28 dezembro 2007

Socialismo é Inveja

Outro dia assisti a um ótimo filme intitulado “A Vida dos Outros”. Ele fala da vida na República Democrática Alemã, a terra do socialismo real. É uma tragédia socialista em três atos. De fato, o único ato subversivo contra o estado socialista é a publicação de um artigo de capa na revista Spiegel que fala que na República Socialista Alemã existe um controle estatístico dos mínimos detalhes da vida do cidadão, mas que o Estado proibe, a partir de 1977, a contabilização dos suicídios para que não se perceba que a feliz república socialista tem a maior taxa de suicídios per capita da Europa.

O primeiro ato é basicamente o seguinte: um dirigente nacional do Partido controla a área cultural e é apaixonado por uma estrela de sucesso. Ela, apesar do nojo que ele lhe desperta, deixa-se ser explorada sexualmente para evitar que o tal chefão do Partido a ponha na lista negra. Ele, não satisfeito, decide usar a Stasi para espionar o namorado da estrela, que é escritor, a fim de encontrar alguma coisa que pudesse ser usada contra ele.

Assistindo ao filme você é levado a refletir sobre o fato de que algumas pessoas simplesmente brilham mais que outras. É um fato da natureza humana desejarmos o que os outros têm e nós não. Como lidar com isto? É difícil. Algumas crianças, por exemplo, costumam quebrar os brinquedos das outras antes mesmo de saber o significado da palavra inveja. Fico imaginando que em uma educação socialista se teria que enfraquecer o ego, uma maneira de se fazer isto talvez fosse não deixar que nenhuma criança desenvolvesse uma relação de pertencimento com nenhum brinquedo para evitar o perigoso pronome possessivo: “meu”.

De fato, o modelo socialista estatista, que é uma religião ainda professada por muitos petistas, se baseia na idéia de que a propriedade dos meios de produção por uma elite capitalista gera exploração. A solução para eles seria a expropriação pelo Estado destes fatores de produção. A partir daí, o Estado organizaria a produção. Já imaginaram como seria a economia planificada brasileira? A Direção Nacional do Partido procuraria acomodar os interesses regionais, das categorias, das panelinhas, dos setores dentro de uma grande roupagem do bem maior da pátria socialista brasileira.

Como diriam os meus amigos, estudiosos de Foucault, onde existe poder existe exploração e não será o desaparecimento do capitalismo que irá resolver isto. Como diriam ainda os weberianos, o estado e sua burocracia buscam os seus próprios interesses e dispõem de poder para isto, afinal, o Estado é poder. Além disso, a psicologia nos coloca mais um problema; um grande número de pessoas com características psicopáticas busca o poder, a ponto de que se você quiser achar um psicopata, busque alguém que exerça um cargo de poder que terá grandes chances de encontrá-lo.

Na complexa economia psíquica, o psicopata seria um sujeito cujos desejos não seriam reprimidos pelo superego, daí este indivíduo não teria culpa em mentir ou agir de forma a obter os seus desejos. A falta de compaixão e um relacionamento com os outros, e talvez consigo mesmo, com gozo associado ao poder, completaria o quadro perverso. Muitos destes perfis são muito carismáticos e quando se identificam com algum ideal, como o socialismo, conseguem anular completamente o superego e podem se entregar sem culpa ao narcisismo revolucionário.

Isto me faz lembrar daquelas estorinhas de criança nas quais temos um príncipe que antes de se tornar rei é obrigado a passar por inúmeras provas de caráter, e a ocupação da liderança é feita dentro de um espírito de serviço que deve ser cumprido. Infelizmente, os políticos que conhecemos querem o poder pelo poder, pelo gozo, afinal poder é melhor que Viagra. As mulheres inseguras, por exemplo, costumam ser péssimas chefes devido ao detalhismo que comumente se traduz em autoritarismo e obsessão pelo controle.

Para piorar, os psicopatas são invejosos, assim, o dirigente do Partido Comunista Alemão do filme precisa se satisfazer explorando sexualmente a estrela de teatro. Quando ele se vê privado momentaneamente de sua companhia, entra em uma depressão que a satisfação de ocupar o seu cargo não é capaz de preencher. É o socialismo da inveja.

26 dezembro 2007

Tio Arruda e os Petralhas

Recentemente, teve fim em Brasília um período de 16 anos de poder do pai Roriz, como é conhecido por alguns membros da comunidade de Samambaia. O PT lutou desesperadamente para sucedê-lo com a indicação de Arlete Sampaio, que apostava em uma divisão de votos entre Arruda e a candidata do Roriz, a que alguns se referem como "Maria Vadia". Arlete, com seu jeito truculento de fazer política, fracassou enquanto pessoas respeitadas pela esquerda ficaram isoladas em seu próprio campo, como Cristóvam Buarque e Augusto Carvalho. Aliás, o Luiz Estevão foi eleito pela insistência desta mulher em querer ser senadora, o que acabou por reduzir os votos de Augusto Carvalho e favorecer o verdadeiro rival. Mas o Senado não perdeu nada; ela seria mais uma Ideli Salvatti.

Roriz foi um grande populista que se elegeu doando lotes para a população de baixa renda enquanto fazia vista grossa para a grilagem de classe media, além de construir um monte de viadutos e gerar muitos negócios como o absurdamente caro e não terminado metrô de Brasília. Como eu dizia a uma amiga de Samambaia, a diferença entre o pai Roriz e o tio Arruda é que o primeiro é um coronelzão do século XIX que transformou a administração em cabide de emprego para seus cabos eleitorais e podia fazer reunião de família reunindo os seus secretários. O Arruda, por outro lado, inaugurou uma gestão que se propôs a sanear a maquina administrativa e a organizar o caos urbano do Distrito Federal.

É portanto com surpresa que lemos no site do PT um artigo da deputada distrital Érika Kokay se vangloriando da suposta baixa popularidade de Arruda. Aliás, esta deputada do PT responde a acusação do ex-empregado do seu gabinete, Geraldo Batista da Rocha Junior, de tê-lo usado como laranja do caixa 2 da campanha. Em suas palavras, a Erika diz:

“Os cortes no custeio da máquina pública, a demissão de servidores e a derrubada de barracos, longe de expressar austeridade fiscal ou rigor na aplicação da lei, desnudou a política privatista neoliberal do governo do Distrito Federal que minimiza o papel do Estado na condução das políticas públicas e valoriza, sobretudo, o papel do mercado na solução dos problemas econômicos e sociais. A confiança inicial do governador vem sendo substituída por preocupação ao ponto de assinar decreto "demitindo" o gerúndio dos atos oficiais, motivo de piada nacional, segundo a Folha de São Paulo.”

Esta Erika mostra seus preconceitos ideológicos decorrentes do pertencimento ao ramo estatista da esquerda. Esquece de dizer que a demissão de servidores não concursados, muitos dos quais cabos eleitorais ou decorrentes de clientelismo, foi uma medida necessária e benéfica para a população, que a derrubada de barracos também é necessária pois existem pessoas na fila para receber os lotes de acordo com critérios estabelecidos, e as áreas verdes da cidade não podem ser privatizadas por qualquer um. E quanto à privatização do BRB, é uma excelente idéia, considerando que recentemente o pai Roriz perdeu o mandato de senador por uma pequena maracutaia descoberta nas dependências deste banco. Como sindicalista da CEF deve ser impossível a ela defender esta posição.

Quem gosta de máquina administrativa inchada para colocar os companheiros do partido é o pai Roriz, ou então o PT, que precisa encostar os seus companheiros. É mesmo lamentável entrar no site da Erika e encontrar como mote a frase: “uma mulher de coragem”. Cá entre nós, a foto desta psicóloga dirigente nacional do PT lembra mesmo é a Rita Cadillac. Se bem que a Rita tem mais dignidade.

Foto: O Globo, melhorada pelo Pugnacitas. Aqui a imagem original.

19 dezembro 2007

A Visão Autoritária Petista

Não é novidade para ninguém a vocação totalitária dos petralhas. Em seus sonhos, gostariam de fazer do Brasil uma Venezuela. Com este propósito, já seguindo a receitinha prescrita pelo Chávez, já estão com a sua campanha para a realização de uma Constituinte. O que ficou claro com as constituintes convocadas pela esquerda, como a boliviana, é que as regras mudam durante o processo e questões que não estavam no escopo acabam entrando e votos qualificados viram voto simples ao sabor dos seus interesses. Portanto, uma Constituinte com eles no poder seria uma temeridade para a democracia.

A visão autoritária deles contamina tudo. Arlindo Chinaglia, por exemplo, o presidente da Câmara do PT que fez carreira como presidente dos Sindicato dos Médicos, propôs a proibição de novos cursos de medicina para preservar os salários dos médicos buscando a redução da oferta. Aliás, projetos infames são com ele mesmo, que no início do ano negociou no Colégio de Líderes a votação de um projeto que previa a efetivação de servidores emprestados nos órgãos onde eles estivessem, ou seja, nunca na história deste país alguém teve o descaramento de propor um projeto tão favorável a todas aquelas figuras que estão ocupando cargos de confiança emprestados de uma prefeiturazinha qualquer e que poderiam passar a integrar o quadro da Câmara ou do Senado.

Uma das características do totalitarismo é a falta de separação entre o partido e o governo. Com eles, o governo do Brasil, que deveria pertencer a todos, se tornou a República dos Sindicalistas. Nunca se viu tantos sindicalistas encostados em cargos de confiança em gabinetes por aí. Outro dia, o ilustre senador Mercadante defendia a não prestação de contas do cartão de crédito corporativo da Presidência da República, alegando tratar-se de assunto de segurança nacional. Desde quando juntar os companheiros e pagar a conta em restaurantes de luxo é questão de segurança nacional?

É como foi comentado no blog: há que se fazer uma separação entre o discurso e a prática. O Niemeyer, por exemplo, (um hipotético acréscimo ao projeto do arquiteto centenário para o CN ilustra este post) é um comunista no discurso mas um capitalista na prática. Usufrui de todos os bens oferecidos pela sociedade consumista, participa dos esquemas e ainda se sai como um bom moço comunista que quer a igualdade. Na minha opinião, a unidade entre a prática e o discurso são essenciais. Outro dia, encontrei o Babá, aquele deputado do PSOL com cara de maluco, pegando ônibus e fiquei assustado. Afinal, podia estar diante de alguém que realmente era um socialista, assim como a Heloísa Helena, cuja declaração de renda é ridícula. O problema destas figuras é que elas têm um ar desvairado. Talvez seja melhor ficarmos com os hipócritas, que em sua mentira há alguma racionalidade, do que com sinceros como uma Heloísa Helena da vida.

Os hipócritas enganam, no máximo, alunos de universidade que acreditam nas suas baboseiras. Isto me faz lembrar de anos atrás em como fiquei impressionado com o José Genoíno falando em comícios; o cara tinha uma boa figura. Esta semana, vendo-o impávido defender a sua ignorância do Mensalão apesar de ser presidente do PT, foi algo perturbador.

Em 2010, se Deus quiser, ficaremos livres do Lula; já será um começo! E depois que venha a Dilma ou o Ciro Gomes e mostrem claramente aquilo que o Lula teima em disfarçar. Em um futuro distante, um bom critério para a escolha de um governante talvez fosse pegar alguém que não quisesse ocupar aquele cargo, alguém que fosse um bom filho, um bom pai, um bom patrão, um bom colega e que estivesse perfeitamente feliz em sua vida e não desejasse nada mais. Esta pessoa daria um bom governante. Por enquanto, devemos nos submeter aos ambiciosos.

15 dezembro 2007

De Volta a Bizâncio (ou: Idéias de Jerico)

Acho que o pessoal religioso, sabem, aquele, que vivia querendo nos salvar quando éramos adultos lá na Idade Média, nos purificando numa fogueirinha santa, cansou um pouco de nós e, de uns cento e poucos anos pra cá, se voltou para a salvação das almas, digamos, menores. Hoje falam muito em fetos e, claro, em aborto. Lá pelas tantas, se cansaram disso também e parecem estar dando um tempo, ou não se saíram muito bem, não sei, mas o fato é que agora querem “proteger” os embriões, os óvulos, os espermatozóides. Parece que quanto menor, melhor. Daqui a pouco vamos chegar à proteção do estágio de blástula.

E um carola Procurador-Geral da República, que deveria ter mais o que fazer, redigiu uma ação direta de inconstitucionalidade equivocada, para usar uma palavra caridosa. Aconteceu. Ah, Brasil, Brasil, minha pátria amada, idolatrada, salve, salve… o que não acontece por aqui?

Em 2005, o papalvo Cláudio Fonteles fez isso. Uma ADIn que atravancou as pesquisas com células-tronco embrionárias no país. Francamente, o cara tem que ter mingau na cabeça pra se sair com uma presepada dessas.

