Mais de um bilhão de ouvintes e telespectadores nos quatro cantos da orbe escutaram a voz de deus a bradar “Santo Subito” por meio dos trezentos mil fiéis e curiosos apinhados na Praça de São Pedro que recomendavam aos vermes dos porões da basílica, construída com os dividendos da venda de indulgências, o corpo de Karol Wojtyla, ex-teocrata do único Estado do mundo onde não há partos (embora não seja possível conceber o número de concepções que se deram sob os olhares dos santos de pedra, bronze e têmpera que habitam os aposentos secretos).
“A voz do povo é a voz de deus”, diz o povo, ou seja, deus. Embora seja sabido que um padre polonês e membros da igreja de seu país distribuíram às pessoas os cartazes com o despacho e tenham puxado o coro popular, indicado a deus o que deveria berrar, em nome deste clamor JPII foi beatificado pouco mais de um mês após sua morte, em um discreto atropelo do Código de Direito Canônico vigente.
Para a canonização não será imprescindível procurar por um milagre, uma vez que os advogados eclesiásticos já têm à mão Marie-Simon-Pierre, uma religiosa de 46 anos que assegurou, tremendo dos pés à cabeça de emoção, ter sido curada de maneira inexplicável do mal de Parkinson graças à intercessão de JPII. De maneira inexplicável ou inexplicada? Quando se tem muita fé nos médicos, como é o caso dos religiosos, tão afeitos a ter fé, se os doutures não explicam algo ele passa automaticamente a ser “inexplicável”. Segundo Carlos Esperança, a Igreja Católica se dá ao luxo de esconder milagres provados: "a impunidade do homicídio do chefe da Guarda Suiça, da mulher e de um soldado. O Vaticano atribuiu o assassínio do casal ao último, que se suicidou com a mesma pistola e uma bala de calibre diferente. Milagre!"
Mais de vinte anos antes, deus já se esforçara em transformar JPII em “Santo Subito” através do martírio - o que reduziria sobremaneira a burocracia para sua canonização. Preparou tudo para que o instante glorioso se desse logo após a bem sucedida morte de John Lennon, que o havia ofendido ao dizer que sua banda de rock era mais famosa que seu filho, mas na hora H, em uma grave ingerência celestial, a Senhora de Fátima desviou os projéteis disparados por Ali Agca, os quais acertariam a cabeça do Papa, para outras partes do corpo. Bem que lhe ocorrera desviar totalmente de JPII as balas, mas lembrou-se que ainda não havia um padroeiro para o mal de Parkinson, e assim achou por bem fazer a coisa ao seu modo. Revelaram-me (ao que não acreditar cabe desmenti-lo) que a Virgem de Guadalupe, que no momento do atentado estava em Cancun ajudando um porto-riquenho a vencer uma partida de arremesso de dardos, zombou da pontaria da portuguesa, e desde então as duas não se falam. Nossa Senhora Aparecida, que segundo os preconceituosos entrou para o panteão romano pelo mesmo sistema de cotas que beneficiou São Benedito, tentou ser a mediatrice, mas as duas não lhe deram ouvidos.
Os percalços foram superados. Karol será mais um semideus da religião que é, na verdade, o próprio politeísmo do Império Romano travestido na heresia judaica chamada cristianismo, cuja sede nunca deixou de ser a Cidade Eterna. “Por que semideus?” – pergunta o católico indignado – “O santo é tão somente um exemplo. Se um parente pode rezar por mim, por que um santo não pode fazê-lo?” Ora, ele ganha poderes especiais após a morte, passa a ser onipresente, já que de qualquer canto do universo poderá ser acionado por meio de preces, ainda que feitas de maneiras diversas por um bilhão de pessoas ao mesmo tempo; passa a ser praticamente onisciente, já que desmascara aquele que mente, o que pensa mal de si, terá presciência; e passa a ser quase onipotente, já que os fiéis, cansados da burocracia de terem de pedir por intercessão, pedincham as coisas diretamente ao semideus, sem delongas, chamando-o de poderoso, conferindo-lhe especializações, invocando-o como casamenteiro, protetor de viajantes, de doentes, etc. Se fossem meros intercessores, por que motivo Júpiter, oops, deus deixaria de atender a um pedido de São Paulo - que no Novo Testamento manifestou-se contra o casamento - para que uma beata encontrasse um varão para chamar de seu, mas atenderia o mesmo pedido feito pelo mesmo créu a Santo Antônio, o casamenteiro oficial?
E qual seria a especialidade de Bento XVI, que acabou de entrar na casa dos 80 e já trilha o caminho da santidade, antevista nas conciliadoras palavras da palestra de Regensburg, no legítimo combate ao secularismo? Padroeiro das raposas? Dos criadores de Rottweilers? Padroeiro do justo conclave? O tempo dirá...
19 abril 2007
13 abril 2007
A Ressurreição do Socialismo
Três crises financeiras depois, além do estouro da bolha da Nasdaq, e a promessa de riqueza infinita e estabilidade foi comprometida. Isto para não mencionarmos a corrupção que caracterizou privatizações em todos os países do mundo. De repente, de onde ninguém esperava, da China, veio a salvação do capitalismo. Os chineses e o Wall Mart controlaram a inflação americana, impediram uma superdesvalorização do dólar, começaram a financiar o consumo americano comprando T-Bonds e a elevar os preços das commodities em todo o mundo.
Quando as Torres Gêmeas caíram, diante da ação dos antigos aliados mujahedins, os EUA passaram a procurar os seus inimigos nos muçulmanos. Seus intelectuais viam nisso uma guerra de civilizações onde o Ocidente, não mais dividido entre socialismo e capitalismo, lutava contra a civilização muçulmana e oriental de forma geral. O diagnóstico era que estas eram civilizações incompatíveis. Na verdade, era uma nova roupagem para a velha idéia de que quem não tivesse uma economia de mercado e uma democracia nos moldes ocidentais era um inimigo em potencial. Aquela velha idéia americana de que as democracias estão destinadas a viver em paz.
Enquanto os americanos se focavam em sua nova guerra contra os muçulmanos, uma série de governos populistas crescia e se desenvolvia sob suas barbas, aproveitando a ressaca da globalização da década de 90. Chegando ao poder, pegaram carona no efeito China, que valorizou suas commodities, como é o caso da Venezuela, que se beneficiou de um aumento do preço do barril de petróleo de US$ 11 para US$ 60, no governo de Chávez. Enquanto os americanos estão ocupados no Iraque, as taxas de juros estão baixas e o efeito China gera grandes superávits comerciais para exportadores de commodities, estes governos populistas se mantêm no poder distribuindo a riqueza do tal efeito China.
Não adianta mais reclamar que estes governos esquerdistas e populistas são corruptos. São mesmo. Tão corruptos quanto os governos anteriores, e a cada dia sabem usar o Estado melhor para servir aos interesses que eles julgam ser também os interesses da democracia e do povo dos seus países, afinal, em suas cabeças, nada seria melhor para os seus países do que a sua permanência indefinida no poder. E eles são criativos, desenvolvem esquemas novos. Dominam as estruturas formais de poder e hoje só lhes falta ampliar seu domínio sobre a imprensa.
A história é quase sempre a mesma. Eles chegam ao poder nos braços da classe média, de ressaca com a malfadada globalização da década de 90 e com esperanças em uma mudança mais nacionalista. E quando chegam lá se tornam corruptos e mudam suas bases para uma clientela mais pobre e menos exigente. Hoje, a preocupação destes partidos esquerdistas é fidelizar estas bases pobres, doutriná-las e ensiná-las que o Estado é como uma divindade que distribui maná abundante, e que este papo neoliberal de que há escassez e necessidade de disciplina de capital é bobagem. Para isto, estão drenando recursos do Estado para montar uma rede de ONGs usando uma série de bandeiras reivindicatórias que permitirão mobilizar estas massas fora da estrutura partidária, criando uma estrutura que talvez possa em algum momento, como foi no caso da Bolívia, tirar o poder das mãos dos partidos tradicionais e suas democracias burguesas.
Bandeiras e ideais são os pretextos para as mobilizações, afinal, as multidões são percebidas pelos meios de comunicação como uma expressão popular. Infelizmente, raras vezes são; manifestações espontâneas e populares são raras. Na maioria das vezes, é um grupo de estudantes matando aula, liderado por um bando de sindicalistas desocupados, transportado por ônibus de alguma ONG e usando o carro de som do sindicato.
O islamismo era a segunda religião preferida do Papa João Paulo II, que a considerava muito semelhante ao cristianismo. Apesar disto, os intelectuais americanos acham que o Islã é o inimigo, e se esquecem de que o verdadeiro problema não são os muçulmanos mas a ressurreição dos socialistas e populistas, que crescem na onda chinesa. Talvez seja hora dos americanos reverem suas prioridades e voltarem a pensar no Ocidente, que está se dividindo novamente. Desta vez, se eles fizerem direito e não movidos pelo protecionismo nacionalista de um lado e pela ganância de Wall Street de outro, talvez haja um crescimento estável na Globalização e uma esperança para a democracia e para o desenvolvimento dos povos.
08 abril 2007
Moisés de Freud
Primeiramente, ele argumenta que “Mosheh” é uma palavra egípcia, provavelmente um diminutivo de um outro nome qualquer – “Thutmose”, por exemplo. Com isto, ele argumenta que Moisés não teria origem judaica mas egípcia. Freud escreve que aceitar que o seu salvador fosse egípcio seria demais para o povo judeu.
Ele acrescenta que o mito do fundador de um povo é o de um filho de um Rei que se torna um herói ao desafiar o pai. Moisés é um desvio do padrão ao ser supostamente um filho de judeus levitas que é criado como príncipe, e para Freud todo o desvio merece ser examinado com cuidado, visando encontrar sua motivação.
Segundo Freud, o judaísmo renuncia a qualquer forma de existência após a morte, além de passar a ser uma religião monoteísta, opondo-se à religião tradicional egípcia. Além disso, o judaísmo condena a feitiçaria, enquanto os egípcios faziam promessas aos deuses, entre eles Amen-Re, da cidade de Tebas, composto do deus da cabeça de carneiro e do deus solar de cabeça de falcão de On.
Foi sob a gloriosa XVIII Dinastia, por volta de 1375 a.C., que o Egito tornou-se uma potência internacional com Amenófis IV, e em seguida seu filho Akhenaton fez uma tentativa de impor o monoteísmo aos egípcios que resultou no fim da dinastia e na perseguição dos seguidores da nova religião. Curiosamente, o deus da cabeça de carneiro, Amen, era também o maior inimigo de Aton. De fato, o fortalecimento do culto a Aton pode ter sido uma reação à força dos sacerdotes de Tebas, o que levou o próprio faraó a fundar a sua cidade de Tell el-Amarna. Com a sua morte, tudo foi destruído, incluindo o seu túmulo e seu passaporte para a eternidade, enquanto os sacerdotes de Amen, ou Amon, garantiram que nenhum traço do culto a Aton sobreviveria.
Em seguida, ele argumenta que Heródoto afirmava ser a circuncisão um costume egípcio - o que viria a ser atestado por diversas múmias. Desta forma, a imposição do costume da circuncisão seria uma “egiptização” das tribos de escravos semitas. Seria um sinal do povo escolhido por Moisés. Este ponto merece ser revisitado, pois o dito “povo escolhido” talvez tenha realmente sido escolhido por Moisés para implantar algures a religião perseguida no Egito.
Moisés é retratado como um homem ardiloso, irascível, violento, capaz de matar e de planejar matanças - características que hoje atribuiríamos a um político, um aristocrata ou um general, mas raramente a um líder religioso. Outro ponto de destaque é ele ser descrito como “pesado de boca” para se dirigir ao povo, logicamente devido ao fato de um nobre egípcio não falar bem a língua de escravos semitas. Nas negociações com o faraó, não houve a necessidade de intérprete.
Não podemos esquecer que Moisés enfrentou várias revoltas contra a dureza da sua religião, e não seria difícil imaginar que no curso de uma destas revoltas ele tenha perecido. Esta hipótese é apoiada por uma tradição que vem do profeta Oséias de que Moisés teria sido assassinado por uma revolta de seu povo contra o rigor da nova religião e enterrado no deserto. Após o assassinato, a religião mosaica teria adormecido enquanto as tribos libertadas do Egito teriam se fundido com seus antigos parentes do deserto.
A origem da tribo levita é um grande mistério na tradição judaica e cabia justamente a ela as nobres funções sacerdotais. A hipótese de Freud é que os levitas seriam originariamente os escribas egípcios e sacerdotes de On que preservariam a cultura e a tradição mosaicas. Teria havido ainda um sincretismo com uma religião vulcânica de Javé, de algumas tribos do deserto, e a criação de patriarcas como Abraão, Isaac e Jacó, cuja existência negasse que a religião adotada tivesse sido importada do Egito.
04 abril 2007
Discutindo Marx
Ele inverte a causalidade do hegelianismo criando o materialismo histórico, onde a organização da produção material de bens é o determinante último do funcionamento da sociedade e da subjetividade dos indivíduos. Sua teoria foi criticada por Popper, que considerou uma contradição supor que a história obedece a uma lei que torne possível antecipar o futuro, daí considerava inconsistente a previsão da vitória final do socialismo. Além disso, Popper considera suas afirmações não refutáveis e portanto não científicas.
No âmbito da teoria econômica, o seu conceito de mais-valia é o mais celebrado. Entretanto, a mais-valia como explicação para a diferença entre o valor pago aos trabalhadores e o valor dos produtos gerados é apenas uma teoria. Assim como Adam Smith considerava que o valor é gerado pelo trabalho e não pela propriedade da terra, Marx supôs que o mais-valor é roubado dos trabalhadores.
O mainstream da teoria econômica lidou com este problema simplesmente abandonando a teoria do valor-trabalho de Adam Smith e passando a utilizar o conceito de utilidade marginal, a teoria do valor-utilidade. Desta forma, se o mercado estiver equilibrado, os fatores econômicos forem remunerados e ainda houver lucro, passou-se a considerar que estes são decorrentes de risco da atividade ou poder de mercado.
Apesar de descartado pelo mainstream econômico, o conceito de mais-valia foi apropriado por outras ciências sociais, que passaram a utilizá-lo em outros contextos. Desta forma, com o Imperialismo de Lênin, a exploração entre classes passou a ser entre países, e posteriormente passou-se a usar o ângulo de explicação das relações sociais como relações de conflito e exploração de forma generalizada. Duroselle critica esta abordagem ao afirmar que as relações sociais são primeiramente de colaboração e que o conflito subsistiria de forma secundária.
No Brasil, este pensamento foi importado por Florestan Fernandes e pela USP, que viviam o seu recalque no coração do capitalismo tupiniquim bem como Fernando Henrique Cardoso, que ataca a teoria das vantagens comparativas de Ricardo ao afirmar que isto condenaria o Brasil a uma relação de eterno exportador de matérias-primas baratas. Fernandes tornou-se um dos contestadores da idéia de miscigenação racial e passou a afirmar que havia uma relação de exploração também entre raças. Existe também uma leitura marxista para as relações de gênero.
Lacan chegou inclusive a aplicar a idéia de exploração e extração da mais-valia às relações entre superego e ego, onde o superego impediria o mais-gozo. Apesar disto, ele afirmava que a "Revolução" deveria começar dentro de cada um, pois enquanto houvesse explorações nas relações entre os líderes do partido e os liderados não haveria um verdadeiro socialismo. Enfim, espero com esta breve revisão oferecer material que possa subsidiar o debate sobre este pensador que, certo ou errado, muito nos influencia.
31 março 2007
Flamenguistas e Petistas
A partir de um comentário do C. Mouro, comecei a refletir sobre as nossas escolhas, e penso que às vezes seria melhor que as chamássemos de "identificações".
Tenho um colega que, apesar de ter nascido em Ipanema, é flamenguista. A explicação é simples; seu pai torce para o Flamengo. Creio que ser rubro-negro não tenha sido exatamente uma escolha para ele. Tenho um outro amigo que é filho de um casal de professores petistas, destes que em todas as eleições vão às ruas agitar bandeiras. Ele é ótima pessoa, correto, bom amigo, mas nenhum argumento conseguiria abalar sua fé no partido. Ele é um torcedor. O sujeito tem até mestrado, mas quando a questão é o PT, nenhuma lógica é capaz de tocá-lo.
Em seu caso, de meu colega flamenguista e no da maioria dos religiosos, acho que a questão não é a escolha mas a identificação, ou seja, no desenvolvimento dos sujeitos houve algum momento em que, ao se aproximarem dos pais, tomaram para si seus valores, e creio que não possam mais deles se desvencilhar por qualquer motivo razoável, salvo em poucas exceções. A legião de jovens vira-casacas botafoguenses, vascaínos e tricolores que o time de Zico e Júnior arrebanhou no começo da década de 80 não pode ser classificada como exceção, é certo.
Se o Flamengo joga mal a culpa é do juiz, que certamente é ladrão, e o torcedor não se importa se o gol do título foi ilegal, pois o que vale é a vitoria. Não quero dizer com isto que eu não tenha identificações; óbvio que sim. Entretanto, tento sempre questionar se minhas preferências refletem algo bom ou se são simplesmente um hábito, uma concessão afetiva ou uma propensão. Contudo, sei que qualquer apóstata terá de lidar com uma crise onde se verá obrigado a redefinir sua relação com seus pais, amigos, com a própria sociedade. Este não é um motivo desprezível para manter as coisas como estão. Pertencer a uma religião, ser de um partido político ou torcer por um time de futebol pode ser um dos poucos vínculos que conseguimos estabelecer com outros seres humanos.
Neste blog tentamos fazer o que aqueles comentaristas de futebol se propõem, ou seja, comentar "desapaixonadamente" e de forma crítica os jogadores políticos. Vocês hão de concordar que o Lula batendo bola no Maracanã só dá força a esta metáfora. Evidentemente, nenhum comentário é imparcial, mas pode ser bem fundamentado. Os torcedores são um pouco mais irritantes, pois necessitam de gritos de ordem... mas podia ser pior.
