28 dezembro 2012

Falta-lhes a focinheira adotada por aqui

Manda o bom senso que fiquemos alertas quando a maioria religiosa oprimida repete sem cessar gritos de ordem contra um grupo religioso minoritário opressor, como ocorre hoje contra muçulmanos na Europa, como aconteceu contra judeus pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Guardemos as devidas proporções, logicamente; a principal diferença é que judeus eram discretos e cometiam crimes como possuir dinheiro e emprestá-lo a juros, e presidir academias de arte e conservatórios de música - passíveis portanto de despertar ódio incomensurável em artistas geniais rejeitados -, enquanto os muçulmanos são de fato atrasados, invejosos, belicosos, uma ameaça à democracia e imperdoavelmente feios. Crimes de grandes proporções contra muçulmanos são raros, mas incidentes como intimidações, brigas, vandalismos e pichações com termos injuriosos têm sido cada vez mais comuns. Incomodam também turistas, mesmo que estes não o confessem, que preferem topar com europeus claros quando viajam, porque estes compõem melhor o cenário de castelos antigos e montanhas com neve. Mesmo se abundassem, loiros de olhos azuis convertidos à ala ruidosa do islamismo não incomodariam tanto quanto cristãos africanos negros cordatos, por não enfearem a paisagem. Turistas do extremo oriente também irritam, pois são todos iguais e usam bonés, chegam aos milhares e tornam insuportáveis os locais cuja manutenção depende sobretudo de seu dinheiro. Mas pelo menos estão de passagem, são bonzinhos e tomam banho.

Seria impossível um mundo islâmico tolerante?

Estudo feito pelo Pew Research Center's Forum on Religion & Public Life, divulgado em agosto de 2011, expõe que quase um terço da população mundial vive em países onde há restrições à liberdade religiosa, relacionadas a governo ou hostilidades sociais. Destes países, sete em dez são islâmicos. Contudo...

A Turquia tem praticamente 100% de muçulmanos. Atatürk substituiu os trajes árabes no trabalho pelo terno e gravata, promoveu a educação e o trabalho para mulheres e liberou-as da obrigatoriedade do véu, adotou o alfabeto latino, descriminalizou imagens figurativas na pintura e escultura, converteu em museu a Santa Sofia, antiga basílica transformada em mesquita por Mehmet II, passando a exibir, juntamente com os dizeres "Alá é Grande e Maomé é seu profeta", mosaicos antigos cristãos; encomendou a tradução, do árabe para o turco, do Alcorão, que só podia ser lido no idioma ditado pelo anjo Gabriel, o mesmo que fez o exame pré-natal em Maria. Recentemente, 12 mil turcos saíram às ruas em defesa da sociedade secular, ameaçada por extremistas islâmicos. O Azerbaijão tem 95% de muçulmanos e é, como a Turquia ( e Bósnia e Herzegovina), um país secular onde há liberdade religiosa.

A Malásia tem maioria muçulmana e há liberdade religiosa, sendo reconhecida pelo Estado a conversão do Islã para outras religiões.

Não seria nenhuma surpresa se a Indonésia, com seus quase 90% de islâmicos, cancelasse as leis contra a blasfêmia e a hostilidade contra outras religiões. É um país rico e com algumas características democráticas - embora não seja uma Turquia -, com quase 10% de cristãos e seis religiões reconhecidas pelo Estado. Bangladesh também tem aproximadamente 90% da população muçulmana, e os casos de intolerância eram raros até uns anos atrás.

O Irã, 100% islâmico, foi um dos países mais abertos do oriente, até 1979, com uma vanguarda cultural e uma indústria sofisticada de cinema e televisão. Mulheres fumavam, usavam minissaia, iam à universidade, namoravam em público. O Afeganistão tinha realidade semelhante: maioria islâmica e liberdade.

Os muçulmanos, certamente apesar do Alcorão, criaram nos tempos antigos um padrão para a tolerância religiosa ao qual o mundo não estava acostumado. Muçulmanos protegeram judeus contra cristãos, cristãos orientais contra católicos romanos. Em Bagdá, sob os abássidas, e na Península Ibérica, sob os omíadas, muçulmanos eram mais tolerantes do que cristãos, ainda que às vezes as minorias devessem pagar um imposto para poderem professar a própria fé em sossego. Após a Reconquista, judeus e muçulmanos, que viviam pacificamente no Califado de Córdoba, passaram a ser ferozmente perseguidos, mesmo após se converterem ao cristianismo. Um cristão não comer porco às vezes era o suficiente para ser tratado como judeu: linchado, claro. Os muçulmanos sob o reinado de Saladino eram mais tolerantes do que seus contemporâneos cristãos, nomeadamente os cruzados. Exemplos abundam. No mundo muçulmano prosperaram a matemática, a astronomia, as letras, a filosofia.

E isso tudo sob o mesmíssimo Alcorão. O que falta aos muçulmanos é uma sociedade secular forte para lhes meter uma focinheira reforçada. Falta-lhes um Atatürk, um Napoleão, um grande domador de feras.

Cristãos sempre foram tolerantes?

O Novo Testamento não era diferente nas épocas de Savonarola e Torquemada. E o que os cristãos fizeram com os judeus nos últimos dois milênios? Qual era o sentimento da cristandade em relação a eles, pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, há algumas décadas?

Há pouco mais de 100 anos, Pio IX ameaçou de excomunhão quem apoiasse a democracia, quem votasse, quem promovesse a igualdade de direitos das mulheres e a liberdade religiosa, numa época em que o anátema valia alguma coisa, pois o excomungado era banido da vida social, em geral em torno à Igreja. Esta foi se adaptando à força, deixando de ser religião oficial em países latinos, avançou a reboque dos próprios fiéis e dos de outras denominações, dos críticos e dos descrentes, sempre rugindo e esperneando, excomungando, proibindo livros, associando-se a ditadores e a qualquer tábua que lhe ajudasse a se manter na superfície do poder. E hoje está bem mais branda. Na verdade, está praticamente extinta. Seus fiéis não conhecem sua doutrina. A grande religião do ocidente agora é o cristianismo à la carte, em que se apanha o que interessa e se abandona o que se julga inconveniente, onde se considera literal o que está em harmonia com princípios humanistas seculares, e simbólico e "fruto do pensamento da época" o que vai de encontro a eles. E adora-se uma mistura de Deus bíblico com panteísta, zen budista. Um deus politicamente bonitinho que gosta de veados e putas, e apoia suas atitudes, e que não manda ninguém para o inferno porque é bonzinho. Incentiva todos nossos projetos e nos ajuda a achar vaga em estacionamento concorrido.

O que os muçulmanos precisam aprender com os cristãos é considerar simbólicas algumas passagens do Alcorão, ou fruto do pensamento da época, é colocar os princípios humanistas acima dos divinos, é criar um Alá hippie à la carte, um Maomé Superstar.


Lê-se na Veja Online:

"Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais."

O comportamento de um flamenguista numa multidão de vascaínos é um, em meio a milhares de flamenguistas é outro, principalmente se avistar um vascaíno desgarrado por perto. A História o demonstra. Se não houver policiais (sociedade secular forte), o grupo preponderante tenderá a agir com intolerância. O que a religião desperta no indivíduo que se sente autorizado e reforçado pelo grupo é muito semelhante ao que o clube do coração desperta no torcedor quando se sente parte de uma massa sem rosto, onde anonimamente pode dar largas a tudo o que individualmente não teria coragem de fazer, principalmente se for um ressentido, como é a totalidade dos fanáticos. A culpa é dividida em milhares e, afinal de contas, "dei apenas um chutinho no estômago, não sou o responsável pela sua morte". A massa soma força, não inteligência.

Tanto cristianismo quanto islamismo são perigosos quando a sociedade está nas mãos de seus líderes, quando ela vive sob suas boas intenções. Quando os líderes cristãos e muçulmanos e toda a religião estão sujeitos a leis superiores às divinas - as humanas, regidas por princípios de liberdade, pela convivência -, aí sim é possível ter paz e tolerância. E é por isso que aos católicos incomodam mais os laicistas do que os muçulmanos. Ambas religiões veem no secularismo uma ameaça às suas mordomias e aspirações totalitárias, ainda que em estado de dormência. Onde há humor, liberdade religiosa e de opinião, onde não há leis contra a blasfêmia, os líderes religiosos não conseguem aquela gosmenta aura de importância sacra tão imprescindível para que seus absurdos escorreguem goela abaixo dos homens, às vezes tão questionadores e sensatos.

Enfatizo alguns pontos, por fim:

- Acho os muçulmanos atrasados e condeno as atitudes daqueles que usufruem do que o continente europeu tem de bom e se valem da democracia para condená-la, o que é um contrassenso.

- Apoio a decisão da Noruega de não aceitar financiamento para a edificação de mesquitas quando vem de países que proíbem a construção de templos de outras religiões.

- Não deve haver tolerância para com a intolerância, leis diferentes aplicadas a grupos diferentes em um mesmo país.

- Penso que a Europa deva preservar as características arquitetônicas e históricas de determinadas áreas (o Vaticano, por exemplo, rsrs). Contudo, não vejo problema algum na construção de mesquitas por lá. Que construam um milhão.

- Vaticano e Islâmicos são ambos ameaças ao sadio espírito secular europeu, conquistado a duras penas, o primeiro uma ameaça latente, o segundo uma ameaça real e direta.

