08 dezembro 2010

Se ainda sou gaúcho

Janer Cristaldo


O bom da Internet é que as crônicas não morrem. Sobre a crônica publicada no 20 de setembro, me pergunta um leitor: ainda és gaúcho? É uma boa pergunta.

Minha definição de gaúcho não é a que vige no Brasil, a de gentílico de quem nasceu no Rio Grande do Sul. Entendo como gaúcho o homem que nasce no campo, entre vacas, ovelhas e cavalos. Não concebo como gaúcho gente nascida no asfalto. Quanto aos cetegistas, recorro à definição dos catarinenses. Qual é o menor circo do mundo? São as bombachas. Só cabe um palhaço dentro.

Nasci no campo, entre vacas, ovelhas e cavalos. Sei o que é o gaúcho. É homem que geralmente nasceu pobre, vive afastado do mundo contemporâneo e tem uma visão peculiar de mundo, que nada tem a ver com a do homem urbano. Para começar, um gaúcho sabe o que é horizonte, noção cada vez mais rara nas cidades. Em minha infância, tive 360º graus de horizonte, que se situava a mais de légua de distância. Isso mexe com a psicologia de qualquer um.

Nasci em um deserto verde, salpicado de capões de árvores e umbus solitários. Quando fui para a cidade, meu primeiro espanto foi ver que nossa casa terminava no pátio. Lá no Upamaruty, terminava no horizonte. Meu espanto só foi maior quando passei a morar em apartamento. Meu espaço terminava na janela.

Meu pai, quando foi para o "povoado" – em função de minha educação – sentiu-se como peixe fora d’água. Cheguei em Dom Pedrito numa época em que botas e bombachas eram sinônimo de “grosso lá de fora”. Mesmo assim, Canário enfrentava a cidade com suas pilchas. Que não eram para bailes, mas seus trajes costumeiros lá no campo. Quanto a mim, larguei as botas, por uma questão de conforto. Mas mantive as bombachas. Com sapatos. O que me valeu muitas piadas no colégio. Acabei traindo os meus. Optei pela calça corrida. Meu pai morreu amargurado, longe dos pagos. Jamais se adaptou à vida urbana. Sentia falta das lides do campo, das vacas e dos cavalos.

A tapera ficou lá fora. Por muitos anos a visitei, meus tios e primos ainda viviam lá. Um belo dia, um fazendeiro da região procurou-me em Porto Alegre. Precisava de uma saída para o Uruguai e me perguntou se eu não queria vender meu “campinho”. Pensei um pouco e considerei que aquele rancho fazia parte do passado, eu jamais voltaria para lá. Virei bicho da cidade e não tinha mais vocação para fazendeiro. Com dor na alma, passei-lhe a escritura. Naquele dia, morri um pouco. Mas que fazer? Não havia porque manter um pedaço de terra ao qual eu jamais voltaria.

Em 77, antes de ir para Paris, levei até lá minha companheira, para mostrar-lhe os campos onde havia nascido. Foi certamente a viagem mais dolorosa que já fiz. O Fusca atolou uma boa légua antes de chegarmos de chegarmos a meu rancho e continuamos a pé. Era inverno e um mar revolto de alhos-bravos e flechilhas agitava as coxilhas e canhadas. Subi pelo Cerro da Tala, em cujo cume havia a Toca da Onça. Era um buraco sob uma pedra onde, crianças, nos escondíamos, para tratar de nossos mistérios. De minha lembrança, me parecia uma imensa caverna. Tentei entrar na Toca da Onça. Já não cabia.

Desci o Cerro da Tala, e entrei pela sanga no Passo do Vime, onde a prima Corininha, acocorada, lavava roupas sobre o empedrado. Eu me postava do outro lado do filete de água, para espiar aquele intrigante triângulo escuro que as mulheres tinham entre as pernas. Rumei à Casa, último resquício da herdade, onde em meus dias vivera tio Ângelo. Era um precursor. Um belo dia entre os dias, decidiu que teria um rádio.

Era tido como um visionário. Sua primeira providência foi cortar o mais reto e alto dos eucaliptos, no eucaliptal do Toto Ferreira, a uma boa légua de distância. Teria uns quinze, talvez vinte metros de altura. Falquejado, foi levado por uma junta de bois até a Casa. Providência seguinte, pintá-lo de vermelho. O erguimento do poste foi uma operação mais ou menos como a construção das pirâmides, da qual participei com muito orgulho. Com quatro máquinas de alambrar, levantamos o poste e o colocamos num buraco frente ao oitão do rancho.

Era o primeiro passo para a instalação do rádio, o cata-vento. Depois chegaram as baterias, de Villa Indarte, no Uruguai. Depois, finalmente chegou o rádio, um Telefunken mastodôntico, que só meu tio sabia operar. O universo começou a entrar em nosso pequeno mundinho. A propriedade do tio Ângelo passou a ser conhecida como Estabelecimento do Pau Vermelho. Quando o sol começava a cair, a gauchada chegava de longe, para escutar rádio. Meu tio, com a solenidade de um sacerdote, girava o dial e viajava pela Argentina e Uruguai.

À medida que me aproximava da Casa, o coração batia com mais força. Tudo deserto. Sentei-me na laje onde meu tio afiava facas e gritei: “Ô de casa!” Corininha apareceu na porta e perguntou: o que o senhor deseja? Com a voz já embargada, respondi: o tio Ângelo está?

Não estava mais. Ela reconheceu-me e nos abraçamos chorando. Meu rancho ficava a uma meia légua dali. Desci pela canhada e fui revisitar nossa cacimba. Era julho e escorria pelas bordas. Debrucei-me sobre o pedregal e sorvi com gosto aquela água salobra, com sabor de infância. Minhas lágrimas se misturaram às águas da cacimba. Chorei como terneiro desmamado.

Aquela canhada, desci milhares de vezes, sempre em pânico. Ficava até tarde da noite, sob o cinamomo à frente da Casa, ouvindo dos adultos histórias de assombração. Geralmente voltava para meu rancho lá pela meia-noite, hora sinistra, sob um luar gelado que tornava a noite clara. E corria desesperado de um vulto que me perseguia e não me dava quartel, juro que não minto. Era minha sombra. Durante muitos anos, tive medo de passar à noite por um cemitério. Também, pudera, até meu cavalo ficava sestroso, quando uma alma penada montava na garupa.

Nunca mais voltei lá. Nem quero voltar. Dói muito. Se ainda sou gaúcho? Diria que não. Tive um passado de gaúcho, mas este passado ficou perdido no tempo. Bati na marca e saí a correr mundo. Vivi em cidades onde a geada é grossa de mais de palmo. Vaguei por terras onde no verão o sol não se põe e no inverno é noite o dia todo. Ouvi línguas que mais parecem doença da garganta. Estou mais longe dos cavalos e vacas que dos restaurantes da Europa. Faz 33 anos que não volto aos pagos onde nasci. A Paris ou Madri, vou todos os anos.

Nasci na fronteira seca entre Brasil e Uruguai. Coincidia que o Uruguai começava justo no horizonte, onde ficava a Linha Divisória. Nesta linha, de três em três quilômetros há um marco de concreto. De seis em seis, há um marco maior. Em frente a nosso rancho, ficava o Marco Grande dos Moreiras. Canário me erguia até o topo do marco, me fazia virar para o nascente e dizia: “Fala para os homens do Uruguai, meu filho”. Depois, me virava para o poente: “Fala agora com os homens do Brasil”. Nasci entre dois países, sempre olhando para um e outro. Daí a querer ir mais adiante foi só um passo.

Em verdade, diria que nem brasileiro sou. Nasci voltado para o Prata, me sinto melhor em Montevidéu, Buenos Aires ou Madri do que em Porto Alegre ou São Paulo. Martín Fierro foi o primeiro poema que ouvi em minha vida, recitado por meu pai nas fogueiras do galpão. Falar espanhol me proporciona mais prazer do que falar português. Foi minha língua de cuna. Mas isto pouco importa. Não há lei no mundo que obrigue quem nasceu no Brasil a sentir-se brasileiro. Minha infância foi mais platina que rio-grandense.

Infeliz do ser humano que morre igual como nasceu. Não evoluiu. A vida, as viagens, as cidades me transformaram. Virei cidadão do mundo e não consigo mais viver no deserto. Seria um tour de force dizer hoje que sou gaúcho.

Mas à minha infância, continuo fiel.

03 dezembro 2010

Espiritismo e falta de respeito

Janer Cristaldo


Sou ateu, mas respeito todas as religiões. Quer dizer, nem todas. Não dá para respeitar essas seitas caça-níqueis lideradas por Edir Macedo, R. R. Soares et caterva. Se bem que a Santa Madre Igreja Católica Apostólica também vive de catar níqueis. Nada tenho contra quem crê em Deus, seja qual deus for. Claro que me permito críticas às religiões, afinal vivemos no Ocidente, onde é livre a expressão de pensamento. Não acredito em Deus, mas jamais neguei - nem afirmei – sua existência.

Várias vezes fanáticos me enfrentaram com as cinco vias de Tomás de Aquino: o primeiro motor imóvel, a causa primeira ou causa eficiente, o ser necessário e o ser contingente, o ser perfeito e causa da perfeição dos demais, a inteligência ordenadora. Pura baboseira. O aquinata quer deduzir a existência de um ser a partir da lógica. Ora, lógica é um sistema axiomático. Prova apenas aquilo que se deduz dos axiomas que estabeleceu.

A primeira prova, a do motor imóvel, a mais brandida, é de uma precariedade atroz. Nossos sentidos atestam, com toda a certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Tudo o que se move é movido por alguém, é impossível uma cadeia infinita de motores provocando o movimento dos movidos, pois do contrário nunca se chegaria ao movimento presente, logo há que ter um primeiro motor que deu início ao movimento existente e que por ninguém foi movido, e um tal ser todos entendem: é Deus.

Ok! E quem move Deus? É espantoso que tal argumento, que se sustenta no nada, tenha atravessado os séculos e até hoje seja empunhado por pessoas que adoram crer em algo que não entendem. Seguidamente crentes querem puxar-me para essa discussão. Não caio na armadilha. Discutir a existência ou não de Deus é pura perda de tempo, não leva a lugar nenhum. Que as pessoas creiam em Deus, problema de cada um. O irritante é quando pretendem que os demais partilhem de suas fés.

Neste sentido, admiro os judeus. Não fazem proselitismo, não pretendem expandir suas crenças. Judeu é quem é filho de mãe judia e estamos conversados. (Quanto à paternidade, pelo jeito é questão de fé). Verdade que você pode tornar-se judeu, se converter-se. Mas rabino algum está interessado em conversões.

Nada pior que proselitismo. Exceto do espiritismo, não tenho recebido assédio de nenhuma religião. Tenho sido bombardeado continuamente por spam, com mensagens de Chico Xavier, Divaldo Franco e vigaristas menores. O espiritismo é uma doutrina tosca, que se apossou dos Evangelhos e mesclou-os a teorias supostamente científicas. Mas a estupidez é universal. Assim como existem juízes roqueiros, há juízes espíritas, médicos espíritas e – pasmem! – professores universitários espíritas. Pelo jeito, o ensino universitário de nada serve ante a força de superstições.

Chico Xavier, o médium mineiro, é um seguidor de Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec (1804 – 1869), que misturou evangelhos com a teoria do magnetismo animal do austríaco Franz Anton Mesmer, com mais algumas pitadas de budismo, no caso, a reencarnação. Mesmer era médico, estudava teologia e instituiu como terapia a picaretagem da imposição das mãos. Criação nada original, afinal já está nos Evangelhos.

Se voltarmos um pouco atrás, encontraremos a prática no Egito, no templo da deusa Isis, onde multidões buscavam o alívio dos sofrimentos junto aos sacerdotes, que lhes aplicavam a imposição das mãos. Curiosamente, Kardec, que é francês e está sepultado no Père Lachaise, em Paris, é praticamente desconhecido em seu país. Sua tumba está sempre cheia de flores, colocadas geralmente por brasileiros. Pergunte a um francês médio quem é Kardec. Ele não saberá responder.