Na vida real, fora da blogosfera e de fóruns políticos, o torcedor pode ser um sujeito perigoso, um hooligan, e ai daqueles que pertençam a outras agremiações. Endeusa os que vestem camisas iguais à sua e espanca os demais. É por isso que não condeno os adesistas, os vira-casacas; eles simplesmente têm um instinto de autopreservação mais bem desenvolvido do que o nosso. Finalizando; acho que esta é uma atitude a ser buscada: a de comentaristas e críticos dos jogadores. Quem sabe um dia o técnico não nos escuta?
Tenho um colega que, apesar de ter nascido em Ipanema, é flamenguista. A explicação é simples; seu pai torce para o Flamengo. Creio que ser rubro-negro não tenha sido exatamente uma escolha para ele. Tenho um outro amigo que é filho de um casal de professores petistas, destes que em todas as eleições vão às ruas agitar bandeiras. Ele é ótima pessoa, correto, bom amigo, mas nenhum argumento conseguiria abalar sua fé no partido. Ele é um torcedor. O sujeito tem até mestrado, mas quando a questão é o PT, nenhuma lógica é capaz de tocá-lo.
Em seu caso, de meu colega flamenguista e no da maioria dos religiosos, acho que a questão não é a escolha mas a identificação, ou seja, no desenvolvimento dos sujeitos houve algum momento em que, ao se aproximarem dos pais, tomaram para si seus valores, e creio que não possam mais deles se desvencilhar por qualquer motivo razoável, salvo em poucas exceções. A legião de jovens vira-casacas botafoguenses, vascaínos e tricolores que o time de Zico e Júnior arrebanhou no começo da década de 80 não pode ser classificada como exceção, é certo.
Se o Flamengo joga mal a culpa é do juiz, que certamente é ladrão, e o torcedor não se importa se o gol do título foi ilegal, pois o que vale é a vitoria. Não quero dizer com isto que eu não tenha identificações; óbvio que sim. Entretanto, tento sempre questionar se minhas preferências refletem algo bom ou se são simplesmente um hábito, uma concessão afetiva ou uma propensão. Contudo, sei que qualquer apóstata terá de lidar com uma crise onde se verá obrigado a redefinir sua relação com seus pais, amigos, com a própria sociedade. Este não é um motivo desprezível para manter as coisas como estão. Pertencer a uma religião, ser de um partido político ou torcer por um time de futebol pode ser um dos poucos vínculos que conseguimos estabelecer com outros seres humanos.
Neste blog tentamos fazer o que aqueles comentaristas de futebol se propõem, ou seja, comentar "desapaixonadamente" e de forma crítica os jogadores políticos. Vocês hão de concordar que o Lula batendo bola no Maracanã só dá força a esta metáfora. Evidentemente, nenhum comentário é imparcial, mas pode ser bem fundamentado. Os torcedores são um pouco mais irritantes, pois necessitam de gritos de ordem... mas podia ser pior.
Na vida real, fora da blogosfera e de fóruns políticos, o torcedor pode ser um sujeito perigoso, um hooligan, e ai daqueles que pertençam a outras agremiações. Endeusa os que vestem camisas iguais à sua e espanca os demais. É por isso que não condeno os adesistas, os vira-casacas; eles simplesmente têm um instinto de autopreservação mais bem desenvolvido do que o nosso. Finalizando; acho que esta é uma atitude a ser buscada: a de comentaristas e críticos dos jogadores. Quem sabe um dia o técnico não nos escuta?
27 março 2007
A TV do Lula
No início do primeiro mandato os petralhas, como diz a Patrícia, tentaram emplacar um Conselho com poderes para cassar os registros profissionais de jornalistas que não tivessem um comportamento considerado ético. A proposta parecia inocente. O catch estava na Comissão de Notáveis para julgar os pares. Era aí que o PT apostava suas fichas. Felizmente, a proposta foi abortada. A esta altura alguns jornalistas já teriam sido cassados, a começar por aquele gringo que insistia no presidente ser chegado em uma cana.
Segundo mandato, estratégia nova. Lá vêm eles de novo, agora com a proposta de juntar a SECOM com a Radiobras para criar uma TV do Executivo sob o comando do jornalista Franklin Martins. Estima-se um orçamento de R$ 250.000.000,00, fora os anúncios das estatais. Lulinha, o jovem magnata das comunicações deve estar felicíssimo com as oportunidades que se avizinham.
Depois que o mito da honestidade dos petistas foi “desprovado” pela sua elite dirigente envolvida em Caixa 2, Mensalão, escândalo do Lixo e outros eventos, agora tentam provar que também não são democráticos, que estão mais interessados em aumentar o seu poder e que este negócio de democracia era papo de quando estavam na oposição. Infelizmente, parece que não basta ao Lula ser o chefe do Executivo. Ele quer ter reuniões semanais com os seus cupinchas no Legislativo. Daqui a pouco terá nomeado os 11 juízes do Supremo e, como se não bastasse, também quer ter uma importante participação no quarto poder, a Imprensa.
Graças ao controle da execução do Orçamento, do poder de nomear para cargos que dão prestígio e cargos que administram grandes orçamentos nas estatais, o presidente constrói uma maioria fisiológica no Congresso da qual espera o voto a seus projetos, sem questionamentos. Isto já seria uma violação do equilíbrio dos poderes. Quando o presidente nomeia os juízes do Supremo, está garantindo que a Constituição será interpretada como ele desejar. Agora, ele ainda quer pautar um poderoso órgão de comunicação que dirá ao povo o que pensar do seu governo. Imaginem como será difícil controlar esta TV durante as eleições… Aliás, o próximo presidente do TSE já terá sido nomeado pelo presidente.
O erro deste projeto é seu pressuposto autoritário de que o próximo chefe do Executivo, eleito em 2010, será seu aliado, caso contrário, ele terá criado mais poder para um inimigo. Portanto, a eleição deverá ser ainda mais violenta, pois o risco de perder o poder pode ser ainda mais desastroso. Este é o problema com projetos autoritários, como a reeleição do FHC; começam visando ampliar o próprio poder, enfraquecem a democracia e tornam a disputa pelo poder ainda mais sangrenta.
2010 é problema do Lula, o problema da democracia é que precisamos de um ambiente onde os poderes funcionem de forma independente, quiçá harmoniosa. Ou seja, o Executivo administra, o Legislativo legisla, o Judíciário julga e a Imprensa informa. De fato, já é um erro a Presidência da República dispor de tantos recursos para fazer propaganda. É por isto que sou contra a TV Lula, que reedita o desejo dos militares por um canal simpático ao regime, como foi o famoso projeto de promoção da Rede Globo na ocasião. Viver com críticas é desagradável mas é mais seguro para todos. Por fim, este desejo de aumento de poder do Lula vai acirrar a guerra que será a eleição de 2010, onde ele próprio poderá concorrer novamente amparado por alguma consulta ao Supremo.
Segundo mandato, estratégia nova. Lá vêm eles de novo, agora com a proposta de juntar a SECOM com a Radiobras para criar uma TV do Executivo sob o comando do jornalista Franklin Martins. Estima-se um orçamento de R$ 250.000.000,00, fora os anúncios das estatais. Lulinha, o jovem magnata das comunicações deve estar felicíssimo com as oportunidades que se avizinham.
Depois que o mito da honestidade dos petistas foi “desprovado” pela sua elite dirigente envolvida em Caixa 2, Mensalão, escândalo do Lixo e outros eventos, agora tentam provar que também não são democráticos, que estão mais interessados em aumentar o seu poder e que este negócio de democracia era papo de quando estavam na oposição. Infelizmente, parece que não basta ao Lula ser o chefe do Executivo. Ele quer ter reuniões semanais com os seus cupinchas no Legislativo. Daqui a pouco terá nomeado os 11 juízes do Supremo e, como se não bastasse, também quer ter uma importante participação no quarto poder, a Imprensa.
Graças ao controle da execução do Orçamento, do poder de nomear para cargos que dão prestígio e cargos que administram grandes orçamentos nas estatais, o presidente constrói uma maioria fisiológica no Congresso da qual espera o voto a seus projetos, sem questionamentos. Isto já seria uma violação do equilíbrio dos poderes. Quando o presidente nomeia os juízes do Supremo, está garantindo que a Constituição será interpretada como ele desejar. Agora, ele ainda quer pautar um poderoso órgão de comunicação que dirá ao povo o que pensar do seu governo. Imaginem como será difícil controlar esta TV durante as eleições… Aliás, o próximo presidente do TSE já terá sido nomeado pelo presidente.
O erro deste projeto é seu pressuposto autoritário de que o próximo chefe do Executivo, eleito em 2010, será seu aliado, caso contrário, ele terá criado mais poder para um inimigo. Portanto, a eleição deverá ser ainda mais violenta, pois o risco de perder o poder pode ser ainda mais desastroso. Este é o problema com projetos autoritários, como a reeleição do FHC; começam visando ampliar o próprio poder, enfraquecem a democracia e tornam a disputa pelo poder ainda mais sangrenta.
2010 é problema do Lula, o problema da democracia é que precisamos de um ambiente onde os poderes funcionem de forma independente, quiçá harmoniosa. Ou seja, o Executivo administra, o Legislativo legisla, o Judíciário julga e a Imprensa informa. De fato, já é um erro a Presidência da República dispor de tantos recursos para fazer propaganda. É por isto que sou contra a TV Lula, que reedita o desejo dos militares por um canal simpático ao regime, como foi o famoso projeto de promoção da Rede Globo na ocasião. Viver com críticas é desagradável mas é mais seguro para todos. Por fim, este desejo de aumento de poder do Lula vai acirrar a guerra que será a eleição de 2010, onde ele próprio poderá concorrer novamente amparado por alguma consulta ao Supremo.
20 março 2007
Arte e Poder
Mecenato
Caio Mecenas foi um grande patrono das letras. Conselheiro de Otávio Augusto, usou a fortuna da família para financiar um círculo literário que incluía nomes como Horácio e Virgilio. Sua reputação se deve ao altruísmo e aos frutos que ele gerou. O mecenato de poderosos, contudo, é mais antigo e sempre teve a autopromoção, ou a promoção de algo, como verdadeiro fim. Com o passar dos anos, épicos, pinturas, esculturas e maravilhas arquitetônicas foram parcialmente substituídos pelo nada eterno marketing, e gênios como Duda Mendonça, capaz de atingir metas que desanimariam São Judas Tadeu, fazem as vezes de artistas como o já citado Virgílio, que, além de usufruir da generosidade de Caio Mecenas, aceitou a encomenda de Otávio Augusto para escrever a Eneida, um épico tão artificial quanto Os Lusíadas, em cujas páginas o poeta latino inventa uma origem troiana para os romanos, além de criar uma correspondência entre Enéas e Augusto.
Como escrevi a um anônimo na sessão de comentários do post Galvão e a Transubstanciação, onde está o poder estão os artistas, engenheiros, arquitetos. Necessitam, quais rêmoras, de um tubarão influente e rico no qual fixar a barbatana-ventosa, para aguardarem o momento em que lhes financiará os tão caros devaneios. Há, na verdade, uma interdependência, já que os poderosos usam a arte e grandes feitos de engenharia para promoverem sua superioridade, vide os Medici, os Sforza, Justiniano, Mehmet II, os Papas, Faraós e nosso bom e velho Otávio Augusto.
A rêmora Mascagni fixou-se em Mussolini, Wagner fixou-se em Ludwig II da Baviera, Niemeyer fixou-se em Juscelino, o Gilberto Gil artista fixou-se no Gilberto Gil ministro. Dizem que não se entendem muito bem, porque um quer sempre tomar o lugar do outro. Nosso ministro-artista é a reedição do Nero inventado por Sienkiewicz. Incendiou a ONU com a ajuda de Kofi Annan. Soltaram a franga e, assim, puniram os cristãos presentes de um modo bem mais cruel do que se tivessem soltado as costumeiras feras dos circos romanos. Claro que muitos artistas não almejavam fama e dinheiro, mas habitavam regiões de pujança econômica, onde novas idéias artísticas e filosóficas fervilhavam.
No Brasil, tudo vai à contramão do mundo civilizado. Os artistas produzem melhor sob ameaça de bordoadas, prisão e extradição do que quando favorecidos por leis de incentivo à cultura ou por outras formas de mecenato oficial. Mesmo com o cenário favorável de supressão das liberdades individuais, alguns artistas não se sentiam suficientemente perseguidos e se auto-exilavam, como Caetano Veloso, para não serem abandonados pelas musas. Quando colocamos lado a lado o que Chico Buarque e outras mentes privilegiadas produziram nos bons tempos da repressão e o que fazem hoje, percebemos o quão vertiginosa foi sua decadência. E idade não é desculpa. Quase todos os grandes compositores clássicos escreveram suas melhores obras no fim da vida, aos trinta e poucos anos (rs).
Menos Poder...
Mas nada como a arquitetura para eternizar um povo, um governo, um governante. O próprio arquiteto do universo, o deus dos maçons, foi eternizado pela sua magnífica obra - o universo -, encomendada pelo supra-deus, que sempre preferiu o anonimato. Como bem lembrou Balzac, os eventos da vida humana, públicos ou privados, estão tão intimamente relacionados à arquitetura, que podemos reconstruir nações ou indivíduos a partir dos vestígios de seus monumentos e residências. Churchill disse que nós moldamos nossos edifícios, e a partir de então passamos a ser moldados por eles.
Poderosa como nenhuma outra instituição religiosa em toda história, a Igreja Católica financiou as mais belas construções dos últimos dois mil anos. Moldou os templos e a cristandade foi moldada por eles. Os primeiros cristãos congregavam-se em catacumbas ou escondidos em suas casas, mas após o Édito de Milão, de Constantino, apropriaram-se das ricas e imponentes basílicas romanas, e acrescentaram um transepto para que a planta formasse uma cruz. As igrejas antigas tinham uma superioridade natural sobre os prédios que as circundavam. O gabarito máximo do resto da cidade era limitado pelos pés do padroeiro ou pelas torres das catedrais. Grandes praças e largos funcionavam como espaço de transição entre a cidade e o espaço dito sagrado, além de remeterem ao átrio do Templo de Salomão. Eram marcos visuais, a identidade de uma cidade. Dentro, a nave simbolizava a Arca da Salvação, a Barca de Pedro, a maternidade da Igreja. A galilé, de onde os não batizados podiam assistir à Missa, simbolizava a jornada de Jesus da Galiléia até Jerusalém, local do sacrifício no Calvário. Sobre a galilé ficava o coro, em uma espécie de mezanino, invisível para os fiéis, afastado do altar. As igrejas eram desenhadas para ser a imagem do Corpo Místico de Cristo posto a serviço de sua cabeça: o deus dos cristãos. O forro plano da antiga basílica deu lugar à abóbada, para simbolizar o firmamento celeste. Era, amiúde, sustentada por doze colunas simbolizando os apóstolos, e o leão, o homem, o carneiro e a águia – símbolos dos evangelistas – ornamentavam as colunas do cruzeiro. As fachadas contavam com inúmeras estátuas que eram uma espécie de catecismo, em frente às quais os professores ensinavam a história bíblica ao povo.
O ocaso da supremacia da Igreja Católica se deu no final do século XIV e século XV, quando o conhecimento científico entrou em conflito com as crenças cristãs e a cosmologia bíblica, e com o advento do protestantismo, que se opunha, entre incontáveis outras coisas, ao vil comércio de indulgências, que perdoavam pecados passados, presentes e futuros, cujos dividendos eram o combustível de trabalhadores braçais de todos os cantos da Itália, artesãos e artistas como Bramante, que se empenhavam na edificação da mais suntuosa construção sacra de toda cristandade: A Basílica de São Pedro. Indiretamente, esta grande obra foi responsável pela asquerosidade dos templos católicos construídos nos dias de hoje.
Mais adiante, os ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entraram em sério conflito com a Igreja. O dízimo foi suprimido e ela teve muitos de seus bens confiscados. Na França, em 1790, foi separada do Estado e os clérigos obrigados a se submeter à constituição do país. A Igreja Católica não viu problema em justificar as decapitações promovidas pelos revolucionários franceses, já que aceitou transferir para o imperador deles, Napoleão, o direito divino que pouco antes pertencia aos nobres guilhotinados. Napoleão, contudo, em um lapso de sabedoria, tomou a coroa do próprio papa Pio VII e a pousou sobre a própria cabeça.
Na Itália, em 1860, Vittorio Emanuele derrotou o esquálido exército papal e se apropriou da Umbria e de Marches. No mesmo ano, tomou todos os territórios pontifícios, inclusive Roma, deixando para a Igreja Católica apenas o quarteirão do Vaticano, de onde um raivoso Pio IX ameaçou com a excomunhão todos católicos que votassem nas iminentes eleições. Teve de abrir mão da outrora abominada punição quando viu que acabaria perdendo quase toda a clientela italiana se insistisse no disparate.
...Menos Arte
A Igreja perdeu poder e, como em um passe de mágica, restringiu radicalmente o mecenato, passando a arcar apenas com a comissão de artistas menores, para não dizer medíocres. Antes, artistas judeus, maçons, agnósticos ou irreligiosos (e católicos, claro) compunham missas e requiems de tirar o fôlego. Hoje, a Igreja conta apenas com a inspiração divina, por esta razão as canções do padre Zeca, do padre Marcelo Rossi e do padre Jonas não impressionam tanto quanto a Missa Solemnis de Beethoven.
As casas de deus foram as que mais sofreram com o secularismo. O deus dos católicos, um caso típico de nobre europeu empobrecido, viu-se obrigado a adaptar suas casas de campo para hotéis, muitos de seus castelos para museus, a ceder, endividado, belos palácios para milionários americanos. Mudou-se para cortiços nos trópicos ou, quando conseguia orquestrar um mutirão entre as atrasadas populações locais, para monstruosidades como a Basílica de Aparecida. Assim, as casas de deus foram ficando cada vez mais grotescas e desproporcionais. Hoje, submetem-se às normas ordinárias do código de edificações e são superadas por grandiosos prédios de escritórios, museus, bibliotecas, e edifícios públicos. A arquitetura de museus, aliás, atrai os grandes nomes da arte mundial e também os grandes investimentos. O arquiteto Mario Botta disse que, na cidade de hoje, o museu cumpre um papel análogo àquele da catedral antigamente. O museu é, na sua opinião, aonde as pessoas vão para entrar em estado de graça. O sentimento “transcendental” que até um ateu experimenta ao adentrar a Basílica de São Pedro, por exemplo, nada mais é do que o estado de contemplação da grandeza do próprio homem, de sua capacidade técnica e artística. Lá admiramos Bernini, Bramante, Michelangelo ou Rafaello, não a "santidade" da Igreja Católica e de seu panteão de semideuses. Estamos em um museu; esta é a grande verdade.
