27 dezembro 2006

Deuses e Pecados Capitais

O que Apolo, Diana, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus, e Saturno têm em comum? Deuses romanos? Certo. Quem pensou nos dias da semana sunday, lunes, martes, miércoles, jueves, viernes, saturday acertou. Quem pensou em orgulho, inveja, ira, avareza, gula, luxúria e preguiça também acertou.

Pecados Capitais, como o nome sugere, são as "cabeças" de pecados graves.
A ordem desses vícios variou ao longo dos séculos. Primeiro foram listados em ordem de gravidade - época em que os "sete pecados capitais" eram oito - depois, no séc. VI, o Papa Gregório Magno classificou em ordem decrescente os que mais ofendiam ao amor, Tomás de Aquino também ordenou sua lista, acrescentando para cada pecado "filhas" (tinha que ser feminino) como "sussurratio", derivada da Inveja (o banal cochichar da fofoca), e, por fim, no séc. XVII a vaga "melancolia" foi substituída por "acídia" - que significa desleixo - ou "preguiça" para os íntimos.

Eu os classifiquei correspondendo cada pecado capital a um dia da semana nos idiomas que mantiveram os nomes pagãos. O português foi presenteado com a falta de imaginação de São Martinho de Dume, que conectou os sete dias à semana de feriados pascais, chamando-os de "feria secunda", "feria tertia", assim por diante - exceto para o sábado e domingo - onde "feria" tem origem comum às palavras "feriado" e "férias". Hoje a corruptela "feira" é homógrafa à palavra que designa comércio popular, por isso a estranheza que o "segunda-feira" nos causa. O árabe nomeia os dias da semana como "o primeiro" (allahad), "o segundo" (althani), etc. Sempre pensei que aí estivesse a origem dos ordinais sem graça, mas pelo que aprendi recentemente a alteração se deve a dedos cristãos.

Para deixar claro aos juízes mais suscetíveis, em nenhum momento eu questiono o fato de tais impulsos serem nocivos à coletividade, na maioria dos casos.

Orgulho
Domingo. Sunday. Apolo é o deus da música, da poesia, da dança, da busca pelo conhecimento, da luz, conhecido como Febo e identificado com Hélio, o deus sol, entre inúmeros outros atributos e patronatos.
O orgulho encabeça as listas dos antigos por se opor à obediência imposta aos créus pelas religiões. A consciência de si mesmo, a racionalidade, a lógica, o livre pensar são pecados de orgulho para as três religiões monoteístas (se considerarmos o cristianismo uma religião monoteísta).
Os orgulhosos são presos à "Roda" - o instrumento de tortura usado em Santa Catarina de Alexandria - logo que põe o pé no Inferno.
A virtude correspondente é a humildade.

Inveja
Segunda-Feira. Monday/Lunes. Diana (Ártemis) é a deusa da caça, porta uma lua crescente sobre a cabeça e é identificada com Selene, a deusa da Lua. A Associação à inveja advém do caçador cobiçar algo que não lhe pertence, aniquilando o objeto de seu desejo, caso esse seja o imperativo para possuí-lo.
A busca por justiça social, a competição saudável, a liberdade política foram considerados pecados de inveja pelas religiões defensoras do statu(s) quo, do direito divino de reis absolutistas, da virtude intrínseca da pobreza, do contentai-vos com o que a providência vos dá, como os "Lírios do Campo".
No Inferno os invejosos são submersos em água gelada. Considerando o calor que faz do lado de fora, até que Lúcifer é brando com esta casta de criminosos.
A virtude correspondente é a caridade (e admiração).

Ira
Terça-Feira. Tuesday/Martes. Marte (Ares) é o deus da guerra. Tuesday significa "dia de Tyr", deus germânico do combate.
Revidar uma agressão, revoltar-se contra dogmas e imposições, defender-se com agressividade foram considerados pecados de ira pelas religiões, cujos fiéis devem ser ovelhas inofensivas. A agressividade só era permitida aos religiosos e aos nobres, sob cujas peles recebia os nomes hombridade e heroísmo.
A ira é punida pelo desmembramento, que é muito pior que a amputação cirúrgica. Como o Inferno é eterno, imagino que os membros são reimplantados no "paciente" para um próximo esquartejamento - um trabalho de Sísifo que só deve agradar a sádicos do quilate de Satanás e Torquemada.
A virtude correspondente é a paciência (e mansidão).

