04 novembro 2008

O visionário de Taubaté

Janer Cristaldo

(artigo publicado em junho de 1998, na Revista de Literatura da Universidade de São Carlos, São Paulo)

Quando nos deparamos com algum evento insólito na sociedade ou na área da tecnologia, logo saímos à busca de precursores ou anunciadores. Em geral os buscamos entre os ficcionistas anglo-saxões ou germânicos, afinal toda literatura de antecipação tem suas raízes nos Estados Unidos ou Europa. No entanto, nestas terras de Pindorama, já em 1926, um visionário de Taubaté antevia nada menos que a radicalização da questão negra nos Estados Unidos, a discussão separatista no Brasil, o voto eletrônico, o teletrabalho, a Internet e suas conseqüências. Falamos de Monteiro Lobato, é claro, e de sua obra mais premonitória, O Presidente Negro ou O Choque das Raças. Como este livro hoje só pode ser encontrado em sebos ou bibliotecas, não seremos mesquinhos em citações. (*)


Estamos no ano 2.228. Nos Estados Unidos, a elite governante está alarmada: as estatísticas apontam uma população de 108 milhões de negros para 206 milhões de brancos. Como o coeficiente de natalidade negra continua subindo, o instinto de preservação dos brancos se eriça em legítima defesa. Fala-se em uma “solução branca” e uma “solução negra”. A solução branca é, obviamente, expatriar os negros. Quem propõe este panorama é Miss Jane, personagem de Lobato na ficção já citada.

Na mesma época, o antigo Brasil está cindido em dois países, um centralizador de toda a grandeza sul-americana, filho que era do imenso foco industrial surgido às margens do rio Paraná e o outro, uma república tropical, agitando-se ainda em velhas convulsões políticas e filológicas, discutindo sistemas de voto e a colocação dos pronomes da semimorta língua portuguesa. De clima temperado, o Brasil branco fundia no mesmo bloco a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Os portugueses, aclimatados na zona quente, haviam-se mesclado com o negro, formando um povo de mentalidade incompatível com a do sul.

Miss Jane é filha de um cientista de origem americana radicado no Brasil, o professor Benson, que pode obter um corte anatômico do futuro através de uma espécie de globo cristalino chamado porviroscópio. (Esta idéia será retomada por Jorge Luís Borges, como veremos adiante). Através deste aparelho Jane perscruta o mundo do século 23. A ação do romance transcorre em 1926. O Sr. Ayrton, seu interlocutor brasileiro, manifesta tristeza ante o futuro do país. Jane, pelo contrário, considera um erro inicial a mistura de raças e acha que a divisão do país constituí uma solução ótima, a melhor possível. Pois “a muita terra não é o que faz a grandeza de um povo e sim a qualidade de seus habitantes”.

Esta idéia de um fracionamento territorial do Brasil não é nova nos dias de Lobato. Em Cartas Inéditas de Fradique Mendes, escritas nos estertores do século passado, Eça de Queiroz já antecipava esta possibilidade, em texto intitulado “A Revolução no Brasil”. Para o escritor português, com o Império acaba também o Brasil, que ficaria fragmentado em Repúblicas independentes, em virtude da divisão histórica das províncias, das rivalidades entre elas, da diversidade do clima, do carácter e dos interesses e a força das ambições locais. Uma vez separados, os estados não poderão manter paz entre si, em função das delimitações de fronteira, questões hidrográficas e alfândegas. “Cada estado, abandonado a si, desenvolverá uma história própria, sob uma bandeira própria, segundo o seu clima, a especialidade de sua zona agrícola, os seus interesses, os seus homens, a sua educação e a sua imigração. Uns prosperarão, outros deperecerão. Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos dum grande Império!”

Se o Brasil ainda não se dividiu – apesar de todos os anos surgirem “nações” indígenas, com pretensões de autonomia –, aí estão os Chiles ricos e os Nicaráguas grotescos, confirmando a aguda intuição de Eça. Mas voltemos a O Presidente Negro.


A inflação do pigmento – Para Miss Jane, a América seria a privilegiada zona que havia atraído os elementos mais eugênicos das melhores raças européias. O Mayflower trouxera homens de uma têmpera superior que não hesitaram um segundo “entre abjurar das convicções e emigrar para o deserto”. As leis de imigração se tornam seletivas e as massas que procuravam a América, já em si boas, são peneiradas. A Europa é drenada de seus melhores elementos e no novo mundo resta a flor dos imigrantes. Ocorre então o que Miss Jane chama de “o erro inicial”: entra no país, à força, o negro arrancado da África. O Sr. Ayrton observa que o mesmo erro foi cometido no Brasil, mas nossa solução foi admirável: em cem ou duzentos anos teria desaparecido o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco.

Miss Jane não julga admirável tal solução, mas medíocre, pois estraga as duas raças ao fundi-las. Prefere que ambas se desenvolvam paralelas dentro do mesmo território, separadas por uma barreira de ódio, a mais profunda das profilaxias. Para ela, o ódio impede a miscigenização mantém as raças em estado de relativa pureza.
– Não há mal nem bem no jogo das forças cósmicas. O ódio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano...
Os exemplares mais belos, fortes e inteligentes eram descobertos onde quer que se encontrassem e atraídos para a Canaã americana. Estando o país bastante povoado, fecha-se as portas ao fluxo europeu e a nação passa a crescer apenas vegetativamente. É quando surge a inflação do pigmento. As elites pensantes haviam-se convencido que a restrição da natalidade se impunha, pois qualidade vale mais que quantidade. Rompe-se então o equilíbrio: “Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso”.

Urge desembaraçar-se dos negros. A solução branca é simples: exportar, despejar os cem milhões de negros americanos no Vale do Amazonas. O que não era fácil “não só em virtude de tremendas dificuldades materiais como por ferir de face a Constituição Americana”.

Monteiro Lobato escreveu seu romance – ou ensaio, como quisermos – no início deste século. Ao transportar a ação da obra para três séculos depois, fazia ficção. Mas, bom conhecedor da história dos Estados Unidos, escorava-se em projetos nada ficcionais já alimentados pelos americanos.


Um país para os negros americanos – Entre 1840 e 1860, um obscuro tenente da Marinha dos Estados Unidos, Matthew Fontaine Maury, funcionário do Departamento de Cartas e Instrumentos do Departamento da Marinha de Washington, pensou seriamente no assunto. O projeto do oficial americano era simples e pragmático: uma vez alforriados os escravos negros de seu país, estes seriam enviados para colonizar a Amazônia brasileira. A república da Libéria, na África, resultou de um destes projetos.

E por que não colonizar a região amazônica com brancos? Maury empunhava argumentos de ordem geográfica, Se o europeu e o índio haviam lutado com suas florestas por 300 anos sem imprimir-lhe a menor marca, sua vegetação só poderia ser subjugada e aproveitada, seu solo só poderia ser retomado à floresta, aos répteis e aos animais selvagens e submetido ao arado e à enxada, pela mão-de-obra do africano. “É a terra dos papagaios e macacos e só o africano está à altura da tarefa que o homem aí tem de realizar".

O projeto de Maury, em verdade, só tinha de original a insistência em colonizar a Amazônia com os negros libertos. Desde os últimos anos da década de 1830, os Estados Unidos pretendiam a abertura da navegação do rio Amazonas a todas as nações. Antes do oficial sonhador, um certo Joshua Dodge pretendia estabelecer 20 mil imigrantes norte-americanos nas margens do Amazonas. Todos se comprometendo a reconhecer a soberania brasileira, pelo menos nos primeiros anos de colonização.

No fundo, à semelhança do que foi feito com o Texas, pretendia-se anexar a região aos Estados Unidos. A estratégia era simples. Bastaria comprar alguns brasileiros em Manaus, que passariam a ser "legítimos representantes de uma República da Amazônia, que se declararia estado independente do Império do Brasil, inclusive por discordar da forma como o país era governado, com sua monarquia".

Caso o governo brasileiro enviasse navios e tropas para restabelecer sua soberania, os cidadãos do novo estado amazônico independente apelariam para a proteção norte-americana. E uma força de proto-capacetes azuis se apresentaria na foz do Amazonas para "proteger a vida e os bens ameaçados dos cidadãos americanos".

Quem nos conta este quase desconhecido projeto de expansão americana é a professora Nícia Vilela Luz, em A Amazônia para os Negros Americanos. Neste ensaio, a autora mostra que muitos americanos, bem antes da eclosão da Guerra Civil, achavam ser mais interessante libertar todos os escravos e enviá-los para fora da América. O intérprete maior desta vontade é o tenente Maury:

"Preocupava-o o problema do negro nos Estados Unidos, tendo em vista a abolição da escravidão que se aproximava inexoravelmente. Convencido da superioridade do branco, só podia admitir o negro na condição de escravo e nunca numa posição de igualdade com o branco. Que fazer então com essa população negra uma vez posta em liberdade e cuja multiplicação ainda poderia submergir a raça branca?"

Para Maury, "Deus em Sua própria e sábia providência ditará o destino a ser cumprido pelas raças preta e branca, seja ele qual for".

"E Deus preservara a Amazônia deserta e desocupada para que os problemas do Sul pudessem ser resolvidos – prossegue Vilela Luz –. Acuados ao Norte onde não encontrariam mais terras do Mississipi por desbravar nem mais campos de algodão por subjugar, os sulistas, para se livrarem do seu excesso de população negra, salvando ao mesmo tempo sua economia e sua "peculiar" instituição, encontrariam a safety valve mais ao Sul, no vale amazônico. Era "o único raio de esperança" a iluminá-los naquele momento dramático em que se discutia o destino do regime da escravidão nos Estados Unidos".

Estados desunidos - Voltemos à ficção de Lobato. Para Miss Jane, os negros se batiam por uma solução muito mais viável: queriam a divisão do país em dois, o sul para os negros e o norte para os brancos, já que a América surgira do esforço conjunto de ambas as raças. Se não era possível gozar juntas da obra feita em comum, o razoável seria dividir o território em dois pedaços. Temos então, já no início deste século, um escritor brasileiro antecipando as propostas de líderes negros contemporâneos como Farrakhan. É bom lembrar que nessa época Lobato ainda não havia viajado para os Estados Unidos.

