27 julho 2007
A Trajetória da Geração de 68 ao Poder
Há algum tempo assisti a uma entrevista do José Dirceu ao Roberto D’Ávila onde falava de sua vida e de como a sua militância política começara. Segundo ele, tudo começou quando ele, um jovem e bonito aluno de direito da PUC/SP, organizou uma rebelião para que as turmas separadas de homens e mulheres passassem a ser mistas. Como disse uma vez o José Genoíno, enquanto ele trabalhava nos Congressos da UNE o Dirceu “passava o rodo”.
Há alguns anos, perambulando por um sebo, encontrei um livro organizado pelo Guido Mantega, então porta-voz dos economistas do PT, chamado Sexo e Poder. Segundo João Domingos, no artigo de Mantega “Sexo e Poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da dominação” podemos ler: “...a construção do homem novo e a conquista da liberdade vão muito além da destruição do Estado capitalista.” Hoje, 30 anos depois, podemos nos arriscar a dizer que a Revolução Sexual e a erosão dos valores vitorianos não destruiu o capitalismo.
Todos conhecem a outra expoente da sexualidade do PT paulista, a ministra do Turismo Marta “Relaxa e Goza” Suplicy. Ela é talvez a principal expoente feminista pela libertação sexual do partido, participando todos os anos da passeata dos GLBTS, embora, segundo seu filho Supla, não seria mais do que uma burguesinha se não fosse o seu pai, o ilustre senador Eduardo Suplicy. Foi ele quem, ainda nos anos 80, propôs o Programa de Garantia de Renda Mínima. Seria assim quase um “pai” do Bolsa Família.
Se bem que é opinião comum até entre os petistas que este ícone da ética seja meio lesado. Vai ver foi por isso que a Marta, então prefeita de São Paulo, deu-lhe um pé na bunda para ficar com o franco-argentino Luis Favre - ou seria Felipe Belisário Wermus, envolvido no esquema de Caixa 2 do Partido dos Trabalhadores e na negociata envolvendo a Portugal Telecom juntamente com Naji Nahas, o homem que quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989, quebra da qual esta Bolsa nunca se recuperou? É muito irônico! De mulher do “homem perfeito” à mulher de bandido.
Segundo os boatos, quem lucrou dando este “corner” em Nahas foi um jovem economista chamado Daniel Dantas, do qual, segundo se comenta, o professor Simonsen disse tratar-se do aluno mais brilhante que já tivera. De fato, mais tarde Nahas se aliaria à Telecom Itália e ao PT contra Dantas na disputa pela Brasil Telecom. Dantas contrataria a Kroll para espionar a cúpula petista e acusaria o governo Lula e o PT de tentar cobrar US$ 50 Milhões para que a Anatel e os fundos de pensão estatais o apoiassem na questão da Brasil Telecom.
Em 1968, o jovem cheio de hormônios José Dirceu participou do rompimento com o Partidão e se aproximou de grupos como a ALN liderada por Carlos Marighela e Dilma Roussef. A sua decisão pela luta armada duraria pouco, pois no mesmo ano foi preso no XXX Congresso Nacional da União dos Estudantes (UNE), realizado em um sitio em Ibiúna em São Paulo – aliás, coisa de “gênio” aquele congresso supostamente secreto. Em seguida, é trocado pelo Embaixador americano seqüestrado pela ALN e MR8 e é exilado.
No exílio fez supletivo de guerrilha em Cuba mas não se tem conhecimento de nenhuma ação em que tenha estado envolvido. O engraçado é que os velhos comunistas ainda têm mágoa destes caras da Geração de 68 que declararam guerra aos militares e foram para o exílio enquanto eles ficavam aqui levando porrada. Mais tarde, a Geração de 68 pratica o segundo rompimento com o Partidão fundando o PT em 1980.
Com a fundação do PT, a Geração de 68 começa a desistir da luta armada como caminho para se chegar ao poder. O discurso agressivo nacionalista e anti-corrupção do PT foi muito bem sucedido na década de 80 e nos estertores do pior governo brasileiro do século XX, o governo Sarney, que terminou o mandato com inflação de 80% ao mês. Eles talvez conquistariam o poder se não fosse pela intervenção da Rede Globo, que editou o debate com o Collor e explorou muito bem o episódio do seqüestro do empresário Abílio Diniz por um guerrilheiro esquerdista chileno. Não podemos esquecer também da amante do Lula e da sua filha fora do casamento que lhe causaram algum embaraço e da ameaça do Collor com a 'pasta'. Enfim, na ocasião o Lula afinou e segundo gente que era do partido na época foi tomar uísque com a direção da TV Globo.
Nesta época, o PT ainda acreditava nas Comunidades Eclesiais de Base como uma forma de aproximação com o povo. Mais tarde, o Bolsa Família se mostraria muito mais eficiente. De fato, o Bolsa Família foi capaz de substituir a perda de parte da classe média após o Mensalão. Mesmo nos piores momentos o PT sempre teve o apoio do MST, da CUT e dos sindicatos de servidores públicos - a burguesia de estado -, que, em geral, foram comprados com bons aumentos, embora tenham de tolerar chefes geralmente incompetentes oriundos do partido, como o Milton Zuanazzi, presidente da ANAC, que de vereador amigo da Dilma e sem experiência em aviação civil virou a principal autoridade civil na área.
Na década de 90, após a derrota de Lula duas vezes para FHC, a cúpula petista percebe a necessidade de mudar a orientação do PT, e José Dirceu é encarregado de subverter a ordem petista com o Campo Majoritário, cujo poder se sobrepõe as tendências, disciplinando-as. Mais tarde, Lula adota uma linha quase hippie de paz e amor chamada de “Lula Light” sob a orientação do publicitário Duda Mendonça e conquista o centro do espectro político.
O PT aceita que o povo não gosta de inflação nem de bravatas do tipo que não fará o pagamento da divida externa e o IBGE mostra que com o fim da inflação começa-se a redução da concentração de renda. De fato, a proposta de FHC, pai da teoria da dependência e ex-discipulo de Florestan Fernandes era reduzir o Estado e desta forma atacar a burguesia que vive as custas dos favores deste. Chavez e a sua boli que o digam.
Semana passada, discutindo com alguns ex-alunos da Maria da Conceição, que comemoravam a morte do ACM, eles me diziam que Dirceu é na verdade um herói, um verdadeiro Robin Hood que descobrira um novo caminho para a Revolução Socialista, o caminho da corrupção. Segundo eles, o abrandamento do discurso petista e a adoção do Caixa 2 punha o partido em condições de igualdade na disputa eleitoral com os demais partidos permitindo-lhe efetivamente chegar ao poder. Para eles, é natural que diante de uma burguesia corrupta a melhor estratégia seria adotar o seu jogo e usá-lo contra os próprios burgueses.
Embora o Caixa 2 tenha dado melhores condições de disputa eleitoral ao PT, foi o Bolsa Família que efetivamente deu a Lula a sua reeleição com os fantásticos índices de aprovação em torno de 80% no Nordeste. Cristóvam Buarque não hesita em afirmar que o Bolsa Família é corrupção. É coronelismo mas é realpolitik e funciona. Acho que nunca o certinho do Eduardo Suplicy imaginou a utilidade eleitoral de sua idéia, que visava dar cidadania às pessoas e não construir o maior curral eleitoral que já se viu na história deste país. O Cristovam Buarque foi o homem que teve a melhor idéia daquela geração propondo o Bolsa Escola, ou seja, a extensão do sistema de bolsas para os alunos carentes desde o ensino fundamental.
A partir disto, o aparelhamento do Estado passa a ser na verdade condição necessária para que os recursos do Estado sejam desviados para os movimentos sociais aliados do governo e da “Revolução”. Afinal, se os grandes fazendeiros “roubam” o Banco do Brasil, por que os Sem Terra e outros movimentos sociais não têm direito a algum recurso a fundo perdido do Tesouro? Isto é apenas distribuição de renda. E se existe corrupção nas estatais e nos fundos de pensão, que se cobre a parte do partido e dos aliados. E para isto ser feito da melhor maneira é preciso nomear os companheiros de confiança para estes cargos, independente das suas qualificações profissionais.
Mas política também é aprendizado e o PT aprendeu com a cassação de Collor. Construiu uma maioria no Congresso com cargos, emendas no orçamento, favores e por que não, dinheiro (o Mensalão). Hoje, o PMDB é o melhor partido que o dinheiro pode comprar e com ele o governo consegue maioria no Congresso, elege os presidentes das duas Casas e controla a agenda legislativa. Afinal de contas, por que o PMDB luta há meses para nomear diretores na Petrobras? Será preocupação para que esta empresa seja bem administrada ou uma maneira de garantir o seu quinhão no butim?
Ate a UNE que gerou grandes lideranças no passado como Jose Serra que foi seu presidente em 63/64 e foi exilado, hoje virou capacho do governo. No exterior, ao invés de cursinho de guerrilha Serra fez doutorado em Economia em Cornell e foi professor em Princeton. De volta ao Brasil, se tornou professor da UNICAMP, propôs a lei que capitaliza o BNDES com 40% dos recursos do FAT, a principal fonte de recursos para o setor privado, alem da conhecida lei dos genéricos. Hoje, esta UNE, outrora maternal dos futuros politicos, apóia o Lula na crise do Mensalao e vive do comercio entre fraudulento e negligente de carteirinhas de estudante.
O próprio Mensalão não é algo sem precedentes. Quem não se lembra da denúncia de que o Maluf estaria comprando os membros do colégio eleitoral em 1986 ou de que o FHC teria comprado votos a R$ 200.000 por cabeça para aprovar a sua reeleição em 1996? Portanto, o Mensalão é apenas uma questão de aprendizagem.
Quanto à Globo, em breve ela enfrentará a concorrência da TV Lula, capitaneada pelo Franklin Martins, que certamente está ansioso para dar o troco na emissora que o demitiu. A Veja vai mal das pernas, a Primeira Leitura fechou e a imprensa é constantemente atacada por membros do governo, senão pelo próprio Lula. Enquanto isto, a imprensa amiga do governo vai se fortalecendo financeiramente com o aparecimento de patrocinadores dispostos a por dinheiro a fundo perdido em diversos órgãos. A circulação da Carta Capital cresce cada vez mais.
As resistências vão cedendo e a “Revolução Socialista da Geração de 68” vai se tornando uma realidade. Não pela Revolução Sexual, não com a libertação da mulher, não pela Luta Armada como fez o seu ídolo Fidel, não com o combate à corrupção, não com as Comunidades Eclesiais de Base mas com um líder sindical carismático semiculto e com muita corrupção.
O grande general sifilítico Mao conquistou a China com a Grande Marcha. Lênin conquistou uma Rússia esgotada pela Primeira Guerra Mundial e cuja elite afrancesada havia perdido o contato com as bases sociais. Lula dominou o Brasil com um pouco de corrupção e com o Bolsa Família. E a TV Lula só tende a aumentar esta hegemonia dando a cobertura “correta” aos acontecimentos nacionais e se preparando para ser uma alternativa caso um dia se tenha que chegar ao extremo de discutir o controle “democrático e social” da concessão da TV Globo.
21 julho 2007
As Angústias de um Engravatado
Não apenas trabalho mas projetos interessantes. Afinal, o trabalho deveria nos prover não apenas o pão mas também a realização... Ridículo, não? Esta é a típica neura da classe média "full of shit". Não seria mais fácil simplesmente ter desejado ficar rico ou ter um bom emprego público, como o de um juiz ou promotor?