Raspada a conversa fiada, o trólóló, o “embasamento jurídico” e o burocratês, essa foi uma idéia de jerico, naturalmente. Por mais que ele esconda os pruridos religiosos por trás do que fez, travestidos com aquele papo de que está estritamente preso ao que a Constituição diz, que a proteção da vida, que o Direito, blá, blá, blá...

Certo, ele nunca vai admitir: “fiz isso por que a minha fé, minha crença…”. O que é tolo, mas algo revelador (no que deixa entrever um raciocínio moralista rastaqüera). E honesto, ao menos. Pode-se até dizer que, por “acaso”, a crença dele casou direitinho com a questão, com o “caso em tela”.

Se essa lontra não fosse tão irrefletida, tão inconsciente de si mesma, talvez tivesse parado por um minuto, se dando conta de duas coisas singelas:

1) ninguém pode parar o progresso tecnológico

2) no longo prazo, as células-tronco embrionárias (e não as adultas, nas quais os religiosos estão se agarrando por conveniência, sem nem mesmo uma idéia clara das diferenças entre elas e as embrionárias) e derivados vão curar ou reduzir drasticamente o estrago de várias doenças degenerativas, sem falar na possibilidade de se fabricar órgãos.

E isso só pra ficar na superfície.

Mas não adianta. O sujeito é incapaz de raciocinar, de pensar por um instante além de seu mundinho besta e vidinha idem. Sua cabeça não vai além da Palavra Revelada na Sagrada Escritura, edição autorizada pela Santa Madre Igreja. Um cara limitado, enfim, por mais respeitado, cheio de títulos e o que mais seja ou tenha. Um cara que segura na mão do padre, enquanto com a outra redige uma excrescência.

Pela mão do pároco, o cara joga para a platéia, faz o seu acting, o seu show, mas é claro — e mais uma vez — sempre podendo argumentar que não é nada disso, antes muito pelo contrário, que só está cumprindo seu dever profissional, de procurador, cidadão consciente, sei lá. O bom cristão. O pior idiota sempre é o mais consciente.

Não é à toa que o mesmo pessoal se dedique com tanto afinco para impedir a legalização do aborto de anencéfalos. Deve ser a Mãe Natureza, o instinto de autopreservação lhes dizendo: “preservem os seus”…

E olha que estamos num Estado laico… mas nem falemos nisso, já que nosso laicismo ainda é cotó demais. Vai levar mais umas décadas (séculos?) para a mentalidade de sacristia desinfetar de nosso “inconsciente coletivo”. Se desinfetar. Imagino que ele realmente acredita no que diz, que seja mesmo um crente pio. Gente assim é importante para a Igreja, para toda religião. É útil. A força do bom-mocismo desses inocentes úteis não pode ser menosprezada. E dá ibope viver se indignando com as injustiças do mundo, sempre bestificado com o que acontece — e, não vamos nos esquecer, sempre por uma “boa” causa, com aquele ar grave, sério, a cara de compungido.

Em última análise, porém, no grande esquema das coisas, ele não passa disso, de uma ovelhinha prestativa. Bonitinha, mas ordinária. Os bestificados, depois de um tempo, só servem para isso: se bestificar. Sua pose, o teatrinho vulgar que nem sabem que estão fazendo, já que acreditam no que dizem, é a regra.

Tudo isso é muito cansativo. O bom é a gente saber das coisas, o que entre outras coisas nos torna impermeáveis a surpresas, decepções e até algumas desilusões maiores. Essa prostração bovina, essa ausência do pensar por conta própria, de pensamento, ponto — que afinal é o que nos torna seres humanos completos, gente, no sentido mais amplo da palavra (eu sei, eu sei, a maioria da humanidade nunca chega nesse estágio, fica lá no de blástula, por falar nisso, mas estou falando dos 2% que sabem das coisas, que salvam, que “redimem” um pouquinho a espécie) — esse rastejamento todo é deprimente.

Sem falar na sensação de vácuo, de falta de receptividade, quando escrevo sobre essas coisas. Sobre qualquer coisa, aliás. Quantas vezes, dizendo o que me parece o óbvio, não fui tomado por uma vontade irresistível de silenciar, de cair fora, porque consciente da futilidade do que escrevo, pelo fato de que quem concorda comigo já sabe do que estou falando, enquanto quem discorda nunca vai me entender - muitos nem saberão, porque vivem na indiferença primitiva, minimalista, da sociedade brasileira, ou estão de tal forma esmagados pelo trabalho braçal, que enfrentam sem preparo físico, que nem sequer sonham que uma vida melhor é possível.

Mas as coisas mudam, felizmente. Talvez nesse caso mude rápido, acho bem provável que o Supremo derrube a ADIn.

O engraçado é que, depois da presepada, talvez vendo o tamanho dela, o lobby clerical catou uns cientistas não sei de onde e veio com um catálogo de conversa mole. Cada dia é uma. A última, a reboque da própria Ciência (a séria), foi a de que andaram fazendo progresso por aí com células adultas. Ok, nada contra, mas estas nunca terão o potencial das embrionárias, por uma penca de motivos.

Depois — e o mais divertido — ainda acharam que podiam pegar emprestado da filosofia uma questão jamais resolvida, e quem sabe até dar um jeito nela: o início da vida. Para mim, outra idéia de jerico, cortesia, “geração espontânea”, da idéia de jerico inicial. Às vezes se tem a impressão de que voltamos a Bizâncio: logo vamos discutir o sexo dos anjos, a essência da Santíssima Trindade e excentricidades metafísicas mil.

A vida começa… bem, vocês escolhem. Podem dizer que ela começa no zigoto, no rabinho do espermatozóide, no átomo da mitocôndria… A convenção católica, por exemplo, diz que ela começa na concepção. Ninguém sabe quando ou onde ela começa. A meu ver, os religiosos se deram mal na audiência pública (acho que eu e outros cinco assistiram a ela quase toda na TV Justiça) feita pelo STF sobre o assunto. Insistiram nessa estaca zero, tinham que fincá-la de alguma maneira, dizendo “a vida começa aqui, ó”. Terminaram dando voltas e se perdendo.

Mas tudo bem. O homem não cria problemas que não possa resolver. Não acho que o mundo vá regredir para alguma forma de bestialismo medieval um dia, apesar dos tropeços. Nem que tudo vá acabar em besteira generalizada ou em pseudointelectualismo, como achava um Ortega Y Gasset. Há saídas, estreitas, mas seguras e claras, dessa porcaria toda.

Se já armaram essa briga toda por causa das CTEs, imagino o que não vão armar quando começarem a clonar gente no futuro distante. Quem sabe, quando estivermos clonando gente como pãezinhos na padaria e torcendo o DNA à vontade, os incompreendidos e malvados caras de jaleco branco não aproveitam pra dar uma melhoradinha na espécie. Se alguém reclamar, podem dizer, como o Millôr, que eugenia é só uma forma científica de se ter filhos mais bonitos.

13 dezembro 2007

O Bom Corrupto

Em minhas conversas com o meu amigo marxista gramsciano que foi aluno da Conceição, do Lessa e dos caras da Unicamp aprendi muito. Segundo ele, o José Dirceu é o Robin Hood de Marx e Gramsci. Ele roubava para o partido conforme as denúncias do Mensalão que se encontram no Supremo Tribunal Federal. É algo completamente diferente do que roubar para o enriquecimento pessoal, roubar por uma causa.

Segundo uma leitura de Gramsci, o partido deve substituir o príncipe em Maquiavel e a razão de estado deve ser substituída pela razão do partido, ou seja, tudo deve ser feito para se fortalecer o partido. Neste prisma, o Mensalão, a censura da imprensa, a ocupação do governo pelo Partido e reformas políticas que visem enfraquecer o Congresso e seus representantes são as táticas desta estratégia.

Talvez o meu amigo marxista gramsciano não esteja completamente enganado, talvez os corruptos não sejam assim tão ruins, afinal, não existe nada mais decepcionante do que um falso íntegro. Vejamos o caso do Mercadante, principal interessado, beneficiário e a pessoa com poder no caso da compra do Dossiê que um grupo da Polícia Federal após afastar o delegado do caso rapidamente inocentou. Apesar deste episódio do qual saiu limpo, pois a bomba foi estourar no colo do Berzoini, continua ainda posando com aquela cara de menino íntegro, filho de general e irmão de coronel. Para cada mentira que ele conta um fio de cabelo cai, está quase careca. Uma hora é contra a redução da maioridade penal, outra hora defende o sigilo do cartão de crédito da Presidência da República por razões de segurança nacional, outra hora diz que as pessoas vão morrer se for aprovada a CPMF.

Esta vocação totalitária do PT que pretende dominar o estado, o governo e a sociedade é algo que deve ser combatido. Eles defendem que o partido é o melhor veículo para que os sindicatos, os movimentos sociais e outros aliados consigam o poder. É uma relação curiosa onde se defende o fortalecimento do partido em nome de uma base social que em última instância tem que se submeter às razões do partido conforme forem arbitradas pela Executiva Nacional.

Corrupto por corrupto, fico com o Roberto Jefferson que despertou o país da cantilena do Fome Zero inventada pelo vendedor de sabão em pó, Duda Mendonça. Aliás, ele vai muito bem com seus milhões depositados pelo PT em suas contas no exterior e as suas rinhas de galo. O Lula se elegeu com o Fome Zero e se reelegeu com o Bolsa Família mas eu continuo a ver meninos fora da escola na rua e mendigos caídos pelos cantos.

Muitos ainda dizem que o Delcídio é corrupto mas foi o homem que de forma competente e profissional presidiu a CPI dos Correios e contra todas as pressões do Partido apresentou um relatório onde se apontam responsáveis. Sua conduta foi exemplar enquanto outros santos de pau oco tinham suas espinhas quebradas diante da pressão que sofriam do partido. O Jorge Bittar berrando diante do Delcídio para desesperadamente tentar impedir que a Comissão emitisse um relatório de seus trabalho teve a sua espinha esmigalhada, isto é, se algum dia teve alguma.

Por fim, a corrupção é natural e ela começa nas panelinhas que formamos para sobreviver diante das ameaças representadas pelo outro. Para os nossos tudo, para os outros, os rigores da lei. Por isto que eu prefiro o ‘papo reto’, como diria, o Baiano de Tropa de Elite. Prefiro o faço porque posso do que o faço pelo partido, pelo chefe ou seja lá porque for. O faço porque posso respeita o outro porque além de roubá-lo não tenta enganá-lo. Mesmo que isto seja feito com desprezo ainda ficamos mais próximos da verdade do que perdidos em algum idealismo ou racionalismo qualquer.

08 dezembro 2007

Papai Noel Lula e a CPMF

Toda semana quando se abre o jornal encontramos o Lula prometendo o dinheiro dos contribuintes, dos acionistas de alguma estatal ou de alguém devedor de algum favor do governo para alguma coisa. Hoje, o Lula prometeu dar R$ 12 milhões da Petrobras, da Braskem e da Unipar para as escolas de samba do Rio de Janeiro. Nestas horas, a relação cidadão governo tem um quê de prostituta/cafetão.

Recentemente, a Petrobras esteve envolvida na aquisição do grupo Ipiranga, negócio no qual abriu mão dos melhores ativos que eram petroquímicos pertencentes a esta empresa comprada em prol do seu sócio na aquisição, a Braskem. Curiosamente, a Petrobras não possui ativos petroquímicos significativos e poderia ter feito a aquisição isoladamente. Desta forma, além de ter dado carona para o grupo Braskem e o grupo Ultra, ainda ficou com o osso do negócio, ou seja, alguns postos de gasolina e uma refinaria a mais.

Portanto, já estava mais que na hora da Braskem mostrar boa vontade com o presidente. Afinal, uma decisão deste porte não seria aprovada sem a Dilma, presidente do Conselho da Administração da Petrobras. E seria de se esperar que ela comentasse com o Lula. A menos que ele também não soubesse de nada referente a este negócio.

Para completar houve também a aquisição da Suzano Petroquímica pela Petrobras, que pagou um prêmio estimado de R$ 1 bilhão de reais pelo mercado pela honra de ter as ações da Suzano. A Unipar solicitou imediatamente a fusão com a nova empresa comprada, preservando os generosos critérios de avaliação usados. Portanto, nada mais justo que agora estas empresas tão enriquecidas se dispusessem a fazer uma mercê pelo Rei.

Hoje, são alguns milhões para uma escola de samba, amanhã deverão ser algumas dezenas de milhões aos candidatos do governo. É aí que entra a CPMF, o que seria do nosso Rei se não houvesse dinheiro sobrando no orçamento para ser dado em troca de uma boa nota no jornal, de uma cerimônia com muitos repórteres, ou em troca de favores? Dinheiro é poder e o Lula não pode abrir mão da CPMF para não perdê-lo.