Na França, a nova religião não vingou. Exportada para o Terceiro Mundo, adaptou-se muito bem no Brasil – maior nação espírita do mundo – e nas Filipinas. Havia no país uma certa elite que queria desvincular-se do catolicismo de Roma, mas não queria associar-se às religiões animistas africanas. A ficção criada por Kardec, cidadão francês, mais as teorias oretensamente científicas do austríaco Mesmer, vinham a calhar. Assim se implanta no Brasil a nova crença.

Meu primeiro contato com espíritas ocorreu quando minha mulher morreu. Eles sempre aparecem quando alguém morre. Minha mulher morrera há mais de mês e eu conversava com amigos comuns. Em dado momento, uma moça atalhou: "Eu conversei ontem com ela". Nessas ocasiões, tomo uma atitude de crédulo. Se a moça afirmava com tanta convicção ter conversado com minha mulher, não seria eu quem iria contestá-la. Perguntei apenas o que ela havia dito. Ela deixou uma mensagem, disse a moça: "seja feliz".

O que me lembrou a aparição de Maria aos três pastores em Fátima. Quando interrogada sobre quem era, teria dito a Virgem: "Eu sou a Nossa Senhora". Ora, sendo Maria mais que santa, semideusa, é de supor-se que não tivesse domínio tão precário do português. Se se dirigia aos três pastores, o correto seria: "Eu sou a Vossa Senhora". Por um descuido sintático do narrador, o milagre ficou prejudicado.

Da mesma forma, a mensagem de minha companheira. Éramos gaúchos. Depois de passarmos por Curitiba e São Paulo, ela passou a usar o você, mas apenas ao tratar com curitibanos e paulistanos. Jamais me trataria por você. Como a comunicação de Maria, a de minha mulher também ficou sob suspeita. Mas não neguei o testemunho da moça. Podes falar de novo com ela? - perguntei. Claro - me respondeu. Pedi-lhe então que, quando voltasse a falar com ela, pedisse o código do celular, que eu havia ficado sem.

A moça entrou em pane, achava que não ia dar, códigos são coisas confidenciais, começou a perguntar que horas são e logo deu as de Vila Diogo. Contei a história mais tarde a professores universitários e um deles, também espírita, prometeu-me perguntar às instâncias do Além sobre o código do celular. Mas me alertou que o médium teria de ser muito poderoso para descobri-lo. Bem entendido, nunca mais me falou no assunto. Nem eu precisava do código, afinal sempre o tive e queria apenas divertir-me com a capacidade comunicativa dos tais de médiuns.

Pois estes senhores estão inundando meu correio com lixo metafísico, sempre falando de paz, amor e respeito ao próximo. Reclamei. Um cretino qualquer me recomendou bloquear o remetente. Não adianta. Bloqueio e o lixo, que parece ter poderes sobrenaturais, volta. Para os espíritas, ao que tudo indica, invadir a privacidade alheia não é falta de respeito ao próximo.

Confesso não entender estes fanáticos. Não convencem ninguém com suas vigarices e acabam irritando as pessoas. Respeito todas as religiões, dizia. Mas, por favor, senhores crentes, não invadam meu correio.

07 novembro 2010

Apologista da droga vende bem no Brasil

Janer Cristaldo


Decididamente, eu vivo fora deste insensato mundo. Leio no Estadão que nestas duas primeiras semanas de novembro - com eventos tão díspares como Fórmula 1, Salão do Automóvel, Mostra de Cinema e shows do Black Eyed Peas, Jonas Brothers e Eminem -, São Paulo vai receber 400 mil turistas, o equivalente a toda São José do Rio Preto, que devem movimentar nada menos do que R$ 385 milhões na economia da cidade. É, de longe, o melhor momento para o mercado do turismo paulistano, que já cresceu 30% neste ano.

Que vem fazer em São Paulo esta gente toda? Fórmula 1 e Salão do Automóvel até sei o que é, mas jamais me ocorreria a ir a algum desses eventos. Até hoje não entendi que tipo de ser humano vai a uma corrida de Fórmula 1. Os carros passam voando onde está o espectador, ele vê só um risco à sua frente. Se ficasse em casa, olhando a televisão, poderia ter uma visão geral da corrida.

Quanto a cinema, confesso que ainda curto. Mas uma preguiça abissal me impede de sair de casa. Deve ser coisa da idade. Há muito desisti de ler ficções e cinema também é ficção. Prefiro catar algum filme interessante na televisão nas madrugadas. Com os televisores de última geração, se pode ter bom cinema em casa sem ter de ouvir gente comendo pipoca.

Quanto a Black Eyed Peas, Jonas Brothers e Eminem, não tenho a mínima idéia do que se trata. Me espanta que tenham público em São Paulo. Vivo fora desse mundo. Lembro que há uns vinte anos, uma sobrinha veio do Rio Grande do Sul para ver um show de um tal de U-2. Que é isso? – perguntei. Ela se escandalizou. Eu, jornalista, não sabia o que era o U-2? Não sabia, não. E não sentia falta alguma por não saber.

Sei que são coisas que atraem multidões. É o máximo que sei. Ora, abomino multidões. A multidão máxima que admito é o público de uma ópera. Em verdade, não é bem o que se chama de multidão. E muito menos é uivante. Quando vejo na televisão uma massa de jovens balançando as mãos erguidas, não noto diferença alguma das multidões que saudavam Hitler, Stalin ou Kim Il Sung. Ou o papa. Dá no mesmo. Psicologia de rebanho.

Assim sendo, confesso não entendo essa histeria toda em torno a um cantor septuagenário que está no Brasil, o tal de Paul McCartney. Que se apresenta hoje, em Porto Alegre. Este sei quem é, mas nada me diz. Seguido tenho ácidas discussões com um amigo, para quem os Beatles foram revolucionários. Revolução onde? Meu amigo empunha uma canção de John Lennon:

Imagine que não há paraíso
Isso é fácil se você tentar
Sem inferno abaixo de nós
Acima de nós só o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje

Imagine que não há países
Isso não é difícil de fazer
Nada para matar ou morrer por
E sem religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje


Ora, não venha alguém me dizer que uma letrinha vagabunda dessas provocou alguma revolução. Slogans não provocam revolução alguma, apenas servem para conduzir fanáticos. Não foi a Marselhesa que provocou a Revolução Francesa. O hino serve apenas para excitar ânimos. Revoluções surgem de idéias, de pensamento, não de cançonetas. Não é cantando que não existem infernos (mas paraísos existem) que vamos lutar contra o obscurantismo. Lutar contra religiões exige pensamento, não letrinhas de grupos de rock. Mas é claro que ler um ensaio filosófico cansa mais que cinco minutos de musiquinha.

Imaginar um mundo sem religião é besteirol de adolescente, que ainda não descobriu que a humana estupidez é eterna. Dizem que os Beatles influenciaram minha geração. Se assim foi, eu a ela não pertencia. Sou mais Pedro Raimundo, Inesita Barroso, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete. Não que tais cantantes tenham me influenciado. Eles me ofereciam música, não ideologia.

Nunca entendi multidões de jovens curtindo canções em língua que não entendem. Qual o percentual desse público que vai ver McCartney entende inglês? Duvido que cinco por cento. Ok, eu gosto de Kalinka, sem entender russo. Gosto do ritmo. Adoro músicas folclóricas, mesmo em línguas que não conheço. Mas folclore nasce de povo. Nada a ver com música mercenária, feita para vender. Jamais veremos multidões fanáticas, com gestos uniformizados, curtindo Kalinka.

Os Beatles fizeram fortuna com seus apelos comerciais. Claro que não escapei de ouvir suas canções, mas elas nada me disseram. O grande legado de Paul McCartney e John Lennon, a meu ver, é a apologia das drogas. Era uma bandeira respeitável nos anos 70. Os Beatles foram os grandes agentes do LSD, cocaína, maconha e congêneres. Hoje, algumas mentes brilhantes estão concluindo que quem consome drogas financia o tráfico e o crime. No entanto, continuam lotando estádios em homenagem aos apologistas da droga.

Tenho boas amigas, de minha geração, que vão ver o beatle macróbio. A elas, minhas desculpas. Mas não posso deixar de dizer o que penso. Terá McCartney estádios lotados, hoje, na Inglaterra? Duvido. Veio ao país dos botocudos faturar os restos de prestígio que lhe resta.

Mais ou menos como aqueles chefs franceses, cujos restaurantes em Paris vivem às moscas. Mas encontram uma clientela ingênua para vender seus peixes caríssimos no Brasil.

03 novembro 2010

Lei cria nova doença

Janer Cristaldo


Quem não ouviu falar da tal de TPM, a famigerada tensão pré-menstrual? Todos já ouvimos falar. Mas se o leitor tem minha idade – isto é, uns sessenta anos – deve ter observado que sua mãe jamais teve TPM, muito menos suas tias ou avós. Nos dias de meus ancestrais, as mulheres sofriam de cólicas. Agora, padecem de TPM. Outra doença contemporânea, que não existia em meus dias de juventude, é o tal de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, mais conhecida como TDAH. Busco na rede os sintomas relacionados à hiperatividade.

• ficar remexendo as mãos e/ou os pés quando sentado;
• não permanecer sentado por muito tempo;
• pular, correr excessivamente em situações inadequadas;
• sensação interna de inquietude;
• ser barulhento em atividades lúdicas;
• ser muito agitado;
• falar em demasia e sem pensar no que vai dizer;
• responder às perguntas antes de concluídas;
• ter dificuldade de esperar sua vez;
• intrometer-se em conversas ou jogos dos outros.

Ou seja, uns bons 90% ou mais das crianças padecem de TDAH. Ser irrequieto já é sintoma da doença. Ora, qual criança não é irrequieta? Ainda hoje, fui almoçar em um restaurante repleto de crianças com TDAH. Para se diagnosticar um caso de TDAH – dizem os médicos - é necessário que a pessoa em questão apresente pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade; além disso os sintomas devem manifestar-se em pelo menos dois ambientes diferentes e por um período superior a seis meses. Qual criança não manifesta seis desses sintomas?

Mais ainda: segundo estes senhores, as crianças portadoras do transtorno, aplicam menor quantidade de esforços e despendem menor quantidade de tempo para realizar tarefas desagrádaveis e enfadonhas. Ou seja, o que é virtude, habilidade, passa a ser doença. Para que serve o TDAH? Para os laboratórios venderem uma substância chamada metilfenidato.

Quanto mais doenças são criadas, mais os laboratórios empurram suas drogas. Os americanos estão criando mais uma, a síndrome de alienação parental, a SAP. O mundo contemporâneo está cheio de pais separados e divorciados, não é verdade? Excelente mercado para uma nova doença e novos medicamentos.

Leio no Estadão entrevista com a psicóloga Maria Dolores Toloi, que há 15 anos trabalha como assistente de perícias psicológicas no Tribunal de Justiça de São Paulo. "No grau mais leve, o guardião, normalmente a mãe, faz comentários críticos sobre qualquer coisa que a criança fale sobre o pai. Ou então diz que vai ficar sozinha e triste quando ela for visitá-lo", Com o tempo, a convivência com o pai passa a ter um custo emocional tão alto que a criança diz não querer mais vê-lo.

Em muitos casos, diz Maria Dolores, o alienador se aproveita da distância para doutrinar a criança contra o outro genitor, chegando até a implantar memórias de fatos que nunca aconteceram. "Quando a criança entra nesse jogo e passa a participar da campanha de difamação, está instalada a Síndrome da Alienação Parental (SAP)".

Ora, quando pais se separam é porque algum conflito houve. Que troquem acusações é uma decorrência lógica. Que a criança ouça estas acusações, também, afinal ela faz parte do conflito. Mas se uma criança tem um pai bêbado ou assassino e mãe diz ao filho que seu pai é bêbado ou assassino, voilà: temos mais um cliente para os laboratórios.

