06 junho 2012

A Lanterna de Diógenes

Lê-se hoje na capa do Correio Braziliense, o mais lido jornal do DF: O Herói que o Brasil Esqueceu: Empregado do aeroporto que devolveu maleta com dólares tem salário reduzido.

O humilde nordestino Francisco Bazílio Cavalcante era servente terceirizado do aeroporto de Brasília e tinha contas atrasadas, uma de R$ 28,00, ninguém o cumprimentava a não ser pessoas que o conheciam, observava aviões decolando e pousando e tinha a impressão de que todos podiam alcançar o céu, até mesmo os mortos, menos ele.

Um dia, encontrou uma maleta contendo dez mil dólares e devolveu-a a um turista suíço, que a esquecera no banheiro. Não sei se cometeu o insignificante delito de abri-la e daí constatar a pequena fortuna que ensejou seu ato de retidão ou se devolveu simplesmente a maleta e quando soube do conteúdo bateu com a cabeça na parede pela palermice de não a ter aberto, ou se pensou que era grande demais para ser colocada sob a camisa e que o melhor seria devolvê-la para receber uma gorjeta, antes que um aventureiro o fizesse.

Não interessa. Concordo com Thoreau quando diz que não basta uma informação de como ganhar a vida simplesmente com honestidade e honra, mas que tal ato seja atraente e glorioso. Sim, o honesto deve ter reconhecimento.

Francisco virou celebridade, teve a foto estampada na capa do principal jornal da capital federal, passou a ser cumprimentado por todos, não só pelos conhecidos, encontrou-se com o então presidente Lula, foi promovido, apareceu em horário nobre na televisão para promover a honestidade do brasileiro que não desiste nunca, pelo que não ganhou nada a não ser mais notoriedade, passou a usar terno e gravata, alcançou para ele e a esposa o reino dos céus - galardão dos humildes, no Novo Testamento - ao ganhar três anos de passagens aéreas para o Ceará. Quando desembarcava no aeroporto de Fortaleza era tratado como "doutor", segundo suas palavras cheias de saudade. Um carro da Infraero o levava até Sobral, a 400 km do aeroporto. Reformou a casa, colocou forro no teto e piso de cerâmica, ajudou os cinco filhos, oito netos e os pais, que compraram a primeira televisão com o dinheiro enviado pelo glorioso filho. Foi granjeado com a medalha de honra ao mérito do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, tornou-se cidadão honorário de Brasília, nomeado pela Câmara Legislativa.

Agora - injustiça das injustiças - outra empresa assumiu os serviços gerais do aeroporto e Francisco perdeu o cargo de supervisor, apesar de ser o melhor supervisor de serventes de que se tem notícia, porque não rouba, e voltou a ser o que era: faxineiro. Capa do Jornal: Herói Esquecido. Como disse Juvenal, no primeiro século desta era, "a honestidade é elogiada por todos, mas morre de frio".

Ele vivia com salário mínimo e após o feito, digno de Leônidas nas Termópilas, por oito anos ganhou aproximadamente R$ 1,9 mil por mês, uns R$ 125 mil a mais, no período. Ganhou três anos de passagens aéreas gratuitas para ele e a esposa, de Brasília para o Ceará, onde tem família. Poderia ter viajado uma vez por mês, mas especulemos que aproveitou o mimo três vezes ao ano. Digamos que recebeu uns R$ 15 mil em passagens e mais uns R$ 3 mil pelos traslados de Fortaleza a Sobral.

Devolveu dez mil dólares e ganhou fama, mordomias, medalhas e mais de setenta mil dólares. Muitos devem ter tentado demonstrar honestidade, inspirados nele, mas como provavelmente não obtiveram o retorno desejado, não perderam mais a oportunidade de serem desonestos, que dá mais do que nada e, afinal de contas, achado não é roubado.

Ter sido correto deveria ser a própria recompensa. E, ok, uma medalhinha para ele ficar um humilde orgulhoso perante seus parentes, vizinhos e colegas de trabalho, e um aperto de mão do presidente... da Infraero. Mas o que esperar de uma nação onde lutar pelo fim de uma ditadura não é o próprio pagamento pela luta, onde são heróis os políticos que não roubam. O deputado Reguffe é o inverso do Maluf: não faz mas não rouba. A parede de minha sala é tão heroica e nobre quanto ele, então. Pensando bem, é injustiça eu escrever isto. Minha parede protege-me das intempéries e dos vagabundos que tomaram conta desta cidade desgovernada pelo Agnulo, do PT.

