31 dezembro 2009

Um Feliz 2010!

Feliz Ano Novo para todos.

O 2010 anterior - aquele a.C. - não foi dos melhores, afinal nossos colegas de espécie ainda estavam a domesticar cavalos, não possuíam antibióticos, vacinas, não conheciam técnicas cirúrgicas eficazes, embora já contassem com um meio ainda em voga neste século XXI para prevenir doenças e males em geral, que é invocar amiguinhos imaginários poderosos em rituais ridículos.

Construamos um feliz 2010 d.C., único, marcante, melhor do que aquele de Arthur Clarke, onde computadores são inteligentes, E.T.s nos deixam monolitos negros de presente e fundam colônias em satélites de Júpiter, que explode e vira um segundo sol.

Vendamos tudo que possuímos e aproveitemos ao máximo o tempo que nos resta, porque dezembro de 2012 está chegando e os maias, como sabemos, não tinham como errar a data do fim da nossa civilização, embora não tenham sido capazes de prever o fim da própria.

21 dezembro 2009

Os deuses precursores

Janer Cristaldo


1. JEZEUS CRISTNA

Desta última viagem, voltei com alguns livros daqueles que não encontramos aqui. Destaco dois. De Karen Armstrong, minha teóloga predileta, Los Orígenes del Fundamentalismo en el Judaísmo, el Cristianismo y el Islam. Armstrong, eu a conheço desde há muito e tenho boa parte de suas obras em minha biblioteca. O outro livro foi Pablo de Tarso, ¿Apóstol o Hereje?, de autora espanhola que desconhecia, Ana Martos. Apesar de alguns lapsos, como falar da existência de três reis magos na Bíblia – o Livro fala apenas de magos, jamais diz que são reis e muito menos que são três – Martos faz importantes reflexões sobre as origens do cristianismo e sobre a heresia de Paulo.

Para começar, segundo a autora, os poemas e livros sagrados hindus, que narram o mito do primeiro casal que desobedeceu e foi expulso do paraíso terrenal do Ceilão, afirmam que Brahma finalmente os perdoou, mas que, posto que era um deus, conhecia de sobra a natureza humana e soube de antemão que continuariam pecando e ofendendo-o, porque o mal já havia entrado no mundo e não era fácil tirá-lo dali. Por isso, decidiu enviar Vischnu, a segunda pessoa da Trindade, para que se encarnasse no ventre de mulher mortal e redimisse o gênero humano do mal e da morte eterna. Vischnu se encarna mais de uma vez. Sua oitava reencarnação foi Cristna, e a nona, Buda. 3500 anos antes de nossa era, Cristna nasceu de mãe virgem, tendo sido profetizada sua vinda ao mundo pelos livros santos. Acho que o leitor já conhece história semelhante.

Adelante! A concepção da mãe de Cristna foi marcada pelo divino. Vischnu apareceu em sonhos a uma mulher justa e boa chamada Lakmy, que esperava um filho, advertindo-a que daria luz a uma filha, que seria eleita por Deus para ser mãe do futuro redentor do mundo. A criança deveria chamar-se Devanaguy e não deveria conhecer varão, mas permanecer virgem e entregue à oração.

Anos depois, Cristna foi concebido milagrosamente durante uma cena mística, na qual Devanaguy entrou em êxtase enquanto orava fervorosamente, ofuscada pela luz e esplendor do espírito divino que se encarnou em seu ventre. Mas Rausa, tirano e tio de Devanaguy, foi advertido em sonhos de que a criança que nasceria de sua sobrinha o destronaria algum dia e a encerrou em uma torre.

Nove meses depois chegou o momento esperado do parto e, ao primeiro gemido de dor da parturiente, um forte vendaval a elevou milagrosamente e a transportou até a cova do pastor Nauda, onde nasceu um menino a quem deram o nome de Cristna.

Todos os pastores acudiram a adorá-lo e a atender a mãe e o filho, mas Rausa soube que a criança havia nascido fora de sua prisão e, enfurecido, mandou degolar todos os meninos que tivessem nascido naquela noite. Devanaguy recebeu a advertência celestial e fugiu com o menino para colocá-la a salvo da degola, quando os soldados do tirano se aproximavam perigosamente.

