18 julho 2012

Churrasco francês é razoável?

Meu primo escreveu:

"...Há uma (...) categoria de experiências - não verificáveis, singulares porque não são generalizáveis, portanto não científicas, mas que merecem outra atitude, não necessariamente a aceitação, mas pelo menos o benefício da dúvida, uma vez relatadas por pessoas saudáveis, que não se enquadram em nenhum dos numerosos indicadores que caracterizam os farsantes.
Joana d'Arc (estou lendo uma biografia dela apoiada em registros de seu julgamento, dos quais nos chegaram diferentes versões) é um bom exemplo. As adulterações produzidas para condená-la visavam incriminá-la de bruxaria. Era uma jovem camponesa distante da política e que, lá pelas tantas, começou a falar que ouvia uma voz que, para ela, era a voz de Deus.
Ninguém precisa endossar essa alegação. É apenas um exemplo do tipo de singularidade a ser examinada atentamente, uma vez que a hipótese de delírio não se confirma em suas falas. A forma de se conduzir nas diversas situações em que fracassavam políticos, diplomatas e militares atestam - diferentemente de um delírio - uma refinadíssima capacidade de lidar com a realidade. Ao invés de jogar todas as singularidades dentro do mesmo saco de lixo, caberia nos perguntarmos: O que aconteceu com Joana d'Arc? Se a ciência chegar um dia a explicar e a replicar, tanto melhor! Em sã consciência, uma boa resposta é 'não sabemos'. Em sã consciência, também, é possível algo na linha de 'eu acredito que... (inserir a crença que faz mais sentido para cada sujeito)'. Apenas deve ficar claro que 'eu acredito' não é prova de nada, não é justificativa para imposição da mesma crença a quem quer que seja, nem deve servir de pretexto para fechar questão. (...)"


Devemos estar abertos à possibilidade de duendes existirem e se protegerem da chuva sob cogumelos? Sim, por que não? Tão logo apareçam evidências, os de fato racionais se renderão a elas. Ou passarão a ser crentes na não existência de duendes, do quilate dos que acreditam que o homem não foi à Lua.

Quem precisa apresentar evidências da existência de algo extraordinário são aqueles que a defendem. Quase sempre os que não acreditam não terão como prová-la falsa. Não se demonstra cientificamente que ETs não existem, ainda que cada milímetro quadrado do universo seja esquadrinhado, porque não se pode ter absoluta certeza de que não sejam capazes de ficar invisíveis, por travessura ou por medo. Por isso devemos pensar em termos de graus de razoabilidade. Creio que as probabilidades de haver vida fora da Terra não sejam remotas, mas é improvável que ETs estejam entre nós, que empilharam pesados blocos de pedra no Peru há milhares de anos (só porque não sabemos como quechuas e lhamas os possam ter transportado), que aparecem para caipiras, atores da Globo e ufólogos, que sempre se escondem dos céticos, como fazem justamente os parentes desencarnados, os anjos e as fadas.

É racional crer na existência do Bóson de Higgs, ainda mais agora, que a probabilidade de que exista é de 99,9999%, segundo li. Por outro lado, pode-se dizer que há 0,0001% de certeza de que o criador do mundo falou com uma francesa de nome Joana mais de meio milênio atrás? Acho o número superestimado. A propósito: Criador do mundo? Ele existe? Existe o supra-deus, o criador do criador?

O que eu tenho certeza é de que onde há contradição não há verdade. Sim, quanticamente, o Gato de Schrödinger pode estar vivo ou morto. Mas não poderá estar vivo e não-vivo ao mesmo tempo, salvo com malabarismos linguísticos nos quais teólogos, marxistas e outros homo ideologicus são versados. Digamos que as alegações de Joana d'Arc sejam verdadeiras. Então a Bíblia é falsa, porque agora não se trata de conflitos entre Novo e Velho Testamentos. O Novo vige, não? E Jesus, que não era um nacionalista zelote a  bradar "romans go home" pela Palestina, como Brian, não ordenaria cristãos que falam francês a matarem correligionários anglófonos para os primeiros retomarem Orleans. Se a Bíblia é falsa, como crer em um Jesus divino, em sua ressurreição, na absurda trindade de Tertuliano? E a partir daí, como acreditar na própria Joana d'Arc?

E mais: por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana? Endossaria, no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana d'Arc, desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira até o assassínio em nome de um deus, ou de fronteiras.

A "refinadíssima capacidade de lidar com a realidade" elevaria o grau de razoabilidade das alegações da santa guerreira cuja influência sobre blockbusters atuais tem sido tão nefasta, de Alice no País das Maravilhas à Branca de Neve e o Caçador, que culminam irritantemente com pias Joanas d'Arc a conduzir exércitos contra o mal após discursos de sindicalista?

Se Einstein, acreditando prestar um grande serviço à uma crença que professasse, tivesse afirmado que a Teoria da Relatividade havia sido ditada por anjos, os céticos ficariam em uma sinuca de bico. Calar-se-iam por um tempo, provavelmente. A brilhante teoria não seria prova de que existem anjos, mas conferiria autoridade para inverdades não relacionadas a ela, professadas por seu autor. "Como um ser humano sozinho amontoaria tantos números e letras para derrubar verdades físicas tão assentes?", "por que mentiria tal nobre homem?", "como se enganaria dessa maneira um homem tão meticuloso e sábio?", seriam possíveis comentários de líderes religiosos em júbilo. Contudo, bastaria um fóton superar a velocidade da luz, em um acelerador, séculos depois que fosse, para derrubar o postulado de Einstein de que não se pode ultrapassá-la. E os anjos cairiam também, de uma altura que só Lúcifer conheceu - existam tais inúteis mensageiros alados ou não. Já uma francesa da Baixa Idade Média, em uma época de guerras santas, intolerância, superstição, em que a Igreja Católica definia até a posição em que se podia fabricar mais cristãos, naquela época de Terra Plana, de monstros marinhos, de pogroms pios, peregrinações fanáticas, cilícios e flagelos, de grotescas relíquias, em que o continente inteiro estava defumado em incenso, alguém falar com seriedade sobre fantasias tidas como tão verdadeiras quanto a realidade tangível não reforça em nada a probabilidade de serem verdadeiras.

Em tal contexto, apelar para o "Deus ordenou" talvez fosse o único modo de uma menina com sanha guerreira ingressar na diplomacia e nas armas, afinal estamos no século XV. E sem falar na profecia, da virgem de Lorena que reconquistará a França, responsável em parte pela aceitação geral - após um rigoroso exame ginecológico, é claro.

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. É uma lei básica. Infelizmente, não vale para os que amam crer mais do que amam o bom senso e a verdade.

25 junho 2012

Torturadores e Torturados

Recentemente foi criada a Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Pessoalmente, acho este nome muito inconveniente. Parece aquelas coisas da cultura corporativa do tipo Código de Ética. Mas, afinal, faz parte do marketing político dar-se um nome bonito para uma coisa não tão bonita. Por exemplo, quem não gosta chama de cotas raciais e quem gosta chama de ação afirmativa.

Para começar, quem criou a tal Comissão foi justamente um grupo de pessoas que foram torturadas. Conhecendo a natureza humana, um motivo que parece óbvio é a busca de vingança. Os ex-torturados dizem que não, que querem apenas a Verdade. Bem, para garantir que a Verdade deles seja encontrada, eles mesmos designaram os membros desta Comissão ilustre.

Não se trata aqui de defender a tortura. Esta é uma prática covarde, para dizer o mínimo. Nos Estados Unidos, recentemente, houve quem a defendesse com base na possibilidade de se salvar centenas de vidas de atentados terroristas. De qualquer forma, a falta de empatia que é necessária para tal prática é algo sub-humano. De fato, não se poderia descrever tal prática nem como animal, não é algo sequer digno de um réptil.

Há 40 anos vivia-se uma guerra civil deflagrada por um grupo esquerdista radical que pretendia instalar no Brasil uma ditadura ao estilo cubano. Aí chegamos ao que realmente está em questão na Comissão da Verdade, na minha opinião. Hoje, temos um grupo que chegou ao poder que é constituído por vários dos ex-torturados. Chegaram a ele não pelas armas, nem tampouco para instalar uma ditadura cubana mas por caminhos democráticos.

Estas pessoas passaram por um grande calvário, várias delas passaram anos presas e outras na clandestinidade. Por outro lado, se os militares não tivessem vencido tal sublevação, ainda poderíamos estar vivendo a situação da Colômbia, por exemplo, que vive uma guerra civil há quase 50 anos, ou, se eles tivessem vencido, teríamos quem sabe uma nova Cuba. Enfim, prefiro a vitória dos militares.

O que está em questão, eu acho, é a necessidade destas pessoas de afirmarem que sua causa era justa. Na minha opinião, não era. Uma coisa é a tortura de inimigos do Estado, outra é dizer que eles estavam certos. Creio que eles estavam errados e acho que a tortura aplicada foi também um grande equívoco. Um equívoco tão grande que lançou uma sombra na vitória dos militares sobre esta insurreição que teria sido tão negativa para o país.

