24 setembro 2009

O Centro da Bíblia

A maioria de meus amigos e parentes é católica. Pois bem, recebi um e-mail de um católico apostólico romano praticante com o qual travo discussões amenas sobre religião que não raro terminam num “cada um com sua fé ou não-fé” ou em um “há mais mistérios entre os céus e a terra do que pressupõe a vossa vã filosofia”. Se Hamlet, aquele homicida alienado e vingativo que palestrava com a alma penada do pai, cria nisso, quem sou eu para discordar? Não há Raios Gama, UVA, UVB, fótons, ondas eletromagnéticas, entre o céu e a terra?

Vejamos o e-mail perturbador que quase abalou minha não-fé, um PowerPoint com imagens de pôr-do-sol e música singela com piano:

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- Qual é o capítulo mais curto da Bíblia? Salmo 117;
- Qual o capítulo mais comprido da Bíblia? Salmo 119;
- Qual o capítulo que está no centro da Bíblia? Salmo 118;
- Há 594 capítulos antes do Salmo 118. Há 594 capítulos depois do Salmo 118. Se somar estes dois números totalizam 1188;
- Qual é o versículo que está no centro da Bíblia? Salmo 118:8. Este versículo diz algo importante sobre a perfeita vontade de Deus para nossas vidas. A próxima vez que alguém te disser que deseja conhecer a vontade de Deus para sua vida e que deseja estar no centro da Sua Vontade, indique a ele o centro de Sua Palavra, Salmo 118:8 - "Melhor é colocar sua confiança no Senhor teu Deus que confiar nos homens".

Agora, diga, seria isto apenas uma casualidade?
DEUS TE ABENÇÕE HOJE E SEMPRE!

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Se essa inconcebível proeza matemática, essas contas decimais, cabalísticas, são um sinal divino, então, católicos, urge que se convertam ao protestantismo o quanto antes.

Em um site de estatísticas bíblicas onde se fala em 1189 capítulos, não se vê Tobias, Judite, Macabeus e outros livros da bíblia católica. Logo, no Calhamaço de Embustes que meu amigo considera ser o livro verdadeiro, aquele do qual não se pode tirar nem acrescentar uma única vírgula, não há esse "easter egg" divino.

Em compensação, há uma mensagem muito mais interessante, possivelmente escondida pelo próprio Coisa Ruim.

Centro da Bíblia Católica:

Temos 1074 capítulos no Velho Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/OT-Statistics-NAB.htm

E 260 capítulos no Novo Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/NT-Statistics-Greek.htm

E atenção (rufar de tambores).... o número é par, 1334! Logo, o capítulo que está bem no meio da bíblia católica, bem no meiozinho, é o nada.

Sejamos benévolos e consideremos o centro os dois capítulos que ficam ao lado desse capítulo inexistente. Cheguei, com duas contas simples (acessem o primeiro link), a I Macabeus, capítulos 4 e 5! Temos exatamente 666 capítulos antes, a partir do Gênesis, e 666 capítulos depois, até o Apocalipse.

O número da besta, ho ho ho!

Para quem gosta de ver provas do metafísico em números, simetrias, coincidências e acontecimentos pouco comuns, pouco prováveis, isto deve ser um prato cheio! Devemos reconhecer que o acaso favorece mais os protestantes do que os católicos, mas como estes estão sempre corretos e os primeiros são hereges, tudo não passa de uma coincidenciazinha e não devemos ser supersticiosos, claro! Ratio divinus est!

Destaquei os trechos mais edificantes do Centro da Bíblia Católica! Um deleite espiritual!

I Macabeus, 4

(...)
10. Gritemos agora para o céu para que ele se apiade de nós, que se lembre da Aliança com nossos antepassados e queira hoje esmagar esse exército aos nossos olhos.
(...)
14. Travou-se a batalha, mas os inimigos, derrotados, puseram-se em fuga através da planície.
15. Os últimos tombaram todos sob a espada, enquanto eram perseguidos até Gazara e as planícies de Iduméia, de Azot e de Jânia. E sucumbiram cerca de três mil.
(...)
23. Judas voltou para pilhar o acampamento, e seus homens apoderaram-se de muito ouro, prata, jacinto, púrpura marinha, e de grandes riquezas.
24. Ao voltarem, cantavam hinos e elevavam ao céu os louvores do Senhor, porque ele é bom e sua misericórdia é eterna.
...)
30. Tendo ante os olhos esse poderoso exército, rezou nestes termos: Sede bendito, Salvador de Israel, vós que quebrastes a força do poderoso pela mão do vosso servo Davi e entregastes os exércitos estrangeiros nas mãos de Jônatas e do seu escudeiro.
31. Entregai esse exército ao poder do povo de Israel e confundi nossos inimigos com suas tropas e sua cavalaria.
32. Inspirai-lhes o terror, fazei derreter seu orgulho audaz. Que eles sejam sacudidos e pisados.
33. Derribai-os sob a espada dos que vos amam e que todos aqueles que conhecem vosso nome cantem vossos louvores.
34. Travou-se então o combate, e do exército de Lísias tombaram cinco mil homens, que sucumbiram diante deles.
(...)
36. Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos.


I Macabeus, 5

(...)
3. Por eles perseguirem desse modo Israel, Judas atacou os filhos de Esaú na Iduméia, junto de Acrabatan, infligiu-lhes uma grande derrota, esmagou-os e apoderou-se de seus despojos.
(...)
5. Foram rechaçados em suas torres, onde ele os sitiou e os exterminou, queimando as torres com todos os que ali se achavam.
6. Em seguida atacou os amonitas, entre os quais ele descobriu um forte exército e numeroso povo, sob a chefia de Timóteo.
7. Travou com eles numerosos combates; foram aniquilados aos seus olhos e despedaçou-os.
8. Apoderou-se da cidade de Jazer e de seus arrabaldes e voltou depois à Judéia.
(...)
28. Judas mudou de caminho e atravessou o deserto para alcançar Bosor de improviso. Tomou a cidade, mandou passar a fio de espada todos os homens, apoderou-se dos espólios e incendiou a cidade.
29. Na mesma noite partiu e atacou a fortaleza.
(...)
68. Judas voltou para Azot, na terra dos estrangeiros, derrubou seus altares, queimou seus ídolos, sujeitou suas cidades à pilhagem e em seguida voltou para a terra de Judá.


LINDO!

16 setembro 2009

Para uma amiga muito querida, que passou a gostar de óperas

Janer Cristaldo


Uma amiga muito querida – que tive a honra de introduzir no mundo da ópera - me pergunta se é possível a qualquer pessoa gostar de ópera ou é um gênero musical exclusivo aos apreciadores de música erudita. Qual o motivo de a ópera ser tão pouco divulgada no Brasil, a ponto de praticamente não existirem CDs e DVDs produzidos aqui? Quais minhas óperas diletas em termos de enredo e música?

Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita. Anormal, a meu ver, é gostar de bate-estaca. Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera. Claro que quem conhece música terá melhores condições de curtir o gênero. Eu, para não ir mais longe, aprendi a ler partituras no ginásio. Hoje, não consigo mais lê-las. Nem por isso deixo de me comover até as lágrimas com certas árias. Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: “não sei”. Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei. Isso vai depender de outros elementos que não apenas a música, como o libreto, a encenação e inclusive le physique du rôle dos personagens. Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.

Já contei, mas conto de novo. Foi por aí que adquiri ojeriza à ópera, quando jovem. A soprano pra toda obra, em Porto Alegre, era uma rotunda senhora, a Eny Camargo. Até poderia ser uma aventura intelectual ouvi-la cantar, já não lembro. E não lembro porque havia uma barreira, aquela mulher baixinha, velha e quadrada representando uma cigana jovem, sedutora e sensual. Assim, não há quem possa gostar do gênero. Há alguns anos, comprei uma Carmen com a mezzo-soprano grega Agnes Baltsa. Não dá. Passou da idade. Voz também envelhece. Prova disto, é que você consegue identificar a voz de um velho ao telefone. Em compensação, sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes. Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.

Só fui me reconciliar com o gênero aos trinta anos, em Paris, quando vi uma Carmen divina, toda meneios, dançando chez Lillas Pastia. Ópera podia ser algo lindo, não aquele espetáculo grotesco que eu via na Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre. Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.

Da mesma forma, um Pavarotti ainda jovem representando Don Giovanni, tudo bem. Seria ridículo se o representasse no final de sua vida, quando chegou a carregar 175 quilos. Me consta que em uma de suas últimas apresentações, teve de ser posto no palco com um guindaste. Suas pernas não agüentavam a subida. Nessas circunstâncias, creio que eu não iria nem ao bar da esquina.

A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época, onde se encontravam nobres, burgueses e povão. Tanto que os teatros, se tinham camarotes de luxo, também previam coxias populares, para estudantes e gente do povo, que levavam banquinhos ou assistiam o espetáculo em pé. Como ainda hoje. Aliás, participei disto em Viena. Estávamos, eu e a Baixinha, em um café em Viena, justo face a Wiener Staatsoper. Foi quando ela inventou: e se fôssemos à ópera? É só atravessar a rua. A idéia me pareceu utópica. Como conseguir uma entrada na hora numa ópera em Viena? Tentar não custa nada – insistiu a Baixinha. Atravessamos a rua. A obra era O Rapto no Serralho, de Mozart. Ainda havia ingressos. Mas só os reservados para estudantes, no último poleiro e em pé. Preço equivalente a dois dólares, na época. O café que eu acabara de tomar custou-me cinco.

Passei maus bocados na Staatsoper. Todo mundo em smoking e black tie. Eu, com meu humilde parka, fiel companheiro de todas minhas viagens. Pior ainda: fui despido na chapelaria. Meu parka foi intimado a ficar na entrada. Me senti nu. Enfrentei a multidão de pingüins em manga de camisa. Enfim, não iria alugar um smoking para assistir um espetáculo pelo qual paguei dois dólares. Mas que é desconfortável, é.

Na Europa, as casas de ópera ainda insistem no traje a rigor. É hoje um espetáculo para elites. Mas você não será barrado se entrar com jeans e parka. Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado. De modo geral, traje esportivo e mesmo jeans e tênis.