Passaram-se os anos e Cristna, a criança celestial, cumpriu dezesseis. Chegou então o momento de abandonar a proteção materna para percorrer a Índia e predicar uma nova moral. Uma moral que a todos impactou, porque se atreveu a proclamar a igualdade entre os homens e inclusive, com coragem, entre as castas hindus, algo que ninguém até então havia sido capaz de mencionar. E não só isso, mas também pôs em destaque a hipocrisia dos sacerdotes brâmanes, o que lhe valeu sua ira e suas contínuas perseguições.

Quando foi necessário, Cristna realizou o milagre de curar enfermos e leprosos, fazer andar os paralíticos, devolver a visão aos cegos e inclusive ressuscitar os mortos. Muita gente o seguiu porque sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes.

Disse ter vindo ao mundo para redimir os homens do pecado de seus primeiros pais, rodeou-se de discípulos que continuariam seu trabalho e ensinou sua doutrina através de parábolas. Certa ocasião, Cristna teve de repreender o principal de seus discípulos, Ardjuna, por sua escassa fé, já que ele e outros seguidores entraram em pânico quando sentiram aproximar-se os esbirros do tirano. Mas Cristna soube infundir neles novo ânimo, mostrando-se com todo seu divino resplendor da segunda pessoa da Trindade divina. Após sua transfiguração, seus discípulos começaram a chamar-lhe Jezeus, que significa “nascido da essência divina”.

Quando soube que havia chegado sua hora, retirou-se a um lugar para rezar, proibindo a seus discípulos que o seguissem. Submergiu no rio Gânges e logo ajoelhou-se às suas margens, recostando-se a uma árvore e esperando sua morte. Enquanto rezava, chegaram os soldados do tirano e os esbirros dos sacerdotes e um deles feriu-o com uma flecha. Para que terminasse de morrer, o dependuraram em uma árvore para que o devorassem os animais selvagens.

Seus discípulos o procuraram ansiosos quando souberam de sua morte e correram para apanhar seus restos, mas nada encontraram porque o filho de Deus havia ressuscitado e voltado aos céus.

Isto aconteceu 3500 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência. Continuo mais tarde o relato dos demais mitos anteriores ao cristianismo, feito por Ana Martos.


2. AGNI E MITRA

Segundo a autora, encontramos mais um mito precursor nos Veda, os livros sagrados da Índia revelados pelo próprio Brahma e compilados por Vyasa, que datam do século XIV antes de nossa era. Traduzo.

Agni nasceu no 25 de dezembro, solstício de inverno, tendo sido sua vinda anunciada ao mundo por uma estrela no firmamento. Desde então, quando reaparece, os sacerdotes anunciam a boa nova ao povo e repetem o rito do descobrimento do fogo, esfregando os lenhos cruzados, até que surge a chispa como uma criatura celestial que colocam sobre palhas para que prenda fogo. Os sacerdotes levam até o berço de palha uma vaca que leva a manteiga e um asno que leva o soma, um licor alcoólico de cor dourada, com os quais alimentam a pequena chama, à qual chamam criatura.

No ritual, os sacerdotes lhe oferecem pão e vinho e cada fiel recebe uma pequena partícula da oferenda, que contém parte do corpo de Agni, nome que se transformou em Agnus, cordeiro em latim, no contato com o povo romano. O cordeiro que se oferece a Deus como vítima propiciatória pela redenção dos homens, o cordeiro de Deus, Agnus Dei.

O nome de Agni significa “unção”, que em grego se diz “cristnos”, de onde procede “cristo”, o “ungido”, o Messias judeu e cristão dito em grego, porque em hebraico se mashiakh, que se translitera como messias. Os dois lenhos cruzados são a cruz onde se gera o fogo, o Sol, que é a origem do deus segundo o dogma ariano de uma trindade composta pelo Sol, pai celeste; o fogo, encarnação do Sol e o espírito, sopro de ar que acende a chama.