No Brasil, a nova “doença” virou lei. Desde agosto passado, vige uma nova norma que pune os que impedem a convivência de crianças e adolescentes com um dos genitores. Segundo o Estadão, 80% dos filhos de casamentos desfeitos enfrentam a situação em diferentes níveis. Quer dizer, se você é mãe e quer afastar sua cria da convivência de um pai bandido, ladrão ou estuprador da própria filha, você está sujeita a uma punição.

Segundo o juiz Marco Aurélio Costa, da Segunda Vara da Família do Foro Central de São Paulo, já é possível notar um cuidado no discurso das mães para não dar margem a acusações de alienação parental. "Já existe no ar a perspectiva de que isso pode ser punido. Nesse ponto a lei foi muito útil." Isto gera um mercado de sonho para psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Segundo a psicóloga Maria Dolores, uma avaliação psicológica, para ser bem feita, demora cinco sessões. Multiplique estas cinco sessões pelo número de crianças oriundas de casais desfeitos e não teremos mais psicólogos desempregados no Brasil.

Quem denuncia este embuste é a psicóloga Analicia Martins de Souza. Segundo Analicia, a SAP foi um termo criado em 1985 pelo psiquiatra americano Richard Gardner para retratar o conjunto de seqüelas que podem afetar crianças vítimas de alienação parental. Embora exista a possibilidade de a SAP ser incluída na nova edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5), que está sendo revisado para publicação em maio de 2013, a idéia de que ela possa ser considerada uma patologia é polêmica entre os profissionais de saúde mental.

Autora do livro Síndrome da Alienação Parental. Um Novo Tema nos Juízos de Família, a psicóloga considera que a teoria de Gardner tem escasso valor científico. Ainda assim, diz ela, serviu de base para a legislação brasileira.

“As associações de pais separados começaram a difundir a teoria de Gardner logo após a aprovação da guarda compartilhada. Mas não chegou ao Brasil toda a polêmica que existe no exterior sobre a existência ou não da síndrome. Gardner criou uma patologia, uma teoria de escasso valor científico que, de uma hora para outra, virou lei. O campo da psicologia foi alijado da discussão. Não se consultaram pesquisadores que há anos estudam questões relacionadas ao divórcio e à guarda de filhos”.

Um americano arrota e seu arroto vira lei no Brasil. Para onde aponta a nova lei? Analicia responde:

“As mães guardiãs passam a ser vistas como alienadoras; elas e seus filhos, como portadores de transtorno mental. Não nego o exagero de alguns genitores, mas poucos são os casos em que há de fato patologia. O que era exceção vira regra. Isso faz voltar a idéia superada de que filhos de pais separados são portadores de distúrbios. Além disso, há forte campanha para incluir a SAP no DSM-5. Esse manual é referência na produção de novos medicamentos”.

Segundo nossos legisladores, todo filho de casal separado é tecnicamente doente. Os terapeutas têm agora um farto e novo mercado a explorar. Os laboratórios também.

01 novembro 2010

Consummatum est

Janer Cristaldo


Foi uma segunda-feira sem novidades. As primeiras páginas dos jornais estavam previstas há meses. Eleita a primeira mulher presidente da República, dizem as manchetes. Pode ser. Mas vejo a coisa por outro lado. Vinte anos depois da queda do Muro, da dissolução da União Soviética e do desmoronamento do comunismo, foi eleito o primeiro presidente da República marxista. Pois, pelo que sei, dona Dilma nunca renegou publicamente sua filosofia de juventude. Pelo contrário, orgulha-se discretamente de ter lutado para transformar o Brasil numa republiqueta soviética.

Meu correio é inundado diariamente por mails de almas ingênuas que contam os dias que faltam para findar o governo Lula. São bobalhões que ainda não se deram conta de que o inimaginável acabará acontecendo: ainda vamos sentir saudades do Supremo Apedeuta. Há uma direita histérica no Brasil, liderada pelo astrólogo Aiatolavo de Carvalho e seus acólitos, que via em Lula uma ameaça comunista. Ora, Lula nunca teve ideologia. Só se apegou a um ismo, um único ismo, o oportunismo. Se alguma virtude teve, foi jogar na lata do lixo os propósitos socialistas do PT.

Mas Dilma tem ideologia. É atrabiliária e vai mostrar as garras. O PNDH-4 aí está, esperando aprovação de uma bandeira sempre cara aos velhos comunistas, a censura de imprensa. Alguns Estados, apressadinhos, ao arrepio da Constituição, já criaram seus conselhos de controle da mídia. O tal de plano legisla em todas as áreas, é quase uma nova Constituição. Parece ter sido elaborado por um analfabeto em termos de legislação. Mas apenas aparentemente. Em verdade, é obra de alguém que, por muito entender de leis, não as respeita.

Antes mesmo de tomar posse, Dilma já está acenando com a reabilitação de um corrupto envolvido no escândalo da máfia do lixo, em Ribeirão Preto. Que teve de renunciar ao ministério da Fazenda por ter violado o sigilo bancário de um humilde caseiro. Por seus feitos, ao que tudo indica, Palocci será contemplado com um ministério.

Imaginei que a fatura, neste 2010, seria liquidada no primeiro turno. Não foi. O que só prolongou a agonia tucana. Serra não ousou atacar Lula nem poderia. São farinha do mesmo saco. Não houve oposição nestas eleições. Ambos os candidatos reivindicavam a continuidade do governo Lula. A tal ponto que Serra, supostamente oposição, grudou um bonequinho de Lula em sua campanha. Houve dois partidos, é verdade: o do sim e o do sim senhor. Dilma prometia manter a Bolsa-Família, Serra prometia um décimo-terceiro salário para a bolsa. O PSDB sequer ousou em propor um governo distinto ao de Lula. Criou a infeliz expressão “pós-Lula”. Ora, se é para dar continuidade ao governo de Lula, melhor então votar em quem Lula indica. Este foi o recado que Serra passou aos eleitores.

Os tucanos amanheceram, nesta segunda-feira, contando mortos e feridos. ”Não é um adeus, é um até logo”, disse Serra após sua derrota. Santa ingenuidade. Serra saiu politicamente morto deste pleito. Tem 68 anos e o máximo que pode esperar é uma secretaria de Alckmin como prêmio-consolação. Tinha dezenas de trunfos em mão para enfrentar o PT. O assassinato de Celso Daniel, o mensalão, dinheiro nas cuecas, quebras de sigilo fiscal e bancário, nepotismo, proteção às falcatruas de Sarney, em suma, corrupção foi o que não faltou para denunciar. Serra preferiu manter um silêncio obsequioso. Se usasse as armas que tinha em mãos, mesmo que perdesse, cairia em pé. Não as usou. Sai aviltado do pleito.

Dilma mentiu descaradamente durante toda a campanha. Há três anos se pronunciava a favor do aborto, publicamente. De repente, virou defensora da vida. Não teve sequer a hombridade de dizer que mudara de idéia. Preferiu entoar o mantra dileto do PT: são boatos e calúnias. Marxista convicta, divulgou fotos de um encontro com o papa e deixou-se fotografar fazendo o sinal da cruz. Serra não deixou por menos, saiu a beijar terços. Só faltou aos candidatos papar hóstias. O Brasil engoliu prazerosamente as mentiras da candidata.

Leitores mais antigos devem lembrar quando o PT, em seus anos irados, denunciava o regime assistencialista das sociais-democracias européias. Hoje, o PT fez sua presidenta graças ao regime assistencialista que instalou no país. A vitória de Dilma se deve fundamentalmente ao Nordeste que não trabalha e vive das esmolas do Estado. As mesmas esmolas que Lula denunciava, quando eram dadas por Fernando Henrique. Os tucanos não podem queixar-se. Prepararam o ninho para os chupins.

Consummatum est. Teremos pelo menos mais oito anos de lulismo e populismo pela frente. Quanto a mim, estou vacinado. Se sobrevivi a oito anos de Lula, acho que sobrevivo a Dilma. O duro vai ser ver aquele rosto emético nas primeiras páginas dos jornais nos próximos anos. Duro também é ver uma remanescente das tiranias comunistas assumir o poder, vinte anos após a queda do Muro.

Isto é Brasil.

15 outubro 2010

Perpétua e a Outra

Janer Cristaldo

A vida já é naturalmente complicada. E existem ainda os que adoram complicá-la um pouco mais. Me refiro a esse draminha secundário após o resgate dos 33 mineiros soterrados em Atacama. Durante a tragédia, a mulher de um dos mineiros, Yonni Barrios, descobriu que ele mantinha relações com outra. E queria se encontrar com as duas ao emergir da terra. Marta Salinas Cabello, a Perpétua, decidiu não ir à mina receber o marido. "Estou contente porque ele se salvou, é um milagre de Deus, mas não vou acompanhar o resgate. Ele me pediu, mas acontece que também convidou a outra mulher e eu tenho decência. A questão é clara, ou ela ou eu", disse ela ao Terra alguns dias atrás, enquanto atendia em seu mercado.

Perpétua está magoada. Barrios foi recebido pela Outra, Susana Valenzuela. Seria o único dos 33 soterrados a viver esta condição? Não acredito. Reúna 33 homens. Você não vai encontrar apenas um entre eles que tenha – ou tenha tido - mais de uma mulher. A traição, como costuma chamar-se este comportamento, hoje é mais ou menos regra no mundo contemporâneo. Já vivi seis décadas e se contar nos dedos de minhas mãos os casais fiéis um ao outro, vai sobrar um monte de dedos. Às vezes, há consenso entre ambos. Na maior parte dos casos, Perpétua sabe muito bem o que está acontecendo. Só não quer que isto lhe seja jogado na cara. No fundo, hipocrisia da Perpétua.

Como costuma chamar-se este comportamento, dizia. Porque há nuanças. Quando um parceiro não mente para o outro, não há traição. Assim conduzi minha vida e até hoje continuo reunindo na mesma mesa minhas namoradas. Com também convivi com namorados delas. Hoje, se se reunirem uma trintena de amigos de longa data – se é que alguém consegue reunir trinta amigos – há muitas trocas de camas na mesma mesa. Faz parte da vida. Estamos no Ocidente, não numa teocracia islâmica.

Maridos convivendo amistosamente com ex-parceiros de suas mulheres – e vice-versa – fazem parte de minha vida. Parceiro já é mais difícil, mas também acontece. Isto é civilização. O conceito de corno pertence a um mundo bárbaro e medieval. Estamos no século XXI. Ou quem sabe não estamos todos. Alguns ficaram na época dos chamados crimes de honra.

Tento colocar-me no lugar de Barrios. Após mais de dois meses enterrado a quase um quilômetro da superfície, em meio a escuridão, eu não quereria ver apenas duas. Mas todas. Coisa mais mesquinha! Em vez de alegrar-se por reencontrar o marido vivo, Perpétua reclama da Outra. Apesar de ter dito que se sente contente por vê-lo vivo, a conclusão lógica é que preferiria vê-lo morto a vê-lo vivo, mas partilhando seu afeto com a Valenzuela.

Quando tudo seria bem mais simples se as pessoas não mentissem...

02 outubro 2010

STF extingue título de eleitor

Janer Cristaldo


Enquanto a Justiça Eleitoral gastou quatro milhões de reais com campanhas de esclarecimento sobre o uso de dois documentos nas eleições e com a reimpressão de outras vias pedidas por eleitores, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou quinta-feira passada a obrigatoriedade de o eleitor levar dois documentos para votar. Amanhã, bastará apresentar um documento oficial com foto.