Creio que os verdadeiros heróis daquela ocasião não eram estes rapazes da geração 68 nem tampouco os militares. Penso que os verdadeiros heróis tenham sido os membros do antigo MDB e outros que foram os verdadeiros responsáveis pela redemocratização do Brasil. Lula, por exemplo, com sua liderança no ABC, foi um dos que nunca foram torturados e que muito mais contribuíram para a redemocratização do país.

14 junho 2012

Disneylândias da Europa

 Neuschwanstein no Itaimbezinho

Uma reprodução fiel de um quadro renascentista é sempre mais admirável e valiosa do que uma plotagem em tecido da fotografia da mesma obra. Pinceladas, pequenos empastes e veladuras poderão ser examinados de perto, pela visão e tato, com a certeza de que se está no lugar que o copista ocupava enquanto reproduzia a obra. É uma cópia, sim, mas exclusiva. Na impressão apreciamos as formas, tons e cores, sabendo que o valor intrínseco, físico, é pequeno: os custos dos cartuchos de tinta, do substrato e do chassis, provavelmente. Em ambos os casos, contudo, a genialidade é captada como que por um espelho, através do qual se divisa a pintura autêntica.

Quando o original se perde, é destruído, ou tem sua existência inferida pela reprodução, como algumas estátuas romanas esculpidas a partir de gregas, estas nunca admiradas senão pela Antiguidade, a cópia tem seu valor catapultado para as alturas. Ainda mais neste caso, em que muitas cópias são contemporâneas às originais e o mármore empregado, italiano, é superior, o que explica vermos mais narizes e dedos nas estátuas latinas de vinte, vinte e cinco séculos atrás, do que nas gregas de mesma idade. A cópia, nesses casos, passa a ser virtualmente a original. Grandes templos de madeira do Japão são réplicas de construções de mais de mil anos atrás, às vezes em escala reduzida, como o Todai-ji em Nara, que visitei no ano passado. O templo budista é do ano 743 e foi destruído várias vezes por incêndios e terremotos. O edifício atual é do século XVIII e 30% menor do que o primeiro, erigido pelo Imperador Shomu. Ainda assim, se não me engano, é a maior construção em madeira do mundo. Algumas catedrais medievais europeias, perante as quais turistas em êxtase imaginam artesãos de uma corporação de ofício a talhar, por várias gerações, seus contrafortes, arcobotantes, pináculos e nervuras da abóboda, são reproduções de poucas décadas atrás, erguidas em canteiros de obra modernos com tecnologia de ponta, por meio de guindastes, talhadeiras elétricas. São próteses de valiosos e únicos membros urbanos decepados em guerras ou terremotos. De igual modo, o copista hábil no óleo talvez opte por auxílio tecnológico para transpor as formas com precisão para a tela. Poderá imprimir a fotografia em tamanho natural, marcar os pontos de referência com absoluta exatidão, usar o conta-gotas do Photoshop para saber a dosagem aproximada de azuis, amarelos e vermelhos.

Não duvido que haja falsificações espalhadas por museus mundo afora. Serão tratadas como originais até serem desmascaradas. E há ainda obras de arte atuais em estilo antigo. Imaginemos uma tela de tema mitológico ao estilo de Ticiano, como se a alma deste tivesse possuído o pintor (não desastradamente como outros gênios incorporaram em Gasparetto), produzida em um loft de Nova Iorque ao som de Miles Davis, com o burburinho urbano vindo da janela, um copo de Jack Daniel's ao lado de bisnagas Winsor & Newton. Se tal obra fosse exposta no Louvre como um maneirista da escola de Ticiano, visitantes seriam arrebatados por aquela maravilha. Se vissem a mesma obra sendo criada no loft, talvez diriam com desdém: "mais um pastiche americano". Quem daria o Nobel de Literatura para o autor de um livro em grego antigo nos moldes da Odisseia? Embora sua habilidade devesse ser louvada, não poderíamos compará-lo a Homero, muito menos achar que suas obras têm importância equivalente.

O castelo de Neuschwanstein, no sudoeste da Baviera, é considerado por muitos o castelo mais bonito da Europa. "É um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o 'cartão postal' daquele país", lemos na Wikipedia.

Esta arquitetura fantástica é a avó do castelinho da Bela Adormecida que vemos na Disneylândia. É um pseudo-românico enfeitado, construído com mil anos de atraso por um reizinho perdulário fanático por óperas de Wagner. Chega a ser compreensível, porque durante o romantismo houve um retorno ao medievo. Mas Neuschwanstein é meramente um belo cenário, tão mentiroso quanto qualquer cenário de ópera, embora possa ser visto de ângulos internos e externos. Sua estrutura é de concreto e suas vedações de alvenaria ordinária revestida com cascas de pedra. Esqueçamos da belísima paisagem em que Neuschwanstein está inserido. Ele só está lá porque ela é bela, não porque se necessitava de um sítio seguro, estratégico, a salvo de povos hostis munidos de tochas, catapultas e aríetes. Foi construído com técnicas modernas, nunca houve um rei a comer faisões em meio a vassalos, nunca uma corte se instalou por lá, os pesados portões nunca estiveram entre sitiados e invasores, a assimetria do conjunto de torres não se explica por acréscimos que reis fizeram através dos séculos, por demanda da necessidade, que é o ingrediente de espontaneidade dos castelos medievais; nunca arqueiros estiveram protegidos detrás de suas seteiras, que não existem para compor a estética de castelinho, adotada em motéis temáticos de beira de estrada e em réplicas sofríveis como o Chateau La Cave, em Caxias do Sul, minha cidade natal. O cartão postal alemão não traduz um estilo, uma época. Quem olha aquela arquitetura eclética não imagina que foi concluída nos estertores do século XIX.

Já me disseram que a obra de arte é uma contrafação do real, que toda arte é mentirosa. Mas arquitetura não é apenas obra de arte, como quer Niemeyer, não é mentira, como a pintura e a literatura ficcional. Não posso dizer que quatro paredes e um teto são uma imitação de uma caverna. Já a arquitetura pode ser imitada, claro. Neuschwanstein e quase tudo de Gramado são mentiras sim, ainda que o primeiro seja uma estonteante e Gramado seja uma, digamos, mentira bonitinha. O enxaimel não nasceu de uma imitação da natureza ou de um ideal estético. É uma verdade estrutural. Pilares, vigas e contraventamentos de madeira são expostos em seu estado natural, enquanto as vedações são pintadas de cores claras, amiúde. Levantarem uma casa de cimento, como fazem em Gramado, para depois pintarem “x”s marrons sobre pequenos ressaltos na argamassa, pendurarem placas em alemão com caracteres góticos e atrair turistas que quase sempre pensam estar em uma autêntica pequena Alemanha, é uma mentira bem diferente do que a que vemos em romances. É fato que existem alguns poucos enxaiméis originais em Gramado e em cidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, e é certo que turistas também vão para lá pelas belezas da Serra Gaúcha, pelo clima e também pelos parques temáticos, estes explicitamente "disneylandescos".

Outros dois exemplos de arquitetura fake europeia são o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, um autêntico gótico para inglês ver, concluído em 1870 mas com cara de séc. XIII, perto do qual há até uma estátua recente do rei cruzado Ricardo Coração de Leão, e a Sacré Coeur, um belíssimo templo neo-neo-românico-bizantino para francês ver, concluído em 1914 mas com cara de séc. IX.

Quem me dera que as imitações fossem sempre harmônicas e seguissem os cânones daquilo que pretendem copiar. Na maioria das vezes são pastiches grotescos, fora de proporção. Um exemplo é o Arco do Pontão, em Brasília. O número de vãos deve ser sempre ímpar, porque pelo centro desfilará, teoricamente, algum soberano em triunfo. Mas não. Roriz não foi um grande conquistador - basta olhar para a Weslian -, e bem ao centro temos a guaritinha do guardinha. Os arcos são abatidos, provavelmente por limitação do Código de Edificações, não há espaço para respirarem, porque mal há entablamento.

Por fim, não considero a arquitetura neoclássica, de princípios do séc. XIX, cópia do greco-romano. As ordens dórica, jônica, coríntia, compósita, toscana, a limitação estrutural da pedra ou do concreto não armado a condicionar modulações de colunas e a espessura das paredes, nunca deixaram de ser realidade, desde o helenismo até o classicismo a que me refiro. Mesmo na Renascença, a sociedade como um todo fazia um retorno ao greco-romano, no espírito, nas artes plásticas, no teatro, na filosofia. E não havia multidões de turistas gassetianos que justificassem meras "disneylândias".

06 junho 2012

A Lanterna de Diógenes

Lê-se hoje na capa do Correio Braziliense, o mais lido jornal do DF: O Herói que o Brasil Esqueceu: Empregado do aeroporto que devolveu maleta com dólares tem salário reduzido.

