outros). Eu acredito na proteção divina para aqueles que confiam em Deus. Se existem catástrofes, crimes e acidentes, prefiro não usá-los para julgar a Deus ou para decidir se Deus existe. Entendo que o amor a Deus sobre todas as coisas junto ao amor ao próximo como a nós mesmos ou – aperfeiçoamento trazido por Jesus – o amor aos outros com o tipo de amor pelo qual Jesus nos amou substitui a disputa de privilégios pela solidariedade espontânea, essa sim, capaz de melhorar o mundo. O fato de não podermos contar com essa solidariedade espontânea para sairmos à noite pelos becos das favelas não invalida o princípio da solidariedade.
Eu: Mais uma vez: solidariedade também não é uma entidade consciente à qual podemos pedir qualquer coisa. Já a um deus podemos pedir e ele responderá com um "sim", um "não" ou um "espere". Do mesmo modo, se rezarmos a um bule de chá as suas respostas serão sempre "sim", "não" ou "espere". Você poderá receber o que pediu imediatamente, em algum tempo ou jamais receber. Claro que o consolo, a segurança e a paz interior que a oração propicia aos inseguros e medrosos são bem reais.
Antigamente, as pessoas rezavam mais por chuva do que hoje, com tantos satélites fotografando nosso planeta e com a miríade de meteorologistas a analisar os dados e a transmiti-los à população por canais como o Weather Channel. Da mesma maneira, quem perde tempo expulsando demônios de epiléticos, se qualquer pessoa sem autoridade divina pode ministrar o remédio adequado e controlar a crise?
Primo: Isto é válido para os que acham que é possível provar racionalmente a existência de Deus, mediante o argumento de que, se o universo existe, alguém deve tê-lo criado. Russell poderia usar o mesmo raciocínio para Deus: se Deus existe, alguém deve tê-lo criado. A razão não se presta para provar a existência de Deus e muito menos para provar a não-existência de Deus. Simplesmente esse assunto está fora de sua alçada.
Eu: "Provar a não existência": Você nunca conseguirá provar que algo não existe. No máximo posso provar que não existe um triângulo de quatro lados, he he.
Primo: Ou seja, Catellius*: nenhuma demonstração de natureza científica PROVA a existência de Deus. Portanto, não cabe ao cientista, como tal, dizer se Deus existe ou não. Fazendo um paralelo, nenhuma mulher poderia provar cientificamente que ama um homem. Se ela der sua vida por ele, alguém pode levantar a hipótese de que ela estava mesmo pensando em suicídio e aproveitou a oportunidade para impressioná-lo ou fazê-lo sentir-se culpado... que ela era louca... e milhares de outras opções que os romancistas se encarregariam de levantar. Se ela lhe fizer surpresas, pode ser vista como interessada em retribuição; se ela recusar retribuição, pode ser vista como orgulhosa; se ela for meiga, é perigosamente insinuante; se ela não der nenhum sinal ambíguo, é uma farsante extremamente hábil. Conclusão do “cientista”: quem acredita no amor é um idiota!
Pode parecer brincadeira, mas há psicólogos, entre os adeptos do determinismo absoluto como explicação para o comportamento humano, que tentam traduzir o amor em termos de simples condicionamento respondente e operante. Essa corrente advoga a idéia de que o amor é só uma forma de condicionamento, uma resposta automática. Eles de fato ajudam a entender alguns fenômenos relacionais (afinal, o condicionamento existe), mas essa explicação não deixa nada fora? Ela dá conta de todos os fatos? Se for assim, então um supersistema de controle poderia ser exercido, no sentido de condicionar alguns cidadãos a ficarem junto com suas respectivas cidadãs, ter um determinado número de filhos – e só o número determinado – e outros cidadãos a permanecerem desacompanhados e a não reproduzir para não aumentar a população. Você acredita que amor existe?