Ópera é o espetáculo multimídia por excelência, concebido séculos antes mesmo de que se pensasse não digo em multimídia, mas em mídia. Tem tudo: som, imagem, movimento, canto e música, pintura, teatro, literatura e poesia. O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária. O mesmo diga-se de Carmen. A origem do gênero retrocede aos anos 600, quando surge o cantochão da liturgia cristã-católica ocidental. Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera. Eu, ateu, já me comovi com missas na Stephansdom, em Viena, na Notre Dame e na Madeleine em Paris. E já assisti inclusive uma missa gregoriana no mosteiro São Bento, aqui em São Paulo. Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.

Quanto ao fato de ser pouco divulgada no Brasil, isto se deve em parte que estamos irremediavelmente contaminados pelos bárbaros ruídos ianques. Não é que apenas a ópera não seja divulgada no Brasil. A boa música popular européia também não o é. Quem conhece aqui cantores como Evert Taube, Sven-Bertil Taube, Mikis Theodorakis? Ou mesmo este monumento da canção francesa – que em verdade é belga – Jacques Brel? As letras de Brel me enlevam quase tanto quanto os libretos de Da Ponte. Mas se vou procurar em uma loja os CDs de Brel, aqui em São Paulo, só por milagre vou encontrá-los.

Um outro problema no Brasil é que ópera é uma produção cara. É preciso corpos de ópera em constante treinamento e isto não custa pouco. Justo quando se necessitaria de um auxílio estatal, o Estado está ausente. O Estado só se faz presente para financiar mediocridades, tipo os caetanos e gils da vida, a Máfia do Dendê. Na Europa, dado o grande público, a ópera é bem mais difundida.

Mesmo assim, há um certo público no Brasil para a ópera, um tanto restrito mas não muito pequeno. Quando fui ver a Cavalleria Rusticana, no Theatro São Pedro, quase não havia lugares vagos. E isso que foi encenada por uma orquestra, não de Nova York ou Viena, mas de Guarulhos. (Tive a honra, no dia seguinte, de almoçar com Santuzza, isto é, com a soprano Laura de Souza, que conheci em Santa Maria quando ela, menininha, ainda nem sonhava com a brilhante carreira que faria na Europa).

Aqui, quando surge uma ópera de prestígio, o Teatro Municipal lota. Claro que na Europa há um público bem mais amplo. Viena, Salzburg, Paris, Roma, Berlim, Madri são grandes centros operísticos. Nova York também. Daí uma produção maior e mais caprichada. O advento do DVD estimulou muito a produção de óperas. Agora posso ver, no conforto de meu apartamento, óperas de Mozart mais vezes – dezenas, centenas, milhares de vezes mais, se quiser – do que o próprio Mozart conseguiu ver. Em versões que ele nem sonhou.

Minhas óperas prediletas? Já devo ter contado. São três. Carmen, Don Giovanni e A Flauta Mágica. Tenho várias versões destas três. Cada uma é cada uma. A Carmen mais linda que conheço é a de Francesco Rosi. É filme, não ópera filmada. Isto é, a história não se desenrola em um palco, mas em cidades como Sevilha e Ronda, e na montanha. A dança que Carmen dança para seduzir Don José é um dos mais sublimes - e sensuais - momentos da ópera.

Depois, posso pensar em Nabuco (o "Va pensiero" sempre me faz chorar), Aida, Rigoletto, Cosi fan Tutte, Le Nozze di Figaro, La Traviata, L'Elisir d'Amore, Il Barbiere di Siviglia, Il Trovatore, L'Italiana in Algeri. Dica ao leitor: para guiar-se no mundo da ópera, há um dicionário soberbo, o Kobbé. Já está traduzido no Brasil e foi publicado pela Jorge Zahar.

Falar nisso, em novembro próximo, estarei em La Favorita, em Madri. Com a Primeira-Namorada a tiracolo. É um restaurante onde os garçons são estudantes de música e cantam árias durante a ceia. Caso o leitor queira visitá-lo, ainda que virtualmente, le voilà: http://www.youtube.com/watch?v=Ql-o8KRPOSM.

Vale a viagem.

15 setembro 2009

Vivamos, nós que estamos vivos!

Passeei ontem pelo Cemitério da Consolação, em São Paulo. É uma galeria de arte - da mais fina arte - a céu aberto, e era precisamente isso o que eu visitava.

Claro que a dor dos parentes congelada nas estátuas de bronze e mármore sobre criptas de cem, cento e cinquenta anos de idade, torna o passeio abalador no bom sentido, sem falar no inusitado silêncio em um bairro movimentado de São Paulo, na ausência de semoventes fora eu, minha filha e uns passarinhos que pareciam cantar repetidamente "es-que-le-to" (que espécie será?), nos ciprestes romanos que conferem um quê de Porta do Hades ao local, no cheiro de cravo de defunto, na vegetação rasteira que, com paciência, vai tomando conta dos túmulos menos visitados, e sem falar em toda aquela pedra, o material "eterno" escolhido pelas efemérides humanas que têm esperança de também ser eternas...

É mais comovente essa vã esperança traduzida nos túmulos e nas ebúrneas figuras desesperadas do que a própria dor sentida pelos entes que ficaram ou pelo destino dos que partiram, já que, afinal, é o destino de tudo o que vive.

Humano, demasiado humano. Passei a achar cemitérios desse tipo, tradicionais, mais bonitos e inspiradores quando neles vi apenas o seu lado humano - que é o único que há. Nada disso se sente no Campo da Esperança, esta porcaria espartana daqui de Brasília, onde só há cerrado, cruzes toscas, fotos esmaecidas e velas, os três últimos o que de pior pode haver em um cemitério - depois do corpo de um conhecido, claro!

Vivamos - e vivamos bem -, nós que estamos vivos...

11 setembro 2009

Agora os moradores estão protegidos

Correio Braziliense: Moradores do Bloco C da 113 Sul rezam para pedir bênção e segurança
Publicação: 11/09/2009 09:05

A pedido dos moradores do Bloco C da 113 Sul, foi realizada ontem uma bênção no térreo do edifício. O padre Adilson Marques, da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, localizada na 312 Sul, rezou um Pai-Nosso em homenagem às três vítimas e jogou água-benta nas prumadas do prédio. “Este crime não assustou só os moradores do prédio, mas Brasília inteira. Eles (as vítimas) eram extremamente educados, discretos e ótimos vizinhos.

Esperamos que o caso seja resolvido”, disse uma mulher que preferiu não se identificar. Quinze pessoas compareceram à cerimônia — na estrutura original do edifício, havia 36 apartamentos, mas os Villela reformaram o 601 e o 602 para transformá-los em um imóvel único. Assim, o bloco passou a ter 35 condôminos.

Após a breve celebração, que durou cerca de 20 minutos, os moradores se reuniram para discutir mudanças na segurança do prédio. Na próxima semana, o Bloco C passará a contar com 16 câmeras de segurança, que serão espalhadas por pontos estratégicos. Ao contrário das atuais, os novos equipamentos gravarão as imagens captadas. Segundo Orivaldo Ferrari, 58 anos, integrante do Conselho Consultivo do edifício, os porteiros receberão treinamento para lidar com as mais diferentes situações. Quem quiser visitar alguém no local terá de mostrar documento de identificação na portaria e ainda tirar uma foto na webcam do computador.

Os condôminos cogitaram ainda a contratação de vigilantes, que fariam a segurança externa do bloco 24 horas por dia. “Resolvemos não adotar essa medida porque seria apenas mais gente estranha no prédio. As câmeras são suficientes”, destacou Ferrari. O investimento em todo o aparato tecnológico será de R$ 8 mil. “Já vínhamos discutindo essas mudanças havia três anos. Pena que elas só sairão do papel depois de um crime brutal como esse.”
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Meu comentário: certamente agora é a hora de encher o local de câmeras, seguranças e ex-integrantes da SWAT, já que todos bandidos do país sabem que assaltar o bloco C da SQS 113 dá lucro, bastando, para obtê-lo, afiar a faca e se armar de um pouco de ousadia. Mas, quando se passarem 2, 3, 10 anos sem outros ataques desse tipo no bloco C da SQS 113, a explicação não estará nas probabilidades nem nos dispositivos de segurança, e sim na água mágica que o representante divino (pastor, pajé, xamã, padre no caso) aspergiu no pilotis ao som de palavras mágicas, em contato com o mundo invisível (inexistente)... Pergunta: por que não joga água-benta no planeta Terra de uma vez?

07 agosto 2009

Santa Arte

Não é nenhum crime ver alguma beleza naquelas formações militares impecáveis de nazistas, fascistas, comunistas, do Império de Star Wars, nas suas construções monumentais, na música marcial, nos cartazes comunistas mostrando aqueles super-homens segurando instrumentos de trabalhadores braçais como pás e martelos, onde o peão é santificado para que fique satisfeito e orgulhoso com sua condição – algo semelhante à santificação do “humirde” e do “inguinorante” feita pela classe sacerdotal em conluio com os nobres, bem comum antes das Luzes.

Normalmente, a preocupação com a estética é grande entre ideologias que se pretendem santas, inspiradas. São lindas aquelas obras bem humanas que conferem “divindade” a alguns templos cristãos e que não deixam de ser, em grande parte, imitações da estética que conferia divindade a Júpiter e a outros deuses, como a estatuária, a cúpula, os capitéis clássicos, a colunata, os afrescos, incensos, as togas dos sacerdotes, as palavras mágicas em latim, etc.

Muitos consideram o Vaticano um bom exemplo de inspiração divina, do quão alto o homem pode ir motivado pela fé no verdadeiro deus. Ora, na Renascença, o mesmo artista que pintava uma madona ou um menino Jesus poderia pintar, enquanto a outra obra secava, uma Afrodite e um menino Hércules lutando contra serpentes. Para ambos temas às vezes eram os próprios papas os clientes, que encomendavam obras sacras para as igrejas e profanas para seus palácios. Tudo que um artista precisa é de técnica, demanda, competição, remuneração e até mesmo de um pouco de inspiração e talento.

