30 setembro 2013

O Conflito Social

Atravessamos nossas vidas tentando administrar o conflito. Algumas vezes fugindo, evitando, e outras vezes confrontando. Mas, o conflito é maior que todos nós porque é algo ligado à natureza humana e à vida em sociedade. Quase todo romance gira em torno de um conflito, a maior parte dos telejornais narram conflitos e não passa um dia sem que tenhamos que enfrentá-los. Não vejo solução para eles, que, em boa medida, estão fora do nosso controle e da nossa capacidade de previsão. Resta-nos lidar com eles com todas as limitações inerentes à natureza humana.

Vejo as religiões, em boa parte, como uma engenharia humana que tenta administrar o conflito. Karen Armstrong, em seu estudo sobre o islamismo, enxerga nesta religião uma construção institucional de uma hipertribo que permitiu aos povos árabes abandonar alguns tribalismos e passar a viver como “os crentes”, portanto, uma forma de superar intermináveis vendettas. No cristianismo temos a ideia da comunhão dos irmãos em Cristo. Não temos o mesmo sangue, mas comungamos do “sangue” de Cristo e comemos da sua “carne”. Antes disso, a ideia judaica de um Deus pai já tornava irmãos aqueles que compartilhassem desta crença. Marx, de certa forma, reconhecia este papel da religião em amenizar o conflito e a acusava de ser o ópio do povo.

A teoria marxista defende a tese do conflito de classes como o motor da história, portanto, se este acabasse chegaríamos ao fim da história e, quem sabe, ao paraíso na terra. Para ele, o conflito estava essencialmente ligado a propriedade privada que, em última análise, seria a origem de todo o conflito entre os homens. Esta concepção se aproxima de Rousseau, que supunha que o homem era corrompido pela sociedade, deformada pela propriedade, e, ao contrário de outros contratualistas, recusava a legitimidade do contrato social por entender que este só beneficiava a alguns. Mas Marx e Rousseau estavam errados; sociedades que aboliram a propriedade privada não ficaram livres do conflito.

Nos Estados Unidos, assistimos à disputa entre outras escolas de pensamento que tinham abordagens diversas em relação a questão do conflito. A escola funcionalista via no conflito basicamente uma disfunção social. Os elitistas, a partir de Weber, enxergam o conflito como algo essencialmente ligado à disputa pelo poder e entendiam que este ocorria, em maior ou menor medida, quando parcelas das elites mobilizavam massas para travar suas batalhas. Os pluralistas americanos defendiam a tese de que o poder estava disperso pela sociedade e que era proporcional à capacidade de organização de alguns grupos. Mas não parece que o conflito esteja restrito a dinheiro e poder. Os romances de Agatha Christie traçam um panorama bem mais sombrio da natureza humana.

O conflito não é algo remoto, presente em teorias sociológicas ou romances, ele está presente em nosso dia a dia em sociedade. Quantas vezes já ouvimos pais falarem para filhos que não levem desaforos para casa ou que se apanharem na rua apanharão duas vezes em casa? O discurso mais politicamente correto é que as crianças precisam aprender a se defender. Em função disso, os pais põem seus filhos para fazer judô, karatê, jiu-jitsu na esperança de que eles pelo menos não sejam vítimas.

Apesar dos esforços das religiões, dos pais e das teorias sociológicas, o conflito persiste e talvez persista enquanto a sociedade humana existir. As ideias de justiça, de direitos, de mérito e de igualdade talvez sejam aproximações para atribuir significado aos conflitos. Quando assistimos a um jogo de futebol, classificamos agressões como “raça” ou “desleal” em função da nossa interpretação do conjunto das regras e da conduta do jogador. Existem até pessoas que, em função, de uma profunda identificação com um “time” são basicamente incapazes de ver qualquer razão ou reconhecer qualquer mérito em um time que não seja o seu. Muitos destes “doentes” fazem parte de torcidas organizadas, outros fazem parte dos Black Blocks e outros, ainda mais sofisticados, são líderes políticos hábeis em alimentar conflitos sociais em seu próprio benefício.

Lula, por exemplo, é um exímio manipulador de conflitos. Vejam o caso deste Programa Mais Médicos; ele é questionável em várias dimensões, desde o uso de “mão-de-obra escrava cubana”, passando pela falta de estrutura local para apoiar os médicos, seu impacto sobre a saúde pública no Brasil é questionável, a truculência da sua implantação por Medida Provisória é digna dos militares, enfim, é uma política que gera muito conflito e cujos resultados até o momento são nulos. Entretanto, em termos eleitorais, a turminha do PT conseguiu lançar nacionalmente o Padilha, ministro da Saúde, como candidato a governador de São Paulo. Com este jeito truculento ele se projeta e se cacifa para ser governador deste estado que tem um grande desafio de segurança pública a ser enfrentado.

A política de cotas raciais é outro tipo de política de resultados muito duvidosos. Nos EUA, onde foi aplicada por décadas, tem um resultado bastante ambíguo. Existem aqueles que afirmam que não foi possível mostrar o efeito positivo sobre a comunidade negra em função da ação devastadora do crack. Apesar disso, é uma plataforma eleitoral que ganha cada vez mais legitimidade no Brasil, apesar de contar com uma turminha revoltada daqueles que acham que a vida lhes deve algo e eles estão aqui para cobrar. Esta atitude não tem cor, ela está presente em muitas pessoas que só têm desprezo para oferecer a seus semelhantes.

Isto para não falar daqueles que querem mesmo é ver o circo pegar fogo. Tem gente que gosta de conflito, se sente vivo com aquela descarga de adrenalina, com ampliação dos sentidos e com aquela presença necessária para garantir a sobrevivência. Basta ver os Black Blocks em seu êxtase “revolucionário” e destrutivo. Talvez uma sessão de destruição dê um barato melhor que cocaína. Os militantes do PT não ficam atrás com aquelas suas bandeirinhas que, quando rejeitadas, são prontamente transformadas em porretes.