Para muitos católicos tradicionalistas, a culpa não é da perda de poder mas do Concílio Vaticano II, que permitiu que maneirismos protestantes se infiltrassem no seio da Igreja Católica. O protestantismo, naturalmente estéril, teria sido incapaz de produzir um estilo próprio de arquitetura, então os heresiarcas teriam aceitado o culto em galpões e auditórios, o que teria acabado por influenciar negativamente a Igreja de Roma, não sem a ajuda do pusilânime João XXIII e sua mania de ecumenismo e reconciliação. Talvez, realmente, o motivo não esteja na perda de poder mas no fato de que ela almeja principalmente o outrora proibido lucro, que pode, hoje em dia, ser obtido honestamente de milhares de maneiras. Por que a Igreja Católica desperdiçaria na construção de Igrejas seu precioso dinheirinho conseguido a duras penas em Colégios salesianos, rogacionistas, maristas, em universidades, hospitais, estacionamentos pagos, editoras, no aluguéis de imóveis, em rádios, televisões, jornais, em isenções fiscais? Se o Papa autorizar a camisinha entre casados, não duvidem que breve as veremos nas Editoras Paulinas, com a imagem da Sagrada Família impressa na embalagem e os dizeres "Lembre-se, eles só tiveram um filho". Claro que a Igreja gasta um pouco mais em centros de peregrinação que possam alavancar os negócios, mas normalmente deixa que os fiéis se organizem e, ajudados pela providência divina, erijam os projetos arrojados dos padres-arquitetos-frustrados e plantem ao redor a vegetação que os irá esconder. Frank Lloyd Wright disse “A doctor can bury his mistakes but an architect can only advise his clients to plant vines” (já vi atribuírem esta frase a George Sand).
Cinco Exemplos
A arquitetura religiosa daqui de Brasília, com exceções como a Igreja Dom Bosco e a Catedral Metropolitana, é o que de pior o homem pode produzir. A seguir, alguns exemplos de casas de deus no centro da capital do maior país católico de todo o universo conhecido e desconhecido.

Igreja de São Miguel Arcanjo e Santo Expedito.
O anjo padroeiro da Igreja Católica pisa em um homem morcego, que imagino ser satanás, uma vez que o Batman não se deixaria apanhar tão facilmente.
Do lado direito, também pisando em um ser negro alado, Santo Expedito, o das causas urgentes, foi o responsável pela construção da igreja a toque de caixa. Claro que se tivesse levado 400 anos na construção, a casa de deus teria ficado tão boa quanto a Catedral de Colônia, mas o Santo quer tudo “Hodie” (hoje), e este templo foi o melhor que pôde providenciar.
O orelhão da Brasil Telecom significa que na Igreja se pode conversar com deus, o semicilindro envidraçado representa a abóbada vertical, mistério cujo significado ninguém até hoje compreendeu, e os principais elementos arquitetônicos ainda não cresceram, apesar do adubo fortificado doado pelo viveiro cujo dono é devoto do santo de quem espera um aumento urgente nas vendas.

Igreja de Nossa Senhora da Consolata.
A planta é um círculo, simbolizando o boloteiro dos engenheiros, e as aberturas são arcos em ferradura, para simbolizar o modelo de sapato preferido dos atuais arquitetos religiosos. Os vitrais totalmente transparentes simbolizam a luz divina, que tudo atravessa.
Hoje, apenas o tronco da árvore protege a visão do transeunte. A idéia é plantar muitas trepadeiras nas paredes externas e rezar por uma ingerência de Santo Expedito para que cresçam rapidamente.

Igreja do Verbo Divino
O porte-cochère que "sai" da porta de entrada simboliza uma língua, o verbo divino, que fala para as paredes, ou melhor, para a parede curvada que construíram para substituir a vegetação que demorou demais para crescer.

Igreja de Nossa Senhora da Esperança
A sacação aqui foi usar todas as formas geométricas possíveis, o triângulo, o círculo, o quadrado, o retângulo. Outros dizem que o triângulo invertido encimado pelo semicírculo simboliza o cálice e a hóstia transubstanciada. Êita corpão de Cristo, sô!

Igreja de São Camilo de Lelis
O pé-direito baixo, as excrescências pictóricas no altar (anjinhos ao redor de nuvens de algodão estilo "Meu Querido Pônei") e a fachada caótica compõem este até que aceitável templo católico. Mas ficará melhor e mais verde em breve.
São Camilo, um médico caridoso, e seu patrão celestial são protegidos dos malfeitores por lanças perfurantes, verdadeiras ameaças de estigmatização. Vociferam silenciosamente: "tentem entrar aqui e suas mãos ficarão como as do Cristo crucificado".
Em São Mateus, 5, lemos:
39. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
40. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
41. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
42. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.
Hoje, os mendigos não se amontoam mais em frente às escadarias das igrejas, como antigamente. São barrados por lanças ameaçadoras, afinal esmolas são contra a cidadania. Só podemos dá-las durante o ofertório, confiá-las aos padres que nada necessitam para si, que moram nos fundos da sacristia em despojadas celas, nas quais repousam seus alquebrados ossos sobre duros colchões de pedra.
Caio Mecenas foi um grande patrono das letras. Conselheiro de Otávio Augusto, usou a fortuna da família para financiar um círculo literário que incluía nomes como Horácio e Virgilio. Sua reputação se deve ao altruísmo e aos frutos que ele gerou. O mecenato de poderosos, contudo, é mais antigo e sempre teve a autopromoção, ou a promoção de algo, como verdadeiro fim. Com o passar dos anos, épicos, pinturas, esculturas e maravilhas arquitetônicas foram parcialmente substituídos pelo nada eterno marketing, e gênios como Duda Mendonça, capaz de atingir metas que desanimariam São Judas Tadeu, fazem as vezes de artistas como o já citado Virgílio, que, além de usufruir da generosidade de Caio Mecenas, aceitou a encomenda de Otávio Augusto para escrever a Eneida, um épico tão artificial quanto Os Lusíadas, em cujas páginas o poeta latino inventa uma origem troiana para os romanos, além de criar uma correspondência entre Enéas e Augusto.
Como escrevi a um anônimo na sessão de comentários do post Galvão e a Transubstanciação, onde está o poder estão os artistas, engenheiros, arquitetos. Necessitam, quais rêmoras, de um tubarão influente e rico no qual fixar a barbatana-ventosa, para aguardarem o momento em que lhes financiará os tão caros devaneios. Há, na verdade, uma interdependência, já que os poderosos usam a arte e grandes feitos de engenharia para promoverem sua superioridade, vide os Medici, os Sforza, Justiniano, Mehmet II, os Papas, Faraós e nosso bom e velho Otávio Augusto.
A rêmora Mascagni fixou-se em Mussolini, Wagner fixou-se em Ludwig II da Baviera, Niemeyer fixou-se em Juscelino, o Gilberto Gil artista fixou-se no Gilberto Gil ministro. Dizem que não se entendem muito bem, porque um quer sempre tomar o lugar do outro. Nosso ministro-artista é a reedição do Nero inventado por Sienkiewicz. Incendiou a ONU com a ajuda de Kofi Annan. Soltaram a franga e, assim, puniram os cristãos presentes de um modo bem mais cruel do que se tivessem soltado as costumeiras feras dos circos romanos. Claro que muitos artistas não almejavam fama e dinheiro, mas habitavam regiões de pujança econômica, onde novas idéias artísticas e filosóficas fervilhavam.
No Brasil, tudo vai à contramão do mundo civilizado. Os artistas produzem melhor sob ameaça de bordoadas, prisão e extradição do que quando favorecidos por leis de incentivo à cultura ou por outras formas de mecenato oficial. Mesmo com o cenário favorável de supressão das liberdades individuais, alguns artistas não se sentiam suficientemente perseguidos e se auto-exilavam, como Caetano Veloso, para não serem abandonados pelas musas. Quando colocamos lado a lado o que Chico Buarque e outras mentes privilegiadas produziram nos bons tempos da repressão e o que fazem hoje, percebemos o quão vertiginosa foi sua decadência. E idade não é desculpa. Quase todos os grandes compositores clássicos escreveram suas melhores obras no fim da vida, aos trinta e poucos anos (rs).
Menos Poder...
Mas nada como a arquitetura para eternizar um povo, um governo, um governante. O próprio arquiteto do universo, o deus dos maçons, foi eternizado pela sua magnífica obra - o universo -, encomendada pelo supra-deus, que sempre preferiu o anonimato. Como bem lembrou Balzac, os eventos da vida humana, públicos ou privados, estão tão intimamente relacionados à arquitetura, que podemos reconstruir nações ou indivíduos a partir dos vestígios de seus monumentos e residências. Churchill disse que nós moldamos nossos edifícios, e a partir de então passamos a ser moldados por eles.
Poderosa como nenhuma outra instituição religiosa em toda história, a Igreja Católica financiou as mais belas construções dos últimos dois mil anos. Moldou os templos e a cristandade foi moldada por eles. Os primeiros cristãos congregavam-se em catacumbas ou escondidos em suas casas, mas após o Édito de Milão, de Constantino, apropriaram-se das ricas e imponentes basílicas romanas, e acrescentaram um transepto para que a planta formasse uma cruz. As igrejas antigas tinham uma superioridade natural sobre os prédios que as circundavam. O gabarito máximo do resto da cidade era limitado pelos pés do padroeiro ou pelas torres das catedrais. Grandes praças e largos funcionavam como espaço de transição entre a cidade e o espaço dito sagrado, além de remeterem ao átrio do Templo de Salomão. Eram marcos visuais, a identidade de uma cidade. Dentro, a nave simbolizava a Arca da Salvação, a Barca de Pedro, a maternidade da Igreja. A galilé, de onde os não batizados podiam assistir à Missa, simbolizava a jornada de Jesus da Galiléia até Jerusalém, local do sacrifício no Calvário. Sobre a galilé ficava o coro, em uma espécie de mezanino, invisível para os fiéis, afastado do altar. As igrejas eram desenhadas para ser a imagem do Corpo Místico de Cristo posto a serviço de sua cabeça: o deus dos cristãos. O forro plano da antiga basílica deu lugar à abóbada, para simbolizar o firmamento celeste. Era, amiúde, sustentada por doze colunas simbolizando os apóstolos, e o leão, o homem, o carneiro e a águia – símbolos dos evangelistas – ornamentavam as colunas do cruzeiro. As fachadas contavam com inúmeras estátuas que eram uma espécie de catecismo, em frente às quais os professores ensinavam a história bíblica ao povo.
O ocaso da supremacia da Igreja Católica se deu no final do século XIV e século XV, quando o conhecimento científico entrou em conflito com as crenças cristãs e a cosmologia bíblica, e com o advento do protestantismo, que se opunha, entre incontáveis outras coisas, ao vil comércio de indulgências, que perdoavam pecados passados, presentes e futuros, cujos dividendos eram o combustível de trabalhadores braçais de todos os cantos da Itália, artesãos e artistas como Bramante, que se empenhavam na edificação da mais suntuosa construção sacra de toda cristandade: A Basílica de São Pedro. Indiretamente, esta grande obra foi responsável pela asquerosidade dos templos católicos construídos nos dias de hoje.
Mais adiante, os ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entraram em sério conflito com a Igreja. O dízimo foi suprimido e ela teve muitos de seus bens confiscados. Na França, em 1790, foi separada do Estado e os clérigos obrigados a se submeter à constituição do país. A Igreja Católica não viu problema em justificar as decapitações promovidas pelos revolucionários franceses, já que aceitou transferir para o imperador deles, Napoleão, o direito divino que pouco antes pertencia aos nobres guilhotinados. Napoleão, contudo, em um lapso de sabedoria, tomou a coroa do próprio papa Pio VII e a pousou sobre a própria cabeça.
Na Itália, em 1860, Vittorio Emanuele derrotou o esquálido exército papal e se apropriou da Umbria e de Marches. No mesmo ano, tomou todos os territórios pontifícios, inclusive Roma, deixando para a Igreja Católica apenas o quarteirão do Vaticano, de onde um raivoso Pio IX ameaçou com a excomunhão todos católicos que votassem nas iminentes eleições. Teve de abrir mão da outrora abominada punição quando viu que acabaria perdendo quase toda a clientela italiana se insistisse no disparate.
...Menos Arte
A Igreja perdeu poder e, como em um passe de mágica, restringiu radicalmente o mecenato, passando a arcar apenas com a comissão de artistas menores, para não dizer medíocres. Antes, artistas judeus, maçons, agnósticos ou irreligiosos (e católicos, claro) compunham missas e requiems de tirar o fôlego. Hoje, a Igreja conta apenas com a inspiração divina, por esta razão as canções do padre Zeca, do padre Marcelo Rossi e do padre Jonas não impressionam tanto quanto a Missa Solemnis de Beethoven.
As casas de deus foram as que mais sofreram com o secularismo. O deus dos católicos, um caso típico de nobre europeu empobrecido, viu-se obrigado a adaptar suas casas de campo para hotéis, muitos de seus castelos para museus, a ceder, endividado, belos palácios para milionários americanos. Mudou-se para cortiços nos trópicos ou, quando conseguia orquestrar um mutirão entre as atrasadas populações locais, para monstruosidades como a Basílica de Aparecida. Assim, as casas de deus foram ficando cada vez mais grotescas e desproporcionais. Hoje, submetem-se às normas ordinárias do código de edificações e são superadas por grandiosos prédios de escritórios, museus, bibliotecas, e edifícios públicos. A arquitetura de museus, aliás, atrai os grandes nomes da arte mundial e também os grandes investimentos. O arquiteto Mario Botta disse que, na cidade de hoje, o museu cumpre um papel análogo àquele da catedral antigamente. O museu é, na sua opinião, aonde as pessoas vão para entrar em estado de graça. O sentimento “transcendental” que até um ateu experimenta ao adentrar a Basílica de São Pedro, por exemplo, nada mais é do que o estado de contemplação da grandeza do próprio homem, de sua capacidade técnica e artística. Lá admiramos Bernini, Bramante, Michelangelo ou Rafaello, não a "santidade" da Igreja Católica e de seu panteão de semideuses. Estamos em um museu; esta é a grande verdade.
Para muitos católicos tradicionalistas, a culpa não é da perda de poder mas do Concílio Vaticano II, que permitiu que maneirismos protestantes se infiltrassem no seio da Igreja Católica. O protestantismo, naturalmente estéril, teria sido incapaz de produzir um estilo próprio de arquitetura, então os heresiarcas teriam aceitado o culto em galpões e auditórios, o que teria acabado por influenciar negativamente a Igreja de Roma, não sem a ajuda do pusilânime João XXIII e sua mania de ecumenismo e reconciliação. Talvez, realmente, o motivo não esteja na perda de poder mas no fato de que ela almeja principalmente o outrora proibido lucro, que pode, hoje em dia, ser obtido honestamente de milhares de maneiras. Por que a Igreja Católica desperdiçaria na construção de Igrejas seu precioso dinheirinho conseguido a duras penas em Colégios salesianos, rogacionistas, maristas, em universidades, hospitais, estacionamentos pagos, editoras, no aluguéis de imóveis, em rádios, televisões, jornais, em isenções fiscais? Se o Papa autorizar a camisinha entre casados, não duvidem que breve as veremos nas Editoras Paulinas, com a imagem da Sagrada Família impressa na embalagem e os dizeres "Lembre-se, eles só tiveram um filho". Claro que a Igreja gasta um pouco mais em centros de peregrinação que possam alavancar os negócios, mas normalmente deixa que os fiéis se organizem e, ajudados pela providência divina, erijam os projetos arrojados dos padres-arquitetos-frustrados e plantem ao redor a vegetação que os irá esconder. Frank Lloyd Wright disse “A doctor can bury his mistakes but an architect can only advise his clients to plant vines” (já vi atribuírem esta frase a George Sand).
Cinco Exemplos
A arquitetura religiosa daqui de Brasília, com exceções como a Igreja Dom Bosco e a Catedral Metropolitana, é o que de pior o homem pode produzir. A seguir, alguns exemplos de casas de deus no centro da capital do maior país católico de todo o universo conhecido e desconhecido.
Igreja de São Miguel Arcanjo e Santo Expedito.
O anjo padroeiro da Igreja Católica pisa em um homem morcego, que imagino ser satanás, uma vez que o Batman não se deixaria apanhar tão facilmente.
Do lado direito, também pisando em um ser negro alado, Santo Expedito, o das causas urgentes, foi o responsável pela construção da igreja a toque de caixa. Claro que se tivesse levado 400 anos na construção, a casa de deus teria ficado tão boa quanto a Catedral de Colônia, mas o Santo quer tudo “Hodie” (hoje), e este templo foi o melhor que pôde providenciar.
O orelhão da Brasil Telecom significa que na Igreja se pode conversar com deus, o semicilindro envidraçado representa a abóbada vertical, mistério cujo significado ninguém até hoje compreendeu, e os principais elementos arquitetônicos ainda não cresceram, apesar do adubo fortificado doado pelo viveiro cujo dono é devoto do santo de quem espera um aumento urgente nas vendas.
Igreja de Nossa Senhora da Consolata.
A planta é um círculo, simbolizando o boloteiro dos engenheiros, e as aberturas são arcos em ferradura, para simbolizar o modelo de sapato preferido dos atuais arquitetos religiosos. Os vitrais totalmente transparentes simbolizam a luz divina, que tudo atravessa.
Hoje, apenas o tronco da árvore protege a visão do transeunte. A idéia é plantar muitas trepadeiras nas paredes externas e rezar por uma ingerência de Santo Expedito para que cresçam rapidamente.
Igreja do Verbo Divino
O porte-cochère que "sai" da porta de entrada simboliza uma língua, o verbo divino, que fala para as paredes, ou melhor, para a parede curvada que construíram para substituir a vegetação que demorou demais para crescer.