O ambiente de trabalho moderno é um desafio ao ego. É muito dinâmico. As relações são marcadas por competição e colaboração às vezes quase simultâneas. O espaço físico é cada vez menos pessoal, mais grupal. Mesmo nos ambientes de escritório americanos, vemos que o espaço privado é um privilégio cada vez maior.
Já disse um "filósofo" chamado Gurdjieff, certa vez, que o homem quer "dormir" e o conforto ajuda muito nisto. Ter um emprego, uma certa estabilidade e a esperança de uma carreira são uma armadilha e tanto. O dormir para ele é igual a estar passivo interiormente, é o deixar-se levar pela maré.
O trágico desta estória é que geralmente quase todos "despertam" na velhice, quando a vida já passou. De que adianta a sabedoria de um velho? Ele provavelmente nunca a usou e o jovem que o ouve também não acreditará nele. Os jovens preferem aqueles que falam a insensatez que eles queiram ouvir, afinal, a Verdade não é algo agradável ao nosso ego, que vive da mentira e de cultivar as suas pequenas ilusões.
Talvez seja por isso que a velhice contenha sabedoria, afinal, um dia, por mais que neguemos, não conseguiremos mais nos iludir. Se bem que agora me lembrei que meus colegas de blog não acreditam n’A Verdade. Acho que A Verdade começa quando aceitamos o que somos aqui e agora.
E quem somos nós? Sugiro um minuto de silêncio interior para que esta pergunta possa ecoar um pouco antes de ser ansiosamente respondida ou desclassificada pela nossa mente. Eu mesmo estive tentado a escrever o que acho, mas penso que cada um deve responder por si mesmo.
As palavras são apenas códigos que nos permitem comunicar, pois supomos que elas estão associadas a objetos comuns. O problema é que quanto mais subjetiva se torna a comunicação menor a chance das palavras se referirem aos mesmos objetos. Neste caso, não há comunicação. Acho que esta é a tragédia dos “livros sagrados”, que tentam nos dizer quem somos.
Vamos tentar de outro jeito; se vocês não acreditam n’A Verdade, então vocês devem acreditar n’A Mentira? E se A Mentira existe, então dialeticamente existe um pouco de Verdade na sua própria negação, ou seja, A Mentira.
Se bem que existem pessoas que confundem Verdade, sinceridade, com algum tipo de incontinência verbal. O caso clássico é quando alguém chega para você e começa a frase dizendo: “Eu queria te dizer umas verdades...”
Eu sempre tive pouca fé, mas acho que todo mundo deve escolher no que acreditar. Seja no lucro, seja em Marx ou então, quem sabe, na liberdade. Existe liberdade? Segundo uma psicanalista amiga minha, não. Somos escravos de algum desejo que tivemos algum dia e que submergiu em nossa inconsciência. E de lá domina toda a nossa existência.
A boa nova, segundo um outro autor que li, seria que se não somos livres então também não podemos pecar. Neste sentido, um santo que lutou toda a sua vida para se libertar de todas as paixões poderia em um momento pecar mais que nós em toda a nossa a vida. Tem um lado meu que não consegue evitar o pensamento: “Se fudeu.” Tanto esforço para se tornar um pecador, kkkk.
Meu ego agora está feliz...transformei as minhas angústias em palavras e ainda mostrei como sou profundo. Isto é que é um bom ego! Ele se orgulha até das próprias angústias. Será que algum dia ficaremos livres dele?
17 julho 2007
O Congresso é um Prostíbulo
Para os brasileiros que assistem à novela de Renan Calheiros, nas últimas semanas o Congresso tornou-se um antro de ladrões e prostitutas que se vendem por favores a construtoras. Mas nem todos estão desapontados. O Palácio do Planalto está feliz que os escândalos estejam localizados na Câmara alta, único local onde o seu poder não é absoluto - lá e na imprensa. Como diz o pesquisador Werneck Viana, vive-se em um novo Estado Novo onde Lula faz as vezes de Getulio Vargas, tendo cooptado as lideranças da sociedade civil em troca de cargos no governo. Veja-se o caso do próprio Mangabeira Unger, que anteriormente criticava o seu governo.
Nas rodinhas de bate-papo, muitos falam que seria melhor fechar o Congresso. Acho que isto seria uma tolice, pois o poder iria simplesmente migrar para outro prostíbulo. Certa vez, ouvi uma historia de que no governo de Pinochet era de fato necessário sair em busca da puta de um general específico para que ela intermediasse um favor a ser pedido. Com o Congresso aberto, pelo menos o prostíbulo fica mais transparente e uma parcela mais ampla da sociedade pode ser mobilizada pela imprensa, formando a opinião publica e influenciando a decisão.
A esquerda aproveitou a oportunidade para lançar a idéia de que o Senado é uma instituição antiquada e que deveríamos abolir o sistema bicameral. Ocorre que é ele que impede que o rolo compressor do governo termine de atropelar o Congresso. As votações nas duas casas ampliam as discussões em torno dos temas e dão mais vagar às suas aprovações, o que, a meu ver, também é positivo.
Sei que muitos petistas gostam da idéia de um regime castrista ou chavista onde multidões de correligionários comparecem nas praças para urrar em apoio ao seu líder e participar da aparência de uma democracia popular. Mas nestes regimes o poder de fato está nas mãos de grupinhos de familiares ou aliados, como atesta a indicação do irmão de Fidel para substituí-lo.
O bicameralismo é uma herança da Antigüidade Clássica. "Senado" é o nome romano para o conselho de anciãos - daí o nome, de "senex", idoso, de onde vem também a palavra "senil" -, conselho que existia no oriente há vários milhares de anos. Pelo nosso "conselho de anciãos" já passaram velhos como a Heloísa Helena, que entrou na casa antes de completar quarenta anos, e veneráveis sábios como Joaquim Roriz, Gim Argello, Luiz Estevão, Jader Barbalho e ACM.
Antigamente, buscava-se pessoas que tivessem uma certa dignidade e compostura para o Senado. No governo militar tivemos o ilustre senador Jarbas Passarinho que, apesar de ser um coronel com viés autoritário, costumava ter o respeito dos seus adversários no antigo MDB. Hoje em dia, ser honesto virou até mote de campanha política, um "diferencial". Ainda assim, fica difícil listar os senadores com reputação de honestidade. Além do Cristóvam, do Pedro Simon, do Eduardo Suplicy, do Jefferson Peres e do Romeu Tuma, alguém se lembra de algum outro?
No quesito dignidade, acho que merece menção o senador Delcídio, que cumpriu as funções de Relator da CPI dos Correios apurando todos os fatos, não poupando ninguém, apresentando o relatório apesar das pressões imorais sofridas dentro e fora do Plenário, como o comprovou o triste episódio envolvendo o deputado Bittar, que o agrediu durante a sessão. A sua função foi cumprida para com o país e com a democracia, tendo sido apresentado no prazo o relatório que resultou na denúncia dos 40 ladrões pela Procuradoria Geral da Republica.
A propósito, só faltou o Ali Babá, mas quem sabe agora, nos escândalos da Petrobras, não se chega a ele? De novo, o escândalo tem grande potencial, afinal a presidência do conselho da empresa é ocupada pelo atual ministro-chefe do gabinete civil, a Dilma Roussef. Mas a disputa contra a apuração dos fatos é grande e a Petrobras obteve liminar contra o pedido do TCU para ter acesso à intranet da companhia.
11 julho 2007
Frases de Luminares
Ele, um católico fervoroso e muitíssimo inteligente, contestou cada uma delas, fiz minhas tréplicas, com algum cuidado para não o ofender, e a partir delas fez suas últimas objeções. A discussão prosseguiu ao vivo, quando ele esteve em Brasília, e, embora não tenhamos nem de longe chegado aos "finalmentes", como quase aconteceu entre o Heitor e seu amigo petista, fato descrito no post anterior, não nego que tivemos de mudar de assunto quando o mal-estar típico desses embates verbais se avizinhou. De fato, a discussão por escrito é a alternativa viável quando não há um mediador que impeça um argüente de cortar a exposição do raciocínio do outro e que discurse além do tempo conveniente. Nas caixas de comentários de blogs, passamos ao comentário seguinte quando percebemos que o debatedor perdeu-se dourando a pílula ou repetindo algo que já havia escrito.
Inspirado no conflito entre amizade e ideologias/filosofias incompatíveis, colo aqui uma pequena amostra da discussão, adiantando que não há muita novidade na maioria dos argumentos, de ambos os lados.
Primo: Realmente não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade. A crença em Deus não é anti-racional. É extra-racional. Quem entende corretamente o cristianismo, não teme a Deus, mas O ama. Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião, assim como um mau cientista não serve de base para se condenar a ciência.
Eu: Extra-racional? Que diabos vem a ser isto?
" Um mau religioso não serve de base para se condenar a religião,..."
Entre os religiosos que detiveram algum tipo de poder - portanto agora não estou falando da massa de prosélitos - o abuso de autoridade não apenas não foi exceção mas quase uma regra.
Primo: Extra-racional, supra-racional, mas não irracional. Os sentidos, que captam as informações sobre o mundo, podem fazê-lo de modo direto – através de sensações “em primeira mão” – ou indireto – através de relatos, testemunhos etc. Os que tiveram experiências extraordinárias “em primeira mão”, quando não são doentes mentais, têm menos dificuldade em aceitar a existência de uma realidade que não fica óbvia no quotidiano. Os outros, que ouvem dizer, usam seus próprios recursos de filtragem, seu pensamento, seu sentimento, suas intuições, o conjunto de seus próprios recursos, conscientes e inconscientes, para aceitarem ou rejeitarem o lhes narram. É fácil rejeitar uma história do “Chicó” e seu “não sei... só sei que foi assim...”. Já não é tão fácil rejeitar os fenômenos vistos no sol em Fátima. Os dois tipos de relato parecem partilhar o “absurdo”. Só que um é engraçado e ninguém em sã consciência levaria a sério; o outro entra numa categoria diferente.
Um indivíduo que possuísse apenas a razão seria um “aleijado”, assim como aquele que dela não dispusesse.
Nem um mau religioso, nem bilhões, sejam eles do povo ou dos governos, servem de base para condenar a religião (não esta ou aquela forma de viver a religião, não este ou aquele uso da religião, mas a religião). Dezenas de reis corruptos ou milhares de religiosos sanguinários não tornam a religião ruim. Mas um só Jesus, uma só Teresa de Lisieux, um só Padre Pio ... serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade. Este argumento se aplica a diversas frases aqui citadas, por isso não voltarei a repeti-lo.
Eu: Extra-racionais deviam ser as provas da existência de Júpiter para muitos devotos romanos. Por si só aquela fé não teria sucumbido tão facilmente; foi necessário o cristianismo para sepultá-la - ou adaptá-la. Da mesma maneira, só foi possível quebrar, em uma grande parcela dos cristãos, o reforço comunal da intercessão dos santos com uma dissidência que surgiu com "pureza", força, "verdade" e, teoricamente, poucos podres no currículo: o protestantismo.