O humilde nordestino Francisco Bazílio Cavalcante era servente terceirizado do aeroporto de Brasília e tinha contas atrasadas, uma de R$ 28,00, ninguém o cumprimentava a não ser pessoas que o conheciam, observava aviões decolando e pousando e tinha a impressão de que todos podiam alcançar o céu, até mesmo os mortos, menos ele.

Um dia, encontrou uma maleta contendo dez mil dólares e devolveu-a a um turista suíço, que a esquecera no banheiro. Não sei se cometeu o insignificante delito de abri-la e daí constatar a pequena fortuna que ensejou seu ato de retidão ou se devolveu simplesmente a maleta e quando soube do conteúdo bateu com a cabeça na parede pela palermice de não a ter aberto, ou se pensou que era grande demais para ser colocada sob a camisa e que o melhor seria devolvê-la para receber uma gorjeta, antes que um aventureiro o fizesse.

Não interessa. Concordo com Thoreau quando diz que não basta uma informação de como ganhar a vida simplesmente com honestidade e honra, mas que tal ato seja atraente e glorioso. Sim, o honesto deve ter reconhecimento.

Francisco virou celebridade, teve a foto estampada na capa do principal jornal da capital federal, passou a ser cumprimentado por todos, não só pelos conhecidos, encontrou-se com o então presidente Lula, foi promovido, apareceu em horário nobre na televisão para promover a honestidade do brasileiro que não desiste nunca, pelo que não ganhou nada a não ser mais notoriedade, passou a usar terno e gravata, alcançou para ele e a esposa o reino dos céus - galardão dos humildes, no Novo Testamento - ao ganhar três anos de passagens aéreas para o Ceará. Quando desembarcava no aeroporto de Fortaleza era tratado como "doutor", segundo suas palavras cheias de saudade. Um carro da Infraero o levava até Sobral, a 400 km do aeroporto. Reformou a casa, colocou forro no teto e piso de cerâmica, ajudou os cinco filhos, oito netos e os pais, que compraram a primeira televisão com o dinheiro enviado pelo glorioso filho. Foi granjeado com a medalha de honra ao mérito do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, tornou-se cidadão honorário de Brasília, nomeado pela Câmara Legislativa.

Agora - injustiça das injustiças - outra empresa assumiu os serviços gerais do aeroporto e Francisco perdeu o cargo de supervisor, apesar de ser o melhor supervisor de serventes de que se tem notícia, porque não rouba, e voltou a ser o que era: faxineiro. Capa do Jornal: Herói Esquecido. Como disse Juvenal, no primeiro século desta era, "a honestidade é elogiada por todos, mas morre de frio".

Ele vivia com salário mínimo e após o feito, digno de Leônidas nas Termópilas, por oito anos ganhou aproximadamente R$ 1,9 mil por mês, uns R$ 125 mil a mais, no período. Ganhou três anos de passagens aéreas gratuitas para ele e a esposa, de Brasília para o Ceará, onde tem família. Poderia ter viajado uma vez por mês, mas especulemos que aproveitou o mimo três vezes ao ano. Digamos que recebeu uns R$ 15 mil em passagens e mais uns R$ 3 mil pelos traslados de Fortaleza a Sobral.

Devolveu dez mil dólares e ganhou fama, mordomias, medalhas e mais de setenta mil dólares. Muitos devem ter tentado demonstrar honestidade, inspirados nele, mas como provavelmente não obtiveram o retorno desejado, não perderam mais a oportunidade de serem desonestos, que dá mais do que nada e, afinal de contas, achado não é roubado.

Ter sido correto deveria ser a própria recompensa. E, ok, uma medalhinha para ele ficar um humilde orgulhoso perante seus parentes, vizinhos e colegas de trabalho, e um aperto de mão do presidente... da Infraero. Mas o que esperar de uma nação onde lutar pelo fim de uma ditadura não é o próprio pagamento pela luta, onde são heróis os políticos que não roubam. O deputado Reguffe é o inverso do Maluf: não faz mas não rouba. A parede de minha sala é tão heroica e nobre quanto ele, então. Pensando bem, é injustiça eu escrever isto. Minha parede protege-me das intempéries e dos vagabundos que tomaram conta desta cidade desgovernada pelo Agnulo, do PT.

O que era dever passou a ser heroísmo. E o que é errado deve ser tolerado porque poderia ser pior, como os esmoleiros que ameaçam veladamente com clássicos "é mais mió pedi qui roubá". É melhor ser extorquido por flanelinhas do que lhes entregar dinheiro coagido por uma arma, não é verdade?

Em breve brasileiros serão condecorados porque estavam a sós com uma beldade, sem testemunhas, e não a estupraram.

Do outro lado do planeta, em março do ano passado, cidadãos japoneses que perderam tudo no tsunami devolveram R$ 125 milhões para as autoridades. Depois ficaram perplexos com a repercussão que a notícia teve mundo afora, porque para eles não fizeram mais do que a obrigação.

Não um mas milhares de cidadãos encontraram em quase seis mil cofres de casas e empresas o equivalente a R$ 125 milhões, na área destruída pelo tsunami, e entregaram tudo para a polícia, numa ação não coordenada. Em um único cofre havia R$ 1,5 milhão. Outros continham barras de ouro, dinheiro. Só em carteiras perdidas no salve-se quem puder havia R$ 76 milhões em dinheiro vivo. Fico pasmo, porque devem ter sido milhares de carteiras devolvidas. 96% do dinheiro retornou aos proprietários ou a familiares, uma vez que quase sempre elas continham documentos de identidade.

Quando nós brasileiros atingiremos esse grau de evolução dos japoneses?

Quando reencarnarmos no Japão, depois de uma tediosa e emética temporada politicamente correta no Nosso Lar de Chico Xavier.

Ou seja: Nunca. Para que gastar óleo com uma lanterna em plena luz do dia, como fazia Diógenes, procurando um homem probo nas ruas de Atenas? Assumamos nossa essência desonesta e deixemos que a dura lex seja nossa honestidade. E as duras fiscalização e aplicação da lei, obviamente.

15 maio 2012

Haja Rexona!

Crianças adoram brincar com massinha de modelar. Esta assumir a forma que lhe dão é muito estimulante, pois crianças preferem ser causa a efeito. Deixam talheres à mercê da gravidade, do alto de seus cadeirotes, testam o ponto de ruptura de brinquedos, são cientistas a descobrir o mundo controlando variáveis. Quando a massinha perde a capacidade de ser moldada, é abandonada ou quebrada e atirada ao lixo.

Passam-se os anos e quase todas elas se tornam massinhas de modelar, esticadas e sovadas por meninos vaidosos e mimados. Muitas creem ser literalmente descendentes da argila de modelar cuja fêmea foi feita de sua costela, por um velho menino entediado de sua eternidade, ciumento e cheio de ideias fixas. Estas massinhas somam força mas não somam inteligência, não são arrastadas por grilhões mas conduzidas bovinamente pelos focinhos, perseguem a cenoura suspendida à sua frente por aqueles que, nelas montados, as usam como meio de transporte ou de tração. Abrem mão da liberdade por temerem a responsabilidade.

Elas os amam, pois sabem qual é a vontade delas mesmas, a dos deuses, o que estes irrita ou agrada. E os presunçosos meninos apontam o caminho, apontam para o alto, abençoam, saúdam...

... sempre a mostrar o maldito sovaco!









 Não esqueçamos da Estátua da Liberdade!

14 maio 2012

As Grandes Utopias: o Cristianismo, o Socialismo e o Individualismo

O que define a Europa e o próprio Ocidente é o seu berço cristão, ou seja, um bando de hereges judeus fugindo da perseguição por seus compatriotas acabou espalhando pelo mundo romano a palavra do líder da sua seita. Por que o cristianismo triunfou enquanto outras tantas religiões orientais que chegaram a uma decadente Roma pereceram? Alguns autores dizem que os cristãos criaram uma rede de proteção social aos doentes e desassistidos que se revelou de grande utilidade em um Império Romano em decadência.


O cristianismo pregava que todos eram irmãos em Cristo. Este conceito hoje bastante batido tinha a capacidade de aproximar homens que não pertenciam a uma mesma tribo e irmaná-los em uma hipertribo. Em uma época em que o pertencimento a pequenos grupos sociais era fundamental para a sobrevivência, este elemento foi um importante cimento social.


Muitos duvidam que Cristo tenha ressuscitado, mas é certo que o Império Romano ressuscitou na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que acabou conquistando os bárbaros que destruíram Roma. Esta nova Igreja usou o Império para eliminar seus hereges enquanto o Império usou esta Igreja para obter legitimidade.


Tanto o socialismo quanto o individualismo são doutrinas cristãs. A partir da ideia de irmãos em Cristo, de justiça e de busca de um paraíso para o proletariado, chegamos ao socialismo, enquanto as idéias de salvação individual e livre arbítrio estão na base das doutrinas individualistas. De fato, há quem defenda a ideia que a democracia contemporânea tem suas bases na escolha do presbítero pela Assembléia entre os protestantes, ao invés de remotos modelos gregos. Aparentemente, Weber achava que o próprio capitalismo tinha muito a dever à ética protestante.