Nos conta a autora que a Índia teve um outro deus, não tão importante, mas que passou ao panteão persa – e depois ao romano – com todas as características de um deus principal. Seu nome era Mitra, também chamado o Senhor, e fez nascer com suas flechas a fonte eterna do batismo, já na Pérsia. Nasceu de mãe virgem, em um 25 de dezembro, a festa mais importante da religião dos magos persas. Seu nascimento foi anunciado por uma estrela que apareceu no Oriente e os magos acudiram a adorá-lo, levando-lhe perfumes, ouro e mirra. Mitra morreu no equinócio da primavera, em março, para ressuscitar triunfante no terceiro dia.

Na religião mitraica, que primeiro foi hindu, logo persa e finalmente foi adotada por Roma como religião oficial, Mitra, que originalmente foi o ministro principal do deus Ormuz, venceu o touro que simbolizava a vida, arrastou-o a uma cova e lá o degolou para beber seu sangue, porque de seu sangue surgiu a vida e de sua carne se originaram todos os animais e todas as plantas. Por isso, Mitra se converteu em criador do universo e, ao mesmo tempo, em mediador entre Ormuz e o ser humano. Os ritos de iniciação nos mistérios de Mitra incluíam batizar o neófito com sangue de touro sacrificado em um lugar mais elevado, de onde o sangue manava para banhar o iniciado. A iniciação começava com o batismo e terminava com a comunhão, em que se consumia a carne do touro com água, pão e vinho. O pão e o vinho se consagravam previamente com uma fórmula mística que os converteria em corpo e sangue do deus. O culto de Agni surgiu 1400 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência.


3. OSÍRIS, DIONISOS E SERAPIS

Ana Martos vai adiante e envereda pela mitologia egípcia. Os Textos das Pirâmides mostram que Osíris oferece seu corpo como pão de vida e seu sangue como vinho. “Tu és o pai e a mãe dos homens que vivem de teu sopro, comem a carne de teu corpo e bebem teu sangue. O que come tua carne e bebe teu sangue viverá eternamente”.

Os gregos identificaram Osíris com Dionisos, o deus encarnado, o salvador, filho de Deus, nascido de uma mulher mortal, em um 25 de dezembro, em uma cova humilde onde pastores o adoraram. Osíris Dionisos oferecia a seus seguidores o renascimento para a vida eterna mediante a imersão ritual na água. Em sua vida terrena converteu a água em vinho durante uma cerimônia nupcial. Entrou triunfalmente na cidade montado em um asno, enquanto as pessoas brandiam palmas. Morreu na Páscoa (na primavera) pelos pecados do mundo, desceu aos infernos e ressuscitou no terceiro dia para ascender glorioso à sua morada celestial, de onde descerá ao final dos tempos para julgar os homens bons e os maus. Dionisos, como Baco e, em alguns cultos, Orfeu, foi crucificado pelos pecadores, mas não em uma cruz de dor, senão em uma cruz de salvação, porque a cruz é símbolo e totem de muitos povos. Sua morte e ressurreição se celebravam com um ágape ritual com pão e vinho que simbolizavam sua carne.

A conversão do pão e do vinho em carne e sangue do deus era um ritual tão popular que Cícero, cético, chegou a protestar em De natura deorum e a perguntar se alguém podia estar tão louco para acreditar que o que ingeria era a carne e o sangue de um deus.

O culto a Osiris se ampliou e se aperfeiçoou durante o período helenístico, no qual o Egito esteve governado pelos gregos, para configurar uma nova divindade cuja morte e ressurreição assegurava vida eterna a seus fiéis. Unindo todas estas facetas, Ptolomeu I proclamou a religião de Serapis no Egito como religião oficial imposta, não espontânea como a de Isis ou Adonis, mas mantendo a tolerância em relação a outros deuses e outras religiões. Serapis era a união de Osiris e Apis, dois deuses egípcios que naquela época já incorporavam os aspectos do deus grego Dionisos, pelo que se proclamou Redentor filho da Trindade egípcia.

Serapis nasceu de mãe virgem no solstício de inverno, morrendo no equinócio da primavera para ressuscitar no terceiro dia. Não escapou de ameaças de morte, o que obrigou sua mãe, a virgem Isis, a fugir com o filho, montada em um asno. Isso sem falar da imagem de Orfeos Bakkikos, a primeira que se conhece de um deus crucificado, utilizada nos mistérios órficos e dionisíacos celebrados no Mediterrâneo... desde o século VI antes da era cristã.