Reforço Comunal é o nome do processo pelo qual uma afirmação se torna uma crença profunda pela repetida confirmação pelos membros de uma comunidade. Robert T. Carroll explica que o processo é independente de a afirmação ter sido investigada ou de existirem dados que dêem suporte a ela. Muitas vezes os meios de comunicação contribuem para este processo, divulgando a afirmação sem qualquer suporte factual, como a larga cobertura que a imprensa deu (e dá) a Chico Xavier e a histórias de assombração, etc.
Outros exemplos abundam: ET de Varginha, Caso Roswell, raptos por extraterrestres, projeções astrais, idéias racistas, influência da lua cheia no corte de cabelo, o sexo com virgem para se livrar da AIDS - os supostos casos de êxito alastraram a prática em algumas regiões da África -, etc. Muitos cristãos costumam rir dessas coisas, sem atinarem que existem aqueles que acham a mesma graça das estátuas que choram, das aparições, dos milagres que acontecem com hora marcada no Grupo de Oração das cinco, da Renovação Carismática.
Sem falar na alucinação coletiva.
“Muitas testemunhas de milagres concordam nos seus relatos porque têm as mesmas expectativas. E mais, relatos distintos convergem para a harmonia quando o tempo passa e o relato vai sendo recontado. Os que nada vêem de extraordinário e o admitem são postos de lado por não terem fé. Outros, sem dúvida, não vêem nada mas em vez de admitirem que falharam... imitam o relato dos outros e, subseqüentemente, acreditam que de fato observaram o que inicialmente fingiram que observaram" (Rawcliffe).
“...uma só Teresa de Lisieux (...) serve para demonstrar o que a religião pode significar para a humanidade.”
Então apenas um comunista bom serve para demonstrar o que o comunismo pode significar para a humanidade? Aquele comunismo soviético?
Primo: Sim, e daí, Schopenhauer? Se a proclamação anunciasse a anulação de todas as leis criminais, também não seríamos protegidos pela ética, nem pela filosofia etc. Isto quer dizer que a ética e a filosofia são supérfluas?
Eu: Ninguém acredita que a ética, a moral e a filosofia existam independentemente do homem, muito menos que interfiram conscientemente nos acontecimentos naturais. E ninguém reza a elas por proteção. Pelamordeseudeus!
Primo: Achar que o fundamento da religião é eu merecer mais do que os outros por ser religioso não corresponde aos ensinamentos de Jesus. Ele já nos dizia: “Acreditais por acaso que aqueles homens mortos pelo desabamento da torre de Siloé eram piores do que vós?” Corremos o risco de aplicar às relações com Deus nossos vícios políticos (somos amigos do chefe, então teremos privilégios sobre os outros). Eu acredito na proteção divina para aqueles que confiam em Deus. Se existem catástrofes, crimes e acidentes, prefiro não usá-los para julgar a Deus ou para decidir se Deus existe. Entendo que o amor a Deus sobre todas as coisas junto ao amor ao próximo como a nós mesmos ou – aperfeiçoamento trazido por Jesus – o amor aos outros com o tipo de amor pelo qual Jesus nos amou substitui a disputa de privilégios pela solidariedade espontânea, essa sim, capaz de melhorar o mundo. O fato de não podermos contar com essa solidariedade espontânea para sairmos à noite pelos becos das favelas não invalida o princípio da solidariedade.
Eu: Mais uma vez: solidariedade também não é uma entidade consciente à qual podemos pedir qualquer coisa. Já a um deus podemos pedir e ele responderá com um "sim", um "não" ou um "espere". Do mesmo modo, se rezarmos a um bule de chá as suas respostas serão sempre "sim", "não" ou "espere". Você poderá receber o que pediu imediatamente, em algum tempo ou jamais receber. Claro que o consolo, a segurança e a paz interior que a oração propicia aos inseguros e medrosos são bem reais.
Antigamente, as pessoas rezavam mais por chuva do que hoje, com tantos satélites fotografando nosso planeta e com a miríade de meteorologistas a analisar os dados e a transmiti-los à população por canais como o Weather Channel. Da mesma maneira, quem perde tempo expulsando demônios de epiléticos, se qualquer pessoa sem autoridade divina pode ministrar o remédio adequado e controlar a crise?
Primo: Isto é válido para os que acham que é possível provar racionalmente a existência de Deus, mediante o argumento de que, se o universo existe, alguém deve tê-lo criado. Russell poderia usar o mesmo raciocínio para Deus: se Deus existe, alguém deve tê-lo criado. A razão não se presta para provar a existência de Deus e muito menos para provar a não-existência de Deus. Simplesmente esse assunto está fora de sua alçada.
Eu: "Provar a não existência": Você nunca conseguirá provar que algo não existe. No máximo posso provar que não existe um triângulo de quatro lados, he he.
Primo: Ou seja, Catellius*: nenhuma demonstração de natureza científica PROVA a existência de Deus. Portanto, não cabe ao cientista, como tal, dizer se Deus existe ou não. Fazendo um paralelo, nenhuma mulher poderia provar cientificamente que ama um homem. Se ela der sua vida por ele, alguém pode levantar a hipótese de que ela estava mesmo pensando em suicídio e aproveitou a oportunidade para impressioná-lo ou fazê-lo sentir-se culpado... que ela era louca... e milhares de outras opções que os romancistas se encarregariam de levantar. Se ela lhe fizer surpresas, pode ser vista como interessada em retribuição; se ela recusar retribuição, pode ser vista como orgulhosa; se ela for meiga, é perigosamente insinuante; se ela não der nenhum sinal ambíguo, é uma farsante extremamente hábil. Conclusão do “cientista”: quem acredita no amor é um idiota!
Pode parecer brincadeira, mas há psicólogos, entre os adeptos do determinismo absoluto como explicação para o comportamento humano, que tentam traduzir o amor em termos de simples condicionamento respondente e operante. Essa corrente advoga a idéia de que o amor é só uma forma de condicionamento, uma resposta automática. Eles de fato ajudam a entender alguns fenômenos relacionais (afinal, o condicionamento existe), mas essa explicação não deixa nada fora? Ela dá conta de todos os fatos? Se for assim, então um supersistema de controle poderia ser exercido, no sentido de condicionar alguns cidadãos a ficarem junto com suas respectivas cidadãs, ter um determinado número de filhos – e só o número determinado – e outros cidadãos a permanecerem desacompanhados e a não reproduzir para não aumentar a população. Você acredita que amor existe?
Primo: Feuerbach faz aqui uma constatação aplicável a muitos fatos da história humana, porém não a todos. Novamente a armadilha do “sempre”. Quando alguém “raciocina” com indignação, corre um risco maior de cair no estereótipo, como é o caso aqui, mesmo tratando-se de um filósofo respeitado.
Eu: Ele usou o "sempre" mas concluiu com o "podem".
Não disse que as coisas mais infames são sempre estabelecidas. Disse que podem ser estabelecidas.
O afã de achar erros naquilo que já a princípio (ou por princípios) somos contra, nos arma armadilhas como essa.
Primo: O afã de achar erros? Você está enganado. Se eu tivesse atentado para esse “podem”, não teria feito objeções à frase, como não fiz em outras situações. Provavelmente, você está me interpretando de forma preconcebida. Quando leio as várias declarações e os vários argumentos seus, estou aberto à possibilidade de estar de acordo ou de estar em desacordo com o todo ou parte do que foi dito. Caso contrário, que sentido haveria nessa troca? Ela seria um eterno discutir palavras, inócuo e nem mesmo divertido.
Eu: Independentemente da ação dos religiosos, as religiões contêm preconceitos, verdades absolutas, uma moral absoluta que é a mãe do moralismo e da intolerância, e conferem autoridade de juízes e de representantes divinos a determinado grupo de homens. Aí está a receita perfeita para o desastre. Concordo com Carlos Esperança quando escreve que "a fé e a intolerância são irmãs gêmeas. As Igrejas odeiam-se com uma veemência que estarrece as pessoas civilizadas e transmitem o ódio dos seus líderes à multidão de crentes que as seguem. Faz parte da sua natureza. A fé, em o que quer que seja, virou um problema mundial".
Primo: “As pessoas”... Note o insidioso termo “todas” subentendido! Muitas pessoas realmente podem usar a religião como ópio. Vamos proibir o vinho porque “as pessoas” fazem bebedeiras com vinho. Eh, Bakunin!
Eu: Quando um número significativo de pessoas mata sob efeito do álcool, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser restringido sim, e o rótulo deve conter “proibida para menores” (no outro caso: proibida para ignorantes), “consuma moderadamente” (no outro caso: não acredite no que lhe dizem os representantes de deus).
A restrição veio em bom tempo. Uma espécie de lei seca limitando o poder dos alcoólatras de deus. A religião católica foi então domesticada pelo laicismo europeu. Como os muçulmanos ainda estão apenas domados, alguns em estado feral, os cristãos olham para eles com desdém, esquecendo que há pouco tempo eles eram os chacais com a boca encharcada de sangue, apesar de suas escrituras serem as mesmas de hoje, e apesar do imenso poder que os religiosos já tiveram para estabelecer a paz no mundo. Espero que não tenham uma nova oportunidade para promover o seu ideal de justiça e liberdade...
Primo: O que pretendo dizer é que se pode usar um remédio como veneno. A culpa não é do remédio, mas do uso.
Primo: Então a crença de Carl Sagan de que Deus não existe baseia-se numa profunda necessidade dele de acreditar que Deus não existe? “Um crente” = “todo crente”. Generalização subentendida! Tenho certeza de que o próprio Carl Sagan acreditava em muitas coisas porque faziam sentido e não porque tinha necessidade de acreditar.
Eu: Segundo as palavras do físico, “Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo autocorretivo. Para serem aceitas, novas idéias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio."
Carl Sagan morreu aceitando a teoria do Big Bang como verdadeira. Hoje uma parcela significativa dos cientistas já a está descartando.
Mas Carl Sagan mudou suas crenças científicas várias vezes durante a vida, obviamente devido a novas evidências, a debates, a pesquisas e a experiências ao redor do mundo. E nenhum “supercientista” o excomungou por isso.
Primo: Organizações religiosas até podem condenar que as contradiz. Não a religião. A religião é uma conexão, uma busca, um encontro. Quem diz “aceite e cale a boca” é uma pessoa, não a religião, é uma pessoa que está tendo uma atitude arrogante. Além disso, como já foi falado, ciência e religião buscam coisas diferentes! Podem-se auxiliar mutuamente, mas não há como se contradizerem.
Eu: É claro que quando ele diz "religião", não se refere a uma entidade consciente que mandará quem quer que seja calar a boca. São sempre os protetores das crenças religiosas que o fazem, principalmente aqueles que falam em nome dos fiéis.
Não há como religião e ciência se contradizerem? Aí temos um belo postulado, daqueles que você classificaria como generalização. Só se a religião fosse restrita ao que "não tem nada a ver com ciência". Mas temos os milagres, as aparições, a cosmologia, os anacronismos históricos...
Mil anos atrás a origem do homem era assunto metafísico, no máximo especulação de filósofos. Mas quando a ciência, em sua caminhada natural, contradisse a religião nesta questão, os religiosos negaram em um primeiro momento, aceitaram com ressalvas em um segundo (passaram a chamar o Gênesis de "simbólico") e agora descobriram que podem recrutar cientistas mercenários ou eles mesmos se formarem em física para "provarem", respaldados por credenciais, que sempre tiveram razão.
Primo: No meu ponto de vista, não há como religião e ciência se contradizerem, embora seja possível um cientista contradizer um religioso e vice-versa. São ambas perfeitamente válidas, complementares, e cada uma tem sua área específica.