Os brancos nada queriam ceder de seu status quo e o problema tornava-se ameaçador. É quando surge um candidato capaz de unir o eleitorado negro: Jim Roy, de tez levemente acobreada, parecendo um mestiço de senegalês e pele-vermelha. A cor de sua pele em nada lembrava os negros de hoje (isto é, 1926). Na época, a ciência havia resolvido o caso de cor pela destruição do pigmento. Jim Roy, negro de raça puríssima e cabelo carapinha, era “horrivelmente esbranquiçado”. O espírito visionário de Lobato antecipa, en passant, a tendência negra americana que gerou um Michael Jackson, por exemplo. Inaugurando, já no início do século, a atual categoria do “politicamente incorreto”, diz o estupefato sr. Ayrton:
– Barata descascada, sei...
No entanto, nem os recursos da ciência faziam os negros deixarem de ser negros na América. Os brancos não lhes perdoavam aquela camouflage da despigmentação.
Jim Roy, líder do partido Associação Negra, não chega a ser uma ameaça para o poder. Representa cem milhões de negros, contra 200 milhões de brancos.

Ocorre que entre os brancos surge uma séria dissidência, um partido de mulheres. Os velhos partidos Democrático e Republicano haviam-se fundido num forte bloco sob a denominação de Partido Masculino, liderado por Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição. Este bloco não tinha certeza da vitória, pois o partido contrário, o Feminino, dispunha de maior número de vozes, lideradas por miss Evelyn Astor. As estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos; ao Feminino 51,5 milhões e à Associação Negra, 54 milhões. A eleição dependia pois da atitude de Jim Roy.

Aproximam-se as eleições. Que, no ano da graça de 2.228, ocorrem em poucos minutos, em função de avanços tecnológicos previstos por Lobato, que anunciam nosso mundo de hoje, 1998.


A vitória negra – É esta possibilidade de “radio-transportar” os dados que opera uma reviravolta nas eleições de 2.228, nos Estados Unidos. Jim Roy vai explorar com habilidade este dado novo, a velocidade. As eleições haviam sido marcadas para as 11h da manhã e durariam apenas 30 minutos. O candidato da Associação Negra avisa os agentes distritais que só às 10h anunciará o nome em que os negros devem votar. Ao anunciá-lo, a desconfortável surpresa: Jim Roy se anuncia como candidato.

Para pasmo de todos, depois de 87 presidentes brancos, surgia o primeiro presidente negro, eleito por 54 milhões de irmãos de sangue. Os partidos Masculino e Feminino haviam mais ou menos empatado, com algo em torno de 50 milhões e meio de votos. Passada a perplexidade, negros e brancos caem na realidade do dia seguinte. Para Kerlog, 87º presidente dos Estados Unidos e candidato derrotado, surge uma dor de cabeça histórica: ele vê na vitória negra a América transformada num vulcão e ameaçada de morte. Considera que se não forem mantidas presas as rédeas dos dois monstros – a ebriedade negra e o orgulho branco –, a chacina será espantosa. Seis líderes brancos reúnem-se em convenção e discutem uma solução para o impasse. A solução, mantida em sigilo, é aceita por unanimidade.

Na época, John Dudley, inventor e um dos membros da convenção, descobrira os raios Omega, que tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com o tratamento, o mais rebelde pixaim se tornava não só liso, mas também fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influíam no folículo e eliminavam o encarapinhamento, último estigma da raça negra, que já havia resolvido o problema da pigmentação.


A solução branca - Ainda não recuperados das emoções da vitória, cem milhões de criaturas agradeciam aos céus a nova descoberta, que redundaria em um aperfeiçoamento físico da raça. O pigmento fora destruído mas o esbranquiçamento da pele não revelava cor agradável à vista. Com os raios Omega, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutânea.

Em todos os bairros de todas as cidades, a Dudley Uncurling Company estabeleceu Postos Desencarapinhantes, que se multiplicaram ao infinito, como se uma força oculta empurrasse a empresa do inventor dos raios Ômega ao desencarapinhamento da América Negra no menor espaço de tempo possível.

Era dos mais simples o processo. Três aplicações apenas, de três minutos cada uma, ao custo de dez centavos por cabeça, faziam com que os negros acorressem aos postos como cães famintos. Os brancos, inicialmente irritados com o que chamavam de “a segunda camouflage do negro”, acabaram se divertindo com o espetáculo da súbita transformação capilar de cem milhões de criaturas.

Na véspera do dia da posse, Jim Roy, em sua residência particular, sonhava o maior sonho já sonhado no continente, quando seu criado lhe anuncia a visita de “um homem branco natural”. Era o presidente Kerlog, o adversário derrotado. Que anuncia ao líder negro não existir moral entre raças, como não há moral entre povos. Há vitória ou derrota.
– Tua raça morreu, Jim...
Os raios Omega de John Dudley tinham uma dupla virtude: ao mesmo tempo que alisam os cabelos, esterilizavam o homem. No dia em que seria empossado o 88º presidente dos Estados Unidos, o primeiro presidente negro da América, Jim Roy aparece morto em seu gabinete de trabalho. Os negros pensaram imediatamente em crime e chegou a haver um movimento de revolta. Mas o fatalismo ancestral superou o ódio e o imenso corpo sem cabeça recuou instintivamente e repôs-se no humilde lugar de onde a vitória de Roy o tirara. Procederam-se novas eleições e Kerlog foi reeleito por 100 milhões de votos. A vida da América voltou à normalidade.

Estrangulada a circulação da seiva, a raça extinguiu-se num crepúsculo indolor.
Nem exportação para a Amazônia, nem divisão do país, nem esbranquiçamento com a eliminação do pigmento e da carapinha. Mas extinção pura e simples de uma raça para o pleno desabrochar da Super-Civilização Ariana...

Em sua autobiografia, Testamento para El Greco, Nikos Kazantzakis nos fala de certos lábios e pontas de dedos sensíveis que sentem um formigamento ao aproximar-se a tempestade. Monteiro Lobato, criador sensível, sentia aproximar-se a catástrofe, o mais colossal empreendimento de extermínio em massa já ousado na História. Antes de morrer, ainda viu o bisturi germânico tentando extirpar uma etnia. Só enganou-se quanto à geografia.

Nestes dias de junho de 98, a imprensa internacional nos traz uma espantosa confirmação da hipótese de Lobato. Dan Goosen, cientista responsável por um laboratório secreto durante o apartheid na África do Sul, revela que o governo daquele país tentou desenvolver uma bactéria que poderia ser mortal ou causar infertilidade somente em pessoas com pigmentação de pele escura. Em declarações à Comissão da Verdade e Reconciliação para a África do Sul (CVR), disse um outro pesquisador, o dr. Daan Jordan: “Meu trabalho era desenvolver um produto que reduzisse a taxa de natalidade da população negra”. Este produto, que não chegou a ser desenvolvido, seria distribuído entre os negros, possivelmente misturado à cerveja de sorgo ou à farinha de milho (consumidos basicamente pela população negra) ou usado em uma campanha de vacinação. Por pouco, a vida não imitou a arte.


Taubateano antecipa a Internet – Além de aventar uma possível evolução da questão negra nos Estados Unidos, Lobato angustiava-se com o desperdício de energia e “os milhões de veículos atravancadores de espaço”  e isso nos primórdios do século  necessários para o deslocamento do homem até o trabalho ou lazer. Via a salvação na “fecunda descoberta das ondas hertzianas e afins”. O trabalho, o teatro, o concerto passam então a vir ao encontro do homem. As condições do mundo se transformam quando a maior parte das tarefas, industriais e comerciais começam a ser feitas de longe pelo que Lobato chama de “rádio-transporte".

Há três quartos de século, antes mesmo de sua viagem aos Estados Unidos, Lobato antevia o fim da maneira de fazer jornalismo da época e antecipava o que hoje é rotina em qualquer redação deste final de milênio. Através de miss Jane, o escritor de Taubaté começa a descrever a sociedade americana do futuro:

“Pelo sistema atual – Lobato refere-se a 1926 – o colaborador ou escreve em casa o seu tópico ou vai escrevê-lo na redação; depois de escrito, passa-o ao compositor; este o compõe, passa-o ao formista, este o enforma e passa-o ao tirador de provas; este tira as provas e manda-o ao revisor; este o revê e envia-o ao corretor; este faz as emendas e... e a coisa não acaba mais! É uma cadeia de incontáveis elos, isto dentro das oficinas, pois que o jornal na rua dá início à nova cadeia que desfecha no leitor  correio, agentes, entregadores, vendedores, o diabo".

Toda essa complicação desapareceria. Cada colaborador do Remember, jornal criado na ficção lobatiana, "radiava" de sua casa, numa certa hora, o seu artigo, e imediatamente suas idéias surgiam impressas em caracteres luminosos na casa dos assinantes.

Numa época em que computador, fibras óticas e satélites pertenciam ao universo mental de visionários, Lobato fala de rádio-transporte. Se substituirmos esta expressão por fax/modem, temos o criador de Bentinho e Jeca Tatu antecipando, há sete décadas, um jornal que já existe. Seus correspondentes há muito enviam seus "caracteres luminosos" para suas redações. Daí ao leitor recebê-los numa tela em sua casa, basta uma decisão administrativa, já tomada por centenas de empresas no Brasil e no mundo ocidental. E quando o acervo da literatura universal estiver digitalizado, poderá consultar, de sua casa, todas as bibliotecas do mundo.

Além da era da roda - "As ruas tornaram-se amáveis, limpas e muito mansas de tráfego" –continua Lobato–. "Por elas deslizavam ainda veículos, mas raros, como outrora nas velhas cidades provincianas de pouca vida comercial. O homem tomou gosto no andar a pé e perdeu os seus hábitos antigos de pressa. Verificou que a pressa é índice apenas de uma organização defeituosa e anti-natural. A natureza não criou a pressa. Tudo nela é sossegado."

Esta previsão, melhor creditá-la ao pendor utópico do escritor, que não chegou a vislumbrar este lado provinciano do brasileiro, que se sente despido e humilhado se não tiver uma carroça sobre quatro rodas. Enfim, para sonhar não se paga imposto. Mas Lobato vai mais longe. Miss Jane considera superada a revolução da roda. Segundo a moça, "o homem deu o primeiro grande passo em matéria de transporte com a invenção da roda. Mas ficou nisso. Repare que a nossa civilização industrial se cifra em desenvolver a roda e extrair dela todas as possibilidades. Daqui a séculos, quando for possível ao homem uma ampla visão de seu panorama histórico, todo este período que vem do albor da história e ainda vai prolongar-se por muitas gerações receberá o nome de Era da Roda".