Igreja de Nossa Senhora da Esperança
A sacação aqui foi usar todas as formas geométricas possíveis, o triângulo, o círculo, o quadrado, o retângulo. Outros dizem que o triângulo invertido encimado pelo semicírculo simboliza o cálice e a hóstia transubstanciada. Êita corpão de Cristo, sô!
Igreja de São Camilo de Lelis
O pé-direito baixo, as excrescências pictóricas no altar (anjinhos ao redor de nuvens de algodão estilo "Meu Querido Pônei") e a fachada caótica compõem este até que aceitável templo católico. Mas ficará melhor e mais verde em breve.
São Camilo, um médico caridoso, e seu patrão celestial são protegidos dos malfeitores por lanças perfurantes, verdadeiras ameaças de estigmatização. Vociferam silenciosamente: "tentem entrar aqui e suas mãos ficarão como as do Cristo crucificado".
Em São Mateus, 5, lemos:
39. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
40. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
41. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
42. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.
Hoje, os mendigos não se amontoam mais em frente às escadarias das igrejas, como antigamente. São barrados por lanças ameaçadoras, afinal esmolas são contra a cidadania. Só podemos dá-las durante o ofertório, confiá-las aos padres que nada necessitam para si, que moram nos fundos da sacristia em despojadas celas, nas quais repousam seus alquebrados ossos sobre duros colchões de pedra.
15 março 2007
Democracia e Corrupção
Aqueles que já assistiram ao filme Matrix talvez se lembrem da fala de Cypher quando traía os seus companheiros, revelando que escolhera esquecer a Verdade. Ele preferia uma vida feliz no interior da Matrix. Hoje, me dei conta que a Verdade tem um preço muito alto, é um remédio amargo. Quando você ouve boatos de corrupção, jogadas, favorecimentos, venda de cargos e coisas do tipo, sente-se numa areia movediça. Dá-se conta de que não há respeito pelo trabalho e muito menos pelos seus resultados. Não seria melhor ignorar essas coisas, levar a vidinha e deixar as armações desses caras para lá.?
Uma colega minha teve uma reação histérica ao boato de que cargos estavam sendo vendidos - coisa de petista histórica em crise. Disse que este país não está preparado para a democracia, que precisava mesmo era de um Getúlio Vargas para dar ordem ao caos e que a lei de Gerson deveria ser incluída na Constituição por ser uma tradição do nosso povo. Na opinião dela, existe apenas aparência de democracia, afinal pessoas que nunca haviam pleiteado votos estavam decidindo o futuro do país apenas por ocuparem altos postos na hierarquia do partido ou mesmo na hierarquia informal.
Na minha opinião, apesar do Executivo ter cooptado o Congresso com cargos, favores e só Deus sabe o quê, ainda vivemos em uma democracia. Pessoas como eu não são proibidas de criticar o governo; apesar do Presidente da República ter nomeado a maioria do STF, não pode amanhã arrancar os caras de lá. Mesmo que o Presidente da Câmara seja da Tendência do presidente no partido e não permita CPIs contra o governo, ainda assim estamos em uma democracia. E, como eu disse à minha amiga, o poder sempre será uma Guerra.
A vantagem da democracia é que existe um espaço - o Congresso Nacional - onde os interesses de grupos da sociedade são legitimamente representados e onde se procura estabelecer coalizões e alianças de forma a manter a governabilidade e a disputa pelo poder dentro dos limites das instituições. Na ausência da democracia, esta disputa simplesmente se daria em outro lugar. Talvez na cozinha ou na cama do ditador.
Na democracia, a disputa de interesses no Congresso é legitima e as eleições são a forma de disputar civilizadamente (na medida do possível) o poder. De preferência, sem matar ninguém. O poder é maravilhoso. Seja quem for que chegar lá - eu incluso - procurará ficar por lá até morrer. A democracia busca limitar a permanência e estabelecer uma mínima reciclagem para evitar que sejamos dirigidos por uma gerontocracia pós-stalinista.
Não percamos a fé na democracia pois os excessos que se observam no momento são apenas uma confirmação da necessidade de se persistir neste caminho. Corrupção sempre haverá em uma forma ou outra, mesmo que se acabe com a venda de cargos. O que podemos aspirar é a um nível de corrupção dos países desenvolvidos, onde uma empresa (tarefa) demanda 30% de corrupção e 70% de profissionalismo e competência. “Por aca” ainda contamos com 70% de corrupção, amizades e favores, e 30% de profissionalismo e competência. Mas com o tempo e com investimento na formação das novas elites esta proporção pode melhorar.
Uma colega minha teve uma reação histérica ao boato de que cargos estavam sendo vendidos - coisa de petista histórica em crise. Disse que este país não está preparado para a democracia, que precisava mesmo era de um Getúlio Vargas para dar ordem ao caos e que a lei de Gerson deveria ser incluída na Constituição por ser uma tradição do nosso povo. Na opinião dela, existe apenas aparência de democracia, afinal pessoas que nunca haviam pleiteado votos estavam decidindo o futuro do país apenas por ocuparem altos postos na hierarquia do partido ou mesmo na hierarquia informal.
Na minha opinião, apesar do Executivo ter cooptado o Congresso com cargos, favores e só Deus sabe o quê, ainda vivemos em uma democracia. Pessoas como eu não são proibidas de criticar o governo; apesar do Presidente da República ter nomeado a maioria do STF, não pode amanhã arrancar os caras de lá. Mesmo que o Presidente da Câmara seja da Tendência do presidente no partido e não permita CPIs contra o governo, ainda assim estamos em uma democracia. E, como eu disse à minha amiga, o poder sempre será uma Guerra.
A vantagem da democracia é que existe um espaço - o Congresso Nacional - onde os interesses de grupos da sociedade são legitimamente representados e onde se procura estabelecer coalizões e alianças de forma a manter a governabilidade e a disputa pelo poder dentro dos limites das instituições. Na ausência da democracia, esta disputa simplesmente se daria em outro lugar. Talvez na cozinha ou na cama do ditador.
Na democracia, a disputa de interesses no Congresso é legitima e as eleições são a forma de disputar civilizadamente (na medida do possível) o poder. De preferência, sem matar ninguém. O poder é maravilhoso. Seja quem for que chegar lá - eu incluso - procurará ficar por lá até morrer. A democracia busca limitar a permanência e estabelecer uma mínima reciclagem para evitar que sejamos dirigidos por uma gerontocracia pós-stalinista.
Não percamos a fé na democracia pois os excessos que se observam no momento são apenas uma confirmação da necessidade de se persistir neste caminho. Corrupção sempre haverá em uma forma ou outra, mesmo que se acabe com a venda de cargos. O que podemos aspirar é a um nível de corrupção dos países desenvolvidos, onde uma empresa (tarefa) demanda 30% de corrupção e 70% de profissionalismo e competência. “Por aca” ainda contamos com 70% de corrupção, amizades e favores, e 30% de profissionalismo e competência. Mas com o tempo e com investimento na formação das novas elites esta proporção pode melhorar.
08 março 2007
Sou do Contra
Quando FHC estava no poder eu o criticava em bases diárias. Eu dizia que aquele negócio de reeleição era um ataque à democracia, que o aumento dos juros e da exposição cambial para combater a inflação era uma estratégia caríssima e que a ALCA era a entrega do Brasil aos americanos. Achava um absurdo a crítica e a depreciação pública dos servidores, mas a gota d'água foi o ataque da Polícia Federal contra a Roseana, além da "paulistada" ter impedido o Tasso de ser o candidato à presidência pelo PSDB.
Com o Lula no poder não tem sido diferente. Eu acho estes esquemas do Mensalão e do Bolsa Família montados pelo José Dirceu infames para a democracia, um absurdo o Lula desperdiçar a chance histórica de crescimento que estamos tendo, patinando na incompetência dos companheiros, e a política externa do PT nos mostra como fracos negociadores e nos enfraquece a ponto do Paraguai querer nos extorquir também. Acho um absurdo dizerem que tudo é culpa das elites e o papo de "nunca antes neste país". E convenhamos, nem ele mais é pobre e tampouco pai dos pobres - pelo menos um dos seus filhos já é milionário.
Já estou cansado do Lula. Quem será o próximo presidente que irei criticar? Ou talvez já seja hora de mudar de atitude? Tem um amigo meu, aliás, bem mais bem sucedido que eu, que diz que sou muito crítico. Ele é muito mais esperto que eu. Quando o FHC estava no poder ele era FHC e agora ele é Lula. Outro dia, ele quase virou gerente de uma divisão... Segundo ele, só perdeu o posto porque um outro gerente conheceu biblicamente a gerente que arrematou o cargo, e liderou a campanha vencedora. Claro que ficou aborrecido, mas vivia de gentilezas com a mulher e quando o referido gerente chamou-o para tomar um vinho e avaliar se a mágoa lhe teria criado mais um inimigo, ele foi, feliz e animado. Resultado: está pronto para a próxima oportunidade que pintar.
No governo anterior, vimos pessoas ligadas ao PSDB enriquecer e prosperar. Desta vez, é a chance da turma do PT. Eu diria que a melhor estratégia é sempre ficar na turma que está no poder. E é melhor para o país assim. É até patriótico. Afinal de contas, se vocês pensarem bem, de que é feito um partido? Eu diria que de um terço de idealistas que enxergam o mundo cor-de-rosa, um terço de invejosos e críticos como eu e um terço de administradores de interesses e gerentes de egos.
Quando um partido está na oposição, a proa é liderada pelos invejosos e idealistas como a Heloísa Helena, mas quando ele chega ao poder os homens que estavam no porão, como o José Dirceu, sobem ao convés para comandar e são confrontados pelos idealistas alienados, agora críticos do próprio partido. Ele precisa mesmo é de adesistas, daqueles que sempre estarão por cima - e é aí que entra o meu amigo. Ele e outros como ele ajudarão o partido a manusear o timão, porque os que assumiram o navio são marinheiros de primeira viagem.
Este é um mundo complexo onde às vezes mais vale um corrupto competente do que um santo incapaz de governar. Neste aspecto, até que não estamos mal de presidentes, pois os dois últimos são daqueles que preferem administrar interesses e gerenciar egos. Podia ser pior se o atual presidente tivesse uma inveja mortal das elites ou se fosse um revolucionário idealista e iconoclasta que preferisse nos fazer regredir às cavernas para começar tudo de novo. É, podia ser bem pior.
Com o Lula no poder não tem sido diferente. Eu acho estes esquemas do Mensalão e do Bolsa Família montados pelo José Dirceu infames para a democracia, um absurdo o Lula desperdiçar a chance histórica de crescimento que estamos tendo, patinando na incompetência dos companheiros, e a política externa do PT nos mostra como fracos negociadores e nos enfraquece a ponto do Paraguai querer nos extorquir também. Acho um absurdo dizerem que tudo é culpa das elites e o papo de "nunca antes neste país". E convenhamos, nem ele mais é pobre e tampouco pai dos pobres - pelo menos um dos seus filhos já é milionário.
Já estou cansado do Lula. Quem será o próximo presidente que irei criticar? Ou talvez já seja hora de mudar de atitude? Tem um amigo meu, aliás, bem mais bem sucedido que eu, que diz que sou muito crítico. Ele é muito mais esperto que eu. Quando o FHC estava no poder ele era FHC e agora ele é Lula. Outro dia, ele quase virou gerente de uma divisão... Segundo ele, só perdeu o posto porque um outro gerente conheceu biblicamente a gerente que arrematou o cargo, e liderou a campanha vencedora. Claro que ficou aborrecido, mas vivia de gentilezas com a mulher e quando o referido gerente chamou-o para tomar um vinho e avaliar se a mágoa lhe teria criado mais um inimigo, ele foi, feliz e animado. Resultado: está pronto para a próxima oportunidade que pintar.
No governo anterior, vimos pessoas ligadas ao PSDB enriquecer e prosperar. Desta vez, é a chance da turma do PT. Eu diria que a melhor estratégia é sempre ficar na turma que está no poder. E é melhor para o país assim. É até patriótico. Afinal de contas, se vocês pensarem bem, de que é feito um partido? Eu diria que de um terço de idealistas que enxergam o mundo cor-de-rosa, um terço de invejosos e críticos como eu e um terço de administradores de interesses e gerentes de egos.
Quando um partido está na oposição, a proa é liderada pelos invejosos e idealistas como a Heloísa Helena, mas quando ele chega ao poder os homens que estavam no porão, como o José Dirceu, sobem ao convés para comandar e são confrontados pelos idealistas alienados, agora críticos do próprio partido. Ele precisa mesmo é de adesistas, daqueles que sempre estarão por cima - e é aí que entra o meu amigo. Ele e outros como ele ajudarão o partido a manusear o timão, porque os que assumiram o navio são marinheiros de primeira viagem.
Este é um mundo complexo onde às vezes mais vale um corrupto competente do que um santo incapaz de governar. Neste aspecto, até que não estamos mal de presidentes, pois os dois últimos são daqueles que preferem administrar interesses e gerenciar egos. Podia ser pior se o atual presidente tivesse uma inveja mortal das elites ou se fosse um revolucionário idealista e iconoclasta que preferisse nos fazer regredir às cavernas para começar tudo de novo. É, podia ser bem pior.
05 março 2007
Os frutos das Revoluções
Quando criança eu tinha uma professora de história entusiasta da Revolução Francesa. Era uma jovem socialista casada com um gerente de banco. Gostava muito da parte em que o povo tomava a Bastilha e da parte em que a Rainha era guilhotinada. Também falava com entusiasmo do assassinato de Marat pela sua amante e do fim de Robespierre. Devo dizer que na ocasião fiquei bastante impressionado pela cena de Marat se esvaindo em sua banheira.
Hoje entendo que a Revolução Francesa juntamente com a lógica hegeliana foram as bases para o pensamento político de Marx. Acredito que essa coisa de tese, antítese, síntese, conflito de classes e Revolução inspiraram o velho Karl sobre o futuro da humanidade. Seus seguidores viam nas crises oportunidades para que as profecias do grande pensador se concretizassem. As Revoluções passaram a ser admiradas e desejadas. Os adolescentes almejavam-na para romper com a autoridade e não se submeter ao mundo que desafiavam.
Creio eu que a primeira Revolução da história documentada tenha ocorrido alguns milhares de anos antes, liderada por Akhenaton. No reinado de seu pai, Amenhotep III, o Egito estendeu sua influência a todo o Oriente Médio mantendo sua liderança hegemônica no primeiro sistema de relações internacionais de que se tem notícia. Usava-se então o ouro da Núbia para manter mercenários que garantiam a superioridade militar egípcia. No harém do faraó havia princesas de todos os reinos vassalos do norte, a paz reinava diante do temor dos egípcios e havia prosperidade. O único porém era o faraó dividir seu poder com o clero politeísta.
Akhenaton e seus conselheiros provavelmente acharam que se adotassem o monoteísmo com o faraó como sumo-sacerdote de um único Deus poderiam concentrar mais poder no soberano. Entretanto, esta jogada política resultou no fim da 18ª Dinastia, sendo seu filho Tutankamon assassinado antes da maioridade. Sua tumba foi profanada e seus seguidores forçados a se esconder. O Egito sofreu enorme retrocesso, enfrentou várias guerras civis, invasões, e a decadência acelerou-se.
Certa vez, Deng Xiao Ping, perguntado sobre a Revolução Francesa, teria dito que ainda era cedo para se ter uma opinião definitiva sobre aqueles eventos. Curiosamente, o grande beneficiário da Revolução Francesa foi o Imperador Napoleão, que com o seu exército de cidadãos quase conquistou toda a Europa espalhando os valores revolucionários, como a Constituição.
Nem Lênin nem Trotsky sobreviveram à Revolução Russa, quem sobreviveu foi o “czar” soviético Stalin, que mandou milhões para os campos de concentração da Sibéria e que transformou o governo provisório dos sovietes em um pesadelo de centralização, burocracia e perseguições. Apesar disto tudo, ainda vemos pessoas celebrarem ou admirarem Revoluções sem entender o que estão celebrando.
Celebram eventos que começam com a falta de esperança do povo transformada em histeria e liderada pelo oportunista da ocasião que lhes promete tudo. Aqueles que duvidam se tornam traidores e são assassinados, presos ou exilados. Os que sobrevivem ao turbilhão vivem apenas para ver os ideais renegados e o libertador se tornar um ditador.
Estou exagerando? Olhem para o Fidel e seu povo muito bem educado, orgulhoso e maltrapilho. Olhem para o Chávez e sua truculenta Revolução Bolivariana. São homens que mesmo cheios de boas intenções são ditadores e a negação viva daquilo que defendem. Esta é a grande ironia destas Revoluções, derrubam um Rei e o substituem por um Imperador. E no processo, queimam, destroem, matam e a sociedade se empobrece e civilizações decaem. E, por fim, a geração seguinte tem o trabalho de reinventar a roda, quando muito.
Hoje entendo que a Revolução Francesa juntamente com a lógica hegeliana foram as bases para o pensamento político de Marx. Acredito que essa coisa de tese, antítese, síntese, conflito de classes e Revolução inspiraram o velho Karl sobre o futuro da humanidade. Seus seguidores viam nas crises oportunidades para que as profecias do grande pensador se concretizassem. As Revoluções passaram a ser admiradas e desejadas. Os adolescentes almejavam-na para romper com a autoridade e não se submeter ao mundo que desafiavam.
Creio eu que a primeira Revolução da história documentada tenha ocorrido alguns milhares de anos antes, liderada por Akhenaton. No reinado de seu pai, Amenhotep III, o Egito estendeu sua influência a todo o Oriente Médio mantendo sua liderança hegemônica no primeiro sistema de relações internacionais de que se tem notícia. Usava-se então o ouro da Núbia para manter mercenários que garantiam a superioridade militar egípcia. No harém do faraó havia princesas de todos os reinos vassalos do norte, a paz reinava diante do temor dos egípcios e havia prosperidade. O único porém era o faraó dividir seu poder com o clero politeísta.
