20 Maio 2011

A mina de ouro está na planície

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Janer Cristaldo


Comentando em março passado as falcatruas da Máfia do Dendê, patrocinadas pelo Ministério da Cultura (MinC), afirmei que no Brasil, mal se puxa o fio de uma meada, vem um novelo junto. Que o diga Antonio Palloci, o atual ministro da Casa Civil, aliás já enrolado em falcatruas anteriores, como a chamada Máfia do Lixo e quebra de sigilo bancário de um pobre caseiro. Domingo passado, a Folha de São Paulo revelava que o petista, em apenas quatro anos, multiplicou por vinte seu patrimônio.

Em 2006, o ministro havia declarado à Justiça Eleitoral que tinha uma casa de R$ 56 mil em Ribeirão Preto, onde fora prefeito junto com a Máfia do Lixo. Além disso, tinha um terreno e três carros, entre outros bens, num total de R$ 375 mil. Entre 2006 e 2010, este patrimônio passou para cerca de R$ 7,5 milhões. Que incluem um apartamento de R$ 6,6 milhões, adquirido no ano passado, e um escritório de R$ 882 mil em 2009, ambos não no Planalto, mas na planície, em São Paulo. E depois ainda existem negativistas profissionais que acham que este país nosso não compensa quem trabalha.

Ora, homem nenhum investe cem por cento de seu patrimônio em um apartamento e um escritório. Obviamente, havia mais fio a ser puxado. Já na segunda-feira, surgiram as primeiras camadas do imbróglio. O Estadão noticiava que pelo menos mais cinco ministros do atual governo tinham empresas de consultoria que continuavam ativas em pleno exercício do cargo.

Hoje recém é sexta-feira e a Folha desenrolou o resto do novelo. O faturamento da empresa de consultoria de Palocci, a Projeto, foi de R$ 20 milhões em 2010, ano em que o atual ministro coordenou a campanha que elegeu Dilma. Não é que o patrimônio deste operoso consultor tenha se multiplicado por 20 em cinco anos. Multiplicou-se 56 vezes, apenas no ano passado.

Em documento que deve ser enviado hoje à Procuradoria-Geral da República, Palocci informa que trabalhou para pelo menos vinte empresas, incluindo bancos, montadoras e indústrias, e que boa parte dos pagamentos foi concentrada entre novembro e dezembro do ano passado quando anunciou aos clientes que não mais atuaria no ramo de consultoria.

A reportagem da Folha encontrou, no escritório do ministro, apenas uma única telefonista, que disse não ter a mínima idéia do que seu chefe fazia. Não havia sequer uma servente, para oferecer cafezinho a tão distinta clientela. Palocci é um virtuose em matéria de consultoria. Atende 20 empresas de porte sem os serviços de nem mesmo um assessor. Isso sem falar no trabalho na Casa Civil. É homem que deve viver estressado.

Folga para a irmã do irmão aquele, Ana de Holanda, do MinC, que há duas semanas autorizou a captação de R$ 1,9 milhão para a primeira turnê no Brasil da cantora Bebel Gilberto, sua sobrinha. A propósito, a titia tem um carinho especial pelos sobrinhos. Em março passado, o MinC liberou 1,3 milhão de reais para um projeto de produção de vídeos da musa da Máfia do Dendê, Maria Bethânia, dos quais 600 mil iriam para sua modesta poupança. Outra parte do dinheiro iria o produtor dos vídeos, o cineasta Andrucha Waddington. Sobrinho adivinhe de quem? Sobrinho da tia Ana.

Graças ao providencial escândalo envolvendo o ministro da Casa Civil, a ministra da Cultura sai da berlinda e das manchetes. Para blindar o ministro, o governo usou de uma truculência insólita. Na edição de hoje, o Estadão bota a boca no mundo.

“Nunca se viu em algum país civilizado, na vigência do regime democrático, o que o governo fez na manhã da quarta-feira para impedir que o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, fosse chamado a explicar ao Congresso como conseguiu multiplicar o seu patrimônio por 20 enquanto exercia mandato de deputado federal, entre 2006 e 2010. Cumprindo a sua parte na operação decidida na véspera no Palácio do Planalto, o líder do governo na Câmara, o petista Cândido Vaccarezza, acionou os serviços da Casa, com a provável cumplicidade da presidente em exercício, Rose de Freitas, do PMDB, para bloquear - pela força - o acesso dos membros de duas comissões legislativas permanentes às respectivas salas. (...) Numa iniciativa equivalente, no plano simbólico, ao fechamento do Poder Legislativo, políticos transformados em cães de guarda do principal quadro do governo Dilma Rousseff mandaram trancar os plenários das citadas comissões - e chamaram a Polícia Legislativa para, no papel de leão de chácara, barrar a passagem dos parlamentares”.

Tais abusos por parte do governo atestam mais do que nada o temor de uma convocação do ministro. Que está enrolado em um caso óbvio de tráfico de influência, advocacia administrativa e venda de informações privilegiadas. A presidente não tem ainda seis meses de governo e já tem sete ministros envolvidos em falcatruas. Uma média de mais de um por mês.

Para um ministro, ministério no Planalto é argent de poche. A mina de ouro mesmo está na planície. Pelo jeito ainda há muito novelo a desenrolar. E recém é sexta-feira.

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13 Maio 2011

A armadilha dos doutorados

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Janer Cristaldo


Em 2005, a Capes previa investir R$ 3,26 bilhões para aumentar o número de doutores por ano no Brasil. O Plano Nacional de Pós-Graduação apresentado ao então ministro da Educação, Tarso Genro, propunha a aplicação nos seis anos seguintes de R$ 1,66 bilhão a mais em bolsas e fomento de pós-graduação, o que permitiria passar dos 8.000 doutores titulados por ano para 16 mil em 2010. O plano “será acolhido integralmente", disse Genro na ocasião.

Se foi acolhido integralmente, não sei. Na época, falei da desmoralização do título de Doutor que, entre nós, se deve à universidade brasileira, ao distribuir doutorados a torto e a direito, como quem joga milho aos porcos. Não faltou quem protestasse. Que quem jogava milho aos porcos era a universidade francesa, com seus diversos doutorados, o Dr. Ingénieur, o Doctorat d’Université, o Doctorat de IIIe Cycle e o famigerado Doctorat d’État. Pode ser.

O missivista considerava que o único doutorado francês válido seria o Doctorat d’État. “Um doutorado na França é conhecido por doctorat d’Estat (sic!) e esse sim é equivalente o doutorado no Brasil. Lá existem vários tipos de doutorado, a maioria pode ser realizada em no máximo dois anos, à exceção do doctorat d’Estat (resic!), cuja duração é equivalente aos dos outros países – uns cinco anos. Quase todos os nossos intelectuais de esquerda fizeram um curso Troisiéme Cycle na França e se dizem doutores".

O ilustre especialista em doutorados – que escreveu sob pseudônimo – sequer sabia redigir corretamente a designação do título. Também ignorava que o Doctorat de IIIe Cycle se faz em quatro – eventualmente cinco – anos e que o famigerado doctorat d’Estat, como ele grafava , era feito em dez ou mais anos. O Doctorat de IIIe Cycle sempre foi reconhecido como doutorado em todos os países europeus. O d’État era tido como mais uma bizarrice dos galos.

Distorção da universidade francesa, servia como placebo ao desemprego, ao mesmo tempo que mantinha o doutorando afastado por uma boa década do mercado de trabalho. O candidato ao título desenvolvia teses monumentais, às vezes de quatro ou cinco volumes, que nem mesmo a banca julgadora lia na totalidade. Tais calhamaços ficavam entregues às traças e à poeira nas bibliotecas e a universidade francesa sequer percebia que delas poderia tirar algum lucro. Exportando para a Holanda, por exemplo, para fazer diques. O governo Mitterrand tomou consciência desta perversão acadêmica e a extinguiu. Agora existe apenas Doctorat, tout court.

Há horas venho afirmando que os doutorados são uma solene inutilidade. Ou melhor, uma armadilha acadêmica. Você faz um curso universitário e desemboca no desemprego. Para capear a adversidade, você se inscreve em mestrado. Mais quatro anos afastado do mercado de trabalho. Conclui o mestrado e de novo vê o breu pela frente. Seu professor, que precisa de doutorandos para cumprir sua carga horária enquanto folga em casa ou no Exterior, o convida para um doutorado. Você aceita, afinal está desempregado e a bolsa não é de se jogar fora. Mais quatro ou cinco anos fora do mercado.

Quando você vai ver, tem mais de trinta anos e nunca teve carteira de trabalho assinada. Em um país onde se tende a considerar que uma pessoa com 35 anos já é idosa, ou você tem pistolão na guilda e entra no magistério – para que a poleia sem fim dos doutorados continue rodando – ou vai talvez dirigir um táxi ou ser corretor de imóveis. Afinal, comer é preciso.

Isso sem falar no que chamei de mestrandos carecas. Entre as muitas anomalias da universidade brasileira estão os mestrandos quarentões. Aquela iniciação à pesquisa, pela qual o candidato deveria optar tão logo terminasse o curso superior, é adiada para uma idade em que do acadêmico já se espera obra consolidada. Pior mesmo, só os doutorados de terceira idade. Marmanjos de cinqüenta e mais anos, em idade de aposentar-se, postulando um título que só vai servir para pendurar junto com as chuteiras.

Mestrado não é para carecas. Já um doutorando, este deveria defender sua tese no máximo aos trinta e poucos, para que sua experiência em pesquisa possa ser útil ao ensino e à sociedade. Que mais não seja, é patético ver um homem já maduro humilhando-se, ao tentar iniciar-se em metodologias que devia desde jovem dominar. Isso sem falar em métodos que não passam de masturbação acadêmica, como ocorre na área das ditas Humanas. Na universidade brasileira, o doutorado nem sempre é visto como início de uma carreira, mas como louro a coroar a calva do acadêmico quando este está prestes a usar pijamas. Quem paga tais vaidades senis? Como sempre, o contribuinte.

Pelo jeito, os acadêmicos começam a se dar conta desta catástrofe. Acabo de receber artigo de Mark C. Taylor, presidente do departamento de religião da Universidade de Columbia em Nova York e autor de Crise no Campus: um plano arrojado para reforma das nossas Faculdades e Universidades (Knopf, 2010). Em seu ensaio, o professor considera que o sistema de doutorado nos Estados Unidos e em muitos outros países é insustentável e precisa de ser remodelado. Em muitos campos, ele cria apenas uma fantasia cruel de um futuro emprego, que promove o auto-interesse dos membros do corpo docente, em detrimento dos estudantes. A realidade é que existem poucos empregos para as pessoas que gastaram até doze anos em sua formação.

“A maioria dos programas de educação-doutoramento está em conformidade com um modelo definido nas universidades européias durante a Idade Média, em que a educação era um processo de clonagem, que treinava os estudantes para fazer o que os seus mentores faziam. Os clones já ultrapassam o número de seus mentores. O mercado de trabalho acadêmico entrou em colapso em 1970 e as universidades ainda não se ajustaram as suas políticas de admissão, porque precisam de estudantes de pós-graduação para trabalhar nos laboratórios e como assistentes de ensino. Mas uma vez que os alunos terminam o ensino, não existem trabalhos acadêmicos para eles.

Para o professor Taylor, só há duas saídas: reformar radicalmente os programas de doutoramento ou fechá-los. “A especialização levou a áreas de investigação tão estreitas que são de interesse apenas para outras pessoas que trabalham nos mesmos domínios, subcampos ou sub-subcampos. Muitos pesquisadores lutam para conversar com colegas do mesmo departamento, e comunicação entre departamentos e disciplinas podem ser impossíveis".

A bicicleta precisa continuar rodando. Milhões de teses no mundo todo, que já não cabem nas bibliotecas oficiais, precisam de anexos para serem guardadas. Guardadas para quê? Para juntar pó. Uma tese é algo que sai caro ao Estado. É preciso subsidiar os graduandos e os professores que os orientam. Deveria ter retorno aos contribuintes que, no fundo, são quem as financiam. Você já viu alguma tese publicada? Às vezes encontramos alguma, mas precisamos pagar por ela. O doutor recebe para redigi-la e depois cobra de novo para que seja lida.

Se o Brasil eliminasse hoje seus cursos de doutorado, não me parece que perderíamos grande coisa. (Vou mais longe: cursos de Letras, Filosofia ou Sociologia não fazem falta alguma). Os professores americanos parecem estar despertando para o problema. Como o Brasil adora importar modas ianques, seria salutar que esta postura chegasse até nós.

Mas não vai chegar. O Brasil prefere importar rock, blockbusters e outras mediocridades do Primeiro Mundo. Do melhor que acontece lá, Pindorama só quer distância.