- Acho que o próprio Novo Testamento levado ao pé da letra é extremamente perigoso, e o Velho Testamento está na Bíblia, Jesus não o aboliu, aquilo é um verdadeiro manual de maus costumes, do nível do Alcorão. Se foi possível domesticar os cristãos e vários países de maioria muçulmana já tiveram longos períodos de tolerância, entendo que o problema é uma religião hegemônica ter muito poder, influência sobre o Estado, é estar acostumada a ditar o que todos devem fazer.

27 dezembro 2012

Código do Bento

O Papa Bento XVI inaugurou presépio no Vaticano incluindo diversos personagens inexistentes na mais famosa manjedoura da história, entre eles o burro e a vaca.

Conforme o recém lançado livro "A Infância de Jesus", que o pontífice escreveu após mui importantes e exaustivos estudos, orações e a votação do Colégio Cardinalício, esses animais não estavam na manjedoura no momento exato do nascimento de Jesus. Os pastores mantinham as bestas no presépio de dia e as levavam para pastar à noite quando a estrebaria fazia as vezes de hotel para divindades, em anos de recenseamento. O jumento que Maria montou de Nazaré a Belém também foi barrado. A confusão nasceu provavelmente do relato de um pastor, que teria avistado no santo sítio um animal com chifres, mas talvez fosse apenas um comentário relacionado à reputação de Maria, que naqueles tempos ainda não era imaculada. Não se sabe se o verdadeiro pai estava no local, porque não foram avistados nem pombas nem o soldado romano Pantera, famoso em Nazaré por encomendar 20 mesas para o carpinteiro José e de nunca as ter apanhado.

A primeira representação do presépio no Natal foi feita em 1223 por São Francisco de Assis, com personagens vivos. Contudo, devido a cacoete adquirido na juventude, Herr Ratzinger considera, no livro, que a ideia de encher o presépio de animais foi dos judeus, no século VII.

Lemos em Mateus, 2,1: "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.". B16 afirma, no entanto, que os magos vieram da Andaluzia, na Espanha. Como a Bíblia não pode estar errada, historiadores já estão pensando em retirar de Fernão de Magalhães o crédito pela primeira viagem de circunavegação da Terra.

Ainda no mesmo capítulo de Mateus, no versículo 9, lemos: "Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.". Contudo, após assistir a vários documentários do Discovery Channel, B16 chegou à conclusão, também exposta no livro, de que a Estrela de Belém era, na verdade, uma supernova. Contra aqueles que querem enxergar no Papa uma visão por demais materialista do evento, pode-se argumentar que uma supernova ir precedendo magos espanhóis vindos do oriente e parar sobre um estábulo sem animais em Belém é um milagre ainda mais assombroso do que aquele em que até ontem cria a cristandade.

Jesus Diaz, da Gizmodo australiana, disse tudo: Como Dan Brown, o Papa esclarece vários mistérios bíblicos por apenas US$ 13!

19 dezembro 2012

Autoritarismo é do Brasil, Fux e Royalties são do Rio

Fux é carioca, o autoritarismo é do Brasil e os royalties são do Rio de Janeiro.

Como afirma a tradição judaico-cristã, por meio do símbolo do pecado original, o homem é intrinsicamente falho. Hoje foi a vez do ministro Fux mostrar as suas fraquezas humanas e se revelar um carioca. Sua decisão foi suspender a sessão do Congresso Nacional que deliberaria sobre o veto da divisão dos royalties, o que favorece o Rio de Janeiro. O mais absurdo desta decisão é que se ataca o direito da maioria da Câmara dos Deputados de pedir urgência na análise do veto com base no argumento que existem mais de 1.000 vetos pendentes de análise pelo Congresso que deveriam ter precedência sobre este em questão.

Este evento acaba trazendo à nossa atenção o fato de que quase nunca o Congresso Nacional vota algum veto do Presidente da República. Se brincar, talvez nunca. Na época dos militares, o Presidente podia vetar palavras e com isto mudar o sentido proposto. A partir da Constituição de 1988 permite-se o veto de artigos, o que pode desfigurar um pouco a proposta do legislador, como é o caso dos royalties. Nos Estados Unidos, o presidente só pode vetar uma lei inteira e não lhe é dado o poder de desfigurar uma lei. Isto na terra que já foi chamada de República Imperial, onde o presidente tem poderes comparáveis ao de um Imperador Romano. Aqui, neste país que tem uma longa tradição autoritária, o presidente da República se empenha pessoalmente na escolha dos presidentes das casas do Congresso, justamente para garantir, entre outras coisas, que estes não lhe façam a desfeita de colocar em votação algum dos seus vetos.

O Brasil tem uma longa tradição autoritária. Tanto a direita quanto a esquerda sempre duvidaram da democracia. Tínhamos o famoso Prestes que sonhava em implantar uma ditadura comunista no Brasil, tivemos o ditador Getúlio que em alguns momentos teve o apoio de Prestes, tivemos os militares que chegaram ao poder pelo golpe de 1964 e tivemos guerrilheiros de esquerda que sonhavam em vencer os militares para implantar uma ditadura comunista no Brasil. Portanto, a nossa democracia é fruto de uma direita desmoralizada e de uma esquerda derrotada. Um acordo precário e sem muita convicção.

Alguns políticos cariocas argumentam que se estaria rompendo contratos. Isto me parece uma manipulação mentirosa. Quando foi acertado a divisão dos royalties não havia Pré-Sal, e no Direito brasileiro está prevista a figura do reequilíbrio econômico de um contrato quando surge um fato não previsto anteriormente. Aí, algum espertalhão diria que não se está falando do Pré-Sal mas dos contratos existentes. Acontece, meu caro espertalhão, que o Pré-Sal já descoberto já foi entregue a Petrobras, que o explorará em um marco regulatório misto; portanto, este é um argumento digno de um trambiqueiro de quinta categoria que quer confundir e enganar os incautos.

O maior ganho do Rio está na decisão da União em manter as sedes administrativas da Petrobras em sua capital, gerando centenas de milhares de empregos diretos e indiretos. E, não se engane, apesar da maioria dos empregados da Petrobras serem cariocas, o seu controle acionário é da União. Estes empregos são muitos melhores do que royalties pois podem ser facilmente desviados por corruptos, enquanto que empregos geram renda e prosperidade. Enfim, como diz o samba, o Rio está chorando de barriga cheia.

17 dezembro 2012

Apocalypse Simulator Release 2012

Lemos na última Veja que uma em cada dez pessoas acredita que o mundo acabará em 2012, segundo pesquisa Ipsos Global Public Affairs, em 21 países.

Perdi uma boa oportunidade de enriquecer licitamente. Abordando transeuntes aqui e no exterior, não teria sido difícil descobrir alguns dos 700 milhões que creem no tal Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa. Se eu abordasse 500 chegaria provavelmente a 50 crentes. Se dentre estes um único acedesse a me vender suas propriedades pela metade do preço de mercado, recebendo no ato o pagamento mas delas mantendo o usufruto até 21 de dezembro, quando então a posse passaria para mim, aí eu teria feito um grande investimento. No dia 22 de dezembro eu possuiria, por exemplo, um imóvel de 1 milhão que me teria custado 500 mil. O crente apocalíptico, embora pobre, estaria vivo, a contemplar pássaros, a natureza, na presença de familiares e amigos – quer prêmio maior? No caso de acabar o mundo, teve alguns meses para dissipar uma pequena fortuna, sem sair de seu lar, sem perder o aluguel de suas propriedades.

Na prática, contudo, seria assaz difícil encontrar alguém tão parvo. Muitos veados chapados devem ter vendido suas propriedades e se mudado para a Chapada dos Veadeiros, mas quantos simplesmente as abandonaram ou distribuíram os dividendos obtidos na venda? Aposto que nenhum. Schopenhauer dixit : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.” Numa fábula de Esopo, enquanto o navio afunda, um rico reza para Atena e lhe promete mil oferendas caso se salve. Um náufrago adverte: “Convoca Atena e também teus braços”. No fundo, mesmo os fanáticos creem sabendo que podem estar errados, senão não creriam, saberiam. Senão não seriam tão truculentos com a descrença alheia, posto que saberiam ou teriam plena convicção de que indizíveis tormentos os aguardariam na outra vida. Não creio que o céu seja azul, que as árvores sejam verdes. Sei que são.

Não há uma crença mas uma atração e um desejo de Apocalipse. Esperá-lo é, de certo modo, vivenciá-lo. Será quando o vizinho que seguramente enriqueceu roubando, porque sou superior a ele e ainda assim mais pobre, pagará seus pecados, será quando todas as casas ricas serão destruídas junto com meu apartamento de dois quartos, quando não precisarei mais me olhar no espelho, trabalhar e competir para sobreviver. É uma atração suicida que também demanda destruição, típica de ressentidos, como esses losers que abrem fogo contra inocentes em escolas. Não é à toa que o que dá prazer para gente desse tipo é imaginar - amiúde com uma ajudinha de Hollywood - o Empire State e a Torre Eiffel sendo destruídos, como gigantescas estátuas de Buda escavadas na rocha virando farinha sob os pés encardidos dos Talibãs. Não tem graça imaginar africanos famintos sendo arrastados com suas malocas por ondas de centenas de metros de altura. Ora, formigas morrem todo dia. Qual a atração nisso?