Primo: Perfeito! Se os cavalos tivessem o poder da reflexão e liberdade, o Verbo Eterno poderia encarnar-se sob essa forma, para ajudar tais seres pensantes a viver na matéria em harmonia com o espírito.
Eu: Acho que não foi isso que ele quis dizer. O filósofo jônico ficou famoso por combater o antropomorfismo. Ele acreditava em um deus único, onipotente, "com clarividência perfeita, justiça infalível" e sem forma humana. Mas a frase serve para ilustrar que os homens criam deuses à própria imagem e não o contrário. Viam reis com mensageiros e tratavam de criar anjos, viam assessores e "burocratas" e tratavam de criar santos, instâncias entre eles e as divindades.
Primo: O antropomorfismo também é combatido pela religião católica. Não é Deus que tem a imagem do homem, mas o homem que é imagem de Deus. É óbvio que imagem, aqui, não se refere a olhos, nariz, boca, pescoço, barriga, pernas etc.
Primo: Para quem literaliza Adão e Eva não é difícil literalizar também um céu com anjos de harpa sobre nuvens. Novamente, religião não é ciência e ciência não é religião. Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência. Várias dessas frases combatem a religiosidade estúpida como se ela constituísse a essência da religião.
Eu: O Gênesis só deixou de ser literal quando Darwin entrou em cena. Hoje quem enxerga nessa crença de três mil anos, ainda aceite por muitos, um exemplo de obscurantismo, está sendo maldoso, está literalizando...
A idéia de pecado original surgiu para explicar o mal no mundo; dois indivíduos seriam os primeiros pecadores. Isto é literal. A crença no poligenismo pode levar alguém à excomunhão. Só o monogenismo é aceito pela Igreja Católica.
"Anjos nas nuvens" também já foi algo literal. Acreditava-se que o deus abraâmico, de seu trono, via toda a humanidade, a qual habitava uma terra chata. Acreditava-se que o firmamento era uma espécie de concreto cheio de furinhos através dos quais as "águas superiores" caiam para cá. Alguém que tivesse levantado a hipótese da evaporação poderia até ter sido morto a mando de um Eliseu da vida.
"Crer que viemos de Deus e que para ele vamos ainda não pôde ser contraditado pela ciência". Como isto não é falseável, não é do campo da ciência.
Primo: Se a expressão “são igualmente incompreensíveis” for uma abertura para a investigação, parabéns para Mencken! Se for uma forma de dizer que o homem que reza é estúpido, pelo menos ele iniciou a frase com um “para mim”.
Eu: A descoberta dos micróbios e dos germes, a assepsia, a penicilina, a vacina e o antibiótico conseguiriam salvar a maior parte dos dois terços de cristãos cujas vidas foram ceifadas pela Peste, no fim da Idade Média. Certamente eles oraram muito. Os padres sobreviventes culparam os pecados das vítimas pelo ocorrido, já que tinham catástrofes como o Dilúvio Universal nas quais se espelhar. Pés de coelho, da mesma maneira, não teriam adiantado muito, já que a ira do deus bíblico exigia sangue humano...
Primo: Logo, não se deve rezar: é anticientífico! É isso?
Primo: É difícil imaginar 5 bilhões de pessoas acreditando numa coisa estúpida. Isto só seria possível com Anatole France pairando sobranceiro acima de todas elas. Mas, brincadeiras à parte, entendi o argumento dele: Mais vale um bom cientista pesquisando uma vacina do que uma multidão de pessoas misturando a esmo as mais diferentes melecas, sem qualquer formação científica, na esperança de debelarem a doença. Também poderíamos dizer: Não é sensato fazer uma eleição para decidir se Deus existe.
Eu: Vide a crença na reencarnação. Se os chineses e indianos nela crêem e, por acaso, reproduziram-se mais do que os europeus, daria para afirmar que a crença deles passou a ser a correta?
Primo: A recíproca também é verdadeira. Cinco bilhões de falsos milagres não invalidam um único milagre autêntico. Basta um para fazer ruir todo esse sistema baseado no pressuposto de que só existem truques, engodos e ilusões. E quem quiser realmente investigar, que investigue. Material não falta.
07 julho 2007
Idealismo e Realidade
Fiquei muito feliz, um dia desses, quando um amigo petista me chamou para almoçar, afinal até os liberais gostam de ser estimados. O almoço ia bem até que começamos a falar em política. Chegamos quase aos finalmentes: eu disse que o Lula e sua quadrilha eram um bando de ladrões que pilhavam as estatais para o partido, e ele disse que, no fundo, o FHC odiava o Brasil. Enfim, um completo desastre. Fiquei deprimido.
Depois liguei para ele e propus uma conciliação. Disse-lhe que, para mim, a questão tratava-se apenas de como apreendíamos a realidade. O idealista gosta sempre de ver o copo meio cheio, e o realista estraga tudo dizendo que não existe “meio” vazio e tampouco “meio” cheio, assim como não se pode ser meio honesto nem se estar meio grávida; para o realista o copo está pela metade. E assim acaba passando a imagem de pessimista, muitas vezes. Além disso, sabe que o homem é um tipo basicamente egoísta, embora tenha a capacidade para ser solidário. Existem aqueles que gostam do discurso politicamente bonitinho enquanto outros são desconfiados por natureza.
Argumentei que achava o discurso da direita mais verdadeiro porque estava geralmente embasado em ações, enquanto muito poucos que adotam o discurso socialista o são na prática. Ele revidou dizendo que era um absurdo pessoas que tinham ganho bolsa de mestrado criticarem o Bolsa Família. Eu respondi que apoiava o Bolsa Escola e que, portanto, não havia incoerência alguma.
Enfim, todo governo precisa dos seus otimistas e não sou eu que vou perder um amigo. Foda-se o governo. Fiquei até com inveja da fé do meu amigo. Talvez seu mundo seja mais feliz do que o meu. E considerando que ele está na iminência de ser promovido, penso que talvez os crentes sejam mais atraentes e agradáveis aos demais, que são, em sua maioria, crentes de algum tipo. O verdadeiro indivíduo, aquele que age em seu próprio benefício, talvez não perca muito tempo tentando disseminar idéias que ele julga mais corretas. Apenas aproveitará as oportunidades para fazer o melhor.
Mas quem sabe não seja melhor, em algumas situações, você dizer o que as pessoas querem ouvir? E se você ainda por cima acredita nisto, bingo! Só não dá para criticar os políticos mentirosos. Eles falam o que todos querem ouvir. Depois os incautos elegem as criaturas e elas não cumprem o que prometeram; e a culpa é de quem? De quem foi eleito mentindo ou de quem votou desejando desesperadamente acreditar?
Muitas vezes a salvação dos ideais está na esperança de punição, porque ela pode purificar novamente o ideal, restaurar seu hímen. Se um petista roubou, que seja preso para que os ideais aos quais está associado sejam mantidos impolutos. Mas, e quando não se tem esperança de punição? Então não faz mal, afinal eles amam o país, são idealistas e, se roubaram, não é lá tão ruim assim, pois os outros fizeram isto também.
A ironia destes esquerdistas é que a corrupção não pode ser sistêmica e portanto responsabilidade da coletividade do governo e do seu chefe. Ela tem que ser culpa de alguns indivíduos. Só o mérito pertence ao grande líder, ao grande pai, àquele que inaugura obra atrás de obra sem em nada ter contribuído para a maioria delas, enquanto a culpa é de algum burocrata insignificante do partido.
Mais aí retornamos à questão do copo “meio cheio” e “meio vazio”. Os esquerdistas gostam de ver qualidade na coletividade e culpa nos indivíduos. A direita exalta o indivíduo e às vezes parece deplorar o coletivo. Qual será a realidade?
02 julho 2007
O Exército de Chávez
Alguns petistas mais ligados aos ideais da geração de 68 vêem no regime chavista um aliado ideológico. Alguns como a Dilma defendem a construção do Gasur, um gasoduto que atravessaria o território brasileiro e conectaria a Venezuela à Argentina. De fato, este gasoduto tem o potencial de gerar enormes prejuízos para a Petrobras, muito maiores do que os sofridos com as perdas na Bolívia. Mas agora temos um complicador nesta história; a Venezuela mostra ambições militares além das estratégicas e inicia uma corrida armamentista.
Recentemente, em suas conversas com Putin, Chávez teria dito que vê a Venezuela em relação à América como a Rússia em relação à Europa. Entretanto, observa-se que as relações entre os europeus e os russos têm sofrido estremecimentos diante da interrupção de fornecimento de gás para a Alemanha, e de outras ameaças russas.
Sob a alegação de temer uma invasão militar americana, os venezuelanos iniciaram esta corrida armamentista – na verdade uma corrida aos shoppings militares do mundo levando consigo o dinheiro do petróleo. De fato, a Venezuela tem uma disputa territorial com os EUA, a França e a Holanda em sua plataforma continental cheia de petróleo.
Atualmente, a Venezuela treina um contingente de 2 milhões de reservistas que deseja reintegrar às forças armadas visando preparar-se para uma longa guerrilha contra uma possível invasão americana. Esta demonização do maior comprador do petróleo venezuelano não deixa de ser curiosa.
Em 2000, as Forças Armadas Venezuelanas tinham um contingente de 75.000 homens. Em 2005, cerca de 100.000 homens foram adicionados a um corpo separado das forças armadas. Elas são organizadas em seis corpos subordinados a dois comandos independentes. Esta estrutura parece refletir mais o temor de sofrer um novo golpe interno do que um sistema eficiente de combate a um inimigo externo.
A lista de compras de equipamento militar de Chávez inclui: 12 navios de transporte e aviões de reconhecimento e oito navios patrulha comprados da Espanha; 100 mil rifles AK-103, 12 helicópteros Mi-17, 24 caças Su-30 e 6 submarinos de ataque a diesel da Rússia; sistemas de radar da China; sistema antiaéreo da Bielorussia e a licença para produzir os rifles de assalto AK em seu território.
Os venezuelanos tentaram adquirir outros equipamentos mas sofreram embargo dos americanos, que ameaçam as empresas ou países vendedores com perdas de contratos ou de licenças de uso de tecnologia americana. Além disso, os venezuelanos acusam os americanos de não oferecerem manutenção adequada à esquadrilha venezuelana de F-16.
E o Brasil? Seria realmente de nosso interesse construir um gasoduto caríssimo que aumentaria a nossa dependência de um regime que no futuro poderá estar desalinhado ideologicamente com o nosso, que não tem uma prática democrática, que tem tradição em rompimento de contratos e que está se tornando uma potência militar?
27 junho 2007
Lula e a Sobrevivência
Outro dia o nosso semiculto presidente, ao dar posse ao extremamente culto e inteligente Mangabeira Unger, mostrou um pouco do seu proverbial bom senso. Segundo ele, a primeira preocupação das pessoas é com a sobrevivência e isto deve ser compreendido. Portanto, ao se criar um horizonte de longo prazo para as reformas por meio daquela Secretaria estaria se evitando as preocupações mundanas que muitas vezes impedem a prevalência do bom senso e do bem comum. Nisto ele concorda com o pastor e pai dos economistas Adam Smith. Cada um busca o seu próprio bem ou pelo menos o que julga ser seu maior interesse.