PS – O artigo do professor Mark Taylor pode ser lido na íntegra em http://www.nature.com/news/2011/110420/full/472261a.html

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08 Maio 2011

Clotilde

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Janer Cristaldo


Lembras, Clotilde, daquele guri boca suja e sem respeito que fugia para o chircal quando chegavam visitas? E que só voltava do mato para exibir aos visitantes - especialmente se eram moças - seu vasto repertório de nomes feios? Eu já não lembro muito dele. Entre aquela época e hoje se passaram mais de trinta anos, que dão a impressão de trezentos. Mas sei que lembras dele melhor do que eu.

Me dá teu braço. Vamos passear pelos campos de Ponche Verde e Upamaruty. Rever a sanga onde pesquei minhas primeiras joaninhas. Os mundéus para onde mangueei perdizes. A sombra da parreira onde me ensinaste as primeiras letras. A cacimba em que me debrucei para beber a água gelada do manancial. Vamos passear em silêncio, não sou de muito falar. Sabes que no campo não se admite intimidades entre pais e filhos. Se hoje tenho a coragem de te falar, decerto é porque estou longe.

Olhando paras trás, tudo me parece sonho. Lembras de quando escarafunchavas meus pés arrancando rosetas e espinhos de tala e coronilha? Sinto saudades daqueles espinhos. Aquele cascão grosso que protegia meus pés é hoje uma pele fina, sensível até mesmo a grãos de areia. Forçado pelas convenções, ao pôr sapatos me sinto um pouco como cavalo ferrado. Mas a cidade assim o exige.

Me passa um mate. Vamos sentar na frente da Casa, ao lado da pedra onde Canário afiava facas e tesouras. Enquanto o sol vai caindo e as sombras avançam, como fantasmas tristes coxilha arriba, vamos corujar a primeira estrela, ouvir a canção dos grilos, ver as ovelhas se aprochegando em fila para o abrigo de uma canhada.

Não sei se imaginaste alguma vez as andanças futuras daquele guri xucro. Eu jamais imaginaria. Se, naquela época, me dissessem que há um país onde o sol não se põe, eu insultaria o mentiroso. E não é que um dia fui parar lá? E à meia-noite o sol ameaçava esconder-se, mas era só ameaça, continuava rodando quase paralelo ao horizonte.

Lembro de ti muitas vezes atrelando o tordilho à aranha. Li há algumas semanas, num jornal, a queixa de umas professoras rurais que tinham de ir à escola a cavalo. Gente boba, não é? Durante trinta anos, alfabetizaste duas gerações, graças ao tordilho. E nunca ouvi de ti queixa alguma.

Devo ter sido bom aluno, não é verdade? Uma das coisas que lembro muito foi daquele quinto ano primário. Tirei o primeiro lugar da aula. Foi barbada. Pra começar, só tinha dois alunos, eu e a Chica. Como viriam fiscais da cidade para os exames, e a turma não estava bem preparada, as professoras nos deram a prova num domingo, para decorar em casa. Não sou ruim de memória, respondi tudo em dois minutos.

Lembras da professora que pulou o alambrado atrás de nós, quando a aranha já descia o lançante da coxilha? "Espera, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade". Pois é! Mandaste o geninho pra cidade. Lá já foi mais difícil continuar sendo o primeiro da classe. As professoras jamais deram a alguém as provas antes do dia do exame. Resultado: no fim do ano, um monte de reprovações. Por isso que o ensino moderno anda em crise.

Mais um chimarrão antes de a gente terminar este passeio! Já está ficando tarde, tenho de voltar ao presente. Só há um lugar no mundo para onde sempre volto com o coração aos pulos: Ponche Verde. Qualquer dia estarei de novo aí. Não é por meu gosto que vivo nos povoados. Sabes, já faz alguns anos que não dou uma boa galopada nem vejo um nascer de sol. Há muito não ouço um galo cantar nem vejo galinhas ciscando o pátio depois de uma chuva. Já nem sei se formigas de asa existem ou são lenda. Esqueci o gosto de um tatu assado na casca. Bebo um leite de sabor desagradável que nada mais tem a ver com um apojo quentinho.

Virei bicho da cidade, mãe. Mas qualquer dia desses, o diabo sai de trás da porta, ato a mala nos tentos e me mando à la cria!

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05 Maio 2011

Abaixo da cintura, tudo é bônus

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Janer Cristaldo


O Supremo Tribunal Federal acaba de aprovar por unanimidade, com as fanfarras da imprensa, o reconhecimento da tal de união homoafetiva. A nova palavrinha designa o que antes chamávamos de homossexual. E ainda trouxe outra em seu bojo. O ministro Carlos Ayres Britto, relator do caso, pretende ter criado, por analogia, o neologismo heteroafetivo. Assim sendo, atenção à linguagem, leitor. Homossexuais não mais existem. Agora são todos homoafetivos.

Nada como a idade para ver as palavras mudarem. Sou do tempo dos antigos frescos, que assim se chamavam os homossexuais na geografia onde nasci. Bicha só surgiu mais tarde. Depois surgiu gay. Homossexual é bem mais antiga. Segundo meu Larousse, data de 1907. Já a encontramos em Proust: “Il n’y avait pas d’anormaux quand l’homossexualité était la norme”.

Proust se referia certamente à antiga Hélade, quando os gregos tinham uma hetaira para o prazer intelectual, um efebo para o prazer físico e uma mulher para a procriação. A “ousada” decisão do STF apenas nos remete a mais de dois mil anos atrás, quando o cristianismo ainda não havia decretado que prazer era pecado. A decisão tampouco inova em termos contemporâneos. Desde há muito, não há restrição alguma no Brasil às relações homossexuais. O que muda são alguns efeitos patrimoniais, como recebimento de herança, pensão e direitos previdenciários.

O Direito é o cadinho histórico dos costumes – aprendi em minhas universidades. Os tempos mudaram, e como! Sou da época em que o civilista Washington de Barros Monteiro vituperava contra o “asco indizível da felatio in ore”. Pois “mesmo no tálamo conjugal, a esposa ainda guarda resquícios de pudor”. Sou da época do tálamo. Hoje, para o ministro Ayres Britto, “o órgão sexual é um plus, um bônus, um regalo da natureza. Não é um ônus, um peso, um estorvo, menos ainda uma reprimenda dos deuses”.

Esqueceu de dizer que os órgãos sexuais só se tornaram reprimenda dos deuses após o advento do cristianismo.

O voto inaugural do ministro Ayres Britto está eivado de uma poesia extraordinária: “Em suma, estamos a lidar com um tipo de dissenso judicial que reflete o fato histórico de que nada incomoda mais as pessoas do que a preferência sexual alheia, quando tal preferência já não corresponde ao padrão social da heterossexualidade. É a perene postura de reação conservadora aos que, nos insondáveis domínios do afeto, soltam por inteiro as amarras desse navio chamado coração”.

De minha época, não era bem esse navio chamado coração que levava ao homossexualismo. Mas sim outras naves menos nobres. Sem falar que nunca ouve perene postura de reação conservadora em relação à prática. Em seu erudito voto, o ministro cita desde Platão a Max Scheler, de Descartes a Fernando Pessoa, de Hegel a Nietzsche, mas demonstra escasso conhecimento de história.

Não nos é desconhecido o costume dos antigos gregos de cultivar o amor de um efebo. Nos Diálogos de Platão – no Banquete, se a memória não me falha – vemos Alcibíades, um dos mais valorosos guerreiros do mundo helênico, flertando com Sócrates. Sexo era então prazer, não importa com quem. Foi o cristianismo, com sua filosofia puritana, que tornou o homossexualismo pecado – e mesmo crime – no Ocidente. A decisão do STF nos faz voltar aos dias do paganismo. Evoé Baco!

Em defesa da nova terminologia, o ministro diz que o vocábulo foi cunhado pela vez primeira na obra União Homossexual, o Preconceito e a Justiça, de autoria da desembargadora aposentada e jurista Maria Berenice Dias, consoante a seguinte passagem: “Há palavras que carregam o estigma do preconceito. Assim, o afeto a pessoa do mesmo sexo chamava-se 'homossexualismo'. Reconhecida a inconveniência do sufixo 'ismo', que está ligado a doença, passou-se a falar em 'homossexualidade', que sinaliza um determinado jeito de ser. Tal mudança, no entanto, não foi suficiente para pôr fim ao repúdio social ao amor entre iguais”.

Bem que eu desconfiava que cristianismo, catolicismo, marxismo, socialismo, espiritismo e outros ismos eram doenças. Pobre mortal, jamais consegui legislar sobre palavras. É com regozijo que vejo a emérita jurista participar de minha Weltanschaaung. Só me pergunto que palavrinha vão inventar quando homoafetivismo se tornar moeda corrente.

Enganam-se os ingênuos que consideram liberal a decisão do STF de reconhecer a relação entre pessoas do mesmo sexo como "entidade familiar" e conceder aos gays os mesmos direitos e deveres da união entre casais heterossexuais. O tribunal julgou duas propostas, uma delas de 2009, apresentada pelo procurador-geral da República, que pedia a declaração da "obrigatoriedade do reconhecimento, como entidade familiar, da união". O ministro Britto afirmou que o artigo 1.723 do Código Civil, que trata de "entidade familiar" e "união estável", não pode ser interpretado diferentemente para heterossexuais e homossexuais. Esse artigo diz: "É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família".

Ou seja, os senhores ministros não querem liberar o homossexualismo, mas enquadrar o homossexual. Acaba com essa vidinha de saunas, boates e darks rooms, ó vagabundo! Vai constituir família bonitinho e cumprir teus deveres conjugais. Sê fiel a teu marido ou marida e larga mão dessa libertinagem e devassidão, que alguns ainda insistem em chamar de liberdade. Queres direitos? Então trata de constituir família. Solteiro e livre, não tens direito nenhum. Esta é a mensagem do STF. Antes disto, os solteiros já haviam sido enquadrados. Hoje, se você namora uma moça por dois ou três anos, quando se dá conta está casado por força de lei.

Não imagine o leitor que encaro com simpatia a instituição do casamento homossexual. Por razões outras que não as do Vaticano, sou contra. Sempre vi o homossexual como um rebelde em relação às normas sociais. Homens ou mulheres, eram antes de tudo seres livres, alheios às formas com que o cristianismo moldou a sociedade. Havia algo de pagão no homossexualismo, de retorno a um mundo não contaminado pela idéia de pecado. Hoje, curiosamente, estes seres antes livres aplaudem uma decisão judicial que os leva de volta ao cárcere familiar. Deve ser saudades dos grilhões. Mais um pouco e teremos homoafetivos processando homoafetivos por infidelidade.

Hugo José Cysneiros, advogado da CNBB, criticou o reconhecimento da tal de relação homoafetiva e disse que uma decisão neste sentido poderia beneficiar pessoas que praticam a poligamia e o incesto. "Polígamos, incestuosos, alegrai-vos, eis ai uma excelente oportunidade para vocês", afirmou.

O ilustre advogado parece ignorar que tanto poligamia como incesto jamais foram tipificados como crime no Brasil. Se você casar no cartório com mais de uma mulher, poderá ser enquadrado pela lei. Mas se casar só com uma, pode ser polígamo à vontade.

Zapeando na televisão, vi nos últimos dias um trailer de um filme – ou talvez seriado – em que uma profissional de alto bordo oferece seus serviços a um executivo. Qual é o cardápio? – pergunta o cliente potencial. Podre de chique, ela responde:

- O cardápio é muito variado.

E abrindo a blusa, com gesto muito elegante, acrescenta:

- Abaixo da cintura, tudo é bônus.

Para o ministro Ayres Britto também. Longe de mim discordar disto. Mas jamais me ocorreria enviar pessoas livres para um cárcere.

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30 Abril 2011

Sobre Ernesto Sábato (I)

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Janer Cristaldo

(entrevista concedida à professora Inês Skrepetz)


Inês Skrepetz - Você acha que Ernesto Sábato é um intelectual humanista? Por quê?

Janer Cristaldo - Todo intelectual sempre se pretende um humanista. Tanto os marxistas cuja filosofia massacrou cem milhões de pessoas em busca do homem novo e da sociedade justa, quanto os nazistas que mataram outros tantos em nome da pureza racial. Sábato começou sua vida como militante comunista. Certamente se considerava um humanista naqueles dias. E certamente continuou se considerando humanista quando percebeu seu equívoco e passou a criticar o comunismo.

IS - O que você entende por humanismo no século XXI?

JC - Humanismo é uma palavra-ônibus, que transporta um monte de significados. Tentando cercar a palavrinha, peço auxílio a Ferrater Mora. Resumindo: a palavra foi usada a primeira vez em 1808, em alemão (Humanismus), pelo educador bávaro F. J. Niethammer, que entendia o conceito como a tendência a destacar a importância do estudo das línguas e dos autores clássicos. A palavrinha migrou para a Itália (umanista) para designar os professores das chamadas “humanidades”. Humanista era um homem ligado às artes liberais, ou seja, história, poesia, retórica, gramática e filosofia moral.