Qualquer coisa é motivo para se vaticinar o fim do mundo. Efeito Estufa, Guerra Atômica, números decimais cheios de zeros: o ano 1000, por exemplo. O belo número cheio de bolinhas perde completamente a importância quando pensamos que o sistema poderia ser duodecimal e não decimal. A escala básica seria: 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 (x) (y) 10 - o "10" seria uma dúzia. “X” e “Y” seriam signos originais, como os números de 1 a 9. O "20" seria a grafia para duas dúzias. O ano 1000 duodecimal aconteceria no 1728 decimal, um anozinho como qualquer outro; nada, digamos, cabalístico. O universo não está nem aí para nossas convenções. Não tem sequer consciência. Mas é claro que as forças do destino usam a convenção humana para estabelecer eventos marcantes, principalmente os futuros.

Sempre foi fascinante o caos iminente pregado por profetas ensandecidos, que, alheios à lógica dos homens estão portanto mais próximos da lógica de Deus, segundo o sapientíssimo senso comum. Como nas montanhas-russas, que simulam situações limite, de quase morte, ou em filmes de serial killers, quando, na pele da vítima mas na segurança de nossas poltronas sentimos a morte se aproximar sabendo que terminaremos o filme vivos, de igual modo os crentes no fim do mundo se reúnem em fazendas, como se adentrassem uma Arca de Noé, para aguardar a grande destruição que jamais virá, fruem de toda preparação, das preliminares que não redundarão em orgasmos, dão as mãos, rezam, têm pesadelos, abraçam-se e... como em todas as vezes anteriores, veem amanhecer o Day After, idêntico ao Day Before, e comemoram o milagre: “Nossas orações foram atendidas! Deus cancelou nada mais nada menos do que o Fim do Mundo por conta de nossas poderosas orações!” E retornam felizes da vida para as propriedades de que jamais se desfariam.

E há aqueles que dão cabo da própria vida, quase sempre em grupo, pouco antes do fim anunciado. Estes são meros suicidas que desejam entrar para a glória da história por meio de uma nota de rodapé em algum jornal, como os emos que pulavam do alto do Shopping Pátio Brasil, ou muito estultos por perderem o grandioso espetáculo cinematográfico apocalíptico, durante o qual poderiam facilmente, para evitarem a terrível dor da submersão em lava, meter uma bala de 38 na cabecinha oca...

05 novembro 2012

A Direita Envergonhada

No Brasil, assim como em outros países, não temos uma direita. De fato, a nossa situação, do ponto de vista do modelo da democracia liberal representativa, é ainda mais grave, pois, aparentemente não temos nem oposição. Aqui quem ousa criticar o governo é a imprensa “burguesa”, mas a batata deles está assando. O único personagem político que me vem à cabeça como alguém de direita seria o Ronaldo Caiado. Se vivêssemos nos Estados Unidos, ele certamente seria um presidenciável pelo Partido Republicado, que gosta de caubóis.

Mas vivemos no Brasil e aqui ser de direita é “coisa feia”. Talvez este incômodo venha de longe, afinal, aparentemente Adam Smith dedica muitas páginas a tentar explicar por que o egoísmo pode ser bom para toda a sociedade graças à chamada mão invisível. A sociedade inglesa, que teve uma história marcada por guerras religiosas e reis tirânicos, viu com simpatia estas ideias de uma sociedade regulada em grande parte por relações de mercado e com um papel secundário para a intervenção do Estado.

O historiador econômico alemão Friedrich List, por outro lado, considera as teorias de Smith cosmopolitas e defende a intervenção do Estado para gerar desenvolvimento econômico. As ideias deste, por sua vez, foram bem acolhidas pelos prussianos que, desde Frederico o Grande, haviam montado uma grande burocracia e as bases de um estado de bem-estar social. De fato, não se pode negar o sucesso do modelo alemão.

Mas, afinal de contas, por que é feio ser de direita? Em uma abordagem freudiana podemos buscar as raízes disto na infância. Afinal, quem nunca teve uma professora casada com algum tecnocrata bem remunerado e que usasse a sua cátedra para destilar uma historiografia uspiana marxista adolescente? O curioso é que tenho alguns amigos e conhecidos de esquerda e um traço comum que vejo neles são os bons casamentos com herdeiros e assemelhados...

Outro dia, lendo uma destas notícias sobre estudos feitos em universidades americanas, achei um resultado interessante. Segundo uma delas, quando pessoas eram expostas a fotos de recolhimento de lixo reciclável e outras coisas politicamente corretas elas, em uma decisão subsequente, se mostravam mais egoístas que outras pessoas do grupo de controle. A explicação dos pesquisadores era que no balanço interno de boas e más ações as imagens contavam como algo bom que podia ser compensado por uma ação mais egoísta.

Imagina, então, um sujeito com um discurso libertário, tipo assim um José Dirceu, que vive a falar mal da burguesia embora em termos de classe social ele mesmo faça parte da classe AA. Mas, a implicação deste negócio é que quanto mais bonito o discurso mais livre pode se sentir o sujeito para fazer coisas egoístas, afinal, ele já faz tanto pregando o bem, não é mesmo?

Outro componente que ajuda a explicar a vergonha de ser de direita é a culpa, afinal, o Brasil é um país desigual e capitalizar sobre esta desigualdade é a especialidade de alguns políticos. Hoje, o investimento dos pais na educação dos filhos é algo que o estado petista busca punir, por exemplo. Se não consegue melhorar a educação pública, se esforça para reduzir as oportunidades dos filhinhos de papai. E os filhinhos de papai se sentem culpados...

Talvez o ideal olímpico seja ser alguém como Lula. Filho de pais miseráveis, fugiu do trabalho e do estudo até conseguir entrar no sindicado, onde encontrou sua vocação... Para um sujeitos destes não deve nem existir culpa. Afinal, não teve educação, não teve oportunidade e, apesar disto, fez tanto bem pelos pobres. Enfim, tudo de mal que alguém assim fizer já está perdoado. Talvez o ideal seja ter um discurso de esquerda e uma prática de direita e discutir a desigualdade no Brasil em um belo jantar em Paris...

20 outubro 2012

O Julgamento do Mensalão

Qual a importância do julgamento do Mensalão para o Brasil? Acho que esta é a pergunta que muitas pessoas se fazem. Vamos tentar fazer um balanço e tentar ver alguns desdobramentos.

Primeiro, temos a opinião do jornalista imortal Merval Pereira. Para ele, o Mensalão em si aprofundou a corrupção no governo Lula na medida em que o presidente se viu obrigado a fazer mais concessões para evitar o impeachment. Muitos dizem que Sarney foi um dos que mais se esforçaram para evitar a abertura de julgamento do presidente por improbidade no Congresso. Mais tarde, Lula teve a oportunidade de retribuir o favor quando, com um telefonema para o senador Delcídio Amaral, evitou a abertura do processo de cassação contra Sarney pelos atos secretos ilegais praticados no Senado.

O PT mudou muito, sem dúvida. Aparentemente, havia um PT de Plínio de Arruda Sampaio e de Florestan Fernandes que foi sendo substituído por um PT de Lula, seus companheiros e ex-guerrilheiros inimigos do Regime Militar, como José Dirceu e José Genoíno. Como já disse o velho poeta comunista Ferreira Gullar, estes que escolheram o caminho da luta armada contra o regime militar sujeitaram todos da Esquerda à perseguição dos militares.

Mas, provavelmente, foi a junção desses sindicalistas com estes ex-guerrilheiros que criou o ambiente propício para o Mensalão. No Brasil, seguindo o argumento do historiador Daniel Airão, a historiografia brasileira tende a supor que aqueles que lutaram contra o Regime Militar sejam democratas, quando na verdade muitos deles tinham outros planos para o país. A própria insistência do ex-ministro e ex-guerrilheiro Franklin Martins em tentar destruir alguns grupos midiáticos e substituí-los por rádios e TVs controladas por ONGs mostra bem o compromisso destes com a democracia. Para gente como ele, democracia é quando eles ganham e ditadura é quando eles perdem.

Hoje, com o julgamento do Mensalão, temos a oportunidade de ver o que há de melhor e o que há de pior no país, a começar pelos ministros do Supremo. Temos desde Toffoli, cujo mérito estava em ter sido advogado de Dirceu, Lula e do PT, tendo sido incapaz de ser aprovado em um concurso para juiz, passando por Lewandowski e sua noticiada amizade pela esposa do ex-presidente Lula e por seu super-salário no período em que esteve no Tribunal de Justiça de São Paulo.

A maioria dos outros ministros tem laços estreitos com o PT, mas talvez não tão próximos da corrente paulista do Campo Majoritário que virou “Construindo um novo Brasil”. Esta corrente de Lula e Dirceu é quem dá as cartas no partido. O maior projeto atual desta corrente é eleger Haddad como prefeito de São Paulo. Nesta disputa eleitoral podemos ver todo o ranço e o modus operandi deste grupo. Primeiro, eles atropelaram a candidata natural que teria sido a Marta Suplicy para colocar alguém mais dócil e dependente, como já havia sido feito no caso da própria Dilma que tem uma lealdade canina com Lula. Eles sabem que permitir o surgimento de lideranças naturais só pode enfraquecer o seu poder e, enquanto puderem, eles não o permitirão. O PT do Campo Majoritário não é um partido democrático aberto à disputa, ao debate e que permite o surgimento de lideranças naturais. Ele é um partido que tem dono.

Marina Silva, que poderia ter disputado a indicação para presidente da República, bem o sabe. É a partir deste quadro que se pode entender a lógica do Mensalão como um projeto de poder de determinado grupo que se coloca como dono de um partido e acima da leis do nosso país. Este grupo só tem como objetivo a conservação do poder e as instituições democráticas são um empecilho em seu caminho.