Avareza
Quarta-Feira. Wednesday/Miércoles. Mercúrio (Hermes) é o deus do comércio e do lucro, dos mercadores e viajantes. Passou a ser também o deus mensageiro quando foi associado ao grego Hermes.
Este pecado capital fica bem ilustrado no aumento de quase 100% proposto pelos parlamentares em Brasília. Não porque Brasília é a "capital" do Brasil, esclarecendo o óbvio... (risos)
A economia e o acúmulo de bens foram considerados pecados de avareza - ou pecado contra a providência divina - por muitos religiosos, nos quais tal vício recebe o nome de "subsistência", como Bocaccio escreveu há mais de seiscentos anos em um conto do Decamerão.
Os avaros são jogados em potes cheios de óleo fervente. Não vi nenhuma relação entre o pecado e a punição. Os inquisidores católicos pareciam ter mais imaginação que o Príncipe das Trevas...
A virtude correspondente é a liberalidade (generosidade).

Gula
Quinta-Feira. Thursday/Jueves. O deus da gula, na verdade, é Baco ou Dionísio. Júpiter (Zeus), o rei dos deuses romanos, pode ser associado à gula por seu desejo de poder, por ser o "Jupiter Victor" que conduzia o exército romano às vitórias que engoliam nações, que submetiam cada vez mais populações ao seu obeso império.
As religiões abominam tanto a gula que religiosos de pança inchada, que comem de graça em casa de beatas e que não dispensam comida e bebida fartas praticamente inexistem...
Tão logo os glutões adentram o mundo subterrâneo são obrigados a comer ratos, lagartos e outras iguarias infernais.
A virtude correspondente é a temperança. Não, não tem nada a ver com tempero(risos).

Luxúria
Sexta-Feira. Friday/Viernes. Vênus (Afrodite) é a deusa romana do amor e da beleza, entre outros atributos. Freia é a deusa germânica da juventude e beleza.
As religiões abominam a incontinência sexual (eu acho que é caso para internação). Por certo orgias com setenta virgens são coisas santas quando acontecem no paraíso, mas aqui na Terra levam o infrator ao fogo eterno. De resto, histórias verídicas de Íncubus e Súcubus existem para provar que os religiosos só têm relações sexuais quando forçados pelos tais demônios sexuados. Alguns difamadores insistem que amiúde são eles que forçam criaturas indefesas a satisfazerem suas demandas hormonais. Será verdade?
Os lascivos são simplesmente queimados. Não sei se são amarrados a mastros durante o processo ou se ficam perambulando pelo Inferno, que, como todos sabem, é composto basicamente de fogo.
A virtude correspondente é a castidade.

Preguiça
Sábado. Saturday. Saturno é associado a Cronos, deus do tempo.
O ócio é chamado de oficina do diabo pelas religiões, talvez por favorecer a meditação filosófica, tão nociva à aceitação de verdades absurdas. O mesmo valia para a antiga relação patrão-empregado. O ócio era mal visto na era industrial por favorecer discussões sobre salários, condições de trabalho, por favorecer a formação dos famigerados sindicatos. A religião, nestes casos, era o instrumento ideal para manter o trabalhador longe de "problemas". Gerald Ford tinha pavor de ver seus funcionários ociosos após o trabalho e durante os fins de semana. Obviamente tratou de estimular atividades religiosas entre eles, as quais por vezes preenchiam todo seu tempo vago.
Os indolentes são jogados em poços cheios de serpentes venenosas, como no filme do Indiana Jones. Lá bulirão eternidade afora, para compensar as décadas de ócio aqui na Terra.
A virtude correspondente é a diligência.