Na época atual, segundo Mora, fala-se de humanismo para designar também certas tendências filosóficas, especialmente aquelas nas quais se põe em relevo algum “ideal humano”. Como os ideais humanos são muitos, proliferaram os humanismos. Teríamos assim um “humanismo integral” (Maritain), um humanismo liberal, um humanismo existencialista, um humanismo científico e várias outras derivações. Algumas tendências humanistas priorizam a noção de “persona”, em oposição a idéia de indivíduo. Outras se caracterizam pela noção de sociedade aberta, em oposição à sociedade fechada. Outras, por destacar o caráter social do ser humano. Outras, por colocar em destaque que o homem não se reduz a uma função determinada, senão que é uma totalidade.

Afirmar que Sábato é um intelectual humanista, não é incorreto. Mas não quer dizer grande coisa.

IS - Na obra A Resistência, escrita em 2000 (p.100), Sábato faz uma reflexão crítica ao humanismo. Estaria ele negando ou buscando formular um novo conceito de humanismo?

JC - Deste caso específico não poderia falar. É o único livro dele que não li. De qualquer forma, como todo escritor, mais dia menos dia teria de abordar o assunto. Em entrevista que me concedeu nos anos 70, Sábato dizia que Marx foi um dos que mais lutou com seus livros contra a escravidão no mundo capitalista, especialmente na Inglaterra vitoriana com a qual conviveu, e tem partes filosoficamente de valor. “Também devemos reconhecer, frente ao homem abstrato de Hegel, alheio à terra e ao sangue, a frase de Marx : ‘O homem não é um ser abstrato, fora do mundo: é o mundo dos homens, do Estado, da sociedade’. Sua consciência é uma consciência social, enunciando assim um novo humanismo frente às enteléquias iluministas e racionalistas tipo Voltaire”.

Se Sábato rompeu com o comunismo, sempre lhe resta uma certa nostalgia do marxismo. Em Três Aproximações à Literatura de nosso Tempo, escreve: “Marx enuncia os princípios de um novo humanismo: o homem pode conquistar sua condição de "homem total" levantando-se contra a sociedade mercantil que o utiliza. Ele, como Camus, descendentes de Pascal, exerceram este mesmo humanismo áspero, essa mesma repugnância pelo engano e o auto-engano, para auscultar o homem conturbado pela grande crise de nosso tempo”.

Em Homens e Engrenagens, repele o antigo conceito de humanismo: “No momento em que o humanismo se extasia com a antigüidade, no momento em que faz de seu culto um jogo cortesão e refinado, torna-se conservador e reacionário: técnicos como Leonardo, os homens que melhor representam o espírito da modernidade, verão como charlatães esses senhores que passavam o dia discutindo na Academia, esses pedantes que haviam voltado as costas à linguagem popular para entregar-se à vã ressurreição do latim, esses presunçosos que haviam deixado de chamar-se Fortiguerra ou Wolfgang Schenk para converter-se, grandiosamente, em Carteromachus e Lupambulus Ganimedes. Desta forma, o humanismo passa do tema da liberdade ao tema do dogma, ao dogma da antigüidade. E da revolução passou à reação”.

IS - Qual a relação de Sábato com o existencialismo?

JC - Diria que nenhuma. O existencialismo é uma corrente filosófica e Sábato, embora discuta filosofia, nunca se pretendeu filósofo nem aderiu a qualquer doutrina. Mas há muito em Sábato, particularmente em Informe sobre cegos, de um movimento artístico do início do século, o surrealismo, influência de seu convívio com Oscar Dominguez e André Breton em Paris. Em Homens e Engrenagens, confessa: "Ali, em 1938, soube que minha fugaz passagem pela ciência havia terminado. Embora o doutor Jekill ainda medisse a radiatividade do actínio durante o dia, Hyde vagava noturno e solitário pelas ruas de Paris, ou começava a escrever as páginas de um romance catártico ou se revolcava na pura irracionalidade, promovendo escândalos com os pintores surrealistas. Como compreendi então o valor moral do surrealismo, sua força destrutiva contra os mitos de uma civilização finda, seu fogo purificador, mesmo apesar de todos os farsantes que se aproveitavam de seu nome!"

Mas, escritor atento a seu tempo, também se preocupou com o existencialismo. É ainda em Homens e Engrenagens que escreve: “Tanto que naquelas cidades nórdicas, formadas em torno das fortalezas feudais, o surgimento da nova civilização iria se realizar com atributos mais bárbaros e modernos, em cidades essencialmente mercantis, com as mais típicas características do capitalismo moderno. Mas ao mesmo tempo, paradoxalmente em aparência, seriam o berço das reações mais violentas contra a nova civilização: o romantismo e o existencialismo”.

Volta ao assunto em Três Aproximações: “O existencialismo, e em geral o romantismo, é a revolta dos elementos femininos da humanidade”.

IS - Para Sábato, seria o existencialismo um humanismo, como defendido na obra de Sartre?

JC - Estou hoje distante da obra de Sábato, em todo caso não lembro de ter lido nenhuma declaração sua neste sentido. Verdade que em "Sartre contra Sartre ou a missão transcendente do romance", um dos ensaios das Três Aproximações, o ensaísta argentino vai dedicar seu tempo a esmiuçar o pensamento sartriano. Mas sua preocupação não é o humanismo, e sim o fato de que, em abril de 1964 Sartre renegou sua obra de ficção, afirmando que um romance como A Náusea não tem sentido algum quando em alguma parte do mundo há uma criança morrendo de fome.

Sábato indigna-se com tal postura: “É quase inimaginável que um pensador do porte de Sartre tenha chegado a pronunciar por convicção teórica tal precariedade. E como em alguém de sua honradez intelectual é impossível a demagogia, não resta senão a hipótese sobre a oculta (e para ele culposa) antinomia que existe entre sua visão filosófica e sua militância política. Senão, como explicar de outro modo que um intelecto como o seu não observe que esta tese conduziria não só ao repúdio de um romance metafísico como também à extirpação da arte, da ciência pura e da filosofia em sua totalidade? De que modo pode salvar uma criança, nem tanto a música de Bach mas a teoria de Einstein ou a fenomenologia de Husserl? A aplicação conseqüente do critério sartriano nos obrigaria a renunciar às mais altas atividades do espírito para combater apenas por ideais políticos”.


Quanto ao existencialismo sartriano, Sábato é cheio de dedos. Escreve em Heterodoxia:

“O homem só tem fé no racional e abstrato, e por isso se refugia nos grandes sistemas científicos ou filosóficos; de maneira que quando este Sistema vem abaixo - como mais cedo ou mais tarde acontece - sente-se perdido, cético e suicida. A mulher confia no irracional, no mágico, e por isso dificilmente perde a fé, porque o mundo jamais pode revelar-se mais absurdo do que ela o intuiu pela primeira vez. o credo quia absurdum é feminino, como toda a filosofia existencialista (embora seja feita por homens; por homens, bem entendido, fortemente propensos à feminilidade). Racionalizar o universo e Deus é empresa tipicamente masculina, loucura própria de homens. Por esta razão, não creio no existencialismo de Sartre. Sua chave mais profunda deve ser buscada em seu primeiro romance, em sua náusea ante o contingente e gelatinoso, em sua propensão viril pelo nítido, matemático, limpo e racional. Sua obra filosófica é o desenvolvimento conceitual desta obsessão subconsciente. Este desenvolvimento leva fatalmente a uma filosofia racionalista e platônica”.

Ainda no mesmo livro: “Como a criança teme a escuridão, o homem teme o Caos Universal. (...) Uma vez lá, no refúgio de alta montanha, acabamos por almejar a vida, não obstante ou mesmo por sua sujidade e sua desordem, e assim voltamos do pensamento puro à vida e ao romance. O existencialismo é uma volta ao perigo e não se deve estranhar que suas palavras mais usuais sejam vertigem e angústia”.

Tampouco acredita na sistematização do existencialismo: “Jaspers precedeu Heidegger, Marcel precedeu Sartre. Mas não se acredita senão no sistemático. Por outro lado, sistematizar o existencialismo é tão espantoso como codificar o surrealismo, da maneira como Breton o fez, inaugurando essa espécie de Academia dos Bons Costumes no Inferno”.

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Sobre Ernesto Sábato (II)

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Janer Cristaldo

(entrevista concedida à professora Inês Skrepetz)


IS - Quem é Sábato para Janer Cristaldo?

JC - Foi um bom acontecimento em minha vida. Em Buenos Aires, certo dia, comprei Sobre Héroes y Tumbas. Fui a um bar, creio que na Lavalle com Suipacha, para um "trago largo". Abro o livro e me deparo com a nota policial que abre o livro: um crime e um suicídio ocorridos em circunstâncias misteriosas, frutos aparentemente de um gesto de loucura. Mas certas inferências conduziam a uma hipótese mais tenebrosa, em virtude de um estranho "Informe sobre Ciegos" que Fernando Vidal Olmos havia concluído na noite de sua morte.

Não interrompi mais a leitura. Mais ainda, comprei todos os demais livros do autor. Passei aqueles dias todos em Buenos Aires, mergulhado na leitura de Sábato. E ainda mais: comprei outros exemplares de cada livro para presentear amigos.

Em Abbadón, el Exterminador, encontrei esta mensagem jogada ao mar, dirigidas a "un querido y remoto muchacho".

"Te desanimás porque no sé quién te dijo no sé qué. Pero ese amigo o conocido (que palabra más falaz!) está demasiado cerca para juzgarte, se siente inclinado a pensar que porque comés como el es tu igual; o, ya que te niega, de alguna manera es superior a vos. Es una tentación comprensible: si uno come con un hombre que escaló el Himalaya, observando con suficiencia como toma el cuchillo, uno incurre en la tentación de considerarse su igual o superior, olvidando (tratando de olvidar) que lo que está en juego para ese juício es el Himalaya, no la comida. Y por eso tan pocas veces el creador es reconocido por sus contemporáneos: lo hace casi siempre la posteridad, o al menos esa espécie de posteridad contemporánea que es el extranjero. La gente que está lejos. La que no ve cómo tomás el café o te vestis”.

Isso foi em 75. Na época, eu andava um tanto desbussolado. Estava pensando em isolar-me do mundo e cheguei a fazer concurso para trabalhar em um farol na costa brasileira. Escrevia, mas sem muita convicção. Escrevi a Sábato, pedindo permissão para traduzir aquele capítulo de Abbadón. Enviei-lhe junto um artigo que escrevi sobre a descoberta de sua obra. Não tinha muita esperança de resposta. Para minha surpresa, uma semana depois, daquele homem que eu imaginava encerrado em algum hospício, com camisa-de-força, recebi uma afável carta.

Santos Lugares, 1 de agosto de 1975

Mil gracias, querido y generoso Cristaldo, por su hermosa carta, por sus buenos deseos, por todo. Y además por su artículo en el diário.

Espero que en próxima correspondência me envie algo de lo que escribe, aunque, lamentablemente, mi conocimiento del português es muy precário: puedo leer con pleno sentido um ensayo, pero difícilmente uma obra narrativa, en queel lengua es mucho más rico y sutil.

Lo que recomendo su amigo argentino (“Deixe de pesquisar Sábato e pesquise seu próprio interior”) es válido en algun sentido, no en outro. Entiéndame que no hablo de mi obra, pues podría ser la obra de todos los escritores que sobre usted han tenido y tienen influencia: el conocimiento de uno mismo pasa por el conocimiento de los demás, y particularmente por el de los seres que han ahondado en la condición del hombre; esa es la dialéctica existencial que nos rige y que Kierkegaard expresó diciendo, más o menos: “Más ahondamos em nuestro corazón, mas ahondamos em el corazón de los otros”. Y reciprocamente, cabría agregar. En lo su amigo tiene plena razón es que no debe limitarse a un autor.

Sí, mi obra no es conocida en Brasil. Pues la edición de EL TUNEL está agotada y no se reedito jamás. Y HEROES salió en Portugal. De la edición brasilera nada sé, pues parezco condenado por alguna maldición. Fuera de lo sobrenatural, hay algo muy simple: no pertenezco a ninguna logia o máfia literária, vivo en un Rincón del mundo y no tengo um agente literario como la senõra Carmen Balcells, que promueve casi militarmente las obras del grupo de Cortázar, Fuentes, V. Llosa y G. Márquez.
Qué le puedo hacer, así es mi destino. Hace tiempo que me he resignado a este destino de soledad, al queyo mismo me he condenado por mi independencia política e por mi resistência a apoyar movimientos de moda, tanto en lo político como en lo literário. Si relee la “carta a un remoto joven” lo comprenderá.

Si usted puede hacer algo para que esa misteriosa editorial brasilera Artenova acelere la edición de HÉROES, le quedaré muy agradecido. Em cuanto a lo que me propone com EL ESCRITOR Y SUS FANTASMAS, le mandaré pronto las pruebas de galera de uma edición totalmente rehecha, que es la que será traducida en algunos países europeus. Mientras tanto, te envio un librito mío como pequeño testimonio de profundo reconocimiento y de afectuosa amistad.