Primo: Feuerbach faz aqui uma constatação aplicável a muitos fatos da história humana, porém não a todos. Novamente a armadilha do “sempre”. Quando alguém “raciocina” com indignação, corre um risco maior de cair no estereótipo, como é o caso aqui, mesmo tratando-se de um filósofo respeitado.
Eu: Ele usou o "sempre" mas concluiu com o "podem".
Não disse que as coisas mais infames são sempre estabelecidas. Disse que podem ser estabelecidas.
O afã de achar erros naquilo que já a princípio (ou por princípios) somos contra, nos arma armadilhas como essa.
Primo: O afã de achar erros? Você está enganado. Se eu tivesse atentado para esse “podem”, não teria feito objeções à frase, como não fiz em outras situações. Provavelmente, você está me interpretando de forma preconcebida. Quando leio as várias declarações e os vários argumentos seus, estou aberto à possibilidade de estar de acordo ou de estar em desacordo com o todo ou parte do que foi dito. Caso contrário, que sentido haveria nessa troca? Ela seria um eterno discutir palavras, inócuo e nem mesmo divertido.
Eu: Independentemente da ação dos religiosos, as religiões contêm preconceitos, verdades absolutas, uma moral absoluta que é a mãe do moralismo e da intolerância, e conferem autoridade de juízes e de representantes divinos a determinado grupo de homens. Aí está a receita perfeita para o desastre. Concordo com Carlos Esperança quando escreve que "a fé e a intolerância são irmãs gêmeas. As Igrejas odeiam-se com uma veemência que estarrece as pessoas civilizadas e transmitem o ódio dos seus líderes à multidão de crentes que as seguem. Faz parte da sua natureza. A fé, em o que quer que seja, virou um problema mundial".
Primo: “As pessoas”... Note o insidioso termo “todas” subentendido! Muitas pessoas realmente podem usar a religião como ópio. Vamos proibir o vinho porque “as pessoas” fazem bebedeiras com vinho. Eh, Bakunin!
Eu: Quando um número significativo de pessoas mata sob efeito do álcool, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser restringido sim, e o rótulo deve conter “proibida para menores” (no outro caso: proibida para ignorantes), “consuma moderadamente” (no outro caso: não acredite no que lhe dizem os representantes de deus).
A restrição veio em bom tempo. Uma espécie de lei seca limitando o poder dos alcoólatras de deus. A religião católica foi então domesticada pelo laicismo europeu. Como os muçulmanos ainda estão apenas domados, alguns em estado feral, os cristãos olham para eles com desdém, esquecendo que há pouco tempo eles eram os chacais com a boca encharcada de sangue, apesar de suas escrituras serem as mesmas de hoje, e apesar do imenso poder que os religiosos já tiveram para estabelecer a paz no mundo. Espero que não tenham uma nova oportunidade para promover o seu ideal de justiça e liberdade...
Primo: O que pretendo dizer é que se pode usar um remédio como veneno. A culpa não é do remédio, mas do uso.
Primo: Então a crença de Carl Sagan de que Deus não existe baseia-se numa profunda necessidade dele de acreditar que Deus não existe? “Um crente” = “todo crente”. Generalização subentendida! Tenho certeza de que o próprio Carl Sagan acreditava em muitas coisas porque faziam sentido e não porque tinha necessidade de acreditar.
Eu: Segundo as palavras do físico, “Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo autocorretivo. Para serem aceitas, novas idéias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio."
Carl Sagan morreu aceitando a teoria do Big Bang como verdadeira. Hoje uma parcela significativa dos cientistas já a está descartando.
Mas Carl Sagan mudou suas crenças científicas várias vezes durante a vida, obviamente devido a novas evidências, a debates, a pesquisas e a experiências ao redor do mundo. E nenhum “supercientista” o excomungou por isso.
Primo: Organizações religiosas até podem condenar que as contradiz. Não a religião. A religião é uma conexão, uma busca, um encontro. Quem diz “aceite e cale a boca” é uma pessoa, não a religião, é uma pessoa que está tendo uma atitude arrogante. Além disso, como já foi falado, ciência e religião buscam coisas diferentes! Podem-se auxiliar mutuamente, mas não há como se contradizerem.