Para obter os R$ 120 bilhões de reais da CPMF, pode-se gastar algum com alguns governadores, aumentar a destinação de recursos aqui e ali, da mesma forma que amanhã se pode reduzi-la, porque mesmo que se gaste 90% do dinheiro no esforço de aprovação, isto ainda representará R$ 12 bilhões para o governo distribuir para dezenas de ONGs alinhadas com políticas do governo e curiosamente tripuladas com pessoas muito bem relacionadas com o mesmo governo, quando não diretamente do grupo político no poder.

Para o Lula, a CPMF vale a absolvição do Renan Calheiros, mas certamente o governo não fez nada para absolvê-lo, nem a sua líder no Senado, a senadora Ideli Salvati, não contou nada para o Lula. Nunca na história da República um presidente soube tão pouco sobre o que acontece a sua volta. Mesmo que a sua ignorância seja criminosa, afinal ele tem responsabilidade sobre o que fazem as pessoas que ele nomeia. E falando em nomeações, como estará o saco do Papai Noel Lula neste final de ano? Tudo dependerá da CPMF. Se ela não for aprovada, “a Creusa” pode ficar nervosa, e o espírito de Chavez pode baixar nela, mas se for aprovada, então Papai Noel vai dar presente para os políticos que foram bonzinhos com o governo este ano.

06 dezembro 2007

África, Negócios e Ditadura

Hoje assisti a uma palestra interessante sobre negócios na África. Uma das boas estórias foi sobre o final da guerra civil de Angola. Segundo o palestrante, após o assassinato de Jonas Sawinb, líder da UNITA, o governo - da MPLA - mandou um SOS para o mundo pedindo todo tipo de ajuda para reconstruição do país. As respostas foram um retrato das políticas externas de algumas potências: a Europa decidiu estudar a formatação de novos programas de apoio à África. Os EUA disseram que estavam abertos a financiar os projetos de reconstrução, via FMI, desde que a Angola se submetesse às tradicionais condicionalidades desta instituição. Os chineses disponibilizaram US$ 5 bilhões de dólares, na expectativa de negócios e fornecimento de petróleo.

Este é apenas um exemplo do pragmatismo da política externa chinesa, muito próximo da antiga política externa do Império Britânico, que não se importava muito com questões políticas desde que o comércio fluísse. De fato, os chineses e os africanos têm como afinidade o fato de ambas serem sociedades autoritárias.

Em Angola, por exemplo, o José Eduardo, um engenheiro formado na URSS e de um partido de origem marxista, está no poder desde 1979 e é considerado a 14ª fortuna do mundo. Naquele país, qualquer negócio de um porte maior precisa ter como sócio alguém que pertença à família do presidente. Na Nigéria, outro partido de origem marxista chegou ao poder a algumas décadas e deu origem a uma oligarquia de famílias de generais, às quais pertencem as principais fortunas do país. Este é um ponto favorável para a nossa própria ditadura, cujos generais não formaram grandes fortunas.

O Brasil é o segundo país negro do mundo, atrás apenas da Nigéria que tem 140 milhões de habitantes. Apesar das naturais afinidades culturais com os africanos, hoje, o ambiente político brasileiro é democrático e as formas de fazer negócio combinam práticas americanas, como a Lei Sarbannes-Oxley, com burocracia tupiniquim, como a lei 8.666. O resultado disso são empresários preocupados com uma série de procedimentos que não têm a ver com o negócio, com incapacidade para tomar decisões rápidas e oportunidades perdidas.

Enquanto os africanos e os chineses mostram um enorme pragmatismo nos seus investimentos, temos o exótico Chavez que tem um projeto de poder mais ao estilo da Rússia ou do Irã. Os chineses não se importam se o Chavez é bolivariano ou escravagista e estão fechando acordos com a Venezuela para investimentos da ordem de US$ 20 bilhões, em troca de exportações de petróleo da ordem de um milhão de barris por dia. O Brasil do PT reconheceu a China como economia de mercado, em troca de algum reconhecimento do PCC, mas não obteve nada exceto uma balança mais desfavorável. Como muitos já disseram, eles nos vêem como um potencial fornecedor de materiais primas, a despeito das afinidades ideológicas entre PT e PCC.

Em conclusão, sociedades autoritárias cujo poder está centralizado em um partido, em um oligarquia, ou indivíduo têm como vantagem uma capacidade de tomar decisões rápidas, enquanto isto, as inúmeras obrigações de prestação de contas a grupos de interessados torna o processo de tomada de decisões em sociedades abertas e democráticas muito complexo. Apesar disto, as sociedades abertas apresentam como vantagem a sua grande capacidade de adaptação, fruto da livre iniciativa, e hoje, por exemplo, muitas empresas abertas cansadas da Sarbannes Oxley estão se rendendo facilmente a captura por private equities que fecha o seu capital e eliminam uma série de obrigações entre as quais a de apresentar resultados trimestrais positivos o que dificulta projetos de longa maturação. O fato é que não se trata da qualidade das idéias dos sistemas políticos mas da capacidade de atuação consciente dos seres humanos, caso contrário, qualquer sistema pode se degenerar e entrar em decadência.

01 dezembro 2007

Gee Brain, what do you want to do tonight?

Outro dia, cumprindo o meu dever de cidadão e membro da minoria que faz oposição ao governo, entrei no site do PT para ver como andavam os planos do Pinky e do Cérebro. Verifiquei que neste domingo, dia 2 de dezembro de 2007, será lançada uma campanha em favor de uma Constituinte com o seguinte texto: “O projeto propõe a convocação do plebiscito para o dia 31 de janeiro de 2009, quando os brasileiros deverão responder à seguinte questão: 'O sr(a) aprova a convocação de uma assembléia constituinte soberana e específica para promover uma reforma constitucional no Título IV da Constituição Federal que redefina o sistema político-eleitoral?'".

Então, fui examinar a Constituição para ver do que se tratava. Pelo que pude ver, a Constituição de 1988 está organizada em 9 títulos:

I) Dos Princípios Fundamentais;
II) Dos Direitos e Garantias Fundamentais;
III) Da Organização do Estado;
IV) Da Organização dos Poderes;
V) Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas;
VI) Da Tributação e do Orçamento;
VII) Da Ordem Econômica e Financeira;
VIII) Da Ordem Social;
IX) Das Disposições Constituicionais Gerais.

A princípio, a livre iniciativa e o pluralismo político estão a salvo, pois estão no título I. A livre manifestação de pensamento, a inviolabilidade da casa, a livre locomoção, a liberdade de reunião, o direito à propriedade, o direito adquirido estão a salvo no título II. Lendo a Constituição, é curioso como numa linha afirma uma coisa para na linha seguinte abrir as portas para o contrário. Isto sem falar em linhas absolutamente ignoradas como as que garantem dignidade aos presidiários. O título III fala basicamente das competências das esferas de poder.

Então chegamos ao título IV, que os petistas querem mudar. A seção 1 do capítulo I fala da composição do Congresso Nacional e da existência do Senado. É amplamente sabido o desejo deles de extinguir o Senado. A seção 2 fala das atribuições do Congresso Nacional, entre elas algumas pelas quais o PT tem profundo interesse, como o poder sobre a renovação de concessões de rádio e TV, para autorizar referendo e convocar plebiscito, instaurar processo contra o presidente da República, a imunidade parlamentar e, finalmente, as formas de fazer emendas ao restante da Constituição, ou seja, se alguém alterar esta parte pode atingir o restante da Constituição mais facilmente. Nesta seção ainda temos os poderes do presidente da República e a estrutura do Poder Judiciário. Em resumo, se o PT conseguir convocar um plebiscito para uma Constituinte que reveja este título, estará mudando a forma de se governar este país.

Para sermos justos, o direito à reeleição está nos direitos políticos do título II, então a princípio esta proposta não representaria um movimento na direção de dar a Lula o direito de concorrer a um terceiro mandato. Se bem que já ouvi comentários de que se estuda a possibilidade da Dilma ficar de 2010 a 2014 e depois o Lula voltar por mais dois mandatos, até 2022. Na Revolução Russa também foi assim, primeiro o "moderado" camarada Lênin para depois entrar Stalin. Pode ser que venhamos a ter um de saias.

Infelizmente, para todos que prezam a democracia, o que se vê hoje nos regimes de esquerda da Venezuela, Bolívia e Equador são sociedades marcharem em direção ao totalitarismo dentro de uma estratégia gramsciana em que líderes carismáticos são usados e fazem uso de uma estrutura partidária com vocações totalitárias explorando os espaços oferecidos pela sociedade democrática para implantar os seus regimes totalitários e messiânicos.

Acho que todo ser humano quer mudar o mundo, mas também tem alguma capacidade de se conformar com ele como é. Felizmente, eu diria, até 2022 faltam 15 anos e o partido ainda pode permanecer por dezenas de anos no poder cobrindo o período das nossas existencias. Mas sejamos francos, todo grupo que chega ao poder quer se manter lá. É por isso que temos uma democracia, porque sabemos que os governantes são humanos e que irão tentar, como o ratinho Cérebro, dominar o mundo. Pelo menos os Cerebros deste mundo farão isto.

25 novembro 2007

O Homem Justo na Bíblia

Na Bíblia temos 419 registros para "justo", segundo pesquisa no bibliacatolica.com.br . O primeiro homem chamado de justo é Noé. Obviamente, Adão não foi merecedor deste título. A seguir temos a discussão em torno da destruição de Sodoma, na qual Deus considera a possibilidade de poupar a cidade se houver um número suficiente de justos. Esta é uma discussão interessante e politicamente não correta, na medida em que mostra um deus interessado em uma elite de "justos" e desconsiderando o direito à vida dos demais.

Mais tarde Deus, por meio dos Dez Mandamentos entregues a Moisés, decreta ser pecado matar um justo e um inocente, ou seja, mais uma vez ignorando o direito universal à vida. A seguir temos a história do justo mais famoso da Bíblia: Jó. Nos Salmos temos uma série de promessas de retribuições de Deus àqueles que oprimirem os justos. De fato, em Salmos 140,5 lê-se: “Se o justo me bate é um favor, se me repreende é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará; porém, sob seus golpes, apenas rezarei.”

Em Provérbios, mais vez se enaltece os justos afirmando, em geral, que aquilo feito ou dito pelos justos é bom e aquilo feito ou ditos pelos ímpios é mau. Eis uma boa passagem: “As palavras dos ímpios são ciladas mortíferas, enquanto a boca dos justos os salva.” Em Eclesiastes o tom muda e critica-se a vaidade dos justos. O tom é mais "socialista": “Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.” Também encontramos neste livro (7, 16) esta curiosa admoestação: "Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te tornarias estúpido?"

Em Sabedoria retoma-se o tom elogioso aos justos e o elitismo por assim dizer. De fato, a vida eterna seria destinada apenas a esta elite: “Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.” Apesar da eternidade pertencer aos justos, eles não estão a salvo de morrer pelos pecados dos ímpios, como podemos ler em Lamentações: “Foi por causa dos pecados de seus profetas e das iniqüidades dos sacerdotes, que derramavam em seus muros o sangue dos justos.”

Ezequiel, por sua vez, se ocupa em falar dos justos que abandonaram o caminho: “E, se um justo abandonar a sua justiça, se praticar o mal e imitar todas as abominações cometidas pelo malvado, viverá ele? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer.”

Mateus já retoma uma visão mais conciliadora, socialista e antielitista: “Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.” O interessante é que em Mateus surge o inferno para os ímpios, enquanto antes eles tinham o nada. É uma nova abordagem, esta do Novo Testamento, de tentar atrair os ímpios. Acho meio populista.

Bem que eu desconfiava que estes apóstolos de Cristo eram meio esquerdistas, vejam só esta passagem: “Jesus respondeu-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.” Acaba com a idéia da elite dos bons e dos escolhidos. Se bem que uma coisa que eu detesto é aquele que se faz de justo, o fariseu, que atualizado seria o politicamente bonitinho, este é um sepulcro caiado. No Brasil, hoje, este personagem é aquele que veste uma camiseta do Che...Bem, desconfio que obsessão não esteja entre as qualidades dos justos...

Em João, por sua vez, há uma passagem interessante em que se discute o que é um homem justo: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.”

"Justo" na Bíblia pode ser entendido como "aquele que age de acordo com a vontade de Deus", seja ela qual for. Hoje, a disputa é por ser considerado justo, pois suas ações terão legitimidade. Infelizmente, o privilégio de agir é muitas vezes exercido em detrimento daqueles que sofrerão as consequências de suas ações.

Entramos em outra questão aqui. O que é agir? Segundo o Aurélio, a sua definição filosófica seria: "Processo que decorre da natureza ou da vontade de um ser, o agente, e de que resulta criação ou modificação da realidade." Boa definição, que considera como pré-requisito da ação a existência de vontade e como conseqüência a mudança da realidade. Neste sentido, existem muito poucas "ações", embora muitas sofram as conseqüências de ações alheias à sua vontade.