Conhecemos essa história, não? É a do cara aquele que nasceu num 25 de dezembro de mãe virgem, foi anunciado por anjos, curou enfermos e leprosos, fez andar os paralíticos, devolveu a visão aos cegos, transformou água em vinho e ressuscitou mortos. Sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes. Desafiou os sacerdotes de sua época, foi crucificado, morto e sepultado e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Se alguém ainda acha que isto não é ficção de hábeis sacerdotes, que se vai fazer?

16 dezembro 2009

Nada de novo sob o sol

Janer Cristaldo


Há Estados interferindo na legislação de outros Estados. Nestes dias em que estive na Espanha, Baltasar Garzón, o famigerado juiz espanhol, pretendeu julgar os familiares de Pinochet por supostos crimes cometidos ... no Chile. A impressão que o magistrado deixa é que a Espanha se arroga o direito de julgar atos em qualquer país do mundo. Isto não é novo. Nos anos 90, um cidadão francês foi condenado por crime que teria cometido... na Tailândia. Só que na Tailândia não era crime. Comentei isto há quase dez anos.

Amnon Chemouil, funcionário dos transportes públicos franceses, descobriu em 92 a praia de Pataya, na Tailândia, para onde voltou em 93 e 94. Na terceira viagem, em companhia de um turista suíço, Viktor Michel, decidiu iniciar-se na pedofilia. Viktor trouxe-lhe uma menina de 11 anos, que praticou uma felação em Chemouil, pelo preço módico de 125 francos. Até aí, nada fora do previsível. É internacionalmente sabido que o Estado tailandês tolera tais práticas, daí boa parte do afluxo turístico àquele país. O suíço, que além de pedófilo era voyeur, filmou a cena. De volta ao mundo europeu, Chemouil recebeu do amigo suíço uma cópia do vídeo, para sua coleção. E aqui começam os problemas do funcionário.

Anos depois, em uma revista no apartamento de Viktor, a polícia suíça encontrou o vídeo e enviou uma cópia do mesmo à gendarmeria francesa. Chemouil foi detido e levado ante um tribunal parisiense, que o acusava de transgredir o código penal francês de 94, pelo crime de violação sexual de menor. Além do mais, uma lei aprovada em 17 de junho de 1998, autoriza os tribunais franceses a julgar as "agressões sexuais cometidas no estrangeiro", mesmo quando os fatos imputados ao acusado não sejam considerados delitos no país onde foram cometidos.

Claro que a França jamais condenaria um cidadão francês que fosse a Cuba – como vão – para curtir os encantos de uma jinetera a preço de baguete. Nem a Alemanha condenaria os Fritz que vêm ao Brasil em busca das celebradas mulatas do Rio e Bahia. Quanto à Tailândia, é crime. Mesmo que lá não seja crime.

Na ocasião, o escritor peruano Vargas Llosa, em artigo para El País, afirmou que o precedente estabelecido pela França é impecável, pois uma democracia moderna não pode aceitar que, saltadas as fronteiras nacionais, seus cidadãos possam ser exonerados de responsabilidade legal e delinqüem alegremente porque, no país estrangeiro, não existem normas jurídicas que proíbam aquele delito. (...) Os legisladores franceses decidiram estender a jurisdição das leis e códigos a esta sociedade globalizada de nosso tempo, o que permitiu assentar um precedente e um exemplo, como ocorreu, já não no campo dos delitos sexuais, mas no dos crimes contra a humanidade, com o general Pinochet na Espanha e Inglaterra.

O lúcido Vargas Llosa parece ter-se imbuído da arrogância européia, que se julga no direito de julgar um chileno por crimes cometidos no Chile, mas jamais ousaria pedir a cabeça de um Clinton ou Blair pelo bombardeio de populações civis na Iugoslávia. Diga-se de passagem, Barack Obama acaba de receber um Nobel da Paz por seus bombardeios no Afeganistão.

Por uma lei de 1998, Amnon Chemouil foi condenado na França a sete anos de prisão. Por um fato ocorrido em 1994, na Tailândia. Não é preciso ser versado em Direito, para entender-se que tal atitude gera uma insegurança total no campo dos atos humanos. Ora, no artigo 11 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lemos: "Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento de sua prática, não constituíam ato delituoso à face do direito nacional ou internacional".