O que era dever passou a ser heroísmo. E o que é errado deve ser tolerado porque poderia ser pior, como os esmoleiros que ameaçam veladamente com clássicos "é mais mió pedi qui roubá". É melhor ser extorquido por flanelinhas do que lhes entregar dinheiro coagido por uma arma, não é verdade?

Em breve brasileiros serão condecorados porque estavam a sós com uma beldade, sem testemunhas, e não a estupraram.

Do outro lado do planeta, em março do ano passado, cidadãos japoneses que perderam tudo no tsunami devolveram R$ 125 milhões para as autoridades. Depois ficaram perplexos com a repercussão que a notícia teve mundo afora, porque para eles não fizeram mais do que a obrigação.

Não um mas milhares de cidadãos encontraram em quase seis mil cofres de casas e empresas o equivalente a R$ 125 milhões, na área destruída pelo tsunami, e entregaram tudo para a polícia, numa ação não coordenada. Em um único cofre havia R$ 1,5 milhão. Outros continham barras de ouro, dinheiro. Só em carteiras perdidas no salve-se quem puder havia R$ 76 milhões em dinheiro vivo. Fico pasmo, porque devem ter sido milhares de carteiras devolvidas. 96% do dinheiro retornou aos proprietários ou a familiares, uma vez que quase sempre elas continham documentos de identidade.

Quando nós brasileiros atingiremos esse grau de evolução dos japoneses?

Quando reencarnarmos no Japão, depois de uma tediosa e emética temporada politicamente correta no Nosso Lar de Chico Xavier.

Ou seja: Nunca. Para que gastar óleo com uma lanterna em plena luz do dia, como fazia Diógenes, procurando um homem probo nas ruas de Atenas? Assumamos nossa essência desonesta e deixemos que a dura lex seja nossa honestidade. E as duras fiscalização e aplicação da lei, obviamente.

14 comentários:

Anônimo disse...

Francisco declarou: “Tem que ser assim. O que não é nosso precisa ser devolvido. Um dinheiro que não é da gente não pode ser do bem. Não pode trazer felicidade”.

Se trouxesse, então ele pegaria? É por aí?

zefirosblog disse...

"Mas o que esperar de uma nação onde lutar pelo fim de uma ditadura não é o próprio pagamento pela luta, onde são heróis os políticos que não roubam"

Pois é...

George Medeiros disse...

Brasileiro eh burro mesmo. Se tivesse aproveitado essa diferença de grana por 8 anos para aprender um ofício melhor... Mas não. Preferiu investir em forro, piso, televisão, pra ver Faustão. Povinho burro merece se estrepar mesmo.

Marcelo disse...

Muito bom.

Hoje mesmo eu conversava com um colega e comentava esse caso do dinheiro encontrado pela população e entregue à polícia no Japão após o tsunami. E dizia também que nós, brasileiros, vivemos iludidos pelos rótulos autoaplicados de povo gentil, honesto e feliz. No Brasil, vivemos muito longe da normalidade: nossas ruas são sujas, nossas taxas de mortes por arma de fogo são piores que as de países que estão em guerra, os atos de honestidade viram notícia por sua raridade. Mas se na violência somos líderes, pelo menos em uma coisa estamos na lanterna: na educação. Somos, portanto, um povo sujo, violento, desonesto e não educado. E acho que enquanto não constatarmos isso, a realidade não vai mudar, porque não se resolve um problema que não se admite.

Dito isto, acho que o Brasil, pouco a pouco, tem melhorado. Tenho observado um fortalecimento das instituições, o que leva a uma melhor aplicação da lei e à diminuição (ainda não o fim, infelizmente) da impunidade. Mas aos poucos vai melhorando. Primeiro, os acusados de corrupção renunciam a seus cargos ou mandatos (antigamente não acontecia nada). Depois, começam a sofrer julgamento político – um impeachment aqui, uma cassação de mandato ali. E, finalmente, um dia – esperamos – começará a funcionar o julgamento do judiciário, botando na cadeia – e mantendo lá – os corruptos, assassinos, etc.