Akhenaton e seus conselheiros provavelmente acharam que se adotassem o monoteísmo com o faraó como sumo-sacerdote de um único Deus poderiam concentrar mais poder no soberano. Entretanto, esta jogada política resultou no fim da 18ª Dinastia, sendo seu filho Tutankamon assassinado antes da maioridade. Sua tumba foi profanada e seus seguidores forçados a se esconder. O Egito sofreu enorme retrocesso, enfrentou várias guerras civis, invasões, e a decadência acelerou-se.
Certa vez, Deng Xiao Ping, perguntado sobre a Revolução Francesa, teria dito que ainda era cedo para se ter uma opinião definitiva sobre aqueles eventos. Curiosamente, o grande beneficiário da Revolução Francesa foi o Imperador Napoleão, que com o seu exército de cidadãos quase conquistou toda a Europa espalhando os valores revolucionários, como a Constituição.
Nem Lênin nem Trotsky sobreviveram à Revolução Russa, quem sobreviveu foi o “czar” soviético Stalin, que mandou milhões para os campos de concentração da Sibéria e que transformou o governo provisório dos sovietes em um pesadelo de centralização, burocracia e perseguições. Apesar disto tudo, ainda vemos pessoas celebrarem ou admirarem Revoluções sem entender o que estão celebrando.
Celebram eventos que começam com a falta de esperança do povo transformada em histeria e liderada pelo oportunista da ocasião que lhes promete tudo. Aqueles que duvidam se tornam traidores e são assassinados, presos ou exilados. Os que sobrevivem ao turbilhão vivem apenas para ver os ideais renegados e o libertador se tornar um ditador.
Estou exagerando? Olhem para o Fidel e seu povo muito bem educado, orgulhoso e maltrapilho. Olhem para o Chávez e sua truculenta Revolução Bolivariana. São homens que mesmo cheios de boas intenções são ditadores e a negação viva daquilo que defendem. Esta é a grande ironia destas Revoluções, derrubam um Rei e o substituem por um Imperador. E no processo, queimam, destroem, matam e a sociedade se empobrece e civilizações decaem. E, por fim, a geração seguinte tem o trabalho de reinventar a roda, quando muito.
28 fevereiro 2007
Mahayana ou Hinayana?
No início do budismo havia uma discussão entre os primeiros discípulos se a prática deveria ser restrita àqueles capazes de trilhar o caminho do Buda ou se deveria se estender o ensinamento à população em geral. Este debate, que encerra muito mais nuances do que isto, é conhecido como o debate entre os defendores do pequeno veículo "Hinayana" e os defensores do grande veículo "Mahayana". O universal deste debate é a velha questão da elite versus povo.
No cristianismo este debate esteve presente nos primeiros concílios, e um dos seus momentos mais conhecidos foi a disputa se o cristianismo deveria ser estendido aos gentios ou deveria ser ensinado apenas aos judeus. No Concílio de Nicéia, alguns autores consideram que este foi um dos pontos fundamentais que marcaram a escolha dos Evangelhos sinóticos e do Evangelho de João como canônicos, marcando a vitória do Mahayana também no cristianismo.
Provavelmente, o cristianismo deve a sua sobrevivência à escolha do caminho Mahayana, a despeito das possíveis perdas que possam ter havido na mensagem original ou em termos do cristianismo "esotérico". Afinal, a noção de "irmãos em Cristo" e a caridade foram o fermento do cristianismo em seus primeiros dias de Império Romano.
A sociedade romana tem alguns traços em comum com a sociedade capitalista americana. Ambas são potências hegemônicas que idolatram o sucesso, o mais forte, o mais capaz e outros valores viris. O problema é que existe uma multidão de fracos e desamparados que é incapaz de seguir tal caminho. A esperança é tudo o que lhe resta. Hoje, ela repousa sobre o crescimento econômico. Como já disse Hu Jintao, secretário-geral do PCC Chinês, o que dá ao partido a legitimidade é o crescimento econômico chinês.
Assim como o capitalismo é filho da doutrina cristã do livre arbítrio e da salvação individual, o socialismo é filho da noção de irmãos em Cristo. A nova irmandade seria algo como irmãos trabalhadores. Acredito que venha daí a superioridade petista em termos de organização, ou seja, de uma experiência histórica amplamente favorável.
Recentemente, vi na capa do Correio Braziliense a manchete "República dos Sindicalistas", mostrando a força dos parlamentares ligados aos sindicatos dos trabalhadores. Enquanto isto, temos o PSDB, um partido de elite cujos quadros diminuem todos os dias, sem bases e com cada vez menos chances nas próximas eleições.
Concluindo; desde religiões até partidos políticos, não dá para se viver sem o povo, mesmo que se tenha que oferecer uma versão paternalista de religião e uma versão populista de socialismo. Mesmo o capitalismo, sem a esperança do crescimento - que é uma ilusão para a maioria - também não consegue subsistir.
No cristianismo este debate esteve presente nos primeiros concílios, e um dos seus momentos mais conhecidos foi a disputa se o cristianismo deveria ser estendido aos gentios ou deveria ser ensinado apenas aos judeus. No Concílio de Nicéia, alguns autores consideram que este foi um dos pontos fundamentais que marcaram a escolha dos Evangelhos sinóticos e do Evangelho de João como canônicos, marcando a vitória do Mahayana também no cristianismo.
Provavelmente, o cristianismo deve a sua sobrevivência à escolha do caminho Mahayana, a despeito das possíveis perdas que possam ter havido na mensagem original ou em termos do cristianismo "esotérico". Afinal, a noção de "irmãos em Cristo" e a caridade foram o fermento do cristianismo em seus primeiros dias de Império Romano.
A sociedade romana tem alguns traços em comum com a sociedade capitalista americana. Ambas são potências hegemônicas que idolatram o sucesso, o mais forte, o mais capaz e outros valores viris. O problema é que existe uma multidão de fracos e desamparados que é incapaz de seguir tal caminho. A esperança é tudo o que lhe resta. Hoje, ela repousa sobre o crescimento econômico. Como já disse Hu Jintao, secretário-geral do PCC Chinês, o que dá ao partido a legitimidade é o crescimento econômico chinês.
Assim como o capitalismo é filho da doutrina cristã do livre arbítrio e da salvação individual, o socialismo é filho da noção de irmãos em Cristo. A nova irmandade seria algo como irmãos trabalhadores. Acredito que venha daí a superioridade petista em termos de organização, ou seja, de uma experiência histórica amplamente favorável.
Recentemente, vi na capa do Correio Braziliense a manchete "República dos Sindicalistas", mostrando a força dos parlamentares ligados aos sindicatos dos trabalhadores. Enquanto isto, temos o PSDB, um partido de elite cujos quadros diminuem todos os dias, sem bases e com cada vez menos chances nas próximas eleições.
Concluindo; desde religiões até partidos políticos, não dá para se viver sem o povo, mesmo que se tenha que oferecer uma versão paternalista de religião e uma versão populista de socialismo. Mesmo o capitalismo, sem a esperança do crescimento - que é uma ilusão para a maioria - também não consegue subsistir.
23 fevereiro 2007
Não Creio
O presente texto é um tanto longo, então apelo à vossa paciência para que o leiais inteiro. Pensei em publicá-lo em cinco posts mas mudei de idéia para não dispersar o conteúdo. Meu intento é mostrar àqueles que usam o discurso "os crimes dos humanos não invalidam o amor de Cristo" que existem discussões totalmente distintas neste objeto. E também expor meu pensamento - não apenas meu - a respeito dos tópicos abaixo:
I - Deuses
II - Deus Bíblico
III - Sobrenatural
IV - Moral e Cristianismo
V - Religiões
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Parte I - Deuses (índice)
Para mim, é impossível que eu não exista. Meus semelhantes e as coisas em meu derredor até poderiam ser produção de meu cérebro, mas como não tenho domínio mental sobre eles, nem se me esforçar por anos a fio, prefiro acreditar que existem independentemente de mim. É impossível que Deus ou deuses não existam? Claro que não. É impossível que existam? Não vejo motivos para crer, e a maior parte dos crentes praticamente concorda comigo; cristãos e muçulmanos são ateus em relação às divindades dos outros, incluindo profetas, santos e outros semideuses.
Acho que os deuses nasceram de nosso medo da morte após tomarmos consciência dela, de nossa ansiedade em relação ao porvir, da necessidade de explicar a origem das coisas, de uma causa primordial (o universo ter sempre existido é menos absurdo que Deus ter sempre existido?), da necessidade de se ter um sentido transcendental para a vida, de haver uma justiça post mortem para os criminosos inimputáveis aqui da Terra - os poderosos, os anônimos - e alguns deuses funcionaram como espantalhos onipresentes que vigiavam os atos do homem e o mantinham longe das plantações de frutos proibidos. Acho que esta crença foi fundamental em determinado momento e ainda pode ser benéfica, principalmente para os irreligiosos como o Onildo (visite seu blog), já que não estarão sujeitos aos representantes divinos com poderes temporais e suas verdades absolutas reveladas, perniciosas de per se, independentemente de seu teor.
"A ciência não pode provar que Deus não existe", dizem. É verdade. Mas o ônus da prova, se raciocinarmos nestes termos infantis, cabe ao fulano que afirmou que existem deuses e não àquele que não acreditou no fulano. O mundo parece funcionar muito bem sem eles. Não adianta classificar como divino tudo o que não compreendemos (falácia divina), como bem alertou Epicuro. Anhangüera colocar fogo na aguardente, idêntica à água, foi um ato mágico para os índios Goiá, mas para nós do século XXI é o esperado quando associamos comburente, combustível e ignição.
A contemplação da natureza, dos mistérios do universo, a exaltação de valores não materiais, o altruísmo, o amor, a fantasia saudável, o envolvimento com a arte, a meditação, a filosofia, tudo isto pode dar mais "transcendência" à vida do descrente do que o materialismo do crente que só trabalha, só fala de dinheiro, de notícias do JN - e que não é nem um pouco raro, convenhamos. Não podemos confundir descrença com materialismo ou descrença com vida destituída de sentido.
Claro que há também a questão utilitarista. Na revista X aparece que a fé e os rituais de fé fazem bem ao indivíduo. Eu gosto de ver como alguns analisam dados estatísticos. Chegam a conclusões como "o europeu que se banha na lama das Ilhas Fiji vive mais ", e esquecem que só o europeu desestressado e rico é capaz de viajar até lá para testá-lo. Do meu ponto de vista, quando o homem tinha pouco mais do que fé para recuperar a saúde, vivia em média metade do que hoje. Pelo menos a penicilina, o antibiótico, a assepsia, os exercícios físicos, a vida sem stress, a educação, o amor e os avanços cirúrgicos estão ao alcance do descrente, para que ele também viva mais. Mas minha fé nos benefícios tangíveis da fé é tanta que criei uma oração para meu cérebro: "Ó suprema massa cinzenta que regeis meu ser, guardai-me de ser mesquinho com o próximo, sede minha inteligência e curai-me de meus males enviando vossos anticorpos-da-guarda, com a intercessão de são bulbo, são cerebelo e de santo hipotálamo, o supremo organizador do caos cerebral. Que a vossa serotonina sagrada conduza meu coração, meu sono e meu apetite, e dai-me a endorfina de cada dia, amém".
Parte II - Deus Bíblico(índice)
Porque está na Bíblia" não é satisfatório para mim, "porque eu sinto e o experimento" não é satisfatório. As vestais deviam "sentir" a deusa Vesta durante os rituais. "Porque ele faz milagres" não é satisfatório - talvez quando a humanidade se unir em oração e conseguir de Jeová que regenere um membro amputado, a falangeta do dedo mínimo que seja. Mas Deus não cura amputados, não é mesmo?
Os escritos canônicos bíblicos não batem com os apócrifos. E o cânon - ou a relação dos livros bíblicos - foi estabelecido por concílios. Tudo por decisão humana. Nenhum livro bíblico diz quais livros devem ser parte do cânon, e se dissessem seria apenas, no fim das contas, a Bíblia dizendo que a Bíblia está correta. E esses concílios não são inspirados por Deus, para mim, mas por interesses mundanos. Se não fosse assim, o de Nicéia, de Trento e do Vaticano I ainda seriam plenamente válidos, mas contêm um punhado de porcaria anacrônica.
Não vejo sentido em Deus criar homens e mandá-los para o inferno porque não creram nele, ou em mantê-los longe sem puni-los quando é a sua fonte única de prazer, não vejo sentido em pecado original, e se o pecado original é tão somente um impulso para o mal inerente ao homem, por que Deus nos criou com ele para em seguida tirá-lo de nós após um ritual de batismo, e por que foi imperativo que viesse ao mundo como homem para isso? Estamos falando de um criador onipotente ou de um oniburocrata? Não vejo sentido em Deus não querer vir ao mundo a partir de uma cópula porque o sexo de duas criaturas é imundo demais para ele, em Maria ter ascendido aos céus simplesmente porque o Papa Pio IX quis que todo Papa fosse infalível quando fala ex-cathedra - sei, evangélicos, vosso Deus não falou isto.
Mas gosto da Bíblia. Também gosto de suas historinhas legais e na maior parte das vezes educativas. Leio a fábula de Sansão e Dalila, ouço a fantástica ópera homônima de Saint-Säens, assisto ao filme com o canastrão Victor Mature e a bela Hedy Lamarr, e me emociono. A ópera Nabucco, as comoventes Paixões de Bach. Comovo-me também com Romeu e Julieta, com a mitologia grega, mas se visse uma comunidade vivendo de acordo com os ensinamentos de Dionísio, julgando-o um deus de fato, eu falaria o mesmo que falo da Bíblia, esta bela peça de mitologia (e História): boa como literatura, apesar de inferior a Sófocles, Shakespeare e uma miríade de outros, redundante nos bons ensinamentos, pródiga em maus exemplos. A propósito, Eliseu amaldiçoar as crianças que o chamaram de careca e Deus comprar sua indignação enviando ursos para matá-las é simbólico, dureza de corações, mistério bíblico, mentira ou crueldade divina? Se a Bíblia é tão dependente da interpretação e esta varia radicalmente com o tempo, o céle(b)re conjunto de livros não é um canal de comunicação aceitável ente nós e o suposto criador. Melhor seria se suas páginas estivessem em branco. Voltando: Gosto também da historinha do vociferante João Batista, talvez pela ópera de Richard Strauss, pelo drama de Fagundes Varela e pela peça de Oscar Wilde. E também porque estive nas escavações do Templo de Herodes em Maqueronte, na Jordânia. Os túmulos do Egito Antigo emocionam mais até mesmo que o Santo Sepulcro em Jerusalém (certamente falso), contudo, não creio que aqueles homens com cabeça de cachorro sejam deuses.
Parte III - Sobrenatural (índice)
É impossível que inventem uma máquina que registre almas deixando os corpos e que possibilite que conversemos com elas? Acho que até seria possível. Teríamos então, caso fossem detectadas nas mesmas circunstâncias, apenas uma nova dimensão para o mundo natural. Para muitos crentes, contudo, o sobrenatural estaria comprovado cientificamente. Mas acho muito difícil tal máquina ser inventada, pois todas as descobertas ligadas ao funcionamento do cérebro indicam que tudo o que atribuímos à alma é, na verdade, química, eletricidade. Tanto que, dependendo dos hormônios, da química do cérebro, de alguma área afetada por algum tumor ou mesmo extirpada, um sujeito pode variar do manso São Francisco ao sádico Calígula. Para que alma então? Para mim, o que é real é a sensação de alma e de imortalidade que nosso infinito ego produz.
Todos os animais captam e enviam informações externas por órgãos externos, e elas passam a ser interpretadas pelo cérebro. É o mesmo que acontece em um computador. O som entra pelos microfones, o texto pelo teclado, a imagem pela webcam, o som sai pelas caixas de som, a imagem pelo monitor. Gritar para um processador convencional uma tarefa seria estúpido. Do mesmo modo, acreditar que o cérebro possua capacidade para enviar ou receber informações sem o auxílio dos órgãos adaptados para estas tarefas é insano, mas amplamente aceito pelos que crêem em paranormais. Falando nestes embusteiros, não entendo como apreciam tanto a pecúnia mas não descobrem um jeito de convencer James Randi a lhes dar US$ 1 Milhão demonstrando-lhe seus poderes. Na hora "H" sempre apelam para o "platéia hostil" para desistirem das demonstrações.
Eu não vejo evidências suficientes da existência de almas penadas, vidência, domínio sobre os elementos (Cacique Cobra Coral), e outras coisas. Então parto do pressuposto que não são verdade. Outras pessoas partem do pressuposto que podem ser verdade. Cada um com a sua postura. A minha é de acreditar quando uma coisa faz sentido e deixar de acreditar quando perde o sentido. Em meio aos bilhões que aceitam o "sobrenatural" sem pestanejar e exigir provas, que acreditam piamente no velhinho que disse que viu um fantasma (afinal, velhos e crianças não se enganam e tampouco mentem), acho que pessoas que duvidam e explicam as suas razões não podem ser maléficas para a sociedade. Já do lado dos crédulos pode estar também o maria-vai-com-as-outras, que é, amiúde, inofensivo. Mas é fácil de ser manipulado por espertalhões, por governantes inescrupulosos. Como escreveu a Clarissa, a grandeza de uma nação está diretamente ligada ao espírito crítico da população, em relação à política, à religião, a tudo.
Parte IV - Moral e Cristianismo(índice)
"Se as pessoas abrirem mão de Deus, tudo será permitido, até matar e roubar", é o que os crentes mais ignorantes dizem. Pagãos como Aristóteles e Marco Aurélio - ainda que seus sistemas não nos sirvam mais - produziram tratados éticos muito avançados, de sofisticação raramente igualada por moralistas cristãos. E seus deuses eram meras comparações de virtude.