Os devotos veem mais santidade em um lugar como a Basílica de São Pedro do que em uma capelinha miserável no interior do Piauí com rachaduras nas paredes e ar cheirando a ricota velha, ainda que para eles o pão transubstanciado em carne no interior do Piauí não deveria ser menos Cristo do que aquele transubstanciado perante o Papa B16. Mas o que a presença física do próprio Cristo pode contra Bernini, Bramante e Michelangelo? Nada! A aura "santa" que se sente no Vaticano sente-se também no Louvre, embora no primeiro caso a fé potencialize a sensação e crie aquela estupefação pretendida por Leão X.

Cave uma gruta nas cercanias de Jerusalém e diga a turistas ignorantes que foi lá onde Jesus fez a penúltima ceia com sua gangue. Ficarão arrepiados, sentirão a aura de santidade do local, tocarão nas pedras, sentirão o próprio Cristo no local. E experimente ainda acrescentar uma roseira de bronze na entrada, uma estátua de mármore muito bem talhada, acender incensos e velas; terão orgasmos múltiplos.

E a mesma sensação de direito, de santidade, de sublimação, de superioridade sentiram com a ajuda da arte aqueles que foram iludidos pelas ditaduras desastrosas que mencionei no começo do post.

30 junho 2009

Somos Todos do Diabo!


I João, 3

8. Aquele que peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio.

I João, 1

8. Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.

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E destarte somos todos do diabo, cristãos e não cristãos, de acordo com o Calhamaço de Embustes. Do capeta!

Jesus é o cordeiro de deus, que tira os pecados do mundo, embora os pecados do mundo ainda estejam por aí.

Jesus é aquele que livra os batizados do pecado original, embora continuem pecadores e exilados do paraíso outrora usufruído pelos sem-umbigo, Adão e Eva.

Os não batizados, como o bebê da foto, filhinho de pagãos budistas, estão em pior situação; nascem e morrem contaminados pelo pecado original, não têm seus pecadilhos perdoados ao longo da vida, vivem e morrem do demônio e passarão a eternidade nas caldeiras do inferno.

25 junho 2009

Quem mandou apedrejar a adúltera?

Jesus não deixou que apedrejassem a mulher apanhada em adultério.

Sim, que ele mesmo mandou apedrejar, já que é um com o pai, e disse:

“Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. (...) Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.”
A ordem para apedrejar adúlteros está em Levítico, 20:10, e é dada pelo próprio 3 em 1, o JJP (Javé/Jesus/Pomba). Se Jesus é um com Javé, foi ele também que ordenou as matanças abomináveis de Canaã, participando ativamente delas ao fazer chover pedras sobre aqueles que fugiam para salvar a pele, exigindo a morte de cada criança, cada bebê, cada animal.

JJP mudou as regras no meio do jogo e sei lá qual exercício mental absurdo o crente que se permite pensar(1) faz para acreditar que de fato nenhum jota da lei desapareceu, Jesus a levou à perfeição, não há conflito entre os ensinamentos do Velho e do Novo Testamento, JJP ordenar a morte de criancinhas inocentes é simbólico... Parte-se do pressuposto de que tudo na Bíblia é bom e depois se tenta achar uma explicação que a salve de qualquer crítica. Acho que simplesmente o crente prefere aquele "não entendemos a 'lógica' de Deus"...

O poder de dissociação dos crentes não permite que enxerguem aquele Jesus hippie do NT como ele seria de fato se tudo aquilo fosse verdade, se ele de fato fosse um com o pai e se este realmente tivesse aprontado tantas presepadas no VT, como afogar a humanidade inteira para acabar com o mal na Terra e fracassar vergonhosamente, afinal o mal ainda está por aí...

E atende pedido de capetas para possuir milhares de porcos, arruinando os pobres suinocultores da região, que o escorraçaram de Gerasa por causa da sandice...

E fora as ameaças, chicotadas nos vendilhões, tinha um prazer em mandar os outros para o inferno... Aliás, ele deixa bem claro que poderia ensinar de um modo que mais pessoas se salvassem, mas diz preferir as parábolas para que as pessoas “de fora” não entendam o ensinamento e assim não se convertam, obrigando-o a salvá-las... Vejamos em Marcos 4, 11 e 12:
“Ele disse-lhes: A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em parábolas. Desse modo, eles olham sem ver, escutam sem compreender, sem que se convertam e lhes seja perdoado.”
Claro, isso entra em choque com o "ide e pregai", com o modo como tratou o centurião romano, como estendeu a salvação ao gentio, etc... Mas a Bíblia é isso aí: um amontoado de coisas conflitantes que servem àquele que quer discriminar gays e àquele que os tolera. Sob a moral de hoje imagina-se um Jesus pacifista. Na moral da época de Santo Agostinho imaginava-se o Jesus que não veio trazer a paz mas a espada, o chicoteador de vendilhões. O que ameaça o tempo todo com o fogo eterno estava mais na moda, assim como os métodos do Javé do Velho Testamento, brutais, monstruosos, assassinos.

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(1)na verdade: "...que se permite pensar livremente sobre o assunto em questão..."

É óbvio que existem crentes gênios, crentes burros, descrentes gênios e descrentes burros; talvez até seja necessário um pouquinho de "estupidez" (entre aspas, claro) para não se impressionar com algumas engenhosíssimas exegeses ad hoc de gente "inteligente" porém comprometida emocional e culturalmente até os ossos com a ideologia / fé que defende. Na verdade, as interpretações seriam inspiradas pelo Espírito Santo, embora variem ao longo dos séculos e de acordo com as conveniências... O texto é ditado por Javé, mas é tão confuso e contraditório que o Espírito Santo ajuda nas interpretações...

A interpretação, assim, só é garantida, "mais do que àquele que compreende o texto original e domina o latim, o grego, o árabe, o aramaico, o atlante e a História -, ao 'dono' da religião cujo texto pretende interpretar. E as interpretações vão bailando, ora são simbólicas ora literais" (de um texto do D.A.)

Na verdade, o que há é uma confiança imensa de que tudo aquilo é verdade. Quando o patinho nasceu, adotou a lata puxada por um fio como mãe e pronto. Podem lhe mostrar ad nauseam como as latas são feitas e que há mais como aquela, que ele é muito mais parecido com uma pata adulta, mas o patinho só se sentirá verdadeiramente protegido e confiante ao lado da lata amassada de Heineken que ele viu ao sair do ovo...

É desta maneira que gente muito inteligente acredita em absurdidades pueris de sua própria religião enquanto ri de absurdidades semelhantes na religião alheia, para a qual usa seu senso crítico sem impedimentos. Conheço católicos que riem da reencarnação (sendo que bilhões acreditam nela, inclusive gente muito inteligente), dos deuses zoomórficos hindus, etc. E eu rio tanto dos deuses zoomórficos hindus quanto de Javé não gostar de toucinho, de Maria ter subido ao espaço sideral com carne, osso, sangue, cabelos, e de ainda estar por lá, perto do corpo físico de Jesus, o mesmo corpo crucificado, rio das setenta virgens do islamismo... Opa, daqui um tempo o islã descobrirá a jogadinha do simbólico/literal e o Corão passará a ser um livro "zen budista", "paz e amor", como o Velho Testamento...

23 junho 2009

Minhas preces foram atendidas

De passagem por este blog depois de mais de um ano...

Meu querido primo escreveu:

"Há pouco tempo resolvemos eu e a Alessandra passear em São Marcos. Paramos naquela conhecida gruta à margem da BR, para eu matar as saudades e bater fotos. Ela me sugeriu um pedido para Nossa Senhora das Graças, o que acabei fazendo ainda que um tanto cético; pedi pela minha saúde, que vinha bastante mal.

Só Deus sabe o quanto estava debilitado, com arritmias freqüentes, cansaço e estresse extremos, tonturas, palpitações etc., tendo que me abster de prazeres como vinho, bebidas com cafeína e até de passeios, porque uma caminhada de 50 metros já me exauria as forças.

Qual não foi minha surpresa quando em praticamente dois dias melhorei 90%! Hoje caminho em ritmo bastante forte, durmo bem, degusto vinho à vontade, café, mangio o que quiser, e o melhor de tudo, as arritmias escassearam significativamente, a ponto de quase desaparecerem. Soa até como papo de bispo da Igreja Universal, mas tenho testemunhas do antes e depois. O fato é que fiquei positivamente surpreso com o que aconteceu, e pretendo somar uma plaquinha de agradecimento àquelas muitas que enfeitam a gruta.

Fica o relato. Caso alguém ache que estou mentindo, que o efeito foi psicológico ou coisas do gênero, fique à vontade. Isso não mudará a verdade.
Abraços."


E eu respondi:

Bom, Cristiano, como o Estevão, estou feliz por você estar melhor! E para a próxima, e sou eu que lhe peço, vá lá e reze/peça pela paz no oriente médio. Ou pela cura da AIDS. Ou que um dedinho amputado de qualquer pessoa cresça... Bom, aí é difícil, porque sabemos que o seu deus não cura amputados, nem que todas as pessoas do mundo peçam com fé ao mesmo tempo... É como rezar para achar uma vaga no Setor Comercial Sul na hora do rush... Deuses costumam atender mais se rezarmos para achar uma vaga no Nilson Nelson durante a semana... Para que gastar a fé se ela faz tão bem, independentemente de seu objeto ser verdadeiro, como disse o Fábio?

Acredita que melhorou pelo fato de ter pedido pela sua saúde à Senhora das Graças, tudo bem. Partindo desse pressuposto, você deve as melhoras à Santa porque ela o ajudou. E se não tivesse melhorado, seria por recusa da Santa em o ajudar? Aí não, claro! Aí seria porque o deus sabe o que é melhor para nós, para nossa alma, etc. Ele se dá bem quando atende a preces e quando não atende. Ora, então as pessoas pias e que pedem com fé deviam colocar plaquinhas de agradecimento na gruta da Santa por não terem sido curadas, afinal o deus sabe o que é melhor para elas e para a humanidade...

Bom, 90% não é impressionante, Os cirurgiões psíquicos da Malásia garantem 100% :)...

E apenas a fé pode levá-lo a crer que merece ser "curado" de algum mal enquanto milhões de outras pessoas que têm a mesma crença estão na fila de espera há anos por um milagrezinho. Você deve ser muito especial para o seu deus...