O rádio matará a roda, segundo Miss Jane. "A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o rádio-transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á à distância".

Lobato fala em rádio, o must dos anos 20. Se não podia prever as nuvens de terabytes diariamente transmitidas de um ponto a outro do planeta pela WEB, intuiu muito bem suas conseqüências. O teletrabalho – trabalho "radiado" para o escritório, como diria Lobato – já é um fenômeno em expansão. Hoje, qualquer trabalhador intelectual, desde que tenha um telefone por perto, pode enviar sua produção para qualquer canto do mundo, refugiado num chalé no Itatiaia ou em busca de solidão e deserto em Tamanrasset. Jornais impressos a milhares de quilômetros de suas redações há muito não constituem mais novidade.

Segundo o historiador francês Roger Chartier, a revolução hoje em curso é muito mais ampla que a de Gutenberg, de 1455, "pois transforma as próprias formas de transmissão do escrito. A passagem do livro, do jornal ou do periódico, como os conhecemos hoje, para a tela de computador, rompe com as estruturas materiais do texto escrito. A única comparação histórica possível é a revolução no início do cristianismo, nos séculos II e III, quando o livro da Antiguidade, em forma de rolo, deu lugar ao livro herdado por Gutenberg, o códice, com folhas e páginas reunidas em cadernos".

Habitantes deste final de milênio, somos testemunhas privilegiados da revolução intuída por Lobato. Revolução das boas, sem sangue e sem volta. Sem sequer imaginar a existência de computadores, o escritor paulista anuncia a Internet. Cabe lembrar que, em 1996, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a instituir o voto informatizado, instituição já em funcionamento nesta ficção escrita há sete décadas.


A biblioteca de Borges - Também ao sul do Equador, um vizinho nosso, situado às margens do Prata, imaginava um acervo que hoje começa a tomar corpo com a Internet. Falava de uma biblioteca em forma de esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono. Sua circunferência é inacessível. Existe ab aeterno e nela não há dois livros idênticos. É ilimitada e periódica. Assim definia o Jorge Luis Borges, em um conto datado de 1941, a Biblioteca de Babel. Em alguma prateleira de algum hexágono existiria um livro que era a chave e o compêndio de todos os demais. "Algum bibliotecário o terá percorrido e é análogo a um deus".
Na Babel de Borges, há um grave problema de comunicação. A Biblioteca abarca todos os livros. Todo conhecimento humano está disperso pelos hexágonos. O problema é encontrar o que se busca. Milhares de funcionários lutam, se estrangulam e morrem em busca dos livros nos corredores da biblioteca, muitas vezes derrubados por homens de hexágonos remotos. Outros enlouquecem. O autor exagera, o que é direito de todo ficcionista. Mas em muitas bibliotecas contemporâneas os funcionários já usam bicicletas ou patins para buscar os livros.

Em 41, estávamos a meio século da Internet. Hoje, aos buscadores desta ficção de Borges bastaria digitar um endereço eletrônico e teriam em segundos os livros desejados, sem a necessidade de estrangular-se ou enlouquecer, pedalar ou patinar, subir escadas ou cair em poços sem fundo. Hoje, um leitor de qualquer parte do mundo, com uma placa modem em seu computador, pode acessar a Congress Library em Washington, a Bibliothèque Nationale em Paris ou a Biblioteca Nacional de Madri. Ou as bibliotecas da USP, Unesp e Unicamp em São Paulo. Por enquanto, apenas bibliografia, é bom salientar. Mas a tendência é colocar o próprio livro à disposição do usuário, o que está sendo feito pelo projeto Gutenberg - http://promo.net/pg - e a ABU - http://cedric.cnam.fr/ABU -, entre outros sites. (**) Nestes últimos, estão a seu alcance, desde Plutarco e Platão, até Descartes ou Marx, passando pela Bíblia, Voltaire ou Dostoievski. Por enquanto em francês e inglês, mas já estão sendo digitalizados acervos em português e espanhol.

Teoricamente, já se pode pensar na biblioteca total de Borges. Chegar lá é uma questão de tempo. A biblioteca faraônica iniciada por François Mitterrand - Tontonkhamon, para os inimigos íntimos - em Paris, concebida para armazenar acervos futuros, com seus quatro prédios mastodônticos em forma de livro, já nasce mais ou menos obsoleta. Seu design pertence ao passado.

A pergunta “quantos livros tem sua biblioteca?” inclusive perdeu o sentido e não mais permite uma resposta precisa. Vivemos uma época em que ninguém sabe de quantos livros dispõe em seu gabinete de trabalho. Os livros ao alcance de sua mão - ou de seu mouse - são tantos quanto os que estão digitalizados e disponíveis na grande rede, esteja você morando em qualquer aldeia do fim do mundo. Desde, é claro, que tenha uma linha telefônica por perto.

Aleph, porviroscópio e webcams - Borges, sonhador irrecuperável, antecipa em suas ficções a biblioteca sonhada por todo bibliófilo, hoje em construção. Mas o autor vai mais longe em seu desejo de futuro. Em Aleph, conto publicado em 1949, Borges nos fala do peculiar poeta Carlos Argentino, que se propõe nada menos que “versificar toda a redondez do planeta”. Carlos, que está construindo sua obra a partir de seu quarto, entra em pânico quando lhe noticiam a demolição de sua velha casa na Calle Garay. Pois nela, em algum ponto de uma escada no porão, existe um aleph, “o lugar onde estão, sem confundir-se, todos os lugares do mundo”. A partir daquela pequena esfera, de dois ou três centímetros de diâmetro, Carlos Argentino perscrutava o mundo, a fonte de seu poema colossal. Vejamos a descrição do aleph, feita por Borges em 1949.

O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a face do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via desde todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a alba e vi a tarde, vi as multidões da América, vi uma teia prateada no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto rompido (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soller os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Fray Bentos, vi racimos, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, vi o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca em uma vereda, onde antes houve uma árvore, vi um sítio em Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi ao mesmo tempo cada letra de um volume (quando criança, eu me maravilhava com o fato de que as letras de um volume fechado não se misturassem e se perdessem no transcurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-de-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam ao infinito, vi cavalos de crinas enredadas. Em uma praia do mar Cáspio vi a alba, vi a delicada ossadura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha, enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, maremotos e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma caixa do escritório (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação da morte, vi o Aleph, desde todos os lados, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem mirou: o inconcebível universo.

Contemporaneamente, não falaríamos em aleph, mas em webcams, a rede incipiente de câmeras onde, se não podemos ver o universo em sua totalidade, podemos bisbilhotar cada vez mais seus pontos mais longínquos. (***) Hoje, de minha mesa de trabalho, posso ver o quarto de Jennifer e a praça do Kremlin, uma ponte em Liljestrom, na Suécia, e a faina diária de uma formiga, uma universidade imersa na escuridão no norte da Noruega e um papagaio na Austrália, a torre Eiffel e as lavas candentes de um vulcão. Sem falar, é claro, nos livros da biblioteca de Babel em construção.

Monteiro Lobato, para consultar o futuro, cria em O Presidente Negro um aparelho semelhante, o porviroscópio, uma espécie de globo cristalino, através do qual Miss Jane perscruta o mundo do século 23. O professor Benson obtem, neste aparelho,

(...) uma corrente contínua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixe que neste momento agonizam no seio do oceano ao serem apanhados pela água tépida do Golfo, o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha, a flor do pessego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucócito a envolver um micróbio malévolo que penetrou no sangue dum fakir da Índia; a gota d’água que espirra do Niágara e cai num líquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estudio de Los Angeles Gloria Swanson começa a receber de Valentino...

A forma como o visionário de Taubaté descreve o universo vislumbrado no porviroscópio é quase idêntica à descrição do Aleph, publicada 23 anos mais tarde. O achado de Borges revela-se uma paráfrase do texto lobatiano. Se considerarmos que Borges conhecia a literatura de Lobato, e que este viveu em Buenos Aires em 1946, três anos antes da publicação de El Aleph, é bastante pertinente supormos que o autor argentino andou bebendo na cacimba de nosso taubateano. Enquanto os sedizentes modernistas de 22 papagueavam Marinetti, Marx e outros doutrinadores totalitários europeus, Lobato, o escritor excluído do universo intelectual pelos seus contemporâneos, olhava meio século adiante.


(*) Recentemente, a editora Globo republicou a obra.
(**) Hoje, temos milhares de bibliotecas virtuais.
(***) Na época em que escrevi este artigo, ainda não existia o Google Earth.