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Hoje, 29 de dezembro, faço um pequeno acréscimo ao post original, de dois dias atrás, instigado pelo Paulo Vasconcellos, que sugeriu, como upgrade, a listagem dos pecados capitais do século XXI. O enfoque atual dos pecados capitais é o próprio pecador, enquanto eu prefiro enfatizar o impacto do pecado na coletividade. Então, Tomás de Aquino que me perdoe; aí vão os novos, despretensiosamente:

1 - Hipocrisia (mentira, desonestidade),
2 - Prepotência (abuso de poder, uso indevido da força),
3 - Intolerância (racismo, xenofobia e congêneres. É um bom substituto para a Ira),
4 - Egoísmo (exploração do próximo. Semelhante à Avareza),
5 - Injustiça (nepotismo, cartéis, favorecimentos, arquivamentos, "vista grossa", omissão),
6 - Dogmatismo (promulgação de verdades absolutas, divinas, imutáveis, por "representantes" de Deus, defendidas intolerantemente, hipocritamente, injustamente)
7 - Ignorância (quando por opção, é o pecado capital "cabeça" de uma legião de outros pecados).

Mas acho que devem ser mais de sete. Se alguém tiver algum outro, seja bem-vindo para acrescentar à lista.

Imagens do site worth1000.com

15 dezembro 2006

Cristo e a Eva Mitocondrial

A crença em um Cristo Redentor e o poligenismo são incompatíveis. No poligenismo a humanidade descende de vários casais. No monogenismo descende de apenas um.

Primeiro demonstrarei, por meio de quatro citações bíblicas, três cânones do Concílio de Trento e um trecho da Encíclica Humani Generis, o motivo pelo qual são incompatíveis. Depois mencionarei a "quase prova" do monogenismo - a Eva Mitocondrial - e explicarei por que esta pequena tábua não impedirá o náufrago criacionismo de se afogar.

"Foi a Sabedoria que guardou o primeiro homem, formado por Deus para ser o pai do gênero humano, o único criado.” (Sab 10,1)

“De um só (homem) fez (Deus) todo o gênero humano, para que habite sobre a face da Terra.” (At 17,26)

“Foi por um só homem que o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, que atingiu todos os homens etc.” (Rom 5,12.17-9)

“Assim como a morte veio por um homem, é também por um homem que veio a ressurreição dos mortos. Pois, como todos morrem em Adão, todos também recuperarão a vida em Cristo.” (1 Cor 15,21s.)

De acordo com o Concílio de Trento, Sess. 5, can. 1: “o primeiro homem, Adão, transgrediu o mandamento de Deus”; can. 2: “o pecado de Adão afetou toda a descendência deste, à qual comunica culpa e morte”; e can. 3: “o pecado de Adão é um ato único; transmite-se por geração, não meramente por imitação”.

O trecho da encíclica Humani Generis de Pio XII:
“Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles. [cf. Rom 5, 12-19

Voltemos à realidade.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia concluíram que todos os humanos vivos são descendentes de uma única mulher que viveu na África há cerca de 150 mil anos, e passaram a chamá-la de "Eva Mitocondrial". Eles se basearam na análise do DNA retirado das mitocôndrias, que é transmitido apenas pela linhagem feminina.

Segundo artigo publicado na Nature, o "Adão Científico" viveu na África há 59 mil anos e a "Eva Mitocondrial" nasceu 84 mil anos antes, há 143 mil anos.. Para o casal ter se conhecido, os 1000 anos de idade daqueles primeiros homens do Gênesis não seriam suficientes, não é mesmo? "É desconcertante descobrir que o registro de Eva é mais antigo e, portanto, que ela não poderia ser a mulher de Adão", afirmou o geneticista Luca Cavalli-Sforza, da Universidade Stanford.

O fato de existir uma Eva Mitocondrial não significa que ela foi a única mulher existente em sua época, mas que foi a única que produziu uma linhagem direta de descendentes que persiste até hoje. "O problema do entendimento da história da Eva Mitocondrial é um problema no entendimento de como a estatística da probabilidade se aplica a problemas de hereditariedade", disse Frank R. Zindler. A perda de uma linhagem mitocondrial tem semelhanças próximas à perda dos sobrenomes em sociedades patriarcais. A única diferença é que esses sobrenomes são passados pela descendência masculina, enquanto as mitocôndrias são transmitidas pelas mulheres.