Mas considero isso normal. Quando estamos impotentes perante algumas coisas, gostamos de ter um ser onipotente à disposição que é "comandado" por nós para que faça o que desejamos, e a prece (a prece que pede por algo, não a que agradece, que por vezes é fruto apenas de felicidade transbordante e às vezes é medo de ser mal-agradecido e perder o que foi conquistado por ser muito especial aos olhos de deus) é uma espécie de joystick com que julgamos controlar esse ser onipotente... E aí nos sentimos potentes... Pobre ser humano!

"Neptuno has ago gratias meo patrono, qui salsis locis incolit piscolentis, quom me ex suis locis pulchre ornatum expedivit, reducem et tempulis, plurima praeda onustum salute horiae"

(Graças sejam dadas a Netuno, meu patrono, que está na morada salgada dos peixes (não sei traduzir bem), pela rapidez com que me levou para casa e sei lá mais o quê...

Existem milhares de preces comoventes feitas em agradecimento a outros deuses, por graças alcançadas. Esses deuses não existem e isto é consenso, porque hoje não há crentes que reclamem sua existência.

Vamos às estatísticas:

Digamos que 0,15% da população mundial contraia uma doença nova da qual a chance de o contagiado se curar seja de uma em cem - 1%. Quem ouve de um médico "sua chance de sair vivo desta é de 1%" considera-se praticamente morto, não?

Bom, a população mundial é de 6,6 bilhões. Teremos quase 10 milhões de desgraçados no mundo que contrairam a doença. Quase todos terão algum deus e rezarão para ele, embora se considerem praticamente mortos. No fim das contas, teremos 100 mil pessoas salvas "miraculosamente" mundo afora a dar testemunho diário do quanto seu deus é poderoso, afinal estavam "praticamente mortas". As outras milhões estarão mortas e não terão chance de dar testemunho diário de coisa alguma. Estatística é isso aí! Se a possibilidade de ganhar em determinado jogo é de uma em um milhão e cinco milhões jogarem, provavelmente teremos cinco ou seis ganhadores, dez, quem sabe. E todos eles se considerarão agraciados pelos deuses, afinal rezaram antes de jogar... Assim como os outros que não ganharam...

11 setembro 2008

Algumas coisas para fazer antes do fim do mundo

Janer Cristaldo

- ler a meia centena de livros das últimas viagens, que ainda me esperam em minha cabeceira
- organizar meus baús de cartas, herança daquela distante época em que se escrevia cartas. Se bem que... para quê?
- comprar um leitor de ebooks
- rever uma bugra guarani, que namorei nos dias de Dom Pedrito e que me sussurrava ao ouvido: xemboraihú
- rever uma gaúcha de Porto Alegre que um dia reencontrei no Kungsträdgården, transida de frio, em Estocolmo. E com ela fazer de novo tudo o que fiz naquele dia
- ouvir czardas no Café Central, em Viena
- ouvir violinos ciganos nalgum café de Budapeste
- tomar uma Leffe radieuse no Metropole, em Bruxelas
- uma jarra de cerveja, daquelas de litro, na Hofbräuhaus, em Munique
- um cochinillo no Sobrino de Botín, em Madri, regado por um Marqués de Riscal
- uma andouillette A.A.A.A.A. no Aux Charpentiers, em Paris, com um bom Cahors
- um baba au rhum no Julien, em Paris
- uma île flottante, no Bofinger, em Paris
- rever aquela Carmen filmada pelo Francesco Rosi, com a Julia Migenes
- rever Die Zauberflötte, com a orquestra do Ludwigsburger Festspiele, com Deon van der Walt e Ulrike Sonntag, como Tamino e Pamina
- rever Don Giovanni, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel-título e Otto Edelman como Leporello
- ouvir Chavela Vargas, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete
- subir Toledo a pé
- comer um cordero lechal no Aurélio, em Toledo
- descer Toledo a pé
- beber uma manzanilla no Venencia, em Madri
- degustar outro cochinillo naquela cave medieval do Café de Oriente, também em Madri
- subir de novo Santorini em lombo de mula
- descer Santorini em lombo de mula
- revisitar os vulcões de Lanzarote
- comer um churrasco assado nas lavas dos vulcões de Lanzarote
- rever a árdega peoniana de Skopje, que alegrou meus dias em Paris
- ver de novo um nascer de sol junto ao Tridente, no Assekrem, no Sahara argelino
- ouvir tuaregues contando histórias em torno a uma fogueira no topo da montanha
- beijar mais uma vez uma distante amiga numa meia-noite gélida em Paris, vendo além dos olhos dela a agulha da Notre Dame penetrando a lua em quarto crescente
- rever também aquela sabra baixinha e linda que alegrou meus dias numa travessia do Atlântico
- ver uma aurora boreal
- rever o sol da meia-noite, tomando um vinho naquela noite que não é noite com a Primeira-Namorada, em Tromsø, Noruega
- conhecer Svalbard
- Atacama, que ainda não conheço
- viajar ao México e empinar una copa junto a uma banda mariachi
- cantar canções de corno com os mariachis
- flanar pelas ruas desertas de Veneza, ouvindo o chiado dos sapatos no silêncio da noite
- reencontrar a peoniana na Piazza San Marco, num domingo ensolarado, no Café Florian, com violinos ao fundo
- rever o rancho onde nasci, lá na Linha, hoje tapera
- debruçar-me sobre os pastos e beber água na cacimba frente ao rancho
- abraçar minha professora de francês, dos dias de ginásio, em Dom Pedrito
- uma janta de despedida com o pequeno círculo de amigos que até hoje me acompanham. Discutiríamos a Bíblia, teologia e o apocalipse. Sempre embalados pelo sangue das uvas
- tomar mais um vinho com a Primeira-Namorada no topo do Edifício Itália, enquanto o sol se põe sobre esta São Paulo desvairada
- quando soarem os primeiros sinais do Apocalipse, vou sentar-me nalgum boteco e ler o Qohélet
- não é dado aos que partem voltarem. Se fosse, trocava tudo isto por um dia – um só dia, não mais que um só dia - com minha Baixinha adorada. E mergulharia feliz no buraco negro

29 agosto 2008

Sobre traduções

Janer Cristaldo

Entre os livros que comprei na última viagem está o excelente Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, ensaísta que foi conselheiro cultural da embaixada da França em Israel. São três volumes que estou devorando com avidez: L’Invention du monotheísme, La Loi de Moïse e Sacrifices et interdits alimentaires dans la Bible. Estou concluindo o segundo volume e já lamentando que só resta um para ler. Soler conhece a fundo tanto o Livro como o judaísmo, e os disseca com a precisão de um cirurgião.

Dito isto, citei em crônica passada um trecho do Gênesis: “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”.

Um leitor atento implicou com os deuses, assim no plural. Que em sua Bíblia está “os filhos de Deus”. De fato, nas traduções ao português que tenho em minha biblioteca, assim consta. Tanto na Bíblia de Jerusalém, quanto na edição pastoral publicada pelas Edições Paulinas. Também na editada pelo Centro Bíblico de São Paulo, a partir da versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsons, Bélgica. O mesmo consta de minha bíblia eletrônica, a reputada tradução de João Ferreira de Almeida.

É que usei a tradução proposta por Jean Soler, “les fils des dieux”. Como os judeus têm mais rigor quando se trata da palavra divina, fui consultar a Torá. Lá está: “os filhos dos senhores”. Melhorou um pouco mas não muito. O plural é mantido. Mas que senhores são esses que se opõem aos homens? Mistério profundo. Fui buscar então em minha tradução francesa da Bíblia, editada pela Alliance Biblique Universelle. Lá está: “les habitants du ciel”, também no plural. Mas quem são esses habitantes do céu cujos filhos acharam belas as filhas dos homens? O mistério persiste.

Como não entendo hebreu, prefiro ficar com a tradução proposta por Soler, que conhece hebreu: “les fils des dieux”. Pois os deuses são muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Escreve Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”.

A idéia de um deus único só vai surgir mais adiante, no dito Segundo Isaías. Reiteradas vezes escreve o profeta:

44:6 Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.

Num acesso de egocentrismo, Jeová se proclama o único:

7 Quem há como eu? Que o proclame e o exponha perante mim! Quem tem anunciado desde os tempos antigos as coisas vindouras? Que nos anuncie as que ainda hão de vir. 8 Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim?

Ou ainda:

45:5 Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. (...) 21 Porventura não sou eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim.

Só aí, e tardiamente, surge na Bíblia a idéia de um só Deus. Durante muito tempo, acreditei que a idéia do deus único havia sido contrabandeada do Egito, a partir de Akhenaton. Equívoco meu. Não havia monoteísmo nos dias de Moisés. O que me consola é saber que até Freud incorreu neste equívoco.

Mesmo assim, persistem no mesmo livro de Isaías registros dos deuses de então:

36:18 Guardai-vos, para que não vos engane Ezequias, dizendo: O Senhor nos livrará. Porventura os deuses das nações livraram cada um a sua terra das mãos do rei da Assíria? 19 Onde estão os deuses de Hamate e de Arpade? onde estão os deuses de Sefarvaim? porventura livraram eles a Samária da minha mão? 20 Quais dentre todos os deuses destes países livraram a sua terra das minhas mãos, para que o Senhor possa livrar a Jerusalém das minhas mãos?

Em suma, o deus de uma única tribo, de repente, se proclama o deus único. Soler nota uma safadeza nas traduções contemporâneas da Bíblia: Jeová está sumindo. Fala-se em Deus ou Senhor, em Eterno ou Altíssimo. Como Jeová é apenas o deus de Israel, melhor esquecer o deus tribal. Ao que tudo indica, alguns tradutores fazem um esforço para transformar um livro politeísta em monoteísta. Substituiu-se a monolatria - culto de um só deus nacional - pelo monoteísmo, culto de um deus único.

19 agosto 2008

A repulsa ao belo

Janer Cristaldo

O que pensávamos ser estupidez de muçulmanos está se difundindo mesmo entre judeus e católicos. Leio em El País que a arquidiocese do México publicou uma “lista de valores” sobre o pudor, na qual recomenda às mulheres católicas que não usem roupas provocativas nem entrem em conversações ou piadas picantes com pessoas de outro sexo. Tudo isto para evitar agressões sexuais, este é o pretexto. Considera-se ainda que a pornografia é uma prostituição mental. Mais um pouco e proíbem o Cântico dos Cânticos, certamente o mais belo livro da Bíblia.