Em relação à pergunta, qual a importância do julgamento do Mensalão para o Brasil, como ficamos? Arrisco a dizer que se Haddad perder em São Paulo e a cúpula do Campo Majoritário for condenada, talvez isto enfraqueça a influência de Lula sobre o partido permitindo que outros grupos não paulistas tenham mais influência. Por outro lado, se Haddad vencer e a presidente Dilma indultar os réus, pode se estar confirmando a influência e domínio deste grupo sobre o PT e sobre o Brasil.

Quem viver verá.

01 agosto 2012

Um Reitor Golpista na UnB


As esquerdas têm grande paixão pelas revoluções, mas é interessante analisar os seus frutos. Alguns anos atrás, alguns alunos da UnB, inspirados por esta paixão revolucionária, ocuparam a Reitoria e de lá só saíram quando foi derrubado um reitor que se fartava no dinheiro público comprando lixeiras high-tech e fazendo jantares em restaurantes de luxo com o dinheiro da Editora da UnB. Segundo o Reitor, sua esposa e Maria Antonieta da ocasião cometera o desvario de comprar uma lixeira de R$ 1.000,00 sem o seu conhecimento. Sorte a deles que os alunos do Serviço Social não têm as habilidades dos da Engenharia, senão poderiam ter sido até guilhotinados.

Como disse Gabeira, em movimentos revolucionários os jovens só servem para serem vampirizados por um bando de velhos manipuladores. Assim, aproveitando a ótima impressão causada por estes alunos que, ao contrário dos paulistas, não depredaram a Reitoria e cumpriram a nobre função de afastar este mau servidor público, aprovou-se a eleição por paridade com os alunos naquele momento.

É eleito uma múmia do Departamento de Direito e as coisas começam a mudar. Começa com a perseguição do candidato derrotado, que acaba tendo que se transferir para outra universidade. Após quase 30 anos na universidade, este Mumm-Ra teve que ganhar um doutorado pelo conjunto da obra, algo parecido com um honoris causa, mas a causa mesmo foi a sua candidatura para Reitor, que não ficava bem não ter doutorado. Assim, ganhou um doutorado honoris política. Geraldão ou simplesmente Zé, como é conhecido pelos alunos, chega a Reitoria.

Isto não me surpreende. Tenho um conceito muito negativo de sindicalistas. Para mim, alguém preferir fazer baderna a trabalhar é bem sintomático. Esta vocação para a vadiagem, para o ócio e para fraudar e manipular assembléias é lamentável. Ontem assisti à Assembléia dos Professores para deliberar sobre o fim da greve. Havia duas posições bem marcadas: a ADUnB pretendia aceitar a proposta do governo e a ANDES-SN pretendia manter a greve. A maioria dos professores está satisfeita com a proposta do governo e quer voltar. A maneira encontrada pela ANDES para manter a greve foi impedir que se fizesse a votação por meio de urna. Assim, após um festival de baixarias e 3 horas de debates estéreis, conseguiram ganhar no grito com o voto dos poucos que sobraram e que estavam ali para aquilo mesmo. Assim, a assembléia foi manipulada e a vontade da maioria foi fraudada pela ANDES.

A gestão do Zé foi talvez a pior da história da Universidade. Com direito a denúncia de corrupção, na qual um operador de copiadora foi promovido a fiscal de contrato da maior prestadora de serviço da universidade e denunciado por tentar extorquir esta empresa. Operários morreram em acidente na reforma do Hospital da UnB e o reitor não foi encontrado para comentar o problema. Ao invés disso, preferiu se esconder. Esta galera não tem muito apreço pelo estado de direito; eles preferem o estado de bagunça ou o estado de polícia contra os seus inimigos. Em consulta da ADUnB, 85% dos professores se manifestaram de forma a se cumprir a lei e garantir que o próximo reitor seja escolhido pelos professores. Aliás, este é um ponto interessante. Um aluno normal, se não for da UNE, deve ficar na universidade uns 5 anos, enquanto que para um professor a universidade é a sua vida. Por que cargas d’água defender que o voto dos alunos tenha um peso igual ao dos professores, na escolha do reitor? Aliás, talvez fosse o caso de se pensar em copiar o modelo americano e implantar uma carreira para os funcionários na qual eles chegassem a assumir as funções administrativas da universidade. Ao invés disso, são eleitos professores, burocratas amadores, que deveriam estar cuidando de questões acadêmicas.

Enfim, o reitor, em mais um golpe, orquestrou para que o Conselho da Universidade sequer fizesse uma consulta formal à comunidade para a escolha de seu sucessor. Decidiram fazer uma consulta “informal”, que não precisa obedecer a lei, que prevê que os professores tenham 70% dos votos. Por fim, diante da péssima avaliação da sua gestão, ele decidiu lançar mão de mais uma jogada. Espalhou os seus colaboradores em várias chapas de forma a evitar a polarização e o julgamento de sua gestão. Criou um formato que garante a ida de seus asseclas para o segundo turno a custa do populismo que pratica junto ao alunado.

Com isto, todos perdem. Para se ter uma ideia do estado de coisas na universidade, os CAs invadem e tomam posse de salas de aula, colocam cadeados em suas portas e a reitoria realoca centenas de alunos para outros lugares, muitas vezes longe dos seus Departamentos, para evitar desagradar seus aliados em sua cruzada populista eleitoral. Esta gestão prefere que os alunos e professores sejam roubados e alunas sejam estupradas do que permitir que a Polícia Militar esteja presente no Campus, afinal a presença da PM pode causar aborrecimentos a alguns maconheiros. Outro dia mesmo o Reitor foi pessoalmente soltar alguns alunos que haviam sido presos por colocar fogo em lixeiras da Universidade. Mas o motivo dos alunos foi nobre: alunos que moram irregularmente na Casa do Estudante Universitário não queriam permitir a reforma do complexo residencial.

18 julho 2012

Churrasco francês é razoável?

Meu primo escreveu:

"...Há uma (...) categoria de experiências - não verificáveis, singulares porque não são generalizáveis, portanto não científicas, mas que merecem outra atitude, não necessariamente a aceitação, mas pelo menos o benefício da dúvida, uma vez relatadas por pessoas saudáveis, que não se enquadram em nenhum dos numerosos indicadores que caracterizam os farsantes.
Joana d'Arc (estou lendo uma biografia dela apoiada em registros de seu julgamento, dos quais nos chegaram diferentes versões) é um bom exemplo. As adulterações produzidas para condená-la visavam incriminá-la de bruxaria. Era uma jovem camponesa distante da política e que, lá pelas tantas, começou a falar que ouvia uma voz que, para ela, era a voz de Deus.
Ninguém precisa endossar essa alegação. É apenas um exemplo do tipo de singularidade a ser examinada atentamente, uma vez que a hipótese de delírio não se confirma em suas falas. A forma de se conduzir nas diversas situações em que fracassavam políticos, diplomatas e militares atestam - diferentemente de um delírio - uma refinadíssima capacidade de lidar com a realidade. Ao invés de jogar todas as singularidades dentro do mesmo saco de lixo, caberia nos perguntarmos: O que aconteceu com Joana d'Arc? Se a ciência chegar um dia a explicar e a replicar, tanto melhor! Em sã consciência, uma boa resposta é 'não sabemos'. Em sã consciência, também, é possível algo na linha de 'eu acredito que... (inserir a crença que faz mais sentido para cada sujeito)'. Apenas deve ficar claro que 'eu acredito' não é prova de nada, não é justificativa para imposição da mesma crença a quem quer que seja, nem deve servir de pretexto para fechar questão. (...)"


Devemos estar abertos à possibilidade de duendes existirem e se protegerem da chuva sob cogumelos? Sim, por que não? Tão logo apareçam evidências, os de fato racionais se renderão a elas. Ou passarão a ser crentes na não existência de duendes, do quilate dos que acreditam que o homem não foi à Lua.

Quem precisa apresentar evidências da existência de algo extraordinário são aqueles que a defendem. Quase sempre os que não acreditam não terão como prová-la falsa. Não se demonstra cientificamente que ETs não existem, ainda que cada milímetro quadrado do universo seja esquadrinhado, porque não se pode ter absoluta certeza de que não sejam capazes de ficar invisíveis, por travessura ou por medo. Por isso devemos pensar em termos de graus de razoabilidade. Creio que as probabilidades de haver vida fora da Terra não sejam remotas, mas é improvável que ETs estejam entre nós, que empilharam pesados blocos de pedra no Peru há milhares de anos (só porque não sabemos como quechuas e lhamas os possam ter transportado), que aparecem para caipiras, atores da Globo e ufólogos, que sempre se escondem dos céticos, como fazem justamente os parentes desencarnados, os anjos e as fadas.

É racional crer na existência do Bóson de Higgs, ainda mais agora, que a probabilidade de que exista é de 99,9999%, segundo li. Por outro lado, pode-se dizer que há 0,0001% de certeza de que o criador do mundo falou com uma francesa de nome Joana mais de meio milênio atrás? Acho o número superestimado. A propósito: Criador do mundo? Ele existe? Existe o supra-deus, o criador do criador?

O que eu tenho certeza é de que onde há contradição não há verdade. Sim, quanticamente, o Gato de Schrödinger pode estar vivo ou morto. Mas não poderá estar vivo e não-vivo ao mesmo tempo, salvo com malabarismos linguísticos nos quais teólogos, marxistas e outros homo ideologicus são versados. Digamos que as alegações de Joana d'Arc sejam verdadeiras. Então a Bíblia é falsa, porque agora não se trata de conflitos entre Novo e Velho Testamentos. O Novo vige, não? E Jesus, que não era um nacionalista zelote a  bradar "romans go home" pela Palestina, como Brian, não ordenaria cristãos que falam francês a matarem correligionários anglófonos para os primeiros retomarem Orleans. Se a Bíblia é falsa, como crer em um Jesus divino, em sua ressurreição, na absurda trindade de Tertuliano? E a partir daí, como acreditar na própria Joana d'Arc?