A figura abaixo mostra o caso hipotético de uma ilha deserta povoada, inicialmente, por seis pessoas de sobrenomes diferentes. Em apenas três gerações, apenas um sobrenome restou. (Os retângulos são homens, as elipses mulheres, conforme legenda)


Todas as pessoas na ilha são "Silva" e todas descendem de um único "Silva Científico".

Muito dificilmente o monogenismo vingará. Como não sou cientista, não posso opinar sobre o futuro do monogenismo e do poligenismo. Mas o certo é que se chegar ao ponto de ninguém mais acreditar no primeiro, os exegetas suarão dia e noite para montar uma justificativa para a vinda de Cristo, para o Pecado Original, para o Batismo que o purga, para a necessidade de uma "Imaculada Conceição". Pena que todas essas descobertas não tenham sido feitas a.G. - antes de Gutenberg - porque até seria simples fazer um recall das cópias existentes da Bíblia, para "pequenas modificações"...

Tire o Pecado Original e o castelo de cartas colapsará.

04 dezembro 2006

Inimigos da Informação

Abaixo, alguns sites que tratam do incêndio da Biblioteca de Alexandria. Nenhum dos que visitei responsabiliza os árabes, incluindo o Catholic Encyclopedia, que culpa pelo incêndio final o patriarca cristão Teófilo, contemporâneo ao imperador-caçador-de-filósofos Teodósio, embora afirme que não existam provas definitivas. Na maioria dos sites a culpa pelo incêndio recai mesmo sobre o imperador cristão Teodósio, que foi o tal que extinguiu a liberdade de culto no Império Romano, fechou escolas filosóficas, matou e exilou filósofos, queimou milhares de rolos sobre astronomia, filosofia, medicina, etc. Justiniano, outro imperador cristão, anos mais tarde fechou a Antiga Academia de Atenas, fundada por ninguém menos do que Platão, queimou livros e expulsou os filósofos neoplatônicos para a Pérsia.

E ainda há quem diga que os cristãos são os responsáveis por preservar a literatura clássica... Esqueceram de mencionar os árabes de Córdoba (omíadas, do Egito e outros), que também tinham cópias de Arquimedes, Apolônio, Euclides, Ptolomeu, Pitágoras, etc. Os cristãos fizeram interpolações criminosas nos textos, muitas das quais só foram suprimidas após os escritos serem confrontados com traduções fiéis feitas por árabes como Averróis.

Se Savonarola (teocrata florentino) tivesse destruído quase todas as pinturas européias mantendo as obras mais significativas nas igrejas e em museus como o do Vaticano, haveria quem creditasse à Igreja Católica a preservação da arte profana renascentista...

Um fato interessante é que o vergonhoso Index Librorum Prohibitorum durou até 1966 e incluía livros de Sartre, Voltaire, Balzac, Giordano Bruno, Descartes, Copérnico, Schopenhauer, Nikos Kazantzakis (autor de Zorba, o Grego), Kant, e muitos outros. Como era de se esperar, Mein Kampf, de Hitler, nunca foi incluído no Index. Até a década de 60, nos locais de maioria católica, de Quebec à Polônia, os livros desses autores eram difíceis de ser encontrados em livrarias e bibliotecas, pois raramente eram publicados e o clero criava entraves para traduções e importações, o que nos mostra mais uma vez que obscurantismo e cristianismo (catolicismo) sempre andaram de mãos dadas...


Catholic Encyclopedia
O Catholic Encyclopedia diz que a versão que culpa o sultão Omar é inverossímil porque a acusação só teria aparecido seis séculos após a invasão árabe, e há vários historiadores mais antigos, de Alexandria, que não mencionam acontecimento semelhante. O texto diz que o ato seria contrário ao costume muçulmano de preservar grandes bibliotecas (a de Bagdá, de Córdoba e outras. Eles estimulavam a filosofia, a astronomia e as ciências em geral). Por incrível que pareça, o site diz que provavelmente a última parte da biblioteca foi destruída pelo patriarca cristão Teófilo (a mando do imperador Teodósio), mas que disto não existem provas definitivas.

Educação Terra - História
Queimada pelo imperador cristão Teodósio (que destruiu também os templos pagãos e proibiu o ensino de filosofia).