E. Sábato


Fiquei perplexo com a atenção que o escritor me concedia. Ao que tudo indicava, o homem não estava em camisa-de-força. Daí decorreu uma longa amizade, encontros em Santos Lugares, Buenos Aires, Paris e São Paulo. E uma correspondência de meia centena de cartas, de parte a parte. Quando me candidatei a uma bolsa em Paris, decidi que estudaria sua obra. Antes de partir, como tomava um navio em Buenos Aires, fui visitá-lo.

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Sobre Ernesto Sábato (III)

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Janer Cristaldo

(entrevista concedida à professora Inês Skrepetz)


O convite de traduzir toda sua obra ocorreu quando estava em Paris. Comecei com Sobre Héroes y Tumbas, retraduzi El Túnel e avancei por Abbadón e seus ensaios. Traduzir um autor complexo como Sábato - pelo menos que diz respeito à sua ficção – é sempre um desafio. Para mim era uma forma de unir o útil ao agradável. Se pretendia desenvolver uma tese sobre o argentino, a tradução me obrigava a lê-lo vírgula a vírgula.

A tradução de Sábato no Brasil teve muitos percalços. Os direitos autorais estiveram em mãos de pelo menos duas editoras, sem que nada fosse publicado. Sábato acabou assinando contrato com a Francisco Alves, do Rio e convidou-me para traduzi-lo. Eu estava terminando a tradução de Héroes, quando o professor Deonísio da Silva, da UFSCAR, me envia uma nota do Jornal do Brasil, que dizia este livro já estar em fase de impressão. Comuniquei-me com Sábato. Sua resposta:

11 de setiembre

Mi querido Cristaldo:

La condición que puse a Editora Alves es que se empleará su traducción o ninguna outra. Estoy esperando ahora la respuesta, pero sin duda será así. Estaremos en Paris desde el 1º de noviembre hasta el 10, em el Hotel d’Isly. Um abrazo muy fuerte y cariñoso para los dos,

E. Sábato


Sei lá que intrigas ocorreram, mas foram conjuradas. Meu orientador jamais ouvira falar nem do autor nem de sua obra. Depois de minha tese, escreveu um livro sobre Sábato e saiu a fazer palestras sobre ele na Europa. Ou seja, contribui um pouco para a educação de meu professor e para uma maior difusão de Sábato no velho continente.

Que representa hoje Sábato para mim? Foi uma boa experiência conhecê-lo, foi um belo desafio traduzi-lo. Foi um interlocutor fascinante e muito me honra ter merecido sua amizade.

IS - Dentro da sua autoridade como tradutor de Sábato, como você compreende a produção literária deste autor, tão marcada pelos seus romances e, no entanto, que produziu muito mais ensaios e críticas do que propriamente Literatura?

JC – É um dos mais importantes escritores latino-americanos, que por muito tempo foi sabotado pelas esquerdas, por ter ousado denunciar o comunismo. Houve época em que, ao falar-se em literatura latino-americana, dizia-se: Borges, Cortázar, Garcia Márquez, Vargas Llosa, etc. E só. Cheguei um dia a perguntar a Sábato se não estava escrevendo com o pseudônimo de Etc.

Tendo escrito apenas três ficções em sua vida, conseguiu um grande momento na ficção latino-americana, com Sobre Hérois y Tumbas. Mas cometeu um grave equívoco em Abbadón, ao fazer o hagiológio de um dos mais frios assassinos do continente, seu conterrâneo Ernesto Che Guevara. Pelo jeito foi uma recidiva de seus dias de marxismo. Em minha tese, Mensageiros das Fúrias, dediquei um capítulo a este capítulo do livro. Na época, eu considerava que um escritor, uma vez que toma um personagem histórico como personagem, tem todo direito de pintá-lo a seu modo. Hoje, não penso assim. Embarquei no equívoco do outro Ernesto.

Sábato nasceu em 1911, seis anos antes da Revolução de 17, que se pretendia a redenção da humanidade. Em sua juventude, não se tinha conhecimento dos crimes de Lênin e muito menos, mais tarde, dos crimes de Stalin. Estes só começaram a ser conhecidos em meados dos anos 30. Ora, em 1930, Sábato participava ativamente do Partido Comunista argentino.

Em 1934, começam suas discordâncias políticas e filosóficas com o marxismo, o que faz com que os dirigentes do partido o enviem às Escolas Leninistas de Moscou, mas antes deve participar do Congresso contra o Fascismo e a Guerra, em Bruxelas, presidido por Henri Barbusse. Encontra-se com dirigentes do mundo todo e confirma suas suspeitas, que culminam com o começo dos "processos" de Moscou. Decide fugir do congresso e vai para Paris, onde passa o inverno de 34-35 na clandestinidade e na miséria. Rompe com o Partido, que abandona lá por 35 ou 36, por ocasião das primeiras purgas de Stalin. Foi quando desceram do barco Camus, Koestler, Gide, Ignazio Silone, Louis Fischer, Stephen Spender, Richard Wright. Desde então, Sábato tem sido um crítico feroz dos regimes totalitários socialistas.

Foi um homem que viveu as contradições do século que percorreu desde o início. Foi honesto quando passou a militar no Partido e mais ainda quando o abandonou. Sua ruptura: "Enojado com a escravidão moral, intelectual e física que o stalinismo impunha, consciente do divórcio que provocava entre a realidade de nosso país e o regime soviético e, enfim, tendo tomado consciência de que muito pouco restava da teoria marxista na escolástica que se injetava na Rússia, inclusive com tortura e morte, acabei por deixar o movimento pelo qual havia abandonado família, estudos e segurança. Nos quase quarenta anos então transcorridos, jamais reneguei os ideais de justiça social e de liberação nacional, como creio ter provado através de minhas atitudes públicas".

É escritor que não morre. Sobre Héroes é definitivamente um clássico da literatura do continente.

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17 Abril 2011

Se meu apartamento falasse

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Janer Cristaldo


Em meus dias de universidade, li um estudo interessante de epistemologia sobre a interferência humana no conceito de acaso, de autoria de dois pensadores franceses, cujos nomes não mais lembro. Acaso é o imprevisível. Suponhamos que um belo dia se arma uma tempestade em Paris, fenômeno perfeitamente previsível pelos serviços de meteorologia. A tempestade produz um vendaval, coisa também previsível. O vendaval derruba uma telha de um telhado, algo também bastante previsível. A telha cai sobre uma pedra na calçada. Não falamos de acaso.

Mas digamos que M. Dupont estava com dor de dente e marcou no dia da tempestade uma consulta com um dentista. Providência mais do que previsível, necessária. M. Dupont vai a pé, já que seu dentista não fica longe de sua casa. Ao passar pelo prédio que foi destelhado, a telha cai sobre sua cabeça. Aí falamos em acaso. É a interferência imprevisível de duas séries de fenômenos, estes perfeitamente previsíveis. Mas depende da presença do ser humano. Sem ser humano no meio, não há acaso.

Costumo falar do único deus em que creio, o deus Acaso. Leitora me pergunta que deus é esse. É o deus do qual falei acima, o que derruba telhas na cabeça dos transeuntes. É o deus que tem regido minha vida. É deus geralmente generoso, que trata bem os que nele crêem. Se um dia saí das grotas do Upamaruty e Ponche Verde a correr mundo e hoje vivo em São Paulo, tudo é obra de sua vontade imperiosa.

Sua primeira ação em minha vida ocorreu há mais de meio século. Já contei, conto de novo. Eu tinha dez anos e estudava numa escola rural de Três Vendas, distrito de Dom Pedrito, situada justo na Linha Divisória. De um lado da estrada, Brasil. Do outro, o Uruguai. No quinto ano primário, com escassas noções de história ou geografia, fomos informados que professoras "da cidade" viriam fiscalizar as provas. Pânico total de nossas professoras.

Fora escrever e as quatro operações, mais alguns poemas cívicos, ninguém conhecia muita coisa além disso. Mas para tudo há solução. As provas chegaram numa sexta-feira. Numa época em que sequer havia rádio na região, fomos todos convocados – sei lá como, suponho que à pata de cavalo – num raio de léguas, para uma aula no domingo. Violadas as provas, recebemos as respostas para decorar.

Dia seguinte, as fiscais de Dom Pedrito constatavam, boquiabertas, a excelência pedagógica de nossas mestras. Os alunos escreviam tranqüilos, sem hesitar um segundo, foi nota dez pra todo mundo. Minha mãe era professora e claro que cúmplice. Mas não muito. Sempre exibiu uma vara de marmelo quando eu me recusava a estudar. Não só exibia como tampouco foi avara ao aplicá-la. Naquela segunda-feira, minha sorte estava selada. Findo o curso primário, bom em matemática, o máximo que podia aspirar era ser caixeiro nalgum bolicho das Três Vendas ou Ponche Verde, uma das poucas chances de escapar ao rabo do arado. Findas as provas, atrelei o tordilho à aranha. Uma fase havia terminado em minha vida. Voltava ao campo, talvez para lá morrer.

Dei de rédeas ao tordilho, a aranha já descia o lançante da coxilha. Foi quando Dona Ivone Garrido, a fiscal implacável, já de certa idade e não muito ágil, atravessou um alambrado de sete fios que cercava o colégio e gritou: "pára, Clotilde, teu filho é um gênio, ele não pode voltar para o campo". Minha mãe, que só queria ouvir isto, me tomou as rédeas das mãos e esbarrou o tordilho. Daqueles segundos geridos pelo deus Acaso – e aqui começa o mistério – decorrem minhas andanças e estas linhas.

Depois daquela distante manhã, a roda do acaso não parou mais de rodar. Certa vez, ao entrar em um escritório da Varig, em Amsterdã, uma mulher linda envolta em peles e com uma chapka lhe abrigando os cabelos me abraçou com carinho. Nossa, pensei, a Varig está fazendo de tudo para captar clientes. Nada disso. Era uma atleta carioca que passara duas ou três noites em meu apartamento em Porto Alegre, durante uns jogos universitários. Marcamos encontro em Genebra. Não deu certo. O deus Acaso não gosta de coisas combinadas.

Em Estocolmo, em 71, quando saía de meu curso de sueco, no Kungsträdgården, praça que em língua de gente quer dizer Jardim do Rei, encontrei em meio às neves uma gaúcha com a qual eu começara um namorico em Tramandaí, uns quatro ou cinco anos antes. Em Madri, ao sair de um meus botecos prediletos, o Gijón, tropecei com um bom amigo, um professor de história uruguaio da UFSC, Aníbal Aicardi Abadie. Continuamos normalmente uma charla interrompida alguns anos antes em Florianópolis. Repeti o que dissera fray Luís de León, em meados do século XVI, ao retomar sua cátedra na universidade de Salamanca, após cinco anos de prisão pela Inquisição: como decíamos ayer... Marcamos encontro em Barcelona. Também não deu certo.

Meu doutorado dependeu de obra de acaso. Eu ganhara uma bolsa de mestrado em Paris. Estava em uma fila na Sorbonne para inscrever-me no curso, quando encontro na fila M. Raymond Cantel, doyen da Sorbonne, que eu conhecera alguns anos antes. Perguntou-me que fazia ali. Estou me inscrevendo para um mestrado, professor. M. Cantel foi o responsável pelos estudos de literatura de cordel na universidade francesa. Veio ao Brasil em busca de traços de uma seita sebastianista. Não a encontrou. Mas voltou com dois mil livrinhos de cordel na bagagem. “Que é isso, meu filho? Tens currículo mais que suficiente para um doutorado. Te inscreve em doutorado”. Em questão de minutos, e por obra do deus Acaso, meu mestrado se transformou em doutorado. De minha banca, participou M. Paul Verdevoye. Tradutor de Martín Fierro ao francês, poema que embalou minha infância nos dias de Upamaruty.

Minha filha, de certa forma, é também obra do deusinho. Nasceu em Porto Alegre. Mas diria que foi gestada em Cannes. Eu fazia a cobertura de um festival de cinema e passava minha coluna por telefone. Quem a recebia era uma jornalista da Caldas. Daí surgiu a Primeira Namorada.

Naqueles dias de Paris, assinei crônica diária na Folha da Manhã, de Porto Alegre. Ao final da coluna deixava meu telefone e endereço. Correspondi-me com muitos leitores, mais precisamente leitoras. Entre elas uma advogada muito querida de Santa Maria. Trocamos fotos. Em abril de 1979, tive de voltar rapidamente ao Brasil. Encontrei-a ao tomar um ônibus para Santa Maria. Ela reconheceu-me pela foto. E ali mesmo, no ônibus, começou uma relação que dura até hoje.