Esperamos e torcemos. Quem sabe um dia poderemos viver em casas sem cerca elétrica e câmaras de vigilância, e poderemos curtir um passeio a pé à noite, ou simplesmente andar com a janela do carro aberta (para curtir o vento, e não porque o preço do ar-condicionado é proibitivo) sem medo de sermos assaltados. Quem sabe...

Abbracci,
Marcelo

P.S. Acho que o cara que achou o dinheiro foi honesto mesmo. Felizmente, é possível encontrar exemplos de honestidade no Brasil, embora não sejam tantos quantos gostaríamos. Como você disse – não com estas palavras –, a honestidade deveria ser a regra, o normal, não a exceção.

Catellius disse...

"Se trouxesse, então ele pegaria? É por aí?"

É, parece haver um caráter utilitário na honestidade, para o Francisco. Mas creio que seja apenas seu modo limitado de se expressar. Acho que ele foi honesto sim, que não esperava ser usado como garoto propaganda e alcançar fama.

Contudo, como disse o George, ele bem que poderia ter aproveitado a oportunidade para investir em si mesmo. Passava sede, achou uma cisterna cheia d'água, bebeu e usou o resto para lavar a casa. Parvo pois... Tivesse aplicado novecentos por mês e vivido com mil, que já era melhor do que um salário mínimo, teria mais de cem mil hoje. Poderia ter construído umas malocas pra alugar, onde mora, sei lá.

Catellius disse...

Raphael,

Saudações!

Marcelo,

Em Brasília foi possível adestrar o cidadão para parar o carro na faixa de pedestres. Primeiro, com um policial em cada faixa. Depois, a população passou a se orgulhar de ter essa característica de primeiro mundo, o pedestre passou a apreciar atravessar a rua como um Moisés, levantando o cajado, digo, o braço para o mar de carros se abrir, e quando pegava no volante lembrava-se de que às vezes também era pedestre.

As câmeras de vigilância podem funcionar bem, então, quando ser pego redunda em punição, claro, o que não é o caso do Brasil. Em um primeiro momento, as pessoas agem corretamente por temerem ser pegas. Começam perceber aos poucos os bons efeitos da honestidade, para todos, inclusive para elas. Elas passam a se admirar e a sentirem-se admiradas pelos outros, quando sua honestidade é exposta, voluntária ou involuntariamente. Depois, isso se torna uma segunda natureza. Não passa pela cabeça delas ser desonestas. Simplesmente porque são honestas. É o estágio dos japoneses, creio.

É óbvio que uma boa educação e um bom exemplo dos pais substitui tudo isso. Mas sabemos que não podemos contar com isso...

Marcelo disse...

Eu não o chamaria de parvo. A mesma instrução que faltou para ele aplicar melhor o dinheiro é a que falta para ele conseguir um emprego melhor.
Pelo que você contou, também, ele ajudou vários familiares a melhorar de vida. Logo, ele não pensou só em si.
Repetindo, eu não o chamaria de parvo, mas de vítima da deficiência do nosso sistema educacional.

Nós talvez empregássemos melhor que ele os R$ 1.900,00 por mês. Mas talvez um ricasso do tipo self-made man, olhando para o que cada um de nós ganha, diria que ele, em nosso lugar, conseguiria, num curto espaço de tempo, multiplicar várias vezes o patrimônio, ao invés de se contentar com nosso estilozinho de vida modesto e sem ambição. Mas estamos fazendo o melhor que podemos. Não esqueçamos que, além das diferenças de capacidade, existem as diferenças de oportunidade e, também, as diferenças de aptidão. Por exemplo: alguém pode ter uma aptidão enorme para ensinar e pode se tornar um excelente professor. Mesmo com toda a excelência, vai receber ganhos módicos. Outra pessoa pode ter um talento excepcional para jogar futebol, e ganhar rios de dinheiro.