Entretanto, acredito que a simplicidade do pensamento de Adam Smith ainda não tenha sido compreendida pela maioria das pessoas. Este pastor buscou conciliar o egoísmo dos indivíduos com o bem comum (a riqueza das nações). Uma proposta ambiciosa, sem dúvida, mas que tem uma base empírica muito boa: o egoísmo humano. Para ele, a instituição social do mercado faz a intermediação entre os indivíduos e o bem comum. E o que é o mercado? É o local onde os indivíduos podem negociar para atingir um estado mais elevado de satisfação. E, mais importante, o mercado permite aos indivíduos a especialização, que gera aumento da produtividade social (a riqueza das nações).
O Estado soviético acreditava que não deveria haver negociação entre as pessoas pois ele teria capacidade de planejar o que seria melhor para todos. A reação da sociedade russa a isto foi o fortalecimento das máfias, do clientelismo e das panelinhas que buscavam assegurar a sua própria sobrevivência contra a vontade desta entidade desumana e abstrata - o Estado.
De fato, há uma certa ingenuidade no pensamento socialista tradicional. Mais que isto, há um resquício do pensamento dualista de bem e mal. Acredita-se que uma elite do proletariado conheça o bem maior e que a maioria do povo desconheça, portanto, justifica-se a imposição da vontade do pequeno grupo ao grupo maior.
O nosso semiculto presidente, que é originário do povo, prova que o povo tem bom senso. Talvez não tenha muito caráter, como Macunaíma, mas caráter talvez seja um luxo para poucos. E isto não é um pecado tão grande, afinal, como disse o elitista e ex-marxista FHC, existem as razões de Estado.
A negociação com o Estado é muito difícil para a maioria dos indivíduos, uma vez que a melhor alternativa, caso não se chegue a um acordo, é simplesmente deixar o país. Portanto, há a necessidade de conter o poder estatal, ainda mais por ele ser exercido por uma elite de políticos e burocratas que busca apenas a própria sobrevivência.
Conversando com petistas intelectualmente sofisticados, acho impressionante eles ainda não terem entendido a importância da divisão de poderes do Estado para enfraquecê-lo, muito menos a importância de um quarto poder independente, ou seja, uma imprensa não controlada pelo governo. Talvez o seu rancor de classe veja nas TVs privadas uma forma de hegemonia da burguesia. O meu argumento, no espírito de Montesquieu, de que basta que a TV não seja controlada pelo governo para que haja democracia não os convence.
A velha idéia americana dos “checks and balances” talvez seja americana demais para o paladar petista. A idéia é simples. Precisa-se de poder porque ele gera ordem, mas o poder deve ser contido por outros poderes e controlado (a glasnost) para que não degenere em ditadura.
O petista tem uma fé nos seus dirigentes da qual não compartilho; acredita que buscam "o bem maior" quando, como nós, estão em grande parte buscando a própria sobrevivência e daqueles com quem têm relações afetivas.
21 junho 2007
Provérbios Árabes
Como estou meio sem tempo - e isso tem me deixado um tanto quanto frustrado, porque tenho acumuladas algumas coisas para escrever por aqui - por ora listo alguns provérbios árabes interessantes que selecionei, muitos deles análogos a outros que conhecemos aqui no Brasil, mas expostos de um modo diverso, por isso mesmo curioso.
Como o C. Mouro comentou no post Discutindo Marx, bons provérbios, fábulas e aforismos são excelentes para produzir reflexões e, embora possam suscitar centenas de páginas em explicações – é o caso da fábula A Raposa e as Uvas -, devem ser apreendidos instantaneamente. Para bom entendedor, meia palavra basta, reza um provérbio daqui. Mesmo assim, não me furtei de comentar a maioria deles e de procurar associá-los a algum evento conhecido, nem de soltar um ou outro petardo contra Lula e B16, os pobres coitados que mais têm apanhado aqui no Pugnacitas.
Desejo também propor aos leitores que inventem um "provérbio" cuja ilustração seja a fotografia acima, de um asno tentando levantar vôo em um aeroporto brasileiro.
****
Sejamos Realistas!
- Guarda-te de fazer com as mãos o nó que deverás desfazer com os dentes.
Obs.: É fácil abrir uma empresa aqui no Brasil; difícil é fechá-la.
- Mede o tecido antes de cortá-lo.
Obs.: “Prometo 10 milhões de empregos”... Ou: de que serve a ponte de 2,9km que a Gautama construiu sobre um vão de 3,0km?
- Encomenda teu pão ao padeiro, mesmo que ele coma a metade.
Obs. Antes um bom profissional cuja comissão é alta do que um amador. Não chame um “cadista”, contrate um arquiteto, he he.
- Come verdes os teus frutos, antes que o ladrão os roube maduros.
Obs. Se tuas ações valorizaram 10% em um dia, vende-as; não espera que valorizem 20%.
- Não gaste duas palavras se uma única basta.
Obs.: Ockham que o diga.
****
Condição Humana
- Alimenta teu cão e ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele te comerá os ratos.
Obs.: Pessoas diferentes requerem tratamentos diferentes. Do ponto de vista do PT a coisa vai um pouco além. Testemunhou sobre o que acontecia na mansão onde se reunia a República de Ribeirão Preto? Devassa na conta bancária! Traiu, corrompeu, comprou votos, suspeito de envolvimento na morte do prefeito? Tapinha nas costas e um “A luta não terminou, companheiro!”.
- Bastou elogiarmos a limpeza do gato, e ele defecou no depósito de farinha.
Obs.: A meta do gabola é impressionar; tão logo ela seja atingida é bem provável que ele relaxe e seja desmascarado.
- Quando disseram ao gato que o seu excremento era útil ele começou a enterrá-lo.
Obs.: Com os árabes, criadores destes sábios provérbios, aconteceu algo semelhante. O petróleo não significava mais do que excremento para eles; as potências européias lhes disseram que era útil e eles fizeram o embargo de 1973.
- Levaram o asno para a festa de casamento: ele começou a zurrar e pedir que o carregassem com os fardos de sempre.
- Desde quando o mendigo... impõe condições?
Obs.: Se o mendigo for o laranja de um grão-vizir ardiloso, não há limites para tanto. Aqui no Brasil, integrantes do MST, MLST, PCC, UNE, entre outros baderneiros, têm a petulância de impor as condições por terem a proteção do PT e de outros partidos de esquerda. “Cão do príncipe, é príncipe também!”, diz outro provérbio árabe. Neste caso, claro, dá a entender que a consideração que temos por uma pessoa acaba se estendendo a seus parentes e amigos.
- Enquanto fores bigorna, agüenta; quando fores o martelo, bate!
- O mar brigou com o vento e quem virou foi a barquinha.
Obs.: “Sai de perto que é briga de cachorro grande”, costumamos dizer. “Numa luta entre elefantes, o prejudicado é o capim" é um provérbio africano. Em uma fábula de Esopo a doninha e a marta se engalfinhavam no sótão. Os ratos, presas costumeiras de uma e de outra, foram saindo confiantes da toca e se puseram a assistir à luta. As duas, quando se deram conta da petulância dos roedores, cessaram a briga e atacaram os ratos, matando quase todos. O provérbio indica também que quem sempre paga o pato é o coitado que não tinha nada a ver com a história.
- Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada.
Obs.: É o caso da ajuda humanitária para a África. Tem servido mais aos celerados do que aos almejados destinatários.
- É como a peregrinação a Meca: quem diz que é fácil, blasfema; quem diz que é trabalhosa, blasfema.
Obs.: É esta justamente a função das coisas sacrossantas: produzir blasfemos.
- O óleo só se extrai com a prensa.
Obs. Ou "O incenso só exala seu perfume se queimado." Update: O Bocage escreveu: "Retira este, Catellius. É o argumento de todos os ideológicos". Caro amigo, os meus melhores projetos saem quando sou "prensado" pelos clientes. Fazer o quê? Há demanda por criatividade quando você está entre um muro de 3 metros de altura e um leão faminto.
****
Para Sartre, o inferno são os outros
- A sogra já foi nora, mas... esqueceu!
Obs.: Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho já foram comunistas - comunistas bem intencionados, por certo! Mas hoje tratam seus ex-companheiros como se tivessem esquecido das intenções que outrora os motivaram e dos argumentos que corromperam suas “mentes brilhantes” juvenis. Na verdade, os dois apenas trocaram o objeto de seu fanatismo. Antes sonhavam com a igualdade a todo custo, revelada por Marx, hoje dizem que aquilo foi uma “fase”, e aderem ao discurso fácil católico em prol da mesma igualdade pela igualdade, em defesa de uma alegada civilização ocidental judaico-cristã na qual os ingratos descendentes do pensamento iluminista insistiriam em cuspir. O que as duas sogras dirão quando esta fase passar?
- Na hora de comprar uma casa, examina primeiro os futuros vizinhos.
Obs.: Pedro Álvares Cabral não possuía a bacia de Nostradamus para antever as tristes figuras de Chávez e Evo Morales. São vizinhos problemáticos. Se têm problemas com suas televisões, que não venham roubar o sinal de nossa TV a Cabo...
- Visita sem presentes é melhor do que a que te traz um carneiro.
Obs.: "Mais caro é o dado que o comprado".
- Não dá trela ao desocupado: ele fará de ti a sua ocupação.
- Quando os beduínos começam a ter abundância de manteiga, usam-na para limpar o traseiro.
Obs.: Era justamente isso que o assessor do irmão do Genoino ia fazer com o abundante dinheiro do Caixa 2 petista.
- Uma mão sozinha não bate palmas.
Obs.: A união faz a força. É verdade. Em compensação, não dá para escrever um bom livro usando as duas mãos – vide as porcarias de Chico Xavier e de Gasparetto. Como disse o C. Mouro, “a união de fracos soma as forças, mas não se pode somar inteligência”. Para fazer barulho, duas mãos são melhores do que uma.
****
Vícios e Defeitos
- Defeito que agrada o sultão, vira virtude.
- Com a mentira se consegue o almoço, mas não o jantar.
Obs.: Ou “A mentira tem perna curta”. Este provérbio entra em choque com o “uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade”. Se tivesse perna curta, se não conseguisse o jantar, as intenções do ex-inquisidor Ratzinger, que tanto fala em tolerância e liberdade, seriam sempre postas em xeque.
- Os maiores mentirosos são o jovem emigrado e o velho cujos contemporâneos morreram.
Obs.: Os apóstolos de Jesus encaixam-se perfeitamente neste provérbio. Foram jovens emigrados (ide e pregai) e velhos cujos contemporâneos morreram – martirizados à exceção de João Evangelista, ao menos segundo os mentirosos sobreviventes... Por isso a “fabula christi” é tão legal! Para alguns, contudo, os "evangelistas" moravam em Bizâncio sob o governo de Constantino.
- O rato aconselhou o dono da casa a matar o gato... e a comprar queijo!
Obs.: Sejais humildes, não resistais ao mau, não julgueis, amai vossos inimigos...
- "Cebola é um prato nobre", diz o pobre.
Obs.: "Funk carioca é meu estilo musical preferido", diz o analfabeto musical que só consegue fazer aquilo. "O Cristo Redentor é uma das sete maravilhas do mundo", diz o pobre do brasileiro...
- Quando perguntaram à mula "Quem é teu pai?", ela respondeu: "O cavalo é meu tio!"
Obs.: Quem é teu pai? - perguntaram ao filho do Vavá...
- Nunca o mercador diz: "Meu azeite está rançoso".