A decisão surgiu em resposta a uma ação promovida pelo PT, na qual sustentava que a exigência prevista em lei de se levar dois documentos seria uma "burocracia desnecessária" e que dificultaria o exercício do direito ao voto. Ironicamente, a exigência de título eleitoral mais documento de identidade foi exigência do PT, e sancionada por Lula em setembro do ano passado. O partido acabou concluindo que os dois documentos excluiriam parte de seu eleitorado e conseguiu derrubar a exigência... a três dias das eleições.

Os brasileiros têm números demais, impossíveis de reter na memória. Há o RG, o CPF, passaporte, título eleitoral, só aqui você tem de lembrar pelo menos quatro números de sete ou oito algarismos. Isso sem falar em números de telefone, contas de banco e senhas na Internet. Quando todo cidadão poderia ter - telefones, contas e senhas à parte - apenas um número para efeitos civis. Que serviria para identificar-se, votar, viajar, dirigir. Há mais de quatro décadas os suecos já haviam descoberto isto.

Quando vivi em Estocolmo, para o Estado eu era o cidadão nº 4707029916. As seis primeiras cifras indicam a data de nascimento. O número pertence a um homem, pois as três cifras seguintes são ímpares. Para uma mulher, teríamos, por exemplo, 864. A última cifra é dada por um computador e estabelece a univocidade do número pessoal. Relatei estes fatos em meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata, publicado há quase trinta anos. Até aí, tudo muito prático. Ocorre que o cidadão é interrogado sobre seu número pessoal, em quase todas as circunstâncias de sua vida. Ao se matricular na universidade, comprar a crédito, solicitar auxílios sociais, internar-se em hospital, pagar multas de trânsito, casar ou divorciar-se, está alimentando um banco de dados. Isto acaba invadindo a privacidade de cada um. Mas quem não deve não teme.

O Senado Federal aprovou, em 1996, lei de autoria do senador Pedro Simon, que instituía um número único para cada cidadão brasileiro, composto de letras e algarismos. Com a nova regra, seriam extintos todos os atuais cartórios de registro civil. Tudo seria centralizado num único cartório, responsável pelo Cadastro Nacional de Registro Civil. Em abril de 97, Fernando Henrique Cardoso sancionou o projeto. Esta lei, que de certa forma regulamenta o imperativo categórico kantiano, devia entrar em vigor cinco anos depois, ou seja, em 2002. Não entrou.

Durante as deliberações do STF sobre a exigência de um ou dois documentos, uma barbeiragem do tanso candidato tucano. Na quarta-feira passada, quando a votação estava em 7 a 0 a favor da derrubada da obrigatoriedade, segundo reportagem da Folha de São Paulo, José Serra telefonou para Gilmar Mendes. Pelo jeito, o tucano também confiava que a obrigatoriedade de dois documentos levaria a um grande número de abstenções no domingo, o que diminuiria o número de votos do PT em regiões como o Nordeste. Logo após o telefonema, Gilmar Mendes interrompeu a votação, pedindo vistas do processo. Serra goza de uma reputação de impoluto. Se assim age como candidato, imagine o que não faria como presidente.

Como a votação já estava decidida, qualquer voto de Mendes seria inútil. Mas ao pedir vistas, o ministro poderia postergar a decisão para depois do 03 de outubro. Como a manobra foi denunciada pelos repórteres da Folha, o ministro abriu seu voto bonitinho na quinta-feira.

Tanto Mendes como Serra juram de mãos juntas que tal telefonema não ocorreu. Ora, a acusação é grave. Envolve um membro de uma das mais altas cortes do país e um candidato à Primeira Magistratura. A solução é óbvia: processar os repórteres por calúnia. Nada mais fácil para um ministro que em vez de puxar um revólver puxa processos do coldre.

Mas ninguém vai processar ninguém. Por uma razão também óbvia. Existe algo que se chama quebra de sigilo telefônico. É evidente que os repórteres não estão usando da imaginação. A Folha tem opção preferencial por Serra e esta denúncia só prejudica sua candidatura. Se, acuados por um processo, os jornalistas pedissem quebra de sigilo telefônico, teríamos a desmoralização definitiva do ministro e do candidato. Isto é, Serra há muito está desmoralizado. Mas Mendes ficaria num beco sem saída, ante o qual só lhe restaria apresentar renúncia, se vergonha ainda lhe restasse na cara.

Assim sendo, fica tudo como dantes no quartel de Abrantes. O dito pelo não dito. Os repórteres confirmam o telefonema. Ministro e candidato negam. Enfim, amanhã assistiremos à morte política do tucano. Se as eleições não se decidirem no primeiro turno, apenas terá sua agonia prolongada.

Não sei se os leitores notaram, mas o Supremo Tribunal Federal simplesmente extinguiu o título de eleitor.

29 setembro 2010

Brasil não merece uma lágrima

Janer Cristaldo


Domingo que vem é meu dia de protesto cívico. Como faço há já vinte anos, não vou votar. Há quem defenda a idéia de votar no candidato menos pior. Discordo. Menos pior também é pior. Sem falar que me parece absurdo, em regime democrático, ser obrigado a votar. Em todo o Primeiro Mundo, o voto é facultativo. Só nesta América Latina, que vai a reboque da História, é obrigatório.

Obrigatório em termos. Você sempre pode anular seu voto. Mas tem de comparecer às urnas. É o que tenho feito de 1990 para cá. Meu título continua em Florianópolis. No domingo, perto de meio-dia, vou justificar a ausência de meu domicílio eleitoral. E depois vou para meu boteco, aperitivar. Hoje, em São Paulo, pode-se beber em dia de eleições. Quando não se podia, meu garçom me servia um uísque e punha ao lado do copo uma garrafa de guaraná.

Não quero ser radical. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso não pode votar nestas eleições. De um lado, a candidata preferencial é uma ex-guerrilheira que participou de um grupo terrorista e até hoje se orgulha disto. O segundo colocado não pode sequer acusá-la de terrorista, pois militou em outro grupo terrorista. Os três candidatos mais cotados são todos de extração marxista. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, no Brasil o fundo do ar ainda é vermelho.

O mais patético – para não dizer pateta – dos candidatos é sem dúvida José Serra. Não ousa dizer uma palavrinha contra seu adversário, o patrocinador de Dilma Rousseff. Pelo contrário, o colocou em sua campanha eleitoral. Ao dar-se conta que isto era um tiro no pé, retirou-o de sua publicidade. Mas acabou fazendo pior. Mais adiante, alertou o eleitorado: se vocês querem Lula em 2014, têm de eleger-me agora. Se Dilma vencer, Lula não emplaca. Traduzindo em bom português, o que disse Serra? Disse que sem ele seu adversário não será eleito. Com oposição assim, o PT não precisa de base aliada.

Os políticos viraram bonecos de ventríloquo. Quem fala é o marqueteiro. O candidato repete. Mais ainda: para cúmulo do ridículo, o PSDB contratou para fazer sua campanha um guru indiano sediado nos Estados Unidos. A dez mil dólares por dia. Pode? Recorrer aos serviços de um vigarista estrangeiro para conduzir uma campanha eleitoral? Edir Macedo faria melhor. Ao constatar a mancada, os tucanos mandaram o guru de volta aos States. Teria sido mais barato enviar o Serra para fazer meditação transcendental em um ashram em Poona.

Os tucanos têm em mãos farto material para desmoralizar o PT. Desde o mensalão, dólares na cueca, o assassinato de Celso Daniel, os escândalos da Casa Civil, desde Zé Dirceu a Erenice, os cinco milhões de reais dados de mão beijada a Lulinha, e por aí vai. Não usaram esta munição. Serra, já que vai perder, podia ao menos perder com dignidade. Vai morrer humilhado.

Marina da Silva, sem comentários. Lanterninha, insiste no discurso surrado de meio-ambiente, cultua também Lula e põe-se em cima do muro ante qualquer questão polêmica. É boa alternativa para os petistas que admitem existir corrupção no governo do PT. Votam na morena Marina no primeiro turno e no segundo voltam ao redil. Como não vai ter segundo turno, vão acabar mesmo votando no primeiro no PT.

Almas ingênuas ainda acreditam numa virada. Recebo não poucos e-mails de coronéis de pijama que ainda acreditam em milagre. Coronel, quando veste pijama, vira valente. Quando na ativa, é cachorro que enfia o rabo entre as pernas com medo da voz do dono. Outro que alimenta esperanças é o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo da Veja. Que tenha suas preferências políticas, vá lá. Que acredite que o PSDB possa levar é ingenuidade atroz. Ou subserviência de jornalista vil. A última chance de Serra seria uma recidiva de linfoma. Mas estamos a uma semana das eleições e a recidiva não ocorreu. Se ocorrer mais tarde, será tarde demais.

Dona Dilma está com todas as chances de ganhar no primeiro turno. Serra que se dê por feliz se não levar capote. Quando um candidato deposita suas esperanças em chegar ao segundo turno, como faz o tucano, é porque já deu as eleições por perdidas. Pior ainda: antes mesmo do primeiro turno, Serra está lançando sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Como pode um eleitor votar em um candidato que já pensa em receber um docinho pela derrota? Pelo jeito, Serra ainda não percebeu que estas eleições significam seu enterro político.

Dias piores esperam o Brasil. Nada de melhor se pode esperar de uma terrorista – que eu saiba, a candidata ainda não se penitenciou de seu passado – dominada pela atrabilis e mandonismo. E que consegue falar um pior português que o Supremo Apedeuta. País inacreditável, este nosso: pelo jeito ainda sentiremos saudades de Lula.

De minha parte, tanto faz como tanto fez. Desde há muito não deposito esperança nenhuma neste Brasil. Quando um presidente que acoberta crimes durante dois mandatos tem ainda 80% de aprovação do eleitorado, nada mais se pode fazer. Lasciate ogni speranza voi che entrate!

Vou cuidar de meu jardim. Tratar de bem viver os dias que me restam. E o Brasil que se lixe. Povinho que elege Lula ou Dilma não merece sequer uma lágrima.

12 setembro 2010

Liberdade & Segurança





Former Alaska Governor Sarah Palin has called a Florida preacher's plan to burn Korans on the anniversary of 9/11 "insensitive and an unnecessary provocation – much like building a mosque at Ground Zero."