Talvez o funcionário em questão não tenha aptidão para administração ou para a construção de uma carreira, mas ele pode, por exemplo, ser um excelente amigo, pai de família ou marido, sei lá. Não estou dizendo que é, nem que não é, apenas que pode ser. Afinal, pelo que entendi, ele empregou a grana para melhorar o padrão de vida dos familiares. Considerando essa hipótese, eu poderia dizer que ele não é nenhum grande administrador, mas certamente não diria que ele é um parvo.

Bem, era isso. Abraços!
Marcelo

Anônimo disse...

Nao entendi a parte da lanterna. Como estamos desperdiçando óleo?

Mário disse...

"Ter sido correto deveria ser a própria recompensa".

Concordo. Além do mais, o estardalhaço feito em torno de uma atitude honesta transforma-a numa anomalia
e define-a ipso facto como algo para ficar de fora do comportamento quotidiano dos "simples mortais".
Algumas crianças começam a aprontar depois de elogios desastrados feitos por professores, ou
provenientes de qualquer fonte que, para elas, cheire a manipulação.

Catellius disse...

"Nós talvez empregássemos melhor que ele os R$ 1.900,00 por mês. Mas talvez um ricasso do tipo self-made man, olhando para o que cada um de nós ganha, diria que ele, em nosso lugar, conseguiria, num curto espaço de tempo, multiplicar várias vezes o patrimônio, ao invés de se contentar com nosso estilozinho de vida modesto e sem ambição."

Para mim ele tão parvo quanto alguém que passa a ganhar dezenove mil por mês, durante oito anos, após uma vida ganhando o equivalente a seis mil e duzentos (multipliquei tudo por dez) e não junta nada, não compra um apartamento, não investe em nada, torra tudo colocando granito na casa, viajando, ajudando os familiares, que também devem ter passado a contar com as ajudas. Exemplos abundam de casais que ganham, juntos, mais de vinte mil reais e estão sempre endividados. Quantos parvos não ganharam na loteria e voltaram à estaca zero após um tempo? Em contrapartida, quem assistiu ao Globo Repórter de uns meses atrás, que mostrou empregadas domésticas, peões, gente sem cultura, que economizou e fez milagres?

"Por exemplo: alguém pode ter uma aptidão enorme para ensinar e pode se tornar um excelente professor. Mesmo com toda a excelência, vai receber ganhos módicos. Outra pessoa pode ter um talento excepcional para jogar futebol, e ganhar rios de dinheiro."

Eu posso ter aptidão enorme para esculpir em palitos de fósforo e morrer de fome, porque ninguém quer saber disso. A sociedade precisa de professores, mas milhares e milhares têm talento para isso. Mas só há um Messi, um Neymar, e milhões de pessoas querendo assisti-los, na TV, nos estádios. E há centenas de jogadores de segundo escalão, que tiram um dinheirinho bom com futebol, e milhares que mal pagam as contas. O professor mal pago não é parvo. Parvo seria se, por algum motivo, passasse a ganhar mais do que o triplo, durante oito anos, e não juntasse um pouco ou não pagasse por uma especialização que lhe rendesse mais dinheiro. Veja bem, não acho que a principal característica do "herói" do aeroporto seja a parvoíce. Acho que foi parvo por não pensar que um dia a fonte poderia secar.

"Talvez o funcionário em questão não tenha aptidão para administração ou para a construção de uma carreira, mas ele pode, por exemplo, ser um excelente amigo, pai de família ou marido, sei lá."

Uma afirmação apenas emocional, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Parvos não são proibidos de amar o semelhante, hehe. Mas, repetindo, não estou dizendo que sua principal característca seja a parvoíce.

Abs

Anônimo disse...

Fico de cara com o tanto de comentários lindos que vocês escrevem.

Escrevam um livro, ou deêm aulas gratuitas. Se mexe, pára de dar "boas dicas" ou lamentar, seus medíocres.

Catellius disse...

Você não é anônimo para mim. Tenho como identificar o IP de seu computador. Vou fingir que não li.

Henrique Lima disse...

Nosso Lar é emético?
Tão querendo fazer isso aqui agora.


http://www.thevenusproject.com/

zefirosblog disse...

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1117708-vida-de-moradores-de-rua-tem-reviravolta-apos-devolucao-de-dinheiro.shtml

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