Obs.: Na República do Marketing o mercador, ou marqueteiro, ao invés de se calar, de se omitir, diz que o azeite rançoso será o melhor que o cliente jamais provará.
- "Que frio!", comentou o avaro quando o filho viu o sorveteiro...
Obs.: Comentário idiota: Se eu fosse filho do avaro lhe responderia: 'Mesmo no frio, tomar sorvete esquenta, papai, por causa das calorias.'
- Não te esforces por saber do luar ou do boato: ambos acabarão por chegar até ti.
- "Podem ficar tranqüilos: a raposa me garantiu que não vai mais pegar galinhas".
Obs.: B16 fala em tolerância e reza voltado para Meca em mesquita turca poucos dias após a inocente palestra de Resenburg.
- Aperta-lhe a mão, mas confere os dedos depois.
Obs.: Eu juro que vi, durante os debates de 1989 entre os presidenciáveis, o Maluf apertar a mão do Lula. Se este soubesse contar, o torno mecânico não teria sido tão difamado.
- A parede queixou-se ao prego: "Por que me perfuras?" Ele respondeu: "Pergunte ao martelo!"
Obs.: Assim pensa o indivíduo cujos valores morais lhes foram revelados, não atravessaram os neurônios antes de influenciar suas ações.
- O que é mais doce do que o mel? Vinagre grátis.
Obs.: Temos o “De graça até injeção na testa”. O povo adora embarcar em um “compre este suporte para televisão por apenas nove mil novecentos e noventa e nove reais e leve este televisor de LCD grátis”.
- Antes inimigo do príncipe do que do guardinha.
- "Desembainhou, use!"
Obs.: Ajoelhou, tem que rezar! Ou “acusou, prove”.
- Não será a bondade a recompensa da própria bondade?
Obs.: Há um outro provérbio árabe cujo significado é semelhante: “Quem comete o mal, comete-o contra si mesmo.”
18 junho 2007
O Desprezo Petista pela Democracia
Na visão do PT, as bancadas na Câmara e no Senado são órgãos subordinados à Executiva Nacional do partido, ou seja, os representantes escolhidos pelo povo estão subordinados ao famoso Campo Majoritário. Os lideres do Campo Majoritário ficaram famosos na época do Mensalão e outros escândalos: o Zé Dirceu, o Zé Genoino, o Mercadante, o Berzoini e outros.
A idéia da quadrilha - palavra usada pelo ex-procurador-geral da República, que a denunciou no Supremo - era aprovar a chamada lista fechada, ou seja, o povo brasileiro não poderia mais votar em pessoas, apenas nos partidos. E quem escolheria as pessoas que ocupariam os cargos? Os Zé Dirceu da vida. Os homens fortes do aparelho partidário.
Para amaciar o Congresso propuseram a idéia dos candidatos natos, ou seja, uma fórmula de garantir que os atuais ocupantes dos cargos tivessem precedência sobre novos aspirantes aos seus cargos. Mas os parlamentares, que de bobos não têm nada, ficaram cabreiros. Os próprios parlamentares petistas ficaram assustados, mas a Executiva já os ameaçou inclusive de expulsão com perda de mandato.
Nem no PMDB, protagonista da maior farra de cargos já vista na história deste país, os parlamentares se comprometem a votar bovinamente qualquer matéria de interesse do governo bem como encabeçar projetos de interesse do PT nos quais eles não queiram sujar as mãos, nem eles estão conseguindo engolir o tal projeto. Mas o canalha do Chinaglia não desiste e vai voltar à carga na semana que vem.
Enquanto isso, o Lula passeia por aí inaugurando novas paradas como o Cristo Redentor e como a P-52. É claro que ele está fazendo isto de helicóptero, porque enquanto ele brincava de estadista realizador o Rio de Janeiro vivia mais um dia de terror com a Linha Vermelha e a Avenida Brasil fechadas. A solução talvez venha com a TV Lula, que começará a falar bem do Brasil com um orçamento inicial de R$ 350 milhões. Como disse o Lula, só brasileiro fala mal do Brasil. Não demorará muito para que quem critica o seu governo seja considerado traidor.
Isto tudo não é novidade, considerando-se a tentativa de implantar uma censura aos jornalistas logo no inicio do primeiro mandato seguido pelo próprio Mensalão, que pagava em dinheiro vivo a lealdade dos parlamentares que apoiassem o governo, numa escala nunca antes vista na história deste país, como disse o próprio Mangabeira Unger. E ainda tem gente que tem coragem de criticar o Congresso. Ele e a tão criticada imprensa, incluindo a Veja, são as únicas coisas que nos separam de uma Venezuela ou Cuba.
Falando em Congresso, outro dia um bando de Sem Terra foi lá fazer o maior quebra-quebra. A repercussão foi tão negativa que o líder da manifestação deve ter de ser expulso da Executiva Nacional do PT. Mas o futuro da democracia petista está nas mãos deste conselho de "sábios" e "santos" que certamente saberão escolher melhor do que o povo as pessoas que deverão representá-lo no Congresso.
Para completar a reforma que irá moralizar a política brasileira, propuseram arrumar mais R$ 1,7 bi para financiar as campanhas dos partidos. Se somarmos isto ao R$ 1 bi arrecadado pelas centrais sindicais que fazem parte do Campo Majoritário e que mandam na Executiva Nacional do PT, acho que se está garantindo bastantes recursos para as próximas campanhas do partido. E os sujeitos ainda têm a cara de pau de dizer que o partido tem uma dívida de R$ 60 milhões...Mas quando compram um dossiê contra os inimigos não têm dificuldade de desembolsar R$ 1,3 milhão...
15 junho 2007
Cicatrizes e Beiços de Pau
Se indivíduos são capazes de forjar cicatrizes em si e até rasgar o lábio para nele introduzir um disco de madeira, mais fácil é exibir adoção de ideologia redentora, de benevolência, santidade e qualquer coisa que os valorize num meio, sobretudo se triunfante, gabola.
Cicatrizes
Uma moral que crie valores consensuais, mesmo que sem valor algum fora da expectativa de consenso, é dos mais potentes narcóticos que o homem conseguiu criar. Certa vez, li sobre tribos onde a "moral" valorizava o indivíduo pelo número de cicatrizes que exibisse no seu corpo. Imagino que em tudo pode haver uma tentativa de razão. E esta tentativa por vezes revela-se uma caricatura onde a vontade de criar aparências faz com que se exagere o destaque das características marcantes, que por si garantem a associação com a figura real. Assim, pode-se imaginar que cicatrizes são característica de um caçador ou guerreiro, e, portanto, possuí-las é indicativo de valor individual. Isso porque para uma tribo o caçador e o guerreiro são de grande utilidade, presumindo-se valentia e habilidade em quem a estas atividades se dedique. Diante de tal "moral" os silvícolas ansiavam por cicatrizes, culminando com o desenvolvimento até de rituais para produzir cicatrizes nos chefes, guerreiros e caçadores, para que desta forma pudessem exibir o seu valor aos demais.
É claro que cicatrizes podem ser conseqüência da inabilidade e até obtidas num acidente durante uma fuga vergonhosa. Porém a estreiteza das dicotomias de aparências concebe que quem não caça e nem combate, restringindo-se a "tarefas menores", dificilmente terá cicatrizes, enquanto que mesmo um guerreiro ou caçador hábil as possuirá, dado os enfrentamentos em que se envolve. Tipo: só se machuca quem faz, quem não faz não erra nem se machuca. Não é muito racional, é uma "lógica" apressada e burra, mas serve como referência de aparência fácil para criar valores opostos; não é preciso pensar e julgar, basta ver cicatrizes. Então, na miscelânea mental das aparências fáceis, o indivíduo que possui cicatrizes é alguém admirável e qualificado; alguém valioso por presumidas qualidades. E pronto! Então, vai daí que produzir cicatrizes em si torna-se o mesmo que possuir as qualidades que estas possam caracterizar. Desta forma, quem tem, ou quer, valor para exibir, facilmente o consegue exibindo suas "cicatrizes", mesmo artificialmente produzidas para tal fim. (Obs. 1)
Digo mesmo que impressionar pelo menos um dos sentidos torna-se o "ideal de comprovação" para aqueles que desejam enganar, tanto quanto para os que desejam ser enganados, ou se enganar, amparados na preguiça e incapacidade de pensar e julgar que acomete as massas (estas tomam a forma que lhe dão). A verborragia insistente, contrária aos fatos que se pode perceber racionalmente, é uma tentativa de fazer com que aquilo captado pelos ouvidos se sobreponha ao que pode ser captado pela razão - palavras podem ser percebidas por todos os ouvidos sãos, mas nem todos os cérebros, mesmo sãos, captam e julgam a realidade. Se indivíduos tendem a aderir a consensos, as palavras são mais fortes que raciocínios, tanto mais quanto mais emocionam.
Elaborar julgamentos é algo já de há muito condenado: "não julgueis para não serdes julgados", propondo o conveniente acobertamento mútuo, corporativo. Assim, finge-se a verdade através de falsas aparências e ao mesmo tempo finge-se crer nela, também exibindo falsa aparência. Assim, dizer que se quer o bem é querê-lo, sobretudo quando se o "prova" opondo-se ao que se afirma ser o mal: amar o pobre e o assalariado é facilmente "provado" pelo ódio que se afirma ao rico e ao empresário; ou seja, uma coisa é boa porque se opõe a outra que é má; ou "X" é verdadeiro porque se opõe a "Y" que é falso. Nada mais fácil e antigo para os estultos adotarem "valores" e verdades, através de falácias, lógica chinfrim.
Beiços de Pau
Outra questão interessantíssima envolve as tribos de índios "beiços de pau" aqui mesmo no Brasil. Vi uma entrevista com determinado cacique botocudo, e este explicava que os meninos tinham que fazer um corte abaixo do lábio inferior e nele introduzir um semidisco de madeira. Faziam isso para demonstrar valor, possivelmente coragem, resistência, masculinidade ou coisas do gênero. Não fazê-lo era depreciativo para o indivíduo. Quanto maior o disco de madeira mais caracterizada a qualidade do sujeito. Os mais velhos, mais habituados, exibiam grandes "beiços". O velho índio informava que o início "doía muito, muiiito" e que ele ia para a mata tentando resistir a tal suplício sem expor sua angústia.
Bem, talvez irrefletidamente pretendessem exibir, previamente, capacidade de resistir à dor sem esmorecer, já que de fato esta é uma qualidade útil a quem a possui. Mas talvez tenha surgido apenas como um desafio. Quando um ou mais sujeitos resolveram que realizar algo incomum, muito difícil e contrário à natureza humana, era algo que os fazia mais "valiosos" (Obs. 2). Isso até parece lógico, porém desprovido da análise racional é apenas uma estupidez. Contudo, a tendência de tomar o suplício como atributo de valor (e redentor), sem maiores reflexões, tornou-se uma realidade baseada em falso e pretenso silogismo de "lógica irracional": consigo tudo que outros conseguem; outros não conseguem tudo que consigo; donde sou superior. Isto é uma estultice, posto que aquilo que consigo além dos outros não traz qualquer benefício, ao contrário, só prejudica quem o consegue. Demonstrando, sim, o quão insano é aquele que se prejudica injustamente, almejando aparentar "superioridade" física ou moral. Particularmente, eu considero isso prova inversa, ou seja, de nítida inferioridade. Por exemplo, um ricaço que se lança na miséria em busca de aparência santa é um néscio, um traste sem valor algum.