Caímos agora na questão karma e darma. As ações do ego geram karma. A definição psicanalítica de ego segundo o Aurélio é: "A parte mais superficial do id, a qual, modificada, por influência direta do mundo exterior, por meio dos sentidos, e, em conseqüência, tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do id." Os justos, como não agem obedecendo ao ego, estão livres do karma. Somente eles são livres, os demais são escravos dos sentidos e dos desejos. Logo, a única escolha estaria entre servir ao ego ou servir a Deus.

18 novembro 2007

O Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância

Hoje, na nossa vizinha Venezuela, temos um regime totalitário onde o partido único domina o Estado, e este a sociedade, sob a tutela de um líder carismático. Chatelet considera que o século XX marcou o surgimento dos regimes totalitários nos quais um partido domina o Estado em nome das massas. O próprio nazismo foi uma doutrina totalitária que misturava socialismo e racismo.

Com a queda da União Soviética e o colapso do socialismo real, concluiu-se equivocadamente que o liberalismo havia triunfado e que a História havia chegado ao fim. A euforia global terminou com as crises financeiras e a euforia americana no 11 de setembro. Com a incapacidade de estabilizar o Iraque, a crise da hipotecas e a expansão do socialismo na América Latina, o liberalismo entrou em depressão.

Este confronto entre o capitalismo e o socialismo, para muitos, é o confronto entre o bem e o mal. Ironicamente, em certo sentido, estas duas propostas surgiram de duas tendências cristãs. A corrente liberal funda-se no livre-arbítrio e na doutrina da salvação individual, enquanto a corrente socialista funda-se na comunidade de Cristo e da irmandade de todos em Cristo.

Um ponto comum dos discursos filosóficos, teológicos e políticos é a sua intenção de libertar o homem. Embora todos estejam de acordo no diagnóstico, ou seja, o homem é um escravo, os prognósticos variam radicalmente. O discurso político socialista considera que o homem é o seu trabalho e que a expropriação do seu trabalho pelos proprietários dos meios de produção gera a alienação. A corrente liberal, após o advento do cartesianismo e do utilitarismo, deu origem ao capitalismo e à sua estrutura impessoal e mecanicista de regulação das relações sociais. O fato é que independente da corrente da qual sejamos adeptos, a qualidade das idéias não garante o sucesso do seu propósito de libertar o homem.

Krishnamurti, em um discurso filosófico, disse: “A liberdade só nasce com o autoconhecimento, nas ocupações de cada dia, isto é, em nossas relações com as pessoas, coisas, idéias e a natureza.” Ainda segundo ele: “Dominar significa fazer uso de outrem para nossa satisfação própria, e na utilização de outra pessoa não pode haver amor.” Por fim, temos que: “Apenas o autoconhecimento pode trazer a tranqüilidade e a felicidade ao homem, porque o autoconhecimento é o começo da inteligência e da integração. A inteligência não é mero ajustamento superficial; nem cultivo da mente, aquisição de saber. Inteligência é a capacidade de compreender as coisas da vida, é a percepção dos valores corretos.”

A social-democracia conseguiu como triunfos os “welfare states” escandinavos, que infelizmente por diversas circunstâncias não puderam ter reproduzidos em outras partes do mundo estes paraísos de prosperidade e igualdade. Hoje, na aurora do século XXI, temos o liberalismo americano em crise enquanto que o totalitarismo chinês e o socialismo latino-americano avançam. Resta ao indivíduo que valoriza a liberdade estar atento porque, como diz o velho ditado: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.”

13 novembro 2007

Um Discurso de Ódio

Hoje fui com meu amigo comunista gramsciano assistir a um seminário em homenagem aos 90 anos da Revolução Russa. O lugar não poderia ser mais apropriado; o salão Nobre da Faculdade de Economia da UFRJ na Praia Vermelha. Infelizmente, o "camarada" Coutinho, um grande estudioso de Gramsci, faltou e teve de ser substituído por outros camaradas professores. Lamentável, na verdade.

Os dois fanfarrões, como diria o capitão Nascimento, passaram duas horas atacando a democracia e defendendo a violência como meio de libertar os trabalhadores da exploração da qual são vítimas. Quando desafiados por provocadores que falavam de Gramsci e o seu método de guerra de posições para ampliação da democracia, responderam que Gramsci era, antes de tudo, secretário-geral do Partido Comunista italiano e ninguém que ocupa um cargo destes é bonzinho.

De fato, eles afirmavam que a sociedade burguesa é essencialmente violenta em função da alienação do trabalho, que é apropriado pelos burgueses na forma de mais-valia. A solução proposta por eles é a substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva de forma que a mais-valia seja expropriada pela coletividade. Um fez questão de lembrar que o problema da Comuna de Paris foi que poucos burgueses foram fuzilados.

Assistindo ao professor fulano de tal falando e fumando, fiquei pensando que este discurso de ódio estava muito próximo de um discurso racista ou nazista, e ponderei até que ponto a instituição da liberdade de opinião não estaria em contradição com o próprio discurso. Talvez fosse o caso de se proibir discursos incitando à violência feitos por servidores do Estado em estabelecimentos públicos.

Sempre achei correta a visão dos generais japoneses ou alemães que se suicidavam após mandarem seus homens para a derrota. Melhor ainda, o lugar de um general é na linha de frente ao lado dos seus soldados. Nada mais covarde do que mandar outros para matar ou morrer por suas próprias neuras. Este é o diferencial de um Che Guevara, que podia ser também um assassino revolucionário mas não era um covarde que vivia às custas do sangue de outros.
O curioso é que estes professores são um resultado de uma academia onde eles próprios foram explorados por seus orientadores para produzir teses que lhes investiriam de um poder simbólico dando-lhe as credenciais de poder simbólico que lhe permitiriam passar ao pólo ativo desta relação sadomasoquista.

Pessoalmente, acredito que a violência não está na alienação mas na identificação, ou seja, não somos definidos pelo trabalho que produzimos e portanto a alienação deste não nos degrada como seres humanos. Antes de tudo, acredito que o que nos define como seres humanos é a não-identificação ou, como diria Freud, é o estado de consciência em que nosso ser não está refém de nenhuma idéia, emoção ou desejo. É um estado de consciência onde o indivíduo encontra-se integrado, agora como diria Jung, em um estado onde o ser se integra com a realidade transcendendo os próprios limites da individualidade.

Mas se vamos comemorar algo, que seja os 70 anos do golpe de Getúlio que fundou o Estado Novo. Violência por violência, fico com Getúlio, que prendeu os comunistas e integralistas que pretendiam fundar uma versão tropical do nazismo ou do comunismo soviético. Criou o Estado moderno brasileiro, a previdência social e lançou as bases da industrialização com um custo de violência baixíssimo se comparado aos comunistas e nazistas.

Acho que estas pessoas são alienadas da cultura brasileira. Não entendem que o jeitinho brasileiro e o clientelismo são poderosos anticorpos antiautoritarismo. Creio que o melhor é seguirmos o conselho de Geisel e caminharmos de forma lenta, gradual e segura em direção a uma democracia mais aberta e com instituições que suportem a liberdade dos indivíduos. Ao contrário do que dizem os marxistas, acredito que é necessário esforço para se libertar das identificações e criar um espírito de boa vontade que torne possível negociações que nos ajudem a enfrentar os problemas concretos de forma que todos ganhem ou que se possa negociar as perdas.

12 novembro 2007

A Vaia de Carmen Miranda

Assistindo a um documentário sobre a vida de Carmen Miranda, fiquei mais uma vez com a impressão de que não valorizamos o que é brasileiro, talvez devido aos governos se apropriarem de símbolos da nossa cultura para justificar o seu poder, como fez Getúlio Vargas, que usou a senhora Miranda como propaganda do regime. Desta forma, a repugnância a um regime acaba sendo transferida para um artista, herói, ou idéia apropriada por este regime.

Era um tempo diferente, onde quem cantava samba eram os negros e em que a elite ainda não era americanizada e sim afrancesada e os artistas ainda não tinham o status social que gozam na atualidade como formadores de opinião. Nos EUA, a sua imagem era a de uma moça ingênua como convinha a uma mulher de então. De fato, dificilmente consegue-se ser tão inteligente em outra língua quando na sua própria, e no início ela deu entrevistas onde dizia conhecer apenas duas palavras em inglês: men e money.

Outra coisa que impressiona são pessoas suas contemporâneas hoje na casa dos 80 ou 90 anos com perfeito domínio das suas faculdades falando daquele tempo e mostrando uma boa capacidade de análise crítica e imparcialidade. Nos EUA, ela foi usada pela propaganda de guerra no esforço americano de aproximação da América Latina para uso de seus mercados e matéria-prima, daí a acusação de que ela havia se americanizado.

Na primeira vez em que voltou ao Brasil após o seu grande sucesso na Broadway, decidiu fazer um show para a alta sociedade carioca. Talvez em um esforço de aproximação, cumprimentou a platéia com um good night que foi seguido de um silêncio sepulcral, e após algumas musicas teve que se retirar do palco. O resultado era previsível, afinal a elite ainda não havia se americanizado e nunca tivera nenhuma afinidade com a cultura popular dos morros. Provavelmente, havia algo de inveja também mascarado por este desprezo.

Alguém já me disse que tolerar o sucesso de alguém extraordinário é possível, mas tolerar o sucesso de alguém normal é quase insuportável. Os judeus que o digam; o seu sucesso material tem um papel importante no ódio e inveja de que são objetos, além do fato de seus antepassados terem matado Jesus e Moisés (segundo Freud). O sucesso é difícil de se engolir até hoje, a Madonna que o diga.

Boa parte da doutrinação de esquerda parece esconder a inveja de uma "classe média esforçada" mas não muito bem sucedida que se volta contra os valores que sustentam o mérito dos bem sucedidos. Um tipo de vingança. Vejam o velho Marx, por exemplo, que antes de engravidar a sua empregada não conseguiu uma vaga de professor na sua universidade e passou a vida sendo sustentado por Engels enquanto preparava os seus petardos contra o capitalismo. A inveja é foda.

10 novembro 2007

A Reconquista do Brasil

Depois de assistir ao Tropa de Elite me dei conta de algumas questões que antes ainda não estavam claras para mim. Primeiramente, o Estado não pode tolerar que bandos de criminosos assumam o controle de partes do seu território, onde eles passem a ditar a lei. Em segundo lugar, seria melhor que uma favela fosse controlada por uma milícia da comunidade do que por traficantes de drogas ou outros criminosos.

Mas antes de falarmos disso, cabe um parêntese. Curiosamente, no ano passado, quando o alquimista começou a ganhar forca na campanha presidencial, o PCC resolveu declarar guerra à cidade de São Paulo e tivemos uma seqüência de atentados que desencadearam dezenas de mortes. Passada a eleição, as coisas serenaram em uma estranha coincidência. Será que haveria uma conexão entre o PT e o PCC para garantir a eleição de Lula?

A política de segurança publica do governo Lula, por sua vez, é absolutamente maniqueísta. No início do primeiro mandato, tentaram mandar aquela de proibir a venda de armas de fogo. Os argumentos eram ridículos, afinal, é estatisticamente 100 vezes mais perigoso para uma criança viver em uma casa com uma piscina do que com uma arma de fogo, além do que a banda podre da polícia desempenha um papel muito mais relevante em armar os criminosos do que eventuais armas obtidas em assaltos a residências. Pessoalmente, creio que eles queriam desarmar a classe média e deixar os proprietários rurais à mercê do MST.

Mas voltemos às questões que ensejaram este artigo. Outro dia discutia com um amigo marxista como Arrighi e sua teoria do capitalismo e territorialismo haviam sido um avanço na teoria marxista, que não levava em sua devida consideração a questão do estado-nação. Para Arrighi, em uma perspectiva braudeliana de longa duração, o binômio capitalismo-territorialismo era uma abordagem com grande poder explicativo no contexto do longo século XX e a evolução do capitalismo. Resumidamente, Arrighi acredita que a parceria estado-nacional e capitalismo seria a fórmula histórica mais bem sucedida até o momento.

Argumentava eu com ele que Arrighi concordaria que nenhum estado pode se dar ao luxo de perder o controle sobre a essência do seu poder, o controle do seu território. Lugares onde o estado-nação não conseguiu se firmar são caóticos e miseráveis como a África ou os Bálcãs, onde os recortes territorias coloniais e históricos não acompanharam as culturas, daí seus estados serem instáveis por serem constituídos de varias nacionalidades ou tribos.