E mais: por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana? Endossaria, no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana d'Arc, desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira até o assassínio em nome de um deus, ou de fronteiras.

A "refinadíssima capacidade de lidar com a realidade" elevaria o grau de razoabilidade das alegações da santa guerreira cuja influência sobre blockbusters atuais tem sido tão nefasta, de Alice no País das Maravilhas à Branca de Neve e o Caçador, que culminam irritantemente com pias Joanas d'Arc a conduzir exércitos contra o mal após discursos de sindicalista?

Se Einstein, acreditando prestar um grande serviço à uma crença que professasse, tivesse afirmado que a Teoria da Relatividade havia sido ditada por anjos, os céticos ficariam em uma sinuca de bico. Calar-se-iam por um tempo, provavelmente. A brilhante teoria não seria prova de que existem anjos, mas conferiria autoridade para inverdades não relacionadas a ela, professadas por seu autor. "Como um ser humano sozinho amontoaria tantos números e letras para derrubar verdades físicas tão assentes?", "por que mentiria tal nobre homem?", "como se enganaria dessa maneira um homem tão meticuloso e sábio?", seriam possíveis comentários de líderes religiosos em júbilo. Contudo, bastaria um fóton superar a velocidade da luz, em um acelerador, séculos depois que fosse, para derrubar o postulado de Einstein de que não se pode ultrapassá-la. E os anjos cairiam também, de uma altura que só Lúcifer conheceu - existam tais inúteis mensageiros alados ou não. Já uma francesa da Baixa Idade Média, em uma época de guerras santas, intolerância, superstição, em que a Igreja Católica definia até a posição em que se podia fabricar mais cristãos, naquela época de Terra Plana, de monstros marinhos, de pogroms pios, peregrinações fanáticas, cilícios e flagelos, de grotescas relíquias, em que o continente inteiro estava defumado em incenso, alguém falar com seriedade sobre fantasias tidas como tão verdadeiras quanto a realidade tangível não reforça em nada a probabilidade de serem verdadeiras.

Em tal contexto, apelar para o "Deus ordenou" talvez fosse o único modo de uma menina com sanha guerreira ingressar na diplomacia e nas armas, afinal estamos no século XV. E sem falar na profecia, da virgem de Lorena que reconquistará a França, responsável em parte pela aceitação geral - após um rigoroso exame ginecológico, é claro.

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. É uma lei básica. Infelizmente, não vale para os que amam crer mais do que amam o bom senso e a verdade.

25 junho 2012

Torturadores e Torturados

Recentemente foi criada a Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Pessoalmente, acho este nome muito inconveniente. Parece aquelas coisas da cultura corporativa do tipo Código de Ética. Mas, afinal, faz parte do marketing político dar-se um nome bonito para uma coisa não tão bonita. Por exemplo, quem não gosta chama de cotas raciais e quem gosta chama de ação afirmativa.

Para começar, quem criou a tal Comissão foi justamente um grupo de pessoas que foram torturadas. Conhecendo a natureza humana, um motivo que parece óbvio é a busca de vingança. Os ex-torturados dizem que não, que querem apenas a Verdade. Bem, para garantir que a Verdade deles seja encontrada, eles mesmos designaram os membros desta Comissão ilustre.

Não se trata aqui de defender a tortura. Esta é uma prática covarde, para dizer o mínimo. Nos Estados Unidos, recentemente, houve quem a defendesse com base na possibilidade de se salvar centenas de vidas de atentados terroristas. De qualquer forma, a falta de empatia que é necessária para tal prática é algo sub-humano. De fato, não se poderia descrever tal prática nem como animal, não é algo sequer digno de um réptil.

Há 40 anos vivia-se uma guerra civil deflagrada por um grupo esquerdista radical que pretendia instalar no Brasil uma ditadura ao estilo cubano. Aí chegamos ao que realmente está em questão na Comissão da Verdade, na minha opinião. Hoje, temos um grupo que chegou ao poder que é constituído por vários dos ex-torturados. Chegaram a ele não pelas armas, nem tampouco para instalar uma ditadura cubana mas por caminhos democráticos.

Estas pessoas passaram por um grande calvário, várias delas passaram anos presas e outras na clandestinidade. Por outro lado, se os militares não tivessem vencido tal sublevação, ainda poderíamos estar vivendo a situação da Colômbia, por exemplo, que vive uma guerra civil há quase 50 anos, ou, se eles tivessem vencido, teríamos quem sabe uma nova Cuba. Enfim, prefiro a vitória dos militares.

O que está em questão, eu acho, é a necessidade destas pessoas de afirmarem que sua causa era justa. Na minha opinião, não era. Uma coisa é a tortura de inimigos do Estado, outra é dizer que eles estavam certos. Creio que eles estavam errados e acho que a tortura aplicada foi também um grande equívoco. Um equívoco tão grande que lançou uma sombra na vitória dos militares sobre esta insurreição que teria sido tão negativa para o país.

Creio que os verdadeiros heróis daquela ocasião não eram estes rapazes da geração 68 nem tampouco os militares. Penso que os verdadeiros heróis tenham sido os membros do antigo MDB e outros que foram os verdadeiros responsáveis pela redemocratização do Brasil. Lula, por exemplo, com sua liderança no ABC, foi um dos que nunca foram torturados e que muito mais contribuíram para a redemocratização do país.

14 junho 2012

Disneylândias da Europa

 Neuschwanstein no Itaimbezinho

Uma reprodução fiel de um quadro renascentista é sempre mais admirável e valiosa do que uma plotagem em tecido da fotografia da mesma obra. Pinceladas, pequenos empastes e veladuras poderão ser examinados de perto, pela visão e tato, com a certeza de que se está no lugar que o copista ocupava enquanto reproduzia a obra. É uma cópia, sim, mas exclusiva. Na impressão apreciamos as formas, tons e cores, sabendo que o valor intrínseco, físico, é pequeno: os custos dos cartuchos de tinta, do substrato e do chassis, provavelmente. Em ambos os casos, contudo, a genialidade é captada como que por um espelho, através do qual se divisa a pintura autêntica.

Quando o original se perde, é destruído, ou tem sua existência inferida pela reprodução, como algumas estátuas romanas esculpidas a partir de gregas, estas nunca admiradas senão pela Antiguidade, a cópia tem seu valor catapultado para as alturas. Ainda mais neste caso, em que muitas cópias são contemporâneas às originais e o mármore empregado, italiano, é superior, o que explica vermos mais narizes e dedos nas estátuas latinas de vinte, vinte e cinco séculos atrás, do que nas gregas de mesma idade. A cópia, nesses casos, passa a ser virtualmente a original. Grandes templos de madeira do Japão são réplicas de construções de mais de mil anos atrás, às vezes em escala reduzida, como o Todai-ji em Nara, que visitei no ano passado. O templo budista é do ano 743 e foi destruído várias vezes por incêndios e terremotos. O edifício atual é do século XVIII e 30% menor do que o primeiro, erigido pelo Imperador Shomu. Ainda assim, se não me engano, é a maior construção em madeira do mundo. Algumas catedrais medievais europeias, perante as quais turistas em êxtase imaginam artesãos de uma corporação de ofício a talhar, por várias gerações, seus contrafortes, arcobotantes, pináculos e nervuras da abóboda, são reproduções de poucas décadas atrás, erguidas em canteiros de obra modernos com tecnologia de ponta, por meio de guindastes, talhadeiras elétricas. São próteses de valiosos e únicos membros urbanos decepados em guerras ou terremotos. De igual modo, o copista hábil no óleo talvez opte por auxílio tecnológico para transpor as formas com precisão para a tela. Poderá imprimir a fotografia em tamanho natural, marcar os pontos de referência com absoluta exatidão, usar o conta-gotas do Photoshop para saber a dosagem aproximada de azuis, amarelos e vermelhos.

Não duvido que haja falsificações espalhadas por museus mundo afora. Serão tratadas como originais até serem desmascaradas. E há ainda obras de arte atuais em estilo antigo. Imaginemos uma tela de tema mitológico ao estilo de Ticiano, como se a alma deste tivesse possuído o pintor (não desastradamente como outros gênios incorporaram em Gasparetto), produzida em um loft de Nova Iorque ao som de Miles Davis, com o burburinho urbano vindo da janela, um copo de Jack Daniel's ao lado de bisnagas Winsor & Newton. Se tal obra fosse exposta no Louvre como um maneirista da escola de Ticiano, visitantes seriam arrebatados por aquela maravilha. Se vissem a mesma obra sendo criada no loft, talvez diriam com desdém: "mais um pastiche americano". Quem daria o Nobel de Literatura para o autor de um livro em grego antigo nos moldes da Odisseia? Embora sua habilidade devesse ser louvada, não poderíamos compará-lo a Homero, muito menos achar que suas obras têm importância equivalente.

O castelo de Neuschwanstein, no sudoeste da Baviera, é considerado por muitos o castelo mais bonito da Europa. "É um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o 'cartão postal' daquele país", lemos na Wikipedia.