As religiões diriam que eles também são filhos de Deus e que não nos cabe julgá-los. Talvez amá-los não seja a solução para o problema do conflito, mas seja um passo para conseguirmos encontrar paz em nós mesmos. Não podemos procurar a paz pelos outros e muito menos obrigá-los a buscá-la, mas podemos fazer a nossa parte. Ainda não acredito em oferecer a outra face porque acredito que estou certo.

26 setembro 2013

Cotas para Negros no Serviço Público Federal

Hoje, meia dúzia de gatos pingados foi ao Ministério do Planejamento e 5 cidadãos ameaçaram fazer greve de fome se não fossem recebidos pela titular da pasta. Para evitar que os ditos cujos perdessem o jantar, a ministra os recebeu juntamente a um frei que iria incensar a petição. Pediram que fosse regulamentada uma cota para negros no serviço público e receberam a promessa do encaminhamento do regulamento para Dilma até 1º de outubro. Se a presidente Dilma se curvar a este pedido, que é apoiado por setores do PT, estará ajudando o Brasil a se tornar mais sectário, injusto e ineficiente.

Cotas raciais são uma ideia estadunidense, como diriam os esquerdistas, para garantir o acesso de negros a universidades de elite. Após a Guerra da Secessão, que matou 600 mil americanos, adotou-se a segregação racial no Sul a fim de permitir que os brancos derrotados tivessem uma convivência mínima com os ex-escravos. Na década de 1960, houve um forte ativismo no sentido de acabar com escolas separadas, por exemplo, uma vez que elas tinham desempenhos diferentes. Continuando este movimento, foram criadas cotas para negros nas principais universidades americanas, justamente porque o sistema para a universidade americana é de cotas. Lá já existiam as cotas dos filhos dos ex-alunos, dos alunos brilhantes, dos alunos indicados por excelência acadêmica em algumas escolas, dos atletas, etc.

No Brasil era diferente. Existia o vestibular, que selecionava os alunos com melhor desempenho de forma impessoal, mas a lei das cotas raciais nas universidades foi aprovada miscigenada à lei de cotas sociais, confirmando a vocação para a miscigenação no Brasil. Em termos de equidade, a única justificativa para esta lei é que a maioria das escolas públicas brasileiras é ruim e os alunos que nelas estudam não têm condições de competir com os alunos das melhores escolas públicas (escolas técnicas, de aplicação, militares,...) e com os alunos das melhores escolas particulares. Do ponto de vista racial não há justificativa senão a invocação de um longínquo passado de escravidão, que dista 5 ou mais gerações e sob o qual os historiadores têm posições muitos diversas das dos ativistas.

O típico aluno do ensino superior no Brasil é mulher, paga para estudar em uma faculdade privada, trabalha durante o dia e estuda à noite. De qualquer forma, em alguns anos, estes novos privilegiados que tiveram a oportunidade de estudar nas melhores escolas públicas estarão se formando e poderão concorrer a vagas no serviço público em boas condições; portanto, se é para dar alguma vantagem na disputa pelas vagas no serviço público, que seja para aqueles que estudam, trabalham e ainda têm que pagar por um ensino de qualidade duvidosa. Hoje, o Reitor da UnB, após ter sua sala invadida, foi agredido por alunos bolsistas da universidade que exigiam mais alguns direitos.

Infelizmente, o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul já aprovaram as cotas para negros no serviço público. O sistema do Rio de Janeiro é particularmente malicioso. Lá, o candidato que escolher concorrer a vaga de negros concorre nas duas categorias. Se ganhar a vaga de branco, ótimo, senão vai para a repescagem na de negros.

Argumenta-se na defesa desta nova cota que há discriminação contra os negros no setor privado; portanto, decide-se reservar-lhes vaga no serviço público. Parece aquela piada de Nasrudin onde o sujeito perde a chave em casa e vai procurá-la na rua porque lá tem luz. Qualquer pessoa que conheça um pouco de seleção de grandes empresas sabe que se deseja a diversidade e que, na verdade, um grande desafio não é a integração entre jovens com backgrounds diferentes, mas pessoas de gerações diferentes que costumam ter valores diferentes e têm dificuldade de trabalhar junto.

Enfim, duvido da honestidade dos propositores destas ideias, não acredito em suas boas intenções. Eles sabem que estas propostas podem, no curto prazo, melhorar a vida de alguns, mas não de uma população. Acredito que o que buscam é criar uma clientela eleitoral que seja mobilizável e eleja candidatos negros do Partido dos Trabalhadores. Já vimos que no Brasil algumas bancadas não dão os melhores resultados, como os evangélicos do Feliciano, e corremos o risco de assistir ao surgimento de uma bancada que contará com os líderes deste movimento. Mas tudo bem, o Brasil é grande e deve suportar mais alguns políticos imprestáveis.

Mas, se Deus quiser, o PT vai cair do cavalo com esta ideia assim como o Lula se deu mal com a indicação do Barbosa para o Supremo. Jurava o nosso grande líder carismático que teria um “negro dócil e agradecido” para julgar o Mensalão. Descobriu que Joaquim Barbosa levava a sério a sua toga e tinha compromisso com a justiça. Portanto, torço para que esta péssima ideia não seja aprovada, mas, se for, espero que tenhamos muitos Barbosas no serviço público, prontos para mostrar seu compromisso com o público e sua insubmissão a qualquer projetinho partidário que deseje submeter o Estado ou enfraquecer e dividir o povo brasileiro.

20 setembro 2013

Salve Marina, Aécio e Campos. Ou: a Importância da Alternância de Poder

Se Deus quiser, Marina, Aécio e Campos desafiarão a hegemonia petista em 2014, quando completará 12 anos de dominação do Brasil. Se conquistar a próxima eleição, o PT superará Vargas em sua primeira fase, quando ficou 15 anos no poder. Mais uma eleição e eles igualam os militares, a quem tanto odeiam, que ficaram 20 anos no poder. Mas, o sonho mesmo é chegar a ser um PRI, que ficou 70 anos ininterruptos ocupando o poder no México. Que belo trabalho eles fizeram pelo México! Para a democracia e para o fortalecimento das instituições, é importante a alternância de poder, pois, como já dizia o velho ditado, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.”