A meu ver, um traficante, ou um bando armado que queira assumir o controle de uma "comunidade" está declarando guerra ao estado-nação brasileiro. Em uma guerra, os agentes do estado têm a famosa autorização para matar e até recebem condecorações por isto. Esta seria uma maneira de se ver esta situação, ou seja, quer traficar droga, ok, sofre as penas da lei, mas se quiser assumir o controle de uma parte do território nacional então isto deveria ser um problema de segurança nacional. E, sendo este o caso, se deveria mandar o BOPE, as Forcas Especiais do Exercito, os Fuzileiros Navais para reconquistar o território brasileiro ameaçado e libertar os cidadãos sob o jugo dos tais criminosos. E não esqueçamos que a Convenção de Genebra só vale para guerra entre estados; portanto, ...

Alguém pode dizer que isto é terrorismo de Estado e eu responderia que não. Terrorismo de Estado é o que esta ocorrendo na Venezuela, onde os opositores do regime são alvejados por atiradores quando se manifestam pelas ruas e quando hordas de simpatizantes do governo atacam grupos da oposição impunemente. Isto é terrorismo de Estado. O que ora se propõe é apenas a libertação de cidadãos brasileiros vivendo no Brasil sob o jugo de grupos armados.

06 novembro 2007

1º Aniversário do Pugnacitas

Perdoem-me por este "metapost", porque é uma brutal de uma falta de assunto postar sobre posts, blogs - principalmente sobre o próprio -, blogueiros, comentários e comentaristas. Talvez faça um novo balanço em 06/11/2008, desde que até lá as orações de alguns crentes não sejam atendidas e assim os membros deste blog sobrevivam à providência divina.

As discussões sobre religião começaram há bem mais de um ano, após eu ter aberto em minha caixa postal um e-mail de meu irmão contendo uma frase de Padre Pio de Pietrelcina - um embusteiro estigmatizado (vejam este esclarecedor vídeo) que passou desta para lugar nenhum em 1968 e que virou constelação por obra do canonizador serial João Paulo II - em que afirma que uma única Missa agrada mais a Deus do que todas boas ações realizadas por todos os justos do mundo em todos os tempos. A bizantina asserção, não menos absurda do que dizer que de todos os planetas cúbicos do Sistema Solar o mais cônico é o Sol, relaciona-se à crença em que cada Missa celebrada por qualquer padreco pedófilo é literalmente Jesus a sacrificar-se movido pelo mesmo amor infinito de 1974 anos atrás.

As discussões sobre política iniciaram-se com a última campanha presidencial. Eu e o Heitor pensamos então em criar um blog onde pudéssemos organizar os textos que enviávamos por e-mail e principalmente os comentários que se seguiam, sempre perdidos, desordenados.

Um numerólogo diria que escolhemos a data 06/11/2006 porque resulta no cabalístico número sete, que é o casamento do número espiritual, o três, com o número material, o quatro; um hagiólogo diria que escolhemos pelo dia onanístico, digo, onomástico do Beato Nuno Álvares Pereira, nobre guerreiro português que tinha na invicta lâmina de sua espada gravado o nome de Maria (alguns ainda têm por hábito tatuar, digo, gravar o nome da amada na espada...), e de cuja filha originou-se a Casa de Bragança, posta para correr do Brasil por ocasião da quartelada que fundou a Resnulius, digo, a República.

Nada disso! No nosso Gênesis não há o número sete e tampouco divinos condestáveis portugueses. Cheguei em meu escritório em uma segunda-feira que por acaso era seis de novembro, deambulei por alguns sites para não sofrer uma comoção, um choque por já ir assim de cara trabalhando na segunda de manhã, e me deparei com um texto de Reinaldo Azevedo intitulado "Sunga, decoro, Mann e Musil", em cujas linhas lemos que as praias são lugares indecorosos, que é degradante a intimidade de ver a própria esposa escovando os dentes e que "os homens só existem para que, ao fim da vida, possam honrar seus pais". Comentei em seu blog que a vulgaridade não reside no tamanho das peças de roupa, que o comunismo, enquanto parcialmente oculto pela cortina de ferro, causava suspiros por aqui - como a noiva sob um véu que em um episódio do cartoon Pica-pau subia ao altar com o Abutre para na hora do beijo se revelar uma mocréia repulsiva - e que apenas cegos com sinusite (ideológicos) dele continuam enamorados. Comentei ainda que achava um absurdo o homem existir para honrar os pais, porque se assim fosse ainda apedrejaríamos adúlteras e teríamos escravos, entre outras críticas. E não é que para minha surpresa ele (ou sua equipe) moderou minha mui sincera e inofensiva opinião? Acabei criando o Eneadáctilo naquele mesmo dia para publicar meus comentários vetados por asnos tão sensíveis quanto desonestos. E o Eneadáctilo acabou se tornando o blog que já planejávamos criar.

O Heitor opinou que "Eneadáctilo" (nove dedos) era "um pouco agressivo, além de ser uma homenagem a alguém que não merece". E foi aí que surgiu o Pugnacitas, "desejo de lutar" em latim. Para amenizar o significado, usamos como ícone uma pena, sugerindo que as lutas resultariam no máximo em brutais derramamentos de tinta virtual. E não foi diferente: Blogildo, Eleitor, Patrícia M e Luisete saíram amuados por causa de nosso jeito pouco amistoso de pelejar, principalmente por estarem de alguma forma presos a ideologias e por aqui elas serem severamente atacadas, Clarissa e Lord of Erewhon saíram decepcionados pelas acusações do diabrete O+cioso de que eram a mesma pessoa, acusações as quais acabamos também por comprar, Mostardinha sumiu da blogosfera, e por fim o próprio C. Mouro escafedeu-se batendo a poeira dos sapatos e sugerindo que fungássemos uns os traseiros dos outros. O sebastianismo gerado pela saída do Mouro só se aplacará após o advento de um outro cavaleiro misterioso e sanguinário como ele, o que é bastante improvável. De fato, o verdadeiro mestre manda os discípulos para aquele lugar quando julga não ter muito mais a ensinar. Ou quando o saco pesa. Ou quando está com problemas em casa e no trabalho pelo excesso de tempo gasto em blogs de fedelhos com a metade de sua idade.

A Simone abandonou o time há pouco tempo em virtude de excesso de trabalho e das demandas do mestrado. E o nobre André Balsalobre, que já comentava assiduamente no blog desde dezembro de 2006, é agora um dos membros, um dos bons, como diria nosso Dom Sebastião. Já convidei o Bocage mas ele prefere colar textos alheios em seu blog a escrever eventualmente um post por aqui :). Pelo jeito o tempo tem sido escasso para todos. Eu mesmo tenho postado pouco e pouco visitado outros blogs.

Quero agradecer a todos os visitantes e comentaristas pela alegria que nos têm dado, mesmo quando nos mandam para a PQP, quando nos metem apelidos, mesmo quando tampam os ouvidos e berram "lá lá lá lá" durante nossas argumentações. Obrigado Eduardo Silva, C. Mouro, David, Ricardo Rayol, Bocage, Roberto Eifler, Orlando Tambosi, Anselmo Heidrich, Marcos Ferrari, a_maggiore@hotmail.com,, Luisete, Blogildo, Patrícia, Clarissa, Lord e Klatuu, Helder Sanches, Pedro Couto, Mostardinha, Holy Father, Ed, Susy Tude, André Wernner, Sônia, Alex, CostaJr, Roça, Ielpo, Glênio Gangorra, O+dioso, Anônimos, Anonymous e outros dos quais não me recordo, pelo quê peço desculpas.

Vamos aos números.

O blog foi um sucesso até agora. Poucos posts mas muitos comentários, o que faz dele mais um fórum do que um blog. Foram 77 artigos; 47 do Heitor, 21 meus, 4 do André, 3 textos antigos cedidos pelo C. Mouro, 1 da Simone e 1 cedido pela Clarissa Septimus.

- Mais de 25000 visitas, aprox. 70/dia
- Mais de 15000 visitantes únicos, aprox. 40/dia
- Mais de 36000 exibições, aprox. 100/dia
- Dia com maior número de acessos: 1º de outubro, durante o post Divagação Erudita, e 24 de outubro, durante o post Oportunidades: 165 visitas.

- Países com maior número de visitantes: Brasil, Portugal e EUA

- Post arquivado mais acessado: Deuses e Pecados Capitais, aprox. 1700 vezes

- Total de comentários: 3885, aprox. 50/post e 10/dia
- Post mais comentado: A TV do Lula, com 176 comentários.

Se formatarmos o conteúdo da caixa de comentários do post A TV do Lula para Times New Roman tamanho 12 e projetarmos grosseiramente o resultado para o conjunto dos posts obteremos mais de 2000 páginas de textos. Apesar das repetições, links, artigos alheios colados, citações de outros comentários, etc., acho que seria possível extrair do Pugnacitas um bom e original livro escrito a trinta mãos. Parabéns a todos!

Um grande abraço!

03 novembro 2007

Faço porque posso

Por que o Chávez aprovou a reeleição sem limites na Constituição da sua Revolução socialista? Simplesmente porque ele pôde. Como disse Lord Acton, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Espero que isto nos sirva de lição e nos incentive a valorizar a democracia como uma instituição que dificulta que uma pessoa ou grupo detenha mais poder do que seria conveniente.

Infelizmente, as nossas raízes lusas são autoritárias. Em algum lugar do nosso inconsciente ainda esperamos o retorno do jovem D. Sebastião, o rei português que morreu em Alcácer-Quibir, no norte da África, uma batalha sem significado algum estratégico ou comercial, e cujo corpo jamais seria recuperado.

A perda foi um trauma para Portugal. Com a sua morte terminava a dinastia de Avis, que transformara Portugal na maior potência da Europa de então. Sem deixar herdeiros, Portugal viria a ser governado pela Espanha dos Habsburgos.

Poucos sabem, mas grande parte da Invencível Armada com a qual Felipe II atacou Elizabeth I da Inglaterra era portuguesa. A perda da sua armada foi um golpe fatal para um reino cujas possessões estavam espalhadas pelo mundo. Era o inicio de uma longa decadência, que teve na crescente dependência em relação ao poderio marítimo inglês uma faceta. Portugal dependia dos navios ingleses para conectar suas colônias e, talvez com mais urgência, para colocar as pretensões espanholas de reconquista de Portugal em cheque.

Para o populacho surgia o sebastianismo, um misto de saudade e de messianismo, que colocava as esperanças de uma vida melhor nas mãos de um rei que retornaria glorioso do Hades para devolver a Portugal o seu lugar entre as grandes nações. Nós herdamos este mito autoritário de alguém que, investido de todo o poder, faria o bem.

O problema, amigos, é que somos apenas homens, imperfeitos por natureza e, infelizmente, o “poder” não torna ninguém melhor. Muito pelo contrario, alimenta a vaidade e o narcisismo que geralmente se encontram em grande quantidade naqueles que buscam o poder absoluto e revolucionário.

Na minha limitada experiência, conheci alguns homens “excelentes” que talvez devessem ser nossos líderes. O curioso é que estes homens não desejam o poder. A sua realização não está em receber o delirante aplauso dos outros seres humanos. Talvez estes homens tenham a prudência de, mesmo podendo, não desejar a adulação dos outros, para o seu próprio bem.

De fato, acredito que este desejo, esta esperança no aparecimento de um líder autoritário que resolva todos os problemas, esconde uma preguiça doentia. É uma tentação para os fracos encontrar alguém cujo carisma prometa coisas pelas quais não precisarão se esforçar. Mais do que isto, alguém que se proponha a pensar por eles, a lhes mostrar o caminho. Alguém disposto a lhes dizer que não têm culpa de nada, que são vítimas de um passado de exploração. Infelizmente, para muitas pessoas, é melhor ser manipulado do que ter de assumir responsabilidade pela própria vida e pelo seu destino.

28 outubro 2007

Delenda est Aécio

Quem assiste ao Tarso Genro falando em refundação do PT, busca das raízes éticas e antagonizando com o grupo de José Dirceu, até fica em duvida se isto não seria algo mais do que uma tentativa de retomar um discurso de ética perdido. Quem lembra que Luciana Genro, uma das fundadoras do PSOL e uma jovem líder da esquerda radical, é sua filha até pensa que aquele radicalismo possa ter sido herdado do pai.

Infelizmente, o alto comissário do PT, o Tarso Beria, como costuma aparecer no Ex-Blog do César Maia, foi esta semana ao principado de Mônaco resgatar o Cacciola para poder jogar lama no PSDB. Sim, o ministro da Justiça foi a Mônaco para dar ao PT uma carta no seu jogo político contra o seu maior adversário, o PSDB. Quem sabe até na CPMF.

Em governos anteriores, o cargo de ministro da Justiça geralmente pertencia a alguém que viria a ser ministro do Supremo e que anteriormente tivera uma carreira de destaque como jurista, enfim, alguém respeitado no meio jurídico e com uma reputação ilibada. Hoje, temos um membro da Executiva do PT comandando o ministério ao qual se subordina a Policia Federal.