Wikipedia - Inglês
Júlio César destruiu uma parte da biblioteca, de acordo com Plutarco, em uma batalha como aliado de Cleópatra contra seu irmão Ptolomeu XIII. Aureliano, anos depois, destruiu outra parte. Teodósio, o imperador cristão que proibiu os cultos pagãos e os livros de filosofia, queimou, pela mão do patriarca cristão Teófilo, centenas de milhares de papiros e pergaminhos. O texto diz que não há evidências de que os muçulmanos teriam destruído a biblioteca. A história sobre Omar só aparece em um texto do bispo semita Gregory Bar Hebræus, habituado a escrever contra muçulmanos.

Wikipedia - Português
Causa Acidental

Bede's Library
O texto cita trechos de Sêneca, Plutarco, Sócrates Escolástico e diz que não há quaisquer evidências de ter sido o Sultão Omar o incendiário, e tampouco Teófilo, mas Júlio César, que teria queimado grande parte da biblioteca durante uma batalha. O engraçado no site - e é o que lhe dá uma aura de isenção - é que ele diz que são apenas mitos as histórias de cristãos destruindo textos e bibliotecas pagãos. Em compensação, diz que as perseguições aos cristãos e todos aqueles martírios nas arenas são mentiras contadas pelos cristãos dos séculos subseqüentes.

E History
Diz que todos os textos que acusam Teófilo e Omar são mentirosos. Júlio César destruiu realmente parte da biblioteca, mas Marco Antônio presenteou Cleópatra com 200.000 rolos após o evento, o que mostra que a biblioteca continuou a existir. Para se ter uma idéia do tamanho do estrago, um copista conseguia reproduzir mais ou menos o equivalente a cinco livros de 200 páginas por ano (a informação eu não tirei deste site).

BBC.co.uk
Culpa Júlio César.

NetTime.org
Júlio César destruiu de 40000 (ou 400000) rolos tentando ajudar Cleópatra contra seu irmão Ptolomeu XIII. Marco Antônio, anos depois, presenteou Cleópatra com 200000 rolos vindos de Pérgamo, na Anatólia. O museum ruiu durante as lutas que agitaram o Império Romano durante o século terceiro, e Teodósio, o imperador cristão que proibiu os cultos pagãos, destruiu o resto da biblioteca com o auxílio do patriarca Teófilo, por volta do ano 400 d.C. Em 415 d.C. o historiador cristão Orósio visitou Alexandria e escreveu que não existiam mais livros pagãos (nos templos) em Alexandria e que as construções tinham sido esvaziadas pelos cristãos. Este relato confirma que a biblioteca não foi queimada pelos árabes, que só conquistaram o Egito em 642 d.C.

História do Mundo . com
César só destruiu (acidentalmente) os livros que ficavam próximos ao porto, onde foi travada a batalha contra Ptolomeu XIII. Os edifícios principais da Biblioteca, o Museum e o Serapeum, ficavam longe da cena da batalha e seu conteúdo teria sido destruído por Teodósio para extinguir a literatura pagã. O texto não cita a hipótese do conjunto de edifícios ter sido destruído por árabes.

Encyclopaedia Britannica (Answers.com)
O site answers.com, em artigo da Encyclopaedia Britannica, data a destruição total da Biblioteca de Alexandria no ano de 391 d.C., 251 anos antes dos árabes conquistarem o Egito, e exatamente no ano em que o imperador cristão Teodósio proibiu o culto aos deuses pagãos em todo o Império Romano. (Na ocasião, várias escolas filosóficas foram fechadas, livros destruídos e filósofos exilados. Em Alexandria queimaram livros de astronomia, agrimensura, matemática, medicina, tragédias gregas, etc.)

Jornal da Ciência
Robert Darnton diz que os papiros entraram em decomposição e sumiram sozinhos (de qualquer modo, no novo contexto de cristianismo a cópia e a manutenção dos manuscritos clássicos não foram mais estimuladas em Alexandria).