Tenho comentado, ao longo destas crônicas, uma outra tendência cada vez mais em moda em nossos dias, a de criar diferentes legislações para os cidadãos pertencentes a um mesmo Estado. No Brasil, negro vale por dois brancos em vestibular, índio pode espancar mulheres e matar crianças, desmatar e exportar mogno, o MST pode invadir propriedades e próprios federais, demolir laboratórios e culturas transgênicas. Se um outro cidadão que não pertence a estas tribos fizer o mesmo, cai sobre ele todo o rigor da lei.

Na Europa, os muçulmanos reivindicam o direito a práticas que na Europa constituem crime, como a ablação do clitóris e a poligamia. Na Alemanha, citando o Corão, a juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". Se um alemão bate em sua mulher, estão estabelecidas as condições para o divórcio e para a punição do marido. Muçulmano pode bater à vontade.

Costumo afirmar que quando em um Estado há duas ou mais legislações, então há dois ou mais Estados. Falei em “tendência cada vez mais em moda em nossos dias”. Me corrijo. Isto não vem de nossos dias. Há dois mil anos, uma seita de fanáticos já tinha a mesma pretensão.

Celso, nobre romano, autor de Discurso Verídico, que foi queimado pela Igreja e do qual só temos notícia pela contestação de Orígenes em Contra Celso, em sua época já acusava os cristãos de rebeldes contra a ordem estabelecida. Se se negavam a participar na vida pública e civil, isto equivalia a estabelecer um Estado dentro do Estado, com normas e costumes próprios, mas distintos aos do Império. Se se contentassem em anunciar um deus novo, isto pouco importava aos romanos. Mais deuses, menos deuses, tanto faz como tanto fez. Ocorre que se empenhavam em denegrir os deuses do país que os acolhia.

Como dizia o Koelet, nada de novo sob o sol.

12 dezembro 2009

Abaixo a história e a geografia!

Janer Cristaldo


Fiz muitas escolhas erradas na vida. Nasci no campo, só fui conhecer cidade aos dez anos, nunca tive mestre que me orientasse. Tive de ser meu próprio mestre e assim sendo cometi não poucos equívocos. Um deles, diria, foi ter feito Filosofia. Filosofia, desculpem-me os filósofos, não passa de palpites. Um pensador diz: o mundo é assim e vai pra lá. Surge um outro e diz: o mundo é assado e vai pra cá. As filosofias, fundamentadas na razão, se derrubam umas às outras e nenhuma é perene. Já a literatura, que com a razão pouco ou nada tem a ver, consegue mais perenidade.

Se leio hoje a República ou o Fédon, de Platão, tenho de dar grandes descontos ao saber da época. Mas A Arte de Amar, de Ovídio, escrito no início da era cristã, conserva hoje todo o frescor dos dias em que foi concebido. “Retira o grão de areia do seio da bela, mesmo que não haja grão algum no seio dela”. Isto é eterno.

Mesmo assim, cometi um outro equívoco, o de ensinar literatura. Literatura não se ensina. Literatura se lê e estamos conversados. Ocorre que, um belo dia, querendo desfrutar de Paris, postulei uma bolsa na França. Pedi a bolsa na área de Letras, área que conhecia bem. E a ganhei. Sem jamais ter pretendido o magistério, acabei fazendo um doutorado em Letras Francesas e Comparadas. Minha pretensão não era ser professor. Mas apenas curtir os vinhos e queijos, a cultura e as mulheres que Paris me oferecia. E assim foi. Voltei com um título na mão (mas não o diploma, já explico) e acabei lecionando literatura por quatro anos na UFSC, o que foi certamente o período mais vazio de minha vida.

Ah, estudei também Direito. Ontem ainda, uma colega de curso me lembrava que hoje comemoram-se quarenta anos de nossa formatura. Horror! Como passam rápido as décadas. Foi outra errância minha. Não direi que Direito seja um curso inútil. Mas não me servia. Pra começar, não suporto usar gravata. Continuando, mais do que usar gravata, detesto chamar alguém de Meritíssimo. Meus diplomas hoje mofam em algum canudo perdido em meus arquivos. Exceto o de Dr. em Letras. Havia tanta burocracia para apanhar o diploma, que acabei por deixá-lo lá por Paris mesmo.