O problema da Igreja é o mesmo problema de outras utopias. Nenhum homem está à altura delas. Infelizmente, o Papa não é infalível, Marx tinha o hábito burguês de comer a empregada e os mercados financeiros regulados apenas pela racionalidade individual quase destruíram o capitalismo em 2008.


Afinal de contas, talvez a culpa por espalhar estas utopias não seja de um bando de bêbados e bacantes italianos mas de um bando de pescadores gregos desocupados. Como todos sabem, pescadores tendem a ser mentirosos e talvez Platão não tenha escapado a esta sina. Este culto de alto ideais acabou criando metas tão elevadas que só podem alimentar mentiras e decepções. Quem sabe esta busca pelos ideais acabou nos levando a perder o próprio significado de humanidade?

11 maio 2012

De Condenador a Completo Inútil


O Homem do Terno Risca de Giz

Era uma rua como muitas outras; lojas no térreo, residências nos pavimentos superiores, de cujas janelas pendiam roupas e mães gritavam às crianças que brincavam pelas calçadas, comerciantes a anunciar seus produtos, os indesejados gatunos de sempre, além de cantores, policiais, mendigos e outros personagens do teatro urbano. Eventualmente, um velho caía e trincava a bacia, uma esposa apanhava do marido. E havia relatos de assassinatos, os quais, contudo, eram bem raros.

Certo dia, um homem de terno risca de giz, chapéu homburg e sapatos bicolores foi de loja em loja oferecer proteção contra os gatunos, que, segundo dizia, sem tirar o charuto da boca, seguiam agora um líder cujo propósito era destruir todas as lojas sem nada lhes subtrair, por simples vandalismo. A proteção tinha um preço, logicamente, para cobrir os custos.

Os comerciantes avaros que se recusaram a pagar pela proteção tiveram seus estabelecimentos destruídos, e os que resistiram foram friamente espancados ou mortos. Malvados gatunos.

Em outras paragens a vida seguiu normalmente por um tempo, até o dia em que não havia um local no país que não dependesse da abnegada assistência do homem do terno risca de giz. Em outros países, homens como ele protegiam seus concidadãos, o que o irritava um pouco, pois queria ser o único protetor do mundo.

O Homem da Túnica de Lã de Ovelha

Qual deus criaria homens para enviá-los todos ao sofrimento eterno, bons e maus, por não adorarem seu filho, único caminho para a salvação mas que ainda não lhes fora apresentado? Antes de Jesus, bastava ser bom na Terra para adentrar o paraíso. Deixemos de lado os deturpadores da Bíblia, que afirmam que naquela época não existia vida após a morte.

Após milhares de anos tentando debalde tirar os pecados do mundo com chuvas de fogo, dilúvios e pragas, Javé enviou seu único filho para morrer pela humanidade, na sua derradeira tentativa de salvá-la. Jesus revelou aos homens ser o único caminho até o paraíso, e que aqueles que não o aceitassem padeceriam eternamente no inferno, ainda que fossem bons. Jesus, destarte, inaugurou a modalidade do bom que vai para o inferno.

Nos locais cujos habitantes ainda não conheciam o amor cristão, se um justo morria, Jesus lhe dava então a oportunidade de aceitá-lo, o que, convenhamos, é estar em uma situação muito mais cômoda do que a nossa, aqui às cegas, uma vez que já se está no além-vida e seria burrice continuar cético ou adorar um deus diverso daquele manifestado. Seria de uma crueldade de fazer inveja a Lúcifer Javé enviar milhões de chineses para o inferno, sumariamente, mesmo depois de Cristo, apenas porque um missionário ainda não lhes anunciara a Boa Nova.

Enganou-se, portanto, Javé, pois Jesus acabou vindo como Condenador, não como Salvador. Repetindo, veio única e exclusivamente para condenar bons, uma vez que antes dele os bons já estavam salvos e os maus condenados. Lembra-me um pouco o homem de terno risca de giz do princípio do post.

Mas eis que chega o Concílio Vaticano II, segundo (perdoem-me o eco) católicos conservadores o torpe fruto da infiltração protestante, maçom e judaica no seio da Santa Madre Igreja. Com ele, Jesus passa de Condenador a um completo inútil. Vejamos um capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium:

Relação da Igreja com os não-cristãos
16. Finalmente, aqueles que ainda não receberam o Evangelho, estão de uma forma ou outra orientados para o Povo de Deus (32). Em primeiro lugar, aquele povo que recebeu a aliança e as promessas, e do qual nasceu Cristo segundo a carne (cfr. Rom. 9, 4-5), povo que segundo a eleição é muito amado, por causa dos Patriarcas, já que os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cfr. Rom. 11, 28-29). Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e connosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia. E o mesmo Senhor nem sequer está longe daqueles que buscam, na sombra e em imagens, o Deus que ainda desconhecem; já que é Ele quem a todos dá vida, respiração e tudo o mais (cfr. Act. 17, 25-28) e, como Salvador, quer que todos os homens se salvem (cfr. 1 Tim. 2,4). Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna (33). Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho (34), dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final. Por isso, para promover a glória de Deus e a salvação de todos estes, a Igreja, lembrada do mandato do Senhor: «pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc. 16,16), procura zelosamente impulsionar as missões.

 Pelo que entendi então, Jesus é quem salva. Passou a salvar até quem não crê nele, o único caminho. O que não se faz pela clientela...

No fim das contas, voltou a ser tudo como era antes da vinda do Rabi de Nazaré. Que confusão dos infernos!

09 maio 2012

Escolhas Certas: Ideias erradas


Dei o azar de ler o texto “Escolhas Certas”, de Cristovam Buarque, aquele hobbit cuja fala arranhou há vários anos na palavra “educação”, de modo semelhante à Weslian Roriz, para quem amor até estanca vazamento de esgoto. “Qual a solução para reduzir a taxa de homicídios?” Ela responde “amor; quem ama não mata”. Ele responde “educação; povo educado não mata”. A educação no Brasil era pior do que a que temos hoje, no início do século XX, e a taxa de homicídios menor. E por amor cristãos já promoveram muitos churrascos animados. Infelizmente, a era pós Luzes retirou-lhes a liberdade de amar como antigamente.

Vejamos os disparates que o senador soltou:

"Fizemos a escolha errada de basear nossa indústria em tecnologias importadas intensivas, por meio de capital que não tínhamos, e dispensando a mão de obra que tínhamos sobrando."

Fizemos a escolha errada de optar por protecionismos à indústria nacional, mantendo-a sucateada e cara, vide nossos carros e computadores de anos atrás, o que beneficiou empresários vagabundos, acomodados pela ausência de concorrência eficiente, enquanto o consumidor foi prejudicado. Gente como o Cristovam sempre defendeu essa ideia de não "basear nossa indústria em tecnologias importadas". Japoneses e chineses já nos fizeram ver como funciona importar, copiar e então aperfeiçoar e criar. Esquerdistas como Cristovam preferem morar numa caverna, desde que seja "nacional". Urina tipo Drury's, se for nacional, vale por dez blue labels. Aliás, é melhor para o povo. Os esquerdistas eminentes exilam-se na Inglaterra, na França, jamais em Cuba, e gostam do que é bom, preferencialmente importado. De Cuba apenas os charutos e as minhocas (na cabeça).
Em "dispensando a mão de obra que tínhamos sobrando" deixa entrever a típica birrinha esquerdista com a tecnologia que dispensa mão de obra. Prefere aquele formigueiro de mortos-vivos a torcer parafusos de sucatas nacionais, a dobrar e colar aquele Corcel II LDO. Já proibiram o sistema self-service em postos de gasolina para não tirar o emprego do frentista, acho que em São Paulo.

"Escolhemos erradamente a ditadura como forma de impor a continuação das escolhas erradas..."

Escolhemos a ditadura erradamente, quando o certo seria escolher o caminho de Jango e de Brizola, o antigo correligionário de Cristovam e seu antecessor no monodiscurso: o comunismo, que, sem exceção, em todos os lugares onde foi implantado matou e torturou milhares de vezes mais do que a ditadura militar brasileira, seus cantores auto-exilados e seus 293 mortos (incluindo aqueles em combate na guerrilha do Araguaia) ao longo de 20 anos. Como já se disse, antes anos de chumbo do que rios de sangue.

"estamos escolhendo o caminho de garantir segurança para proteger a população rica, convivendo com a violência. Ao invés de encarar o problema da violência, procurando pacificar a sociedade brasileira, optamos pelo gasto de bilhões de reais para a proteção da violência urbana ao redor."

