18 julho 2012

Churrasco francês é razoável?

Meu primo escreveu:

"...Há uma (...) categoria de experiências - não verificáveis, singulares porque não são generalizáveis, portanto não científicas, mas que merecem outra atitude, não necessariamente a aceitação, mas pelo menos o benefício da dúvida, uma vez relatadas por pessoas saudáveis, que não se enquadram em nenhum dos numerosos indicadores que caracterizam os farsantes.
Joana d'Arc (estou lendo uma biografia dela apoiada em registros de seu julgamento, dos quais nos chegaram diferentes versões) é um bom exemplo. As adulterações produzidas para condená-la visavam incriminá-la de bruxaria. Era uma jovem camponesa distante da política e que, lá pelas tantas, começou a falar que ouvia uma voz que, para ela, era a voz de Deus.
Ninguém precisa endossar essa alegação. É apenas um exemplo do tipo de singularidade a ser examinada atentamente, uma vez que a hipótese de delírio não se confirma em suas falas. A forma de se conduzir nas diversas situações em que fracassavam políticos, diplomatas e militares atestam - diferentemente de um delírio - uma refinadíssima capacidade de lidar com a realidade. Ao invés de jogar todas as singularidades dentro do mesmo saco de lixo, caberia nos perguntarmos: O que aconteceu com Joana d'Arc? Se a ciência chegar um dia a explicar e a replicar, tanto melhor! Em sã consciência, uma boa resposta é 'não sabemos'. Em sã consciência, também, é possível algo na linha de 'eu acredito que... (inserir a crença que faz mais sentido para cada sujeito)'. Apenas deve ficar claro que 'eu acredito' não é prova de nada, não é justificativa para imposição da mesma crença a quem quer que seja, nem deve servir de pretexto para fechar questão. (...)"


Devemos estar abertos à possibilidade de duendes existirem e se protegerem da chuva sob cogumelos? Sim, por que não? Tão logo apareçam evidências, os de fato racionais se renderão a elas. Ou passarão a ser crentes na não existência de duendes, do quilate dos que acreditam que o homem não foi à Lua.

Quem precisa apresentar evidências da existência de algo extraordinário são aqueles que a defendem. Quase sempre os que não acreditam não terão como prová-la falsa. Não se demonstra cientificamente que ETs não existem, ainda que cada milímetro quadrado do universo seja esquadrinhado, porque não se pode ter absoluta certeza de que não sejam capazes de ficar invisíveis, por travessura ou por medo. Por isso devemos pensar em termos de graus de razoabilidade. Creio que as probabilidades de haver vida fora da Terra não sejam remotas, mas é improvável que ETs estejam entre nós, que empilharam pesados blocos de pedra no Peru há milhares de anos (só porque não sabemos como quechuas e lhamas os possam ter transportado), que aparecem para caipiras, atores da Globo e ufólogos, que sempre se escondem dos céticos, como fazem justamente os parentes desencarnados, os anjos e as fadas.

É racional crer na existência do Bóson de Higgs, ainda mais agora, que a probabilidade de que exista é de 99,9999%, segundo li. Por outro lado, pode-se dizer que há 0,0001% de certeza de que o criador do mundo falou com uma francesa de nome Joana mais de meio milênio atrás? Acho o número superestimado. A propósito: Criador do mundo? Ele existe? Existe o supra-deus, o criador do criador?

O que eu tenho certeza é de que onde há contradição não há verdade. Sim, quanticamente, o Gato de Schrödinger pode estar vivo ou morto. Mas não poderá estar vivo e não-vivo ao mesmo tempo, salvo com malabarismos linguísticos nos quais teólogos, marxistas e outros homo ideologicus são versados. Digamos que as alegações de Joana d'Arc sejam verdadeiras. Então a Bíblia é falsa, porque agora não se trata de conflitos entre Novo e Velho Testamentos. O Novo vige, não? E Jesus, que não era um nacionalista zelote a  bradar "romans go home" pela Palestina, como Brian, não ordenaria cristãos que falam francês a matarem correligionários anglófonos para os primeiros retomarem Orleans. Se a Bíblia é falsa, como crer em um Jesus divino, em sua ressurreição, na absurda trindade de Tertuliano? E a partir daí, como acreditar na própria Joana d'Arc?

E mais: por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana? Endossaria, no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana d'Arc, desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira até o assassínio em nome de um deus, ou de fronteiras.

A "refinadíssima capacidade de lidar com a realidade" elevaria o grau de razoabilidade das alegações da santa guerreira cuja influência sobre blockbusters atuais tem sido tão nefasta, de Alice no País das Maravilhas à Branca de Neve e o Caçador, que culminam irritantemente com pias Joanas d'Arc a conduzir exércitos contra o mal após discursos de sindicalista?