"Não usa roupa provocativa. Cuidado com teus olhares e gestos. Não fica só com um homem, mesmo que seja conhecido. Não permite familiaridades de teus amigos ou parentes. Não admite conversas ou piadas picantes”. Estas edificantes recomendações foram escritas pelo padre Sergio Roman Del Real, como material preparatório para o VI Encontro Mundial das Famílias, a celebrar-se no México em janeiro próximo.

Uma das coisas boas do mundo contemporâneo, a meu ver, é esta nonchalance com que as mulheres se despem, mesmo estando vestidas. Nenhuma mulher anda nua nas ruas, mas tem tantas nesgas de nudez que é quase como se nua estivesse. Ao pudico sacerdote não agrada nem um pouquinho a generosidade com que as mulheres nos brindam com seus encantos. Padre Sérgio considera a exibição do corpo como prostituição: “Quando exibimos nosso corpo sem recato, sem pudor, o prostituímos porque provocamos nos demais sentimentos em relação a nós aos quais não têm direito, a não ser que desejemos ser propriedade pública, isto é, que nos prostituamos mentalmente. Isso é a pornografia: uma prostituição mental”.

Se alguém imagina que isto seja pudor de católico, traduzo outra notícia, do mesmo El País. No assentamento judeu de Betar Illit, na Cisjordânia, onde vivem 40 mil colonos ortodoxos, um jovem de 19 anos, David Biton, teve a cara quebrada pelos “guardiães do recato”, por ter saído na noite de sexta-feira passada com jovens de sua idade. Qualquer semelhança com a polícia dos costumes da Arábia Saudita não é mera coincidência. Um menina de 14 anos teve o rosto queimado por ácido por vestir calças. Qualquer semelhança com os radicais argelinos que jogavam ácido no rosto de universitárias que não portavam véu, tampouco é coincidência. “Não lhes agrada quando vêem um rapaz e uma moça juntos, embora sejam irmãos, ficam muito nervosos”, diz Biton.

No Cântico dos Cânticos, livro transgressor, encontramos situação semelhante. Sulamita - finalmente uma voz feminina na Bíblia - sai pelas ruas da cidade em busca de seu amado. "Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho". De onde deduzimos que gostava tanto dos beijos como do vinho. É bom lembrar que Sulamita, além de ser mulher, não é casada.

“De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, porém não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma. Busquei-o, porém não o achei. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?”

Mais adiante, se revela a verdadeira face de Jerusalém. Sulamita é espancada:

“Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me; tiraram-me o manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe digais que estou enferma de amor”.

Enferma de amor. A expressão é belíssima. Mas o universo predominantemente masculino de Israel não pode aceitar uma mulher enferma de amor. Os bravos filhos de Davi – aquele outro – conseguiram superar até mesmo seus primos sauditas. Se na Arábia da família Saud uma mulher não pode sair nas ruas sem a companhia de um macho da família, pelo menos pode sair com o irmão.

Em Betar Illit vivem os haredis, judeus ortodoxos que cumprem estritamente com as normas do “recato”, sempre lembradas em imensos cartazes distribuídos pela cidade: saia longa e camisa de manga longa para as mulheres. Para os homens, calças pretas, camisa branca e chapéu preto ou quipá, em função da seita à qual pertençam. Quem se desviar destas normas terá a ver-se com a polícia – clandestina – do recato.

Muitos rabinos endossam estas normas. Um outro haredi de Betar Illit, que teme revelar sua identidade, tenta explicar: “O mundo haredi não sabe muito bem como reagir. A Internet e os celulares derrubaram muros que nunca antes haviam sido ultrapassados em nossa comunidade, por isso agora os extremistas tentam levantá-los de novo. E por isso alguns rabinos legitimam a violência”.

A menina que teve o rosto queimado, de medo já nem sai de casa. Em junho passado, um desconhecido a abordou em um parque jogou-lhe o conteúdo de uma garrafa que só mais tarde ela descobriu ser ácido. “Teu rosto é lindo demais para esta cidade”, disse antes de atacá-la. Teve o rosto deformado e por sorte o ácido não lhe atingiu os olhos. O pecado da menina foi passear pela cidade de calças.

Segundo Moshe, um judeu ortodoxo de Beit Shemesh – cidade de 90 mil habitantes - que também não se atreve a dar seu sobrenome, em quase todas as cidades israelitas existe esta polícia do recato, o que varia é a intensidade da violência. “Em alguns lugares atacam e em outros intimidam. Não é um corpo oficial, atuam clandestinamente, mas todos sabemos quem são”.

Segundo Moshe, em Jerusalém há um grupo que joga ácido na roupa das mulheres quando a saia ou a manga das camisas são demasiado curtas. Outros sobem nos ônibus para assegurar-se de que as mulheres estão bem vestidas e não se misturam nos assentos com os homens. Tampouco hesitam em intimidar quem ouse organizar um concerto ou outras atividades de ócio.

Os judeus são hostis à beleza. Como também os cristãos, que surripiaram para si o Livro. Me reporto ao primeiro livro da Bíblia. Lá está, em Gênesis 6, 1:

"Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. (...) Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu; porque me arrependo de os haver feito".

Daí o dilúvio. Porque as filhas dos homens eram belas, Jeová extermina homens, animais, répteis e aves do céu. É de supor-se que os peixes, que nadavam, tenham sobrevivido. O Livro nada nos diz sobre esta grave questão teológica. Assim como torna o trabalho uma obrigação maldita, o primeiro livro da Torá amaldiçoa também a beleza.

O padre mexicano, os haredis e demais israelitas estão sendo apenas coerentes.

17 agosto 2008

DILMÃO - A MÃE DO PAC E DA PETROSAL

Conheci algumas pessoas que já estiveram na presença da Dilma e o consenso é que a mulher é louca. Não uma louca de jogar pedra, mas dessas de mandar a turma para o paredão. Sua arrogância e agressividade são famosas. Apesar disso, ela é o braço direito do Lula que a leva em seus comícios e a chama de mãe do PAC. Mesmo deixando de ser ministra de Minas e Energia, ela ainda se manteve como presidente do Conselho do Petrobras e concentra a coordenação de diversos programas do governo federal. Concentra, portanto, um nível de poder nunca antes visto na história do Brasil. Recentemente, ela assumiu a liderança na politização do pré-sal, sob a bandeira do nacionalismo. A pergunta que não quer calar é: ela será nossa próxima presidente da República?

Logo após o chefe de polícia geral da República, o Tarso Genro, prender o investigado-geral da República, o Daniel Dantas, ele levantou a bola de que era necessário prender os militares que participaram de tortura no regime militar. Isto foi mais ou menos na época da implantação do limite etílico sueco, o mais rigoroso do mundo no país. Muitos interpretaram esta jogada do comissário Tarso como uma cutucada na Dilma, que esteve envolvida em diversos crimes praticados na guerra civil travada entre os militares da ditadura e os guerrilheiros marxistas que sonhavam com uma ditadura cubana para o Brasil. Afinal de contas, por que parar nos crimes praticados pelos agentes do estado e por que não investigar também os crimes praticados pela geração 68?

O PAC, na verdade, é um grande saco onde o governo enfiou um monte de projetos que já existiam e se arrogou de patrocinador. Metade do PAC é a Petrobras. Verdade seja dita que quando o governo resolveu apadrinhar estes projetos, as resistências do IBAMA e outros órgãos passaram a ser tratadas como algo próximo de sabotagem do PAC e, portanto, gerou-se benefício para o país. A pressão foi tanta que a ministra Mariana escolheu a melhor hora para pular fora do barco e entrou o histérico Carlos Minc, que grita mas libera.

Quanto ao Pré-Sal, ele é o resultado de mais um dos projetos megalómanos dos militares, como a Embraer, e que buscava desesperadamente petróleo na bacia de Campos. Eis que 30 anos e muitos bilhões de dólares de investimentos depois, cai o pré-sal no colo do Lula. Este menino nasceu com a bunda virada para lua mesmo. Enfim, o atual marco regulatório e a modernização da Petrobras no governo FHC geraram previsibilidade e deram a robustez econômica para que fossem feitos os investimentos que resultaram na auto-suficiência já bastante explorada politicamente por Lula.

A genialidade da pequena política está na sua capacidade de criar discursos, alimentando ódios, dividindo o povo e encontrando inimigos e culpados. O Pré-Sal é uma riqueza maravilhosa da nação brasileira que pode ser explorado e aproveitado por toda a nação com a simples criação e elevação de impostos, como os países civilizados fazem. Ao invés disso, pensa-se em criar uma nova lei, uma nova estatal que seja expurgada dos investidores americanos e outras besteiras que não fazem o menor sentido, exceto dar a Dilma ou a alguma candidato do PT mais um discurso para a eleição de 2010. E que venha Dilma...

31 julho 2008

A Burocracia Contra-ataca

Outro dia assisti a uma palestra sobre Escritório de Projetos e descobri que a burocracia está de volta, agora em nova roupagem. Nunca jogue fora uma roupa que saiu de moda pois se você guardá-la tempo suficiente, e ainda continuar cabendo, você vai ter oportunidade usá-la. Infelizmente, na administração não é tão simples, as coisas voltam, mas com nomes diferentes e os incautos acabarão levando gato por lebre.

Não me entendam mal, nada tenho contra a burocracia no sentido weberiano, no qual se busca incentivar o mérito e se foca em procedimentos de forma a aumentar a previsibilidade dos resultados. Sou contra a burocracia como arma política, sou contra a burocracia para se criar dificuldade para se vender facilidades.

Uma boa burocracia é fundamental, vejamos o caso da usina Vladimir Lênin de Chernobyl, onde um oficial do partido decidiu fazer um teste não programado na madrugada de 25 de abril de 1986, sem seguir os procedimentos de segurança, causando o maior acidente nuclear da história e contribuindo para o final do socialismo real. A combinação de autoritarismo com alguns erros de projeto foi explosiva.

Em função exatamente destes tipos de acidentes que surgiu a disciplina de gerenciamento de projetos, que visa garantir que o produto entregue ao final de um empreendimento atenda às especificações do cliente. Além disso, o gerenciamento de projeto permite uma visão horizontal de gestão em organizações com funções verticais especializadas, permitindo uma melhor integração de recursos.