No final das contas, todos, ou a maioria, acabam por supliciarem-se apenas para não se verem depreciados perante a triunfante opinião alardeada de um indivíduo (ou grupo) que se gaba, com espalhafato, de ser, em oculta realidade, mais tolo que os demais. Mesmo assim, ante a gabolice triunfante, legiões são arrastadas para a estupidez e até para o suplício ao tentar repetir em si o "orgulho" que outros parecem exibir por determinados fatos, como indicativo de valor, agindo assim apenas porque ninguém ousou gabar-se, com a mesma visibilidade, de não partilhar de tal imbecilidade. Pois, funesto que seja, aquilo que não se exibe para a fácil percepção da turba é algo que "não existe". Logo, se ninguém cria um valor oposto àquele alardeado, igualmente alardeando-o com espalhafatosa efusão, tem-se a impressão que a jactância do tolo é uma sincera manifestação de glória sentida, decorrente dos motivos que apresenta (verdadeira), fazendo com que os demais pretendam igualmente senti-la (repeti-la em si - herança símia), imitando aquele que a exibe. Ou mesmo, apenas imitam a atitude alheia, cada um receoso que outros pensem que é inferior àquele que exibe tal "orgulho", aceitando até submeterem-se a suplícios para esconderem sua possível inferioridade ou para que ninguém suspeite de que seja inferior. O "valor" da humildade alheia é reconhecido por esta esconder o prazer consigo, capaz de ferir quem não o sente. E, como não poderia deixar de ser, sendo a humildade um valor consensual, muitos apenas a exibem por mera arrogância (ostentação de orgulho simulado). Ou seja, escondem a confiança e o orgulho sinceros com um simulacro valorizado - um estúpido arrogante dogmático não devia ser repulsivo por ser arrogante, mas sim por ser estúpido: na minha opinião, mais vale um antipático com razão do que um simpático sem razão.
O Rei está Nu
É algo como na estória do rei que se vestia com "belas roupas" só percebidas pelas "melhores pessoas", de forma que todos, cientes de tal pretenso fato, queriam se exibir como integrantes do grupo dos "melhores", e passaram a exibir sua anuência para com a beleza das "roupas" do rei, num consenso de mútua atribuição do conceito de "melhor pessoa". A estória dá a entender que todos acreditavam que os outros realmente viam as roupas, onde cada um tentava esconder dos outros e de si o fato de não as enxergar. Sendo então despertados de seu estúpido transe quando uma criança teve a impensada ousadia de gritar "o rei está nu!" - criança ainda
não se preocupa com a opinião alheia.
Esta é uma estória, porém na realidade as coisas não são tão simples, até pelo fato de que nem todos conseguem acreditar que as "belas roupas" existam, apenas exibindo sua anuência com tal no intuito de obter os ganhos morais e/ou até materiais só possíveis adequando-se ao consenso predominante (mais visível), pouco importando-se com a realidade do fato, e muito com o que dele se possa usufruir. No mundo real, tão logo alguém grite que "o rei está nu!", interesses e conveniências fazem com que outros imediatamente gritem que uma "má pessoa" se revelou. Fazem isso antes que mais alguém revele a nudez do rei, e diga que só estúpidos fingem ver suas roupas, ameaçando assim o habitat conveniente com a possibilidade de dissidência no conveniente grupo das "melhores pessoas", ainda sob risco dos dissidentes formarem outros consensos; e até mesmo o grupo triunfante dos que não se deixam enganar por fantasias.
Lamentável que seja, a discrição e a imobilidade contra os canalhas é tudo o que eles precisam para prosperar, pois que as massas vivem atrás de "valores" consensuais exibidos com estardalhaço, transitando alegremente entre morais ou ideologias que os ofereçam, por mais inverossímeis e contraditórias que se apresentem. O que impressiona a massa é o consenso sobre valores exibidos num grupo e os mútuos afagos corporativos, com exibição de prazer e autoconvencimento, para atrair carentes, frustrados e receosos da opinião alheia. Grupos criam consensos morais valorizadores, e aqueles que não exibem valorização mútua, corporativa, tornam-se dispersos e não atraem o "homem massa" para seu grupo, pois nem mesmo tal grupamento existe. Ou seja, aqueles que não exibem um objetivo moral triunfante (ideologia) que os represente como "algo superior" e redentor, não atraem as massas. Daí que a liberdade deve ser defendida sobretudo como um objetivo moral, um fim, e não apenas como o meio de progresso material.
Por mais aberrante que seja, para seres ditos racionais, a sedução da louvação mútua, principalmente explícita, tem sobre os indivíduos efeito semelhante ao das drogas. É o pior dos vícios. Tanto mais sentirão sua necessidade quanto mais frágeis em sua auto-imagem. O temor da repulsa também exerce grande influência na decisão. A combinação da necessidade de aprovação com o temor da repulsa, tem o efeito irresistível de induzir ao agrupamento corporativo. Pois, deste modo, os membros do grupo perdem o medo da repulsa externa, compensados pela louvação interna. É bem conhecido o fato de que indivíduos, quando em grupo, serem capazes de atitudes que não tomariam sem o apoio de seus pares (Jung). A violência que certos grupos manifestam só é possível pela adoção, por parte dos integrantes, de uma obscura "consciência coletiva" do grupo. Substituindo a razão própria pela ostentada aprovação grupal a seu integrante, contra o meio externo. Ou seja, o grupo cria uma moral particular para relacionar-se com o meio externo, e outra para uso interno, entre membros. Assim, cada integrante, enquanto presumir o apoio do grupo, com base na sua moral particular, não terá medida para seus atos contra o meio externo, tão pouco se importando com a censura da moral externa, já que almeja, antes de tudo, o apoio corporativo de seus pares.
Isso faz com que indivíduos incapazes da prática de atitudes que condenariam se sozinhos, ao integrarem-se num grupo presumindo apoio mútuo, percam completamente o controle e pratiquem atrocidades, sem qualquer remorso enquanto amparados pelo "calor" grupal ou "consciência coletiva". A anuência passiva e principalmente o apoio a atos racionalmente condenáveis por parte de seus parceiros dão ao indivíduo a tranqüilidade que sua consciência talvez não permitisse, sobretudo se, ao contrário, fosse bombardeada por censuras insistentes. As gangues e o crime organizado são exemplos característicos de implacável moral interna, necessária para impedir concessões ao meio externo e enfraquecimento da união corporativa dos membros. Os grupos surgem motivados por objetivos e interesses comuns, e as dissidências sempre tendem a gerar novos grupos de ideologia aparentada ou objetivos semelhantes.
Infelizmente, não basta gritar que o rei está nu, é preciso fornecer um novo objetivo moral a quem afirma ver as "roupas" do rei por interesse, necessidade ou medo, almejando integrar-se em um grupo com um consenso moral consagrador, pelo simples fato que pouco se importam com o mundo real ou com a razão, apenas querem, sim, um consenso que os faça parecer melhores do que imaginam ser.
Canto da Sereia
Em âmbito mais audacioso, qualquer grupo de indivíduos que afirme, em consenso, um foco moral alardeado como atributo de superioridade ou consagração de seus integrantes ao pódio dos "benfeitores da humanidade", respaldados pela mútua louvação interna, encantará muitos que de tal louvação espalhafatosa desejam participar, na esperança de que, como suspeitos para afirmarem-se "os melhores", poderão contar com o apoio alheio, de seus pares, para afirmá-lo, simulando um desinteresse próprio através da consciência alheia "insuspeita", consciência esta que adere aos integrantes do grupo palavras que já contém em si um conceito, como se dispensando o público restante de analisar suas idéias e conceituá-las (julgá-las e por elas aos adeptos). Assim procedem pela utilização de palavras e inferências com conceitos e significados já cristalizados nas mentes, embora a análise das idéias a que tais palavras são associadas possam levar a conclusões opostas aos conceitos que estas palavras transmitem.
A coisa funciona propondo-se uma idéia afirmando-a previamente como um "bem geral", logo, quem se opõe a tal proposta é automaticamente associado ao mal, como alguém que não queira o "bem geral" - mesmo que este "bem geral", se analisado, possa revelar-se um "bem grupal" ou um mal, ou ainda as idéias propostas para alcançá-lo não conduzam a sua realização, constituindo-se apenas uma fraude para ludibriar incautos de mentes preguiçosas, ou ainda para atingir outros objetivos encobertos em sua complexidade, que poderão ser efetivamente desejados por quem não tem a coragem de afirmar tal intenção.
Analisar idéias e suas conseqüências não é das tarefas mais fáceis, geralmente exige esforço. No mais, deixar-se hipnotizar por fantasias, tentando vivenciá-las na imaginação até que se revelem à realidade, não deixa de ser um prazer, pois que imagina-se exatamente o que se deseja. A ressaca ou dependência é só para o futuro, e o que importa é saborear o momento. Depois é só adotar uma nova fantasia e aguardar até que seja desmoralizada. Enquanto isso, saboreia-se o "canto da sereia" até que as rochas provoquem novo naufrágio, até a próxima dose. Enfim, um "indo e vindo infinito".
Observações:
1) As exibições artificiais para produzir a "percepção" alheia daquilo que se deseja que pensem, de forma que qualquer tolo possa ser sugestionado. Prova-se "amor aos pobres" manifestando ódio aos ricos; preferência pelo assalariado ao depreciar os patrões e etc. Ou seja, diante da dificuldade de convencer e aliciar pelo que se propõe, apela-se para a destruição do simétrico, até fazendo-o antagônico, para facilitar a "demonstração". Esso é a política ao alcance dos néscios. Como disse Arthur Schopenhauer: "para uma sociedade de homens comuns, a concórdia é conseguida por meios corriqueiros, por exemplo: chá ou café? servem a este objetivo." Schopenhauer perguntaria aos intelectuais e povança da atualidade: Socialismo ou "Capitalismo"? ricos ou pobres?, patrões ou empregados? .e certamente... Esquerda ou
direita?...só isso já ocuparia o tamanho dos intelectos. Retornar
2) No maniqueísmo fácil ou dicotomia facilitadora, as platéias tendem a crer naqueles que exibem menor afeição por si que pelo "coletivo", considerando-os desinteressados e, então, confiáveis. Pois pouco se importar com o próprio mal pode "provar" potencial para o bem de outros (os alvos), por mais falsas, falaciosas, inócuas e insinceras que sejam tais exibições. Retornar
C. Mouro
12 junho 2007
Brasil 2022
Os Evangelhos recomendam que não nos angustiemos com o amanhã; aí está algo bastante difícil de seguir.
Qual será o país que teremos daqui a quinze anos? Ninguém sabe. Não sabemos sequer se estaremos lá. Mas ainda assim arrisco alguns prognósticos. Quais serão os fatores preponderantes para o Brasil neste período?
Na minha opinião, será um embate entre duas forças que poderão gerar três cenários diferentes. Como primeiro cenário, o Consenso de 68 - distribuição de renda, nacional-desenvolvimentismo, proteção à industria nacional e ativismo estatal -, que poderá ser retomado com vigor com um Ciro Gomes; um cenário moderado, onde haveria coexistência do Consenso de Washington e do Consenso de 68 sob a liderança de Lula/Aécio; e um terceiro cenário seria a aplicação do Consenso de Washington - privatização, controle da inflação e abertura da economia - pelo Democratas sob a liderança de Arruda.