O exercício do poder corrompe. Vejam o caso do STF, daqui a alguns anos não haverá um juiz lá que não tenha sido indicado pelo PT. Mesmo assumindo que eles pertençam a correntes diferentes do Partido, tenham sido indicados por coalizões diferentes, ainda assim estarão controlados em algum grau pelas redes de favores e influência petista. O interessante deste julgamento do Mensalão é que ele torna evidente o poder que alguns altos dirigentes do Partido dos Trabalhadores têm sobre alguns membros do STF. Na Venezuela, por exemplo, a lisura da Suprema Corte em relação ao governo é nula. Isto é difícil até nos EUA, onde uma decisão da Suprema Corte resultou na eleição do Bush Júnior. Não por acaso seu pai havia indicado o cara que tomou a decisão.

O poder é uma merda. Com o passar do tempo, as redes que vão sendo trançadas em torno dos cargos vão se tornando cada vez mais degeneradas. Muitas vezes algumas pessoas simplesmente não podem ser demitidas, pois conhecem os podres de muita gente. E, se são demitidas, têm que ganhar uma compensação adequada para que dossiês não comecem a vazar para a imprensa. Recentemente, descobriram um assessor da Casa Civil acusado de mais de 10 estupros de menores em condições de vulnerabilidade. Ele foi delicadamente demitido, mas ninguém falou em expulsão do Partido dos Trabalhadores. Em minha opinião, este rapaz deve saber demais.

O sistema político americano é dominado por dois partidos que se alternam no poder. Quando isso ocorre há uma tendência a que o partido que está ocupando a presidência evite criar muitos cargos e outras vantagens, pois corre o risco de estar fortalecendo o outro partido, que tem boas chances de chegar ao poder. Quando este risco não é real, então temos uma tendência para a tirania, na medida em que o partido encastelado no poder começa a ampliar seu poder sem medo de ter de entregá-lo ao adversário ou inimigo, a depender da situação institucional do país.

São as instituições, as regras do jogo que permitem que o jogo político seja disputado por adversários. Quando não há instituições, ou elas estão muito fracas, a disputa pelo poder degenera como no caso do ditador da Síria. Lá não há mais adversários, pois não há regras para a disputa. Lá temos inimigos, pois vale tudo, até matar criancinhas com gás venenoso. Por que a Síria não tem instituições? Por que não há regras de alternância de poder. Há a dominação de um grupo que não tolera qualquer oposição.

Falando em oposição inimiga, temos o caso da Venezuela. Recentemente, o Maduro criou o 0800 denuncie um sabotador da revolução. Este é um sintoma da intolerância com a oposição, das crescentes perseguições políticas e de um Estado policial onde as vozes discordantes são criminalizadas. Aliás, esta história de sabotadores vem da União Soviética, da China e outros paraísos esquerdistas onde se unia o útil ao agradável, ou seja, procurar bodes expiatórios e perseguir os inimigos.

A Marina, o Campos e o Aécio não são perfeitos. Longe disso. Duvido que a Marina seja a santa que pintam. O Aécio é um playboy que outro dia estava no Rock in Rio. Quanto ao Campos, tenho certeza que o PT está desenterrando seus podres. De qualquer forma, a chegada de qualquer um deles ao poder será bem-vinda pois serão desmanteladas, ou pelo menos renovadas, amplas redes de corrupção e influência. No mínimo os operadores terão que ser trocados. O governo poderá criticar alguns erros, pois não serão seus e o país avançará mais um pouco, até que chegará a hora de trocar de novo.

16 setembro 2013

Que mérito há?

Baal, um exemplo de deus de pedra
Jesus disse, conforme se lê em Mateus 5, 47: “Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?” É aquele tão famoso quanto nocivo e antinatural "amai vossos inimigos", que, por ser impraticável, é útil para produzir pecadores, muitos dos quais submeter-se-ão de rastros aos administradores da salvação, os representantes de Deus na Terra.

Elencarei os meus “que mérito há”, ressalvando, com palavras de José Ingenieros, que “as verdades gerais não são irreverentes; deixam entreaberta uma frincha, por onde escapam as exceções particulares”.

Antes gostaria de assinalar a diferença entre mérito e aptidão, mérito e qualidades dele independentes. Exemplos: parti do zero e hoje tenho 100 milhões de reais, menos portanto do que alguém que herdou 200 milhões e nunca trabalhou. Determinado romano conhecia mais do latim, em todas suas nuances, do que um PhD nesse idioma, nos dias de hoje. Este tem mais méritos do que aquele, que poderia ser um retardado mental de toga. Já a palavra "meritocracia" relaciona-se a "aptidão"; talvez fosse etimologicamente apropriado usar "meliocracia". Mas agora que o termo já existe, fiquemos com ele.

Que mérito há em ser bom, puro, quando se é criança e não se tem mais maldade que um bichinho irracional qualquer? Mérito há em ser bom quando se conhece o mal e se é capaz de praticá-lo, de preferência sem prejuízo imediato para si. Todos facínoras foram crianças puras. Quantas crianças puras serão adultos probos? Adão e Eva só passaram a ter mérito em serem bons depois de aceitarem a sugestão da serpente e comerem o fruto proibido.