O engraçado desta palestra é que o mote do consultor era como vender o Escritório de Projetos para a organização, escondendo a sua natureza burocrática. Enganado o gestor com o belo neologismo, começaria a busca pelo poder. O escritório assumiria, então, funções operacionais, depois táticas e, finalmente, chegando às funções estratégicas, coroando o processo com um assento na diretoria para o chief project manager (CPO). A este processo ele chamava de maturidade do Escritório de Projetos.

Isto me faz lembrar dos meus debates com meu amigo marxista leninista que defende a Revolução como única forma de tomar dos ricos o seu dinheiro e extinguir o capitalismo que oprime os homens. Infelizmente, para nós, a sede de poder do homem sobreviverá ao fim do capitalismo e ao fim da história. E, tudo que for criado com as melhores intenções será usado para atender a sede de poder do homem.

A meu ver, o capitalismo e o mercado são positivos para o homem porque nos dá espaço para viver entre a opressão do capitalismo e a opressão dos políticos que usam o Estado para ampliar o seu poder. O estado não é mau, nem tampouco o mercado, mas sim os homens. Chavez, por exemplo, acha que a solução é criar um tipo de educação que enfraqueça laços familiares e fortaleça as relações de solidariedade entre os cidadãos, mas isto não é nenhuma novidade e esta baboseira já foi pensada por Platão.

Enfim, talvez o melhor seja aprendermos a viver entre duas forças perigosas e opressivas, mas que juntas anulam-se mutuamente e produzem um pouco de liberdade para os pobres mortais. Enfim, fico surpreso que não haja mais marxistas leninistas estudando Escritório de Projetos, afinal isto reflete bem o tipo de poder que eles gostariam de controlar.

24 julho 2008

A geografia desmente a aliança sino-russa

Em China e Rússia criam uma anti-Otan, Gilberto Scofield Jr. (em junho de 2006) comentava a criação de um bloco de ajuda mútua econômica na Ásia, a Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), cujos membros além de China e Rússia abarcariam vizinhos: Irã, Paquistão, Índia e ex-satélites soviéticos: Casaquistão, Quirguistão, Mongólia, Tadjiquistão e Uzbequistão, bem como possivelmente a Arábia Saudita.

Hu Jintao, presidente chinês, vaticinava diplomaticamente seus objetivos como assegurar a paz e a prosperidade econômica regional. O teor explicitamente antiocidental (antiamericano e antieuropeu) da organização ficou a cargo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad definir:

“Podemos transformar a SCO numa instituição forte e de influência econômica e política tanto em nível regional quanto internacional. E desafiar a ameaça das potências dominantes de usar a força contra outros países ou interferir em seus assuntos.”

Deste blefador já se esperava isto... Vladimir Putin, então presidente russo, é quem tinha o argumento de peso:


“A SCO pode ser um forte jogador global. Temos 3 bilhões de pessoas e isso faz diferença - disse Putin, que pregou a união dos países contra ‘ameaças desconhecidas’” (Grifos meus).

Zhang Deguang, secretário-executivo, chinês que representa quem realmente manda na organização obviamente assumiu o tom conciliatório ao afirmar que a SCO “nunca procurou o confronto com nenhum bloco”. E nem precisa...

Mas, entre os sintomas imediatos como seus membros pedirem a retirada de tropas americanas de seus territórios e a China e a Rússia fazerem exercícios militares conjuntos, o que mais a organização pode oferecer em termos de eficácia e resolutividade?

Da retórica de um mundo multipolar, com a suspeita de uma aliança de potências crescentes a desafiar o império americano – China e Rússia, a primeira com suas taxas de crescimento cavalares e a segunda com seu papel assegurado no fornecimento de matérias-primas, a realidade beligerante entre os dois países continentais é muito diferente.

Em termos econômicos, não há muito sentido em se falar em união entre China e Rússia. O anecúmeno entre Moscou e Pequim requer uma infra-estrutura de bilhões que não existe para fomentar um comércio mútuo, cujos resultados já são atingidos com maior satisfação a partir dos acordos já existentes entre parceiros chineses – o extremo oriente e o ocidente – e russos – a Europa. Isto sem falar que entre as duas capitais, a distância é maior que entre Londres e Washington.

Tudo é uma questão de custo/benefício, como não poderia deixar de ser. Se o comércio siberiano fosse algo mais valioso que o convencional, o brutal investimento em infra-estrutura poderia se justificar. Mas, se há algo que distingue esta “nova era” de tempos pretéritos é que não há mais como manter subsídios sem retorno viável e factível. Se um dia as especiarias e a seda foram suficientes para justifica-los, hoje os objetivos militares têm que mostrar sua fatura.

Há também uma grande assimetria que joga contra a Rússia. A leste dos Urais, o país é relativamente desprotegido se considerarmos sua população, enquanto que a China tem uma gigantesca massa humana na Manchúria na proporção de 15 para 1 contra os russos no extremo oriente. Só o que falta para Pequim é vontade de ocupar a região, o que não ocorre porque o país permanece voltado para si mesmo, seu interior e suas próprias questões.

Se para a Rússia, a vulnerabilidade está na posição – ter que lutar entre duas frentes possivelmente aliadas, China e Otan – para a China, trata-se de uma questão quantitativa e tecnológica: em termos militares/nucleares, a Rússia está muito à frente.

Geograficamente, no entanto, é difícil para a Rússia aproveitar seus recursos com menores custos, como seria o transporte hidroviário. Seus rios, diferentemente da América do Norte não se interconectam e há extensas costas bloqueadas pelos gelos. Sua melhor alternativa reside num remoto Mar de Murmansk, inócuo para o caso de assegurar uma hegemonia siberiana. O leste dos Urais guarda certa similaridade com a realidade africana: demasiado rico em recursos minerais, mas vasto, incomunicável e pobre em infra-estrutura.

Se para os russos, o comércio marítimo é uma necessidade premente, para os chineses, ele é “natural”, com sua população concentrada num litoral de águas tépidas, livre de obstáculos naturais. Analogamente ao comércio e a economia, a Rússia também não tem a primazia militar no meio integrador dos oceanos. Cabe aos EUA o domínio sobre os oceanos com 11 porta-aviões prontos para qualquer ação na região. O poder russo não é naval, nunca foi, mas americano o que lhe confere enorme desvantagem. E se a China quiser manter seu PIB de US$ 14 trilhões em mesmo ritmo de crescimento deve se pautar pela orientação civil e neutra nestas questões. Pequim, simplesmente, não irá matar sua galinha dos ovos de ouro por uma tresloucada aventura geopolítica.

Mesmo o coringa na manga dos russos que consistia em amarrar o fornecimento de gás das repúblicas da Ásia Central para a Europa – que no período soviético serviam ao norte do país – já não é mais o mesmo: estão arriscados a perde-lo. O interesse das ex-repúblicas soviéticas na SCO está nesta intermediação, que o Kremlin usa para obter concessões políticas dos europeus.

A China, por sua vez, tem seus próprios problemas. Com o crescimento econômico, movimentos de descentralização política são fomentados por suas províncias periféricas. Contra eles, duas linhas de dissuasão são adotadas por Pequim: diluindo a diversidade étnica com programas de migração da etnia Han (majoritária) e com o aporte de infra-estrutura (especialmente, ferrovias) no Tibet e Sinkiang. Aí reside um dos poucos pontos em que Pequim pode amenizar sua vulnerabilidade energética frente ao domínio logístico americano, na proximidade das reservas de gás da Ásia Central. Para tanto, seu domínio sobre as regiões tem que continuar num crescendo com a instalação de estradas, trilhos e tubulações. Isto, inevitavelmente, traz problemas a Moscou, cujo monopólio na rede de infra-estrutura (e a vantagem que detém sobre o consumidor europeu) se vê agora ameaçado.

A aliança entre China e Rússia tem na disputa pelos recursos da Ásia Central um nó górdio. E quem está mais próximo de desata-lo é a China para fazer diferença entre séculos de esquecimento da região pela Mãe Rússia.


* Fonte: ZEIHAN, Peter. “China and Russia’s Geographic Divide.” In: http://www.stratfor.com/. July 22, 2008.

20 julho 2008

O que significa a prisão da Daniel Dantas?

Esta semana tive uma discussão com o meu contato na esquerda de classe média sobre o caso Daniel Dantas. Ele defendia a execução do banqueiro. Afirmava que o ministro Gilmar Mendes é um corrupto e que o projeto petista gramsciano de tomada de posições estava condenado ao fracasso. A salvação seria a retomada de uma perspectiva leninista, afinal vivemos em uma cultura muito atrasada.

A minha leitura do episódio é diferente. Acho que o Daniel Dantas está sendo investigado não por ser ou não corrupto, mas por ter entrado em disputa com um grupo da cúpula petista. Nem todos se lembram, mas Daniel Dantas controlava a Brasil Telecom com um fundo americano e o fundo de previdência do Banco do Brasil. Quando se iniciou uma disputa com a Telecom Itália pelo controle do grupo e o fundo americano abandonou o seu lado, ele ficou nas mãos da Previ: surgiu então o conflito com a cúpula petista.

Nesta disputa, o governo o acusou de contratar a Kroll para espionar a cúpula petista do Palácio do Planalsto, enquanto o próprio Daniel Dantas acusou o governo de tentar extorqui-lo em US$ 80 milhões de dólares para obter o apoio do fundo de previdência do Banco do Brasil. Quem se lembra do Mensalão e do forte envolvimento dos fundos de pensão percebe que esta não é uma hipótese remota.

Como entender então a prisão de Daniel Dantas? Os delegados da Polícia Federal não fazem o que querem. Se alguém tiver curiosidade no organograma da Polícia Federal (http://www.dpf.gov.br/web/organog_grand.htm) vai perceber que a decisão de designar quatro delegados para investigarem durante os últimos quatro anos o Daniel Dantas foi tomada no nível da diretoria geral. Não é novidade que o grupo petista que se sentiu prejudicado por Dantas tenha usado a estrutura do Estado para perseguir o seu desafeto, afinal foi assim que Fernando Henrique acabou com a candidatura da Rosinha Sarney.