08 novembro 2006

Saddam e Cocoons

Ganhei a fotografia ao lado de um jordaniano pouco após a Guerra do Golfo de 1991, quando visitei a região. Na montagem sobre propaganda da Marlboro (a impressão é que todos fumam por lá) o paladino cavalga com as cabeças de Isaac Shamir e de Bush (pai) espetadas no mastro da bandeira iraquiana com a inscrição "Allahu Akbar" (Deus é o maior) bem destacada.

É uma pena que Saddam, o Harum Al Rachid de nossos dias, que tem até seu nome gravado nas ruínas da antiga Babilônia (uma depredaçãozinha básica), tenha seu fim, por enforcamento, anunciado. Essas coisas são sempre lamentáveis. Fora as mortes que causou, a opressão que impôs ao seu povo, o mau gosto de seus palácios e de suas embaixadas, ele era um cara muito legal. Parece até que recebia pessoas humildes em seu palácio aos sábados pela manhã para ouvir o que desejavam. Como Harum Al Rachid, das Mil e Uma Noites. Claro que as audiências eram televisionadas.

Clique na imagem ao lado para ler um texto delicioso sobre Saddam Hussein divulgado nas escolas do DF pelo Departamento de Imprensa da Embaixada do Iraque em Brasília. O livreto também inclui os textos de três estudantes ganhadoras de um concurso de redação cujo tema era "O Iraque". Uma boa iniciativa, aliás.

Há muitos anos recebi o material publicitário quando visitei a embaixada, um prédio isolado das demais representações estrangeiras e próximo a uma estação de tratamento de esgoto. Quem passa por lá pode até acreditar que o forte odor vem da arquitetura do edifício, que tenta debalde reproduzir um palácio modernista - afinal a embaixada é em Brasília. A caixa de fósforos tem um alpendre com colunas dispostas aos pares, em "V", pretensamente niemeyerianas mas que devem ser canos de esgoto engrossados na base e cobertos de massa.

Falando em arquitetura ruim, ninguém me convence que o Memorial JK não é de um mau gosto iraquiano. A estátua de Juscelino é praticamente igual àquela do ditador que foi posta abaixo pelos seus súditos. A obra deles está um pouco melhor. O corpo do fundador da nossa capital é um tubo e o braço levantado que saúda o nascer do sol é desproporcionalmente grande, simiesco. O pedestal em forma de foice (aff), o prédio um tronco de pirâmide, como se fosse o túmulo de um grande faraó... Para piorar, espalharam pela grama em frente ao mausoléu não uma mas dezenas de esculturas esféricas de Darlan Rosa, verdadeiros cocoons, iluminadas internamente.

Coincidentemente, em frente à Embaixada do Iraque há um desses cocoons (os casulos do filme "Cocoon"), coroando ridiculamente um pórtico na Faculdade Euro-Americana.
Mais coincidentemente ainda, em frente ao Arco do Triunfo das Vitórias Militares do Exército Brasiliense, no Pontão do Lago Sul, encontramos outra esfera darlaniana.

Será que é só edificar algo de estética questionável para os cocoons brotarem ao redor?

Logo logo eles surgirão, quais cogumelos, nas imediações do descomunal ovo semi-enterrado que Niemeyer projetou para esconder a Catedral de Brasília, próximos ao CIEP que o arquiteto colocou detrás do Touring...

07 novembro 2006

A Última Esplanada



Comparação meramente formal entre a Última Ceia de Da Vinci e a nossa Esplanada dos Ministérios.

- Os dois edifícios do Congresso Nacional são a dualidade de Cristo - Homem e Deus -, que os bizantinos representavam como estrabismo ou como os dedos indicador e médio em riste;

- O vermelho e o azul de sua vestimenta podem também representar essa dualidade: a situação - homem, tentações, sangue, vermelho - e a oposição - Deus, Celestial, Azul (O PSDB está longe de ser divino, não me entenda mal...);

- A mão de Cristo com a palma para cima é a Câmara e a outra, com a palma para baixo, o Senado. A primeira recebe do alto (a voz do povo é a voz de Deus) e a segunda sanciona;

- As três janelas ao fundo são os três poderes; a trindade é o governo tripartite; o Legislativo é o Pai, que deu a lei aos homens, o Judiciário é Jesus, que julgará os vivos e os mortos, e o Executivo é o Espírito Santo, que age no mundo. Haveria aí uma contradição, pois nos itens anteriores comparei Jesus ao Congresso, o Legislativo. Mas também temos o Jesus que nos deu o mandamento "Amai ao próximo como eu vos amei", o Jesus que legislou;