Eu: É claro que quando ele diz "religião", não se refere a uma entidade consciente que mandará quem quer que seja calar a boca. São sempre os protetores das crenças religiosas que o fazem, principalmente aqueles que falam em nome dos fiéis.
Não há como religião e ciência se contradizerem? Aí temos um belo postulado, daqueles que você classificaria como generalização. Só se a religião fosse restrita ao que "não tem nada a ver com ciência". Mas temos os milagres, as aparições, a cosmologia, os anacronismos históricos...
Mil anos atrás a origem do homem era assunto metafísico, no máximo especulação de filósofos. Mas quando a ciência, em sua caminhada natural, contradisse a religião nesta questão, os religiosos negaram em um primeiro momento, aceitaram com ressalvas em um segundo (passaram a chamar o Gênesis de "simbólico") e agora descobriram que podem recrutar cientistas mercenários ou eles mesmos se formarem em física para "provarem", respaldados por credenciais, que sempre tiveram razão.
Primo: No meu ponto de vista, não há como religião e ciência se contradizerem, embora seja possível um cientista contradizer um religioso e vice-versa. São ambas perfeitamente válidas, complementares, e cada uma tem sua área específica.
Primo: Perfeito! Se os cavalos tivessem o poder da reflexão e liberdade, o Verbo Eterno poderia encarnar-se sob essa forma, para ajudar tais seres pensantes a viver na matéria em harmonia com o espírito.
Eu: Acho que não foi isso que ele quis dizer. O filósofo jônico ficou famoso por combater o antropomorfismo. Ele acreditava em um deus único, onipotente, "com clarividência perfeita, justiça infalível" e sem forma humana. Mas a frase serve para ilustrar que os homens criam deuses à própria imagem e não o contrário. Viam reis com mensageiros e tratavam de criar anjos, viam assessores e "burocratas" e tratavam de criar santos, instâncias entre eles e as divindades.
Primo: O antropomorfismo também é combatido pela religião católica. Não é Deus que tem a imagem do homem, mas o homem que é imagem de Deus. É óbvio que imagem, aqui, não se refere a olhos, nariz, boca, pescoço, barriga, pernas etc.
Primo: Para quem literaliza Adão e Eva não é difícil literalizar também um céu com anjos de harpa sobre nuvens. Novamente, religião não é ciência e ciência não é religião. Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência. Várias dessas frases combatem a religiosidade estúpida como se ela constituísse a essência da religião.
Eu: O Gênesis só deixou de ser literal quando Darwin entrou em cena. Hoje quem enxerga nessa crença de três mil anos, ainda aceite por muitos, um exemplo de obscurantismo, está sendo maldoso, está literalizando...
A idéia de pecado original surgiu para explicar o mal no mundo; dois indivíduos seriam os primeiros pecadores. Isto é literal. A crença no poligenismo pode levar alguém à excomunhão. Só o monogenismo é aceito pela Igreja Católica.
"Anjos nas nuvens" também já foi algo literal. Acreditava-se que o deus abraâmico, de seu trono, via toda a humanidade, a qual habitava uma terra chata. Acreditava-se que o firmamento era uma espécie de concreto cheio de furinhos através dos quais as "águas superiores" caiam para cá. Alguém que tivesse levantado a hipótese da evaporação poderia até ter sido morto a mando de um Eliseu da vida.
"Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência". Como isto não é falseável, não é do campo da ciência.
Primo: Se a expressão “são igualmente incompreensíveis” for uma abertura para a investigação, parabéns para Mencken! Se for uma forma de dizer que o homem que reza é estúpido, pelo menos ele iniciou a frase com um “para mim”.
Eu: A descoberta dos micróbios e dos germes, a assepsia, a penicilina, a vacina e o antibiótico conseguiriam salvar a maior parte dos dois terços de cristãos cujas vidas foram ceifadas pela Peste, no fim da Idade Média. Certamente eles oraram muito. Os padres sobreviventes culparam os pecados das vítimas pelo ocorrido, já que tinham catástrofes como o Dilúvio Universal nas quais se espelhar. Pés de coelho, da mesma maneira, não teriam adiantado muito, já que a ira do deus bíblico exigia sangue humano...