"Mas tinham a centelha divina", dizem os leitores do catecismo. Então mudemos de exemplo. O comportamento social dos nossos primos mais próximos não é caótico. Em comunidades de chimpanzés, na África, vemos cordialidade, cooperação, afeto, hierarquia, lideranças desafiadas, assassinos expulsos pelo bando, usurpadores, macaquinhos honrando os pais, os pais dando a vida pela prole, um membro alertando os demais para perigos iminentes. Alguns subgrupos sequer recorrem à violência para resolverem seus problemas, como é o caso dos Chimpanzés Bonobos. Mas... Sem terem alma? Claro, isso é comum a todos animais sociais: Cooperação. Dentre os animais sociais, parece que apenas bandos errantes de jumentos do Sinai precisam receber do próprio criador do universo um “não matarás" sulcado na pedra ... Vemos comportamento altruísta em babuínos. Muitas vezes, em bandos atacados por leopardos, machos foram observados retardando-se para enfrentar a fera, em uma luta quase suicida. Enquanto o macho, normalmente mais velho, atrasa a perseguição do leopardo sacrificando-se, as fêmeas e os mais jovens conseguem escapar e “seguir seu destino”. O heroísmo que nós vemos, de tempos em tempos, em nossos semelhantes é muito anterior às nossas enfeitadas religiões e seus deuses.
Do outro lado, os ateus Warren Buffet e Bill Gates, os demônios capitalistas, são os maiores filantropos da história. Não porque são ateus mas porque são seres humanos, como o Heitor escreveu no post Populismo Étnico do PT. Aliás, 10% dos americanos são ateus, mas apenas 0,2% da população carcerária de seu país é atéia. Isto quer dizer que os ateus são os bonzinhos da história? Talvez segundo a análise da estatística feita pela revista X, mas para mim estes números indicam apenas que os ateus estão em melhores condições financeiras, são menos ignorantes e menos dependentes das orações para resolver seus problemas. É aquela velha questão: Nossa Senhora da Saúde só existe onde há doença. A santa se alimenta dela. Invente um jeito de curar todas doenças e os santos perecerão pela falta delas.
Entre os de nossa espécie, emoções são contagiosas, e são raros os que podem ser felizes em uma sociedade triste. É de nossa natureza sermos felizes em meio à felicidade e tristes em meio à infelicidade. É de nossa natureza, "graças a Deus", almejar a felicidade para nossos semelhantes ao mesmo tempo em que a desejamos para nós próprios. Ela é maior quando compartilhada.
Se Jesus representou um avanço moral, não quer dizer que não haja moral fora do teísmo ou fora do cristianismo. Os Franceses não inventaram a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Além disso, o inferno que existe na doutrina de Cristo põe o cristianismo em um patamar inferior ao de algumas outras filosofias. O "amar ao próximo como eu vos amei" é inútil, já que Jesus, se fosse mesmo Deus, teria nos amado infinitamente, o que tornaria o mandamento impossível de ser seguido, portanto inútil para nós mortais. Quanto a libertar escravos, todos serem iguais, amar o inimigo, fazer ao próximo o que gostaríamos que fizessem por nós, tudo isso é maravilhoso, mas não obrigatoriamente divino. E pode ser encontrado em outras culturas mais antigas. Quanto à singularidade de Jesus, Mitra, um deus persa adorado também em Roma e que sumiu após o advento do cristianismo, também recebeu ouro, incenso e mirra por ocasião de seu nascimento, venceu o mal, ressuscitou, criou um ritual que envolvia pão e vinho (estou questionando a singularidade de Jesus e não afirmando que o cristianismo veio do mitraísmo, como fazem alguns autores sensacionalistas), e vemos a virgem com um menino representada em outras mitologias, na figura de Isis. Prometeu era representado em uma cruz, e foi um deus que sofreu horrores pelo homem. Por fim, como escrevi acima, acho este método de Deus tirar o pecado original (tirou? não fiquei sabendo), ou o pecado inerente ao ser humano, virando homem algo muito mitológico. Não sei por que tanta gente ainda acredita nisso. Assim como a transubstanciação, que é tão absurda que nenhum católico crê nela de fato. O próprio Papa Leão X, o santo que construiu a Basília de São Pedro com dinheiro de venda de indulgências e que viu o protestantismo nascer, teria dito, segundo John Bale: "Quantum nobis prodeste haec fabula Christi..." E Santo Agostinho: "Não creria nos Evangelhos, se a isso não me visse obrigado pela autoridade da Igreja".
Parte V - Religiões(índice)
Na Internet tem de tudo. Certamente muito mais blogs e sites que promovem os nobres valores cristãos e que ensinam orações para pedinchar aos santos ou para agradecer os "privilégios" – muitas vezes para não perdê-los - do que sites criticando a Igreja Católica. É importante mostrar aos que não estão muito familiarizados com a história como ela se portou com os reis absolutistas, com as ditaduras fascistas, com a escravidão no Brasil, com os protestantes, sua postura atual em relação a preservativos, laicismo, liberdade religiosa, divórcio, etc.
Os crentes abraçaram uma igreja supostamente santa e criada pelo próprio Deus que quando acerta é divina e quando erra é humana. Para mim, quando acerta é humana e quando erra é humana. Por que haveria de ser diferente? Será que todos esses santos católicos se converteriam ao cristianismo se tivessem nascido na China? No máximo seriam sábios budistas, isso sim, defensores do bem, da ética, dos bons costumes, da moral. Religião é cultural, ao contrário da espiritualidade, que aparentemente é genética. E isto foi fácil de ser percebido no estudo de gêmeos univitelinos separados após o nascimento. O grau de espiritualidade é quase sempre semelhante, mas a religião varia de acordo com o meio cultural, com pouquíssimas exceções. Por isso vemos mais santos cristãos na Itália do que nos EUA e China. Para a maioria a religião é pouco mais do que um time de futebol ou uma escola de samba do coração.
Podem me dizer que a França é divina (no sentido literal). Eu lhes falarei de Napoleão e dos milhares guilhotinados durante o Terror, e ouvirei que só pego exemplos ruins, que os franceses são contra Bush e a invasão do Iraque, que nos legaram grandes filósofos, que belas construções como o Palácio de Versalhes mostram que realmente a França é divina. Boa parte dos católicos que conheço não quer saber se os maus ensinamentos do Alcorão são “simbólicos”, se a maioria dos muçulmanos é boa, se foram mais tolerantes do que os cristãos séculos atrás. Deliciam-se com livros que expõe sua misoginia, como se ela não tivesse sido combatida na Europa apesar do catolicismo. Acham graça quando vêem mulás ensinando em atrasadas madrassas sauditas que o mundo é plano, esquecendo-se que já queimaram cientistas por afirmarem o contrário. Há meio século domesticado, o catolicismo se considera a religião perfeita, e quem falar dos 1600 anos anteriores está agindo de má fé, está “pegando fatos pontuais alheios à sua essência”.
Jesus não amenizou as críticas aos fariseus com elogios por eles serem bons pais, por eles darem esmola, mesmo que arrogantemente, do mesmo modo não queremos saber, enquanto estamos julgando os crimes de uma pessoa, se dias antes ela beijou a esposa e os filhos ou se distribuía sopão aos sábados. O réu é julgado pelos seus crimes. E a punição, ao contrário do inferno bíblico, deve servir para prevenir que o crime se repita, para reeducar o criminoso, se for o caso, e como exemplo ao resto da sociedade. Então os religiosos (líderes) não devem mais se imiscuir em política, não devem mais interferir em questões de saúde pública, devem ter seu poder temporal extremamente reduzido, devem ser enjaulados, do padre ao Papa, quando cometem crimes, principalmente de intolerância e sexuais. Se dermos as condições e o poder que a Igreja Católica almeja recuperar, o passado se repetirá. Duvidam? Vejam como é hoje a quasi-teocracia nas Filipinas e a atuação da Igreja na África, onde o povo é desinformado e supersticioso como nenhum outro. Mais de 50% dos quenianos acreditam que o preservativo ajuda a espalhar a AIDS. Uma instituição tão gigantesca quanto a Igreja Católica passa quase a ter vida própria, e a lutar selvagemente para se perpetuar no poder, apesar dos homens que a integram serem, essencialmente, bons. O documentário "The Corporation" mostra isto muito bem (apesar dos inúmeros exageros).
Como escrevi anteriormente, é extremamente penoso para o católico ver os seus religiosos no banco dos réus quando sempre estiveram no posto de juízes. E não são poucos.
Minha intenção não é que as pessoas abandonem sua religião mas que questionem absolutamente todos os dogmas e que vigiem absolutamente todas as ações dos religiosos. O mundo só tem a melhorar. Poder temporal aliado a verdades absolutas nas mãos de representantes divinos NÃO FUNCIONA!
Precisamos de uma sociedade civil organizada, de opinião pública, de meios de comunicação livres, poderes separados, Estado laico, impostos bem aplicados, informação disponível a todos, religiões domesticadas, principalmente as três monoteístas (considerando o cristianismo e seus três deuses, deusa e semideuses como monoteísmo). Este é o único jeito, inclusive, para elas sobreviverem aos desmandos de alguma religião hegemônica. Pessoalmente, acho mais saudáveis religiões com poucos fiéis e pouco poder.
Enquanto não inventarem um "Index Blogorum Prohibitorum”, continuaremos a atirar pedras contra nossos monstruosos moínhos de vento. Aos católicos incomodados que desejem reforçar suas crenças eu recomendo o Catecismo Online.
II - Deus Bíblico
III - Sobrenatural
IV - Moral e Cristianismo
V - Religiões
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Parte I - Deuses (índice)
Para mim, é impossível que eu não exista. Meus semelhantes e as coisas em meu derredor até poderiam ser produção de meu cérebro, mas como não tenho domínio mental sobre eles, nem se me esforçar por anos a fio, prefiro acreditar que existem independentemente de mim. É impossível que Deus ou deuses não existam? Claro que não. É impossível que existam? Não vejo motivos para crer, e a maior parte dos crentes praticamente concorda comigo; cristãos e muçulmanos são ateus em relação às divindades dos outros, incluindo profetas, santos e outros semideuses.
Acho que os deuses nasceram de nosso medo da morte após tomarmos consciência dela, de nossa ansiedade em relação ao porvir, da necessidade de explicar a origem das coisas, de uma causa primordial (o universo ter sempre existido é menos absurdo que Deus ter sempre existido?), da necessidade de se ter um sentido transcendental para a vida, de haver uma justiça post mortem para os criminosos inimputáveis aqui da Terra - os poderosos, os anônimos - e alguns deuses funcionaram como espantalhos onipresentes que vigiavam os atos do homem e o mantinham longe das plantações de frutos proibidos. Acho que esta crença foi fundamental em determinado momento e ainda pode ser benéfica, principalmente para os irreligiosos como o Onildo (visite seu blog), já que não estarão sujeitos aos representantes divinos com poderes temporais e suas verdades absolutas reveladas, perniciosas de per se, independentemente de seu teor.
"A ciência não pode provar que Deus não existe", dizem. É verdade. Mas o ônus da prova, se raciocinarmos nestes termos infantis, cabe ao fulano que afirmou que existem deuses e não àquele que não acreditou no fulano. O mundo parece funcionar muito bem sem eles. Não adianta classificar como divino tudo o que não compreendemos (falácia divina), como bem alertou Epicuro. Anhangüera colocar fogo na aguardente, idêntica à água, foi um ato mágico para os índios Goiá, mas para nós do século XXI é o esperado quando associamos comburente, combustível e ignição.
A contemplação da natureza, dos mistérios do universo, a exaltação de valores não materiais, o altruísmo, o amor, a fantasia saudável, o envolvimento com a arte, a meditação, a filosofia, tudo isto pode dar mais "transcendência" à vida do descrente do que o materialismo do crente que só trabalha, só fala de dinheiro, de notícias do JN - e que não é nem um pouco raro, convenhamos. Não podemos confundir descrença com materialismo ou descrença com vida destituída de sentido.
Claro que há também a questão utilitarista. Na revista X aparece que a fé e os rituais de fé fazem bem ao indivíduo. Eu gosto de ver como alguns analisam dados estatísticos. Chegam a conclusões como "o europeu que se banha na lama das Ilhas Fiji vive mais ", e esquecem que só o europeu desestressado e rico é capaz de viajar até lá para testá-lo. Do meu ponto de vista, quando o homem tinha pouco mais do que fé para recuperar a saúde, vivia em média metade do que hoje. Pelo menos a penicilina, o antibiótico, a assepsia, os exercícios físicos, a vida sem stress, a educação, o amor e os avanços cirúrgicos estão ao alcance do descrente, para que ele também viva mais. Mas minha fé nos benefícios tangíveis da fé é tanta que criei uma oração para meu cérebro: "Ó suprema massa cinzenta que regeis meu ser, guardai-me de ser mesquinho com o próximo, sede minha inteligência e curai-me de meus males enviando vossos anticorpos-da-guarda, com a intercessão de são bulbo, são cerebelo e de santo hipotálamo, o supremo organizador do caos cerebral. Que a vossa serotonina sagrada conduza meu coração, meu sono e meu apetite, e dai-me a endorfina de cada dia, amém".
Parte II - Deus Bíblico(índice)
Porque está na Bíblia" não é satisfatório para mim, "porque eu sinto e o experimento" não é satisfatório. As vestais deviam "sentir" a deusa Vesta durante os rituais. "Porque ele faz milagres" não é satisfatório - talvez quando a humanidade se unir em oração e conseguir de Jeová que regenere um membro amputado, a falangeta do dedo mínimo que seja. Mas Deus não cura amputados, não é mesmo?
Os escritos canônicos bíblicos não batem com os apócrifos. E o cânon - ou a relação dos livros bíblicos - foi estabelecido por concílios. Tudo por decisão humana. Nenhum livro bíblico diz quais livros devem ser parte do cânon, e se dissessem seria apenas, no fim das contas, a Bíblia dizendo que a Bíblia está correta. E esses concílios não são inspirados por Deus, para mim, mas por interesses mundanos. Se não fosse assim, o de Nicéia, de Trento e do Vaticano I ainda seriam plenamente válidos, mas contêm um punhado de porcaria anacrônica.
Não vejo sentido em Deus criar homens e mandá-los para o inferno porque não creram nele, ou em mantê-los longe sem puni-los quando é a sua fonte única de prazer, não vejo sentido em pecado original, e se o pecado original é tão somente um impulso para o mal inerente ao homem, por que Deus nos criou com ele para em seguida tirá-lo de nós após um ritual de batismo, e por que foi imperativo que viesse ao mundo como homem para isso? Estamos falando de um criador onipotente ou de um oniburocrata? Não vejo sentido em Deus não querer vir ao mundo a partir de uma cópula porque o sexo de duas criaturas é imundo demais para ele, em Maria ter ascendido aos céus simplesmente porque o Papa Pio IX quis que todo Papa fosse infalível quando fala ex-cathedra - sei, evangélicos, vosso Deus não falou isto.
Mas gosto da Bíblia. Também gosto de suas historinhas legais e na maior parte das vezes educativas. Leio a fábula de Sansão e Dalila, ouço a fantástica ópera homônima de Saint-Säens, assisto ao filme com o canastrão Victor Mature e a bela Hedy Lamarr, e me emociono. A ópera Nabucco, as comoventes Paixões de Bach. Comovo-me também com Romeu e Julieta, com a mitologia grega, mas se visse uma comunidade vivendo de acordo com os ensinamentos de Dionísio, julgando-o um deus de fato, eu falaria o mesmo que falo da Bíblia, esta bela peça de mitologia (e História): boa como literatura, apesar de inferior a Sófocles, Shakespeare e uma miríade de outros, redundante nos bons ensinamentos, pródiga em maus exemplos. A propósito, Eliseu amaldiçoar as crianças que o chamaram de careca e Deus comprar sua indignação enviando ursos para matá-las é simbólico, dureza de corações, mistério bíblico, mentira ou crueldade divina? Se a Bíblia é tão dependente da interpretação e esta varia radicalmente com o tempo, o céle(b)re conjunto de livros não é um canal de comunicação aceitável ente nós e o suposto criador. Melhor seria se suas páginas estivessem em branco. Voltando: Gosto também da historinha do vociferante João Batista, talvez pela ópera de Richard Strauss, pelo drama de Fagundes Varela e pela peça de Oscar Wilde. E também porque estive nas escavações do Templo de Herodes em Maqueronte, na Jordânia. Os túmulos do Egito Antigo emocionam mais até mesmo que o Santo Sepulcro em Jerusalém (certamente falso), contudo, não creio que aqueles homens com cabeça de cachorro sejam deuses.
Parte III - Sobrenatural (índice)
É impossível que inventem uma máquina que registre almas deixando os corpos e que possibilite que conversemos com elas? Acho que até seria possível. Teríamos então, caso fossem detectadas nas mesmas circunstâncias, apenas uma nova dimensão para o mundo natural. Para muitos crentes, contudo, o sobrenatural estaria comprovado cientificamente. Mas acho muito difícil tal máquina ser inventada, pois todas as descobertas ligadas ao funcionamento do cérebro indicam que tudo o que atribuímos à alma é, na verdade, química, eletricidade. Tanto que, dependendo dos hormônios, da química do cérebro, de alguma área afetada por algum tumor ou mesmo extirpada, um sujeito pode variar do manso São Francisco ao sádico Calígula. Para que alma então? Para mim, o que é real é a sensação de alma e de imortalidade que nosso infinito ego produz.
Todos os animais captam e enviam informações externas por órgãos externos, e elas passam a ser interpretadas pelo cérebro. É o mesmo que acontece em um computador. O som entra pelos microfones, o texto pelo teclado, a imagem pela webcam, o som sai pelas caixas de som, a imagem pelo monitor. Gritar para um processador convencional uma tarefa seria estúpido. Do mesmo modo, acreditar que o cérebro possua capacidade para enviar ou receber informações sem o auxílio dos órgãos adaptados para estas tarefas é insano, mas amplamente aceito pelos que crêem em paranormais. Falando nestes embusteiros, não entendo como apreciam tanto a pecúnia mas não descobrem um jeito de convencer James Randi a lhes dar US$ 1 Milhão demonstrando-lhe seus poderes. Na hora "H" sempre apelam para o "platéia hostil" para desistirem das demonstrações.
Eu não vejo evidências suficientes da existência de almas penadas, vidência, domínio sobre os elementos (Cacique Cobra Coral), e outras coisas. Então parto do pressuposto que não são verdade. Outras pessoas partem do pressuposto que podem ser verdade. Cada um com a sua postura. A minha é de acreditar quando uma coisa faz sentido e deixar de acreditar quando perde o sentido. Em meio aos bilhões que aceitam o "sobrenatural" sem pestanejar e exigir provas, que acreditam piamente no velhinho que disse que viu um fantasma (afinal, velhos e crianças não se enganam e tampouco mentem), acho que pessoas que duvidam e explicam as suas razões não podem ser maléficas para a sociedade. Já do lado dos crédulos pode estar também o maria-vai-com-as-outras, que é, amiúde, inofensivo. Mas é fácil de ser manipulado por espertalhões, por governantes inescrupulosos. Como escreveu a Clarissa, a grandeza de uma nação está diretamente ligada ao espírito crítico da população, em relação à política, à religião, a tudo.