Que mérito há em gostar de uma sinfonia de Schubert, da Carmen de Bizet? Isso lá demanda empenho, sabedoria, denota nobreza? Pessoas muito menos distintas que cachorras de baile funk já se deleitaram, no século XIX, com Verdi e Rossini. Mérito há em ter composto suas óperas, em saber executar a parte de um instrumento, ao menos em ser um grande connoisseur. Julgo que haja demérito em não se apreciar Beethoven, em não conhecer o pensamento de Nietzsche, em ser incapaz de compreender seus livros, ainda que se viesse a divergir de tudo. Entretanto, o demérito de uns não implica em mérito dos outros. Muitos serem desonestos não faz de mim um herói merecedor de medalhas, se apenas cumpro com meu dever. Escrevi um post sobre isso. Saber quem foi Aristóteles, conhecer o que os pináculos de nossa espécie fizeram pela nossa evolução - não darwinianamente falando - é obrigação de homo sapiens. Mas o mérito é de Aristóteles, não de quem o compreendeu. Poderão me questionar: "então posso afirmar que é nosso dever ser bom. Demérito há em ser mau". Discernir o bem do mal, ser justo, nem sempre é fácil. É necessário empenho constante, que se medite, filosofe, que se arque com eventuais prejuízos imediatos. Não furtar é obrigação.

Que mérito há em ser humilde quando não se tem do que se orgulhar? Muitas vezes o sábio, que poderia jactar-se de seus conhecimentos, descortina a infinitésima parte de um universo diante do qual se sente um grão de areia, daí adota uma postura humilde. Não perante os homens; é-o para si mesmo e para o universo. Como Sócrates, diz "só sei que nada sei". Há o humilde como mero sinônimo de pobre, que pode ser orgulhoso, cheio de brios. Se tem um amigo bem de vida e seu fausto o incomoda - ainda que não o admita -, aguarda uma brincadeira inocente do amigo, um pretexto qualquer para, mui ofendido, mostrar que é pobre, mas tem honra e dignidade, e então priva-o de sua companhia. E há o que se humilha para ser exaltado, porque a humildade passou a ser um valor em si, desde que a moral do escravo (cristianismo) passou a viger.

Que mérito há em perdoar quando não se pode retaliar? Hoje perdoa-se como terapia, para não se intoxicar com a bílis corrosiva da revolta, para não se prejudicar o sono, para se tirar um fardo das costas e voltar a viver. Portanto, pela própria saúde, perdoa-se os poderosos que nos prejudicaram e que estão acima do bem e do mal, os facínoras foragidos ou mortos. Há aqueles que perdoam sem pensar no próprio bem-estar, por boa índole, ou por cacoete cristão, talvez contraído por obediência contumaz ou pela promessa dos galardões celestiais - a inatingível cenoura suspensa diante de seus olhos. E, por fim, há aqueles que querem e podem retaliar, mas perdoam magnanimamente, talvez com uma pitada de desprezo. Ter a oportunidade para retaliar impunemente talvez já funcione como a própria desforra, não?

Que mérito há em fazer caridade sem ela representar algum tipo de sacrifício, se é feita com o dinheiro alheio, ainda mais quando o efeito colateral é o proselitismo religioso ou o político-partidário, no caso de esmolas estatais? A liberalidade com o dinheiro de outrem é fácil, principalmente quando temos nossos altos custos missionários pagos por ele. Mérito há em doar do próprio bolso. O generoso, como o herói, desfaz-se de algo que é seu e de que necessita, em prol de outros. Aristóteles já defendia a propriedade privada porque, entre outras razões, as pessoas somente podem ser generosas se têm algo para dar.

Não há mérito em ser casto quando não se é mais atormentado por hormônios sexuais. Muitos velhos que já aproveitaram sua juventude, agora enfastiados, meio amargurados pela morte cada vez mais próxima, ressentem-se da juventude, do sexo, da vida desfrutada inconsequentemente por seres imaturos de pele viçosa, cheios de energia e de paixões. O velho preconiza veementemente que cuidem do espírito, que não incorram nos erros que ele próprio cometeu. Ora, maior é o mérito do jovem bonito casado torturado pelos próprios hormônios, sem medo de represálias divinas, em terra estrangeira e sem testemunhas, assediado pelo belo sexo, e que mesmo assim mantém o contrato de monogamia com a esposa. Se a ama muito e não pensa em mais ninguém, o mérito diminui um pouco. Poderão me questionar: "não disseste que o demérito de uns não implica no mérito de outros?". Sim, mas são outros quinhentos quando a carne tiraniza... Enfim, se o sujeito é feio, não é assediado, tem medo do inferno, não é vítima dos próprios hormônios, não vejo muito mérito em sua castidade. Que mérito há no único homem de uma ilha não ter querelas com outros seres humanos? É evidente que a velhice suscita mil méritos, pelo cenário de decadência física e consequentes provações, pela tendência ao pessimismo e à casmurrice. Montaigne produzir aqueles profundos, deliciosos e otimistas ensaios sob as atrozes dores de parto de suas pedras nos rins aumenta, definitivamente, seu mérito em tê-los escrito.

Que mérito há em ser ateu quando se tem saúde e dinheiro? Não existe ateu em aviões caindo, dizem. Muito pelo contrário. Quando eu voltava do Japão, o avião sofreu uma violenta turbulência. Olhei para os lados e reparei nas expressões dos passageiros. Praticamente todos estavam de olhos fechados e balbuciavam orações. Fiquei com vontade de rir e minha esposa censurou-me com um empurrão, com medo de que eu gargalhasse. O voo normalizou e todos devem ter agradecido a Deus pela graça alcançada, porque certamente o avião teria caído se ninguém tivesse rezado. Eu, por meu turno, confio nas estatísticas. Voltando, o mérito em ser ateu pode ser menor, mas não confio tanto no juízo de quem perdeu a frieza de raciocínio, cultivada nos tempos em que pensava livre de ameaças e de medos, por temor da morte.

Logo após o jejum de quarenta dias e quarenta noites, superado pelo carioca Erikson Leif, que ficou comprovadamente 52 dias sem comer, Jesus foi tentado pelo demônio. Que mérito há em rejeitar os reinos terrestres que o diabo oferece quando se é o próprio cocriador de tudo o que existe e de tudo se pode dispor quando bem entender? O C. Mouro bem disse: "É como alguém querer subornar o filho do Bill Gates oferecendo-lhe uma cópia pirata do Windows 95".