Os cidadãos foram obrigados a proteger a própria vida e a de seus familiares - o que é um direito natural -, porque o governo é, na melhor das hipóteses, omisso. Se escolhe, escolhe apenas, como o correligionário de Cristovam que governou o Rio por dois mandatos, fazer vista grossa para a bandidagem e não proteger sequer seus juízes justos. Os ricos blindam os próprios carros e se escondem em condomínios porque não têm alternativa. Certamente prefeririam ter a porta da sala dando para uma praça agradável, no centro da cidade, sem muros e grades intermediários, e sem a ameaça de mendigos lazarentos intoxicados pelo crack. E os pobres também moram assim. Fazem o máximo que podem. Muitas vezes sequer quintal possuem, os que têm casa. Não há um metro quadrado do lote que não seja coberto e gradeado.

"...(a elite) compra bonecos inflados, para dar a impressão de que há passageiros dentro do carro. As pessoas passam de carro diversas vezes diante das próprias casas, sem parar, para ver se há algum estranho por perto;"

Aqui escandaliza, mais do que a burrice do senador, seu jeito tosco de escrever, dando exemplozinhos bestas, como uma Maria Paula da Revista do Correio a excretar suas indignaçõezinhas banais.

 "inundam as ruas de filmadoras contra os ladrões, mas que acabam com a privacidade de todos..."

Muitos criminosos foram enjaulados aqui e no resto do mundo graças a essas filmadoras que "inundam as ruas". Se não acontecer nada de errado, ninguém as irá consultar. Seria preciso milhões de voyeurs muito desocupados. Assim, não há perda de privacidade a não ser que algo aconteça de anormal. Nelson Rodrigues disse que a televisão matou a janela. Pois bem. Antigamente, as pessoas na janela a observar o movimento na rua, por não terem ainda Gugus e Ratinhos na sala, eram as câmeras que tiravam a privacidade do espaço público. Se acontecesse algo de errado, eram testemunhas. Se não acontecesse, ao menos tinham como fofocar.

"A opção de paz, ao invés de opção de segregação, consiste em menos muros e em mais pontes."

Até imagino o "pontes" dito com aquele sotaquezinho reptiliano... Aqui ele se sente o próprio Martin Luther King, a usar frases de efeito que não significam absolutamente nada. Ora, muros servem para barrar intrusos em locais onde não há polícia eficiente, onde a população acostumou-se a mostrar seu pior lado, estimulada pela impunidade, onde há cumplicidade entre o poder público e criminosos. Com a vitória dos esquerdistas no estatuto do desarmamento, que vige apenas sobre o honesto, porque o malfeitor sempre terá acesso a uma arma, o facínora teme um pouco menos ver o cano de um bacamarte apontado para sua cabeça odiosa quando invade uma casa. Sobrou o muro, ora bolas...

02 maio 2012

A Evolução do Macho


Quando os garotos primeiro pensaram sobre as diferenças entre homens e mulheres, foram seguramente um pouco machistas - machistas ignorantes.


Depois, um tanto evoluídos e socializados, passaram a crer que deve haver uma igualdade plena entre os sexos, pois tudo o que o homem faz a mulher pode fazer e vice-versa, exceto engravidar, por enquanto.


Alguns homens evoluem um pouco mais e percebem as (nem sempre) sutis diferenças no modo de pensar, no jeito de ver o mundo e de com ele se relacionar. Além disso, e embora sempre acreditando que as mulheres sejam igualmente capazes - em diversas atividades mais capazes, sejamos honestos -, entendem que amiúde são vítimas de um coquetel hormonal de ilimitados ingredientes e dosagens precisas e, ainda que reclamem, são mais felizes quando encontram um macho de juba metafórica que respeitem - e que seja compreensivo e carinhoso, é lógico.


Estes homens mais evoluídos não se deixarão arrastar pelas questiúnculas próprias do modo feminino de se relacionar com outros indivíduos, desde as cavernas, mas despenderão nelas algum interesse, para não serem julgados insensíveis e distantes. Estes homens aparentarão ser machistas para aqueles outros no estágio intermediário de evolução, mas na verdade amarão mais suas mulheres, pois agirão em harmonia com as diferenças inatas entre os sexos - do modo que, no fundo, elas esperam que eles ajam, do melhor modo para o casal.


Saberão que é melhor uma mulher apaixonada do que uma "igual" infeliz, talvez por desprezar o homem tíbio que tem.


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Update: Recebi alguns emails de conhecidos criticando este post e minha postura. Dou então mais visibilidade ao que escrevi na caixa de comentários, lembrando que um dos tags do post é "humor":


Não estou afirmando que sou como o macho mais evoluído. Pensei em um comportamento ideal, analisando como agem outros homens que considero evoluídos e cujos casamentos vão às mil maravilhas, e também ao colher os maus frutos de meus envolvimentos em questiúnculas e de picuinhas que eu mesmo inicio, quando é minha esposa que me faz ver que há pontos mais importantes com que se preocupar no dia-a-dia. É óbvio que os fundamentos de um relacionamento são o amor, a cumplicidade, a honestidade, a tolerância, etc. Come on!


Sobre um post mais recente, considero-me também um homem-massa, e ter consciência disso já é alguma coisa, pelo menos... Enfim! Este é um blog de provocação, e é natural que às vezes pintemos os quadros com cores mais fortes. Pax vobiscum. Magister dixit! :)

28 abril 2012

Bestas cegas creem fazer o mal em nome do bem


 A Proposta de Emenda Constitucional nº3/2011 pretende modificar o Artigo 49, V, da Constituição:

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:

V - sustar os atos normativos dos demais Poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa;


E armou-se o circo.

Janer Cristaldo, Reinaldo Azevedo, sites evangélicos, católicos, Revista VEJA online. A mobilização foi geral. Em comum, acreditam que se a emenda for efetivada, todas decisões do STF poderão ser vetadas por Tiririca e seus colegas de picadeiro. Uns se indignaram e outros exultaram, estes porque, aliviados, julgam que suas ideias fixas religiosas estarão a salvo do supercongresso em que se transformou o STF.

Janer Cristaldo escreveu: "Ou seja, última instância já era. Quando decisão de última instância contrariar grupos religiosos, alguma PEC há de se achar para mandar a última instância para o lugar de penúltima. (...) A PEC já foi aprovada no CCJ e agora vai para o plenário da Câmara para votação. Vai ser divertido. Imagine as sentenças de pavões como Marco Aurélio de Mello ou Joaquim Barbosa sendo revisadas por Tiririca."

Reinaldo Azevedo bateu palmas para a decisão, reconhecendo sua periculosidade. Espera que agora o Congresso, em cuja sabedoria ele deposita a salvaguarda do pacotão católico pelo qual trocou sua credibilidade há alguns anos, poderá cassar qualquer decisão do que chamou “supercongresso”. Escreveu, o blogueiro: “É claro que é arriscado! É claro que não sou exatamente um entusiasta da ideia. Mas não podemos ter um supercongresso formado por 11 pessoas, especialmente quando uma cláusula pétrea da Constituição, como é Artigo 5º, é tratada como uma mera formalidade e quando, confessadamente, estamos sujeitos a ‘sentimentos’.”

Lemos no site da revista VEJA: "A PEC tornou-se prioridade da frente parlamentar evangélica desde que o STF decidiu permitir o aborto de fetos anencéfalos. (...) 'Precisamos colocar um fim nesse ativismo, nesse governo de juízes. Isso já aconteceu na questão das algemas, da união estável de homossexuais, da fidelidade partidária, da definição dos números de vereadores e agora no aborto de anencéfalos', afirma Campos."

A pressão pela votação da PEC foi iniciativa de um deputado e pastor evangélico motivado pelas recentes decisões polêmicas do judiciário relativas ao aborto e à união civil de homossexuais, e teve apoio massivo das bancadas evangélica e católica pelo mesmo motivo.

Essa PEC não tem nada a ver com as decisões jurisdicionais do Poder Judiciário, apenas com as normativas.

De fato, as manchetes induzem ao erro por não discriminarem quais "atos" seriam (CCJ aprova proposta que permite ao Congresso vetar atos do Judiciário). Até mesmo jornalistas experientes enganaram-se, ajudados pela mobilização dos deputados cristãos, aqueles sábios legisladores, representantes (d)eméritos de um dos poderes desta República, que não entenderam pelo visto o alcance desta singela PEC.

Ou seja: Esses deputados são parvos no úrtimo por não entenderem o próprio ofício e agirem como umas bestas cegas, e sua mobilização patética acabou confundindo a sociedade, pelo jeito.

O lado grave da história: Os deputados que militaram pela aprovação da PEC realmente acreditam que estão submetendo o judiciário ao controle do legislativo, e com a consciência limpa de seus nobres ideais.

26 abril 2012

Rock não é cultura?


Caro Janer, aqui vão dois comentários sobre seu post "ROQUEIRO VIRA PATRONO DE FEIRA DO LIVRO NO RS"‏


"Comentei, nas últimas crônicas, as relações espúrias entre cultura e show business. De tanto os jornais noticiarem shows de rock em suas páginas dedicadas à cultura, rock acabou virando manifestação de cultura."