Esta arquitetura fantástica é a avó do castelinho da Bela Adormecida que vemos na Disneylândia. É um pseudo-românico enfeitado, construído com mil anos de atraso por um reizinho perdulário fanático por óperas de Wagner. Chega a ser compreensível, porque durante o romantismo houve um retorno ao medievo. Mas Neuschwanstein é meramente um belo cenário, tão mentiroso quanto qualquer cenário de ópera, embora possa ser visto de ângulos internos e externos. Sua estrutura é de concreto e suas vedações de alvenaria ordinária revestida com cascas de pedra. Esqueçamos da belísima paisagem em que Neuschwanstein está inserido. Ele só está lá porque ela é bela, não porque se necessitava de um sítio seguro, estratégico, a salvo de povos hostis munidos de tochas, catapultas e aríetes. Foi construído com técnicas modernas, nunca houve um rei a comer faisões em meio a vassalos, nunca uma corte se instalou por lá, os pesados portões nunca estiveram entre sitiados e invasores, a assimetria do conjunto de torres não se explica por acréscimos que reis fizeram através dos séculos, por demanda da necessidade, que é o ingrediente de espontaneidade dos castelos medievais; nunca arqueiros estiveram protegidos detrás de suas seteiras, que não existem para compor a estética de castelinho, adotada em motéis temáticos de beira de estrada e em réplicas sofríveis como o Chateau La Cave, em Caxias do Sul, minha cidade natal. O cartão postal alemão não traduz um estilo, uma época. Quem olha aquela arquitetura eclética não imagina que foi concluída nos estertores do século XIX.

Já me disseram que a obra de arte é uma contrafação do real, que toda arte é mentirosa. Mas arquitetura não é apenas obra de arte, como quer Niemeyer, não é mentira, como a pintura e a literatura ficcional. Não posso dizer que quatro paredes e um teto são uma imitação de uma caverna. Já a arquitetura pode ser imitada, claro. Neuschwanstein e quase tudo de Gramado são mentiras sim, ainda que o primeiro seja uma estonteante e Gramado seja uma, digamos, mentira bonitinha. O enxaimel não nasceu de uma imitação da natureza ou de um ideal estético. É uma verdade estrutural. Pilares, vigas e contraventamentos de madeira são expostos em seu estado natural, enquanto as vedações são pintadas de cores claras, amiúde. Levantarem uma casa de cimento, como fazem em Gramado, para depois pintarem “x”s marrons sobre pequenos ressaltos na argamassa, pendurarem placas em alemão com caracteres góticos e atrair turistas que quase sempre pensam estar em uma autêntica pequena Alemanha, é uma mentira bem diferente do que a que vemos em romances. É fato que existem alguns poucos enxaiméis originais em Gramado e em cidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, e é certo que turistas também vão para lá pelas belezas da Serra Gaúcha, pelo clima e também pelos parques temáticos, estes explicitamente "disneylandescos".

Outros dois exemplos de arquitetura fake europeia são o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, um autêntico gótico para inglês ver, concluído em 1870 mas com cara de séc. XIII, perto do qual há até uma estátua recente do rei cruzado Ricardo Coração de Leão, e a Sacré Coeur, um belíssimo templo neo-neo-românico-bizantino para francês ver, concluído em 1914 mas com cara de séc. IX.

Quem me dera que as imitações fossem sempre harmônicas e seguissem os cânones daquilo que pretendem copiar. Na maioria das vezes são pastiches grotescos, fora de proporção. Um exemplo é o Arco do Pontão, em Brasília. O número de vãos deve ser sempre ímpar, porque pelo centro desfilará, teoricamente, algum soberano em triunfo. Mas não. Roriz não foi um grande conquistador - basta olhar para a Weslian -, e bem ao centro temos a guaritinha do guardinha. Os arcos são abatidos, provavelmente por limitação do Código de Edificações, não há espaço para respirarem, porque mal há entablamento.

Por fim, não considero a arquitetura neoclássica, de princípios do séc. XIX, cópia do greco-romano. As ordens dórica, jônica, coríntia, compósita, toscana, a limitação estrutural da pedra ou do concreto não armado a condicionar modulações de colunas e a espessura das paredes, nunca deixaram de ser realidade, desde o helenismo até o classicismo a que me refiro. Mesmo na Renascença, a sociedade como um todo fazia um retorno ao greco-romano, no espírito, nas artes plásticas, no teatro, na filosofia. E não havia multidões de turistas gassetianos que justificassem meras "disneylândias".

06 junho 2012

A Lanterna de Diógenes

Lê-se hoje na capa do Correio Braziliense, o mais lido jornal do DF: O Herói que o Brasil Esqueceu: Empregado do aeroporto que devolveu maleta com dólares tem salário reduzido.

O humilde nordestino Francisco Bazílio Cavalcante era servente terceirizado do aeroporto de Brasília e tinha contas atrasadas, uma de R$ 28,00, ninguém o cumprimentava a não ser pessoas que o conheciam, observava aviões decolando e pousando e tinha a impressão de que todos podiam alcançar o céu, até mesmo os mortos, menos ele.

Um dia, encontrou uma maleta contendo dez mil dólares e devolveu-a a um turista suíço, que a esquecera no banheiro. Não sei se cometeu o insignificante delito de abri-la e daí constatar a pequena fortuna que ensejou seu ato de retidão ou se devolveu simplesmente a maleta e quando soube do conteúdo bateu com a cabeça na parede pela palermice de não a ter aberto, ou se pensou que era grande demais para ser colocada sob a camisa e que o melhor seria devolvê-la para receber uma gorjeta, antes que um aventureiro o fizesse.

Não interessa. Concordo com Thoreau quando diz que não basta uma informação de como ganhar a vida simplesmente com honestidade e honra, mas que tal ato seja atraente e glorioso. Sim, o honesto deve ter reconhecimento.

Francisco virou celebridade, teve a foto estampada na capa do principal jornal da capital federal, passou a ser cumprimentado por todos, não só pelos conhecidos, encontrou-se com o então presidente Lula, foi promovido, apareceu em horário nobre na televisão para promover a honestidade do brasileiro que não desiste nunca, pelo que não ganhou nada a não ser mais notoriedade, passou a usar terno e gravata, alcançou para ele e a esposa o reino dos céus - galardão dos humildes, no Novo Testamento - ao ganhar três anos de passagens aéreas para o Ceará. Quando desembarcava no aeroporto de Fortaleza era tratado como "doutor", segundo suas palavras cheias de saudade. Um carro da Infraero o levava até Sobral, a 400 km do aeroporto. Reformou a casa, colocou forro no teto e piso de cerâmica, ajudou os cinco filhos, oito netos e os pais, que compraram a primeira televisão com o dinheiro enviado pelo glorioso filho. Foi granjeado com a medalha de honra ao mérito do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, tornou-se cidadão honorário de Brasília, nomeado pela Câmara Legislativa.

Agora - injustiça das injustiças - outra empresa assumiu os serviços gerais do aeroporto e Francisco perdeu o cargo de supervisor, apesar de ser o melhor supervisor de serventes de que se tem notícia, porque não rouba, e voltou a ser o que era: faxineiro. Capa do Jornal: Herói Esquecido. Como disse Juvenal, no primeiro século desta era, "a honestidade é elogiada por todos, mas morre de frio".

Ele vivia com salário mínimo e após o feito, digno de Leônidas nas Termópilas, por oito anos ganhou aproximadamente R$ 1,9 mil por mês, uns R$ 125 mil a mais, no período. Ganhou três anos de passagens aéreas gratuitas para ele e a esposa, de Brasília para o Ceará, onde tem família. Poderia ter viajado uma vez por mês, mas especulemos que aproveitou o mimo três vezes ao ano. Digamos que recebeu uns R$ 15 mil em passagens e mais uns R$ 3 mil pelos traslados de Fortaleza a Sobral.

Devolveu dez mil dólares e ganhou fama, mordomias, medalhas e mais de setenta mil dólares. Muitos devem ter tentado demonstrar honestidade, inspirados nele, mas como provavelmente não obtiveram o retorno desejado, não perderam mais a oportunidade de serem desonestos, que dá mais do que nada e, afinal de contas, achado não é roubado.

Ter sido correto deveria ser a própria recompensa. E, ok, uma medalhinha para ele ficar um humilde orgulhoso perante seus parentes, vizinhos e colegas de trabalho, e um aperto de mão do presidente... da Infraero. Mas o que esperar de uma nação onde lutar pelo fim de uma ditadura não é o próprio pagamento pela luta, onde são heróis os políticos que não roubam. O deputado Reguffe é o inverso do Maluf: não faz mas não rouba. A parede de minha sala é tão heroica e nobre quanto ele, então. Pensando bem, é injustiça eu escrever isto. Minha parede protege-me das intempéries e dos vagabundos que tomaram conta desta cidade desgovernada pelo Agnulo, do PT.

O que era dever passou a ser heroísmo. E o que é errado deve ser tolerado porque poderia ser pior, como os esmoleiros que ameaçam veladamente com clássicos "é mais mió pedi qui roubá". É melhor ser extorquido por flanelinhas do que lhes entregar dinheiro coagido por uma arma, não é verdade?

Em breve brasileiros serão condecorados porque estavam a sós com uma beldade, sem testemunhas, e não a estupraram.

Do outro lado do planeta, em março do ano passado, cidadãos japoneses que perderam tudo no tsunami devolveram R$ 125 milhões para as autoridades. Depois ficaram perplexos com a repercussão que a notícia teve mundo afora, porque para eles não fizeram mais do que a obrigação.