Considerando o precedente da operação deflagrada contra a Sarneyzinha no governo FHC por meio da Policia Federal, o que podemos esperar na sucessão de 2010? Lê-se no Ex-Blog do César Maia que já está em curso uma operação para destruir o Aécio Neves, que recentemente andou pegando a Miss Brasil.

Aécio Neves tem uma imagem curiosa. Conversando com um amigo mineiro, ele me diz que o Aécio é um filho da puta mas seu governo é extremamente eficaz e os seus secretários são todos profissionais de alto nível. Então, por que ele é um filho da puta? Talvez porque ele esteja solteiro e quase todo final de semana vai ao Rio participar de festas da high society.

Não podemos nos esquecer que antes da chegada do Tarso a cúpula da PF desempenhou um papel importante na reeleição do Lula ao afastar o delegado que apreendeu os petistas que tentavam comprar o dossiê contra o Serra e ao tentar proibir a divulgação de fotos do dinheiro apreendido. De fato, poucos meses depois o único interessado em prejudicar o Serra, o senador Mercadante foi “inocentado” e todos se satisfizeram com a demissão do seu assessor que tinha alguns milhões sobrando para pagar pelo dossiê.

Recentemente, já na gestão Tarso, dois lutadores cubanos foram rapidamente deportados para Cuba em uma operação da PF que contou até com jatinho fretado por Chávez. Curioso, não? Uma ação da PF em articulação com Cuba e com a Venezuela? Já sabemos que o compromisso do PT com a democracia liberal é muito tênue: lista-fechada e supremacia da ”nomenklatura” sobre a bancada, “Conselho de Ética dos Jornalistas”, defesa do fim do Senado e do centralismo versus federalismo, compra de votos no Congresso versus debate temático, compra de votos com o bolsa família, ataques à imprensa não alinhada com o governo,... Resta saber até onde eles estão dispostos a ir para garantir que em 2010 o sucessor de Lula esteja ligado ao campo da esquerda.

24 outubro 2007

Oportunidades

A oportunidade faz o furto. Qualquer nação, povo ou líder nasce ladrão. Sem falar nas muitas instituições. O sofrido (e ambíguo) anti-imperialista egípcio Gamal Abdel Nasser era, afinal, um descendente dos faraós. Até o nosso Brasilzinho incruento deu uma de realpolitik pra cima do Paraguai no Século XIX. Liquidamos quase todos os paraguaios homens, numa guerra cuja história ainda não foi satisfatoriamente contada, talvez. O curioso é que os dois maiores imperialismos dos Séc. XX, o dos EUA e o da URSS, nasceram de revoluções anti-imperialistas. O círculo e ciclo vicioso perfeitos.

Os EUA reagiram hostilmente à luta pela independência no Brasil. O próprio Jefferson esnobava nossa gente. Ah, e também houve a metamorfose da Revolução Francesa no imperialismo napoleônico, mas esse durou pouco. "As coisas devem mudar para continuarem como estão", diz Tancredi em Il Gattopardo, de Lampedusa (ilustração). Enfim, o revolucionário de hoje é o reacionário de amanhã: isso é meio verdadeiro, mas simplista, porque há muito mais por trás disso tudo.

O zé-povinho está por fora das sutis modulações do pensamento histórico. Hoje visto como imperialista, Israel era o paradigma da justiça e da virtude lá no começo. E se considera superior aos demais países, como todos os outros. O patriotismo não é só o último refúgio dos velhacos. O autor da frase, Samuel Johnson, sabia muito bem da força do condicionamento cultural, da língua, costumes, amibente, etc, sobre o indivíduo. Transferida essa força para o coletivismo da nação, da “raça”, do povo, temos os nacionalismos.

Às vezes me parece que quanto mais sofrido o grupo humano, mais paranóico. Quase todo brasileiro alfabetizado sabe que não passamos de uma Ruanda com elefantíase, mas no que fazemos bem (ou achamos que fazemos), futebol e carnaval, por exemplo, entregamo-nos a uma arrogância e insolência incríveis. Essa explosão tribal quando a Seleção ganha uma Copa poderia, em outras circunstâncias, ter sido recondicionada, digamos, para esmagar o Uruguai, a Argentina ou a Guiana Holandesa — e com todo mundo se achando do lado do “bem”. Qualquer superpatriota, seja americano, russo, chinês, israelense, árabe, nigeriano, etc, tem sempre explicações cartesianas para os atos do seu país. Não admite, em termos de nação, o irracionalismo que experimenta em si próprio. Idiota, mas verdadeiro.

Quem pode, quando pode, destrói e reprime enquanto der. Por exemplo, no último século, enquanto os comunistas matavam, os católicos se limitavam a nos condenar ao fogo eterno (e, no episódio do Holocausto, quando poderiam ter feito algo de bom, salvando muita gente, preferiram se omitir — ao menos a cúpula, no Vaticano). Uns estavam aproveitando a oportunidade, outros já haviam perdido a sua. Mas há outras formas de repressão ainda bastante ativas. Até hoje as várias Igrejas exercitam, ainda que sutilmente em muitos casos, uma certa repressão à liberdade sexual. O indivíduo com domínio e expressão de suas sensações escapa à engrenagem. A construção de todos os sistemas políticos e religiosos foi marcada pelo moralismo. O ódio entranhado de São Paulo ao sexo tinha relação com a repulsa necessária ao free for all do paganismo. Freud percebeu coisas assim, mas aceitou tudo fatalisticamente, como imprescindível ao progresso, embora considerasse impossível transformar nosso cerne biológico. Somos um animal domesticado, mas indomesticável, no fundo. Desse choque vem a nossa patologia psíquica. Uma das premissas da tradição judaico-cristã é a de que temos de ser aperfeiçoados para um destino autotranscendente, superior, ad majorem Dei gloriam. A mística da perfeição.

Prefiro a mística da imperfeição do homem, antes da conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo. Os gregos e romanos pregavam a imperfectibilidade do homem como condição permanente, a ser dosada por melhorias, devagar, aos poucos e com realismo. Aristóteles, principalmente. Tomás de Aquino batizou-o, postumamente, mas extraiu muito do que havia de mais sadio. Se Freud tinha razão ao dizer que os judeus assassinaram Moisés no deserto, por não agüentarem mais a tirania salvacionista do líder, estes fizeram muito bem. Em certos momentos históricos, o lema devagar e sempre merece os nossos mais altos protestos de estima e consideração.

20 outubro 2007

A Vocação Estatizante

Um dia desses eu jantava com um grupo de professores de faculdades particulares e um dos assuntos era o desempenho de seus ex-alunos em concursos públicos. Um dos professores arregalou os olhos surpreso diante das notícias enquanto o outro aproveitou a oportunidade para ressalvar que se suas faculdades eram ruins o resto dos cursos não era melhor. Um outro aproveitou a chance para enfatizar como são mercenários os donos destas fábricas de diploma e começou a elencar as piores faculdades.

Um jovem esquerdopata aproveitou para lembrar que estas faculdades haviam sido criadas na gestão do Paulo Renato, no governo FHC, que pretendia privatizar as universidades públicas. Os tempos mudaram, como sempre mudam, e o maléfico FHC está dando aula na Brown University enquanto o Lulinha Paz e Amor está no poder a aplicar sua filosofia de gestão baseada em contratações maciças de servidores públicos.

Será que os pobres alunos são vítimas proletárias dos inescrupulosos capitalistas do ensino? Afinal, se o curso é fraco e o currículo dos alunos egressos destas arapucas vai para o lixo na primeira peneirada de uma seleção de uma empresa qualquer, então o que está acontecendo?

O fato é que os pobres aluninhos querem um diploma de nível superior para fazer concurso público e poder se tornar um típico membro da burguesia de Estado, e muitos deles vivem camuflados em um discurso de esquerda que mascara e justifica a escolha do seu estilo de vida acomodado aos privilégios do Estado.

É uma tragédia para a nossa sociedade. Uma parte considerável da inteligência brasileira, cerca de 5 milhões de pessoas, está mobilizada em aprender coisas inúteis (direito administrativo, código disso e daquilo) para conseguir um emprego no qual, na maioria das vezes, se terá uma baixa produtividade. De fato, há órgãos na administração que funcionam em meio expediente e setores inteiros cuja ação é inteiramente ineficaz.

O Estado neste caso funciona como um transferidor de riqueza, como diria o Eduardo Gianetti, recolhe impostos de pessoas que trabalham de 40 a 60 horas por semana e transfere para pessoas que trabalham 35 horas e ganham salários muitas vezes 2 a 3 vezes maiores com uma produtividade muito menor. Ou seja, o Estado transfere o escasso capital social para investimentos de baixo retorno social à custa de onerar a produção e inviabilizar inúmeros investimentos.

Apesar dos seus muitos erros, FHC percebeu este terrível desvio da nossa sociedade viciada no Estado. Para os pobres, temos a promessa das bolsas. Para a classe média temos a promessa dos bons empregos. Para os ricos temos a promessa de linhas de financiamento e benefícios especiais.

Falta apenas alguém que se disponha a mentir para todos e agenciar as trocas de favores. Alguém que cobre impostos dos ricos e da classe média em troca dos empregos e favores que dispõe. Alguém que dê bolsas para os pobres em troca de votos. Alguém que conceda benefícios para os empresários em troca de financiamento para as campanhas políticas. Aí entra o Lula e seus companheiros com a sua disposição em dar bolsas para os pobres, empregos seguros para a classe média e favores e PACs para os ricos.

Com isto, todos se deixam enganar e a maioria fica acomodada. Muitos pobres acomodam-se com suas bolsas, uma grande parte da classe média acomoda-se com os seus empregos públicos e muitos ricos acomodam-se com os seus benefícios. E para a tranqüilidade de todos ainda teremos alguns acadêmicos marxistas que dirão que a culpa de nossas mazelas é da exploração do nosso povo pelos terríveis capitalistas americanos, que receberão toda a culpa.

15 outubro 2007

"01, manda subir!"

"Vai ficar todo mundo quietinho aí! Todo mundo quietinho! Ninguém sobe!" (Capitão Nascimento, o novo herói por vias tortas nacional, para um grupo de PMs na subida do morro)

E não sobem mesmo. Podem até resmungar, mas PMs comuns não sobem o morro junto com o BOPE.

Na abertura, uma citação que diz mais ou menos o seguinte: não é o caráter que determina as condições de um homem, mas, sim, o contexto social em que ele vive. Mais ou menos isso. Muita gente não deve ter gostado. Para mim, por mais forte e bem construído o caráter, o meio às vezes pode passar por cima dele e virar tudo do avesso. Não é fatalismo, mas fatalidades acontecem, e nem por isso o raciocínio geral precisa ser fatalista. Isso exige a compreensão de certas nuances, claro. Quem vê e lê as coisas nas entrelinhas as pega, as nuances, sem problema.

Excelente história (a gente sai com gostinho de quero mais, pena que dificilmente venham a fazer uma seqüência), boas seqüências de ação e táticas de combate assustadoras. Esperava ver mais cenas assim, se bem que os ataques furtivos dos caras são show...

Cruzaram bem as vidas, os “destinos”, pra quem acredita nessas coisas, do Capitão Nascimento e dos dois “aspiras”, jovens e inexperientes, mas íntegros, PMs. Aliás, dois atores ótimos.

Violento, porém sabendo que não apareceu o pior. Quase chegou lá. Nem poderiam mesmo mostrar certas coisas que as polícias do Rio e de São Paulo fazem. Talvez o livro conte mais.

Sobre a violência do treinamento. Alguma violência funciona e é necessária, só que nem todos os grupos de elite fazem assim. Muitos não fazem absolutamente nada disso, nem pensar. Em muitos deles o treinamento em si é tão massacrante que simplesmente não há necessidade de espancamento e humilhações. Claro que isso varia muito de país para país, mas não é a norma, por exemplo, no Special Air Service, o SAS inglês. Mas é — a brutalidade — nos Spetsnaz russos. Depende. A mim me parece uma questão cultural, de cultura militar, de tradições guerreiras, chamem como quiserem.

Não estou querendo sugerir que os britânicos sejam um “doce”, enquanto os russos são, bem, os russos. Antes muito pelo contrário... Mas um treinamento não precisa de violência, física ou psicológica, para ser cruel. Sempre há outros meios. Poderia citar outras unidades de elite menos conhecidas e seus métodos, mas a lista é longa, vamos ficar por aqui. O que interessa é que o treinamento desses caras é ainda mais pesado e diversificado, mais voltado para resistência e sobrevivência, além de coleta de informações/espionagem, assassinato, seqüestros, atentados, demolições, reconhecimento, guerra convencional e irregular, enfim, tudo. Diferente do BOPE do Rio, sem dúvida.