11 setembro 2008

Algumas coisas para fazer antes do fim do mundo

Janer Cristaldo

- ler a meia centena de livros das últimas viagens, que ainda me esperam em minha cabeceira
- organizar meus baús de cartas, herança daquela distante época em que se escrevia cartas. Se bem que... para quê?
- comprar um leitor de ebooks
- rever uma bugra guarani, que namorei nos dias de Dom Pedrito e que me sussurrava ao ouvido: xemboraihú
- rever uma gaúcha de Porto Alegre que um dia reencontrei no Kungsträdgården, transida de frio, em Estocolmo. E com ela fazer de novo tudo o que fiz naquele dia
- ouvir czardas no Café Central, em Viena
- ouvir violinos ciganos nalgum café de Budapeste
- tomar uma Leffe radieuse no Metropole, em Bruxelas
- uma jarra de cerveja, daquelas de litro, na Hofbräuhaus, em Munique
- um cochinillo no Sobrino de Botín, em Madri, regado por um Marqués de Riscal
- uma andouillette A.A.A.A.A. no Aux Charpentiers, em Paris, com um bom Cahors
- um baba au rhum no Julien, em Paris
- uma île flottante, no Bofinger, em Paris
- rever aquela Carmen filmada pelo Francesco Rosi, com a Julia Migenes
- rever Die Zauberflötte, com a orquestra do Ludwigsburger Festspiele, com Deon van der Walt e Ulrike Sonntag, como Tamino e Pamina
- rever Don Giovanni, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel-título e Otto Edelman como Leporello
- ouvir Chavela Vargas, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete
- subir Toledo a pé
- comer um cordero lechal no Aurélio, em Toledo
- descer Toledo a pé
- beber uma manzanilla no Venencia, em Madri
- degustar outro cochinillo naquela cave medieval do Café de Oriente, também em Madri
- subir de novo Santorini em lombo de mula
- descer Santorini em lombo de mula
- revisitar os vulcões de Lanzarote
- comer um churrasco assado nas lavas dos vulcões de Lanzarote
- rever a árdega peoniana de Skopje, que alegrou meus dias em Paris
- ver de novo um nascer de sol junto ao Tridente, no Assekrem, no Sahara argelino
- ouvir tuaregues contando histórias em torno a uma fogueira no topo da montanha
- beijar mais uma vez uma distante amiga numa meia-noite gélida em Paris, vendo além dos olhos dela a agulha da Notre Dame penetrando a lua em quarto crescente
- rever também aquela sabra baixinha e linda que alegrou meus dias numa travessia do Atlântico
- ver uma aurora boreal
- rever o sol da meia-noite, tomando um vinho naquela noite que não é noite com a Primeira-Namorada, em Tromsø, Noruega
- conhecer Svalbard
- Atacama, que ainda não conheço
- viajar ao México e empinar una copa junto a uma banda mariachi
- cantar canções de corno com os mariachis
- flanar pelas ruas desertas de Veneza, ouvindo o chiado dos sapatos no silêncio da noite
- reencontrar a peoniana na Piazza San Marco, num domingo ensolarado, no Café Florian, com violinos ao fundo
- rever o rancho onde nasci, lá na Linha, hoje tapera
- debruçar-me sobre os pastos e beber água na cacimba frente ao rancho
- abraçar minha professora de francês, dos dias de ginásio, em Dom Pedrito
- uma janta de despedida com o pequeno círculo de amigos que até hoje me acompanham. Discutiríamos a Bíblia, teologia e o apocalipse. Sempre embalados pelo sangue das uvas
- tomar mais um vinho com a Primeira-Namorada no topo do Edifício Itália, enquanto o sol se põe sobre esta São Paulo desvairada
- quando soarem os primeiros sinais do Apocalipse, vou sentar-me nalgum boteco e ler o Qohélet
- não é dado aos que partem voltarem. Se fosse, trocava tudo isto por um dia – um só dia, não mais que um só dia - com minha Baixinha adorada. E mergulharia feliz no buraco negro

Variações sobre Che nesse 11/9

Já fiquei meio surpreso quando o Steven Soderbergh começou a rodar esse filme sobre o Che, pois logo fiquei sabendo que eram DOIS filmes. O primeiro mostra a guerrilha e a Revolução, talvez a tomada de Havana, com os primeiros dias de glória e o subseqüente tédio. Governar é uma chatice, deve ser, acho.

Não sei se o filme começa ou termina com ele aparecendo numa daquelas reuniões pasteurizadas da ONU. Dizem que é um dos pontos altos.

O segundo filme corta direto para os últimos dias de Che na selva boliviana.
E é chato saber que o excelente Benicio Del Toro entrou nessa. Só espero que a imagem batida do Che não faça com que ele fique parecendo muito um personagem de Chico Anysio em algumas cenas, que isso seja só impressão minha. Viver figuras históricas sempre é problemático. Interpretar ícones, santos e mártires é pior ainda.

Tudo bem, toda pessoa de esquerda vê Guevara como a face mais humana daquela coisa linda e maravilhosa que infelizmente se desnaturou, se desvirtuou — a Revolução Cubana.

Já é — sempre foi — o sujeito que foi sem nunca ter sido. Foi solidário, bonzinho, camarada, socialista, guerreiro e herói da resistência.

Como fica difícil defender o Fidel, ao menos para alguns esquerdistas, Guevara acabou servindo para outra coisa também, de uns anos pra cá. Virou a única defesa possível, plausível, da Revolução para certas pessoas. Virou um arauto do futuro e uma justificativa para muita gente de esquerda. Uma forma delas dizerem: “Nem tudo foi ruim na “experiência” socialista. O Che, por exemplo, ah, ele era o cara.”

É sempre a mesma conversa. “Ah, se ele não tivesse morrido tão jovem, ah, ele era diferente, era um revolucionário legítimo, queria libertar os povos...” Libertar os povos de quê? De quem? E pra quê? Era extremamente egocêntrico e arrogante, em parte foi por isso que morreu. Nem sei como não morreu no Congo, onde passou mais aperto do que na Bolívia. Do ponto de vista militar, era um péssimo guerrilheiro. Não tinha a menor noção do que fazia, cometeu “n” erros grosseiros, mas nem falemos nisso. O negócio dele era política com auto-promoção. Era um bom propagandista de si mesmo. Sabia se promover. Duvido, no entanto, que imaginasse que iria acabar se tornando essa coisa toda. Por mais inflado que fosse.

Pelo menos o filme parece ter alguns momentos divertidos e seqüências de ação. Pior que o sonolento Diários de Motocicleta, de um dos ricos irmãos esquerdistas Salles, não deve ser. Filme engajado, feito por filho de banqueiro com eterna crise de consciência por ser rico, não dá.

Aliás, Walter Salles está promovendo Linha de Passe, seu novo filme. Ele acha que “cinema não deve buscar lucro, deve fazer um retrato da sociedade”. Que meigo. E fazem isso com dinheiro público. “Não tem solução...” como dizia Dorival Caymmi.

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No livro La Autobiografía de Fidel Castro, do jornalista e escritor cubano Norberto Fuentes, há um trecho muito curioso sobre Che Guevara, o herói romântico de tantas gerações de desinformados:
“Era um coitado. Mas a verdadeira biografia desse coitado que todo mundo conhece como Che Guevara e que se chamava Ernesto Guevara de la Serna é dificilmente compatível com a do personagem criado pela revolução cubana. Sei que para todos vocês será um travo amargo reconhecer que levam 40 anos prostrados de admiração por um homem que só existe como propaganda.“
(...) Ele forçava a mão, queria chegar mais e mais longe, e ao mesmo tempo se metia em situações extremas, coisas que fazia como um desafio a si mesmo. Muitos anos depois — e como resultado direto de minhas observações sobre o Che — entendi que a força de suas convicções e estoicismo diante do perigo e sua vontade de ferro nada tinham a ver com autênticas convicções, estoicismo ou vontade. Era a asma. É uma coisa consubstancial com os asmáticos. Esse afogar-se permanente curte o doente para resistir a qualquer onda de medo e com muita consciência”.
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Num texto sobre a provável situação atual de bin Laden e os porquês da dificuldade em capturá-lo no Paquistão, lá pelas tantas, aparece uma comparação entre ele e Guevara:

“Bin Laden has been as badly battered by time as Bush. Unable to achieve any of his political goals, unable to mount another attack, he reminds us of Che Guevara after his death in Bolivia. He is a symbol of rebellion for a generation that does not intend to rebel and that carefully ignores his massive failures.
Yet, in the end, Guevara and bin Laden could have become important only if their revolutions had succeeded. There is much talk and much enthusiasm. There is no revolution. Therefore, what time has done to bin Laden's hopes is interesting, but in the end, as a geopolitical force, he has not counted beyond his image since Sept. 11, 2001.
What happens to bin Laden is, in the end, about as important as what happened to Guevara.
Legends will be made of it -- not history.
But when the world's leading power falls into the psychological abyss brought about by time and war, the entire world is changed by it. Every country rethinks its position and its actions. Everything changes.”
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Na tv a cabo, um filme que eu pensei ser mais vagabundo, Che, de 1969, com Omar Sharif no papel principal. Até que o filme não é ruim. Jack Palance, simpático, é o Fidel. Ignorante, preguiçoso e bebendo rum o tempo todo. Lembra um pouco Lula.

O filme mostra as divergências entre os dois, a simpatia de Che pelos chineses e a de Fidel pelos soviéticos, o alívio de Fidel quando Che se revolta e resolve “espalhar a Revolução”, ou seja, ir pra bem longe de Cuba.

Mas Omar Sharif ainda lamenta ter interpretado o Che, num filme que afirma ter sido "inteiramente manipulado pela CIA” e que agora vê como o maior erro de sua vida.

"Eu exigi fazer um filme que não tivesse um tom fascista", disse Sharif. "Em 1969, fazia apenas dois anos que Che havia sido morto nas serras bolivianas, e ainda era um herói incrível", disse Sharif.

O galã egípcio lembrou amargamente que seu papel teve certa dignidade porque ele assim exigiu em seu contrato, "mas o Fidel Castro interpretado por Jack Palance e o filme em geral resultaram em um produto fascista".

"A CIA estava por trás, queria fazer um filme que agradasse aos cubanos de Miami e eu só me dei conta disso no final", disse Sharif, contando que uma sala de cinema de Paris foi queimada por espectadores irados pela imagem negativa que o filme fazia de Che e da Revolução Cubana.

Sharif interpretou guerrilheiros, príncipes, ditadores e se diz resignado que agora só lhe oferecem "papéis de velhos", em suas palavras.

Nascido de pais católicos libaneses — seu nome de nascimento era Michel — Sharif se converteu ao Islã para se casar com a atriz Faten Hamama, de quem depois se divorciou. Agora, ele classifica a religião como "uma coisa absurda".

"Como podem nos fazer acreditar em algo tão ridículo como Adão e Eva?", diz.

Sharif começou sua carreira em 1954, com Siraa fi al-Wadi (Struggle in the Valley). Seu primeiro filme estrangeiro foi o francês La Châtelaine du Liban (The Lady of Lebanon), de 1959.

Mas foi só em 1962, com Lawrence da Arábia, que ele despontou.

Sharif é temperamental e sem papas na língua; não deixa de responder a nenhuma pergunta, mas às vezes se enche de raiva e levanta sua voz. “Eu vou aonde me chamarem para fazer um filme; posso passar temporadas no Japão, no México ou na Itália. Mas não sou de nenhum lugar nem tenho uma casa que seja minha”, afirmou.

“Quando não estou filmando, prefiro estar em Paris, mas sempre vivo em hotéis e como nos restaurantes. Quando se é um velho solitário como eu, dá medo viver em uma casa vazia. Pelo menos nos hotéis há um bar e é possível conversar com alguém”, reflete.

No Egito, dizem que Sharif se arruinou com o que foi sua grande paixão na vida - inclusive mais do que as mulheres -: o bridge, mas isso não parece totalmente certo visto o estilo de vida que possui.

O ator sempre se pronunciou contra o fanatismo que está ganhando peso no Egito e em todo o Oriente Médio; entretanto, para ele este “não é um problema religioso, mas de pobreza”.