Ano passado, fui visitá-la em Porto Alegre. Ela morava na Fernandes Vieira. Certo dia, ao sairmos de sua casa, me deparei com um restaurante na mesma quadra, o Zero de Conduta. Este cara já morou em Paris, disse a ela. Aí a seqüência causal é mais complexa.

Em meus dias de Filosofia, tive aulas por quatro anos com Gerd Bornheim, intelectual bastante conhecido em Porto Alegre nos anos 60. Foi cassado pelos militares em 69. Em 71, em minha primeira visita a Paris, hospedei-me no Grand Hotel Saint Michel, na rue Cujas, ao lado da Sorbonne. De Grand o Saint Michel nada tinha, era apenas um une étoile muito freqüentado por brasileiros, e gerido pela folclórica Madame Salvage. Consta que, em seus 70 anos, ela punha um cartaz na porta de seus aposentos:

GENEZ PAS! JE SUIS EN TRAIN DE FAIRE L’AMOUR

Certo dia, ao voltar de madrugada, quando fui pegar a chave, ergue-se de um catre uma calva ilustre e familiar. Era o Gerd, que trabalhava como porteiro da noite. Este foi o primeiro elo da corrente. Convidou-me para uma janta no dia seguinte. Fomos no Zero de Conduite, ali perto na Monsieur le Prince. O restaurante fazia homenagem ao filme homônimo de Jean Vigo e hoje não mais existe. Foi meu primeiro restaurante em Paris, onde tomei contato com esse delicioso queijo grego, o fetá. Ora, um Zero de Conduta em Porto Alegre só podia ser obra de quem vivera em Paris nos anos 70.

Antes de ir adiante, mais uma manobra do deus Acaso no Zero. O restaurante tinha uma grande mesa de madeira, para umas vinte pessoas, na qual os clientes iam sentando ao lado uns dos outros. Minha tese era sobre Ernesto Sábato. Certo dia, estou em meio a um pichet de rouge, relendo Sobre Heroes y Tumbas. A minha frente, senta-se uma menina com El Tunel em punho. Ali mesmo começou nossa relação. Era uma adorável poeta peoniana, tão altiva quanto seu conterrâneo, Alexandre, o Grande. Acabei por dedicar-lhe minha tese. Naquele almoço, o deusinho malandro estava agendando minhas futuras viagens a Dubrovnik, Skopje e Mljet.

Volto a Porto Alegre. Dois ou três dias depois, entrei no Zero de Conduta para uma cerveja. A bem da verdade, nem havia notado que era o Zero de Conduta. Havia uma pequena biblioteca no restaurante, onde encontrei vários livros em sueco, principalmente de culinária. Fui até o caixa. Quem fala sueco aqui?

- Jag – me respondeu o caixa.

Havia morado cinco anos em Estocolmo. Naqueles dias, eu estava publicando neste blog, em capítulos, minha tradução de Kalocaína. Falei de meu blog e passei-lhe meu cartão.

- Ah, és o Janer. Estive em teu apartamento em Paris.

Ele também estivera por lá, o nome de seu restaurante o atestava. Era o Marcos Estivalet, que me visitara com um jornalista gaúcho, o Alfredo Fedrizzi, naqueles distantes anos 70, em meu studio na Brillat Savarin.

Mas comecei prometendo falar de meu apartamento. Deste onde moro desde 2001. Aqui a série causal é também complexa. Começa, eu diria, nas ilhas gregas. Lá por 77 ou 78, eu navegava de Mykonos para Santorini. Eram dias em que eu não queria ver brasileiro por perto. Não havia ido para Paris para conviver com os patrícios. Foi então com certo horror que vi, em pleno Egeu, a Baixinha conversando com um casal de brasileiros.

Vai daí que acabamos nos relacionando. Graças a eles, entrei em contato, em Paris, com os brasileiros da Maison du Brésil. Graças a eles, encontrei também amigos com os quais mantive bom convívio. Entre estes, Silvia Ricardino, harpista. Que acabou voltando a São Paulo, cidade em que, na época, eu jamais imaginava morar.

Hoje, cá estou. Quando me mudei para cá, falava para minha amiga harpista de meu novo endereço. Moro na São Vicente de Paula, naquele prédio de tijolinhos. No prédio de tijolinhos? Muito freqüentei aquele edifício. Em que andar?
- Oitavo.
- Oitavo? Não pode ser. Eu freqüentava um apartamento no oitavo. Em qual bloco?
- No bloco frente à portaria, nos fundos.

Era o mesmo apartamento que ela freqüentava, quando sequer imaginava que um dia viveria em Paris. Um dos proprietários deste apartamento foi um dentista, não diria melômano, mas que cultivava a música erudita e reunia em torno a si os cultores da boa música. Convidei então a Sílvia a voltar a seus dias de juventude.

Ora, direis, a vida é isso mesmo, uma seqüência de acasos. Pode ser. Mas penso que acaso exige distância. Cruzar todos os dias com os vizinhos de seu bairro não vale. Não está na faixa do acaso, mas da necessidade. O mesmo se você vive em uma pequena cidade e nunca saiu dela. Vai cruzar todos os dias pelas mesmas pessoas. Destas andanças, extraí uma lei, que chamo de a Lei de Cristaldo: todos os encontros são possíveis. Desde que você não permaneça parado no mesmo lugar.

Meus atuais vizinhos de parede-meia são um maestro e uma mezzo soprano. Muitas vezes acordo com os trinados da moça. Tens sorte que não é uma soprano, me adverte a Sílvia. Pode ser. Mas penso que nada teria contra uma soprano.

Se meu apartamento falasse, muita música teria a contar.

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28 Março 2011

A volta do turista marsupial

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Janer Cristaldo


Comentei há dois ou três dias o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para as compras feitas em cartão de crédito no Exterior. A medida foi publicada hoje no Diário Oficial da União. O estrangeiro ficou 4% mais caro para todo brasileiro. Se antes você pagava 2,38 reais por 100 reais gastos, hoje você passa a pagar 6,38. Em mil reais, pagará 63,80. Em dez mil, que é uma despesa viável em cartão de crédito para uma viagem, pagará 638 reais. Quase a metade de uma passagem de ida e volta a Paris.

Além do absurdo pago pela taxa de embarque – uma das mais caras do mundo – você marchará com mais essa contribuição para o governo assistencialista do PT. O aumento do imposto visa conter o consumo. Conter, lá fora. Aqui, você pode consumir com gosto. Mal surge uma brecha para o cidadão viajar e comprar barato, o governo interfere na economia para proteger os caros preços nacionais.

Se ainda existe memória neste país, quem costuma viajar deve lembrar dos dias da ditadura militar em que havia limitação para as divisas que um turista levava ao exterior. O limite era mil dólares, quantia que mal pagava dez dias de hotel no estrangeiro. Sem falar que, quando se viaja, é preciso comer. A lei era de uma hipocrisia escancarada, pois nenhuma autoridade acreditaria ser possível sobreviver uma semana no exterior com mil dólares. O recurso era então levar dólares na barriga.

O viajante brasileiro assumiu uma condição de marsupial. Os dólares não eram levados exatamente na cueca, mas em cintas improvisadas de tecido, com um bolsinho para os dólares. Eu gostava daquelas guaiacas de couro que se comprava na Argentina, um cinturão com divisões internas. Com o tempo, me tornei mais criativo. A cada calça que comprava, pedia ao lojista que a munisse de bolsos internos.

Todo brasileiro de minha idade, que um dia teve de viajar, em algum momento usou este recurso. Hoje é mais simples. Leva-se VTMs ou travellers-cheques, sem limitação de quantidade, ou cartões de crédito. Mas eu vivi minha fase de dólar, não digo na cueca, mas pelo menos na barriga. O que dava à viagem uma certa insegurança. Se você tem travellers ou VTMs, recebe um comprovante de compra que lhe permite resgatá-los, caso você seja roubado ou perca os mesmos. Se for roubado ou perder papel-moeda, não há como recuperá-lo.

Mas esta permissão para mil dólares permitia alguma vantagem, pelo menos aos fronteiriços. Havia uma distância considerável entre o câmbio oficial e o paralelo. Ora, a República Oriental del Uruguay é exterior e Porto Alegre não fica longe. Saía em conta pagar um vôo até Montevidéu, enviar mil dólares, recebê-los em um banco uruguaio e voltar. A viagem estava paga e ainda sobrava grana. Em Porto Alegre, houve quem fretasse aviões com prostitutas, que davam um giro pela 18 de Julio e voltavam no mesmo dia, com a bolsa cheia de dólares.

Claro que não deixei de aproveitar a janela. Certa vez, fui com a Baixinha a Buenos Aires. Ou seja, dois mil dólares no câmbio oficial. Mandei-os para o Uruguai, onde podia pegar a remessa em dólares. Em Buenos Aires, troquei-os no câmbio negro. Passamos uma semana na Argentina, comendo, bebendo bem e ainda comprando algunas cositas más, pelo preço de dois jantares em Porto Alegre.

Essas diferenças cambiais sempre favoreceram viagens, inclusive na Europa. Nos dias em que vivi na Suécia, era mais barato passar um mês nas ilhas gregas, hotéis, viagem e comer e beber incluídos, do que ficar uma semana em Estocolmo. Havia estudantes suecos que deixavam de visitar os país no próprio país, para economizar na Grécia.

Três coisas eram muito baratas em Atenas e nas ilhas gregas para um sueco: comida, álcool e dentistas. O preço das bebidas na Grécia era algo inacreditável para os Svensons, que pagavam pesados impostos para comer e beber no próprio país. E o dos tratamentos dentários também. Como não eram incluídos nos seguros de saúde na Suécia, viajar para tratar dos dentes era salutar para o bolso. Nas ruas das cidades de Creta, Lesbos ou Mikonos, as placas mais freqüentes eram: sprit e tandläkare. Álcool e dentistas, em sueco.

Quando resolvi renunciar ao paraíso nórdico e descer rumo ao Brasil, pensei em pegar um trem até Barcelona, onde embarcaria no Eugenio C, hoje desarmado. Não lembro muito bem dos preços exatos, mas a viagem de trem até Paris – em segunda classe, o que não é desconfortável na Europa - era algo em torno de 290 coroas. Doze dias em Palma de Mallorca, com hotel, meia pensão, e vôo de ida e volta, me custariam 300 coroas. Não hesitei um segundo. Mais ainda, vendi minha passagem de volta a Estocolmo a um cozinheiro dinamarquês por cem coroas e meus doze dias de Baleares custaram apenas um terço de uma viagem de trem a Paris.

Eram os dias da disparidade de moedas na Europa. Dias das coroas, marcos, francos, liras, pesetas. (Ainda as guardo em uma jarra de vidro). Com o euro, a festa acabou. De qualquer forma, um hotel sempre será mais barato em Lanzarote do que em Tromsø. E o vinho sempre custará mais barato em Roma, Paris ou Barcelona do que em Estocolmo ou Oslo.

Dona Dilma está tentando acabar com a fugaz festa dos brasileiros. Sua mensagem é: abandone essa mania de viajar. Afinal, como dizia Afonso Celso, “não há no mundo país mais belo do que o Brasil. Quantos o visitam atestam e proclamam essa incomparável beleza. Dentro do enorme perímetro brasileiro, encontra-se tudo o que de pitoresco e grandioso oferece a terra”.

Para que viajar então? “Em nenhuma outra região, se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora: o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes: as estrelas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres: os horizontes, ou nasça o sol ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos são as mais puras... A formosa variedade de suas formas, na desconcertada proporção dos montes, na conforme desunião das praias, compõe uma tão igual harmonia de objetos que não sabem os olhos onde melhor possam empregar a vista”.

Fique na pátria amada, leitor. Enfrente, em nome do amor ao Brasil, os caros preços do Rio, São Paulo, Recife, Salvador, Curitiba, Porto Alegre. Pague em um restaurante brasileiro metido a besta o triplo ou mais do que você pagaria em uma boa casa em Paris. Dona Dilma, coerente com suas origens, está usando os recursos dos países totalitários do século passado, do Brasil da ditadura militar inclusive: impedir, ou pelo menos dificultar, as viagens ao estrangeiro.

Mas ainda há uma brecha. O IOF para travellers checks e compra de moeda estrangeira continua sendo de 0,38%. Volte à condição de turista marsupial. Em vez de cartão de crédito, leve dinheiro na barriga.

Mas faça isto logo. Se bem conheço os bois com que lavro, a sanha fiscal do governo vai logo fechar esta última janela.

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27 Março 2011

A Alemanha e o Titanic

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Janer Cristaldo


El País comentou há pouco, em tom despectivo, o livro Deutschland schafft sich ab (A Alemanha se destrói), de Thilo Sarrazin, ex-diretor do Bundesbank e membro do Partido Socialdemocrata Alemão (SPD). Seis meses após seu lançamento, o livro se converteu em um caso editorial sem precedentes e vendeu 1,2 milhão de exemplares em apenas seis meses.