Eu não queimo livros. Não queimaria nem o Minha Luta de Hitler. A melhor maneira de destruir uma idéia contida neles é lê-los e criticá-la. Acho estúpido, mas não posso admitir que se diga que não se pode queimá-los. Agora tiro o chapéu para BHO que parece ter persuadido o pastor. Bem, talvez seja ingenuidade minha e quem pode, realmente ter saído ganhando nesta é o guia de uma igrejinha pouco conhecida. Não sei. Só sei que estes fundamentalistas islâmicos já nos encurralaram. Com certeza eu não tenho o perfil de um político hábil para lidar com isto, não tenho mesmo. Cansa, isto cansa. O que será daqui a pouco? Vão proibir que TVs exibam mulheres com véus islâmicos?
Sei que vão achar o exemplo forçado, mas eu sou contra o aborto enquanto que sou a favor do direito de mulheres abortarem. Sou moralmente contra sua prática incondicional, mas sou favorável à decisão pessoal de se abortar. Se eu consigo ver algo assim como possível, porque não a queima de papel?
Sei que vai parecer extremamente infantil de minha parte, mas quem pensam que são para cagarem lei por aqui? Sim, por aqui, no mundo livre. É desenho animado que não pode citar Maomé, é charge condenada, é escritor banido do convívio público, cineasta assassinado etc. Eu sei, sei, sei que é isso mesmo que eles querem: a provocação que legitime suas ações. Tenho consciência clara disto, mas eles não vão simplesmente parar. E não vão parar também por ações de estado. Refiro-me a ações militares... O que vai mudar é nossa tecnologia de segurança que, tomando consciência de meu wishful thinking, irá avançar. Mas, o fundamental ainda não mudou: o comportamento. Aqui há um pequeno ensaio de para onde e como as coisas deveriam se encaminhar.
Veja que se cede nisto, ao impor uma sanção governamental (o que não foi feito, bem entendido), o passo para proibir a instalação de uma mesquita está dado. E daí, todas outras proibições às inconveniências serão legítimos.
Queimar o Corão em público é provocação do pastor, mas é seu direito provocar. São ambigüidades da democracia, assim como é direito queimar a bandeira deles lá, das estrelas e listras.
O que fariam os muçulmanos se milhões queimassem o Corão? Se as dezenas de milhões lá que portam armas? Se mais milhões aqui no Brasil e alhures? Nada. Eles podem sim nos ameaçar quando há um ou outro, daí faz diferença. Se o mundo ocidental, em peso, aderisse a um gesto de protesto não faria a mesma diferença, pois não haveria mais o foco específico para atacar. Seriam vários e ficaria tudo igual como antes do manifesto, tudo igualmente descentralizado. Imaginemos um vizinho incômodo, truculento e apenas um de nós vai solicitar que diminua seu volume e apanha no rosto. Agora, imagine a rua inteira. É simplismo de minha parte, mas ninguém me tira da cabeça que a mudança de hábitos urbanos, com menos transeuntes nas ruas deve ter realimentado o ciclo de delinqüência responsável pelo aumento da criminalidade. É o fenômeno do ‘carona’ em que todos nós desejamos que alguém faça algo, mas nenhum de nós dá o primeiro passo. Resultado lógico é que nada muda.
Reitero BHO agiu como deveria sim. Eu faria o mesmo, exceto se em protesto público achasse que conseguiria mobilizar milhões contra suas ameaças, tal como fizeram os espanhóis contra o ETA, como fizeram os sérvios contra a OTAN colocando chapéus e bonés com alvos pintados. Imagine a vigilância constante sobre mesquitas e sua definição como locais públicos, logo sujeitos a regra comum onde não poderão mais ensinar o ódio ao ocidente, nem traçar ações contra seus próximos alvos. Isto pode não impedi-los de procurar outros locais para confabular, mas com bem mais dificuldade ao ter que se esconder, perdendo tempo e eficácia. Lembremos que a KKK perdeu muito terreno quando, justamente, suas ações, rituais e códigos foram tornados públicos e caíram no conhecimento popular. Os inimigos estão ali, sabemos quem são e como pensam e agem, só restando desnudá-los e difundir detalhes alheios à maioria das pessoas, leigas que são na gênese do ódio. Já tornaram a vida da maioria de nós um inferno, agora só resta fazermos com que se sintam da mesma forma.[1]
A ofensa ainda não foi banalizada. Quando for, o sagrado e o proibido desencantam, perdendo sua força.


[1] Obviamente que não me refiro aos ataques, mas ao medo incutido.


19 agosto 2010

Veja nunca erra!

Jornalistas da VEJA assinam disparates de dimensões bíblicas quando o assunto é religião.

Há quase três anos Reinaldo Azevedo, o Esaú tupiniquim que trocou sua credibilidade pelas lentilhas de sua submissão ao PSDB e ao Papa, escreveu em seu blog hospedado na Veja online:

“Se você conhece mesmo Santo Tomás, sabe que ele jamais chamaria de ciência a concepção imaculada. Volte aos livros. O que é matéria de fé está fora do escrutínio científico. Mesmo as provas da existência de Deus, na Suma Teológica, são exercícios lógicos. Assim, em termos estritamente tomistas, Maria ter concebido virgem não pode jamais ser um ‘absurdo’ porque há uma condição anterior a qualquer verificação da experiência: ‘é preciso crer’.”

Comentei, no dia seguinte, aqui no Pugnacitas: “Ele acha que Imaculada Conceição se refere à concepção de Jesus, nascido de uma virgem. (...) Imaculada Conceição significa que ela (Maria) teria nascido sem pecado original.”

Decerto Reinaldo Azevedo julga que conceber pelo sexo – até pouco tempo atrás o único meio para tanto – é algo sujo, maculado. Ora, Maria teria concebido virgem para cumprir as escrituras – para cumprir uma falha de tradução, na verdade. Mas entendo a confusão (ignorância) do blogueiro da Veja: o modelo feminino dos cristãos – uma inimitável mãe virgem – condena todas as mulheres reais a jamais serem boas o bastante. Torna sujo, maculado, o sexo, mesmo para a procriação.

Na edição da Veja de 28 de julho de 2010, em cuja capa se lê “Perdão”, achei outros disparates.

Em matéria intitulada “Sombra, Luz e Drama”, sobre o pintor Caravaggio, o jornalista Bruno Meier escreve o seguinte:

“Uma encomenda para uma igreja de Siena foi recusada por retratar a morte de Maria, contrariando o dogma da ascensão aos céus da mãe de Jesus.”

O dogma é de 1950, proclamado por Pio XII, o Papa de Hitler. Caravaggio pintou A Morte da Virgem em 1606. Que bruto anacronismo.

Na reportagem de capa, assinada por uma tal Ana Cláudia Fonseca, lemos:

“Como manifestação direta de Deus na terra, a Igreja Católica, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio da Igreja. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar Alexandre VI (1492 – 1503), o papa Bórgia, dissoluto, promotor de orgias no Vaticano, que comprou o voto decisivo de sua indicação para o Trono de Pedro com quatro mulas carregadas de prata? Ter resistido a Alexandre VI pode ser tomado como a prova definitiva de que a Igreja Católica é sagrada. Fosse produto dos homens, ela teria perecido sob a avalanche de pecados do libertino papa Bórgia.”

Ah... Existem incontáveis provas de que a Igreja Católica é sagrada, embora não haja ainda nenhuma, digamos, definitiva... Rio-me.

Um jornalista da Carta Capital poderia escrever:

“O PT, como instituição, nunca erra. Quem erra são os homens que ocasionalmente ocupam cargos no seio do partido. Em muitas ocasiões, os pecados dos homens serviram de poderoso elemento de defesa retórica da instituição. Como explicar José Dirceu, a eminência parda do primeiro governo Lula, inescrupuloso, que comprou votos decisivos de parlamentares com malas e cuecas carregadas de dinheiro? Ter resistido a José Dirceu, Delúbio e a outros como eles pode ser tomado como a prova definitiva de que o PT é sagrado. Fosse produto dos homens, ele teria perecido sob a avalanche de pecados dos mensaleiros e do chefe da quadrilha, José Dirceu.”

Basta substituir alguns sujeitos e objetos no parágrafo da jornalista Ana Cláudia, inserido gratuitamente em uma reportagem que o dispensava por completo, para percebemos o quanto é um despautério. A tal “defesa retórica da instituição” a que a pobre jornalista se refere é, na verdade, uma singela historinha narrada no Decameron de Boccaccio, escrito quase cento e cinquenta anos antes do Papa Bórgia emporcalhar um pouco mais o já imundo trono do negador de Cristo. No conto, Giannotto de Civigni, um comerciante parisiense, tenta converter ao cristianismo o amigo judeu Abraão, que então se propõe a visitar Roma para conhecer melhor a religião do amigo. Giannotto, ao ter ciência de seus planos e se ver incapaz de dissuadi-lo, dá por perdida a causa por saber o que o judeu encontrará por lá. Curioso é que na época em que Boccaccio escreveu o conto, que aparece logo no início do Decameron, o papado há muito tinha sido transferido para Avignon, no sul da França. Não encontrei na Internet a história em português e tive preguiça de digitá-la a partir do livro impresso. Segue o desfecho do conto, infelizmente em espanhol, já que italiano nem todos lêem.

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“El judío montó a caballo y tan pronto como pudo se encaminó a la Corte de Roma, donde al llegar, fue recibido con honor por los judíos. Y, mientras estaba allí, sin decir a nadie para lo que había ido, cautelosamente comenzó a observar la conducta del Papa, los cardenales, de los otros prelados, y de todos los cortesanos. Y entre lo que él advirtió, como hombre agudo que era, y lo que otros le contaron, halló, que del mayor al menor todos allí, generalmente, pecaban con gran deshonestidad en cosas de lujuria, y no sólo en la natural, sino en la sodomítica, sin freno alguno de remordimiento o vergüenza, al punto de que sin la mucha influencia de las meretrices y los efebos no se podía conseguir nunca nada. Además de esto, conoció claramente que los que observaba eran universalmente comilones, bebedores, ebrios y más servidores de su vientre, como animales irracionales, y de la lujuria, que ninguna otra cuestión. Y, ahondando más, tan avaros y ansiosos de dinero los vió, que tanto la humana sangre, incluso la cristiana , como las cosas divinas, y a los sacrifícios y benefíos perteneciente, por dinero vendían y compraban, haciendo mayor mercadería y más ganancias teniendo, que cuanto pudiera encontrarse en París con ventas de pañerías u otras cosas. Habían a la sintonía descarada puesto el nombre de procuradoría, y llamaban a la gula sustentamiento, como si Dios, prescindiendo del significado de los vocablos, la intención de los pésimos ánimos no conociese y, a semejanza de los hombres, se dejara engañar por los nombres de las cosas.

Las cuales junto con muchas otras, que conviene callar, desagradaron sumamente al judío, como sobrio y modesto que era; y así, pareciendole haber visto bastante, resolviose a volver a París. Y así lo hizo. Y cuando Giannotto supo que había llegado, fue a él y, aunque lo que menos esperaba era que se hiciese cristiano, hízole, y el otro a él gran fiesta. Y en cuanto Abraham hubo descansado algunos dias, Giannotto le preguntó que le parecía el Santo Padre, y de los cardenales y los demás cortesanos. A lo que el judío respondió prontamente:

-¡ Así Dios los confunda a todos! Y te digo, que si juzgo bien, no me pareció ver allí santidad alguna, ni devoción, ni obra buena, ni ejemplo de vida ni de nada, en nadie que clérigo fuese. Pero la lujuría, la avaricia, la gula y cosas semejantes y peores ( si peores se pueden encontrar en alguien) parecióme hallarlas más por una sede de obras diabólicas que divinas. Y, a lo que estimo, se ve con toda solicitud, ingenio y arte se aplican a vuestro Pastor, y entiendo que todos los demás, a reducir a la nada y a arrojar del mundo la cristiana religión , aun cuando debieran ser fundamento y sustentáculo de ella. Mas, puesto, a lo que se me alcanza , no sucede lo que procuran, sino que continuamente vuestra religión aumenta y más lúcida y clara se torna, con razón me parece discernir entre que el Espiritu Santo es su fundamento y sostén, como más santa y verdadera que otra. Por lo cuál mientras me mantuve rígido y duro a tus exhortaciones y no quise hacerme cristiano, ahora abiertamente te digo que por nada del mundo dejaré de hacerme cristiano. Vamos, pues, a la iglesia y, allí, según debida costumbre de vuestra fe, me haré bautizar.

Giannotto, que esperaba una conclusión totalmente opuesta a aquella, sintióse, cuando así le oyó hablar, más contento que ningún hombre jamás lo fuera. Y fuese con él a Nuestra Señora de París y pidió a los clérigos de ella que diesen a Abraham el bautismo. Ellos, oyendo que así lo quería, apresuráronse a atenderle. Y Giannotto sacóle de la pila, llamándole Juan; y en breve a muchos hombres de valía hízoles este instruir adecuadamente en nuestra fe, que a muy deprisa aprendió; y fue luego hombre bueno y meritorio de santa vida.”

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Parece-me que Boccaccio se vale do conto para pintar a pervertida Roma de sua época sem esmaecer-lhe as cores, blindando-se do mau humor dos padres, astuciosamente, no surpreendente final em que dá as rédeas da Igreja não aos homens mas ao Espírito Santo. Por ser péssima administradora, a pomba deveria ser urgentemente substituída. Tal qual o Lula, ela diria não saber de nada, mesmo sendo onisciente, como nosso eneadáctilo líder...

Munidos de falácias semelhantes é que muitos julgam poder branquear qualquer nódoa, purificar qualquer podridão. O Socialismo seria santo e conduzido pelo inexorável destino, e Stalin, Mao, Fidel e outros facínoras não terem conseguido extinguir com suas atrocidades o socialismo seria, então, a prova definitiva de que tal ideologia é sagrada.

