26 abril 2012

Rock não é cultura?


Caro Janer, aqui vão dois comentários sobre seu post "ROQUEIRO VIRA PATRONO DE FEIRA DO LIVRO NO RS"‏


"Comentei, nas últimas crônicas, as relações espúrias entre cultura e show business. De tanto os jornais noticiarem shows de rock em suas páginas dedicadas à cultura, rock acabou virando manifestação de cultura."

Sou um ardoroso aficionado da música feita entre 1600 e 1950 - especialmente ópera -, de pintura, escultura, filosofia, história, literatura, arquitetura. Não me sinto melhor do que os outros por isso. Mérito há em construir o Partenon, em lutar nas Termópilas, em compor Le Prophète, em Cabanel pintar seu Nascimento de Vênus. Reconheço que há mérito em tocar a Apassionata ao piano, em criar cenários para uma ópera. Há quem leia Nietzsche, aquela metralhadora de verdades, e passe a se sentir coautor de seus textos, porque os entendeu e mudaram sua visão de mundo. Ora, o mérito é de Nietzsche, apenas. Entendê-lo é "obrigação" de Homo-sapiens.

O propósito da vida é aquele que lhe damos, ao contrário do que creem os religiosos. Um homem não querer ter contato com aquilo que seus colegas de espécie produziram de melhor é triste, do meu ponto de vista, mas legítimo. Seu propósito de vida pode ser procriar, ir à igreja e ver novelas. Eu, por meu turno, não sou obrigado a assistir televisão e ler suplementos de jornais. Posso passar o dia a trabalhar escutando a música de meu gosto, ler o que desejo, ir a um concerto, viajar para visitar ruínas, fruir de tudo o que me convém e é lícito. Sou livre para selecionar amigos com gostos semelhantes.

Embora prefira música clássica, não vejo qualquer problema em Beatles e Bob Marley aparecerem em um suplemento cultural de jornal. Deveriam apenas estar no suplemento "cultura popular", para os patrulheiros da "verdadeira cultura" não ficarem ofendidos? No true scotsman puts sugar in his porridge...

Os Beatles representam bem a cultura de seu tempo: a psicodelia mesclada a sons exóticos, indianos, a irreverência à la Monty Python, os trompetes algo pomposos que remetem à família real, (puerilmente a Händel e Purcell), além da conexão com os americanos blues, country e o próprio rock. Criaram melodias que identificam bem a cultura daquela época. Ora, se prefiro música clássica, então os Beatles não são cultura? Se prefiro Wagner e os germânicos, então Verdi e os italianos não são cultura? Cultura é aquilo de que mais gosto?

Podemos rugir e espernear, apelar à etimologia às vezes, mas a palavra é o uso corrente que se faz dela. Cultura não é apenas minha concepção de cultura. Não posso chamar alguém de idiota e depois lhe explicar que a palavra "na verdade" designa alguém ensimesmado ou o diabo.


"O espantoso nesta decisão é que os deputados fluminenses adotaram, como patrimônio cultural nacional, um ritmo criado pelos negros americanos nos anos 60. Neste sentido, o rock é muito mais patrimônio cultural do que o funk. Ocorre que o funk é de negros. Patrimônio cultural seja."

O funk carioca, apesar do nome, não tem nada a ver com o funk americano (veja aí o Mandrill, Janer, um típico funk ianque). E o rock tem origem negra, apesar de os brancos terem "tomado posse" e de serem maioria em ritmos mais pesados como o heavy metal. Os brancos também se apoderaram de outros ritmos. Gershwin e depois Glenn Miller, Benny Goodman e outros "apropriaram-se" do jazz; Elvis, Beatles e outros brancos tomaram conta do Rock de Chuck Berry, negro, influenciado por ritmos negros como o blues e o rhythm and blues.

Para lerem o post do Janer, cliquem aqui.

6 comentários:

Anselmo Heidrich disse...