“Se todo o dinheiro que George W. Bush gastou na Guerra do Iraque tivesse sido dado aos pobres desta região, não haveria terrorismo”, afirmou.

Ingênuo, mas continuo gostando muito dele.

Omar Sharif acha que o cinema atual “está cheio de violência, porque a própria vida está cheia de violência”. “Quando as pessoas não se matam pela religião, são mortas pelo clima, pelo tsunami ou por inundações. Este mundo é uma m…”, conclui o ator.

Também acho.

29 agosto 2008

Sobre traduções

Janer Cristaldo

Entre os livros que comprei na última viagem está o excelente Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, ensaísta que foi conselheiro cultural da embaixada da França em Israel. São três volumes que estou devorando com avidez: L’Invention du monotheísme, La Loi de Moïse e Sacrifices et interdits alimentaires dans la Bible. Estou concluindo o segundo volume e já lamentando que só resta um para ler. Soler conhece a fundo tanto o Livro como o judaísmo, e os disseca com a precisão de um cirurgião.

Dito isto, citei em crônica passada um trecho do Gênesis: “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”.

Um leitor atento implicou com os deuses, assim no plural. Que em sua Bíblia está “os filhos de Deus”. De fato, nas traduções ao português que tenho em minha biblioteca, assim consta. Tanto na Bíblia de Jerusalém, quanto na edição pastoral publicada pelas Edições Paulinas. Também na editada pelo Centro Bíblico de São Paulo, a partir da versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsons, Bélgica. O mesmo consta de minha bíblia eletrônica, a reputada tradução de João Ferreira de Almeida.

É que usei a tradução proposta por Jean Soler, “les fils des dieux”. Como os judeus têm mais rigor quando se trata da palavra divina, fui consultar a Torá. Lá está: “os filhos dos senhores”. Melhorou um pouco mas não muito. O plural é mantido. Mas que senhores são esses que se opõem aos homens? Mistério profundo. Fui buscar então em minha tradução francesa da Bíblia, editada pela Alliance Biblique Universelle. Lá está: “les habitants du ciel”, também no plural. Mas quem são esses habitantes do céu cujos filhos acharam belas as filhas dos homens? O mistério persiste.

Como não entendo hebreu, prefiro ficar com a tradução proposta por Soler, que conhece hebreu: “les fils des dieux”. Pois os deuses são muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Escreve Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”.

A idéia de um deus único só vai surgir mais adiante, no dito Segundo Isaías. Reiteradas vezes escreve o profeta:

44:6 Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.

Num acesso de egocentrismo, Jeová se proclama o único:

7 Quem há como eu? Que o proclame e o exponha perante mim! Quem tem anunciado desde os tempos antigos as coisas vindouras? Que nos anuncie as que ainda hão de vir. 8 Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim?

Ou ainda:

45:5 Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. (...) 21 Porventura não sou eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim.

Só aí, e tardiamente, surge na Bíblia a idéia de um só Deus. Durante muito tempo, acreditei que a idéia do deus único havia sido contrabandeada do Egito, a partir de Akhenaton. Equívoco meu. Não havia monoteísmo nos dias de Moisés. O que me consola é saber que até Freud incorreu neste equívoco.

Mesmo assim, persistem no mesmo livro de Isaías registros dos deuses de então:

36:18 Guardai-vos, para que não vos engane Ezequias, dizendo: O Senhor nos livrará. Porventura os deuses das nações livraram cada um a sua terra das mãos do rei da Assíria? 19 Onde estão os deuses de Hamate e de Arpade? onde estão os deuses de Sefarvaim? porventura livraram eles a Samária da minha mão? 20 Quais dentre todos os deuses destes países livraram a sua terra das minhas mãos, para que o Senhor possa livrar a Jerusalém das minhas mãos?

Em suma, o deus de uma única tribo, de repente, se proclama o deus único. Soler nota uma safadeza nas traduções contemporâneas da Bíblia: Jeová está sumindo. Fala-se em Deus ou Senhor, em Eterno ou Altíssimo. Como Jeová é apenas o deus de Israel, melhor esquecer o deus tribal. Ao que tudo indica, alguns tradutores fazem um esforço para transformar um livro politeísta em monoteísta. Substituiu-se a monolatria - culto de um só deus nacional - pelo monoteísmo, culto de um deus único.

19 agosto 2008

A repulsa ao belo

Janer Cristaldo

O que pensávamos ser estupidez de muçulmanos está se difundindo mesmo entre judeus e católicos. Leio em El País que a arquidiocese do México publicou uma “lista de valores” sobre o pudor, na qual recomenda às mulheres católicas que não usem roupas provocativas nem entrem em conversações ou piadas picantes com pessoas de outro sexo. Tudo isto para evitar agressões sexuais, este é o pretexto. Considera-se ainda que a pornografia é uma prostituição mental. Mais um pouco e proíbem o Cântico dos Cânticos, certamente o mais belo livro da Bíblia.

"Não usa roupa provocativa. Cuidado com teus olhares e gestos. Não fica só com um homem, mesmo que seja conhecido. Não permite familiaridades de teus amigos ou parentes. Não admite conversas ou piadas picantes”. Estas edificantes recomendações foram escritas pelo padre Sergio Roman Del Real, como material preparatório para o VI Encontro Mundial das Famílias, a celebrar-se no México em janeiro próximo.

Uma das coisas boas do mundo contemporâneo, a meu ver, é esta nonchalance com que as mulheres se despem, mesmo estando vestidas. Nenhuma mulher anda nua nas ruas, mas tem tantas nesgas de nudez que é quase como se nua estivesse. Ao pudico sacerdote não agrada nem um pouquinho a generosidade com que as mulheres nos brindam com seus encantos. Padre Sérgio considera a exibição do corpo como prostituição: “Quando exibimos nosso corpo sem recato, sem pudor, o prostituímos porque provocamos nos demais sentimentos em relação a nós aos quais não têm direito, a não ser que desejemos ser propriedade pública, isto é, que nos prostituamos mentalmente. Isso é a pornografia: uma prostituição mental”.

Se alguém imagina que isto seja pudor de católico, traduzo outra notícia, do mesmo El País. No assentamento judeu de Betar Illit, na Cisjordânia, onde vivem 40 mil colonos ortodoxos, um jovem de 19 anos, David Biton, teve a cara quebrada pelos “guardiães do recato”, por ter saído na noite de sexta-feira passada com jovens de sua idade. Qualquer semelhança com a polícia dos costumes da Arábia Saudita não é mera coincidência. Um menina de 14 anos teve o rosto queimado por ácido por vestir calças. Qualquer semelhança com os radicais argelinos que jogavam ácido no rosto de universitárias que não portavam véu, tampouco é coincidência. “Não lhes agrada quando vêem um rapaz e uma moça juntos, embora sejam irmãos, ficam muito nervosos”, diz Biton.

No Cântico dos Cânticos, livro transgressor, encontramos situação semelhante. Sulamita - finalmente uma voz feminina na Bíblia - sai pelas ruas da cidade em busca de seu amado. "Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho". De onde deduzimos que gostava tanto dos beijos como do vinho. É bom lembrar que Sulamita, além de ser mulher, não é casada.

“De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, porém não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma. Busquei-o, porém não o achei. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?”

Mais adiante, se revela a verdadeira face de Jerusalém. Sulamita é espancada:

“Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me; tiraram-me o manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe digais que estou enferma de amor”.

Enferma de amor. A expressão é belíssima. Mas o universo predominantemente masculino de Israel não pode aceitar uma mulher enferma de amor. Os bravos filhos de Davi – aquele outro – conseguiram superar até mesmo seus primos sauditas. Se na Arábia da família Saud uma mulher não pode sair nas ruas sem a companhia de um macho da família, pelo menos pode sair com o irmão.

Em Betar Illit vivem os haredis, judeus ortodoxos que cumprem estritamente com as normas do “recato”, sempre lembradas em imensos cartazes distribuídos pela cidade: saia longa e camisa de manga longa para as mulheres. Para os homens, calças pretas, camisa branca e chapéu preto ou quipá, em função da seita à qual pertençam. Quem se desviar destas normas terá a ver-se com a polícia – clandestina – do recato.

Muitos rabinos endossam estas normas. Um outro haredi de Betar Illit, que teme revelar sua identidade, tenta explicar: “O mundo haredi não sabe muito bem como reagir. A Internet e os celulares derrubaram muros que nunca antes haviam sido ultrapassados em nossa comunidade, por isso agora os extremistas tentam levantá-los de novo. E por isso alguns rabinos legitimam a violência”.

A menina que teve o rosto queimado, de medo já nem sai de casa. Em junho passado, um desconhecido a abordou em um parque jogou-lhe o conteúdo de uma garrafa que só mais tarde ela descobriu ser ácido. “Teu rosto é lindo demais para esta cidade”, disse antes de atacá-la. Teve o rosto deformado e por sorte o ácido não lhe atingiu os olhos. O pecado da menina foi passear pela cidade de calças.

Segundo Moshe, um judeu ortodoxo de Beit Shemesh – cidade de 90 mil habitantes - que também não se atreve a dar seu sobrenome, em quase todas as cidades israelitas existe esta polícia do recato, o que varia é a intensidade da violência. “Em alguns lugares atacam e em outros intimidam. Não é um corpo oficial, atuam clandestinamente, mas todos sabemos quem são”.

Segundo Moshe, em Jerusalém há um grupo que joga ácido na roupa das mulheres quando a saia ou a manga das camisas são demasiado curtas. Outros sobem nos ônibus para assegurar-se de que as mulheres estão bem vestidas e não se misturam nos assentos com os homens. Tampouco hesitam em intimidar quem ouse organizar um concerto ou outras atividades de ócio.

Os judeus são hostis à beleza. Como também os cristãos, que surripiaram para si o Livro. Me reporto ao primeiro livro da Bíblia. Lá está, em Gênesis 6, 1:

"Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. (...) Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu; porque me arrependo de os haver feito".

Daí o dilúvio. Porque as filhas dos homens eram belas, Jeová extermina homens, animais, répteis e aves do céu. É de supor-se que os peixes, que nadavam, tenham sobrevivido. O Livro nada nos diz sobre esta grave questão teológica. Assim como torna o trabalho uma obrigação maldita, o primeiro livro da Torá amaldiçoa também a beleza.

O padre mexicano, os haredis e demais israelitas estão sendo apenas coerentes.