Cenário 1: Ciro Gomes/Marina Silva – eleito em 2010 e retorno de Lula em 2014 (Ciro não se re-candidata por lealdade e Lula constrói uma maioria com a esquerda).
Setores menos competitivos serão beneficiados bem como setores intensivos em mão-de-obra não remunerada. Informalidade crescente, retornos elevados com riscos de expropriações e aumentos de impostos, efetiva implantação das quotas raciais, fechamento da Rede Globo, crescente déficit da previdência, Bolsa Família implantado em larga escala, construção do Gasoduto Venezuela-Argentina atravessando o território brasileiro, problemas de infra-estrutura, tabelamento de preços, consolidação do PT como partido hegemônico, estatização da Vale.
Cenário 2: Lula/Aécio – eleito em 2010 e retorno de Lula em 2018 (Lula retorna como uma reação às medidas do PSDB e novamente e constrói uma maioria com setores moderados).
Economia usando alternadamente instrumentos do Consenso de Washington e do Consenso de 68, liberalização marginal das regras de investimento em infra-estrutura, flexibilização da CLT, implantação da TV Lula, aliança PT/PSDB, gestão partilhada das estatais com os sócios privados.
Cenário 3: Arruda/César Maia – eleito em 2010 e retorno de Lula em 2018 (Lula retorna como uma reação às medidas dos Democratas mas não consegue revertê-las, apenas aproveita a capacidade financeira do Estado).
Crescimento acelerado da economia, privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, aumento da capacidade de investimento do Estado, foco em educação e saúde, redução da dívida pública, abertura da economia beneficiando os setores mais competitivos, atração de investimentos, fechamento da TV Lula, alta rotatividade de mão-de-obra, aliança Democratas/PSDB. Retomada da ALCA.
Uma suposição heróica seria que os efeitos EUA, China e resto do mundo afetassem igualmente os três cenários. O mais plausível, contudo, é que uma recessão mundial beneficie o cenário 3, pela exigência de maior disciplina de capital, enquanto o cenário 1 seria muito beneficiado pela continuação da enorme liquidez que a economia mundial tem experimentado.
06 junho 2007
O Consenso de 68
Duroselle afirma que todo Império necessita de consensos para sobreviver; segundo ele, o fim dos Impérios é explicado pelo fim dos consensos. Desde a nossa independência, tivemos uns cinco consensos liderados por vários grupos muito ligados a algumas gerações, quais sejam: D. Pedro I como líder das colônias portuguesas na América, apoiado por um conjunto de servidores do Império Português e, posteriormente, seu filho, D. Pedro II, apoiado por uma elite brasileira, ambos centralizadores; o consenso da Republica Federalista Positivista Americanista descentralizadora do Café com Leite, liderada pelo grupo dos cafeicultores paulistas; o consenso modernista industrializante, estatizante, urbanizador e centralizador da década de 1920, liderado por Getulio Vargas; e o consenso justicialista socialista estatizante da geração de 68 liderado por Lula. Não podemos nos esquecer do Consenso de Washington - defendido aqui no Brasil pelo governo FHC -, que pregava o controle da inflação, privatizações, regulação de setores da infra-estrutura, abertura da economia, um estado pequeno com um núcleo estratégico e focado na educação e saúde. Mas por aqui tal consenso foi derrotado duas vezes nas urnas por Lula e a Geração de 68.
Na Republica do Café com Leite, vivia-se em estado de sítio e o povo votava no cabresto. Os cafeicultores paulistas e mineiros tinham como consenso o desejo de descentralização política e a não-intervenção do Estado na economia, exceto quando eram beneficiados. Este consenso, por sua vez, foi destruído pela Crise de 1929, que permitiu a Getúlio a oportunidade de dar um golpe nos falidos coronéis paulistas.
Getúlio chega ao poder como um representante do consenso surgido na década de 20 com os tenentistas, os modernistas e outras lideranças que queriam ver um país não apenas agrícola mas industrial, urbano e centralizado sob a liderança de um estado poderoso, que alavancasse o desenvolvimento. Esta geração de 20 teve no tenente Geisel e seu esforço nacional industrializante o seu último representante, e nos deixa a "Herança Maldita" da industrialização e urbanização. Como disse o embaixador Azambuja, em 50 anos passamos de 20% para 80% da população nas cidades sem nenhuma guerra, emigração ou peste para nos ajudar.
Com a Revolução Cubana de 1959 foram lançadas as bases para a Geração de 68, que veria nela um exemplo a ser seguido por toda a América, especialmente depois da CIA ter participado ativamente do Golpe de 1964. Esta geração, aluna de uspianos marxistas como Florestan Fernandes, passou a carregar as marcas destes acontecimentos e deu origem ao consenso que atualmente governa o Brasil, liderado pela elite petista paulista.
Este consenso tende a ver o Brasil como explorado, vide teoria da dependência de FHC, e, portanto, não teria de pagar a dívida externa. Na sua versão mais moderada, haveria uma dívida social histórica com os escravos, os pequenos agricultores e os marginalizados das cidades que deveria ser paga. Sua forma de atuação se dá por meio de ações afirmativas, assistencialismo e preponderância da via política sobre o mercado e do coletivismo sobre o indivíduo.
Lamentavelmente, assistencialismo não gera desenvolvimento humano, quando muito ajuda a reter gente no campo. Quanto à tendência de redução da concentração de renda, esta já vem desde 1995 com o Plano Real. Infelizmente, o IBGE não fará nenhuma revisão destes números.
Neste contexto, tem-se as cotas raciais, que também não resolverão o problema dos negros de forma geral, apenas de uma elite parda. Alem do mais, muitos deles já estão na classe média, iriam ingressar na universidade pública de qualquer maneira, mas agora se tornam devedores do PT e possíveis adversários da miscigenação racial.
Eles acreditam na integração sul-americana como uma resposta ao imperialismo ianque. Entretanto, a união sul-americana esbarra nas agendas políticas internas da Bolívia, que nos vê como exploradores, da Venezuela, que nos vê como concorrentes numa disputa por uma hegemonia regional, assim como a Argentina nos vê com ressentimento diante de nossas aspirações a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Paraguai, animado com o exemplo boliviano, já se arvora em querer rever o tratado de Itaipu.
Acreditam na ficção histórica do nacional-desenvolvimentismo, como diria Amado Cervo, e com isto ainda vêem sentido em uma aliança do governo com a burguesia de estado, que gera um estado inchado, cheio de corporações chantagistas e com pouco foco nas áreas estratégicas. O excesso de intervencionismo do Estado em infra-estrutura (aeroportos, rodovias, eletricidade,...) impede os investimentos privados e, sem infra-estrutura, trava-se o crescimento do país.
Os da geração de 68 não consideram legítima o que chamam de democracia burguesa e, acostumados a roubar bancos na época da ditadura, parecem não ter grandes escrúpulos em se valer dos mesmos recursos de seus adversários, tais como caixa 2 e outros. Hoje usam a Polícia Federal e suas operações escandalosas como propaganda de uma ética inexistente, afinal o Mercadante, principal interessado no dossiê contra Serra, saiu ileso, o resto dos generais petistas foi reeleito e muitos continuam a agir nos bastidores, apesar de denunciados no STF pelo Mensalão. Isto para não falar da maior negociata de cargos já vista "nestepaís", que se arrasta há meses.
Talvez a saída seja a ida do PT para o centro, como o Lula já parece estar fazendo, e uma adesão discreta ao Consenso de Washington que eles tanto criticaram na era FHC. Em matéria de esquerdistas, o velho FHC continua sendo o primeiro da classe, sendo seguido a passos de tartaruga pels seus coleguinhas mais lentinhos. Se arrependimento matasse... Por que eu não votei no Serra?
01 junho 2007
Propaganda é Violência
É uma lógica maluca, mas funciona. Desde os egípcios e seus gigantescos monumentos, passando por Hitler e chegando ao PAC, tem-se governos buscando se associar à grandeza e às realizações da sociedade. Outro dia mesmo, o Lula disse que os investidores deveriam agradecer a ele pela valorização da Bovespa e que os problemas aéreos eram mais uma herança maldita de governos anteriores. Talvez devamos agradecer a ele pelas chuvas que impedem o retorno do Apagão.
Alguns governantes chegam a querer ter o monopólio da propaganda. Um dia desses, assistindo ao fechamento da TV venezuelana de oposição, lembrei-me de Krishnamurti e a forma como discorria sobre a violência. Para ele, a violência começa no ego. Este amalgama de associações, identificações e desejos que quer se impor ao mundo. Este esforço para negar a própria nulidade só pode resultar em violência.
Lembrei da TV Lula e do desejo do seu grupo de influenciar ainda mais as massas e garantir a sua permanência no poder. O pior é que se eles aprenderem a fazer novela como a Globo, poderão governar 50 anos como o PRI do México. Marx estava errado; a dialética material não move a historia, porque a história não se move mas se repete, do velho panem et circenses romano chegamos ao Bolsa Família e à TV Lula.
O ego só gera violência. Mas vivemos em um mundo tão violento e negativo que nos esquecemos do real significado da violência. Diferentemente da informação, a propaganda quer nos dizer o que fazer, como nos sentir e até quem somos - como o agente Smith, de Matrix, que transformava nele mesmo todos em quem tocava. Portanto, a propaganda, seja pela repetição de comerciais visando criar associações seja pelo velho corpo a corpo de garçons tentando fisgar turistas indecisos, é uma forma de violência.
Em sua viagem ao Brasil, o Papa Ratzinger se mostrou sábio ao dizer que a Igreja Católica deveria buscar crescer por atração e não por proselitismo. Quando existe alguma Verdade em algo, ela é buscada e reconhecida, não precisa ser vendida por nenhum marqueteiro. Resta saber se estes poucos verdadeiros cristãos os quais Ratzinger diz querer pastorear são suficientes para compensar esta estrutura política de propaganda que chamamos de Igreja. Porque é inegável que o cristianismo é essencialmente proselitista, necessita de pregadores para espalhar a "boa nova"; ainda no berço, o cristianismo destruiu templos pagãos e adaptou a maioria para servir ao próprio culto, do mesmo modo que Mehmet II fez com a Santa Sofia. E, a despeito do sábio discurso de Ratzinger, muitos padres continuarão a falar de Cristo sem conhecê-lo e suas palavras continuarão mentirosas, a ser apenas propaganda, e os ouvidos dos que os ouvirão continuarão a ser violentados. Por outro lado, eu disse ao Catellius, um dia desses - e ele concordou comigo -, que apesar de achar justas muitas de suas críticas à Igreja Católica, devemos tomar o cuidado para não jogar o bebê fora junto com a água suja da banheira; devemos tentar deixar que a verdade de algo seja seu principal atrativo, refiro-me aqui particularmente à propaganda contra outros propagandistas.
Concluindo, na propaganda se encontram as Igrejas, Hitler, Chávez e todos aqueles que acreditam que o mundo seria melhor se parecesse mais com eles mesmos. Eles estão surdos e cegos, estão cheios de suas Verdades sempre insufladas por puxa-sacos que não lhes faltam. Como já disse Gurdjieff, em um dos seus momentos de moderação: ”Malditos sejam aqueles que, cegos, querem guiar os outros. Que o inferno lhes seja implacável.” E que Deus tenha piedade de nós!