Parte IV - Moral e Cristianismo(índice)
"Se as pessoas abrirem mão de Deus, tudo será permitido, até matar e roubar", é o que os crentes mais ignorantes dizem. Pagãos como Aristóteles e Marco Aurélio - ainda que seus sistemas não nos sirvam mais - produziram tratados éticos muito avançados, de sofisticação raramente igualada por moralistas cristãos. E seus deuses eram meras comparações de virtude.
"Mas tinham a centelha divina", dizem os leitores do catecismo. Então mudemos de exemplo. O comportamento social dos nossos primos mais próximos não é caótico. Em comunidades de chimpanzés, na África, vemos cordialidade, cooperação, afeto, hierarquia, lideranças desafiadas, assassinos expulsos pelo bando, usurpadores, macaquinhos honrando os pais, os pais dando a vida pela prole, um membro alertando os demais para perigos iminentes. Alguns subgrupos sequer recorrem à violência para resolverem seus problemas, como é o caso dos Chimpanzés Bonobos. Mas... Sem terem alma? Claro, isso é comum a todos animais sociais: Cooperação. Dentre os animais sociais, parece que apenas bandos errantes de jumentos do Sinai precisam receber do próprio criador do universo um “não matarás" sulcado na pedra ... Vemos comportamento altruísta em babuínos. Muitas vezes, em bandos atacados por leopardos, machos foram observados retardando-se para enfrentar a fera, em uma luta quase suicida. Enquanto o macho, normalmente mais velho, atrasa a perseguição do leopardo sacrificando-se, as fêmeas e os mais jovens conseguem escapar e “seguir seu destino”. O heroísmo que nós vemos, de tempos em tempos, em nossos semelhantes é muito anterior às nossas enfeitadas religiões e seus deuses.
Do outro lado, os ateus Warren Buffet e Bill Gates, os demônios capitalistas, são os maiores filantropos da história. Não porque são ateus mas porque são seres humanos, como o Heitor escreveu no post Populismo Étnico do PT. Aliás, 10% dos americanos são ateus, mas apenas 0,2% da população carcerária de seu país é atéia. Isto quer dizer que os ateus são os bonzinhos da história? Talvez segundo a análise da estatística feita pela revista X, mas para mim estes números indicam apenas que os ateus estão em melhores condições financeiras, são menos ignorantes e menos dependentes das orações para resolver seus problemas. É aquela velha questão: Nossa Senhora da Saúde só existe onde há doença. A santa se alimenta dela. Invente um jeito de curar todas doenças e os santos perecerão pela falta delas.
Entre os de nossa espécie, emoções são contagiosas, e são raros os que podem ser felizes em uma sociedade triste. É de nossa natureza sermos felizes em meio à felicidade e tristes em meio à infelicidade. É de nossa natureza, "graças a Deus", almejar a felicidade para nossos semelhantes ao mesmo tempo em que a desejamos para nós próprios. Ela é maior quando compartilhada.
Se Jesus representou um avanço moral, não quer dizer que não haja moral fora do teísmo ou fora do cristianismo. Os Franceses não inventaram a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Além disso, o inferno que existe na doutrina de Cristo põe o cristianismo em um patamar inferior ao de algumas outras filosofias. O "amar ao próximo como eu vos amei" é inútil, já que Jesus, se fosse mesmo Deus, teria nos amado infinitamente, o que tornaria o mandamento impossível de ser seguido, portanto inútil para nós mortais. Quanto a libertar escravos, todos serem iguais, amar o inimigo, fazer ao próximo o que gostaríamos que fizessem por nós, tudo isso é maravilhoso, mas não obrigatoriamente divino. E pode ser encontrado em outras culturas mais antigas. Quanto à singularidade de Jesus, Mitra, um deus persa adorado também em Roma e que sumiu após o advento do cristianismo, também recebeu ouro, incenso e mirra por ocasião de seu nascimento, venceu o mal, ressuscitou, criou um ritual que envolvia pão e vinho (estou questionando a singularidade de Jesus e não afirmando que o cristianismo veio do mitraísmo, como fazem alguns autores sensacionalistas), e vemos a virgem com um menino representada em outras mitologias, na figura de Isis. Prometeu era representado em uma cruz, e foi um deus que sofreu horrores pelo homem. Por fim, como escrevi acima, acho este método de Deus tirar o pecado original (tirou? não fiquei sabendo), ou o pecado inerente ao ser humano, virando homem algo muito mitológico. Não sei por que tanta gente ainda acredita nisso. Assim como a transubstanciação, que é tão absurda que nenhum católico crê nela de fato. O próprio Papa Leão X, o santo que construiu a Basília de São Pedro com dinheiro de venda de indulgências e que viu o protestantismo nascer, teria dito, segundo John Bale: "Quantum nobis prodeste haec fabula Christi..." E Santo Agostinho: "Não creria nos Evangelhos, se a isso não me visse obrigado pela autoridade da Igreja".
Parte V - Religiões(índice)
Na Internet tem de tudo. Certamente muito mais blogs e sites que promovem os nobres valores cristãos e que ensinam orações para pedinchar aos santos ou para agradecer os "privilégios" – muitas vezes para não perdê-los - do que sites criticando a Igreja Católica. É importante mostrar aos que não estão muito familiarizados com a história como ela se portou com os reis absolutistas, com as ditaduras fascistas, com a escravidão no Brasil, com os protestantes, sua postura atual em relação a preservativos, laicismo, liberdade religiosa, divórcio, etc.
Os crentes abraçaram uma igreja supostamente santa e criada pelo próprio Deus que quando acerta é divina e quando erra é humana. Para mim, quando acerta é humana e quando erra é humana. Por que haveria de ser diferente? Será que todos esses santos católicos se converteriam ao cristianismo se tivessem nascido na China? No máximo seriam sábios budistas, isso sim, defensores do bem, da ética, dos bons costumes, da moral. Religião é cultural, ao contrário da espiritualidade, que aparentemente é genética. E isto foi fácil de ser percebido no estudo de gêmeos univitelinos separados após o nascimento. O grau de espiritualidade é quase sempre semelhante, mas a religião varia de acordo com o meio cultural, com pouquíssimas exceções. Por isso vemos mais santos cristãos na Itália do que nos EUA e China. Para a maioria a religião é pouco mais do que um time de futebol ou uma escola de samba do coração.
Podem me dizer que a França é divina (no sentido literal). Eu lhes falarei de Napoleão e dos milhares guilhotinados durante o Terror, e ouvirei que só pego exemplos ruins, que os franceses são contra Bush e a invasão do Iraque, que nos legaram grandes filósofos, que belas construções como o Palácio de Versalhes mostram que realmente a França é divina. Boa parte dos católicos que conheço não quer saber se os maus ensinamentos do Alcorão são “simbólicos”, se a maioria dos muçulmanos é boa, se foram mais tolerantes do que os cristãos séculos atrás. Deliciam-se com livros que expõe sua misoginia, como se ela não tivesse sido combatida na Europa apesar do catolicismo. Acham graça quando vêem mulás ensinando em atrasadas madrassas sauditas que o mundo é plano, esquecendo-se que já queimaram cientistas por afirmarem o contrário. Há meio século domesticado, o catolicismo se considera a religião perfeita, e quem falar dos 1600 anos anteriores está agindo de má fé, está “pegando fatos pontuais alheios à sua essência”.
Jesus não amenizou as críticas aos fariseus com elogios por eles serem bons pais, por eles darem esmola, mesmo que arrogantemente, do mesmo modo não queremos saber, enquanto estamos julgando os crimes de uma pessoa, se dias antes ela beijou a esposa e os filhos ou se distribuía sopão aos sábados. O réu é julgado pelos seus crimes. E a punição, ao contrário do inferno bíblico, deve servir para prevenir que o crime se repita, para reeducar o criminoso, se for o caso, e como exemplo ao resto da sociedade. Então os religiosos (líderes) não devem mais se imiscuir em política, não devem mais interferir em questões de saúde pública, devem ter seu poder temporal extremamente reduzido, devem ser enjaulados, do padre ao Papa, quando cometem crimes, principalmente de intolerância e sexuais. Se dermos as condições e o poder que a Igreja Católica almeja recuperar, o passado se repetirá. Duvidam? Vejam como é hoje a quasi-teocracia nas Filipinas e a atuação da Igreja na África, onde o povo é desinformado e supersticioso como nenhum outro. Mais de 50% dos quenianos acreditam que o preservativo ajuda a espalhar a AIDS. Uma instituição tão gigantesca quanto a Igreja Católica passa quase a ter vida própria, e a lutar selvagemente para se perpetuar no poder, apesar dos homens que a integram serem, essencialmente, bons. O documentário "The Corporation" mostra isto muito bem (apesar dos inúmeros exageros).
Como escrevi anteriormente, é extremamente penoso para o católico ver os seus religiosos no banco dos réus quando sempre estiveram no posto de juízes. E não são poucos.
Minha intenção não é que as pessoas abandonem sua religião mas que questionem absolutamente todos os dogmas e que vigiem absolutamente todas as ações dos religiosos. O mundo só tem a melhorar. Poder temporal aliado a verdades absolutas nas mãos de representantes divinos NÃO FUNCIONA!
Precisamos de uma sociedade civil organizada, de opinião pública, de meios de comunicação livres, poderes separados, Estado laico, impostos bem aplicados, informação disponível a todos, religiões domesticadas, principalmente as três monoteístas (considerando o cristianismo e seus três deuses, deusa e semideuses como monoteísmo). Este é o único jeito, inclusive, para elas sobreviverem aos desmandos de alguma religião hegemônica. Pessoalmente, acho mais saudáveis religiões com poucos fiéis e pouco poder.
Enquanto não inventarem um "Index Blogorum Prohibitorum”, continuaremos a atirar pedras contra nossos monstruosos moínhos de vento. Aos católicos incomodados que desejem reforçar suas crenças eu recomendo o Catecismo Online.
21 fevereiro 2007
Corrompendo Congresso e Povo
Elas são injustas em relação ao Congresso porque esquecem ou desconhecem que ele é dominado pelo Executivo. Para começar, o Governo manda toneladas de Medidas Provisórias, que por terem prioridade na votação trancam a pauta e deixam o Congresso parado. O único que pode marcar as votações é o presidente da Casa, eleito com o apoio do chefe do Executivo. O primeiro só marcará as votações se o líder do governo tiver reunido votos suficientes para aprovar as MPs. Enquanto isto, as iniciativas dos parlamentares dançam. O resultado é que 80% das leis aprovadas são de iniciativa do Executivo.
E como o líder do governo arregimenta os votos da base do governo no Congresso? Fácil; os parlamentares precisam de recursos para se reeleger e o Executivo controla os recursos do Orçamento e os cargos da Administração que têm acesso a recursos ou que possam dar visibilidade aos parlamentares ou seus grupos. O certo é que o parlamentar ou grupo de parlamentares que não votarem as MPs do Executivo não terão nenhuma dessas benesses. O sistema é coerente. Os parlamentares podem ganhar emendas no orçamento e os populares podem ganhar Bolsa Família. Como já disse Cristóvam Buarque, Bolsa Família é corrupção.
Na verdade, no primeiro mandato do Lula ainda tem-se notícia de um expediente inédito, que foi o uso de caixa 2 para sustentar a base de apoio do governo durante o mandato. Geralmente, o caixa 2 é usado na campanha mas não creio que ninguém houvesse pensado em usá-lo durante o governo. Certamente, a vantagem de um esquema desses seria a redução da distribuição de cargos em troca da entrega direta dos recursos. Seria um avanço, como foi a substituição das cestas básicas pelo Bolsa Família.
Enfim, este me parece ser um retrato mais acurado da realidade do que a simples repetição da crença da maioria, às vezes estimulada pelo próprio Executivo, que critica o Congresso por não querer aprovar as medidas com a presteza desejada ou de se atrever a querer discutir o "mérito" das propostas.
Neste nosso recente aprendizado da democracia, acho que o evento de cassação do Collor foi fundamental para que se estruturasse esta forma de relacionamento entre Executivo e Congresso. Percebeu-se que o chefe do Executivo tinha de ter um presidente da Câmara aliado, caso contrário poderia aceitar um processo de impeachment. Lula mesmo já teve uns 20 pedidos de impeachment, incluindo o do Mensalão, engavetados.
Resta saber se a idéia de três poderes independentes é, afinal, uma utopia de Descartes. Será que em alguma democracia no mundo os três poderes são realmente independentes e suas relações não são viciadas? Talvez os petistas achem que isto seja coisa de democracia burguesa e que a democracia popular começa no sindicato e termina na rua, como fez Chávez recentemente.
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17 fevereiro 2007
O Populismo Étnico do PT
Mas por que o PT não enxerga esta realidade simples? Porque as cotas raciais são um projeto político que visa criar uma clientela eleitoral composta pelos beneficiários destas cotas, assim como os beneficiários do Bolsa Família, que foram decisivos na reeleição do Lula.
Com este intuito, recentemente, conseguiu-se articular a aprovação de uma verba de R$ 3,4 bilhões do MEC para as universidades que extingam o vestibular e implementem as cotas étnicas. A expectativa é que esta política multiplique as vagas das cotas nos próximos anos. O próximo passo será a mobilização destes jovens para se tornarem o curral eleitoral ou os cabos eleitorais do partido de quem serão devedores.
O mais grave da questão das cotas é o vício petista de enfraquecer os critérios que favorecem o mérito individual, como o vestibular ou a avaliação individual dos formandos na universidade. A meritocracia é incompatível com os valores petistas.
O discurso em defesa das cotas raciais busca estabelecer uma relação entre “Raça” e "Classe", seguindo uma tradição marxista uspiana a la Florestan Fernandes. Estas releituras neomarxistas buscam encontrar e enfatizar o conflito nas relações entre sexos, raças (etnias) e classes. Na tese em questão, a mais-valia teria sido roubada pelos escravocratas brancos dos escravos negros. O discurso alega que para se indenizar a perda desta “mais-valia” se justifica uma política de cotas raciais.
Esquece-se que a escravidão era um instituição africana a que estavam sujeitos os prisioneiros de guerra. Claro que o cativeiro não era aviltante como o que posteriormente lhes impuseram os europeus, e obviamente a enorme demanda internacional por escravos fomentou cada vez mais a captura de africanos por outros africanos. Esquece-se que o racismo do brasileiro não impediu que muitos negros tivessem ascensão social, o que não é muito perceptível porque a maioria de seus descendentes se miscigenou, vide Aleijadinho, Ataíde, Machado de Assis, Carlos Gomes, entre outros.
Costuma-se confundir rótulos e agentes causais. São Francisco não era bom por ser cristão, Bill Gates e Warren Buffet não são os maiores filantropos da história por serem ateus, o comunismo não faliu por abrir mão de Deus, e não foi por serem brancos que os europeus escravizaram os africanos, do mesmo modo que estes não foram escravizados por serem negros.
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12 fevereiro 2007
Todo o Poder às Mulheres
No Brasil, temos a ministra chefe de staff da presidência da República, a ex-líder guerrilheira, Dilma Rousseff. Além de ser a principal ministra do governo Lula após a queda de Dirceu e Palocci, ela ainda é presidente do Conselho Superior de Administração da Petrobras. Portanto, ela ocupa simultaneamente o mais alto cargo executivo da República após o presidente e o cargo mais alto da maior empresa da América do Sul. Salvo engano, ironicamente o ministério da Educação, que teria uma vocação para ser ocupado por mulheres, não o é desde a ministra Esther de Figueiredo Ferraz, do período dos militares.
Uma candidata pode representar a esperança de mudança e de um mundo mais compassivo. A partir do ano que vem, poderemos ter, nos EUA, a potência hegemônica, uma mulher como "líder do mundo livre". E, em 2010, diante do vácuo deixado nas lideranças paulistas do PT com a queda de Dirceu, Palocci, Genoíno e Mercadante, crescem as articulações para o lançamento da candidatura de Marta Suplicy à presidência da República.
Mas que mulheres são estas que estão tomando o poder? São seres humanos extraordinários como a Secretária de Estado Condoleezza Rice, que trabalha de segunda a segunda e não tem família por opção, e a doutoranda em Economia Dilma Rousseff, que foi uma das principais líderes do movimento guerrilheiro Val-Palmares, tendo ainda passado uns dois anos presa em um quartel do Exército.
Será que o mundo vai melhorar conosco no poder? Simplesmente porque somos mulheres?
07 fevereiro 2007
Livrai-nos do Mal
O documentário Deliver Us from Evil, indicado para o Oscar de melhor documentário deste ano, cita o livro Sexo, Padres e Códigos Secretos (Sex, Priests, and Secret Codes: The Catholic Church's 2,000-Year Paper Trail of Sexual Abuse), recém traduzido para o português, e considera seus autores, Thomas P. Doyle, A.W.R. Sipe e Patrick J. Wall, especialistas teológicos e canônicos sobre o assunto.
Thomas P. Doyle foi enviado aos Estados Unidos pelo Vaticano no início dos anos 80 e redigiu, conjuntamente a outros autores, um extenso relatório entregue aos bispos americanos que alertava para a dimensão incontrolável que atingia o abuso sexual por parte dos sacerdotes católicos.
Pouco tempo depois, em 1984, estourou o escândalo dos padres pedófilos nos EUA. Centenas deles, a partir de então, deixaram o costumeiro posto de juízes para ocuparem o banco dos réus, expondo ao bilhão de fiéis da Igreja Católica o cancro do qual padece há séculos mas cuja imagem repugnante permanecia escondida sob os panos - e nos confessionários, sacristias, seminários e casas paroquiais.