17 agosto 2008

DILMÃO - A MÃE DO PAC E DA PETROSAL

Conheci algumas pessoas que já estiveram na presença da Dilma e o consenso é que a mulher é louca. Não uma louca de jogar pedra, mas dessas de mandar a turma para o paredão. Sua arrogância e agressividade são famosas. Apesar disso, ela é o braço direito do Lula que a leva em seus comícios e a chama de mãe do PAC. Mesmo deixando de ser ministra de Minas e Energia, ela ainda se manteve como presidente do Conselho do Petrobras e concentra a coordenação de diversos programas do governo federal. Concentra, portanto, um nível de poder nunca antes visto na história do Brasil. Recentemente, ela assumiu a liderança na politização do pré-sal, sob a bandeira do nacionalismo. A pergunta que não quer calar é: ela será nossa próxima presidente da República?

Logo após o chefe de polícia geral da República, o Tarso Genro, prender o investigado-geral da República, o Daniel Dantas, ele levantou a bola de que era necessário prender os militares que participaram de tortura no regime militar. Isto foi mais ou menos na época da implantação do limite etílico sueco, o mais rigoroso do mundo no país. Muitos interpretaram esta jogada do comissário Tarso como uma cutucada na Dilma, que esteve envolvida em diversos crimes praticados na guerra civil travada entre os militares da ditadura e os guerrilheiros marxistas que sonhavam com uma ditadura cubana para o Brasil. Afinal de contas, por que parar nos crimes praticados pelos agentes do estado e por que não investigar também os crimes praticados pela geração 68?

O PAC, na verdade, é um grande saco onde o governo enfiou um monte de projetos que já existiam e se arrogou de patrocinador. Metade do PAC é a Petrobras. Verdade seja dita que quando o governo resolveu apadrinhar estes projetos, as resistências do IBAMA e outros órgãos passaram a ser tratadas como algo próximo de sabotagem do PAC e, portanto, gerou-se benefício para o país. A pressão foi tanta que a ministra Mariana escolheu a melhor hora para pular fora do barco e entrou o histérico Carlos Minc, que grita mas libera.

Quanto ao Pré-Sal, ele é o resultado de mais um dos projetos megalómanos dos militares, como a Embraer, e que buscava desesperadamente petróleo na bacia de Campos. Eis que 30 anos e muitos bilhões de dólares de investimentos depois, cai o pré-sal no colo do Lula. Este menino nasceu com a bunda virada para lua mesmo. Enfim, o atual marco regulatório e a modernização da Petrobras no governo FHC geraram previsibilidade e deram a robustez econômica para que fossem feitos os investimentos que resultaram na auto-suficiência já bastante explorada politicamente por Lula.

A genialidade da pequena política está na sua capacidade de criar discursos, alimentando ódios, dividindo o povo e encontrando inimigos e culpados. O Pré-Sal é uma riqueza maravilhosa da nação brasileira que pode ser explorado e aproveitado por toda a nação com a simples criação e elevação de impostos, como os países civilizados fazem. Ao invés disso, pensa-se em criar uma nova lei, uma nova estatal que seja expurgada dos investidores americanos e outras besteiras que não fazem o menor sentido, exceto dar a Dilma ou a alguma candidato do PT mais um discurso para a eleição de 2010. E que venha Dilma...

31 julho 2008

A Burocracia Contra-ataca

Outro dia assisti a uma palestra sobre Escritório de Projetos e descobri que a burocracia está de volta, agora em nova roupagem. Nunca jogue fora uma roupa que saiu de moda pois se você guardá-la tempo suficiente, e ainda continuar cabendo, você vai ter oportunidade usá-la. Infelizmente, na administração não é tão simples, as coisas voltam, mas com nomes diferentes e os incautos acabarão levando gato por lebre.

Não me entendam mal, nada tenho contra a burocracia no sentido weberiano, no qual se busca incentivar o mérito e se foca em procedimentos de forma a aumentar a previsibilidade dos resultados. Sou contra a burocracia como arma política, sou contra a burocracia para se criar dificuldade para se vender facilidades.

Uma boa burocracia é fundamental, vejamos o caso da usina Vladimir Lênin de Chernobyl, onde um oficial do partido decidiu fazer um teste não programado na madrugada de 25 de abril de 1986, sem seguir os procedimentos de segurança, causando o maior acidente nuclear da história e contribuindo para o final do socialismo real. A combinação de autoritarismo com alguns erros de projeto foi explosiva.

Em função exatamente destes tipos de acidentes que surgiu a disciplina de gerenciamento de projetos, que visa garantir que o produto entregue ao final de um empreendimento atenda às especificações do cliente. Além disso, o gerenciamento de projeto permite uma visão horizontal de gestão em organizações com funções verticais especializadas, permitindo uma melhor integração de recursos.

O engraçado desta palestra é que o mote do consultor era como vender o Escritório de Projetos para a organização, escondendo a sua natureza burocrática. Enganado o gestor com o belo neologismo, começaria a busca pelo poder. O escritório assumiria, então, funções operacionais, depois táticas e, finalmente, chegando às funções estratégicas, coroando o processo com um assento na diretoria para o chief project manager (CPO). A este processo ele chamava de maturidade do Escritório de Projetos.

Isto me faz lembrar dos meus debates com meu amigo marxista leninista que defende a Revolução como única forma de tomar dos ricos o seu dinheiro e extinguir o capitalismo que oprime os homens. Infelizmente, para nós, a sede de poder do homem sobreviverá ao fim do capitalismo e ao fim da história. E, tudo que for criado com as melhores intenções será usado para atender a sede de poder do homem.

A meu ver, o capitalismo e o mercado são positivos para o homem porque nos dá espaço para viver entre a opressão do capitalismo e a opressão dos políticos que usam o Estado para ampliar o seu poder. O estado não é mau, nem tampouco o mercado, mas sim os homens. Chavez, por exemplo, acha que a solução é criar um tipo de educação que enfraqueça laços familiares e fortaleça as relações de solidariedade entre os cidadãos, mas isto não é nenhuma novidade e esta baboseira já foi pensada por Platão.

Enfim, talvez o melhor seja aprendermos a viver entre duas forças perigosas e opressivas, mas que juntas anulam-se mutuamente e produzem um pouco de liberdade para os pobres mortais. Enfim, fico surpreso que não haja mais marxistas leninistas estudando Escritório de Projetos, afinal isto reflete bem o tipo de poder que eles gostariam de controlar.

30 julho 2008

MIDNATSOL

Janer Cristaldo

Por onde começar? Melhor pelo princípio, Oslo. Eu não visitava a cidade há oito anos e a encontrei bem mais viva. Fora alguns árabes e africanos no centro da cidade, só gente bonita. Não que árabes e africanos sejam intrinsecamente feios. Mas os que vi por lá eram feios e mal-encarados. Voltando ao hotel de madrugada, fui abordado por um afrodescendentão que consegui esquivar. Mas o bruto não vinha com boas intenções. É meio difícil de acreditar, mas hoje, em uma capital escandinava, caminhar pela noite não é lá muito tranqüilo. Já em Tromsø, ouvi na televisão que um norueguês havia sido apunhalado em pleno centro de Oslo. Ora, ser apunhalado em São Paulo ou Rio faz parte da vida. Ser apunhalado em pleno centro de Oslo gera comoção nacional. Quem anda armado de punhais nas ruas de Oslo? É claro que não são os noruegueses. Tarde da noite, no centro da cidade, me senti ameaçado como jamais me senti em nenhuma capital européia. Voltarei ainda aos punhais.

Pelo menos no Aker Brigge - http://www.panoramio.com/photo/5564401 - zona portuária, vi mais animação que nas ruas de Madri ou Paris. Aker Brigge é um grande espaço, rodeado de marinas, transatlânticos, lanchas e veleiros, onde os noruegueses e turistas celebram a bona-chira. O passeio que dá para o porto é totalmente tomado por restaurantes e a impressão que se tem é que ninguém trabalha naqueles nortes. Os restaurantes continuam cidade adentro, além do passeio, e todo mundo está comendo a toda hora. Apesar dos preços mais salgados do que charque. (Voltarei também ao assunto). Nórdicas belíssimas, de um louro que tende ao branco, muitos jovens e muitos idosos, gente que gosta da vida. Certamente com alto nível financeiro, pois ninguém freqüenta bares impunemente em Oslo. Todo mundo rindo e confraternizando, despreocupação total em relação ao futuro. Mais ou menos minha idéia de paraíso. O que me espantou foi ver Oslo tão ou mais animada que Paris ou Madri. Lá pelas tantas, a Primeira-Namorada leu em um guia que lhe passei, que “se você quiser escapar do estresse de Oslo, pode visitar regiões próximas à cidade”. Nossa! Aquele estresse terrível de gentes para quem o amanhã nem parecia existir, me chocou profundamente.

Cena para fotografar, mas que não fotografei. Fui pego de sangue frio. Duas mulheres, ébrias não sei de álcool ou de vida, dançavam ao caminhar pela Aker Brigge, cantando Guajira Guantanamera. Subitamente, tomada por alguma insólita hybris nórdica, uma delas levantou a saia até a cabeça e continuou sua marcha triunfal, rebolando e batendo firme com os tacos no chão. Guajira Guantanamera, Guajira Guantanamera, Guajira Guantanamera. Yo soy un hombre sincero e devo confessar que até hoje me perturba a memória aquela saia erguida, a calcinha exígua e aquele remelexo infernal.

Em suma, vi uma Oslo insólita, de uma alegria hispânica. Há, é claro, o fator verão. Para países onde o inverno e a escuridão reinam por oito meses, um mês ou dois de luminosidade é sempre festa. É claro que no invernão norueguês mulher alguma levantaria a saia até a cabeça e sairia cantando pelas ruas.

Há um senão, os preços. Pelo menos para nós, escória do Terceiro Mundo. Oslo é quarta cidade mais cara do planetinha. Mas primeiro falarei dos punhais. Nunca imaginei que um cidadão poderia ser apunhalado no centro daquela cidade. Mas, ao que tudo indica, a arma branca está se tornando corriqueira na Europa. In illo tempore – como diziam os evangelistas – li no El País uma inquietante reportagem sobre Londres. Uma onda de homicídios com punhais e navalhas está assolando a cidade. En lo que va del año – como dizem os espanhóis – 21 jovens foram assassinados por punhaladas. Por semestre, creio que nem em São Paulo temos tanta gente morta por punhal. Recentemente, a capital britânica viu quatro jovens morrerem apunhalados em apenas 24 horas. Os jornais nada dizem sobre os assassinos. O que só prova uma coisa: são africanos ou árabes. Quando um árabe ou africano mata ou estupra na Europa, a imprensa nada diz sobre os criminosos. Se o criminoso for um nacional, seu nome é entregue aos leitores. Volto a insistir: se você não conhece a Europa, visite-a antes que acabe. Aliás, aquela Europa que conheci há trinta e mais anos, não existe mais. Lembro que jamais senti alguma inquietação ao flanar pelas madrugadas nas noites de Estocolmo. Hoje, há ruas e bairros de risco.