É dos jornalistas a culpa por tantos disparates lidos na sacrossanta Veja impressa e na online, obviamente. Veja nunca erra!

12 agosto 2010

Muçulmanos usam o pênis como arma na Escandinávia

Janer Cristaldo


Comentei há pouco o espantoso número de estupros na Suécia, que coloca o país apenas abaixo do Lesotho, na África, no que diz respeito a estes crimes. Uma boa amiga de Estocolmo me envia uma página do Brottsförebyggande Rådet (Brå) – Conselho de Prevenção do Crime, do qual extraio apenas dois dados. Em 1988, o total de crimes denunciados na Suécia era de 1.086.211. Em 2009, subiu para 1.405.626. A incidência de crimes sexuais, nos mesmos anos, é respectivamente, 5.269 e 15.693. Isto, enquanto a criminalidade em geral aumentou em 29%, os crimes sexuais aumentaram em quase 200%. Atribuo este aumento à crescente onda de imigrantes muçulmanos e pelo jeito não me engano.

Coincidentemente, recebo via um amigo de Porto Alegre, um relatório de 2005, do mesmo Conselho, o Brå, que esclarece melhor a questão. Segundo o documento, a proporção de estupradores nascidos no estrangeiro é quatro vezes maior se comparada às pessoas nascidas na Suécia. Estrangeiros residentes da Argélia, Líbia, Marrocos e Tunísia dominam o grupo de suspeitos de violação. Segundo estas estatísticas, quase metade destes criminosos é composta por imigrantes. Na Noruega e Dinamarca, sabe-se que os imigrantes não-ocidentais, o que freqüentemente significa muçulmanos, são largamente representados nas estatísticas de estupro. Em Oslo, em 2001, imigrantes estavam envolvidos em dois em cada três casos de estupro. Os números na Dinamarca são idênticos, e maiores ainda em Copenhague, com três imigrantes em cada quatro casos. Segundo Ann Christine Hjelm, advogada que investiga crimes na Suprema Corte sueca, 85% dos estupradores condenados no país nasceram em solo estrangeiro ou são filhos de pais estrangeiros.

A situação é tão grave que algumas suecas estão reinventando um cinto da castidade às avessas, isto é, cinto que é controlado por seu usuário em vez de ser controlado por outra pessoa. O aparelho exige duas mãos para ser removido e espera-se que dissuada os estupradores. Segundo uma pesquisa on line do Aftonbladet, 82% das mulheres têm medo de sair ao escurecer. Outro esporte dos imigrantes é apunhalar suecas em discotecas.

Um mufti declarou em Copenhague que mulheres que não portam véus estão “pedindo para serem estupradas”. Para estes pobres diabos, uma mulher sueca independente não é uma mulher sueca independente. É apenas uma “puta sueca”. E como tal pode ser tranqüilamente estuprada. Se for árabe, não. Pois não é o mesmo violentar uma sueca e uma árabe. “A sueca recebe um monte de ajuda depois, além disso já foi fodida” – afirma Hamid, participante de uma gangue de violadores. - “Mas a árabe têm problemas com sua família. Para ela, é uma grande vergonha ser violentada. Para ela, é importante ser virgem quando casar”.

O número de estupros cometido por imigrantes muçulmanos no Ocidente é tão extremamente alto que é difícil vê-los apenas como atos aleatórios de indivíduos - continua o relatório do Brå. Mais parece ser guerra. Muitos muçulmanos vêm a si mesmo como um exército conquistador e as mulheres européias são simplesmente botim. As mulheres ocidentais não são vistas pelos muçulmanos como indivíduos, mas como “as mulheres deles”, as mulheres que “pertencem” aos hostis infiéis. São botim, para serem tomadas, até que a terra dos infiéis um dia caia, como se crê, nas mãos dos muçulmanos. Mulheres ocidentais são baratas e repulsivas. Nós, muçulmanos, estamos aqui para ficar, e temos direito de tirar vantagens desta situação. É nossa visão que deve prevalecer. As mercadorias ocidentais, como a terra onde agora vivemos, pertencem a Alá e aos melhores homens – seus crentes. Mulheres ocidentais pertencem também fundamentalmente a nós – são nosso futuro botim.

Comentei, há alguns anos, manchete que me surpreendeu no Aftonbladet:

Stockholmarnas farligaste gator

Ou seja, as ruas mais perigosas de Estocolmo. Ora, quando vivi lá, em 71/72, não havia uma única rua perigosa na cidade. Eu vagava de ilha em ilha, nas noites brancas dos hiperbóreos, sem sensação alguma de perigo. Há alguns anos, o mesmo Aftonbladet listava mais de cem ruas perigosas. Que ocorrera de lá para cá? A invasão muçulmana.

A Suécia está se entregando de mãos atadas aos imigrantes árabes e seus bárbaros costumes.

01 julho 2010

Marmanjo consulta psicanalista

Janer Cristaldo


Descobri há pouco, lendo o Estadão, que pertenço à raivosa extrema direita brasileira, por não gostar de futebol. Lei agora na Folha de São Paulo que estou precisando de psicanálise. Escreve Rubem Alves, antigo colunista do jornal:

- Sou indiferente ao futebol, exceto quando o Brasil está jogando. Essa indiferença tem sido a causa de muitos embaraços, e cheguei mesmo a levar esse problema à minha psicanalista. "Por que é que todo mundo se entusiasma com futebol e eu não me entusiasmo?" Ela me sugeriu que deveria haver algum trauma infantil não resolvido no início dessa perturbação. Sugeriu-me entregar-me às associações livres da mesma forma como os urubus se deixam levar pelo vento. Voei. E eis que, de repente, uma cena esquecida me apareceu.

Essa agora! Desde quando não gostar de futebol constitui problema e mais ainda, problema que tenha de ser levado a um psicanalista? Para início de conversa, considero um indício de pobreza mental consultar um desses gigolôs das angústias humanas. Mais grave ainda é o caso de um homem que pensa, escreve e se situa naquele círculo que se pretende formador de opinião pública. A verdade é que, em certos meios, análise é a solução para tudo. Tanto que naquela coluna de auto-ajuda da Veja, assinada por Betty Milan, psicanalista que vive em Paris, todo e qualquer drama humano tem invariavelmente uma solução: procure um analista.

Ora, psicanálise é vigarice. Tanto que a profissão sequer foi regulamentada. Na França, para efeitos do imposto de renda, psicanalistas são equiparados a videntes, quiromantes, astrólogos e profissionais do sexo. Cá entre nós, se você estiver desempregado e precisar ganhar o pão nosso de cada dia, a solução está ao alcance de sua mão. Alugue uma saleta, compre um divã e ponha uma plaquinha na porta: psicanalista. É claro que a guilda vai chiar, mas nada poderão fazer contra sua nova “profissão”. Não estando regulamentada, não se pode exigir qualquer requisito para seu exercício. Afirmei isto há mais de trinta anos, quando escrevia nos jornais de Porto Alegre. Soube então que alguns psicanalistas pensaram em processar-me. Só pensaram, pois tiveram de tirar os cavalinhos da chuva.

Mas vejamos o trauma infantil que marcou a delicada psique do sensível cronista. Estava em um campo de futebol de roça, onde dois times jogavam, quando uma vaca investiu contra a bola. Seu irmão, para protegê-lo da vaca, arrastou-o para um chiqueiro e o colocou junto aos porcos.

- Minha analista, comovida com o meu relato, concluiu que minha indiferença ao futebol se devia a essa experiência em que o jogo aparece ligado a uma vaca desembestada e a porcos mal cheirosos. Concordei. Minha primeira experiência com o futebol foi traumática: mistura de bola, vaca e porcos. E está certo: não é raro que uma partida termine em tourada e que seja manifestação de espírito de porco...

Ora, se assim fosse, hoje eu não conseguiria sequer suportar o cheiro de álcool. Em meus dias de juventude, quando não sabia beber, tomei porres de conseqüências eméticas. (Confesso que um deles me marcou: até hoje não suporto o cheiro de gim). Provavelmente não gostaria nem de Mozart ou Fernando Pessoa, pois muito me encharquei ouvindo estes dois. E talvez não gostasse nem de mulher, pois muitos pileques tomei com elas em minhas universidades. Certa vez, ao acordar, encontrei a meu lado uma mulher nua. Olhei-a por todos os ângulos, não a reconheci. Bom, já que estava ali... Quando ela finalmente acordou, perguntou-me: e tu, quem és? Tentamos reconstituir nosso itinerário na noite anterior, até que achamos onde havíamos nos encontrado, um bar na Salgado Filho. Por algumas semanas, parei de beber. Mais por precaução que por qualquer outro motivo.

Abomino o futebol, já disse. Não o jogo em si, que considero bonito, inteligente, dinâmico. Mas o fanatismo que gera. Não preciso procurar em minha infância trauma algum que justifique minha ojeriza. Simplesmente detesto multidões, passionalismo, barulho, foguetes, buzinas. A multidão maior que consigo suportar é a lotação de uma sala de ópera. Mas aí se trata de uma multidão culta, civilizada. Fora isso, mais de seis pessoas para mim é multidão. Em minhas mesas de bar, ou na távola redonda cá de casa, só por acidente sentam mais de seis pessoas. Em geral são quatro, preferentemente duas. Uma mesa de dez ou vinte pessoas me arrepia. Durante muitos anos, o réveillon me pegou no estrangeiro. Sempre encerrado em quartos de hotel. Multidões me horripilam. Escusado dizer que não vou a festas.

Se a moda pega, teremos ainda de consultar psicanalistas para saber por que não gostamos de caju ou goiaba, de jiló ou mollejas, de samba, rap ou funk. Ou do Piazzolla ou do Chico Buarque. Ou do Paulo Coelho ou do Machado de Assis. Algum trauma deve ter ocorrido em nossos tenros dias. Só pode ter sido isso. Ou então a psicanálise não tem sentido.

De qualquer forma, é triste ver um marmanjo consultando uma psicanalista para saber por que não gosta de futebol.

23 junho 2010

Meu coqueiro

Janer Cristaldo


Leitores de minha idade certamente curtiram um dia os quadrinhos de Carlos Estevão, na revista O Cruzeiro. Uma historieta que jamais esqueci foi a do João do Coqueiro. Um certo João decidiu um dia fincar seu rancho à beira de uma estrada e frente à fachada plantou um coqueiro. Mal a árvore cresceu, não faltou passante que o apelidasse de João do Coqueiro.

João não gostou do apelido. E tomou uma decisão radical. Numa calada de noite, pegou um machado cortou seu coqueiro. Se achava que bastava um machado para eliminar o problema, enganou-se redondamente. Passou a ser chamado de João do Toco. Irritado, João decidiu arrancar o toco. Mas infatigável é a malícia humana. Dia seguinte, era o João do Buraco. João tapou o buraco. Passou a ser chamado de João do Buraco Tapado. Já não lembro como terminava a história. Creio que João, que queria apenas ser João, bateu na marca e mandou-se à la cria. Cronista, desde há muito vivo os avatares de João do Coqueiro.

A partir de meus primeiros artigos, publicados em um pequeno jornal de Dom Pedrito, o Ponche Verde, no início dos 60, passei a ser tachado como comunista. Meus artigos tinham um forte viés anticlerical, no que nada havia de espantar, afinal eu sofria a opressão intelectual de um colégio de padres oblatos. Se era anticlerical, obviamente era comunista. E com essa pecha - e outras, é bom salientar - fui expulso de minha cidade natal. Ora, na época eu tinha 16 ou 17 anos e desde os 15 já lia filosofia. Quando os comunistas tentaram cooptar-me - afinal a cidade toda me julgava ser um deles - eu já tinha nítida consciência de ser o marxismo uma filosofia excessivamente tosca, sem fundamento racional algum. Mesmo assim, fiquei marcado na paleta: comunista.