E não por acaso: o autor acusa os imigrantes turcos e alemães de constituírem “o coração do problema”, devido à sua escassa integração e sua dependência massiva das ajudas sociais. Em 2009, às vésperas do 20º aniversário da queda do Muro, dizia Sarrazin:

“A integração requer um esforço por parte de quem quer se integrar. Eu não respeito quem não quer fazer este esforço. Não tenho porque reconhecer aqueles que vivem das ajudas públicas, mas negam a autoridade do Estado que as outorga, não educam seus filhos e produzem constantemente mais meninas com véus. Isto vale para 70% da população turca e 90% da população árabe em Berlim”.

Sarrazin, por afirmar o óbvio, foi acusado de racismo. Foi absolvido da acusação, mas perdeu seu emprego no Bundesbank e está por ser expulso do SPD. Embora interprete o pensamento da maioria dos alemães – prova disto é a espantosa vendagem de seu livro – provocou a ira das esquerdas que herdaram o ódio de Marx à Europa e tentam destruí-la. Se o marxismo falhou nesse intento, quem sabe o Islã tem sucesso.

Para Sarrazin, a “Alemanha tem, desde os últimos 40 anos, uma taxa de nascimento de 1,4 criança por mulher; isto significa que a população alemã se torna cada vez menos a cada geração. A Espanha, apesar de anos de retardamento, tem o mesmo problema com os nascimentos. Ao mesmo tempo, a natalidasde se distribui na Alemanha de maneira irregular nos distintos níveis de educação. Isto significa que os estratos sociais menos instruídos obtém uma maior média de nascimentos, e por esta razão o potencial da Alemanha se anula ainda mais rapidamente que a população. Em terceiro luga, o tipo de imigração que temos não é o adequado para resolver os problemas que nos afetam. Agora necessitamos apenas de trabalhadores qualificados. Se a taxa de nascimento dos imigrantes incultos, procedentes da Turquia e África, segue constantemente em alta, em poucas gerações a Alemanha terá uma maioria de população turca, árabe, africana e muçulmana”.

O que é óbvio. O que o autor está dizendo, no fundo, é que os imigrantes das zonas pobres do mundo ameaçam baixar o nível médio de inteligência de um país tão culto e desenvolvido como a Alemanha, como constata o próprio jornalista de El País. Mas o óbvio não convence o repórter:

- Quando olhamos para a Alemanha, não se vê por nenhum lado que a situação seja tão dramática...

Responde Sarrazin:

- A gente que bebia no bar do Titanic tampouco se dava contas de nada: a orquestra tocava, todo mundo estava bem, e nas primeiras horas ninguém notou o problema. Apesar disto, estavam condenados à morte, porque a água continuava entrando na nave.

Esta preocupação está longe de ser nova. Há mais de três anos, comentei Os últimos dias da Europa, no qual o historiador alemão Walter Laqueur analisa os problemas da imigração africana e muçulmana na França, Alemanha, Reino Unido e Espanha. Para dar uma idéia do livro, vou ater-me ao Estado alemão que, a crer-se no relato do autor, rendeu-se definitivamente à barbárie islâmica.

Os alemães começaram a receber turcos na segunda metade dos anos 50, em virtude de falta de mão-de-obra. Eram os gastarbeiter – trabalhadores convidados – que acabaram sendo hóspedes definitivos. Nos anos 70, a migração prosseguiu. Muitos pediram asilo político, quando em verdade fugiam das condições econômicas de seu país.

Os assistentes sociais “mostraram aos turcos como manipular a rede de seguro social, ou seja, como tirar o máximo de ajuda financeira e de outros tipos do Estado e das autoridades locais, dando um mínimo de contribuição ao bem comum”. O mesmo, diga-se de passagem, ocorreu na Dinamarca. Assistentes sociais adoram subdesenvolvidos. Ao contrário dos que imigraram para a França ou Grã-Bretanha, que de alguma forma arranhavam o francês ou o inglês, os turcos não falavam alemão e se isolaram em seus guetos. Seus filhos podiam até ir para as escolas alemãs, mas as filhas não podiam participar de atividades esportivas, excursões com as turmas ou aulas de biologia em que se falasse de sexo. “Insistiam no ensino islâmico na escola e ia aos tribunais para garantir seus direitos. Por fim, conseguiram.

As autoridades alemães contrataram professores de religião, em sua maioria estrangeiros fundamentalistas e que que ou não falavam alemão ou tinham um domínio mínimo do idioma”. Como as autoridades alemães achavam que o ensino religioso devia ser ministrado em alemão, a isto se opuseram as organizações religiosas turcas e o próprio governo da Turquia. “Os tribunais alemães, na dúvida, decidiam em favor dos muçulmanos. Rejeitavam as denúncias de não-muçulmanos com relação ao barulho provocado pelos alto-falantes das mesquitas, que amplificavam as convocações e preces dos muezins”.

As conquistas turcas avançaram. Metin Kaplan, um criminoso turco condenado a quatro anos por incitamento ao assassinato, recebeu da cidade de Colônia mais de duzentos mil euros a título de assistência social. A Milli Goerus, organização turca incrustada na Alemanha, tem como projeto um país que viva segundo as estritas leis do Islã, mesmo que para isso seja preciso fazer certas concessões até que os muçulmanos constituam maioria. O grupo tem em torno de 220 mil militantes e dirige cerca de 270 mesquitas na Alemanha. “Ela visa substituir a ordem secular no país em que vivem por uma outra baseada na sharia – a lei islâmica – , primeiramente naquelas regiões em que os muçulmanos são maioria, ou uma minoria representativa, e posteriormente à medida que seu espaço se expanda”.

Laqueur nos traz relatos insólitos dos bairros de Kreutzberg, Wedding, Neukoelln e outros habitados por turcos. Neles existem bancos, agências de viagem, lojas e consultórios médicos turcos. “Rapazes param as pessoas nas ruas e lhes dizem que, se não são muçulmanas, devem deixar as redondezas. As crianças alemãs têm sido expulsas de playgrounds. Na escola, os não-muçulmanos são pressionados a jejuar durante o ramadan, as garotas não-muçulmanas são coagidas a usar roupas parecidas com as das garotas muçulmanas ou, pelo menos, saias, calças ou camisetas que não sejam consideradas indecentes. Pais de estudantes tiveram conhecimento de que, sejam quais forem as orientações que a escola lhes dê, a mesquita e suas aulas têm sempre a prioridade”.

Ou seja, tá tudo dominado – comentei na ocasião. Os alemães já não mandam mais no próprio país. Seus próprios filhos têm de submeter-se a evitar determinados bairros e aos costumes islâmicos. E a Alemanha continua convidando muçulmanos para seu leito. A Lei de Cidadania de 2000 tornou mais fácil para os turcos obter a cidadania alemã. “Cerca de 160 mil têm se beneficiado anualmente desse direito”. Não bastasse isto, o governo alemão gasta atualmente cem milhões de euros por ano para promover a integração… com o inimigo.

A situação na França, Reino Unido e Espanha não é menos alentadora. Laqueur já aventa a possibilidade de regiões binacionais autônomas na França. Os muçulmanos poderiam fazer concessões com relação à sharia, e as autoridades francesas poderiam desistir do velho modelo republicano, com uma clara divisão entre Igreja e Estado. Em meio a isso, os judeus que se cuidem. Talvez muito em breve sejam forçados a um novo êxodo do velho continente.

Se a Europa, como a conhecemos, afundar, não terá sido por falta de alertas. Enquanto isso, leitor, siga o conselho que não canso de repetir: visite a Europa antes que acabe. Nossos netos não terão essa ventura.

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20 Março 2011

Jornalista da FSP e cineasta gaúcho defendem Máfia do Dendê

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Janer Cristaldo


Em indignado artigo na Folha de São Paulo, jornal que pretende ter o rabo preso com o leitor, o articulista Fernando Barros e Silva, tão Catão quando se trata de acusar os mensaleiros, tomou agora a defesa da Máfia do Dendê, que tomou de assalto o Erário. E acusa de “macarthismo chulé” as pessoas que se escandalizam com o assalto dos baianos ao bolso do contribuinte.

“Ninguém desviou dinheiro público, não há, rigorosamente, nenhum crime, nenhuma ilegalidade no pleito de Bethânia”, escreve o jornalista. Em sua afirmação, engana o leitor e ao mesmo tempo não se engana. Que desviou dinheiro público, desviou. Renúncia fiscal é imposto desviado do Fisco. Mas Barros e Silva está correto quando afirma que não há, rigorosamente, nenhum crime, nenhuma ilegalidade no pleito de Bethânia.

É velha safadeza de sofistas sem argumentos sólidos criar argumentos frágeis, que não existem nem foram empunhados, para melhor refutá-los. Pode ser que algum leitor desavisado, desses que confundem ética com Direito, tenha afirmado que a captação é ilegal. Mas nenhum articulista que se preze faria tal afirmação. Não faria nem fez.

Ilegal nunca foi. É imoral. Direito é uma coisa, ética é outra. Os baianos enfiaram a mão na bolsa do contribuinte seguindo rigorosamente o que prescreve a lei. Roubaram legalmente. Não poucas leis brasileiras permitem o roubo legal. Pois só pode se definir como roubo captar dinheiro público para financiar shows, DVDs ou blogs de artistas que são milionários.

Barros e Silva introduz um novo conceito de macarthismo. Se originalmente eram macarthistas os que perseguiam os comunistas nos Estados Unidos, no Brasil é macarthista quem defende seu bolso. Eu que defendo o que é meu, tu que defendes o que é teu, nós que defendemos o nosso, somos todos macarthistas chulés. O articulista da Folha, pelo jeito, tem o rabo preso com a Máfia do Dendê.

Não bastasse o jornalista paulistano tomar a defesa dos mafiosos baianos, do Rio Grande do Sul ergueu-se uma voz indignada contra esta insólita pretensão dos contribuintes de defender o próprio bolso. Em seu blog, o cineasta Jorge Furtado, outro freguês de livreta da renúncia fiscal, fala em preconceito contra os nordestinos. “Nas críticas sobram piadas contra os baianos, quase todas vindas do mesmo gueto branco direitista no enclave paulista, enfim, os eleitores de Kassab e Serra, gente que lê e cita a revista Veja e beija imagens de santo para ganhar voto e acha que poesia é uma besteira”.

Como se fossem os eleitores de Serra e Kassab os únicos que se indignam com a imoralidade dos baianos. Como se Bethânia fosse uma negra, atraindo o ódio racial do gueto branco direitista. Como se poesia fosse projeto de algum poeta para a baiana faturar 50 mil reais por mês em cima de quem faz poesia. O poeta não ganha nada, a intérprete ganha salário de executivo americano com a poesia alheia. Depois do macarthismo chulé, temos nova trouvaille no imaginário nacional, o gueto branco direitista.

O achado nem é original. Foi cunhado pelo ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, em 2006, quando afirmou que o problema de violência no Estado só será resolvido quando a "minoria branca" mudar sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa". Claro que ninguém ousou acusá-lo de racismo. Daí derivou a expressão “elite branca”, que criminalizou no país quem quer que não fosse negro. Lembo, que é branco, excluía-se, é claro, dessa elite perversa.

Jorge Furtado é o autor de Ilha das Flores, curta de 1989 que pretende seguir a trajetória de um tomate plantado, colhido, transportado e vendido num supermercado, mas que apodrece e acaba no lixo, sendo catado por animais, mulheres e crianças. Pertence àquele gênero de documentários em que o personagem, no caso o tomate, é dirigido pelo autor. O filme é demagógico e conseguiu enganar as esquerdinhas européias, que lhe concederam um prêmio no Festival de Berlim de 1990. O muro recém havia caído e o júri, pelo jeito, ainda não se dera conta do acontecido.

Assim como os virtuosos canhões do Potemkin, no filme de Eisenstein, só atingiam os pérfidos burgueses no porto de Odessa, o tomate de Furtado se dirige célere ao lixão da Ilha das Flores, onde tem um encontro marcado com os famintos de Porto Alegre. Ator disciplinado, o tomate protagonista do “documentário” obedece cegamente ao comando do diretor do filme.

Furtado, após ter ganho galões junto às esquerdas com seu filmeco mentiroso, alugou sua verve revolucionária à Rede Globo. Subsidiado pelos tais de incentivos à cultura, sai agora em defesa dos colegas de mordomias. Como dizia Hernández, nos conselhos do Viejo Vizcacha:

Lo que más precisa el hombre
Tener, según yo discurro,
Es la memoria del burro,
Que nunca olvida ande come.

Como o burro de Fierro, Furtado não esquece onde come. Empunhar chavões como bandeira é genético na família Furtado. Em meados dos 70, sua mãe, a deputada Dercy Furtado, fez heróico discurso na Assembléia Gaúcha, empunhando o chavão libertação da mulher: “é chegado o momento de a mulher assumir seu lugar na História”. Na época, eu cronicava em Porto Alegre. “Eu preferiria, deputada, que a mulher assumisse sua conta nos bares”. Assumir o lugar na História é barbada. Assumir a conta nos bares já é bem mais complexo. Minha crônica provocou escândalo entre as gaúchas. Era época em que mulher nem sonhava em puxar a carteira em um bar. Hoje, o filho da mãe assume a bandeira esfarrapada do racismo, para condenar pessoas que se sentem mal quando são roubadas.