Que mérito há em realizar profecias como "entrar em Jerusalém montado num jumentinho", quando é tão fácil roubar um para cumpri-las? Para aqueles "lírios do campo", difícil seria trabalhar para conquistar o próprio meio de transporte, isso sim. Ok, Jesus ordenou aos discípulos que, se o dono dos animais reclamasse, lhe dissessem que necessitava da jumenta e do jumentinho e que sem demora os devolveria.

Que mérito há em dar a vida pela humanidade sabendo que se ressuscitará no terceiro dia? O herói que dá a própria vida ou que a arrisca por outros que não conhece – sacrificar-se pelos familiares demanda menos heroísmo – sabe que a terá perdido irremediavelmente, com todos os encantos que pode proporcionar. Quantos não pulariam do alto de penhascos se soubessem que voltariam a viver depois de 36 horas? Creio que haveria parques de diversões “radicais” onde viciados em adrenalina morreriam em acidentes de avião para sentirem na pele toda a emoção do desastre. Esbaldar-se-iam em uma festa de arromba de lápide, chamada por exemplo de “Ressurrection Rave”, após letargias de 36 horas em sepulcros de luxo como o de José de Arimatéia, amigo de Jesus que lhe emprestou sua tumba com a condição de que a desocupasse em pouco tempo.

Ah, e que mérito há em ter seus erros resgatados por outrem?

Que mérito há em um deus onipotente criar todas as coisas? Deve ter-lhe custado menos que a tartaruga ganhar a corrida da lebre, na fábula de Esopo, dado menos trabalho do que um bezerro recém parido equilibrar-se sobre os cambitos. Além do mais, um ser perfeito não age senão do melhor modo possível, nunca se vê no dilema de escolher entre duas ou mais opções, não precisa de discernimento porque não escolhe, não tem livre-arbítrio; se não o possui, não tem mérito, não é inteligente, é uma engrenagem natural, é como uma pedra. Baal não era de pedra e, não obstante, era deus? Pensando bem, as palavras gravadas no tambor cilíndrico da base da cúpula da Basílica de São Pedro, retiradas de Mateus 16, 18, são bem verdadeiras se as considerarmos direcionadas para Javé: "Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam mean" - Tu és Pedro (pedra) e sobre esta pedra edificarei minha igreja.

No Gênesis, Javé parecia-se mais com um deus vivo. Até mesmo descansou no 7º dia... Na verdade, aquele era o primeiro dia em que o homem criava deus, e este era ainda mal acabado, recém saído do barro. Cometia erros e arrependia-se. De moral torta, afogava crianças em dilúvios, sua onisciência e onipresença não estavam plenas e ele precisava perguntar às criaturas o que faziam, descer de seu trono para ver de perto a torre construída em Babel, era ciumento, iracundo. Hoje, no sexto dia da criação, seus atributos presentes retroagiram e ele sempre foi um onipotente, onisciente, onipresente e bondoso deus cristão panteísta zen-budista, que salvará até mesmo os ateus malvados, porque não sabem o que fazem e portanto devem ser perdoados, como pediu Jesus enquanto estava pregado na cruz - pregado mas divinamente anestesiado, imagino.

Concluo este post com uma última pergunta retórica, sob a premissa, claro, de que somos regidos por um deus capaz de tomar decisões: Se devemos amar os inimigos, porque não há mérito em amar os que nos amam, que mérito há em salvar apenas os crentes bondosos? Qualquer deus é capaz disso. Mérito há em destinar ao paraíso ateus irônicos que se riem das sagradas histórias da carochinha contadas por aqui desde que passamos a ter medo da morte...

14 setembro 2013

O PT corrompe o STF


Em 2005, ocorreu o famoso escândalo do Mensalão quando Roberto Jefferson denunciou um amplo esquema de corrupção controlado pelo ministro-chefe da Casa Civil do presidente Lula, José Dirceu. Diante da ampla crise política (forte queda de popularidade e risco de impeachment), Lula disse que não sabia de nada. Nos anos seguintes, ocorreu uma longa ação do Ministério Público que foi relatada pelo ministro Barbosa e teve como revisor o ministro Lewandowiski. A defesa contou com bancas renomadas que custaram dezenas de milhões para os réus. Em 2012, o julgamento foi pautado, julgado e os réus condenados por um colegiado de ministros da mais alta corte do país que se debruçaram durante meses sobre o processo. Nesta semana, dois sujeitos indicados por Dilma, o Barroso e o Teori, começaram uma virada de mesa a favor dos réus como nunca antes se viu na história deste país. Esta virada de mesa revela o grau de corrupção da mais alta corte do Brasil pelo Partido dos Trabalhadores.

A forma como se dá a virada de mesa é irrelevante, trata-se de tentar utilizar um tipo de recurso que não existe mais no Código Penal para tentar forçar um segundo julgamento. Tal recurso, quando existia, fazia sentido quando havia um julgamento por um juiz singular e quando havia uma corte superior a qual recorrer. Isto não ocorre neste processo onde o julgador foi o Pleno do Tribunal e não existe Corte mais alta no país para recurso. De qualquer forma, trata-se essencialmente de um golpe com base em algumas filigranas jurídicas que não resistem ao exame do senso comum.

Este golpe está sendo dado pelo Partido dos Trabalhadores para evitar que José Dirceu e seus companheiros sejam presos. A lógica é simples. Após três derrotas em disputas presidenciais foi a direção pragmática de Dirceu que preparou o PT para a vitória em 2002. Dirceu abandonou alguns elementos leninistas de confronto com o capitalismo e aderiu a uma estratégia gramsciana de busca da hegemonia no mesmo estilo do partido nazista ou fascista. E, o Mensalão, em si, foi um método centralizador de obtenção de governabilidade em troca de dinheiro público enquanto se mantinham alianças toleráveis a setores internos do partido, portanto, salvar Dirceu é uma obrigação do partido para com aquele a quem o PT deve o poder.