Os julgamentos desencadearam denúncias por todo o mundo, da Irlanda ao Brasil, das Filipinas à África. O abuso sexual de menores por membros do clero demonstrou, inclusive, não ser um fenômeno novo. O psicoterapeuta A.W.R. Sipe afirma que cerca de 30% dos 50.000 padres americanos são homossexuais e que a investigação lhes permitiu concluir que quase 10% dos padres americanos dos últimos 50 anos abusaram sexualmente de menores. Os três homens da Igreja revelam a assombrosa dimensão da pedofilia clerical, e contam como já no século I o problema preocupava os cristãos, como atestam documentos extraídos de arquivos oficiais.
Os escritores questionam a imposição do celibato aos religiosos e criticam a cúmplice omissão de bispos e cardeais, que se limitavam a pôr panos quentes sobre as situações “inconvenientes” que vinham à tona e a transferir os lobos para outros rebanhos. Em artigo publicado na Reuters alguns anos atrás, lê-se que um documento dos arquivos da Arquidiocese de Boston “indica que o Vaticano preferiu evitar escândalos a zelar pela segurança de crianças ameaçadas por padres pedófilos. (...) O documento (...) indicava que o papa João Paulo II aconselhou que um padre com um histórico de molestar garotos deveria deixar a área onde sua ‘condição’ era conhecida ou continuar ali contanto que isso não provocasse nenhum escândalo”.
Há pouco mais de um ano, a Justiça de Los Angeles apreendeu os arquivos pessoais confidenciais de 126 membros do clero da Arquidiocese Católica Romana local acusados de abusos sexuais contra crianças. Lemos, no artigo do The New York Times que eles “fornecem uma narrativa entorpecedora de 75 anos de vergonha da Igreja, revelando caso após caso em que a Igreja foi alertada do abuso mas fracassou em proteger seus fiéis”. O cardeal Roger M. Mahony e seus antecessores costumavam transferir discretamente os padres para terapia e então para novas funções. Em outros casos era oferecido aos pais terapia para os filhos e o pedido enfático para que permanecessem em silêncio.
No Brasil não foi e não é diferente. A certeza de impunidade e acobertamento por parte dos superiores atrai pedófilos latentes para os seminários, de modo que os casos de pedofilia pululam por aqui. Há poucos dias um padre de Mariana-MG foi preso por molestar um garoto de 10 anos. Estava foragido da justiça em um asilo de idosos desde que lhe fora dada voz de prisão.
Os homossexuais também são atraídos para a Igreja, mas quando a relação é consensual e entre adultos não me interessa bancar o juiz. Mas salta aos olhos a hipocrisia desses que combatem com tanta veemência a homossexualidade do alto do púlpito, estimulando mil preconceitos na massa de crentes, mas levam em privado uma vida dupla.
Entre pastores protestantes não se vê tantos casos de pedofilia. Parece que preferem molestar mulheres adultas e manterem hipócritas relações com gays. Ted Haggard, um mentiroso e embusteiro, segundo definiu-se o próprio após ser pego com a boca na botija, era um dos mais influentes pastores evangélicos dos EUA e quem inspirava G. W. Bush na cruzada contra o casamento homossexual até ser desmascarado publicamente por um dos garotos de programa com os quais aliviava as tensões.
A crença dos padres de que estão acima da lei dos homens e o decorrente acobertamento por parte de seus superiores, aliados ao celibato forçado, parecem ser os maiores responsáveis pelo alto número de acusações de abuso sexual contra religiosos católicos, muito superior ao verificado em outras áreas que exigem proximidade com crianças, como creches, grupos escoteiros e escolas primárias.
Os fiéis são as principais vítimas do problema, contudo, engana-se aquele que aposta em uma diminuição de clientes católicos e protestantes após tantos escândalos. Os primeiros e seus “irmãos separados” - que antes do Vaticano II eram “excomungados” - já vêm sendo vacinados pelos seus manipuladores há algum tempo. Quando um "santo homem" prediz que os bons serão difamados, que o demônio é astuto e convincente nas suas argumentações, que falsos profetas aparecerão, que o próprio mundo é falso, então os desmascaramentos são lidos como difamações, a lógica é lida como astúcia, sábios podem virar falsos profetas. E graças à indolor agulhada os prosélitos da Renascer continuarão a eleger sanguessugas, os católicos a confiar seus filhos a predadores sexuais de vestidos de renda e a dizer que os homens são culpados mas a Igreja é santa, os fiéis um pouco mais esclarecidos continuarão a fazer pesquisas direcionadas no Google para encontrarem exemplos de não-cristãos malvados, o mal freqüentado bairro de Roma (palavras de Carlos Esperança) continuará a ser o único Estado do mundo sem uma maternidade, os eunucos morais continuarão a se envolver na educação sexual de crianças e adolescentes, a profilaxia da AIDS continuará a ser prejudicada na África pelos demonizadores de preservativos, e os santos e seus milagres se multiplicarão, pois quando a Igreja mais necessita...
...Deus a socorre...
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05 fevereiro 2007
Socialismo do Século XXI
Jovens esquerdistas brasileiros se alvoroçam quando falam da China e dos novos líderes latino-americanos, especialmente Chávez. Ficam ansiosos pelo momento em que a China irá desafiar a hegemonia americana e excitados com Chávez dizendo poucas e boas para os gringos. Entretanto, enquanto permanecem aferrados aos seus delírios socialistas esquecem de observar algumas realidades mais mundanas destes regimes.
Hoje assisti a uma palestra muito interessante sobre a China dada por um dos discípulos da Maria da Conceição. Ele me dizia com grande satisfação que a China era tão complexa e os seus mecanismos de decisão tão obscuros que qualquer investidor estrangeiro que quisesse investir por lá era obrigado a fazer uma Joint Venture com uma empresa chinesa.
Já quase em júbilo pela política industrial dirigista do estado chinês, ele me relatou que negociadores chineses passaram pelo Brasil querendo adquirir algumas centenas de unidades do ERJ 100, desde que fosse instalada uma fábrica da Embraer em seu território. Diante da hesitação da empresa brasileira, eles teriam informado que iriam em seguida ao Canadá visitar a Bombardier. O resto é história; a Embraer fez uma Joint Venture e se instalou na China.
A teoria econômica anglo-saxônica afirma que um marco regulatório estável e transparência na tomada de decisões reduzem o risco de investimentos, incentivando-os. Os chineses parecem ter superado os anglo-saxões neste particular pois a falta de regulação e transparência, desde que alavancada por um mercado consumidor cuja classe média é quase do tamanho da americana, pode estimular investimentos. Além disso, como eles se dão por Joint Ventures com os chineses, fica bem mais fácil ter acesso às tecnologias das multinacionais para pirateá-las e, posteriormente, inová-las.
Em 2006 a China cresceu 10,7%, e a sua fome de energia é enorme. Projeta-se que a sua demanda de petróleo cresça cerca de 400.000 barris/dia por ano. Recentemente, a China assinou um acordo com a Venezuela para a importação de 500.000 barris por dia. Infelizmente, a produção venezuelana é declinante. Para resolver o problema, Chávez iniciou uma rodada de expropriações.
Em 2006 a Venezuela de Chávez expropriou, apenas da Petrobras, 310 milhões de barris, ou seja, o suficiente para atender este contrato por 620 dias - quase 2 anos - e obter uma receita em torno de US$ 12 bi.
A teoria econômica anglo-saxônica afirma que o respeito aos contratos e à propriedade privada estimula o crescimento econômico por dar garantia aos agentes privados de que os futuros investimentos obterão retornos. Isto atrai mais capitais, aumentando a competição e reduzindo os lucros.
Talvez seja por isto que a produção venezuelana seja declinante, pois o risco de desenvolver reservas e ser expropriado é crescente por lá. É fácil ver jovens esquerdistas chocados criticando os imensos lucros da indústria de petróleo. Difícil será explicar-lhes que o lucro absurdo desta atividade é conseqüência de sujeitos como o Chávez, que tornam os investimentos neste setor tão arriscados que demandam uma altíssima taxa de retorno.
A Bolívia de Morales, por sua vez, assinou recentemente um contrato com a estatal argentina prometendo vender uns 10 milhões de m3 de gás por dia. O detalhe é que a Bolívia não tem este gás desenvolvido e já anunciou que irá retirá-lo do gás destinado ao GASBOL, que tem capacidade de levar 30 milhões de m3 por dia para São Paulo. Desta forma, pretende chantagear a Petrobras a retomar os investimentos interrompidos após a expropriação de vários bilhões de dólares com a perda das refinarias, campos de petróleo e aumento forçado do gás. O curioso é que a Petrobras tinha um investimento previsto para a duplicação do GASBOL, antes das políticas nacionalizantes deste ídolo esquerdista, mas agora, como algum dirigente "responsável" poderia pensar em colocar a segurança energética brasileira nas mãos de Morales ampliando nossa exposição aos seus caprichos? O problema é que nossos dirigentes não são responsáveis, prova é que ainda estudam construir o famoso gasoduto "Transpinel", com capacidade de 100 milhões de m3 por dia, cuja torneira estará nas mãos do grande líder da Revolução Bolivariana, o Chávez.
Será que vai dar certo este socialismo do século XXI? O tempo dirá. O triste é que, seja no sistema capitalista americano, no comunismo chinês, no bolivarianismo venezuelano ou no etnopopulismo boliviano, o papel do Brasil parece o de ser sempre um país liderado, destinado a sofrer prejuízos e perdas, eterna fonte de matérias-primas para americanos e chineses, e tungado pelos vizinhos latino-americanos. Recentemente, os paraguaios entraram na onda de Morales e Chávez e pediram a revisão do Tratado de Itaipu. D. Dilma concordou, garantindo que o aumento da tarifa nem seria sentido pelos consumidores...
Pelo menos o petismo do século XXI é generoso, benevolente e condescendente com os vizinhos, com os companheiros (José Genoíno que o diga) e com o seu curral eleitoral nordestino. É um socialismo em que toda perda e desgraça é marquetologicamente transformada em vitória. Neste particular, lembro-me do chanceler Celso Amorim, que habilidosamente desmoralizou os críticos da pusilânime negociação brasileira com a Bolívia ao sugerir que eles queriam, na verdade, que o Brasil imitasse a atuação dos EUA no Iraque e invadisse a pobre Bolívia. Esta, tenho que reconhecer, foi de mestre.
Os chineses tiveram Mao Tse Tung, cujo gênio militar na Grande Marcha reunificou o país. Em seu governo, mais de 60 milhões de opositores morreram, outros incontáveis milhões foram para campos de reeducação e algumas centenas de chinesinhas tiveram a honra de contrair sífilis diretamente do grande timoneiro. Felizmente para os chineses, ele morreu e Deng Xiao Ping adotou uma política econômica com características de mercado, resultando no incrível desenvolvimento observado atualmente. Nós, os brasileiros, temos o Luiz Inácio e a sua capacidade genial de conciliação e enrolação - um herdeiro da nossa melhor tradição cordial autoritária nordestina; o Mitterrand dos pobres.
Provavelmente não teremos o sucesso chinês, mas os marqueteiros do PT e o gênio do nosso grande líder convencerão o povo de que não está comendo capim mas caviar. E se por acaso ele desconfiar disso, a culpa então por não estar comendo caviar será do bicho-papão, quer dizer, do capitalismo, das elites rancorosas e dos Estados Unidos, que sempre buscam nos sabotar e atrapalhar nosso desenvolvimento.
Não vai demorar para que se comece a buscar os sabotadores e os traidores dentro do país, e quando terminar a caça às bruxas e a histeria decorrente, o povo nem sequer se lembrará por que tudo começou. Daí provavelmente surgirá um novo grande líder, que proporá a nova fundação do país e também condenará a herança maldita do passado. Mas isto só deve acontecer no século XXII - ou século XLIX, se vigorar o calendário chinês. Quem sabe então a culpa pelo nosso fracasso não passe a ser da China.
Hoje assisti a uma palestra muito interessante sobre a China dada por um dos discípulos da Maria da Conceição. Ele me dizia com grande satisfação que a China era tão complexa e os seus mecanismos de decisão tão obscuros que qualquer investidor estrangeiro que quisesse investir por lá era obrigado a fazer uma Joint Venture com uma empresa chinesa.
Já quase em júbilo pela política industrial dirigista do estado chinês, ele me relatou que negociadores chineses passaram pelo Brasil querendo adquirir algumas centenas de unidades do ERJ 100, desde que fosse instalada uma fábrica da Embraer em seu território. Diante da hesitação da empresa brasileira, eles teriam informado que iriam em seguida ao Canadá visitar a Bombardier. O resto é história; a Embraer fez uma Joint Venture e se instalou na China.
A teoria econômica anglo-saxônica afirma que um marco regulatório estável e transparência na tomada de decisões reduzem o risco de investimentos, incentivando-os. Os chineses parecem ter superado os anglo-saxões neste particular pois a falta de regulação e transparência, desde que alavancada por um mercado consumidor cuja classe média é quase do tamanho da americana, pode estimular investimentos. Além disso, como eles se dão por Joint Ventures com os chineses, fica bem mais fácil ter acesso às tecnologias das multinacionais para pirateá-las e, posteriormente, inová-las.
Em 2006 a China cresceu 10,7%, e a sua fome de energia é enorme. Projeta-se que a sua demanda de petróleo cresça cerca de 400.000 barris/dia por ano. Recentemente, a China assinou um acordo com a Venezuela para a importação de 500.000 barris por dia. Infelizmente, a produção venezuelana é declinante. Para resolver o problema, Chávez iniciou uma rodada de expropriações.
Em 2006 a Venezuela de Chávez expropriou, apenas da Petrobras, 310 milhões de barris, ou seja, o suficiente para atender este contrato por 620 dias - quase 2 anos - e obter uma receita em torno de US$ 12 bi.
A teoria econômica anglo-saxônica afirma que o respeito aos contratos e à propriedade privada estimula o crescimento econômico por dar garantia aos agentes privados de que os futuros investimentos obterão retornos. Isto atrai mais capitais, aumentando a competição e reduzindo os lucros.
Talvez seja por isto que a produção venezuelana seja declinante, pois o risco de desenvolver reservas e ser expropriado é crescente por lá. É fácil ver jovens esquerdistas chocados criticando os imensos lucros da indústria de petróleo. Difícil será explicar-lhes que o lucro absurdo desta atividade é conseqüência de sujeitos como o Chávez, que tornam os investimentos neste setor tão arriscados que demandam uma altíssima taxa de retorno.
A Bolívia de Morales, por sua vez, assinou recentemente um contrato com a estatal argentina prometendo vender uns 10 milhões de m3 de gás por dia. O detalhe é que a Bolívia não tem este gás desenvolvido e já anunciou que irá retirá-lo do gás destinado ao GASBOL, que tem capacidade de levar 30 milhões de m3 por dia para São Paulo. Desta forma, pretende chantagear a Petrobras a retomar os investimentos interrompidos após a expropriação de vários bilhões de dólares com a perda das refinarias, campos de petróleo e aumento forçado do gás. O curioso é que a Petrobras tinha um investimento previsto para a duplicação do GASBOL, antes das políticas nacionalizantes deste ídolo esquerdista, mas agora, como algum dirigente "responsável" poderia pensar em colocar a segurança energética brasileira nas mãos de Morales ampliando nossa exposição aos seus caprichos? O problema é que nossos dirigentes não são responsáveis, prova é que ainda estudam construir o famoso gasoduto "Transpinel", com capacidade de 100 milhões de m3 por dia, cuja torneira estará nas mãos do grande líder da Revolução Bolivariana, o Chávez.
Será que vai dar certo este socialismo do século XXI? O tempo dirá. O triste é que, seja no sistema capitalista americano, no comunismo chinês, no bolivarianismo venezuelano ou no etnopopulismo boliviano, o papel do Brasil parece o de ser sempre um país liderado, destinado a sofrer prejuízos e perdas, eterna fonte de matérias-primas para americanos e chineses, e tungado pelos vizinhos latino-americanos. Recentemente, os paraguaios entraram na onda de Morales e Chávez e pediram a revisão do Tratado de Itaipu. D. Dilma concordou, garantindo que o aumento da tarifa nem seria sentido pelos consumidores...
Pelo menos o petismo do século XXI é generoso, benevolente e condescendente com os vizinhos, com os companheiros (José Genoíno que o diga) e com o seu curral eleitoral nordestino. É um socialismo em que toda perda e desgraça é marquetologicamente transformada em vitória. Neste particular, lembro-me do chanceler Celso Amorim, que habilidosamente desmoralizou os críticos da pusilânime negociação brasileira com a Bolívia ao sugerir que eles queriam, na verdade, que o Brasil imitasse a atuação dos EUA no Iraque e invadisse a pobre Bolívia. Esta, tenho que reconhecer, foi de mestre.
Os chineses tiveram Mao Tse Tung, cujo gênio militar na Grande Marcha reunificou o país. Em seu governo, mais de 60 milhões de opositores morreram, outros incontáveis milhões foram para campos de reeducação e algumas centenas de chinesinhas tiveram a honra de contrair sífilis diretamente do grande timoneiro. Felizmente para os chineses, ele morreu e Deng Xiao Ping adotou uma política econômica com características de mercado, resultando no incrível desenvolvimento observado atualmente. Nós, os brasileiros, temos o Luiz Inácio e a sua capacidade genial de conciliação e enrolação - um herdeiro da nossa melhor tradição cordial autoritária nordestina; o Mitterrand dos pobres.
Provavelmente não teremos o sucesso chinês, mas os marqueteiros do PT e o gênio do nosso grande líder convencerão o povo de que não está comendo capim mas caviar. E se por acaso ele desconfiar disso, a culpa então por não estar comendo caviar será do bicho-papão, quer dizer, do capitalismo, das elites rancorosas e dos Estados Unidos, que sempre buscam nos sabotar e atrapalhar nosso desenvolvimento.
Não vai demorar para que se comece a buscar os sabotadores e os traidores dentro do país, e quando terminar a caça às bruxas e a histeria decorrente, o povo nem sequer se lembrará por que tudo começou. Daí provavelmente surgirá um novo grande líder, que proporá a nova fundação do país e também condenará a herança maldita do passado. Mas isto só deve acontecer no século XXII - ou século XLIX, se vigorar o calendário chinês. Quem sabe então a culpa pelo nosso fracasso não passe a ser da China.
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