Sou um ardoroso aficionado da música feita entre 1600 e 1950 - especialmente ópera -, de pintura, escultura, filosofia, história, literatura, arquitetura. Não me sinto melhor do que os outros por isso. Mérito há em construir o Partenon, em lutar nas Termópilas, em compor Le Prophète, em Cabanel pintar seu Nascimento de Vênus. Reconheço que há mérito em tocar a Apassionata ao piano, em criar cenários para uma ópera. Há quem leia Nietzsche, aquela metralhadora de verdades, e passe a se sentir coautor de seus textos, porque os entendeu e mudaram sua visão de mundo. Ora, o mérito é de Nietzsche, apenas. Entendê-lo é "obrigação" de Homo-sapiens.

O propósito da vida é aquele que lhe damos, ao contrário do que creem os religiosos. Um homem não querer ter contato com aquilo que seus colegas de espécie produziram de melhor é triste, do meu ponto de vista, mas legítimo. Seu propósito de vida pode ser procriar, ir à igreja e ver novelas. Eu, por meu turno, não sou obrigado a assistir televisão e ler suplementos de jornais. Posso passar o dia a trabalhar escutando a música de meu gosto, ler o que desejo, ir a um concerto, viajar para visitar ruínas, fruir de tudo o que me convém e é lícito. Sou livre para selecionar amigos com gostos semelhantes.

Embora prefira música clássica, não vejo qualquer problema em Beatles e Bob Marley aparecerem em um suplemento cultural de jornal. Deveriam apenas estar no suplemento "cultura popular", para os patrulheiros da "verdadeira cultura" não ficarem ofendidos? No true scotsman puts sugar in his porridge...

Os Beatles representam bem a cultura de seu tempo: a psicodelia mesclada a sons exóticos, indianos, a irreverência à la Monty Python, os trompetes algo pomposos que remetem à família real, (puerilmente a Händel e Purcell), além da conexão com os americanos blues, country e o próprio rock. Criaram melodias que identificam bem a cultura daquela época. Ora, se prefiro música clássica, então os Beatles não são cultura? Se prefiro Wagner e os germânicos, então Verdi e os italianos não são cultura? Cultura é aquilo de que mais gosto?

Podemos rugir e espernear, apelar à etimologia às vezes, mas a palavra é o uso corrente que se faz dela. Cultura não é apenas minha concepção de cultura. Não posso chamar alguém de idiota e depois lhe explicar que a palavra "na verdade" designa alguém ensimesmado ou o diabo.


"O espantoso nesta decisão é que os deputados fluminenses adotaram, como patrimônio cultural nacional, um ritmo criado pelos negros americanos nos anos 60. Neste sentido, o rock é muito mais patrimônio cultural do que o funk. Ocorre que o funk é de negros. Patrimônio cultural seja."

O funk carioca, apesar do nome, não tem nada a ver com o funk americano (veja aí o Mandrill, Janer, um típico funk ianque). E o rock tem origem negra, apesar de os brancos terem "tomado posse" e de serem maioria em ritmos mais pesados como o heavy metal. Os brancos também se apoderaram de outros ritmos. Gershwin e depois Glenn Miller, Benny Goodman e outros "apropriaram-se" do jazz; Elvis, Beatles e outros brancos tomaram conta do Rock de Chuck Berry, negro, influenciado por ritmos negros como o blues e o rhythm and blues.

Para lerem o post do Janer, cliquem aqui.

12 março 2011

Astrólogo vira o cocho

Janer Cristaldo


Quando um comunista perde uma boquinha em estatais, logo pipocam os manifestos exigindo sua volta ao cargo. São assinados pelos “manifesteiros” de sempre: Marilena Chauí, Chico Buarque, Leonardo Boff, Emir Sader et caterva. Comunista acha que cargo de confiança ou mesmo emprego em empresa privada é para a eternidade. Olavo de Carvalho não perdeu os reflexos de seus dias no Partido Comunista. Quando foi afastado de suas colunas nos jornais O Globo e Zero Hora e na revista Época, o astrólogo subiu nos tamancos. Denunciou a censura das esquerdas, como se estas publicações fossem de esquerda. Pelo jeito, como velho comunista, considerava ter efetividade em empresas privadas.

O astrólogo foi acometido de recidiva nesta semana. A livraria Cultura, de São Paulo, cancelou sua parceria com seu site. Aiatolavo de novo subiu nos tamancos. “De todas as ofensas, agressões e ações discriminatórias que sofremos ao longo de muitos anos de atividade, essa foi a mais sórdida, a mais canalha, a mais intolerável. Um bom pedido de desculpas é o mínimo que vocês nos devem”. Em trocadilho besta, passou a chamar a livraria de livraria Incultura. Como se calembour fosse argumento.

Para o sedizente filósofo, parcerias são para a eternidade. Se a uma empresa não mais interessa ter seu nome associado a um astrólogo boquirroto, anátema seja. Seus acólitos já falam em censura. Esquecendo que seu guru é o grande censor que promoveu, qual um Torquemada, a maior fogueira de arquivos digitais já acendida no Brasil. Aiatolavo costuma agredir quem dele discorda com uma saraivada de palavrões. É uma técnica eficaz para evitar contestações. Pessoa que se preze não vai discutir com quem usa linguajar de lavadeiras na beira da sanga.

Convidado a colaborar no mídiasemmáscara, em dezembro de 2006 tive uma crônica censurada. Crônica na qual afirmava que Cristo nasceu em Nazaré e não em Belém. Este era o cerne do artigo. Se por isto fui censurado, os papistas do MSM estavam sendo mais ortodoxos que o Vaticano. Pois o nascimento de Cristo em Belém não é dogma. Logo, afirmar que nasceu em Nazaré não é heresia alguma. E mesmo que fosse: por que não poderia eu cometer uma heresia? Afinal não vivemos mais nos tempos da Idade Média, quando os hereges não escapavam da fogueira.

"Artigos com o perfil deste que vc enviou não serão publicados no MSM durante algum tempo - escreveu-me o editor -. Assim que possível, informarei o motivo. Adianto apenas que é uma decisão temporária". Ora, adoro escrever artigos com aquele perfil. Se aceitasse a censura daquele, teria de aceitar a dos demais. Por outro lado, alegar decisão temporária também é ridículo. Por que o artigo não poderia sair hoje, mas amanhã quem sabe?

Eu escrevia sem nada cobrar e ainda era censurado. Recusei-me a qualquer futura colaboração com o site. Outros colaboradores, por razões semelhantes, também se afastaram do MSM. Entre eles, Anselmo Heidrich e Rodrigo Constantino. Que fez Aiatolavo? Deletou todas minhas crônicas, como também as destes articulistas. É como se a Folha de São Paulo eliminasse de seu acervo todos os artigos que apoiaram o movimento militar de 64. Como se a Veja queimasse todas as reportagens em que saudava Che Guevara como libertador. Bom discípulo de Stalin, Aiatolavo utilizou o expediente de eliminar da História personagens ou pensamentos divergentes.

O MSM se tornou um site monocórdio, sambinha de uma nota só. Ou melhor, de três notas: o combate à conspiração homossexual para dominar o mundo, a denúncia obsessiva do Foro de São Paulo e do PT, partido que pretende comunizar o Brasil. Os artigos doentios de Júlio Severo demonstram uma carência que não ousa dizer seu nome. Quanto ao Foro de São Paulo – Woodstock saudosista de apparatchiks derrotados com a queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética – não passa de um circo anódino montado para relembrar sonhos frustrados. O PT, por sua vez, se um dia teve como propósito transformar o Brasil em republiqueta soviética, embriagou-se com o poder e hoje não quer nada com revolução. Virou partido de direita, que quer apenas preservar suas boquinhas.

O MSM passou a lutar contra moinhos de vento. Inventa bandeiras para fingir que tem causa. Tornou-se tão monótono quanto os jornais de esquerda pós-64, nos quais bastava ler apenas um artigo para deduzir os demais. Desesperado, o astrólogo escreveu:

"O artigo 208 do Código Penal pune com detenção e multa os atos de ‘escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa’ e ‘vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso’. Os srs. Rodrigo Constantino, Janer Cristaldo e Anselmo Heydrich já cometeram esse crime tantas vezes, que o simples fato de eu me contentar em xingar esses bandidinhos, em vez de denunciá-los à polícia, deveria ser considerado um exagero de caridade. Com bandido não se discute. Lugar de criminoso é na cadeia. Admito, porém, que não é a caridade, e sim a mera distância geográfica, que me impede de tomar contra os referidos as providências judiciais cabíveis".