Os instrumentos do golpe foram alguns indicados pelo PT para o STF. Em suas sabatinas no Senado tanto Barroso quanto Teori disseram que não se intrometeriam no julgamento do Mensalão. Mentiram. Não somente se meteram no julgamento, como propuseram o que, na prática, seria a anulação de um longo julgamento, o que levaria à prescrição dos crimes do Zé e de outros petistas. Tem ainda a Rosa Weber nomeada por Dilma que é amiga de longa data do ex-marido da mandatária, portanto, seu voto é um voto de amizade. O voto de Toffoli é simplesmente imoral, pois ele não somente era o advogado do PT responsável pela prestação de contas da eleição presidencial no TSE quanto foi subordinado de José Dirceu na Casa Civil. A postura e os expedientes protelatórios usados por Lewandowiski em diversos confrontos com o relator do processo já dizem o suficiente sobre o seu caráter duvidoso.

Precisamos reconhecer aqueles juízes que agiram com um mínimo de decência e senso de justiça. O maior elogio vai para Luiz Fux, que contou com o apoio de Dirceu para chegar ao STF, mas depois que chegou lá lhe deu uma banana. Dizem que Dirceu ficou nos cascos com a traição. Gilmar Mendes apelou para que a corte não se exponha ao ridículo ao aceitar fazer um novo julgamento dos réus que já tiveram um julgamento justo por uma corte colegiada. Barbosa foi a pior aposta de Lula, pois nunca foi subserviente e suas constantes licenças médicas não impediram o julgamento do processo. Carmen Lúcia, com seu estilo discreto, votou também pela manutenção da sentença do julgamento e pelo cumprimento do que está previsto no Código Penal. Até o primo do Collor, o Marco Aurélio, reconheceu o absurdo deste golpe absolutamente casuístico.

Como dizia o velho adágio popular: “Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.” É lamentável que o STF reconheça que os altos dirigentes do Partido estão acima da lei. Mas convenhamos, José Dirceu não é um cidadão comum como eu ou você. José Dirceu é um revolucionário esquerdista, um guerrilheiro que lutou contra os militares, um grande líder do PT e talvez o maior arquiteto da estratégia de poder gramsciana do partido. Como já disse Olavo de Carvalho, essas pessoas não fazem revolução para virarem operários, fazem para serem dirigentes vitalícios.

10 setembro 2013

A questão da Síria e a política externa covarde e repugnante do PT

Diante do sofrimento de toda uma população e do assassinato covarde de 1.400 pessoas com armas químicas, a posição da política externa do PT é covarde e repugnante. Covarde porque não tem a coragem de assumir que é necessário retirar o ditador Assad do poder e ele não sairá senão por meio da força, e repugnante porque usa desta tragédia para propor a reforma do Conselho de Segurança que lhe dará uma cadeira permanente.

A Síria foi um dos países onde o mundo assistiu a Primavera Árabe há cerca de dois anos, quando milhões de pessoas saíram às ruas exigindo mudanças em seus governos, como no Egito, Síria e Líbia. O ditador Assad, diante da pressão popular, permitiu que a oposição participasse das eleições e aprovou uma nova constituição. A oposição e a maioria da população rejeitaram as reformas e pediram a saída do Ditador. Diante do impasse e do assassinato de civis nas manifestações começou a guerra civil.

O antigo modelo político sírio é o sonho do PT e do Lula. Havia uma Frente Progressista Nacional constituída por partidos nacionalistas e socialistas sírios que indicavam uma lista única que era votada pela população. O Assad é o Lulinha sírio, tendo chegado ao poder em 2000 por meio de referendo para substituir o pai, que governou por trinta anos. Pois é, a tal lista fechada do Assad faz parte das propostas da Reforma Política do Lula, assim como o esforço do Lula para monopolizar a política nacional eliminando a oposição.

Bem, dois anos de guerra civil depois, morreram umas 100.000 pessoas, 1/3 da população fugiu do país, para viver em condições precárias nos vizinhos, que sofrem enormes pressões, enquanto o restante da população vive no fogo cruzado entre o Exército do Ditador e os rebeldes. Diante de todo este sofrimento, a ONU não age porque China e Rússia tem interesses militares, políticos e econômicos na continuação do regime sírio e ambos têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Neste fogo cruzado foram apanhadas 1.400 pessoas em um bombardeio com armas químicas. Este bombardeio ocorreu em um subúrbio dominado por rebeldes e matou mais de 500 crianças. O ditador tem uma fábrica e um bom arsenal de armas químicas, mas apesar disto nega qualquer responsabilidade. Afirma que é uma manipulação dos rebeldes para provocar uma intervenção externa.

Neste quadro, Obama, o primeiro presidente negro dos EUA e prêmio Nobel da Paz, ameaça intervir unilateralmente para punir o Ditador com ataques cirúrgicos que destruam sua capacidade de usar armas químicas. Obama que conseguiu tirar os EUA do Iraque e tenta se retirar do Afeganistão quer mandar tropas para a Síria? Nunca. Mas ele diz que não é possível deixar este ato de barbárie sem uma resposta proporcional. A Rússia disse que ajudaria a Síria se ocorresse um ataque.

E a política externa do Brasil do PT? Apóia uma solução diplomática para um ditador que mata sua própria população e são contrários a uma intervenção militar americana, apesar de saber que ONU nada fará. Não tem nada de humanitário nesta política externa. Ela é covarde, pois permite a continuidade da matança e da guerra civil que causa enormes sofrimentos a toda uma população. E é oportunista por querer usar esta tragédia para ganhar prestígio. Que vergonha para o Brasil ter um governo assim.

06 setembro 2013

Um aldrabão, 10 milhões de...

Em meu último post escrevi sobre João de Santo Cristo, o carpinteiro traficante que morreu antes de conseguir uma audiência com o ex-presidente Figueiredo. Este é sobre João de Deus, o não-médico de Abadiânia que faz não-cirurgias, tema da reportagem de capa da Veja Brasília da semana passada intitulada “João do céu e da terra”, ótima porque não deve ter incomodado os que creem no curandeiro, ao passo que dá informações das quais pessoas de bom senso necessitam para identificar um aldrabão.