Uma vez na universidade, em Porto Alegre, um de meus primeiros artigos publicados no Correio do Povo, em 06 de janeiro de 1969, intitulava-se "Marxismo Gaúcho Contemporâneo", e constituía uma sátira aos membros do PC gaúcho, alguns deles ministros ou ex-ministros do atual governo. Na universidade, passei a ser visto como um perigoso reacionário e agente do imperialismo. No curso de Filosofia, era tido como agente do DOPS e perdi não poucas mulheres por essa pecha. Em Dom Pedrito, quando fui rever meus pais, fui preso por um delegado, que via em mim um perigoso comunista. Motivo? O artigo publicado no Correio, do qual o delegado só havia lido o título. Ou talvez tivesse lido o artigo mas não tivesse bestunto para entender ironia. Minha prisão foi rápida em Dom Pedrito. Ao voltar a Porto Alegre, fui interrogado no DOPS, por suspeição de ser elemento subversivo. Enquanto isso, na universidade, ora era nazista, ora era fascista.

Finda a universidade, viajei. Fui para Estocolmo e, honestamente, não pretendia mais voltar ao Brasil. Na época, a Suécia constituía um dos locais de asilo preferidos pelos comunistas brasileiros, que comunista que se preze não é maluco a ponto de pedir asilo em Cuba ou Moscou. Em 71, assistindo uma palestra de um desses heróicos senhores, nos salões da ABF, ouvi gritos de vitória como "A revolução é amanhã", "O povo está nas ruas", "O país está pronto para explodir". Da platéia, enviei um bilhetinho ao palestrante. Que, de fato, o povo estava nas ruas... comemorando a vitória do Brasil na Copa do Mundo. Perguntava se ele não se pejava de estar viajando pela Suécia, hospedado em hotéis cinco estrelas, paparicado como herói pelas árdegas louras nórdicas, enquanto seus companheiros de luta sofriam tortura e prisão no Brasil.

Eu escrevera em sueco. Meu bilhete passava de mão em mão, como brasa quente, e nenhum dos participantes da mesa ousava traduzi-lo. Como me pareceu que não iam lê-lo, acabei abandonando a palestra. Em boa hora. Meu bilhete acabou sendo lido e, se eu lá estivesse, talvez não fosse linchado pelos bravos suecos, mas certamente passaria por maus momentos. De agente do DOPS, fui imediatamente promovido pelo palestrante a agente do SNI, pago pela ditadura militar para vigiar os revolucionários no exílio.

Em 77, após ter percorrido toda a Europa, ganhei uma bolsa em Paris. Nova e imediata promoção. Agora não havia mais dúvidas. Eu fora finalmente desmascarado: trabalhava para a CIA. Assim fosse. Escassos eram meus francos. Bem que os dólares da CIA me seriam muito oportunos nos bistrôs de Paris.

Curiosamente, boa parte de meus amigos era ou fora comunista. Coisas do Sul: para um gaúcho da Fronteira, a amizade sempre fala mais alto que as ideologias. Estes amigos passaram um recado aos militantes: tirem isso da cabeça, o Janer não tem nada a ver com a ditadura. Estes boatos cessaram. Que fazem as gentes quando insultos ideológicos não colam? Apelam aos insultos sexuais. Apesar da generosa rede de proteção feminina que me cercava, passei a ser nada menos que homossexual. O raciocínio era de uma lógica impecável: homem que anda sempre atrás de mulheres, no fundo está procurando um homem. Mas de mulher deve-se gostar moderadamente. Gostar demais é politicamente incorreto. Não faltou quem me apodasse de paxá dos pampas. Fui também chamado de Robin Hood às avessas, o que tira de todos e não dá nada a ninguém.

Fui lecionar em Florianópolis. Lá, longe da memória gaúcha, voltei a ser comunista para uns, porco imperialista para outros. Certos setores da universidade me consideravam maçom. Os maçons, por sua vez, juravam que eu era um líder petista em disputa pela Reitoria. Outros, mais gentis, me definiam simplesmente como um libertino.

Esgotados os chavões da Guerra Fria, algum novo epíteto eu mereceria. Em São Paulo, passei a ser racista. Se o leitor presta atenção na imprensa, deve ter notado que após a queda do Muro de Berlim, as palavras racismo e racista brotaram nos jornais como cogumelos após a chuva. Luta de classes morta, luta racial posta. Fui inclusive denunciado ao Ministério Público por sete entidades ligadas à questão indígena por crime de racismo, por artigo escrito na Folha de São Paulo, no qual negava a farsa do massacre de ianomâmis montada em agosto de 1993. Os afáveis indigenistas pediam para mim nada menos que cinco anos de prisão. Claro que não levaram nada.

Não é tarefa fácil agradar gentes. Pior ainda, agradar leitores. Embora tenha recebido cumprimentos efusivos por minhas crônicas, os descontentes são legião. E pelos mais diversos e descabidos motivos. Em recente crônica, ironizei de alto a baixo a hipocrisia do abbé Pierre, um dos ícones das esquerdas francesas, por suas práticas sexuais enquanto religioso, religioso que um dia fez voto de castidade. Estas práticas foram confessadas pelo próprio abade, em livro intitulado Mon Dieu... Pourquoi?. Ora, não faltou o leitor que reclamasse. Voltei a ser comunista ou algo similar:

"Esse último artigo de Cristaldo, em 31/10, exalta a figura de um herói dos esquerdistas franceses, Abbé Pierre. O objetivo do jornalista é tão somente dar razão às suas taras e para isso, com o maior descaro, faz elogios a esse senhor que só é considerado "santo" pelos comunistas. Só nos falta agora ter de ler do sr. Cristaldo elogios a D. Hélder Câmara, frei Betto, Leonardo Boff por causa das posições anticlericais destes".

Parece estar faltando massa cinzenta ao leitor. Ou, pelo jeito, nunca ouviu falar do que seja ironia. Lembrou-me o delegado de Dom Pedrito, que me prendeu como comunista, por um artigo em que eu baixava a lenha nos comunistas. Mas, pelo jeito, ainda não perdi a antiga fama. Outro dia, aqui em São Paulo, me dizia um súbito amigo: "nós, da direita...". Polidamente, o interrompi: "Nós, não. Eu nada tenho a ver com a direita".

Em função das últimas crônicas que escrevi, fui definido como apóstata, herege e cheguei a merecer o trocadilho infame de Satanaldo. Parece que andei machucando os leitores tefepistas do MSM, que não conseguem admitir que um ser humano não creia em deuses. Mas nem tudo está perdido, senhores devotos de Maria. Eu comentava outro dia com uma amiga de Orkut um versículo de Isaías (14:12), e minha interlocutora, num acesso de ira, pespegou-me um epíteto que jamais imaginei merecer: cristão fanático. Perplexidade total. Por este eu não esperava. Ou seja, não é muito evidente que eu seja exatamente um herege.

Parece que há Cristaldo para todos os paladares. Seja como for, não pretendo cortar meu coqueiro.

(14/11/2005)

19 junho 2010

Ocidente homenageia escritor stalinista cúmplice de assassinos

Janer Cristaldo


Morreu ontem, em Lanzarote, um dos últimos remanescentes do stalinismo em pleno século XXI, ao lado de Oscar Niemeyer, Ariano Suassuna, Chico Buarque, Luís Fernando Verissimo. Portugal e o Ocidente todo estão chorando a morte do escritor que sempre foi inimigo ferrenho de Portugal e do Ocidente. No Brasil, os jornais estão dedicando suplementos a quem sempre defendeu as atrocidades da URSS e de Cuba e ousou defender o atentado às torres gêmeas. O Ocidente todo foi acometido de amnésia. Com sua morte, o cúmplice de assassinos virou herói.

Não vou comentar a literatura de José Saramago. Exceção feita de A Jangada de Pedra, não a li. Mas sobre a jangada posso falar.

A idéia de uma Europa Unida vinha sendo gestada desde 1951, com o Tratado de Paris, teve continuidade em 1957 com os Tratados de Roma e tomou corpo em 92, com o Tratado de Maastricht. Stalinista e anti-europeu até a medula, insensível à vocação histórica de seu país, em 1986 Saramago escreve Jangada de Pedra, um panfleto irracional e gratuito contra o Velho Continente. Enquanto os portugueses aspiravam desde há muito a integração com o universo transpirenaico, o escritor marxista, não contente em separar Portugal da Europa, pretende levar a Espanha nessa viagem insana.

A jangada em questão é a península ibérica. Lá pelas tantas, as terras luso-hispânicas começam a fender-se, separam-se gradualmente do continente e saem a navegar pelo mar oceano, rumo ao oeste. Para logo mudar de rumo. “A uns setenta e cinco quilômetros de distância do extremo oriental da ilha de Santa Maria, sem que nada o fizesse anunciar, sem que se sentisse o mais ligeiro abalo, a península começou a navegar em direção ao norte”.

Se seus habitantes temem encalhar nas planuras gélidas entre a Groenlândia e Islândia, a península tem outros planos. Na altura da mais setentrional ilha dos Açores, o Corvo, vira em linha reta, retomando sua trajetória para o ocidente, numa direção paralela à de sua primeira rota, prosseguindo-a alguns graus acima. A nova rota aponta para Nova York e o presidente americano apressa-se a dizer que a península seria bem-vinda. O mesmo não pensa o Canadá. Enfim, todas estas manifestações prévias de aceitação ou rechaço se revelam inúteis, já que a imensa ilha flutuante, em dado momento, começa a cair rumo ao sul. Para atracar finalmente em seu destino histórico, o mar caribenho e o socialismo cubano.

Em entrevista durante uma de suas visitas ao Brasil, Saramago falava em vocação atlântica da península ibérica. É grosso sofisma. Para começar, a península já está no Atlântico. Continuando, Saramago a desloca para o Caribe. Sua metáfora pretende mostrar uma vocação cubana, socialista, que Portugal nunca alimentou. A dita Revolução dos Cravos, liderada por Otelo Saraiva de Carvalho, morreu na casca. Portugal, após o salazarismo, tornou-se um próspero país capitalista, perfeitamente integrado à economia – também capitalista – da Europa. Isto o velho comunista não consegue admitir.

Nos dias em que Portugal e Espanha faziam os preparativos para seu enlace definitivo – e muito bem sucedido, como hoje pode ver-se – com a Europa, o escritor português, fazendo eco ao ancestral ódio marxista à Europa, separa estes dois países de seu futuro. E os empurra um século para trás, rumo ao socialismo cubano. Nunca uma obra literária, sob o inocente disfarce de um divertissement, foi tão anti-ocidental, anti-européia, anti-lusitana e anti-espanhola. Ao autor deste panfleto imediatamente desmentido pelos fatos, a Kungliga Akademie de Estocolmo conferiu o galardão máximo das letras ocidentais. Vista destes dias em que portugueses, espanhóis e demais europeus se regozijam com o euro, esta obra de Saramago revela-se um merencório equívoco.

Uma vez conquistado o Nobel, o detentor da láurea permitiu-se o luxo de afirmar qualquer impropriedade. Comentando o conflito entre Oriente e Ocidente por ocasião do atentado às torres do World Trade Center, em artigo para a Folha de S. Paulo, Saramago toma o partido dos terroristas. Para defendê-los, empunha antigas atrocidades de uma Europa passada, hindus atados à boca de canhões. "No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá ver cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes".

O prêmio Nobel evoca também Angola, onde algures "dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro". Isto é: se ingleses explodem hindus, se portugueses decapitam angolanos, é perfeitamente permissível que um saudita, homiziado no Afeganistão e imbuído da missão de vingador universal, detone dois prédios em Nova York matando não só malvados civis americanos, mas também cidadãos de 62 países do planetinha.