Enfim, o magistério em literatura não foi tão inútil. Naqueles dias, ganhava bem e tive o lazer suficiente para escrever um romance, Ponche Verde, onde escrevi, na voz de um personagem:

"Quarenta anos, pois. Sem filho, sem livro, sem árvore. Bons propósitos os alimentara por quatro décadas, mas de bons propósitos Paris transbordava há séculos e era aquele bordel. Como um bordel também estava sua cabeça quando chegou au bord’elle, la Seine, que agora estaria correndo com tanta mansidão mas sempre debitando toneladas de sangue em seu curso. Agora, vendo seu passado do alto da alto da torre Eiffel, conseguira unificar algumas linhas. No direito buscara a justiça. Não a encontrando lá, fora perguntar à Filosofia. Os pensadores haviam permanecido silentes e tivera de estudar História para entender a Filosofia. Descobria agora que sem a Geografia jamais entenderia a História et le voilà, o erudito, careca e enregelado em meio à avara primavera berlinense, com ar mais abestalhado que aquele orangotango".

Meu personagem – uma hipóstase de mim mesmo – descobrira um pouco tarde que sem conhecer geografia ou história ninguém entende o mundo em que vive. Mas, que sabemos da vida quando temos quinze ou dezesseis anos? Hoje, não leio mais ficções – posso até reler as que mais me tocaram – e só tenho lido ensaios históricos, particularmente sobre religiões.

Assim sendo, é com perplexidade que leio na edição do Le Monde de hoje que, naquela França onde descobri que sem história ou geografia não conseguimos entender o mundo, foi suprimido no secundário o ensino de história e geografia. Diz Luc Chatel, ministro francês da Educação: “Os alunos não farão história em cursos terminais, mas atualmente eles também não fazem francês e não tenho a impressão de que eles sejam iletrados”. É um ministro da Educação que afirma que tanto o estudo da língua vernácula como o de história ou geografia são perfeitamente dispensáveis. Se Lula dissesse isto, seria coerente. Mas ouvir isto da boca de um ministro francês é no mínimo chocante.

Chocante, mas nem tanto incoerente. Estudar história significa tomar conhecimento dos horrores que uma igreja, ainda hoje influente, cometeu na França e na Europa. Dos horrores cometidos pelos revolucionários de 79. Dos horrores cometidos por Napoleão, um dos vultos mais cultuados na história da França. Dos horrores do comunismo, dos quais foram cúmplices boa parte dos intelectuais franceses, a começar pelo stalinista Sartre. Dizia Norodom Sihanouk, príncipe do Camboja: “ os jovens cambojanos, se tivesse de mandá-los estudar no Exterior, mandaria para Moscou. De Paris, eles voltam comunistas.”

Ainda no Le Monde, alguém que se assina como Mika, “simple citoyen”, se pergunta: “Em uma época onde se vê a falta de curiosidade da mais jovem fatia da população, a necessidade de uma identidade nacional, porque atacar esta matéria? A história-geografia é a meu ver uma das matérias-chave da educação. Para começar porque ela é necessária socialmente. Conhecer seu passado, descobrir a formação das civilizações, a criação dos diversos sistemas políticos, é também conhecer a si mesmo, é descobrir como o mundo no qual se vive chegou a ser como é. Que é o comunismo? Que é a república? Que é o conflito israelo-palestino? Aliás, o que é Israel? De onde vem a democracia. E, finalmente, a democracia é o quê?”.

Perguntas incômodas. Ao que tudo indica, ao ministro francês da Educação, estas perguntas não têm importância alguma. É espantoso constatar que, na França de Renan e Voltaire, de Montaigne e Balzac, uma autoridade tome uma atitude que nem os países dominados pelo stalinismo ousaram tomar.

E se na França hoje não mais se estuda história ou geografia, podemos confiar que mais dia menos dia a moda chega até nós.