Primo: Logo, não se deve rezar: é anticientífico! É isso?
Primo: É difícil imaginar 5 bilhões de pessoas acreditando numa coisa estúpida. Isto só seria possível com Anatole France pairando sobranceiro acima de todas elas. Mas, brincadeiras à parte, entendi o argumento dele: Mais vale um bom cientista pesquisando uma vacina do que uma multidão de pessoas misturando a esmo as mais diferentes melecas, sem qualquer formação científica, na esperança de debelarem a doença. Também poderíamos dizer: Não é sensato fazer uma eleição para decidir se Deus existe.
Eu: Vide a crença na reencarnação. Se os chineses e indianos nela crêem e, por acaso, reproduziram-se mais do que os europeus, daria para afirmar que a crença deles passou a ser a correta?
Primo: A recíproca também é verdadeira. Cinco bilhões de falsos milagres não invalidam um único milagre autêntico. Basta um para fazer ruir todo esse sistema baseado no pressuposto de que só existem truques, engodos e ilusões. E quem quiser realmente investigar, que investigue. Material não falta.
07 julho 2007
Idealismo e Realidade
Fiquei muito feliz, um dia desses, quando um amigo petista me chamou para almoçar, afinal até os liberais gostam de ser estimados. O almoço ia bem até que começamos a falar em política. Chegamos quase aos finalmentes: eu disse que o Lula e sua quadrilha eram um bando de ladrões que pilhavam as estatais para o partido, e ele disse que, no fundo, o FHC odiava o Brasil. Enfim, um completo desastre. Fiquei deprimido.
Depois liguei para ele e propus uma conciliação. Disse-lhe que, para mim, a questão tratava-se apenas de como apreendíamos a realidade. O idealista gosta sempre de ver o copo meio cheio, e o realista estraga tudo dizendo que não existe “meio” vazio e tampouco “meio” cheio, assim como não se pode ser meio honesto nem se estar meio grávida; para o realista o copo está pela metade. E assim acaba passando a imagem de pessimista, muitas vezes. Além disso, sabe que o homem é um tipo basicamente egoísta, embora tenha a capacidade para ser solidário. Existem aqueles que gostam do discurso politicamente bonitinho enquanto outros são desconfiados por natureza.
Argumentei que achava o discurso da direita mais verdadeiro porque estava geralmente embasado em ações, enquanto muito poucos que adotam o discurso socialista o são na prática. Ele revidou dizendo que era um absurdo pessoas que tinham ganho bolsa de mestrado criticarem o Bolsa Família. Eu respondi que apoiava o Bolsa Escola e que, portanto, não havia incoerência alguma.
Enfim, todo governo precisa dos seus otimistas e não sou eu que vou perder um amigo. Foda-se o governo. Fiquei até com inveja da fé do meu amigo. Talvez seu mundo seja mais feliz do que o meu. E considerando que ele está na iminência de ser promovido, penso que talvez os crentes sejam mais atraentes e agradáveis aos demais, que são, em sua maioria, crentes de algum tipo. O verdadeiro indivíduo, aquele que age em seu próprio benefício, talvez não perca muito tempo tentando disseminar idéias que ele julga mais corretas. Apenas aproveitará as oportunidades para fazer o melhor.
Mas quem sabe não seja melhor, em algumas situações, você dizer o que as pessoas querem ouvir? E se você ainda por cima acredita nisto, bingo! Só não dá para criticar os políticos mentirosos. Eles falam o que todos querem ouvir. Depois os incautos elegem as criaturas e elas não cumprem o que prometeram; e a culpa é de quem? De quem foi eleito mentindo ou de quem votou desejando desesperadamente acreditar?