Além de censor, fanfarrão. De colaboradores convidados ao site, passamos à condição de criminosos. Em 2008, Rodrigo Constantino escreveu:

“Fico constrangido e ao mesmo tempo com muita pena do "filósofo". Ele deve estar mesmo em pânico para ter de apelar desse jeito. Logo ele, que xinga tudo e todos, que não respeita a crença de ninguém. Mas fica a pergunta: os não-crentes podem processar os crentes quando estes chamam de idiotas todos os ateus? Quando um crente jura que o ateu vai passar a eternidade no inferno, ele pode ser processado por danos morais? Se Olavo "vilipendiar publicamente objeto de culto religioso" de uma seita diferente, como a cientologia, ele vai se entregar à polícia? Olavo quer me colocar na cadeia por questionar a sua crença religiosa. Para ele, sou um bandido, um criminoso, pois questiono suas crenças. Como eu disse, o sonho dele era viver na Idade Média, e me mandar para a roda ou fogueira. Ainda bem que tivemos o Iluminismo para colocar uma focinheira em tipos como este. Conservadores fanáticos não odeiam o Estado coisa alguma, nem querem reduzir seu poder. Querem apenas se apossar dele, e ai de quem divergir de suas crenças!”

Confuso, o astrólogo não gosta que o chamem de astrólogo:

"Quanto à insistência obsessiva desses canalhas em me chamar de ‘astrólogo’, com a ênfase que a palavra tem quando associada a tipos como Walter Mercado, é fácil notar que nenhum dos três jamais examinou criticamente e nem mesmo citou de passagem qualquer escrito meu sobre a questão da astrologia. [...] O intuito deliberado de falsificar para melhor difamar não poderia ser mais evidente, e a eventual desculpa de que foi ofensa proferida impensadamente no calor da discussão já está impugnada antecipadamente pelo número de vezes que a ofensa se repetiu".

Constantino constata:

- Mas vejamos o que o próprio Olavo disse numa entrevista, quando Roberta Tórtora perguntou como a astrologia contribuiu para sua formação:

"Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no ‘inconsciente’ das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido."

O astrólogo que se ofende quando o chamam de astrólogo, considera analfabeto quem não conhece astrologia. Quando comecei a escrever no MSM, não sabia que o astrólogo era astrólogo. Se soubesse, ficaria com um pé atrás. Fui saber mais tarde, quando comentei o projeto do senador Artur da Távola, que visava regulamentar a vigarice. Recebi mail furioso de um leitor: como é que você critica a astrologia, logo num site dirigido por um astrólogo e mestre-astrólogo, que já escreveu quatro livros sobre astrologia?

Se escreveu, os livros sumiram da História. Aiatolavo, ao que tudo indica, censurou a si mesmo. O astrólogo vive hoje na Virgínia, EUA, sabe-se lá como. De suas croniquetas no Diário do Comércio – jornal ligado a Afif Domingos – não há de ser. Muito menos de mapas astrais. Furioso, o astrólogo ex-muçulmano e ex-comunista - lança agora seus insultos a uma livraria que patrocinava seu panfleto. Se ontem a livraria era um órgão difusor de cultura, de repente virou autora de agressão “sórdida, a mais canalha, a mais intolerável”.

Se as trajetórias dos astros são previsíveis, o mesmo não se pode dizer da dos astrólogos. Mudam conforme os patrocínios. Aiatolavo virou o cocho.

29 setembro 2010

Brasil não merece uma lágrima

Janer Cristaldo


Domingo que vem é meu dia de protesto cívico. Como faço há já vinte anos, não vou votar. Há quem defenda a idéia de votar no candidato menos pior. Discordo. Menos pior também é pior. Sem falar que me parece absurdo, em regime democrático, ser obrigado a votar. Em todo o Primeiro Mundo, o voto é facultativo. Só nesta América Latina, que vai a reboque da História, é obrigatório.

Obrigatório em termos. Você sempre pode anular seu voto. Mas tem de comparecer às urnas. É o que tenho feito de 1990 para cá. Meu título continua em Florianópolis. No domingo, perto de meio-dia, vou justificar a ausência de meu domicílio eleitoral. E depois vou para meu boteco, aperitivar. Hoje, em São Paulo, pode-se beber em dia de eleições. Quando não se podia, meu garçom me servia um uísque e punha ao lado do copo uma garrafa de guaraná.

Não quero ser radical. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso não pode votar nestas eleições. De um lado, a candidata preferencial é uma ex-guerrilheira que participou de um grupo terrorista e até hoje se orgulha disto. O segundo colocado não pode sequer acusá-la de terrorista, pois militou em outro grupo terrorista. Os três candidatos mais cotados são todos de extração marxista. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, no Brasil o fundo do ar ainda é vermelho.

O mais patético – para não dizer pateta – dos candidatos é sem dúvida José Serra. Não ousa dizer uma palavrinha contra seu adversário, o patrocinador de Dilma Rousseff. Pelo contrário, o colocou em sua campanha eleitoral. Ao dar-se conta que isto era um tiro no pé, retirou-o de sua publicidade. Mas acabou fazendo pior. Mais adiante, alertou o eleitorado: se vocês querem Lula em 2014, têm de eleger-me agora. Se Dilma vencer, Lula não emplaca. Traduzindo em bom português, o que disse Serra? Disse que sem ele seu adversário não será eleito. Com oposição assim, o PT não precisa de base aliada.

Os políticos viraram bonecos de ventríloquo. Quem fala é o marqueteiro. O candidato repete. Mais ainda: para cúmulo do ridículo, o PSDB contratou para fazer sua campanha um guru indiano sediado nos Estados Unidos. A dez mil dólares por dia. Pode? Recorrer aos serviços de um vigarista estrangeiro para conduzir uma campanha eleitoral? Edir Macedo faria melhor. Ao constatar a mancada, os tucanos mandaram o guru de volta aos States. Teria sido mais barato enviar o Serra para fazer meditação transcendental em um ashram em Poona.

Os tucanos têm em mãos farto material para desmoralizar o PT. Desde o mensalão, dólares na cueca, o assassinato de Celso Daniel, os escândalos da Casa Civil, desde Zé Dirceu a Erenice, os cinco milhões de reais dados de mão beijada a Lulinha, e por aí vai. Não usaram esta munição. Serra, já que vai perder, podia ao menos perder com dignidade. Vai morrer humilhado.

Marina da Silva, sem comentários. Lanterninha, insiste no discurso surrado de meio-ambiente, cultua também Lula e põe-se em cima do muro ante qualquer questão polêmica. É boa alternativa para os petistas que admitem existir corrupção no governo do PT. Votam na morena Marina no primeiro turno e no segundo voltam ao redil. Como não vai ter segundo turno, vão acabar mesmo votando no primeiro no PT.

Almas ingênuas ainda acreditam numa virada. Recebo não poucos e-mails de coronéis de pijama que ainda acreditam em milagre. Coronel, quando veste pijama, vira valente. Quando na ativa, é cachorro que enfia o rabo entre as pernas com medo da voz do dono. Outro que alimenta esperanças é o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo da Veja. Que tenha suas preferências políticas, vá lá. Que acredite que o PSDB possa levar é ingenuidade atroz. Ou subserviência de jornalista vil. A última chance de Serra seria uma recidiva de linfoma. Mas estamos a uma semana das eleições e a recidiva não ocorreu. Se ocorrer mais tarde, será tarde demais.

Dona Dilma está com todas as chances de ganhar no primeiro turno. Serra que se dê por feliz se não levar capote. Quando um candidato deposita suas esperanças em chegar ao segundo turno, como faz o tucano, é porque já deu as eleições por perdidas. Pior ainda: antes mesmo do primeiro turno, Serra está lançando sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Como pode um eleitor votar em um candidato que já pensa em receber um docinho pela derrota? Pelo jeito, Serra ainda não percebeu que estas eleições significam seu enterro político.

Dias piores esperam o Brasil. Nada de melhor se pode esperar de uma terrorista – que eu saiba, a candidata ainda não se penitenciou de seu passado – dominada pela atrabilis e mandonismo. E que consegue falar um pior português que o Supremo Apedeuta. País inacreditável, este nosso: pelo jeito ainda sentiremos saudades de Lula.

De minha parte, tanto faz como tanto fez. Desde há muito não deposito esperança nenhuma neste Brasil. Quando um presidente que acoberta crimes durante dois mandatos tem ainda 80% de aprovação do eleitorado, nada mais se pode fazer. Lasciate ogni speranza voi che entrate!

Vou cuidar de meu jardim. Tratar de bem viver os dias que me restam. E o Brasil que se lixe. Povinho que elege Lula ou Dilma não merece sequer uma lágrima.

19 agosto 2010

Veja nunca erra!

Jornalistas da VEJA assinam disparates de dimensões bíblicas quando o assunto é religião.

Há quase três anos Reinaldo Azevedo, o Esaú tupiniquim que trocou sua credibilidade pelas lentilhas de sua submissão ao PSDB e ao Papa, escreveu em seu blog hospedado na Veja online:

“Se você conhece mesmo Santo Tomás, sabe que ele jamais chamaria de ciência a concepção imaculada. Volte aos livros. O que é matéria de fé está fora do escrutínio científico. Mesmo as provas da existência de Deus, na Suma Teológica, são exercícios lógicos. Assim, em termos estritamente tomistas, Maria ter concebido virgem não pode jamais ser um ‘absurdo’ porque há uma condição anterior a qualquer verificação da experiência: ‘é preciso crer’.”