Como um jornalista novato que vê a História como um lago raso, sem antes nem depois, Saramago mistura geografia e fatos de épocas passadas para absolver o terrorismo presente. Se algo se perdeu definitivamente neste atentado, parece ter sido a boa lógica. Numa tentativa de explicar o terror, o autor português joga a culpa no "fator Deus". Tudo, menos responsabilizar fanáticos muçulmanos.

Com sua autoridade de Nobel, escreve: "Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse...". Isto é, atribuiu ao pensador alemão frase que, por equívoco, é normalmente atribuída a Dostoievski, por leitores de orelhas de livros. Em verdade, tal frase, assim como é proposta, não se encontra em momento algum do escritor russo. Foi Sartre quem a atribui a Dostoievski, tentando interpretar seu pensamento. Que mais não fosse, tal aforismo só poderia nascer no cérebro de um católico e de católico Nietzsche nada tinha. Ao fazer tal afirmação, Saramago demonstra que, para um laureado pela Kungliga Akademie, qualquer bobagem será sempre bem paga.

Não contente em defender o terror que destruiu as torres de Nova York, Saramago atacou Israel e sua reação aos atentados suicidas palestinos. Por ocasião do recrudescimento dos atentados cometidos por homens-bomba, comparou as ações do Exército israelense nos territórios palestinos ao sofrimento dos judeus no campo de concentração de Auschwitz na Segunda Guerra Mundial. "É a mesma coisa, ainda que levemos em conta as diferenças de espaço e tempo", afirmou em Ramallah (Cisjordânia), onde se encontrou com o líder palestino Yasser Arafat. "É preciso tocar todos os sinos do mundo para dizer que o que está ocorrendo na Palestina é um crime que podemos impedir", disse. Para os civis israelenses que morrem aleatoriamente, nenhuma palavra de conforto.

Este é o homem que o Ocidente hoje homenageia.

16 junho 2010

Negro pode falar em raça. Branco não pode

Janer Cristaldo


Há uns bons três anos, ao comentar o episódio de dois gêmeos idênticos que foram considerados como branco e negro pelo sistema de cotas, a revista Veja rendeu-se vilmente ao politicamente correto e titulou com gosto na capa:

É mais uma prova de que
RAÇA NÃO EXISTE


Veja sofismava. Se os responsáveis pelo sistema de cotas se enganaram, isto nada tem a ver com a existência ou não de raça. Se afirmo que preto é branco e branco é preto, isto nada tem a ver com a existência ou não do preto ou do branco. Se raça não existe – comentei na época - vamos então parar de falar em dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Nem nas mais de 400 raças caninas.

Tampouco se fale mais, quando se trata de cavalos, em raças árabe, crioula, Holsteiner, manga larga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. Nem nas mais de 100 outras raças conhecidas.

Abominável racismo falar em bois zebu, Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Brahman, Gir, Guzerá, holandês, charolês. Ou em ovinos merino, Texel, Île-de-France, Suffolk, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Tenha também respeito pelos galináceos. Elimine de seu vocabulário palavras como Legorne, D’Angola, Cochinchina, Hamburguesa, Brahma e Plymouth.

Ou alguém pretende que raça só exista no reino animal? Quando surge o Homo sapiens, este ser excelso, tocado pela graça divina, raça deixa de existir?

Um ano depois, o politicamente correto voltou a atacar. Desta vez, através do livro Humanidade sem Raças, do doutor em genética humana Sérgio Pena, editado pela Publifolha. O autor defende a tese de que as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade. E o conceito de "raças humanas" surgiu e ganhou força com base em interesses de determinados grupos humanos, que necessitavam de justificativas para a dominação sobre outros grupos.

Houve muito negro que não gostou. O livro chegou em momento inoportuno. Em décadas passadas, os movimentos negros haviam concluído que raça não existia. Depois do estabelecimento de cotas para universidades, voltou a existir. Segundo um projeto do senador Paulo Paim, a condição de negro deve inclusive constar em documento. Quando se trata de ganhar no tapetão, o conceito de raça é muito conveniente. Dr. Pena, na introdução de seu livro, dizia:

“Parece existir uma noção generalizada de que o conceito de raças humanas e sua indesejável conseqüência, o racismo, são tão velhos como a humanidade. Há mesmo quem pense neles como parte essencial da "natureza humana". Isso não é verdade. Pelo contrário, as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade”.

Por defender a existência óbvia de raças, tenho sido condenado como racista. Tanto por negros como por judeus. Já fui inclusive processado por sete entidades indígenas por crime de racismo. Por ter afirmado que os índios não conseguiram escapar de uma cultura ágrafa e que os antropólogos queriam conservá-los como animais em museus intemporais para contemplação dos homens do futuro. Bem entendido, os indigenistas não levaram nada e tiveram de retirar seu cavalinho da chuva. Mas, em suma, hoje passou a ser apodada como racista toda pessoa que acredita na existência de raças.

Neste sentido, até a Bíblia é racista, pois fala continuamente em raças. O que nega cabalmente a convicção do Dr. Pena, de que raças e racismo sejam uma invenção recente na história da humanidade.

Na Folha de São Paulo, leio curiosa entrevista com o militante do movimento negro Abdias do Nascimento, cujo nome está sendo lançado para prêmio Nobel da Paz. Que emplaque não me espantaria. O Nobel da Paz é a última esperança de posteridade dos vigaristas. Os ingênuos noruegueses já concederam o galardão a terroristas e escroques, desde Yasser Arafat, Rigoberta Menchu, madre Teresa de Calcutá e Tenzin Gyatso, humildemente conhecido como Oceano de Sabedoria.

Não, um Nobel para o líder negro racista não me surpreenderia. O que me surpreende é vê-lo negar o óbvio, sem que o entrevistador nada objete. Diz o repórter:

- Há quem diga que o Brasil é miscigenado, e por isso não faria sentido enxergar divisão racial aqui.

Responde o líder negro:

- Isto é a cretinice brasileira, a falta de caráter, a sem-vergonhice brasileira. Isso vem de longe. Este discurso é para ajudar o Brasil a continuar racista. A continuar a ter a cobertura moral para o racismo. Eles querem até isto.

Refugiando-se no insulto, sem apresentar argumento algum, Nascimento nega cabalmente a existência do mulato. Ora, segundo o IBGE, a população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Se forem acrescidos os 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. Nascimento está sendo cúmplice da classificação ianque, que só consegue ver pretos e brancos em sua sociedade e nega a miscigenização.

Esta é mesma filosofia do Supremo Apedeuta que, mal foi eleito, saiu arrotando urbi et orbi que o Brasil era a segunda nação negra do mundo, depois da Nigéria. Até mesmo uma pessoa aparentemente culta, como Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, prestou-se a corroborar o sofisma safado: "como declarou o presidente Lula, o estreitamento das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação políica, moral e histórica. Com 76 milhões de afrodescendentes, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo está empenhado em refletir essa circunstância". Ao colocar todos afrodescendentes no mesmo saco dos negros, o ministro demonstra que, nos círculos do poder, mesmo homens cultos se dobram à bajulação. Abdias do Nascimento não ficaria atrás de tais sumidades.

Mas o mais surpreendente vem adiante, quando o macróbio ativista afirma, na mesma Folha de São Paulo que publicou o livro do Dr. Sérgio Pena, que negava peremptoriamente a existência de raça. O repórter pergunta se Marina Silva seria a melhor candidata.

- Sem dúvida nenhuma. Tem qualidades e preparo. É de classe humilde, apesar de ter aprendido a ler muito depois de adulta, tem qualidade. Uma das primeiras solidariedades que tive no Senado foi a dela. Todo mundo sabe das minhas posições em defesa da minha raça. E ela não teve medo em vir me abraçar e se colocar à disposição para a ajuda que ela pudesse dar. Não recebi dos outros nenhum apoio.

Em defesa de minha raça? Quer dizer então que raça existe? Onde estão os ativistas negros que consideram racista quem acredita em raça? Se morena Marina apoiou Abdias, ao que tudo indica participa de sua Weltanschauung.

Será morena Marina - a candidata negra, como se apresenta - racista? Ou será que líder negro pode falar de raça sem ser pichado como racista? Estará proibido apenas aos brancos falar de raças?

13 junho 2010

Bolívia quer oficializar justiça paralela

Janer Cristaldo


Tenho comentado, ao longo destas crônicas, a tendência cada vez mais em moda em nossos dias, a de criar diferentes legislações para os cidadãos pertencentes a um mesmo Estado. No Brasil, negro vale por dois brancos em vestibular, índio pode espancar mulheres e matar crianças, desmatar e exportar mogno, o MST pode invadir propriedades e próprios federais, demolir laboratórios e culturas transgênicas. Se um outro cidadão que não pertence a estas tribos fizer o mesmo, cai sobre ele todo o rigor da lei.

Na Europa, os muçulmanos reivindicam o direito a práticas que na Europa constituem crime, como a ablação do clitóris e a poligamia. Na Alemanha, citando o Corão, a juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". Se um alemão bate em sua mulher, estão estabelecidas as condições para o divórcio e para a punição do marido. Muçulmano pode bater à vontade.

Costumo afirmar que quando em um Estado há duas ou mais legislações, então há dois ou mais Estados. Falei em “tendência cada vez mais em moda em nossos dias”. Me corrijo. Isto não vem de nossos dias. Há dois mil anos, uma seita de fanáticos já tinha a mesma pretensão.

Celso, nobre romano, autor de Discurso Verídico, que foi queimado pela Igreja e do qual só temos notícia pela contestação de Orígenes em Contra Celso, em sua época já acusava os cristãos de rebeldes contra a ordem estabelecida. Se se negavam a participar na vida pública e civil, isto equivalia a estabelecer um Estado dentro do Estado, com normas e costumes próprios, mas distintos dos do Império. Se se contentassem em anunciar um deus novo, isto pouco importava aos romanos. Mais deuses, menos deuses, tanto faz como tanto fez. Ocorre que se empenhavam em denegrir os deuses do país que os acolhia.

Leio no El País que a Bolívia é o primeiro país na América Latina a oficializar a nova moda. Evo Morales anunciou ontem que pretende assinar uma nova lei reconhecendo a validade da “justiça indígena e comunitária”, com a qual se justifica uma série de linchamentos no país. A última vítima da tal de justiça foi Santiago Flores, um cidadão de 51 anos, lapidado na última segunda-feira em Jununa, a 620 quilômetros de La Paz, acusado de violação.

Santiago foi enterrado boca abaixo, segundo os costumes indígenas, para impedir que seu ajayu (alma ou espírito) moleste os habitantes da comunidade, agora sob pacto de silêncio. Segundo o jornal espanhol, não se trata de um caso isolado. Há uma semana, na mesma província de Potosí, um grupo de indígenas entregou às famílias os corpos de quatro policiais que investigavam o contrabando na região. Os índios era os responsáveis pelo linchamento e entregaram os cadáveres amparando-se nas normas de sua jurisdição e com a condição de não serem denunciados pelo crime.

Nesta “justiça” não há recursos. Se um jilakata (autoridade indígena) emite uma sentença, que é verbal, as partes ou vítimas não podem recorrer a outra instância. Não existem cifras precisas, mas em 2007 foram registrados 57 casos de linchamento. Segundo Evo Morales, os índios têm uma cultura de vida, não de morte. O governo defende a oficialização da justiça paralela. “A justiça ordinária já tem normas, mas a comunitária não. Os irmãos das comunidades têm de trabalhar uma proposta, convertê-la em lei e aprová-la no Congresso”, disse o deputado Isaac Ávalos, do Movimiento al Socialismo (MAS).

Se a moda pega no continente, maus dias nos esperam pela frente. Verdade que no Brasil índio já pode estuprar, ter relações com crianças de 10 ou 11 anos e matar (inclusive os próprios filhos) impunemente, com o beneplácito dos tais de indigenistas e com a cumplicidade do Estado de direito. Negro em vestibular vale por dois brancos e os tais de sem-terra podem invadir propriedades à vontade.

Só nos falta oficializar a justiça paralela.
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