O que não quer dizer que o BOPE seja inferior. Fazem intercâmbio com alguns grupos estrangeiros até. Mas estamos falando de guerrilha urbana, de polícias de elite, nada a ver com grupos militares de elite. No entanto, em matéria de infiltração e furtividade, surpresa, o BOPE é dez. Por outro lado, treina unidades militares estrangeiras, nesses particulares, nesse ambiente, não só forças policiais de fora. Eis a grande diferença. Além do que, no Brasil há outros grupos assim, policiais e militares, nunca sequer mencionados. Bem, o BOPE existe desde 1978, a guerra nos morros do Rio é antiga e ele só ficou famoso agora, não?

Eles chegam a escalar paredões, encostas, cientes de que os traficantes não esperam um ataque naquela direção. Acho que dá pra ver isso numa cena. Tudo para não perder o elemento surpresa. Acredito no oficial do grupo que, sob anonimato, disse que há muito mais que não foi mostrado no filme. E imagino que não foram só técnicas de tortura, mas de combate, de guerra, que ficaram de fora. Ainda assim, o que foi mostrado é bem legal: táticas de assalto silenciosas, rápidas, letais e, claro, o tiro de precisão dos snipers.

Destaque para a cena em que pegam um traficante, que pede para não ser “finalizado” com um tiro no rosto, para sair bem no enterro. O oficial do BOPE não só ignora o pedido como pega um rifle de repetição calibre 12, antes de passar essa execução para um colega. Não poderia haver estrago maior do que o causado por essa arma...

Mas não é só tiros, não. Expõe a corrupção generalizada e arrasa com a classe média e média alta. O melhor, a meu ver.

Sabem, não tenho raiva nem (muita, he, he) inveja de um Luciano Huck, digamos - esse membro da "elite branca" atacado pela própria, bem como por supostos representantes dos "excluídos" (não existem mais pobres, sabiam?) depois daquela entrevista, do roubo do Rolex. Independente do que cada um pense dele, razão ele tem em ficar com medo e revoltado. E a gente em ficar preocupado. Afinal, isso pode acontecer com qualquer um de nós. Não sei, por exemplo, se o Luciano Huck realmente faz o que diz que faz pelas crianças carentes, com tanta dedicação, por meio de uma ONG numa favela. Imagino que sim, que faça. Bom, não acho que essa seja a questão, nem vou entrar nesse assunto agora.

O fato é que parte dessa elite retratada no filme — só se for elite do ponto de vista da renda, porque intelectualmente é uma negação — realmente é de dar nos nervos.

A parte da discussão universitária parece meio artificial, ensaiadinha demais, mas me lembrou tanto de certas aulas na faculdade... Aqueles universitários de direito fazendo o trabalhinho sobre Foucault. Ah, eu passei por isso. Repetidas vezes. Com 98% de semelhança. Tive que ler essa joça, entre outras. Os coleguinhas, quase todos exatamente como aqueles, tolos, alienados e, também quase todos, consciente ou inconscientemente, de esquerda ou “libertários contestadores do sistema”. Do livrinho chatóide do Foucault, aquele picareta “pós-moderno” francês, entrávamos nas lições de filosofia (risos) de Marilena Chauí. Li, voando, como um médium psicografando textos do Além, muitas piroquetagens modernosas importadas de Paris e da Alemanha. E o discurso em academês do professor? Perfeito.

Só faltou o BOPE entrar em sala de aula. Aquela linguagem seca, o “01, manda descer!”, dentro da faculdade, já pensou?

Dentro disso tudo, a melhor frase foi a do policial para a ex-namorada: "Não se preocupe com seus amigos seqüestrados: os traficantes têm consciência social." Não tinham, lógico, e deu no que deu.

Depois de salvar dois PMs encurralados num morro, o Capitão Nascimento olha para eles e pergunta: “Os Srs. estão feridos? Os Srs. são policiais? Pois agora os Srs. vão aprender a carregar corpo.” Pois é: ou você se corrompe ou finge que não é com você ou entra na guerra.

13 outubro 2007

Vítimas e Vilões

Um dia desses, li surpreso uma carta de Clara Becker publicada no UOL defendendo a honra e a integridade de José Dirceu. Esta senhora é a famosa esposa que ele teve no período em que viveu escondido no Brasil e que, segundo conta a lenda, havia sido abandonada por ele. Ela nega este fato e defende o pai do seu filho, atual prefeito da sua cidade.


A motivação para escrever a carta foi o seu repúdio à invasão da sua privacidade pelo autor de novelas da TV Globo, Aguinaldo Silva, que disse ter se inspirado em José Dirceu e em sua famosa plástica para compor o personagem da novela Duas Caras. Eu diria que este é um ônus por ter sido casada com José Dirceu e ser mãe de um jovem que é seu herdeiro político.

Em certo sentido, para as famílias de uma esquerda brasileira, suas biografias são uma herança que deixarão para seus filhos, que poderão ocupar importantes posições no partido e na vida pública. Uma breve relação de filhos e netos herdeiros das biografias da esquerda começa pelos Genro, Ponte, Arraes e muitos outros.

Uma das melhores coisas do fim da ditadura foi o fim desta relação de vilão e vítima entre direita e esquerda. Hoje, os esquerdistas não são mais aqueles jovens coitadinhos perseguidos pelos militares. Foi-se o tempo da esquerda como vítima. Muitos deles já passaram há algum tempo para o papel de vilões e não têm sequer capacidade para perceber isto. Afinal, eles são como todo mundo e seguem a velha máxima: “democracia é quando eu estou no poder e ditadura é quando eu estou na oposição”.

Será que o Aguinaldo Silva não poderia se inspirar na vida de José Dirceu? Ou será que a Veja não poderia fazer uma reportagem sobre as incoerências entre o idealista romântico Che Guevara e o guerrilheiro pragmático que fazia o que era necessário para assegurar a vitória? Nestas questões, ainda sinto presente na esquerda um ranço de vítima que me parece incompatível com a realidade em que eles são o grupo hegemônico que controla o governo.

Talvez seja intrínseco ao discurso da esquerda o discurso de vítima. É o discurso dos oprimidos e dos desfavorecidos. Acho que mesmo quando eles dominam a cena política eles não conseguem nem querem mudar o discurso de vítima pois ele tem os seus benefícios; mantém um clima de ameaça constante, denuncia o "vilão" sempre a postos, armado e perigoso, e neste "embate" "desvantajoso" no qual posam de fracos arranjam as justificativas para todas suas atitudes e resposta para todas as críticas que recebem. Lula, o vitorioso de duas eleições presidenciais continua sendo a vítima da perseguição dos veículos de comunicação da mídia burguesa que tenta implantar uma ditadura da mídia no Brasil.


Muitos se surpreendem com a alteração dos livros de história da Venezuela ou dos livros comprados pelo Ministério da Educação no Brasil. Não deveria haver surpresa pois os vitoriosos escrevem a história e decidem quem são os vilões e os mocinhos. Para uns, Mao foi um sociopata enquanto que para um petista ordinário ele é o libertador dos chineses.

Vejo nisto traços de totalitarismo. Um vencedor que usa um discurso de vítima. Um partido do governo que quer ocupar o espaço da oposição. Um governo que não quer ser criticado. E homens e mulheres fiéis ao governo cujas práticas se explicam apenas pelo plano de manter o seu grupo no poder custe o que custar.


06 outubro 2007

Tropa de Elite

Amigos, Inimigos e Desconhecidos leitores do Pugnacitas, acabei de assistir a Tropa de Elite, o filme que está na capa da revista esquerdista e governista Carta Capital e simplesmente adorei. Tornou-se absolutamente imperativo uma edição especial do Pugnacitas. Quem nunca olhou para aquelas manifestações de maconheiros pacificistas vestidos de branco e não teve vontade de entrar numa delas distribuindo porrada naqueles hipócritas que financiam o tráfico de drogas?


O Wagner Moura é o melhor ator desta geração. A atuação dele no papel do capitão do BOPE dividido entre a família e o dever é genial. O retrato do Rio de Janeiro é absolutamente fidedigno. A corrupção presente nas menores coisas do dia a dia. O clientelismo que vem desde a Corte Imperial. As panelinhas e o mercado de troca de favores. Para os amigos, os favores, para os inimigos a lei.

Quem conhece o Rio de Janeiro sabe do seu baixíssimo nível de civilidade. Andando pelas ruas, quando se cruza com grupos de pessoas elas não abrem passagem, pelo contrário, quase passam por cima da gente. Mulheres com carrinhos de bebê são como ambulâncias para os pedestres, vão abrindo caminho. Em ambientes AA como clubes de montaria, não deixe o seu jornal desacompanhado pois poderá ser roubado por uma madame.

Meus amigos esquerdistas fãs de José Dirceu consideram a corrupção a suprema arma revolucionária. Para eles, Tropa de Elite é um filme reacionário, pró-tortura e contra os direitos humanos. Eles vêem a corrupção como a prova da inviabilidade da sociedade aberta, individualista e da democracia liberal. Nestas horas, eles se esquecem das tríades chinesas, das máfias russa e cubana, mas tudo bem.

Quando aquela criança de cinco anos foi arrastada por um grupo de criminosos menores de idade no Rio de Janeiro por algumas dezenas de metros durante o roubo do carro em que se encontrava eu não me esqueço das baboseiras ditas pelo Lula, que aquilo era um problema social e que a redução da maioridade penal não teria o apoio do PT. Isto foi bem enfatizado no Senado por Mercadante, que conseguiu enterrar a iniciativa dos Democratas de reduzir a maioridade penal para 16 anos.

Falando em esquerdistas, quem poderia se esquecer de Brizola, um dos mais espirituosos oradores que já vi, que era casado com a irmã de João Goulart? A partir dele, o Estado no Rio de Janeiro perdeu o controle das favelas com a sua política de proibir a policia de subir nos morror. Se bem que o Brizola, comparado a esses caras que estão aí, era mil vezes melhor. Ele e o Darcy Ribeiro pelo menos pensavam em dar educação para o povo, enquanto os companheiros do PT preferem distribuir esmolas. Concluindo, vamos ao lema de Tropa de Elite: “Caveira” ou uma outra frase ótima do filme: “senta o dedo”.

05 outubro 2007

Dissonâncias Cognitivas e Tensões do Dia a Dia

Esta semana tentei prestar mais atenção ao meu corpo, afinal, como dizem alguns filósofos, é a parte mais real de mim mesmo. Reparei surpreso em como fico tenso no trabalho. Na verdade, tenho uma colega que só de vê-la já me crispam o maxilar e os ombros. A tensão que sinto é tamanha que deve ser perceptível.


Então pensei: preciso relaxar. Afinal, se fulana não é legal não é motivo para eu passar o dia tenso. De fato, em retrospecto, mudam os fulanos mas as tensões continuam as mesmas, então a culpa não deve ser deles. No caso desta colega, a tensão se deve a ela ser uma concorrente natural, ter se aliado a um cara com quem eu tive uma discussão, de não gostar de mim e de ser muito espertinha, além de competente.

Mas uma coisa a gente precisa reconhecer: as pessoas têm o direito de competir. E competem com ou sem a nossa autorização. O fato é que passar o dia tenso não muda isto. É preciso aprender a fazer como eles, competir e sorrir. Quando eu vejo o sorriso da tal garota eu sinto três coisas: desconfiança, satisfação pela consideração e um certo alívio na minha tensão. É uma sensação dissonante. Como seria bom sentir-se em harmonia com as pessoas.

A relação com os amigos, por outro lado, também pode ser complicada. Queremos agradá-los e também receber atenção. Às vezes, a ansiedade envolvendo um amigo é tamanha que estressamos. Isto quando não temos algo para provar a ele ou dele não desejamos alguma coisa.

É uma tensão cujo alivio só vem quando o deixamos para então, doentiamente, reexaminarmos os momentos que passamos com ele. É muita neurose para pouco psicanalista. Aí está uma outra relação complicada. Se o analista não se importa não confiamos no cara, se o analista se importa demais ficamos desconfiados de que seja mais maluco do que nós.

Danem-se todos, os inimigos e os amigos, e vamos aproveitar e que se danem também os desconhecidos, a começar por aquelas mulheres assustadoras que ralam a bolsa em você no ônibus. Considerando o tamanho da bunda de algumas delas, bem que poderiam ter retrovisor e pisca-alerta. Como diria alguém, mardita celulite.

Em seus delírios narcisistas os jovens adoram pensar que podem mudar o mundo. A verdade é que o mundo só muda se nós mudarmos primeiro. Senão sempre haverá fulanos - amigos, inimigos e desconhecidos - que nos trarão uma tensão desnecessária. E o que haverá além desta tensão, da respiração ansiosa e dos vazamentos de um inconsciente torturado? Talvez apenas um nada. Se for assim, então pelo menos será alguma coisa.