Detalhe desagradável em Oslo. Dezenas de boates emitindo para a rua um som de bate-estacas. É como se o som fosse o anúncio da boate. Na penúltima viagem, não encontrei este bordel. Meu hotel ficava distante de qualquer dessas caixas de ruído, mas fico me perguntando como se sente quem mora perto.

O paraíso está começando a ficar bichado. Os países do sul do continente estão encetando uma reação – tardia, é verdade – à ameaça dos bárbaros da África e Oriente Médio. Mas os nórdicos, em sua santa ingenuidade, continuam a recebê-los aos magotes. A Suécia, por exemplo, que já foi invadida por árabes e turcos, está sendo agora invadido por hordas de afegãos, iraquianos e somalis.

De Oslo, peguei um trem até Bergen, a porta dos fjordes, antiga capital da Noruega e porto hanseático, http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen. Tem um espaço semelhante ao Aker Brigge, bordado por um casario de madeira muito colorido, mas sem a imponência do Aker Brigge, bem entendido. De Bergen, navegamos pela Hurtigruten http://www.hurtigruteninpictures.com até Tromsø, além do Círculo Polar Ártico. Não conheço o mundo todo, mas duvido que exista viagem mais fascinante. Os barcos vão entrando pelos fjordes e atracando no portos do litoral. Não é, em princípio, um cruzeiro. Hurtigruten quer dizer Expresso Costeiro. É a fórmula mais prática de viajar pela Noruega, uma tripa de país montanhoso. Mais ainda: viajando pela Hurtigruten, viajar é melhor que a viagem.

O primeiro fjord a ser percorrido é o Geiranger, http://en.wikipedia.org/wiki/Geiranger. Fascinante. Cachoeiras caem o tempo todo dos penhascos, de picos sempre cobertos por neves, mesmo no verão. Em determinado momento, sete cachoeiras se reúnem. São as Sete Noivas. Espetáculo de cortar a respiração. Mais adiante, os penhascos se afunilam e o fjord se reduz a uns trezentos metros. Foi precisamente neste momento em que a Força Aérea norueguesa deu sua contribuição ao show. Dois caças sobrevoaram o navio e mergulharam naquele estreito abismo. Não pode ser coincidência, pensei. Não era. Todos os dias, mais ou menos ao meio-dia, os caças voltavam para abrilhantar o espetáculo. Uma espécie de lembrete: a Noruega não tem apenas uma portentosa frota naval, mas também uma Força Aérea.

Mas se você perdeu a respiração nas Sete Noivas, guarde um restinho de fôlego para o que vem pela frente. Um pouco antes de chegar a Tromsø, na altura das ilhas Lofoten, o mais lindo dos fjordes o espera, o Trollfjorden, http://www.hurtigruteninpictures.com/trollfjorden-lofoten-norway.html . É pequeno, coisa de dois quilômetros. Mas a beleza é tanta que dá vontade de chorar. Vontade não, chorei mesmo. Já o havia visitado há oito anos, com minha Baixinha adorada. Estava lendo no Panorama Lounge do Vesterålen - http://arctic360.360vt.eu/vesteralen - quando ela desceu do convés, desesperada. “Sobe logo, nem imaginas o que está acontecendo lá fora”. Era meia-noite, uma daquelas meia-noites irreais de sol de meio-dia. Frio de lascar. Era uma espécie de cinema em 360 graus, onde era difícil saber para onde olhar. Confesso que nem no Sahara vi algo tão belo. Muito menos na Terra do Fogo. Nos foi servida uma sopa de mariscos, que aqueceu até a alma.

Nessa altura, já ultrapassamos o Círculo Polar Ártico. Já em Bodø – http://en.wikipedia.org/wiki/Bod%C3%B8 –, o sol da meia-noite começa a dar suas caras. Para quem não vive por aquelas bandas, não dá vontade alguma de dormir. Melhor chamar mais um vinho e contemplar madrugada afora aquele meio-dia fora de horas.

Aportamos em Tromsø – http://www.eveandersson.com/norway/tromso - no quinto dia de navegação. Em pleno verão. Lá pelas onze da noite – noite que não é noite - postei-me em um simpático boteco na Storgatan com a Primeira-Namorada. Pedimos um vinho. Bebemos até a meia-noite profunda, isto é, com sol de meio-dia. Gentes girando pela rua como se meio-dia fosse. Ela não acreditava: “mas isto ainda vai escurecer”. Não vai, disse. E vou te provar. Pedi mais um vinho. Lá pelas duas, creio que ela passou a acreditar no que via.

Fotos da Primeira-Namorada durante a viagem, da Noruega, Estocolmo e Paris, estão em http://www.flickr.com/photos/isapgm.

24 julho 2008

A geografia desmente a aliança sino-russa

Em China e Rússia criam uma anti-Otan, Gilberto Scofield Jr. (em junho de 2006) comentava a criação de um bloco de ajuda mútua econômica na Ásia, a Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), cujos membros além de China e Rússia abarcariam vizinhos: Irã, Paquistão, Índia e ex-satélites soviéticos: Casaquistão, Quirguistão, Mongólia, Tadjiquistão e Uzbequistão, bem como possivelmente a Arábia Saudita.

Hu Jintao, presidente chinês, vaticinava diplomaticamente seus objetivos como assegurar a paz e a prosperidade econômica regional. O teor explicitamente antiocidental (antiamericano e antieuropeu) da organização ficou a cargo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad definir:

“Podemos transformar a SCO numa instituição forte e de influência econômica e política tanto em nível regional quanto internacional. E desafiar a ameaça das potências dominantes de usar a força contra outros países ou interferir em seus assuntos.”

Deste blefador já se esperava isto... Vladimir Putin, então presidente russo, é quem tinha o argumento de peso:


“A SCO pode ser um forte jogador global. Temos 3 bilhões de pessoas e isso faz diferença - disse Putin, que pregou a união dos países contra ‘ameaças desconhecidas’” (Grifos meus).

Zhang Deguang, secretário-executivo, chinês que representa quem realmente manda na organização obviamente assumiu o tom conciliatório ao afirmar que a SCO “nunca procurou o confronto com nenhum bloco”. E nem precisa...

Mas, entre os sintomas imediatos como seus membros pedirem a retirada de tropas americanas de seus territórios e a China e a Rússia fazerem exercícios militares conjuntos, o que mais a organização pode oferecer em termos de eficácia e resolutividade?

Da retórica de um mundo multipolar, com a suspeita de uma aliança de potências crescentes a desafiar o império americano – China e Rússia, a primeira com suas taxas de crescimento cavalares e a segunda com seu papel assegurado no fornecimento de matérias-primas, a realidade beligerante entre os dois países continentais é muito diferente.

Em termos econômicos, não há muito sentido em se falar em união entre China e Rússia. O anecúmeno entre Moscou e Pequim requer uma infra-estrutura de bilhões que não existe para fomentar um comércio mútuo, cujos resultados já são atingidos com maior satisfação a partir dos acordos já existentes entre parceiros chineses – o extremo oriente e o ocidente – e russos – a Europa. Isto sem falar que entre as duas capitais, a distância é maior que entre Londres e Washington.

Tudo é uma questão de custo/benefício, como não poderia deixar de ser. Se o comércio siberiano fosse algo mais valioso que o convencional, o brutal investimento em infra-estrutura poderia se justificar. Mas, se há algo que distingue esta “nova era” de tempos pretéritos é que não há mais como manter subsídios sem retorno viável e factível. Se um dia as especiarias e a seda foram suficientes para justifica-los, hoje os objetivos militares têm que mostrar sua fatura.

Há também uma grande assimetria que joga contra a Rússia. A leste dos Urais, o país é relativamente desprotegido se considerarmos sua população, enquanto que a China tem uma gigantesca massa humana na Manchúria na proporção de 15 para 1 contra os russos no extremo oriente. Só o que falta para Pequim é vontade de ocupar a região, o que não ocorre porque o país permanece voltado para si mesmo, seu interior e suas próprias questões.

Se para a Rússia, a vulnerabilidade está na posição – ter que lutar entre duas frentes possivelmente aliadas, China e Otan – para a China, trata-se de uma questão quantitativa e tecnológica: em termos militares/nucleares, a Rússia está muito à frente.

Geograficamente, no entanto, é difícil para a Rússia aproveitar seus recursos com menores custos, como seria o transporte hidroviário. Seus rios, diferentemente da América do Norte não se interconectam e há extensas costas bloqueadas pelos gelos. Sua melhor alternativa reside num remoto Mar de Murmansk, inócuo para o caso de assegurar uma hegemonia siberiana. O leste dos Urais guarda certa similaridade com a realidade africana: demasiado rico em recursos minerais, mas vasto, incomunicável e pobre em infra-estrutura.

Se para os russos, o comércio marítimo é uma necessidade premente, para os chineses, ele é “natural”, com sua população concentrada num litoral de águas tépidas, livre de obstáculos naturais. Analogamente ao comércio e a economia, a Rússia também não tem a primazia militar no meio integrador dos oceanos. Cabe aos EUA o domínio sobre os oceanos com 11 porta-aviões prontos para qualquer ação na região. O poder russo não é naval, nunca foi, mas americano o que lhe confere enorme desvantagem. E se a China quiser manter seu PIB de US$ 14 trilhões em mesmo ritmo de crescimento deve se pautar pela orientação civil e neutra nestas questões. Pequim, simplesmente, não irá matar sua galinha dos ovos de ouro por uma tresloucada aventura geopolítica.

Mesmo o coringa na manga dos russos que consistia em amarrar o fornecimento de gás das repúblicas da Ásia Central para a Europa – que no período soviético serviam ao norte do país – já não é mais o mesmo: estão arriscados a perde-lo. O interesse das ex-repúblicas soviéticas na SCO está nesta intermediação, que o Kremlin usa para obter concessões políticas dos europeus.