Se Einstein, acreditando prestar um grande serviço à uma crença que professasse, tivesse afirmado que a Teoria da Relatividade havia sido ditada por anjos, os céticos ficariam em uma sinuca de bico. Calar-se-iam por um tempo, provavelmente. A brilhante teoria não seria prova de que existem anjos, mas conferiria autoridade para inverdades não relacionadas a ela, professadas por seu autor. "Como um ser humano sozinho amontoaria tantos números e letras para derrubar verdades físicas tão assentes?", "por que mentiria tal nobre homem?", "como se enganaria dessa maneira um homem tão meticuloso e sábio?", seriam possíveis comentários de líderes religiosos em júbilo. Contudo, bastaria um fóton superar a velocidade da luz, em um acelerador, séculos depois que fosse, para derrubar o postulado de Einstein de que não se pode ultrapassá-la. E os anjos cairiam também, de uma altura que só Lúcifer conheceu - existam tais inúteis mensageiros alados ou não. Já uma francesa da Baixa Idade Média, em uma época de guerras santas, intolerância, superstição, em que a Igreja Católica definia até a posição em que se podia fabricar mais cristãos, naquela época de Terra Plana, de monstros marinhos, de pogroms pios, peregrinações fanáticas, cilícios e flagelos, de grotescas relíquias, em que o continente inteiro estava defumado em incenso, alguém falar com seriedade sobre fantasias tidas como tão verdadeiras quanto a realidade tangível não reforça em nada a probabilidade de serem verdadeiras.

Em tal contexto, apelar para o "Deus ordenou" talvez fosse o único modo de uma menina com sanha guerreira ingressar na diplomacia e nas armas, afinal estamos no século XV. E sem falar na profecia, da virgem de Lorena que reconquistará a França, responsável em parte pela aceitação geral - após um rigoroso exame ginecológico, é claro.

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. É uma lei básica. Infelizmente, não vale para os que amam crer mais do que amam o bom senso e a verdade.

5 comentários:

Antônio Fonseca disse...

"What's the difference between a rowing boat and Joan of Arc?" "One is made of wood and the other is Maid of Orleans."

Anônimo disse...

Naquela época era mais razoável crer do que hoje.

Salvo disse...

Ó mais pura Virgem e Gloriosa mártir Santa Joana da qual Deus e Seu Eterno Poder tem revelado para o mundo de modo a reviver a fé, a esperança e a caridade das almas cristãs. Eu me prostro a vossos pés minha querida santa, digna ,virgem, cheia de graça e bondade e peço que receba as orações deste seu humilde servo e obtenha para mim a pureza de teu terrível sacrifício e a fortaleza de sua alma e faça com que eu resista aos mais terríveis ataques e que eu venha a sentir este seu amor ardente para o Nosso Senhor Jesus Cristo, amor este que os mais terríveis tormentos não o fez extinguir em ti .

Assim espero que seguindo este exemplo santo e imitando sua vida, eu possa um dia estar contigo no paraíso. Na hora de minha agonia final venha em meu socorro, fique ao meu lado e me conduza a presença de Jesus. Amem.

.................

Senhor,

suplicamos-Lhe o perdão dos nossos pecados pela intercessão de Santa Joana , virgem e mártir, pela sua castidade de vida e cada virtude que a tornou agradável aos Seu olhos. Amém. Santa Joana, eis-me aqui, prostrado diante do trono em que apraz à Santíssima Trindade colocá-la.
Cheio de confiança em sua proteção, rogo-lhe que interceda por mim diante de Deus,dignando-se lançar um olhar sobre este seu humilde devoto.

Como a uma das esposas eleitas de Cristo, dirijo-lhe confiantemente o meu pedido de que me sustente no sofrimento, fortifique-me nas tentações, proteja-me dos perigos que me rodeiam, obtendo-me as graças de que tanto necessito, em particular (especifique, aqui, o seu pedido)...

Acima de tudo, espero contar com a sua santa assistência na hora da minha morte.

Santa Joana, pela sua poderosa intercessão junto de Deus, rogai por nós!

Santíssima Trindade, nunca cessaremos de Lhe agradecer pelas graças concedidas à bem-aventurada sempre virgem Maria e à Sua serva Santa Joana, e pela intercessão de ambas imploramos, mais uma vez, que tenha piedade de nós. Amém.

C. Mouro disse...

Grande Catellius!

Há que realçar:

"A brilhante teoria não seria prova de que existem anjos, mas conferiria autoridade para inverdades não relacionadas a ela, professadas por seu autor."

Brilhante no úrtimu!
A profundidade existente em tal trecho é arrasadora. A forma de dizer algo tão brilhante a faz ainda mais brilhante. A capacidade de síntese no exemplo, na imagem, ao tocar num assunto é um talento.

E mais ainda:
"O que eu tenho certeza é de que onde há contradição não há verdade. Sim, quanticamente, o Gato de Schrödinger pode estar vivo ou morto. Mas não poderá estar vivo e não-vivo ao mesmo tempo, salvo com malabarismos linguísticos nos quais teólogos, marxistas e outros homo ideologicus são versados."

Onde há contradição há empulhação!
Mas a crença assim o é pelo absurdo em que se crê. Crê-se até em três em um sem nem mesmo corar. O jogo de palavras sem sentido, com significado multiplo e ininteligivel é capaz de explicar o inexplicável.

É sempre um prazer a leitura que acrescenta em vez de repetições insossas que pretendem antes transformar do que entender.

Forte abraço.
C. Mouro

Catellius disse...

Caro Mouro,

Obrigado pelos exageros, sempre caros ao nosso ego humano...

Abraços!

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