30 setembro 2007

Divagação Erudita

Introdução

Feliz 119!
Dedico este post ao novo membro do Pugnacitas, André Balsalobre, que veio à luz há exatos trinta e um anos, no reveillon do ano 88 da Era da Salvação, iniciada em 30 de setembro de 1888 do falso calendário.

Obviamente, não falo a sério. Entro no espírito de uma brincadeira feita por Nietzsche na data da conclusão de seu ensaio “O Anticristo”, 30 de setembro de 1888, há 119 anos.

30 de setembro é também o dia mundial do traidor, digo, tradutor. Traduttore = traditore, dizem os italianos. A homenagem nasceu do dia onomástico de São Jerônimoooo, padroeiro dos paraquedistas e praticantes de bungee jump e traditore da Bíblia para o latim a partir de manuscritos em grego e hebraico, no século IV d.C..

No dia 30 de setembro de 1452 Gutenberg apresentou o primeiro livro impresso: a Bíblia. Uns setenta anos depois, Lutero, valendo-se do invento do conterrâneo, difundiu pelas populações alemãs milhares de cópias do Novo Testamento traduzido por ele próprio para o alemão (saxão). Celebra-se entre os protestantes a tradução de Lutero como um símbolo de libertação em relação à Igreja de Roma. No entanto, existem várias impressões da Bíblia em alemão anteriores à versão do traditore Lutero, como podemos ler no verbete Versions of the Bible, da Catholic Encyclopedia. Trecho: “Of special interest are the five complete folio editions printed before 1477, nine from 1477 to 1522, and four in Low German, all prior to Luther's New Testament in 1522”.

Segundo os católicos conservadores, o livre exame das escrituras promovido pelos protestantes teria permitido a vulgarização e a profanação da Bíblia pela figura do "caçador de contradições". Segundo eles, as contradições apenas mostram o grave erro em que se incorreu ao dar a cada cristão a possibilidade de ser um exegeta. Como não existem explicações na própria Bíblia para as contradições, seria necessário um intérprete autorizado por Deus para harmonizar as diversas passagens, para explicar as divergências valendo-se da Tradição. A autorização de Deus viria por meio do sedizente sucessor de Pedro: o Papa. Para tais católicos seria muito melhor para a cristandade se os livros ainda fossem reproduzidos manualmente, por copistas.

“Tradição” não significa “traição”, é claro. Mas podemos traduzir a palavra para “prevalência da vontade das facções mais barulhentas e poderosas dos concílios”, “crendices populares consolidadas por gerações”, “sufocamento sistemático de 'hereges' e de inimigos da tradição", necessária esta para futuras interpretações baseadas na tradição.

Caçadores de contradições não faltam. Há milhares de sites Web afora dedicados a denunciá-las. E, como não poderia deixar de ser, outros tantos milhares a refutá-las.

Divagação Erudita

Nietzsche escreveu no supracitado ensaio, referindo-se não à hagiografia católica, como pode parecer ao se retirar o trecho de seu contexto, mas às páginas da Bíblia: “Que me importam as contradições da ‘tradição’? Como alguém pode chamar lendas de santos de ‘tradição’? As histórias de santos são a mais dúbia variedade de literatura existente; examiná-las à luz do método científico na ausência total de documentos corroborativos a mim parece condenar toda a investigação desde suas origens – isso seria simplesmente uma divagação erudita...”

Eu escrevi em determinado ponto do post Elemental, meu caro Watson: “Quero evitar falar desses deuses e do deus bíblico porque já sucumbiram em contradições que envolvem desde mandamentos conflitantes a códigos morais anacrônicos e invencionices descaradas hoje adaptadas pelos exegetas para ‘simbologias’”.

Mas confesso que às vezes me apraz fazer pescaria na Bíblia, fisgar botas revestidas de untuosos plânctons, pneus (hagia pneuma) e outros trastes velhos atirados pelos pais do cristianismo ao já poluído e enturvado lago divino, verdadeiro Piscinão de Ramos em cujas águas milhões e milhões de ignorantes diariamente se banham e contraem as mais diversas moléstias, comumente aquelas que atacam o córtex cerebral, a área do cérebro responsável pela razão.

Então, nesta última hora deste 30 de setembro, faço uma inútil “divagação erudita” sobre uma pescaria que fiz um bom tempo atrás.

Em Jerash

Vocês podem não ter fé em mim, mas no dia 30 de setembro de 1992 eu e um colega de universidade visitávamos as ruínas de Jerash (Gerasa), uma cidade da Decápole Romana, chamada hoje pelos jordanianos de "Pompéia do Oriente", a mesma alcunha dada pelos sírios à Palmira (Tadmor), e naquele local eu, à época um católico “exemplar”, tive meu primeiro contato com uma contradição bíblica, mais precisamente uma impossibilidade geográfica.

Pois bem, estávamos tão extasiados a explorar as preciosas ruínas por tantos séculos esquecidas no deserto, a contemplar a perfeição da pavimentação das ruas, com sarjetas, meios-fios e calçadas, a elegância dos templos e colunatas cujas cores esquentavam-se ao crepúsculo, que perdemos o último ônibus que saía para Amã, onde eu executava algumas pinturas para o Patriarcado de Jerusalém. Cliquem aqui para ver a capa do Livro History of Modern Christianity in the Holy Land, ilustrada com um óleo de minha autoria. As cores estão mortas na reprodução. A torre contra o sol gera uma auréola na Igreja de Mádaba, cidade próxima ao Monte Nebo, camarote do qual Moisés imaginou com pesar os massacres do povo cananeu que se consumavam a poucos quilômetros. Com pesar por não ter sido autorizado a participar, claro. Quem mandou ferir a rocha duas vezes com a vara para que brotassem as águas de Meribá?

O primeiro lugar onde nos ocorreu procurar pernoite foi a igrejinha que havia em Majdal, um dos vilarejos vizinhos, de maioria muçulmana. O padre, um francês, torceu o focinho para o nosso pedido. Por sorte, um muçulmano que passava pelo local parou quando viu os dois estrangeiros e, posto a par da questão, achou que era uma boa ocasião para vender a “grandeza” de sua fé e expor a hipocrisia da concorrente. Insistiu para que o padre nos indicasse algum canto da construção principal ou de seus anexos onde pudéssemos nos recostar até a manhã seguinte. O padre, que em determinado momento parecia disposto a ceder, após a interferência petulante do islâmico recusou-se peremptoriamente a nos dar abrigo. O outro proferiu com voz empostada de muezim que a hospitalidade era um dever do muçulmano e que ainda que fosse no mihrab da Mesquita arranjaria um local para nos abrigar contra o frio da madrugada.

No fim das contas, dormimos na casa dos pais do rapaz, que deram uma pequena festa em nossa homenagem com música ritmada por derbake, sucos, frutas, pães e queijos. Acabamos retornando a Amã somente seis dias depois porque os vizinhos quiseram que dormíssemos também em suas casas para que pudessem exercitar a hospitalidade. Os convites eram feitos ríspida e guturalmente enquanto nos seguravam pelos punhos, impedindo que cruzássemos o vão da porta. De fato, apenas despertávamos sua curiosidade, tanto que na quase totalidade das vezes o preceito da hospitalidade era esquecido tão logo os anfitriões esgotassem as frases prontas em inglês e nós as em árabe...

No terceiro dia, dormimos na casa de um certo Mohammad, cujo inglês era bem aceitável, apesar do sotaque. Durante o jantar falou muito, exaltou a região e sua história, o islamismo e, como não poderia deixar de ser, criticou a fé rival: “Alá não é três, é um!”, “Jesus não é um deus. Ele é um profeta do Islã”. Desatou a listar os erros do livro sagrado dos cristãos e acabou por citar Marcos 5, onde é descrita a visita que Jesus e sua gangue fizeram à terra dos gerasenos: Gerasa, ou Jerash. Para ele, a prova de que Marcos não fora testemunha de episódios da vida de Jesus como a sua prisão no Getsêmani residia no fato de que o verdadeiro autor daquelas linhas ignorava detalhes importantes da geografia da região.

Retirado da Bíblia Católica:

Marcos, 5
Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros, pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus, que não me atormentes." É que Jesus lhe dizia: "Espírito imundo, sai deste homem!"
Perguntou-lhe Jesus: "Qual é o teu nome?" Respondeu-lhe: "Legião é o meu nome, porque somos muitos". E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte. E os espíritos suplicavam-lhe: "Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles." Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti." Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.


Impossibilidade Geográfica

Jesus atravessa o Mar da Galiléia e ainge o território dos gerasenos. Jerash está a aproximadamente 60 km a sudeste do Mar da Galiléia (vejam no mapa e na fotografia ao lado, a partir do Google Earth. Philadelphia é a atual Amã). Mesmo antigamente, o território dos gerasenos era limitado por Pella, também da Decápole, Hippus, Gadara e Raphana, não sendo lindeiro ao Mar da Galiléia - apesar do nome, um lago de água doce.

Jesus expulsa uma legião de demônios de um só possesso e, como bem avaliou Bertrand Russel, ao invés de usar seus poderes divinos para simplesmente mandá-la embora, leva o(s) suinocultor(es) desconhecido(s) à falência - e quem sabe parte da economia da região, pois eram 2000 porcos! A propósito, para quê povos da província romana da Arábia, árabes portanto, que também não consumiam este tipo de carne necessitavam de população suína tão grande? Ordenhavam as fêmeas?* - e permite que os demônios possuam os animais, causando a morte de todos eles. Não parecia ser essa sua intenção inicial mas atende às súplicas dos capetas... E como tudo isto se passa nos domínios de Gerasa, os porcos-lemingues correm mais do que uma maratona para se precipitarem na água.
“A César o que é de César”, teria dito o homem-deus. No entanto, ao autorizar o suicídio induzido de dois mil porcos lesou os cofres de Roma, que tinha direitos sobre parte dos lucros do(s) criador(es) de porcos.

Outro ponto é que não existem precipícios na orla do Mar da Galiléia, quase sempre plana, no máximo os montes que originam as Colinas de Golã, ao nordeste. Precipícios podem ser encontrados mais ao sul, na região do Mar Morto, mas mesmo lá há praias entre os rochedos e a água. Em Marcos os porcos caem diretamente no Mar da Galiléia. Jesus não se importou com a salubridade da água, que servia aos moradores daquelas paragens. Dois mil porcos em decomposição devem ter transformado a água em um caldo bacteriano extremamente nocivo, matando peixes, arruinando pescadores e impedindo os humanos de consumi-la. Não foi à toa que a população escorraçou o Galileu e sua trupe. Pela interpretação de alguns religiosos os habitantes de Gerasa expulsaram Jesus da sua terra por amarem mais os porcos do que a Deus, he he.

Em Mateus 8, 28, lemos:

“No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.”

Agora são dois os endemoniados e Jesus não desembarcou mais em Gerasa mas em Gadara, que distava uns 10 quilômetros do Mar da Galiléia. Pelo menos a chance dos porcos-lemingues morrerem afogados e não enfartados aumenta um pouco no Evangelho segundo Mateus...

Sujo falando do Mal Lavado
Mohammad irritou-se com algumas objeções que fiz. Na época argumentei que aquelas pequenas diferenças eram mais uma prova de que os Evangelhos eram autênticos, pois se o texto de Marcos tivesse sido escrito a partir do de Mateus e não por inspiração divina as informações não seriam conflitantes. Ele disse então que o livro sagrado dos muçulmanos havia sido ditado letra por letra por Alá e que por isso era muito mais confiável do que a Bíblia, “inspirada” e por isso plena de contradições.

Hoje sabe-se que inúmeras outras versões do Alcorão foram deliberadamente destruídas durante os primeiros califados. Em Sana, no Iêmen, encontraram nos anos 70 fragmentos de um Alcorão da metade do séc. VIII que continha passagens diferentes das que vemos na versão atual, o que deveria sepultar a ridícula crença dos muçulmanos de que cada vírgula de seu livro sagrado foi ditada pelo enViado de Alá, o anjo Gabriel, o mesmo que fez o primeiro exame pré-natal em Maria. Mas seria exigir demais dos pobres muçulmanos. Quando ouvem falar dos manuscritos de Sana dão as explicações Ad Hoc de qualquer religioso fanático: "aquilo foi plantado pelo Shitan (diabo) para confundir os crentes".

Não quero perder meu tempo pescando no imundo charco do Alcorão. Minhas “divagações eruditas” não descem tão baixo...

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* - update: Certamente havia uma boa quantidade de romanos e de povos helenizados na região, ainda mais na Decápole, e não viam problemas em desfrutar de um bom lombinho assado de vez em quando. Infelizmente sem as rodelas de abacaxi, afinal os fenícios, caso tenham estado na América antes de Colombo, esqueceram-se de carregar para a Síria mudas da preciosa bromélia.
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