Segundo lemos em seu site, "João de Deus é um homem nascido em família simples, que tem problemas como qualquer homem comum. Tem defeitos, limitações e é capaz de errar e sofrer como qualquer outro ser humano". Não tem visão de raio-X mas voa - sim, de avião, mas isto é algo que o medroso Chico Xavier não conseguia fazer.

João de Deus levou um tempo para achar um nicho de mercado. Começou prevendo chuvas, mas o Cacique Cobra Coral preferiu incorporar em Adelaide Scritori. Seu ponto inicial de atuação era Brasília, mas em Abadiânia os terrenos eram mais baratos - foram doados pelo prefeito. Lá ele montou seu centro difamatório do nome de Inácio de Loyola, santo que o teria queimado vivo por se dizer possuído por espíritos, e que pularia com médium e tudo em uma fogueira de São João, se hoje incorporasse de fato no curandeiro goiano.

Sua fama cresceu e atingiu o auge quando Oprah o visitou no ano passado. Como Thomaz Green Morton, o guru das estrelas dos anos 80, adora celebridades e as recebe na sua própria casa. Luís Roberto Barroso, Marconi Perillo, Xuxa e Giovanna Antonelli são as Baby Consuelo, Dina Sfat e os Tom Jobim de hoje.

O goiano afirma receber 32 entidades com poderes e personalidades distintos. De acordo com seu humor matinal deve dizer incorporar este ou aquele espírito. As almas usam seu corpo para operar e até mesmo para requebrar. O pediatra e professor de medicina da Universidade de Brasília Ícaro Batista, amigo do médium, disse que “Quando vem a Joana d’Arc, ele dá umas requebradas...”. Embora consigam operar e rebolar, após possuir seu corpo, não são capazes de falar sem sotaque seus arcaicos idiomas nativos e tampouco de dar informações úteis, passíveis de comprovação, sobre suas vidas.

Atendendo três vezes por semana, significativamente mais, portanto, que muitos médicos da rede pública de saúde, e tendo aberto seu consultório em 1976, João de Deus afirma que já atendeu 10 milhões de pessoas. Como Túlio Maravilha, deve contar os gols que fez no jardim de infância. Não se sabe quantas delas morreram da doença que as afligiu a ponto de se hospedarem em uma pousada de Abadiânia, cidade cuja população é apenas 0,17% do total de atendimentos do médium e que tem IDH semelhante ao do Gabão, em parte pela saúde precária, e de esperarem às vezes por dias atendimento ao lado de outros desesperados.

O médium recebe umas mil pessoas diariamente, das oito ao meio-dia e das quatorze às dezoito, o que dá pouco menos de 30 segundos por paciente. Todos ganham ao menos uma mão na cabeça e umas palavras mágicas diferenciadas, escolhidas caso a caso pelas entidades, e ninguém sai sem seu suplemento à base de maracujá, ou passiflora, para a coisa ficar mais científica, ao custo de R$ 50,00 o frasco. Apesar de o remédio ser o mesmo para todos, o princípio ativo é a energia espiritual calibrada especialmente para a enfermidade do paciente. No FAQ do site oficial enfatiza-se que "o suplemento é energizado espiritualmente somente para você, não apresentando benefícios se dados (sic) a outra pessoa". O poder curativo da energia de João de Deus é tanto que uma garrafa de água é vendida na Casa Dom Inácio de Loyola por R$ 1,00 enquanto a energizada sai por R$ 3,00. Os pacientes podem também tomar banho de cristal por R$ 20,00, comprar livros psicografados, camisas brancas e até alugar apartamentos durante o tratamento.

Mas João de Deus não precisa tocar no enfermo para curá-lo. Basta enviar por meio de familiares ou conhecidos que estejam indo para Abadiânia "sua foto e seus dados (nome completo, data de nascimento, endereço completo e, se desejar, o nome da enfermidade)" - palavras dos responsáveis pela Casa. Em alguns casos nem esta burocracia é necessária. Lemos na Veja Brasília: "o oncologista aposentado do Hospital de Base de Brasília Roger Queiroz conta que João de Deus o curou à distância enquanto ele estava em uma UTI da capital. O médium confirma a cura."

Após a consulta, os espíritos encaminham alguns dos doentes para o centro cirúrgico, recinto distinguível dos demais pela plaquinha na porta, e pode-se optar por uma cirurgia com corte ou por uma sem corte, ambas invisíveis e igualmente curativas, segundo o FAQ do site. A esmagadora maioria opta pela última, que dispensa toda aquela aldrabice de simular incisão passando o dedo sobre a área a ser operada, de aparentemente atravessar a pele, de fingir introduzir as mãos nas entranhas do doente e, esguichando sangue de animais de um balão escondido na mão, desfazer-se de fígados, corações de galinha e outras miudezas orgânicas, jamais submetidas a testes de DNA, certamente. Além disso, nesta modalidade o não-médico não se sujeita à câmera lenta de filmagens feitas por céticos infiltrados ou por voluntários descontentes com mais sede de vingança do que direitos trabalhistas. E, afinal de contas, estas prestidigitações sangrentas são para médiuns iniciantes que querem impressionar. De fato, no FAQ do site lemos: "O tratamento na Casa de Dom Inácio é espiritual. As cirurgias, no geral, são sempre invisíveis (sem corte), e não há diferença nenhuma entre as cirurgias visíveis e invisíveis." Se você gosta de espetáculo e pede por uma cirurgia visível e depois, desapontado, não vê quaisquer marcas, é porque a cirurgia visível é idêntica à invisível.

As cirurgias são cicatrizadas com ajuda de pontos invisíveis, os quais devem ser retirados com orações, conforme lemos no FAQ do site: "Na sétima noite após a intervenção (...) deite-se antes da meia-noite com roupas brancas e não se levante antes das cinco horas da manhã. Ao deitar-se, coloque um copo de água fluidificada ao lado de sua cama e peça a Dom Inácio de Loyola que remova seus pontos espirituais e complete sua intervenção." Para quem não sabe, água fluidificada "é aquela em que fluidos medicamentosos são adicionados à água por espíritos desencarnados que, durante as sessões de fluidoterapia, fluidificam a água". Após tudo isso, o paciente morre, se seu caso for mortal, ou continua vivendo, se seu problema não for tão grave.

