Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.
Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.
Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).
Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.
Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.
A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.
Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.
Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.
Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!