- O Graal poderia ser a Catedral Metropolitana, que tem a óbvia forma de um cálice, mas está fora da cena (ou ceia);

- Como não poderia deixar de ser, os Apóstolos são os Ministérios; da direita para a esquerda são, se não me engano: Simão, Tadeu, Mateus, Filipe, Tiago (o Maior), Tomé, João, Judas, Pedro, André, Tiago (o Menor) e Bartolomeu. Fica difícil compará-los aos ministérios existentes, pois o número dos apóstolos de Lula supera em muito o de Cristo, e as sedes mudam constantemente. Contudo, me pergunto: Judas seria qual ministério? O de José Dirceu? Lula não citou nomes quando disse que se sentia traído;

- O pão e o vinho, a comunhão, deveriam ser a conexão do parlamentar com o povo. Mas essa idéia, hoje em dia, é surreal! Alguns acreditam que a Santa Ceia da Democracia está prestes a terminar, antes da sobremesa. Há mais Judas do que imaginamos por aqui.

Assim na Terra como no Céu

- Se a partir da perspectiva de um pedestre na Rodoviária vemos a Última Ceia, vista do alto Brasília é uma cidade crucificada, de braços abertos. As chagas nas mãos são os Setores Hospitalares Sul e Norte. Os pés são a Rodoferroviária, por meio da qual o povo vai e vem - o migrante, símbolo da chaga social chamada desigualdade. O Coração é o Setor Comercial Sul, a única área da cidade que manteve o espírito urbano tradicional, com esquinas, gente, confusão. A coroa de espinhos é o agressivo Mastro da bandeira, de Sérgio Bernardes. Acima da cabeça, qual firmamento, mui azul, está o Lago Paranoá. Acima do firmamento, as mansões do Lago. Abaixo dos pés, a maioria das cidades satélites (não, não são o inferno, he he). Apenas para os brasilienses: Quem falar na Torre de TV será excomungado;

- Finalizando, Brasília seria um "proxy" do Brasil. O Brasil tem a proporção de um corpo com os braços abertos, onde a altura - do Rio Grande do Sul ao Amapá (ou Roraima) - é praticamente igual à envergadura - do Acre a Pernambuco. O coração do Brasil "crucificado" é a própria Brasília, que recebe sangue do resto da nação e o bombeia de volta (em teoria). Bom, Amapá não é a cabeça do país, mesmo sendo representado no Senado pelo sapientíssimo autor de Marimbondos de Fogo. Toda comparação tem seus pontos falhos...

Marxismo do 7º dia do Advento do Petismo


Encontrei muitos pontos em comum entre a religião e o marxismo/petismo.

Alguns Deles:

- O Ideal: Bem contra o Mal
- O Paraíso: Sociedade Socialista
- O Inferno: Sociedade Capitalista
- O Juízo Final: Revolução Bolchevique
- O Messias: Marx
- O Evangelho: Manifesto do Partido Comunista
- O Livro do Apocalipse: O Capital (Marx)
- O Fundador da Igreja (o São Paulo): Lênin
- Os Santos: Trotsky, Che Guevara,
- A cruz: Foice e Martelo (estrela)
- A ovelha: O Trabalhador

E mais:

- Os Inquisidores: Fidel, Stalin, Mao
- O Padim Ciço: Lula
- O Marcelo Rossi: Frei Betto
- O animador do Segue-me: Ziraldo
- O Palestrina (missas e motetes): Chico Buarque
- O Templo: Boteco da esquina (capela), Sede do Partido (Igreja)
- Ofertório: Caixa Dois
- Fé: Fé
- Algum Obscurantismo: Muito Obscurantismo
- Dogmas: Dogmas
- Index: Censura à Imprensa
- Fariseus: Elites
- Gentio: Burgueses
- Filhos Pródigos: FHC, Paulo Francis
- Vendilhões do Templo: Privatizações
- Mártir: Perseguido pela Ditadura
- Pecado: Liberdade

Carta Capital: Leporello

Uma das primeiras coisas que Leporello canta na ópera de Mozart é "Voglio far il gentiluomo E non voglio più servir..." (Quero ser um cavalheiro e não quero mais servir).
A Carta Capital quer servir ao "empio non punito" enquanto Leporello não quer mais servir ao "empio punito" - alcunha de Don Giovanni (ou dissoluto).