Muitas vezes a salvação dos ideais está na esperança de punição, porque ela pode purificar novamente o ideal, restaurar seu hímen. Se um petista roubou, que seja preso para que os ideais aos quais está associado sejam mantidos impolutos. Mas, e quando não se tem esperança de punição? Então não faz mal, afinal eles amam o país, são idealistas e, se roubaram, não é lá tão ruim assim, pois os outros fizeram isto também.
A ironia destes esquerdistas é que a corrupção não pode ser sistêmica e portanto responsabilidade da coletividade do governo e do seu chefe. Ela tem que ser culpa de alguns indivíduos. Só o mérito pertence ao grande líder, ao grande pai, àquele que inaugura obra atrás de obra sem em nada ter contribuído para a maioria delas, enquanto a culpa é de algum burocrata insignificante do partido.
Mais aí retornamos à questão do copo “meio cheio” e “meio vazio”. Os esquerdistas gostam de ver qualidade na coletividade e culpa nos indivíduos. A direita exalta o indivíduo e às vezes parece deplorar o coletivo. Qual será a realidade?
02 julho 2007
O Exército de Chávez
Alguns petistas mais ligados aos ideais da geração de 68 vêem no regime chavista um aliado ideológico. Alguns como a Dilma defendem a construção do Gasur, um gasoduto que atravessaria o território brasileiro e conectaria a Venezuela à Argentina. De fato, este gasoduto tem o potencial de gerar enormes prejuízos para a Petrobras, muito maiores do que os sofridos com as perdas na Bolívia. Mas agora temos um complicador nesta história; a Venezuela mostra ambições militares além das estratégicas e inicia uma corrida armamentista.
Recentemente, em suas conversas com Putin, Chávez teria dito que vê a Venezuela em relação à América como a Rússia em relação à Europa. Entretanto, observa-se que as relações entre os europeus e os russos têm sofrido estremecimentos diante da interrupção de fornecimento de gás para a Alemanha, e de outras ameaças russas.
Sob a alegação de temer uma invasão militar americana, os venezuelanos iniciaram esta corrida armamentista – na verdade uma corrida aos shoppings militares do mundo levando consigo o dinheiro do petróleo. De fato, a Venezuela tem uma disputa territorial com os EUA, a França e a Holanda em sua plataforma continental cheia de petróleo.
Atualmente, a Venezuela treina um contingente de 2 milhões de reservistas que deseja reintegrar às forças armadas visando preparar-se para uma longa guerrilha contra uma possível invasão americana. Esta demonização do maior comprador do petróleo venezuelano não deixa de ser curiosa.
Em 2000, as Forças Armadas Venezuelanas tinham um contingente de 75.000 homens. Em 2005, cerca de 100.000 homens foram adicionados a um corpo separado das forças armadas. Elas são organizadas em seis corpos subordinados a dois comandos independentes. Esta estrutura parece refletir mais o temor de sofrer um novo golpe interno do que um sistema eficiente de combate a um inimigo externo.
A lista de compras de equipamento militar de Chávez inclui: 12 navios de transporte e aviões de reconhecimento e oito navios patrulha comprados da Espanha; 100 mil rifles AK-103, 12 helicópteros Mi-17, 24 caças Su-30 e 6 submarinos de ataque a diesel da Rússia; sistemas de radar da China; sistema antiaéreo da Bielorussia e a licença para produzir os rifles de assalto AK em seu território.
Os venezuelanos tentaram adquirir outros equipamentos mas sofreram embargo dos americanos, que ameaçam as empresas ou países vendedores com perdas de contratos ou de licenças de uso de tecnologia americana. Além disso, os venezuelanos acusam os americanos de não oferecerem manutenção adequada à esquadrilha venezuelana de F-16.
E o Brasil? Seria realmente de nosso interesse construir um gasoduto caríssimo que aumentaria a nossa dependência de um regime que no futuro poderá estar desalinhado ideologicamente com o nosso, que não tem uma prática democrática, que tem tradição em rompimento de contratos e que está se tornando uma potência militar?