Comentei, no dia seguinte, aqui no Pugnacitas: “Ele acha que Imaculada Conceição se refere à concepção de Jesus, nascido de uma virgem. (...) Imaculada Conceição significa que ela (Maria) teria nascido sem pecado original.”

Decerto Reinaldo Azevedo julga que conceber pelo sexo – até pouco tempo atrás o único meio para tanto – é algo sujo, maculado. Ora, Maria teria concebido virgem para cumprir as escrituras – para cumprir uma falha de tradução, na verdade. Mas entendo a confusão (ignorância) do blogueiro da Veja: o modelo feminino dos cristãos – uma inimitável mãe virgem – condena todas as mulheres reais a jamais serem boas o bastante. Torna sujo, maculado, o sexo, mesmo para a procriação.

Na edição da Veja de 28 de julho de 2010, em cuja capa se lê “Perdão”, achei outros disparates.

Em matéria intitulada “Sombra, Luz e Drama”, sobre o pintor Caravaggio, o jornalista Bruno Meier escreve o seguinte:

“Uma encomenda para uma igreja de Siena foi recusada por retratar a morte de Maria, contrariando o dogma da ascensão aos céus da mãe de Jesus.”

O dogma é de 1950, proclamado por Pio XII, o Papa de Hitler. Caravaggio pintou A Morte da Virgem em 1606. Que bruto anacronismo.

Na reportagem de capa, assinada por uma tal Ana Cláudia Fonseca, lemos:

“Como manifestação direta de Deus na terra, a Igreja Católica, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio da Igreja. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar Alexandre VI (1492 – 1503), o papa Bórgia, dissoluto, promotor de orgias no Vaticano, que comprou o voto decisivo de sua indicação para o Trono de Pedro com quatro mulas carregadas de prata? Ter resistido a Alexandre VI pode ser tomado como a prova definitiva de que a Igreja Católica é sagrada. Fosse produto dos homens, ela teria perecido sob a avalanche de pecados do libertino papa Bórgia.”

Ah... Existem incontáveis provas de que a Igreja Católica é sagrada, embora não haja ainda nenhuma, digamos, definitiva... Rio-me.

Um jornalista da Carta Capital poderia escrever:

“O PT, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio do partido. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar José Dirceu, a eminência parda do primeiro governo Lula, inescrupuloso, que comprou votos decisivos de parlamentares com malas e cuecas carregadas de dinheiro? Ter resistido a José Dirceu, Delúbio e a outros como eles pode ser tomado como a prova definitiva de que o PT é sagrado. Fosse produto dos homens, ele teria perecido sob a avalanche de pecados dos mensaleiros e do chefe da quadrilha, José Dirceu.”

Basta substituir alguns sujeitos e objetos no parágrafo da jornalista Ana Cláudia, inserido gratuitamente em uma reportagem que o dispensava por completo, para percebemos o quanto é um despautério. A tal “defesa retórica da instituição” a que a pobre jornalista se refere é, na verdade, uma singela historinha narrada no Decameron de Boccaccio, escrito quase cento e cinquenta anos antes do Papa Bórgia emporcalhar um pouco mais o já imundo trono do negador de Cristo. No conto, Giannotto de Civigni, um comerciante parisiense, tenta converter ao cristianismo o amigo judeu Abraão, que então se propõe a visitar Roma para conhecer melhor a religião do amigo. Giannotto, ao ter ciência de seus planos e se ver incapaz de dissuadi-lo, dá por perdida a causa por saber o que o judeu encontrará por lá. Curioso é que na época em que Boccaccio escreveu o conto, que aparece logo no início do Decameron, o papado há muito tinha sido transferido para Avignon, no sul da França. Não encontrei na Internet a história em português e tive preguiça de digitá-la a partir do livro impresso. Segue o desfecho do conto, infelizmente em espanhol, já que italiano nem todos lêem.

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“El judío montó a caballo y tan pronto como pudo se encaminó a la Corte de Roma, donde al llegar, fue recibido con honor por los judíos. Y, mientras estaba allí, sin decir a nadie para lo que había ido, cautelosamente comenzó a observar la conducta del Papa, los cardenales, de los otros prelados, y de todos los cortesanos. Y entre lo que él advirtió, como hombre agudo que era, y lo que otros le contaron, halló, que del mayor al menor todos allí, generalmente, pecaban con gran deshonestidad en cosas de lujuria, y no sólo en la natural, sino en la sodomítica, sin freno alguno de remordimiento o vergüenza, al punto de que sin la mucha influencia de las meretrices y los efebos no se podía conseguir nunca nada. Además de esto, conoció claramente que los que observaba eran universalmente comilones, bebedores, ebrios y más servidores de su vientre, como animales irracionales, y de la lujuria, que ninguna otra cuestión. Y, ahondando más, tan avaros y ansiosos de dinero los vió, que tanto la humana sangre, incluso la cristiana , como las cosas divinas, y a los sacrifícios y benefíos perteneciente, por dinero vendían y compraban, haciendo mayor mercadería y más ganancias teniendo, que cuanto pudiera encontrarse en París con ventas de pañerías u otras cosas. Habían a la sintonía descarada puesto el nombre de procuradoría, y llamaban a la gula sustentamiento, como si Dios, prescindiendo del significado de los vocablos, la intención de los pésimos ánimos no conociese y, a semejanza de los hombres, se dejara engañar por los nombres de las cosas.

Las cuales junto con muchas otras, que conviene callar, desagradaron sumamente al judío, como sobrio y modesto que era; y así, pareciendole haber visto bastante, resolviose a volver a París. Y así lo hizo. Y cuando Giannotto supo que había llegado, fue a él y, aunque lo que menos esperaba era que se hiciese cristiano, hízole, y el otro a él gran fiesta. Y en cuanto Abraham hubo descansado algunos dias, Giannotto le preguntó que le parecía el Santo Padre, y de los cardenales y los demás cortesanos. A lo que el judío respondió prontamente:

-¡ Así Dios los confunda a todos! Y te digo, que si juzgo bien, no me pareció ver allí santidad alguna, ni devoción, ni obra buena, ni ejemplo de vida ni de nada, en nadie que clérigo fuese. Pero la lujuría, la avaricia, la gula y cosas semejantes y peores ( si peores se pueden encontrar en alguien) parecióme hallarlas más por una sede de obras diabólicas que divinas. Y, a lo que estimo, se ve con toda solicitud, ingenio y arte se aplican a vuestro Pastor, y entiendo que todos los demás, a reducir a la nada y a arrojar del mundo la cristiana religión , aun cuando debieran ser fundamento y sustentáculo de ella. Mas, puesto, a lo que se me alcanza , no sucede lo que procuran, sino que continuamente vuestra religión aumenta y más lúcida y clara se torna, con razón me parece discernir entre que el Espiritu Santo es su fundamento y sostén, como más santa y verdadera que otra. Por lo cuál mientras me mantuve rígido y duro a tus exhortaciones y no quise hacerme cristiano, ahora abiertamente te digo que por nada del mundo dejaré de hacerme cristiano. Vamos, pues, a la iglesia y, allí, según debida costumbre de vuestra fe, me haré bautizar.

Giannotto, que esperaba una conclusión totalmente opuesta a aquella, sintióse, cuando así le oyó hablar, más contento que ningún hombre jamás lo fuera. Y fuese con él a Nuestra Señora de París y pidió a los clérigos de ella que diesen a Abraham el bautismo. Ellos, oyendo que así lo quería, apresuráronse a atenderle. Y Giannotto sacóle de la pila, llamándole Juan; y en breve a muchos hombres de valía hízoles este instruir adecuadamente en nuestra fe, que a muy deprisa aprendió; y fue luego hombre bueno y meritorio de santa vida.”

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Parece-me que Boccaccio se vale do conto para pintar a pervertida Roma de sua época sem esmaecer-lhe as cores, blindando-se do mau humor dos padres, astuciosamente, no surpreendente final em que dá as rédeas da Igreja não aos homens mas ao Espírito Santo. Por ser péssima administradora, a pomba deveria ser urgentemente substituída. Tal qual o Lula, ela diria não saber de nada, mesmo sendo onisciente, como nosso eneadáctilo líder...

Munidos de falácias semelhantes é que muitos julgam poder branquear qualquer nódoa, purificar qualquer podridão. O Socialismo seria santo e conduzido pelo inexorável destino, e Stalin, Mao, Fidel e outros facínoras não terem conseguido extinguir com suas atrocidades o socialismo seria, então, a prova definitiva de que tal ideologia é sagrada.

É dos jornalistas a culpa por tantos disparates lidos na sacrossanta Veja impressa e na online, obviamente. Veja nunca erra!
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