Leporello até que é honesto e quase sempre diz a verdade (na cena do catálogo), sofre com o patrão, que seduz a sua esposa (ou namorada). Como ele apanha no lugar de Don Giovanni inúmeras vezes, Leporello pode ser a alegoria de todo primeiro escalão petista, que caiu no lugar do patrão.

Se a História tiver lição de moral e a vida imitar a ópera, o nosso Don Giovanni será tragado pelas chamas infernais no auge de sua arrogância.

Leporello, como não poderia deixar de ser, após a queda do patrão canta "Ed io vado all'osteria A trovar padron miglior" (vou para a cantina para encontrar um patrão melhor).

Mas a Carta Capital não ficará órfã. Encontrará seu futuro patrão nos botecos, as igrejinhas dos petistas.

Marchinhas da Posse

Na solenidade oficiosa de posse do Lula, durante o Carnaval, não podem deixar de tocar as marchinhas:

- Ó abre alas que eu quero passar (no dia da posse, Lula será um posseiro?)

- Você pensa que cachaça é água (só o Larry Rohter não poderá cantar)

- Chiquita bacana lá da Martinica Se veste com uma casca de banana nanica (ou seria uma sunga?)

- Mamãe eu quero mamar (nas tetas do Brasil)

- Se a canoa não virar olê olê olá Eu chego lá (ameaças de impeachment pós-dossiegate)

- Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí!(mensaleiros e governadeiros)

- A estrela d'alva no céu desponta (infelizmente, a estrela está lá novamente...)

- Taí eu fiz tudo pra você gostar de mim (populismo de um carismático)

- Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui (o Aerolula não será leiloado)

- Chegou a turma do funil (e do churrasco)

06 novembro 2006

Olhar Vulgar

Comentando post do Reinaldo Azevedo:
"Sunga, decoro, Mann e Musil":

Reinaldo, a moral é desejável, o moralismo, que exige uma moral absoluta, não.

Também me considero um conservador, mas tenho consciência que quase tudo é convenção. E algo só pode ser considerado errado (na verdade, crime) quando prejudica terceiros, como disse Stuart Mill. Para homens e mulheres uma tanga bastaria, aqui nos trópicos, e apenas por questões de higiene.

Quase tudo é convenção.

O islâmico defensor do véu pode usar um discurso semelhante ao seu, exaltando a poética de um rosto coberto ou semicoberto pelo véu em oposição às "prostitutas ocidentais", que deixam, além dos ombros e das pernas, a face à vista de qualquer um. Uma cabra coberta por um véu por aquelas bandas deve despertar nos homens desejos impronunciáveis.

No passado nos apaixonamos por misteriosas patas de gazela, pela dona oculta do sapatinho de cristal. Também o comunismo quando estava oculto atrás da cortina de ferro causava suspiros por aqui. E hoje é preciso ser cego para encontrar beleza naquilo.

Quem vê vulgaridade na nudez dos silvícolas?

Já uma pessoa coberta até o pescoço pode ser vulgar.

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Se os homens só existem para que possam honrar seus pais, até hoje apedrejaríamos adúlteras pelas ruas e escravizaríamos nosso semelhante. Com o passar dos anos muitos homens vão perdendo o verniz, que é o que amiúde esconde sua vulgaridade, seus preconceitos. Por isso é mais raro encontrar velhos sábios do que ranzinzas, preconceituosos e atrasados. Estes últimos apenas unem o útil ao agradável quando, não mais influenciados pelos hormônios da procriação e envergonhados de expor suas pelancas ao público, aderem ao discurso moralista, saudosos da época em que tudo ficava escondido.
Mas o Lula de sunga é dose. O estômago estufado de seus churrascos com seus cupinchas é uma agressão aos brasileiros (até aos que não se sentem agredidos).
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