Não bastasse isto, a imprensa revelou que outro capo da Máfia do Dendê, Gal Costa, pediu e conseguiu a aprovação do Ministério da Cultura para captar 2,2 milhões de reais via Lei Rouanet para a realização ainda este ano do projeto Tom de Gal, com suas interpretações para músicas de Tom Jobim.

Serão oito shows (no Rio de Janeiro, São Paulo, BH, Curitiba, Porto Alegre e Salvador) que depois serão empacotados num DVD. E palhaços, que tiveram a carteira batida antes dos espetáculos, é o que não faltará para aplaudi-la.
Brasil merece.

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
O Ministério da Cultura, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.

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17 Março 2011

Máfia do Dendê volta a assaltar cofres públicos

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Janer Cristaldo


Na Folha de São Paulo, edição de ontem, Mônica Bergamo publicou uma dessas notícias cujos protagonistas prefeririam não ver na imprensa. A cantora Maria Bethânia conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog. A idéia é que o site "O Mundo Precisa de Poesia" traga diariamente um vídeo da cantora interpretando grandes obras.

Não é de hoje que a chamada Máfia do Dendê vem metendo a mão no bolso do contribuinte. Em 2007, o Ministério da Cultura autorizou os produtores do músico baiano Caetano Veloso a usar os benefícios fiscais da Lei Rouanet para bancar os shows de divulgação de seu último CD, o “Zii e Zie”. Caetano transferiu do meu, do seu, do nosso bolso, nada menos que R$ 1,7 milhão, através do programa Bolsa-Gigolôs da Artes, também conhecido como Lei Rouanet.

Na ocasião, Juca Ferreira, o então ministro da Cultura, declarou que a Lei Rouanet não tem nenhum critério estabelecendo que os artistas bem-sucedidos não podem ter seus projetos aprovados. “No ano passado, quando eu intervim para aprovar o show da Maria Bethânia, já tínhamos aprovado projetos da Ivete Sangalo, artista mais bem-sucedida comercialmente em todos os tempos. Não podemos sair discricionariamente decidindo, sem critérios.”

Em 2006, a irmã do irmão já recebera R$ 1,8 milhão. Outra contemplada com a Bolsa-Gigolô das Artes foi a empresa da cantora Ivete Sangalo, que captou R$ 1.950.650,84, para realizar seis shows em Recife, Manaus, Salvador, Florianópolis, Vitória e Brasília. Como disse um jornalista na ocasião, a Princesinha da Axé Music Ivete não ficou bem na foto ao ser pilhada nesta história, logo ela que vivia na cozinha de ACM e passou a ter as benesses do Ministério da Cultura no Governo do PT. Não ficou bem na foto mas levou a grana e isso é o que importa.

Em 2009, foi a vez do ex-ministro Gilberto Gil ser contemplado com R$ 445.362,50 pelo Bolsa-Gigolô das Artes, para a realização do DVD "Gil Luminoso", sobre sua trajetória artística. Eita, Brasil generoso! Neste país, até vaidades pessoais merecem o patrocínio do Estado. Desde que o pavão seja amigo da Corte, é claro.

Na ocasião, disse o secretário-executivo do Ministério, Alfredo Manevy: “O dinheiro público se justifica porque aumenta a possibilidade de atender a quem não tem acesso a esse tipo de show. Não há problema em um artista consagrado receber recursos públicos, desde que isso se converta em benefícios para a população”.

Como se uma ode a si próprio, feita pelo capo baiano, trouxesse algum benefício para a população. Agora Maria Bethania rides again. A sanha dos baianos é insaciável. Milionários, apelam ao bolso dos sofridos contribuintes para alimentarem os seus. Para a criação de 365 vídeos nos quais a irmã do irmão exibiria sua voz mafiosa – perdão, maviosa – foi contratado o cineasta Andrucha Waddington, casado com a atriz Fernanda Torres.

Tutti buona gente! O cineasta considera um equívoco a polêmica em torno da decisão do Ministério da Cultura, que autorizou a irmã do irmão a captar R$ 1,3 milhão para o projeto do blog milionário. "Parece que internet não é um meio válido. Lá no blog, os vídeos vão ser vistos por milhões, e de graça. Preciso trabalhar com uma equipe, com o mesmo padrão de qualidade dos meus filmes".

Desde quando algo que custa R$ 1,3 milhão é de graça? Só no bestunto de parasitas que acham que dinheiro do Estado cresce em árvores. Ontem ainda o Ministério da Cultura pôs as barbas de molho e divulgou nota. Que a aprovação do projeto pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) "não garante, apenas autoriza a captação de recursos junto à sociedade. Os critérios da CNIC são técnicos e jurídicos; assim, rejeitar um proponente pelo fato de ser famoso, ou não, configuraria óbvia e insustentável discriminação”.

Coitadinha da Maria Bethania, tão discriminada na vida. Algumas vozes de capi menores já surgem em defesa da Máfia do Dendê, alegando que renúncia fiscal não é dinheiro público. Como que não é? Renúncia fiscal é imposto que é desviado da União para o bolso dos assaltantes do Erário. Portanto, dinheiro público.

A Internet tem uma vocação para a gratuidade. Os blogs, que surgiram inicialmente como páginas de adolescentes, se revelaram como instrumentos eficazes de expressão e hoje todos os jornais os utilizam. Que um jornalista receba pelo blog que produz, se entende. Ele está exercendo sua profissão. O que não se entende é que uma baiana queira ser financiada pelo contribuinte para tecer loas a si mesmo.

Não bastasse o contribuinte financiar as vaidades de diretores e atores do cinema e teatro nacionais, não bastasse financiar silicone e hormônios para travestis, terá de financiar uma máfia que não têm pudor algum em enfiar a mão em seu bolso.

Que o mundo precise de poesia, se entende. Já Bethânia é perfeitamente descartável. Por muito menos que isso, os Estados Unidos declararam sua independência.

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12 Março 2011

Pinball político

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Astrólogo vira o cocho

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Janer Cristaldo


Quando um comunista perde uma boquinha em estatais, logo pipocam os manifestos exigindo sua volta ao cargo. São assinados pelos “manifesteiros” de sempre: Marilena Chauí, Chico Buarque, Leonardo Boff, Emir Sader et caterva. Comunista acha que cargo de confiança ou mesmo emprego em empresa privada é para a eternidade. Olavo de Carvalho não perdeu os reflexos de seus dias no Partido Comunista. Quando foi afastado de suas colunas nos jornais O Globo e Zero Hora e na revista Época, o astrólogo subiu nos tamancos. Denunciou a censura das esquerdas, como se estas publicações fossem de esquerda. Pelo jeito, como velho comunista, considerava ter efetividade em empresas privadas.

O astrólogo foi acometido de recidiva nesta semana. A livraria Cultura, de São Paulo, cancelou sua parceria com seu site. Aiatolavo de novo subiu nos tamancos. “De todas as ofensas, agressões e ações discriminatórias que sofremos ao longo de muitos anos de atividade, essa foi a mais sórdida, a mais canalha, a mais intolerável. Um bom pedido de desculpas é o mínimo que vocês nos devem”. Em trocadilho besta, passou a chamar a livraria de livraria Incultura. Como se calembour fosse argumento.

Para o sedizente filósofo, parcerias são para a eternidade. Se a uma empresa não mais interessa ter seu nome associado a um astrólogo boquirroto, anátema seja. Seus acólitos já falam em censura. Esquecendo que seu guru é o grande censor que promoveu, qual um Torquemada, a maior fogueira de arquivos digitais já acendida no Brasil. Aiatolavo costuma agredir quem dele discorda com uma saraivada de palavrões. É uma técnica eficaz para evitar contestações. Pessoa que se preze não vai discutir com quem usa linguajar de lavadeiras na beira da sanga.

Convidado a colaborar no mídiasemmáscara, em dezembro de 2006 tive uma crônica censurada. Crônica na qual afirmava que Cristo nasceu em Nazaré e não em Belém. Este era o cerne do artigo. Se por isto fui censurado, os papistas do MSM estavam sendo mais ortodoxos que o Vaticano. Pois o nascimento de Cristo em Belém não é dogma. Logo, afirmar que nasceu em Nazaré não é heresia alguma. E mesmo que fosse: por que não poderia eu cometer uma heresia? Afinal não vivemos mais nos tempos da Idade Média, quando os hereges não escapavam da fogueira.

"Artigos com o perfil deste que vc enviou não serão publicados no MSM durante algum tempo - escreveu-me o editor -. Assim que possível, informarei o motivo. Adianto apenas que é uma decisão temporária". Ora, adoro escrever artigos com aquele perfil. Se aceitasse a censura daquele, teria de aceitar a dos demais. Por outro lado, alegar decisão temporária também é ridículo. Por que o artigo não poderia sair hoje, mas amanhã quem sabe?

Eu escrevia sem nada cobrar e ainda era censurado. Recusei-me a qualquer futura colaboração com o site. Outros colaboradores, por razões semelhantes, também se afastaram do MSM. Entre eles, Anselmo Heidrich e Rodrigo Constantino. Que fez Aiatolavo? Deletou todas minhas crônicas, como também as destes articulistas. É como se a Folha de São Paulo eliminasse de seu acervo todos os artigos que apoiaram o movimento militar de 64. Como se a Veja queimasse todas as reportagens em que saudava Che Guevara como libertador. Bom discípulo de Stalin, Aiatolavo utilizou o expediente de eliminar da História personagens ou pensamentos divergentes.

O MSM se tornou um site monocórdio, sambinha de uma nota só. Ou melhor, de três notas: o combate à conspiração homossexual para dominar o mundo, a denúncia obsessiva do Foro de São Paulo e do PT, partido que pretende comunizar o Brasil. Os artigos doentios de Júlio Severo demonstram uma carência que não ousa dizer seu nome. Quanto ao Foro de São Paulo – Woodstock saudosista de apparatchiks derrotados com a queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética – não passa de um circo anódino montado para relembrar sonhos frustrados. O PT, por sua vez, se um dia teve como propósito transformar o Brasil em republiqueta soviética, embriagou-se com o poder e hoje não quer nada com revolução. Virou partido de direita, que quer apenas preservar suas boquinhas.

O MSM passou a lutar contra moinhos de vento. Inventa bandeiras para fingir que tem causa. Tornou-se tão monótono quanto os jornais de esquerda pós-64, nos quais bastava ler apenas um artigo para deduzir os demais. Desesperado, o astrólogo escreveu:

"O artigo 208 do Código Penal pune com detenção e multa os atos de ‘escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa’ e ‘vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso’. Os srs. Rodrigo Constantino, Janer Cristaldo e Anselmo Heydrich já cometeram esse crime tantas vezes, que o simples fato de eu me contentar em xingar esses bandidinhos, em vez de denunciá-los à polícia, deveria ser considerado um exagero de caridade. Com bandido não se discute. Lugar de criminoso é na cadeia. Admito, porém, que não é a caridade, e sim a mera distância geográfica, que me impede de tomar contra os referidos as providências judiciais cabíveis".

Além de censor, fanfarrão. De colaboradores convidados ao site, passamos à condição de criminosos. Em 2008, Rodrigo Constantino escreveu:

“Fico constrangido e ao mesmo tempo com muita pena do "filósofo". Ele deve estar mesmo em pânico para ter de apelar desse jeito. Logo ele, que xinga tudo e todos, que não respeita a crença de ninguém. Mas fica a pergunta: os não-crentes podem processar os crentes quando estes chamam de idiotas todos os ateus? Quando um crente jura que o ateu vai passar a eternidade no inferno, ele pode ser processado por danos morais? Se Olavo "vilipendiar publicamente objeto de culto religioso" de uma seita diferente, como a cientologia, ele vai se entregar à polícia? Olavo quer me colocar na cadeia por questionar a sua crença religiosa. Para ele, sou um bandido, um criminoso, pois questiono suas crenças. Como eu disse, o sonho dele era viver na Idade Média, e me mandar para a roda ou fogueira. Ainda bem que tivemos o Iluminismo para colocar uma focinheira em tipos como este. Conservadores fanáticos não odeiam o Estado coisa alguma, nem querem reduzir seu poder. Querem apenas se apossar dele, e ai de quem divergir de suas crenças!”

Confuso, o astrólogo não gosta que o chamem de astrólogo:

"Quanto à insistência obsessiva desses canalhas em me chamar de ‘astrólogo’, com a ênfase que a palavra tem quando associada a tipos como Walter Mercado, é fácil notar que nenhum dos três jamais examinou criticamente e nem mesmo citou de passagem qualquer escrito meu sobre a questão da astrologia. [...] O intuito deliberado de falsificar para melhor difamar não poderia ser mais evidente, e a eventual desculpa de que foi ofensa proferida impensadamente no calor da discussão já está impugnada antecipadamente pelo número de vezes que a ofensa se repetiu".