A China, por sua vez, tem seus próprios problemas. Com o crescimento econômico, movimentos de descentralização política são fomentados por suas províncias periféricas. Contra eles, duas linhas de dissuasão são adotadas por Pequim: diluindo a diversidade étnica com programas de migração da etnia Han (majoritária) e com o aporte de infra-estrutura (especialmente, ferrovias) no Tibet e Sinkiang. Aí reside um dos poucos pontos em que Pequim pode amenizar sua vulnerabilidade energética frente ao domínio logístico americano, na proximidade das reservas de gás da Ásia Central. Para tanto, seu domínio sobre as regiões tem que continuar num crescendo com a instalação de estradas, trilhos e tubulações. Isto, inevitavelmente, traz problemas a Moscou, cujo monopólio na rede de infra-estrutura (e a vantagem que detém sobre o consumidor europeu) se vê agora ameaçado.

A aliança entre China e Rússia tem na disputa pelos recursos da Ásia Central um nó górdio. E quem está mais próximo de desata-lo é a China para fazer diferença entre séculos de esquecimento da região pela Mãe Rússia.


* Fonte: ZEIHAN, Peter. “China and Russia’s Geographic Divide.” In: http://www.stratfor.com/. July 22, 2008.

20 julho 2008

O que significa a prisão da Daniel Dantas?

Esta semana tive uma discussão com o meu contato na esquerda de classe média sobre o caso Daniel Dantas. Ele defendia a execução do banqueiro. Afirmava que o ministro Gilmar Mendes é um corrupto e que o projeto petista gramsciano de tomada de posições estava condenado ao fracasso. A salvação seria a retomada de uma perspectiva leninista, afinal vivemos em uma cultura muito atrasada.

A minha leitura do episódio é diferente. Acho que o Daniel Dantas está sendo investigado não por ser ou não corrupto, mas por ter entrado em disputa com um grupo da cúpula petista. Nem todos se lembram, mas Daniel Dantas controlava a Brasil Telecom com um fundo americano e o fundo de previdência do Banco do Brasil. Quando se iniciou uma disputa com a Telecom Itália pelo controle do grupo e o fundo americano abandonou o seu lado, ele ficou nas mãos da Previ: surgiu então o conflito com a cúpula petista.

Nesta disputa, o governo o acusou de contratar a Kroll para espionar a cúpula petista do Palácio do Planalsto, enquanto o próprio Daniel Dantas acusou o governo de tentar extorqui-lo em US$ 80 milhões de dólares para obter o apoio do fundo de previdência do Banco do Brasil. Quem se lembra do Mensalão e do forte envolvimento dos fundos de pensão percebe que esta não é uma hipótese remota.

Como entender então a prisão de Daniel Dantas? Os delegados da Polícia Federal não fazem o que querem. Se alguém tiver curiosidade no organograma da Polícia Federal (http://www.dpf.gov.br/web/organog_grand.htm) vai perceber que a decisão de designar quatro delegados para investigarem durante os últimos quatro anos o Daniel Dantas foi tomada no nível da diretoria geral. Não é novidade que o grupo petista que se sentiu prejudicado por Dantas tenha usado a estrutura do Estado para perseguir o seu desafeto, afinal foi assim que Fernando Henrique acabou com a candidatura da Rosinha Sarney.

No âmbito do Ministério Público Federal é surpreendente que ele seja representado neste caso por um promotor singular ainda impúbere. Onde estão os procuradores seniores que deveriam estar ansiosos pelos seus cinco minutos de fama? Quanto ao juiz, eles não poderiam ter escolhido outro melhor, afinal este Fausto tem um viés bastante conhecido de jogar para a arquibancada. Por fim, vem a decisão desastrosa de promover a prisão de Daniel Dantas no âmbito das ações da Polícia Federal para provar que o governo Lula não é tão corrupto quanto ficou demonstrado no Mensalão.

Com o Lula no Japão, foi efetuada a prisão com a qual se congratula o governo de forma apaixonada na pessoa do comissário petista Tarso Genro e do próprio presidente da República. Sob os protestos do comissário petista o banqueiro tem seu hábeas corpus concedido pelo presidente do Supremo, que ainda tem de tratar com um insubordinado de primeira instância, rapidamente defendido pela corporação.

E como ficamos? Ficamos com este PT hipócrita que assiste ao enriquecimento da sua cúpula, enquanto persegue os seus inimigos e tenta vender esta imagem falsa e mentirosa de uma nova ética, quando na verdade continua valendo a velha máxima: Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.
Como já se disse muitas vezes, o melhor amigo de um jacobino é um corrupto. Sem um jacobino que proponha da noite para o dia que o limite alcóolico para se dirigir no Brasil seja igual ao mais rigoroso do mundo, o sueco, não seria possível aos policiais corruptos aumentaram de forma desmedida a propina para liberar os descumpridores da lei.
Para completar a palhaçada, o Lula repreende publicamente o delegado por afastar-se da investigação. Desde quando o presidente deveria se meter pessoalmente neste nível da Administração? Isto faz sentido somente em uma República Sindicalista populista onde o cumprimento da lei passa a ser vista como uma graça, distribuída e capitalizada pelo grande líder. Assim é a política, as coisas acontecem e os políticos tentam tirar proveito.
O problema desta palhaçada toda é que quando o Lula e o PT aparelham o Estado, também promovem a desmoralização das suas instituições, afinal, ou a lei serve para todos ou não serve para ninguém. Se a lei é usada para perseguir os inimigos do governo então a sociedade não a reconhecerá como uma lei legítima. Sem leis e instituições não temos democracia nem uma república. Sem legitimidade não há lei, mas apenas violência e arbitrariedade.
Diante desta realidade, deste autoritarismo, como as pessoas reagem? Na antiga União Soviética formavam-se máfias. No Brasil, o favorecimento alimenta a mentalidade do cada um por si e Deus por todos, da lei de Gerson. Assim, o governo petista nos leva exatamente ao lugar de onde partimos, ou seja, uma sociedade onde a lei não é vista como um bem de todos mas como uma arma dos poderosos contra os seus inimigos.

09 julho 2008

Globalismo, o que diabos é isto?

Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:

Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”.
Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer
o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial.
Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?

Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...

Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?

Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.


Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.
2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.
3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates.

30 junho 2008

Apedeuta defende ilegalidade

Janer Cristaldo

O Supremo Apedeuta é ágil em sofismar, não perde nenhuma ocasião de dizer besteiras. Semana passada, disse que a recente lei de restrição à imigração da União Européia é preconceituosa. "Qual é o grande problema que nós temos no mundo desenvolvido hoje? É o preconceito contra a imigração", disse o Supremo.

Ora, não há preconceito algum contra a imigração. A Europa precisa de imigrantes e tem perfeita consciência disto. O que a UE não quer é a imigração ilegal. Desde há muito havia uma imensa complacência em relação aos ditos sem-papéis, e particularmente da Igreja Católica. Em quase todos os países da Europa, os padres davam guarida a quem entrava ilegalmente no continente. O que a Santa Madre fazia era, na verdade, uma defesa da ilegalidade. O mesmo pretende Lula.

Para o Apedeuta, "o vento frio da xenofobia sopra outra vez". Ora, está soprando pela primeira vez, porque até agora os sem-papéis sempre foram tolerados. E não se trata de xenofobia. Lula, que não entende nem português, de etimologia não entende pivicas. Xenofobia, literalmente, seria medo ao estrangeiro. Não é este o sentimento da Europa. O que se pretende é apenas cumprir a lei.

"Qual é o grande problema que nós temos no mundo desenvolvido hoje? – pergunta a si mesmo o Supremo – É o preconceito contra a imigração. É o medo de perder seu status quo, é o medo de perder o emprego, é o medo de ter alguém ocupando seu espaço. E isso hoje é um problema extremamente sério em toda a Europa. Não é proibindo os pobres de ir para a Europa, é ajudando a desenvolver os países pobres."

A Europa, com seu baixo índice de natalidade, sempre precisará de imigrantes. Não está proibindo os pobres de chegarem lá. Se você migrar para os países europeus com um contrato de trabalho ou de acordo com a legislação vigente – seja pobre ou seja rico – não será barrado em nenhuma aduana nem expulso de nenhum país. Europeu algum tem medo de perder seu emprego ou seu espaço. Porque o trabalho destinado ao imigrante é o trabalho braçal, que europeu algum quer. Imigrante não compete com europeu. Compete apenas com outros pobres diabos que também migram.

Todos os países do mundo empregam mão de obra barata para o trabalho sujo. É normal. Um professor universitário, um economista, um físico ou engenheiro não vai aceitar fazer o trabalho sujo. Nem nós não aceitamos. Tanto que temos sempre uma faxineira para o trabalho sujo de nossa casa. Isto faz parte da vida. Quem pode mais chora menos. Por outro lado, é bom lembrar que aquele imigrante que faz o trabalho sujo na Europa, vive em melhores condições de vida e tem mais assistência do que se fizesse trabalho limpo em seu país de origem.

Nos anos 70, a Europa chamava os imigrantes. A Suécia exibia suas adoráveis louras nórdicas - oficialmente, em publicações da Sverige Huset - para atrair mão de obra. A Alemanha convidava os gastarbeiter. Uma coisa é ser convidado para um país, ou entrar nele cumprindo os requisitos legais. Outra coisa é entrar clandestinamente ou com papéis falsos no país. Se isso for permitido, que se acabe então com fronteiras e aduanas. Se todo mundo pode entrar, aduana pra quê?

É curioso observar que Lula não dirige sua acusação aos Estados Unidos, um dos países mais rígidos quanto à aceitação de imigrantes. Mesmo o Brasil tem suas regras para a entrada de imigrantes. Se não as observa é porque sempre foi uma casa-da-mãe-Joana. O Brasil está cheio de imigrantes ilegais de todo azimute, desde a Coréia até a Bolívia. O que inclusive depõe a favor do país. Se há gentes migrando para cá, é porque aqui é melhor que lá.

Mas a Europa percebeu que não pode nem tem razões para receber os pobres do mundo todo. Isso sem falar no problema árabe. Os muçulmanos, viciados por suas teocracias, quando chegam na Europa já querem impor suas práticas bárbaras. O pior é que as estão impondo. A atual reação européia a uma imigração sem controle – em hora tardia, é verdade – longe de ser um preconceito, é uma defesa do Ocidente e de seus valores.
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