No âmbito do Ministério Público Federal é surpreendente que ele seja representado neste caso por um promotor singular ainda impúbere. Onde estão os procuradores seniores que deveriam estar ansiosos pelos seus cinco minutos de fama? Quanto ao juiz, eles não poderiam ter escolhido outro melhor, afinal este Fausto tem um viés bastante conhecido de jogar para a arquibancada. Por fim, vem a decisão desastrosa de promover a prisão de Daniel Dantas no âmbito das ações da Polícia Federal para provar que o governo Lula não é tão corrupto quanto ficou demonstrado no Mensalão.

Com o Lula no Japão, foi efetuada a prisão com a qual se congratula o governo de forma apaixonada na pessoa do comissário petista Tarso Genro e do próprio presidente da República. Sob os protestos do comissário petista o banqueiro tem seu hábeas corpus concedido pelo presidente do Supremo, que ainda tem de tratar com um insubordinado de primeira instância, rapidamente defendido pela corporação.

E como ficamos? Ficamos com este PT hipócrita que assiste ao enriquecimento da sua cúpula, enquanto persegue os seus inimigos e tenta vender esta imagem falsa e mentirosa de uma nova ética, quando na verdade continua valendo a velha máxima: Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.
Como já se disse muitas vezes, o melhor amigo de um jacobino é um corrupto. Sem um jacobino que proponha da noite para o dia que o limite alcóolico para se dirigir no Brasil seja igual ao mais rigoroso do mundo, o sueco, não seria possível aos policiais corruptos aumentaram de forma desmedida a propina para liberar os descumpridores da lei.
Para completar a palhaçada, o Lula repreende publicamente o delegado por afastar-se da investigação. Desde quando o presidente deveria se meter pessoalmente neste nível da Administração? Isto faz sentido somente em uma República Sindicalista populista onde o cumprimento da lei passa a ser vista como uma graça, distribuída e capitalizada pelo grande líder. Assim é a política, as coisas acontecem e os políticos tentam tirar proveito.
O problema desta palhaçada toda é que quando o Lula e o PT aparelham o Estado, também promovem a desmoralização das suas instituições, afinal, ou a lei serve para todos ou não serve para ninguém. Se a lei é usada para perseguir os inimigos do governo então a sociedade não a reconhecerá como uma lei legítima. Sem leis e instituições não temos democracia nem uma república. Sem legitimidade não há lei, mas apenas violência e arbitrariedade.
Diante desta realidade, deste autoritarismo, como as pessoas reagem? Na antiga União Soviética formavam-se máfias. No Brasil, o favorecimento alimenta a mentalidade do cada um por si e Deus por todos, da lei de Gerson. Assim, o governo petista nos leva exatamente ao lugar de onde partimos, ou seja, uma sociedade onde a lei não é vista como um bem de todos mas como uma arma dos poderosos contra os seus inimigos.

09 julho 2008

Globalismo, o que diabos é isto?

Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:

Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”.
Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer
o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial.
Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?

Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...

Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?

Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.


Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.
2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.
3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates.

24 junho 2008

Dos quadrinhos à teologia, assim surgem as religiões


Janer Cristaldo

Há 75 milhões de anos, dezenas de planetas eram governados por um líder maligno, Xenu. Para sanar um problema de superpovoamento, Xenu teria segregado bilhões de seus habitantes na Terra. Eles foram mortos com bombas de hidrogênio, e seus espíritos - os thetans - passaram a vagar pelo planeta. Os thetans foram ainda submetidos a um processo que os tornou inaptos a tomar decisões. Cada habitante da Terra atual seria uma reencarnação desses espíritos.

Que tal? Parece história em quadrinhos. No entanto, são os fundamentos de uma nova crença em franca expansão, a cientologia. Este é o resumo da religião fornecido pelo Estado de São Paulo de hoje. A seita foi fundada por Lafayette Ron Hubbard (1911-1986), escritor de ficção científica. A cientologia é certamente a mais bem sucedida de suas ficções.

Toda a religião é ficção, é claro. Hubbard adaptou a sua à chamada era espacial. Enquanto os teólogos católicos recém começam a admitir a vida em outras galáxias, Hubbard situa seu gênesis em um conglomerado de planetas. Terá tido influências de paladinos célebres das histórias em quadrinhos: Flash Gordon, Superman, capitão Marvel. Numa época em que até marmanjos lêem histórias em quadrinhos e críticos literários as levam a sério, sua religião tinha tudo para prosperar. Entre seus crentes e financiadores, estão estrelas como Tom Cruise, John Travolta e Lisa Marie Presley. A religião foi criada nos anos 50 e já tem quase 10 milhões de fiéis. Tribunais da Alemanha, Áustria e Holanda definiram a cientologia como seita gananciosa, filosofia inescrupulosa, lavagem cerebral.

Até aí morreu o Neves. Qual religião não é uma uma seita gananciosa, uma filosofia inescrupulosa, uma lavagem cerebral? Se levarmos adiante a definição dos tribunais europeus, o Vaticano seria condenado por fraude. Nos EUA – relata o Estadão - os cursos para evoluir na Cientologia são ministrados até em um cruzeiro luxuoso, chamado de Freewinds, e podem chegar a custar US$ 400 mil. Isto é: se você investe tal montante na aquisição de uma doutrina, vai querer no mínimo o dobro de volta.

A nova seita foi montada a partir de fragmentos de budismo, hinduísmo e tradições cabalísticas. (E histórias em quadrinhos, é bom lembrar). Como são montadas, de um modo geral, todas as religiões. O judaísmo, por exemplo, surge a partir de crenças egípcias. O poderoso deus único, Jeová, é um xerox de faraó Akhenaton. Sem o Egito, não existe a Bíblia. Que por sua vez gerou o cristianismo, a nova seita que se apossou indevidamente do antigo Livro dos hebreus.

Não há religião hoje que não seja uma sopa de religiões antigas. Os tais de neopentescostais, que infestam as cadeias de televisão no mundo todo, são outros que se apossam do Livro a seu modo. O mesmo fizeram os espíritas. Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, misturou evangelhos com a teoria do magnetismo animal do austríaco Franz Anton Mesmer e construiu sua ficção. Mesmer era médico, estudava teologia e criou a picaretagem da imposição das mãos. Curiosamente, Kardec, que é francês e está sepultado no Père Lachaise, em Paris, é praticamente desconhecido em seu país. Sua tumba está sempre cheia de flores, colocadas geralmente por brasileiros.

Ainda por exemplo, o tal de Santo Daime, que comentei no ano passado. É um culto sem pé nem cabeça, criado por um seringueiro da Amazônia, cujas cerimônias consistem na ingestão da ayahuasca, beberagem feita de um cipó, que produz vômitos e diarréias, as chamadas “peias”. A nova empulhação cultua o Cristo,a Virgem... e a floresta amazônica, ecologia oblige. Pelo jeito, as tais de peias não eram muito convincentes a ponto de por si só arrebanhar acólitos. O Santo Daime então adaptou-se. Assumiu elementos de hinduísmo, umbanda e hare krishna. Deus para todos os gostos. Aqui pertinho de São Paulo, em Nazaré Paulista, a escola espiritual tem dois gurus, um tal de Sri Prem Baba, o mestre da cerimônia, que pelo jeito é tupiniquim com nome indiano para melhor enganar. Mais o guru Sri Hans Raj Maharaji, que vive na Índia, mas já apita no Santo Daime. Mais o sedizente mestre Raimundo Irineu Serra, seringueiro brasileiro neto de escravos, que morreu em 1971, e teria sido o fundador da doutrina do chá de cipó.

No Brasil, o espiritismo fundiu-se à umbanda, em um estranho caldo que mistura uma doutrina criada por um francês, a partir de teorias de um médico austríaco, com crenças animistas da afrodescendentada. A origem desta fusão é curiosa e merece ser lembrada.

Segundo J. Alves Oliveira, em Umbanda Cristã e Brasileira, no dia 15de novembro de 1908, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou numa sessão espírita kardecista em Neves, São Gonçalo, município fluminense próximo ao Rio, então capital federal.

“Foi um escândalo" – escreve Matinas Suzuki, na Folha de São Paulo -. “Embora haja indícios de incorporações de espíritos de índios e de escravos negros nas diversas formas de macumba que existiam no Rio de Janeiro do século 19, os kardecistas não os admitiam por considerá-los espíritos marginais e pouco evoluídos. Quem recebeu o caboclo indesejado, e logo em seguida o preto-velho Pai Antônio, foi Zélio Fernandino de Moraes, um rapaz de 17 anos que se preparava para entrar para a Escola Naval”.

O achado do Zélio Fernandino parece ter vindo de encontro a alguma inconsciente aspiração brasílica e fez escola. Assim como os católicos se apossaram do livro judaico, os umbandistas reivindicaram para si o mediunismo, trouvaille de Allan Kardec. Segundo Alves Oliveira, o caboclo teria assim se revelado: "Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios [caboclos], devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho [o médium Zélio de Moraes] para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou".

O espiritismo então abrasileirou-se, para desalento de seus mentores europeus. A lambança é tal que já há centros orixás da umbanda, santos católicos e retratos de daimistas posicionados em lugares estratégicos do terreiro. E já existe inclusive o umbandaime, que promove a mistura entre a doutrina do daime com a religião afro-brasileira.

O espiritismo, por sua vez, vingou no Brasil... e nas Filipinas. Terceiro Mundo é o ambiente ideal para o florescimento destas ficções criadas pelos gigolôs das angústias humanas. Cientes disso, os cientólogos – tidos hoje como criminosos em alguns países da Europa – estão se instalando no Brasil. Como São Paulo é o grande instrumento de percussão do país, escolheram São Paulo como sua sede. Começaram numa ruazinha discreta no Tatuapé, zona leste da cidade, por onde já teriam passado, desde os anos 90, 15 mil pessoas. Lucia Winther, a porta-voz da seita no país, quer agora montar uma sede luxuosa para a nova religião.

Se conheço os bois com que lavro, dentro em breve os cientólogos estarão concorrendo firme com o bispo Edir Macedo. Religião e tabagismo, costumo afirmar, só se expandem em países subdesenvolvidos.