Não um mas milhares de cidadãos encontraram em quase seis mil cofres de casas e empresas o equivalente a R$ 125 milhões, na área destruída pelo tsunami, e entregaram tudo para a polícia, numa ação não coordenada. Em um único cofre havia R$ 1,5 milhão. Outros continham barras de ouro, dinheiro. Só em carteiras perdidas no salve-se quem puder havia R$ 76 milhões em dinheiro vivo. Fico pasmo, porque devem ter sido milhares de carteiras devolvidas. 96% do dinheiro retornou aos proprietários ou a familiares, uma vez que quase sempre elas continham documentos de identidade.

Quando nós brasileiros atingiremos esse grau de evolução dos japoneses?

Quando reencarnarmos no Japão, depois de uma tediosa e emética temporada politicamente correta no Nosso Lar de Chico Xavier.

Ou seja: Nunca. Para que gastar óleo com uma lanterna em plena luz do dia, como fazia Diógenes, procurando um homem probo nas ruas de Atenas? Assumamos nossa essência desonesta e deixemos que a dura lex seja nossa honestidade. E as duras fiscalização e aplicação da lei, obviamente.

30 maio 2012

A Conversa de Lula e Gilmar Mendes

Eu tenho não um mas vários amigos petistas. Tem um, em particular, que se não fosse petista seria flamenguista, tamanha a paixão dele pelo Partido. Mas isto tudo é culpa dos pais dele que, ao invés de o levarem para assistir a partidas de futebol, o levavam para bandeirar pelo partido. O resultado disto é que ele torce pelo partido com a paixão de quem torce pelo seu time de futebol preferido.

Caí na tentação de comentar a conversa pouco republicana que o Lula teve com um membro da Corte Suprema. Verdade seja dita. Em um país onde um líder partidário tenta intimidar um membro da mais alta corte é um país que não têm mais muitos limites a serem ultrapassados. Enfim, se os caras têm a banca de intimidar até o Supremo, o que eles não fariam pelo poder? Bem, o caso Celso Daniel mostra até onde eles são capazes de ir.

Meu amigo ficou indignadíssimo. Disse que é mais uma armação da Veja, do Gilmar Mendes e da oposição. Não adiantou eu dizer para ele que pelas regras democráticas isto seria pênalti com direito a ida para o banco. Aliás, nem assino Veja. Quando leio é esperando o dentista e nestas ocasiões ainda dou preferência para a Caras. Agora é como diz a piada, a Veja é do PSDB, a Carta Capital do PT e a Istoé de quem pagar mais. Assim, cada um pode democraticamente escolher a notícia que lhe agrada. Pelo menos por enquanto.

A ameaça não tão oculta assim do Lula seria expor a relação de Gilmar Mendes com o Demóstenes Torres e por tabela com o contraventor Carlinhos Cachoeira. Bem, a CPI do Cachoeira é para isto mesmo. Para intimidar a oposição ou o que resta dela. Acho que hoje o governo controla 80% do Congresso e ainda dá porrada nos 20% restantes para eles ficarem quietos. Pessoalmente, sou contra bullying. Acho falta de caráter, coisa de gente covarde.

O resultado disto é que no Brasil roubar até compensa, o que não compensa é ser da oposição. A vantagem deste assédio do governo é que provavelmente todos os ladrões que ainda não entraram para sua base irão fazê-lo em breve, caso contrário a Polícia Federal, com ou sem Paulo Lacerda, irá atrás do infeliz.

Outra lição que tiro desta história é pedagógica. É melhor levar o filho para assistir a um jogo de futebol do que alimentar paixões partidárias. O estádio parece ser um bom lugar para a paixão até um certo limite. Se o moleque tiver inclinação para a política é melhor dar uma educação moral e intelectual para ele. Assim, o país se beneficia.

Agora veremos se o Supremo terá a coragem ou a vontade de julgar o Mensalão, mesmo que os acusados no processo sejam da turma que está hoje no Palácio do Planalto. No Brasil, sempre valeu a máxima: para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei. Se for assim, os acusados da CPI do Cachoeira serão condenados e os do Mensalão absolvidos, se um dia forem julgados.

22 maio 2012

Pinturas e Trio para Cordas


Montei hoje o vídeo acima com esboços e pinturas que fiz há um bom tempo, ao som de uma composição recente. Abaixo, considerações sobre algumas das obras. Em meio a tantos temas religiosos é importante informar que me tornei ateu tardiamente, depois dos trinta anos, quando comecei a me interessar por filosofia e decidi pensar sobre aquilo em que eu acreditava.

Cristo e a Samaritana
Pintei essa tela inspirado em algumas paisagens da Palestina, às quais dei um tom idílico que na verdade não têm, estéreis que são suas terras, grosseiras que são suas construções recentes. Segundo João, 4,6, "Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço". Não deveria estar de pé, portanto. Mas, se fosse um cavalheiro - provavelmente não era - teria levantado quando a samaritana surgiu. Jesus usa um turbante árabe e é baixinho, o que faz sentido, dada sua megalomania de achar que era um deus.


Otello ou "Ecco il Leone"
Na versão de Arrigo Boito, libretista do Otello de Verdi, Iago aponta para o mouro desfalecido e escarnece: "Eis o Leão". Segura o fatídico lenço de Desdêmona. O verde ciúme contamina já as bases do general. Sua roupa branca simboliza a inocência (estupidez, na verdade). O piso xadrez, o jogo ardiloso do vilão, os pilares, já rubros, são o prenúncio do banho de sangue que se dará em breve. Ao fundo, a nau dos embaixadores venezianos atraca em Chipre.


O Jovem Nero
Crayon sobre papel. O imperador romano é retratado aqui com as três cores primárias simbolizando: azul - a frieza de sua personalidade; vermelho - o sangue de suas vítimas, que o cobre, qual manto; amarelo - o incêndio de Roma. Na época não sabia que, segundo os historiadores mais confiáveis, provavelmente não foi ele o culpado.


Cenas de Mukawir
Pintei-a em setembro de 1992 por encomenda do Ministério do Turismo e Antiguidades da Jordânia.


Templo Escavado na Rocha
Não há como negar a referência à Petra e seus templos escavados na rocha, na Jordânia. Mas a extrema simetria, os ciprestes, a composição em forma de mandala, as piras mortuárias e a cruz reluzente no tímpano equilátero demonstram a paixão que eu tinha na época pelos simbolistas, em especial Arnold Böcklin.


Mádaba
Pintei-a em novembro de 1992 por encomenda do Patriarcado de Jerusalém em Amã - Jordânia. Em primeiro plano, as ruínas da Igreja da Virgem, em Mádaba, e, ao fundo, a igreja atual. A intenção foi demonstrar a continuidade do cristianismo na Terra Santa, hoje tomada por judeus e muçulmanos. Uma reprodução com cores lamentavelmente mortas foi usada como capa do livro Modern Christianity in the Holy Land, do jordaniano Hanna Kildani.


Fátima e o Gênio
Crayon sobre madeira ilustrando uma antiga historieta árabe. O cenário é inspirado em uma casa próxima a Bab Touma, em Damasco, na Síria.

15 maio 2012

Haja Rexona!

Crianças adoram brincar com massinha de modelar. Esta assumir a forma que lhe dão é muito estimulante, pois crianças preferem ser causa a efeito. Deixam talheres à mercê da gravidade, do alto de seus cadeirotes, testam o ponto de ruptura de brinquedos, são cientistas a descobrir o mundo controlando variáveis. Quando a massinha perde a capacidade de ser moldada, é abandonada ou quebrada e atirada ao lixo.

Passam-se os anos e quase todas elas se tornam massinhas de modelar, esticadas e sovadas por meninos vaidosos e mimados. Muitas creem ser literalmente descendentes da argila de modelar cuja fêmea foi feita de sua costela, por um velho menino entediado de sua eternidade, ciumento e cheio de ideias fixas. Estas massinhas somam força mas não somam inteligência, não são arrastadas por grilhões mas conduzidas bovinamente pelos focinhos, perseguem a cenoura suspendida à sua frente por aqueles que, nelas montados, as usam como meio de transporte ou de tração. Abrem mão da liberdade por temerem a responsabilidade.

Elas os amam, pois sabem qual é a vontade delas mesmas, a dos deuses, o que estes irrita ou agrada. E os presunçosos meninos apontam o caminho, apontam para o alto, abençoam, saúdam...

... sempre a mostrar o maldito sovaco!









 Não esqueçamos da Estátua da Liberdade!

14 maio 2012

As Grandes Utopias: o Cristianismo, o Socialismo e o Individualismo

O que define a Europa e o próprio Ocidente é o seu berço cristão, ou seja, um bando de hereges judeus fugindo da perseguição por seus compatriotas acabou espalhando pelo mundo romano a palavra do líder da sua seita. Por que o cristianismo triunfou enquanto outras tantas religiões orientais que chegaram a uma decadente Roma pereceram? Alguns autores dizem que os cristãos criaram uma rede de proteção social aos doentes e desassistidos que se revelou de grande utilidade em um Império Romano em decadência.


O cristianismo pregava que todos eram irmãos em Cristo. Este conceito hoje bastante batido tinha a capacidade de aproximar homens que não pertenciam a uma mesma tribo e irmaná-los em uma hipertribo. Em uma época em que o pertencimento a pequenos grupos sociais era fundamental para a sobrevivência, este elemento foi um importante cimento social.


Muitos duvidam que Cristo tenha ressuscitado, mas é certo que o Império Romano ressuscitou na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que acabou conquistando os bárbaros que destruíram Roma. Esta nova Igreja usou o Império para eliminar seus hereges enquanto o Império usou esta Igreja para obter legitimidade.