Constantino constata:

- Mas vejamos o que o próprio Olavo disse numa entrevista, quando Roberta Tórtora perguntou como a astrologia contribuiu para sua formação:

"Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no ‘inconsciente’ das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido."

O astrólogo que se ofende quando o chamam de astrólogo, considera analfabeto quem não conhece astrologia. Quando comecei a escrever no MSM, não sabia que o astrólogo era astrólogo. Se soubesse, ficaria com um pé atrás. Fui saber mais tarde, quando comentei o projeto do senador Artur da Távola, que visava regulamentar a vigarice. Recebi mail furioso de um leitor: como é que você critica a astrologia, logo num site dirigido por um astrólogo e mestre-astrólogo, que já escreveu quatro livros sobre astrologia?

Se escreveu, os livros sumiram da História. Aiatolavo, ao que tudo indica, censurou a si mesmo. O astrólogo vive hoje na Virgínia, EUA, sabe-se lá como. De suas croniquetas no Diário do Comércio – jornal ligado a Afif Domingos – não há de ser. Muito menos de mapas astrais. Furioso, o astrólogo ex-muçulmano e ex-comunista - lança agora seus insultos a uma livraria que patrocinava seu panfleto. Se ontem a livraria era um órgão difusor de cultura, de repente virou autora de agressão “sórdida, a mais canalha, a mais intolerável”.

Se as trajetórias dos astros são previsíveis, o mesmo não se pode dizer da dos astrólogos. Mudam conforme os patrocínios. Aiatolavo virou o cocho.

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03 Março 2011

Bento nega evangelhos

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Janer Cristaldo


O primeiro a negar os Evangelhos no que diz respeito à morte do Cristo foi João XXIII. Na Sexta-feira santa de 1959, fez desaparecer da liturgia o adjetivo “pérfidos judeus” e rezou pelos “judeus”. No documento Nostra Aetate, de 1965, isentou os judeus da culpa pela crucificação de Cristo. Que elimine da missa um insulto racial, nada mais justo. Ainda mais quando os judeus contemporâneos nada têm a ver com os atos de seus antepassados. Daí a absolvê-los pelo episódio no monte Calvário,vai uma longa distância.

Lemos na Nostra Aaetate que “o mal praticado na sua paixão não pode ser atribuído indiscriminadamente a todos os judeus que viviam então, nem aos judeus dos nossos tempos”. A mesma bobagem acaba de ser repetida por Bento XVI, no livro Jesus de Nazaré. Desde sua entrada em Jerusalém à Resurreição (348 páginas), que estará à venda em sete idiomas no próximo 10 de março. Ratzinger, repetindo João XXIII, também isenta os judeus das alegações de que foram responsáveis pela morte de Jesus. “Perguntemo-nos, antes de mais nada, quem eram exatamente os acusadores? Quem insistiu em condenar Jesus à morte? Segundo João, se trata simplesmente dos ‘judeus’, mas a expressão deste evangelista não indica o povo de Israel como tal, e menos ainda tem uma intenção racista”.

Sua Santidade está chovendo no molhado. É óbvio que João não fala do povo de Israel. Se falasse, teria escrito o povo de Israel, ora bolas. Ou simplesmente Israel, como era denominado o Estado judeu. Por outro lado, o papa pretende corrigir a versão de Mateus, que atribuiu a pressão para condenar Cristo a “todo o povo”. Segundo Ratzinger, não se trata de um fato histórico porque não é possível que todo o povo expressasse seu rechaço.

Foi obviamente força de expressão do Mateus. Nunca na História um povo inteiro se reuniu para matar um só homem. Seria preciso, no caso, que todo Israel se reunisse em Jerusalém. Sem falar que o evangelho de João não poderia mesmo ter nenhuma intenção racista, já que racismo é categoria contemporânea. Você pode percorrer a bíblia de ponta a ponta e nela não encontrará a palavrinha. Vamos ao texto de João, XI 49-50:

Então, os chefes dos sacerdotes e o fariseus reuniram o Conselho e disseram: "Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo nosso lugar santo e a nação". Um deles, porém, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: "Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de nosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda? Não dizia isto por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação - e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos. Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo.

Óbvio está que não foi o povo judeu. Foi pior. Foram os líderes supremos dos judeus que condenaram o Cristo. Ernest Renan, em A Vida de Cristo, vai mais longe. Para Renan, atrás de Caifás há um outro responsável, Hanã, sogro do Sumo Sacerdote. Se o evangelista põe na boca de Caifás as palavras que condenam Jesus à morte é porque se supunha que ele, como Sumo Sacerdote, teria dom de profecia. "Mas essas palavras, quem quer que fosse que as pronunciou, foram o pensamento de todo o partido sacerdotal". E Hanã era o cabeça do partido. "Foi Hanã (ou, se assim o querem, o partido que ele representava) que matou Jesus. Hanã foi o principal ator nesse drama terrível, e muito mais que Caifás, muito mais do que Pilatos, deveria carregar com o peso das maldições da humanidade". Enfim, Hanã ou Caifás, ambos eram judeus e defendiam interesses da hierarquia judaica. Ainda segundo Renan, os sacerdotes viram como derradeira conseqüência daquela agitação "uma agravação do jugo romano e a destruição de suas riquezas e suas honras". Um mês antes da Páscoa, Jesus já fora condenado pelos sacerdotes judeus.

Isto é, pela suprema hierarquia da nação judaica. Povo nunca decide a morte de um homem. Quem decide são seus líderes. Claro que não houve um plebiscito para decidir o destino do crucificado. Para os sacerdotes judeus, Cristo, ao se anunciar como Deus e filho de Deus, era um herege. Para os romanos, politeístas, deus a mais ou deus a menos pouca diferença fazia.

Pilatos dá uma chance ao Cristo. Na ocasião da Páscoa, costumava-se soltar um preso. Pilatos pergunta à turba, que evidentemente não era de romanos: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?" A turba judaica preferiu soltar Barrabás. É estupidez profunda, ignorância histórica abissal, considerar que os romanos foram os responsáveis primeiros pela morte de Cristo. Pilatos tentou salvá-lo. Os judeus não o permitiram.

No evangelho de Marcos, prossegue Ratzinger, se fala de “uma multidão, da massa”, que o evangelista identifica com os seguidores de Barrabás. “Em todo o caso, tampouco isto assinala o povo de Israel como tal”. E aqui vão mais duas bobagens. Os que pediram a cabeça do Cristo até podiam ser seguidores de Barrabás. Mas o texto bíblico, em momento algum, nos diz que Barrabás tivesse seguidores. De qualquer forma, eram judeus. Por outro lado, há doze ocorrências da palavra “massa” na Bíblia. Sempre em referência a massa de pão, de barro ou de frutas. Jamais no sentido de multidão. Há horas venho afirmando que Sua Santidade fez gazeta nas aulas sobre a Bíblia.

Que mais não seja, os judeus foram responsáveis não só pela morte do Cristo. Foram eles que mandaram Paulo para uma prisão em Roma. Entre outras acusações, estava a sua boa amizade com Trófimo, que era não-circuncidado.

Os rabinos de Israel se regozijaram com este novo aceno do Vaticano. Mas nem rabinos, nem papas nem cardeais têm o condão que permite eliminar já não digo fatos da História, mas relatos históricos.

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25 Fevereiro 2011

Teólogo bom é o teólogo ateu

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Janer Cristaldo


Karen Armstrong, escritora inglesa, especializou-se no estudo de religiões. Escreveu mais de quinze livros, nos quais se sente em casa discorrendo sobre cristianismo, judaísmo, islamismo ou budismo. Ex-freira, Karin abandonou o convento, aos 25 anos, e passou por uma crise de fé. Seus ensaios são de uma erudição tal que não há memória que os guarde.

Há uns dois anos, comprei na Espanha Los Orígenes del Fundamentalismo, que li com muita atenção. Comentei, na época, como era bom estar em país onde se publicavam livros que não eram publicados no Brasil. Um leitor alertou-me que este livro havia sido publicado aqui no ano 2000, pela Companhia das Letras, com o título de Em Nome de Deus.

Fui pesquisar em minha biblioteca. O livro estava lá, e todo sublinhado por mim mesmo. Eu já nem lembrava dele. O problema destas obras de extrema erudição é que o autor joga tantos dados em uma só página que, mal acabamos de lê-la, não conseguimos memorizá-la. O remédio é sublinhar. Mas sublinhar tem seus limites. Quando o livro está quase todo sublinhado, é como se não estivesse. Se houve época em que tínhamos escassez de dados, hoje vivemos época inversa: os dados são tantos que não conseguimos mais lembrá-los.

Está sendo publicado no Brasil o último livro da teóloga, Em Defesa de Deus, que ainda não li mas vou ler. Em rápida resenha que encontrei no Estadão, sou informado de que a moça se concentra no cristianismo "porque é a tradição mais diretamente afetada pelo advento da modernidade científica e a mais castigada pelo novo ataque ateísta". E só pode ser assim mesmo, afinal o Ocidente não é islâmico ou hinduísta. Armstrong desfere ataques aos neo-ateus Christopher Hitchens e Richard Dawkins que seguiriam, segundo a autora, "um naturalismo científico linha-dura, que reflete o fundamentalismo no qual baseiam sua crítica". O ateísmo, define a acadêmica, "sempre é a rejeição de uma forma específica de teísmo e depende dela como um parasita".

Bom, sem deus não existiriam ateus. Não somos parasitas, mas uma decorrência lógica da crença em algum deus. É muito difícil falar numa doutrina do ateísmo, já que o ateu nada afirma, apenas nega. Sem falar que mesmo os crentes são ateus. Se eu sou ateu em relação a Jeová ou ao Cristo, os cristãos são ateus em relação a Jupiter, Héstia, Demeter, Hera, Hades ou Poseidon. Ou Krishna, Shiva, Vishnu ou Brahma. Somos todos ateus, cara Karen.

Hitchens, o ateu, está com câncer. A religião, defende Karen, é uma "disciplina prática" que depende de exercícios espirituais e uma vida de dedicação. A racionalidade científica pode até explicar o câncer de Hitchens, mas não pode aplacar seu pavor, observa a teóloga.

Mas tampouco aplaca o pavor de um crente, observo eu. Na hora do câncer, os cristãos oram ao seu deus. Mas vão buscar cura na medicina de ponta. Quando a medicina os cura, eles agradecem não aos médicos, mas a deus. O que me parece ser uma ofensa à medicina.

Minha primeira suspeita sobre a existência de deus, lá em meus verdes anos, decorreu da constatação de que existia um deus para cada geografia. Ora, eram tantos que não podiam ser tantos, como diria Pessoa. Para mim ficou claro que deuses eram criações dos homens.

Assim sendo, me espanta que teóloga tão erudita, que passeou por tantas crenças, ainda consiga crer em algumas delas. Pior ainda, depois de velha e detentora da sabedoria que só a velhice confere, Armstrong elogia as religiões primitivas, caracterizadas por rituais, danças, sacrifícios e cantos. Ou seja, fascinou-se pelas mais toscas formas de crença.

Ao visitar as cavernas de Lascaux, a teóloga verificou que religião e arte já surgem inseparáveis. A experiência da iniciação do homem ancestral prova, segundo ela, que não existe no pensamento arcaico o conceito do sobrenatural, ou seja, "nenhum abismo entre o humano e o divino". Não existia o ser supremo, mas apenas um ser.

Ora, que religião e arte são inseparáveis, disto sabemos. Tanto religião como arte são ficções. Daí a deduzir a existência de um ser supremo – ou de apenas um ser, como prefere a autora – vai uma longa distância.

Para a ex-freira, religião virou auto-ajuda: “religião é como música. Não se pode explicar, mas se ouve com prazer e, de quebra, ela ainda opera milagres como acalmar bebês, fazer crescer as flores e curar algumas doenças”. Como quiser. Mas desconheço músicas que ordenem a lapidação de mulheres, a morte de homossexuais ou o extermínio dos não-crentes. Não consigo entender como as fogueiras da Inquisição possam tem acalmado bebês ou feito crescer flores. Certamente curaram algumas doenças. A morte cura tudo.

Teologia? Vá lá. É como a matemática, um sistema axiomático. Decido que deus existe e daí parto a tirar conclusões. Se um mais um é dois, e se dois mais é quatro, então quatro mais quatro é oito. Se deus existe, vem toda uma tralha atrás: demônio, anjos, deuses, santos.

Nada a ver com a realidade. Ou, como disse Borges, teologia é a primeira manifestação da literatura fantástica. Teólogo bom é o teólogo ateu. Que conhece a ficção, mas sabe que é ficção.

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