20 junho 2008

Corrupção e Revolução

Sempre que vejo algum indivíduo politicamente bonitinho querendo, como se diz por aí, “cagar regra” fico pensando em como os canalhas vão tirar proveito daquelas boas intenções. É o caso do CSS que vem mais uma vez para salvar a saúde, por exemplo. Quem não quer que o Sistema de Saúde melhore? Ninguém. Agora, em cima de um desejo legítimo alguns patifes propõe algo que defendem como indispensável e acusam aqueles que a isto se opõem de se oporem ao desejo legítimo. Patifaria básica.

Outro erro comum é confundir igualdade com justiça. Todos nós desejamos uma sociedade mais justa, onde as pessoas tenham oportunidade de desenvolver os seus talentos. Agora, defender uma sociedade onde os talentos das pessoas sejam remunerados de forma igual é absurdo. A diferença é saudável até certo ponto.

O PT, para mim, representa a patifaria organizada. É uma máquina de poder gramsciana que busca anular a sociedade civil cooptando e ameaçando os seus críticos ao mesmo tempo em que celebra uma aliança com os setores mais atrasados da nossa sociedade. Em nome desta aliança eles loteiam a administração para quadrilhas geradoras de caixa 2 para a base aliada. Talvez isto seja melhor do que uma Revolução.

Em uma Revolução não existem nuances de cinza. Ou alguém é vermelho ou é Blanco. Qualquer discussão ou questionamento é considerado traição. Morrem os questionamentos e nascem as certezas. O radicalismo e a perseguição são filhos naturais deste ambiente. E tudo isto para que? Por uma sociedade melhor? Por um ser humano melhor?

Este é um problema da falta da religião. Quando alguém não dispõe de uma religião onde possa ser um fanático profundamente identificado então costuma se tornar um leninista ou coisa que o valha. Alguém que enxerga na sociedade burguesa a mesma decadência que o mais fanático religioso fundamentalista. Infelizmente, uma grande formação intelectual não nos salva destes enganos.

Talvez, a solução sensata e mais humana seja a convivência plural entre os corruptos, os idealistas e os inconformistas sempre em um delicado equilíbrio que em alguns momentos tende para a corrupção, em outros, para a insensatez e em alguns poucos momentos para algumas propostas de solução real. Deixemos para os canalhas e os idealistas as propostas de imposto único e desarmamento como panacéias.

Enquanto isto, no mundo real, cheio de incertezas e nuances, o IPEA propõe o fim do COFINS por ser um imposto sobre consumo que pode reduzir três vezes mais a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini do que o Bolsa Família, ou seja, o Brasil passaria de 0,56 para 0,53. E pensar que o Bolsa Família só reduziu a desigualdade em 1%. Como diz o meu amigo marxista, o que reduz desigualdade ainda é o crescimento.

07 junho 2008

O Perfeito Idiota Latino Americano

Recentemente, tive oportunidade de assistir a uma palestra sobre a integração latino-americana proferida por um eminente professor que foi orientador e atualmente é assessor de um dos mais importantes membros da nomenklatura petista e um dos mais altos tecnocratas do estado brasileiro. Nesta palestra pude observar a disputa entre valores e interesses, entre socialismo, nacionalismo, imperialismo e até questões de legitimidade de políticas públicas.

Este professor defendia como política de estado a integração latino-americana. Curiosamente, a política de integração latino-americana defendida pelo PT assim como a política de quotas raciais não contam com o apoio popular pois são criações de grupos de interesses partidários. Estes temas não foram temas de campanha e, portanto, carecem de legitimidade popular. Isto é grave, pois de acordo com os valores petistas deveria haver partipação popular na formulação de políticas públicas.

Nestas horas eu me lembro do pragmatismo do velho Czar Stalin, que derrotou Hitler e que soube temperar o comunismo soviético com nacionalismo e imperialismo não muito diferente da atual China onde o nacionalismo e a prosperidade econômica são os sustentáculos do consenso social que mantém o poder político do Partido Comunista.

Enquanto isto, as autoridades petistas enxergam o Brasil a partir de um preconceito de classe como se o Brasil fosse o explorador dos vizinhos e, portanto, expropriações de ativos ou cidadãos brasileiros seriam devidas e justas. O caso do Paraguai é emblemático. Petistas defendem a repactuação de Itaipu de forma a pagar uma suposta dívida histórica decorrente da Guerra do Paraguai. Se for este o espírito de integração petista é melhor continuarmos isolados pois será mais barato e mais benéfico para a população brasileira.

Curiosamente, no âmbito da política doméstica, o PT prefere se aliar as oligarquias regionais do que aos sociais democratas com quem compartilham valores. Isto é natural, afinal, o PT e o PSDB disputam as mesmas faixas do eleitorado e, portanto, são inimigos apesar de compartilhar das mesmas opiniões sobre muitas questões. Temos ainda a questão do bairrismo paulista e ainda questões pessoais entre os líderes petistas e os líderes do PSDB que são obstáculos a uma aliança. Aliás, até dentro do partido é assim também. Agora que a Dilma está ganhando força começam a surgir denúncias de dentro do próprio governo, possivelmente do grupo do seu padrinho político, o José Dirceu denúncias contra a poderosa ministra que parece ter tomado espaço demais de outros grupos e assumido a hegemonia do seu próprio grupo.

Lembram-se que antigamente a esquerda acusava a direita de ser entreguista como no caso da ALCA, agora é a vez da esquerda de ser entreguista com a UNASUL. Felizmente, a insensatez de nossos vizinhos talvez nos salve deste entreguismo petista. Vejam o caso da Argentina que subsidia o gás para seus consumidores que chegam a pagar 34 vezes menos do que os consumidores paulistas (US$ 1 por MBTU) ou da Bolívia que remunera as empresas prestadoras de serviço com U$ 10,00 por barril na boca do poço enquanto o petróleo está em US$ 130,00. A Bolívia assinou acordo com os argentinos vendendo um gás que não tem e expropriou parte das reservas que garantem o abastecimento brasileiro para abastecer os seus cidadãos. Por sua vez, a Argentina parou de vender 15 milhões de m3 para o Chile dando preferência ao abastecimento do mercado interno. Os chilenos estão tendo que abastecer as suas térmicas com cerca de 40 caminhões de diesel por dia a preços absurdos para não ficar no escuro, ou seja, na hora que o bicho pega a esquerda populista escolhe sempre os seus eleitores em detrimento de qualquer outra coisa e porque não da integração. Se apesar de tudo isto ainda quisermos integração é porque somos idiotas.

Felizmente, a Dilma tem um viés stalinista autoritário e nacionalista e ela talvez possa triunfar sobre estes grupos cujas políticas são tão deletérias para o Brasil afinal a integração pressupõe a comunhão de valores e a capacidade de resolver conflitos e os hermanos acreditam que farinha pouca meu pirão primeiro.....

05 junho 2008

Nunca antes na história deste país se viu....tanta corrupção

Todo chefe é responsável pelos atos dos seus subordinados. Felizmente, as circunstâncias históricas são favoráveis ao Brasil e podemos nos dar ao luxo de ter como presidente um fanfarrão irresponsável que nada sabe. Muitos podem se perguntar onde está o nosso fanfarrão irresponsável e ébrio. Ele está viajando ou diante de alguma platéia sempre pronto para dizer alguma besteira que ele sabe que um editor de jornal não resistirá em publicar. E, ainda tem o displante de criticar a imprensa por fazer o trabalho dela que é fiscalizar e apontar as falhas do governo.

Precisamos reconhecer, entretanto, que houve alguns avanços. Nunca antes na história deste país tivemos uma presidente mulher porque quem de fato governa o país como chefe do Executivo é a Dilma Vana Roussef. Ao menos, se ela for eleita presidente em 2010 não estaremos sendo enganados, como fomos em 2002, quando votamos no Lula e levamos o Zé Dirceu e em 2006 quando ficamos com a Dilma.

O Lula é um grande covarde sem um pingo de caráter. O seu governo não tem sequer o caráter de assumir a recriação da CPMF. Ao invés disso, mudaram o nome do imposto, esconderam ele dentro de outra lei, propuseram isenções para quem ganha menos de R$ 3.000, disseram que só começa a valer ano que vem, e estão tentando aprovar com quórum simples por não ser questão constitucional. Por fim, os velhacos puseram a sua bancada de ratos na Câmara para propor enquanto o presidente viaja para o exterior para se distanciar o máximo que pode da matéria em questão. E, ainda tem a falta de criatividade de dizer que é para salvar a saúde.

Esta semana chegou ao fim a CPI dos Cartões do Executivo que começou com uma série de denúncias de abusos praticados por inúmeros agentes do governo Lula e terminaram sem investigar os envolvidos na produção do dossiê contra o FHC. Aliás, qualquer pessoa que não seja analfabeta funcional sabe que um banco de dados não é um dossiê mas sim uma fábrica de dossiês. E, esta tudo lá, à disposição da primeira-ministra Dilma. Mais um escândalo se avizinha, mas são apenas US$ 5 milhões que alguém ligado ao Lula levou para facilitar a venda Variglog...Isto não vai dar em nada, afinal, o PT estratégica e covardemente escalou o PMDB para liderar o bloqueio a esta investigação.

Aliás, um dos motivadores desta CPI foi os modestos gastos da ministra dos Quotas Raciais o que ilustra mais uma das características de um governo deste categoria, ou seja, a geração de soluções mentirosas. Vejamos o caso das Quotas Racias que implantadas no país mais rico do mundo onde os negros são de fato uma minoria conseguiu gerar após quase 50 anos apenas uma elite negra do qual temos um expoente fantástico, aliás, que concorre à presidência dos EUA, mas quanto a média da população negra pouco mudou.
O governo Lula nos roubou muitas coisas. Talvez a mais importante seja a nossa capacidade de nos escandalizarmos. Como já disse o Cristovam, o Bolsa Família é corrupção e ela está profundamente entranhada na nossa cultura. Outro dia mesmo, a NET me tirou dois canais. Quando fui ver eles tinham me mandado um contrato ao qual eu anui simplesmente por ter continuado a pagar que esclarecia que eu não direito aqueles canais. Aliás, quando reclamei eles insistiram em me vender mais alguns serviços. Fiquei puto e reclamei na ANATEL. Tudo resolvido. Eles não erraram e eu ganhei mais dez canais. É frustrante que eu possa ser comprado com apenas 10 canais....
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