Segundo lemos no site, "Se você está seguindo alguma prescrição médica, a Casa aconselha que você continue com o tratamento e a medicação indicados pelo médico". Só para garantir, claro. Mas os louros pelas curas serão de João de Deus, que é do raro tipo "faça o que eu digo e faça o que eu faço". Coerente, segue aquilo que prescreve aos seus pacientes. Não descuida da medicina dos vivos. O médium sofreu obstruções na artéria do coração e tratou-se com o cardiologista da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, Roberto Kalil, que lhe implantou seis stents - reais, não imaginários.

Desesperados do mundo inteiro têm vindo parar em Abadiânia. Lemos na Veja Brasília que Stacie Mythen é terapeuta bioenergética em Seattle, nos Estados Unidos. Stacie não tinha problemas de saúde. Sentia medo. Ainda assim, fez questão de ser submetida a uma cirurgia espiritual com corte. A entidade fez uma cisão no ombro direito até o osso. Ela relata não ter sofrido com dor. “É uma experiência tão profunda que eu só posso comparar ao parto natural”, diz. Sim, parto natural é indolor. O australiano Walter Klocker não conseguia um relacionamento duradouro porque era ciumento e possessivo. Havia tentado psicanálise, todos os tipos de medicina alternativa, terapia cognitiva e rituais xamanísticos, mas somente na Casa Dom Inácio de Loyola encontrou paz e resolveu seu problema ao decidir não se envolver mais com ninguém durante uns dois anos, período em que se enclausurará em uma comunidade de monges budistas, o que sempre dá certo em filmes americanos.

João de Deus, como Houdini, é mestre em safar-se de situações perigosas. Abusou sexualmente de uma moça de 16 anos em um atendimento durante o qual exigiu que o pai ficasse de costas, mas a juíza da comarca de Abadiânia, Rosângela Rodrigues Santos, o absolveu sob o seguinte argumento: “Com efeito, a conduta do acusado, ao afastar-se dos princípios éticos e da caridade que norteiam os ensinamentos de Allan Kardec, foi imoral, mas não caracteriza a violação sexual mediante fraude, por ausência de suas principais elementares”. Poucos sabem que a lei brasileira cita explicitamente os princípios de Allan Kardec como norteadores da ética e da caridade. João de Deus "escravizou" a bela alcoólatra Clarissa Vanazzi por sessenta meses pagando-lhe apenas R$ 29,00 por semana, como se fosse uma médica cubana. Oficialmente, no entanto, deu-lhe uma esmeralda de sete mil reais e, em contrapartida, ela serviu cinco anos gratuitamente na Casa Dom Inácio de Loyola, que fatura 7,2 milhões de reais ao ano e representa a metade do PIB de Abadiânia. Ela jamais prestou queixa, claro. Hoje é dona de uma rentável joalheria e, feliz da vida, credita seu sucesso a João de Deus.

03 setembro 2013

A Desonestidade da Discussão Ética em torno do Voto Aberto (olha o PT aprontando de novo)


Em matéria do Globo, o líder do PT na Câmara anuncia que irá “radicalizar” e apoiar a proposta de voto aberto para tudo a fim de lavar a honra do partido, que foi acusado de participar da absolvição do deputado Donadon. Pois é, cerca de 20 deputados da legenda faltaram na votação e os que foram participaram do resultado vergonhoso para o Congresso brasileiro. Bem, isto mostra como infelizmente esta discussão em torno da ética é sempre uma discussão torta no Brasil.

Como já dizia um antigo provérbio: “O que o cú tem a ver com as calças?”. Explico. Esta discussão de cassação não deveria sequer estar acontecendo. Ocorre porque os dois mais recentes indicados pelo PT ao STF, o Teori e o Barroso votaram a favor do Congresso decidir sobre a cassação de parlamentares condenados em última instância. Com a posição destes dois, a maioria do STF foi no sentido de não proceder a retirada automática do mandato. A posição anterior era justamente o contrário.

Qualquer leigo que leia a Constituição entende que alguém que tenha perdido os direitos políticos em razão de condenação em última instância concorda que não tem como um parlamentar ter mandato porque isto pressupõe o gozo de direitos políticos. Infelizmente, a influência do PT no STF ajuda a criar estas posições mistificadoras justamente para abrir brechas favoráveis aos seus condenados no Mensalão. O Lewandowiski que o diga. Isto para não mencionar o advogado do Partido e do Lula, o Toffoli. Aliás, outro dia pegaram este relatando um processo de um banco com o qual tinha feito um bom negócio. Coisa muito normal segundo ele.

Segundo que a posição do líder do PT é no mínimo desonesta, pois ao se criar votação aberta para tudo especialmente para vetos presidenciais estará se colocando o Congresso de joelhos diante das retaliações do Presidente da República que é do PT e, se depender deles, o será para sempre.

É aí que a discussão da ética entorta. Primeiro que ela não devia sequer existir neste caso, só ocorre por causa do Teoria e do Barroso. Segundo, existe uma proposta do Jarbas Vasconcelos para determinar a perda de mandato por condenação criminal em última instância que resolveria a questão, que não é votada justamente para poupar os condenados do PT, que exercem descaradamente os mandatos com posição justamente na Comissão de Constituição e Justiça. Por fim, poderia se votar apenas o voto aberto para decidir sobre cassação de parlamentar, mas no fim, o PT, com seu dedo podre pega carona nesta proposta para fragilizar mais uma vez a democracia ao enfraquecer o Congresso diante do Executivo expondo os parlamentares que tentarem derrubar um veto presidencial. Ao fim e ao cabo eles não são democratas, não prezam as instituições da democracia, ... gostam mesmo é da tirania do Executivo liderado por eles, de um Judiciário servil e de um Congresso acuado.
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