Tanto o socialismo quanto o individualismo são doutrinas cristãs. A partir da ideia de irmãos em Cristo, de justiça e de busca de um paraíso para o proletariado, chegamos ao socialismo, enquanto as idéias de salvação individual e livre arbítrio estão na base das doutrinas individualistas. De fato, há quem defenda a ideia que a democracia contemporânea tem suas bases na escolha do presbítero pela Assembléia entre os protestantes, ao invés de remotos modelos gregos. Aparentemente, Weber achava que o próprio capitalismo tinha muito a dever à ética protestante.


O problema da Igreja é o mesmo problema de outras utopias. Nenhum homem está à altura delas. Infelizmente, o Papa não é infalível, Marx tinha o hábito burguês de comer a empregada e os mercados financeiros regulados apenas pela racionalidade individual quase destruíram o capitalismo em 2008.


Afinal de contas, talvez a culpa por espalhar estas utopias não seja de um bando de bêbados e bacantes italianos mas de um bando de pescadores gregos desocupados. Como todos sabem, pescadores tendem a ser mentirosos e talvez Platão não tenha escapado a esta sina. Este culto de alto ideais acabou criando metas tão elevadas que só podem alimentar mentiras e decepções. Quem sabe esta busca pelos ideais acabou nos levando a perder o próprio significado de humanidade?

11 maio 2012

De Condenador a Completo Inútil


O Homem do Terno Risca de Giz

Era uma rua como muitas outras; lojas no térreo, residências nos pavimentos superiores, de cujas janelas pendiam roupas e mães gritavam às crianças que brincavam pelas calçadas, comerciantes a anunciar seus produtos, os indesejados gatunos de sempre, além de cantores, policiais, mendigos e outros personagens do teatro urbano. Eventualmente, um velho caía e trincava a bacia, uma esposa apanhava do marido. E havia relatos de assassinatos, os quais, contudo, eram bem raros.

Certo dia, um homem de terno risca de giz, chapéu homburg e sapatos bicolores foi de loja em loja oferecer proteção contra os gatunos, que, segundo dizia, sem tirar o charuto da boca, seguiam agora um líder cujo propósito era destruir todas as lojas sem nada lhes subtrair, por simples vandalismo. A proteção tinha um preço, logicamente, para cobrir os custos.

Os comerciantes avaros que se recusaram a pagar pela proteção tiveram seus estabelecimentos destruídos, e os que resistiram foram friamente espancados ou mortos. Malvados gatunos.

Em outras paragens a vida seguiu normalmente por um tempo, até o dia em que não havia um local no país que não dependesse da abnegada assistência do homem do terno risca de giz. Em outros países, homens como ele protegiam seus concidadãos, o que o irritava um pouco, pois queria ser o único protetor do mundo.

O Homem da Túnica de Lã de Ovelha

Qual deus criaria homens para enviá-los todos ao sofrimento eterno, bons e maus, por não adorarem seu filho, único caminho para a salvação mas que ainda não lhes fora apresentado? Antes de Jesus, bastava ser bom na Terra para adentrar o paraíso. Deixemos de lado os deturpadores da Bíblia, que afirmam que naquela época não existia vida após a morte.

Após milhares de anos tentando debalde tirar os pecados do mundo com chuvas de fogo, dilúvios e pragas, Javé enviou seu único filho para morrer pela humanidade, na sua derradeira tentativa de salvá-la. Jesus revelou aos homens ser o único caminho até o paraíso, e que aqueles que não o aceitassem padeceriam eternamente no inferno, ainda que fossem bons. Jesus, destarte, inaugurou a modalidade do bom que vai para o inferno.

Nos locais cujos habitantes ainda não conheciam o amor cristão, se um justo morria, Jesus lhe dava então a oportunidade de aceitá-lo, o que, convenhamos, é estar em uma situação muito mais cômoda do que a nossa, aqui às cegas, uma vez que já se está no além-vida e seria burrice continuar cético ou adorar um deus diverso daquele manifestado. Seria de uma crueldade de fazer inveja a Lúcifer Javé enviar milhões de chineses para o inferno, sumariamente, mesmo depois de Cristo, apenas porque um missionário ainda não lhes anunciara a Boa Nova.

Enganou-se, portanto, Javé, pois Jesus acabou vindo como Condenador, não como Salvador. Repetindo, veio única e exclusivamente para condenar bons, uma vez que antes dele os bons já estavam salvos e os maus condenados. Lembra-me um pouco o homem de terno risca de giz do princípio do post.

Mas eis que chega o Concílio Vaticano II, segundo (perdoem-me o eco) católicos conservadores o torpe fruto da infiltração protestante, maçom e judaica no seio da Santa Madre Igreja. Com ele, Jesus passa de Condenador a um completo inútil. Vejamos um capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium:

Relação da Igreja com os não-cristãos
16. Finalmente, aqueles que ainda não receberam o Evangelho, estão de uma forma ou outra orientados para o Povo de Deus (32). Em primeiro lugar, aquele povo que recebeu a aliança e as promessas, e do qual nasceu Cristo segundo a carne (cfr. Rom. 9, 4-5), povo que segundo a eleição é muito amado, por causa dos Patriarcas, já que os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cfr. Rom. 11, 28-29). Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e connosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia. E o mesmo Senhor nem sequer está longe daqueles que buscam, na sombra e em imagens, o Deus que ainda desconhecem; já que é Ele quem a todos dá vida, respiração e tudo o mais (cfr. Act. 17, 25-28) e, como Salvador, quer que todos os homens se salvem (cfr. 1 Tim. 2,4). Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna (33). Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho (34), dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final. Por isso, para promover a glória de Deus e a salvação de todos estes, a Igreja, lembrada do mandato do Senhor: «pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc. 16,16), procura zelosamente impulsionar as missões.

 Pelo que entendi então, Jesus é quem salva. Passou a salvar até quem não crê nele, o único caminho. O que não se faz pela clientela...

No fim das contas, voltou a ser tudo como era antes da vinda do Rabi de Nazaré. Que confusão dos infernos!

10 maio 2012

A Velha Questão das Quotas Raciais

Recentemente, o STF em votação unânime aprovou a constitucionalidade das quotas raciais em universidades federais. O julgamento contou com a presença de Spike Lee, que mais tarde foi recebido por Dilma Roussef. A nossa mandatária aparece sorridente em fotos ao lado do ilustre cineasta estadunidense, que vestia um jogging e um boné dos Yankees, se não em engano.

Nada mais apropriado, afinal, as cotas raciais são uma invenção ianque. As universidades americanas não tinham um vestibular como aqui. Lá a seleção era por currículo, teste de proficiência e cotas. Universidades do Ivy League costumavam selecionar seus alunos entre o filhos de seus doadores, de seus ex-alunos e outras quotas. Aliás, a sociedade americana é mais segregacionista do que a brasileira. Lá existiam e ainda existem bairros raciais. Mesmo dentro das universidades existem organizações que buscam organizar as pessoas por suas origens étnicas, culturais e classe social. Neste contexto, pode até fazer sentido se falar em cotas raciais.

Bem, as quotas já vão completar algumas décadas nos Estados Unidos e não mudaram substancialmente a situação americana. Hoje, a sociedade americana se aproxima da concentração de renda da época da Grande Recessão e a comunidade negra continua com grandes problemas sociais. De fato, na opinião dos autores do livro Wikanomics, a principal tragédia dos negros americanos não foi a escravidão mas a cocaína. Ela foi responsável pela devastação de comunidades inteiras e regressão de indicadores sociais.

No Brasil, desde a época de Fernando Henrique já se falava em cotas e começou-se a aparelhar o Executivo com entidades com objetivo de fazer lobby pela sua implantação. Estas entidades, em articulação com outros órgãos do Executivo pressionaram o Legislativo para aprovar a Lei das Cotas. O Legislativo, que costuma ser um órgão mais sensível à vontade popular, sentiu que a sociedade não tinha consenso para tratar desta questão e decidiu respeitar a vontade popular da maioria em não aprovar uma lei desta natureza.

Diante dessa negativa, o lobby tem avançado no Executivo do Rio de Janeiro, no Ministério da Educação e em mais alguns lugares. Com isto, tivemos sua grande vitória agora, quando 11 juízes "eleitos" pelo presidente da República e referendados pelo Senado decidiram que a Constituição brasileira acolhia a tese das cotas raciais.

Em minha opinião, um STF que tem um juiz que era advogado de José Dirceu e que tomou pau na prova para juiz 3 vezes não goza de muita credibilidade. De fato, um dos arapongas do Demóstenes pegou uma conversa na qual ele comentava que um deles aceitou votar contra o Ficha Limpa em troca da vaga no Supremo Excelso. Outro juiz foi pego pela corregedora nacional da Justiça recebendo generosíssimos pagamentos da União...Tem um outro que vive de licença médica e que tem mania de perseguição. Tem um outra que na arguição do Senado alegou desconhecer aquela legislação pois há muito só tratava de casos trabalhistas....Nesta hora, o importante é ter bons amigos.  Enfim, já tivemos melhores Supremos, sorte das cotas, azar o nosso.

Azar o nosso, porque as cotas não resolvem problemas sociais, não resolvem injustiças históricas...As cotas simplesmente criam uma clientela étnica, uma forma de mobilização sob uma bandeira que interessa a alguns que serão eleitos por ela. Do ponto de vista prático, a cor da pele não diz se alguém merece uma vaga na universidade. Se temos que ter cotas, que sejam cotas sociais. Alunos de escolas públicas, filhos de família de baixa renda...estes deveriam ser os beneficiados.
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