Óbvio que rock é cultura. Há músicos de rock excelentes e, assim como em qualquer estilo musical, há os bons ou ruins segundo determinados critérios. Equívoco é avaliar cultura pelo comércio em que se apóia. Isto depende de outra dinâmica e tomá-la como critério é o mesmo tipo de raciocínio que demoniza qualquer coisa que seja bem sucedida em termos financeiros. Ora, hoje a música erudita encontra um amplo mercado mundial e músicos de vários lugares do mundo se movem buscando empregos de melhor remuneração. Isto os perverte? Isto os corrompe? Caso haja criação envolvida ela se destrói? Claro que não e argumentar neste sentido é o mesmo que fora feito no passado pelos marxistas, heterodoxos também ao buscarem uma falha na cultura contemporânea por pertencer a uma indústria, a chamada "indústria cultural". Exceto se a visão do que vem a ser cultura seja por demais estreita, sinceramente, não há o que discutir. Parabéns, Catellius.

zefirosblog disse...

Perfeito. As atualizações do Pugnacitas fazem falta.

Catellius disse...

Gracias amigos! Sem tempo de escrever desde 2008, quando resolvi ganhar dinheiro (brincadeira), o que tenho em mãos agora são respostas a emails que eventualmente caem em minha caixa e raros comentários em outros sites como este para o post do Janer.
Abraços a todos

Anônimo disse...

Catellius, você, que é de Brasília e arquiteto como eu, não acha que este governo do Agnulo tem tudo (na verdade muito mais) o que o do Roriz e o do Arruda tinham de podre, mas sem ações positivas?

Além da cidade absurdamente imunda, infestada de mendigos e outros vagabundos, perigosa, escura e com obras paradas, nenhuma administração funciona, até o funcionariozinho do protocolo agora quer um "faz me rir" para enviar um processo ao seu destino.

A corrupção está generalizada e nós sentimos isso de perto. Nenhum processo anda, ou porque todos querem a propina que antigamente apenas o administrador e o diretor de aprovação ousavam exigir, ou porque o funcionário é um petista que acha que todo empresário é do mal, contra a "causa" (não raro são arquitetos que se estreparam na iniciativa privada, correram para o serviço público e acham que só não deram certo porque se recusaram a fazer as coisas erradas que "todos" os outros fazem...). Este tipo tem sido raro; o primeiro caso é bem mais frequente.

Lembro-me de uma analogia de Montaigne. Se um corpo tem inúmeros órgãos comprometidos mas o paciente está vivo, devemos tratá-lo aos poucos. Não se pode arrancar todos os órgãos, que, bem ou mal, funcionam, e tentar substituí-los por novos depois de jogar os primeiros fora. O paciente morrerá (a analogia funcionava melhor no século XVI, claro, quando não havia transplantes múltiplos). Isso se o PT fosse bem intencionado. Na realidade, ele fez transplante múltiplo retirando órgãos cancerosos que funcionavam e mantinham o paciente vivo para colocar órgãos necrosados de porcos - a analogia é esta!

Enfim, ao invés de criar um clima pouco propício à corrupção, exonerar um ou outro para dar exemplo e retirar aos poucos os incompetentes, o PT substituiu todos que pôde e colocou mal intencionados que além de tudo não sabem o que devem fazer. Não conhecem o código de obras, não sabem consultar processos, dizem com desfaçatez "para mim essa lei está errada" - o que já deveria ser caso de cadeia -, se nos irritamos ameaçam enviar o processo à SEDUMA, uma instância superior, de onde, na melhor das hipóteses, só retorna depois de uns 4 meses (e o funcionário, a rigor, não está fazendo nada de errado, apenas consultando seus superiores), há administrações como a de Taguatinga que ficaram seis meses sem nenhum analista de projetos! A CEB está sucateada, nada funciona!

Esse é o PT! "Parabéns" aos que não anularam o voto e votaram no maldito Agnulo...

Abs

Antônio Campos (pseudônimo)

Lucas disse...

Muito bom!

Catellius disse...

Antônio Campos,

Obrigado pelo off-topic. Acho que o Brasil inteiro está assim. De fato, se antes nada funcionava muito bem aqui em Brasília, agora é que nada funciona mesmo. Está triste!
Abs

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