11 dezembro 2009

Muçulmanos em Malmö

Janer Cristaldo



Comentei, no último post, os problemas gerados pelos muçulmanos na Suécia, que fizeram com que cinco mil suecos abandonassem a cidade de Malmö. O leitor Filipe Liepkan Maranhão me remete a este texto de um blog português:

ASPECTOS DO MOTIM MUÇULMANO EM MALMÖ, SUÉCIA

Os recentes confrontos urbanos ocorridos na cidade sueca de Malmö revestiram-se de uns quantos aspectos assaz significativos e que constituem por si um sinal dos tempos que se avizinham e que há décadas se adivinhavam: as forças da extrema-esquerda incitam a principal e mais aguerrida das minorias étnico-religiosas contra «o sistema».

Durante dias a fio, os jovens muçulmanos atiraram cocktails Molotov e travaram batalhas campais contra a polícia quando as autoridades quiseram fechar uma mesquita, porque o proprietário do espaço onde a mesquita funcionava decidiu, findo o contrato anual com a comunidade islâmica, que o dito espaço seria utilizado para outros fins que não os do culto muçulmano.

É notória a intervenção de anarquistas e antifas no sentido de aoelerar o tumulto...

A comunidade muçulmana, por seu turno, alega que, uma vez que o espaço alugado pela comunidade a determinado proprietário foi usado como mesquita, esse terreno passou a ser considerado como sagrado à luz do Islão, pelo que terá de ser sempre muçulmano.

Isto deve servir para dar uma ideia de como será uma Europa cheia de mesquitas e de centros culturais islâmicos - uma região do mundo com numerosos postos avançados da «nação islâmica», zonas conquistadas pelos muçulmanos que só pela força poderão voltar ao pleno controlo dos Europeus.


(http://gladio.blogspot.com/2008/12/aspectos-do-motim-muulmano-em-malmo.html)

10 dezembro 2009

Islã não merece Europa

Janer Cristaldo


E segue o baile no baile no galpão. A decisão dos suíços de proibir a construção de minaretes em seu território está granjeando simpatias na Europa. Ontem ainda, Nikolas Sarkozy escreveu um longo artigo no Monde, onde se mostra simpático ao resultado do plebiscito no país vizinho. “Em lugar de condenar irremediavelmente o povo suíço, tentemos também compreender o que eles quiseram expressar e o que sentem tantos povos na Europa, inclusive o povo francês".

Isso sem falar que pesquisas de opinião entre as populações da Espanha, Grã-Bretanha, Bélgica, Alemanha e França indicaram que um referendo sobre a proibição de minaretes seria aprovado, assim como ocorreu na Suíça. E provavelmente também na Holanda e países nórdicos, que já começam a sentir as conseqüências de sua tolerância ao Islã. Em Malmö, Suécia, por exemplo, cinco mil habitantes já abandonaram a cidade por não suportar a convivência com árabes.

No Estadão de hoje, em artigo muito em cima do muro, com o título safado França cristã hostiliza 'convidados', Gilles Lapouge comenta o artigo de Sarkozy: “Na França, a votação suíça provocou indignação. A esquerda considerou o resultado detestável, vergonhoso e populista, de uma grosseria suprema. A Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, pelo contrário, gostaria que a França seguisse o exemplo da Suíça e também lançou uma pequena cruzada contra os minaretes”.

Lapouge está confundindo França com esquerdas francesas. Esqueceu que a França elegeu Sarkozy como presidente, que não pode ser considerado um homem de esquerda. A França abomina árabes e negros. As esquerdas francesas, oriundas do finado marxismo, os adoram. São herdeiras do ódio de Marx à Europa. O Manifesto começa com uma ameaça: “um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. Hoje, sabemos que foi fantasma. Mas fantasma diligente, produziu cem milhões de mortos no mundo todo. O fantasma fracassou rotundamente. Hoje é ridículo falar em luta de classes. As esquerdas herdeiras do profeta alemão muniram-se hoje de duas novas armas, o aquecimento global e a defesa do imigrante. Mais especificamente, do imigrante árabe. Se não foi possível destruir a Europa jogando trabalhadores contra detentores do capital, ainda há uma chance: destruir a cultura européia defendendo o Islã.

Continua o correspondente perpétuo do Estadão: “E, dessa maneira, Sarkozy retornou a esses "temas fundamentais" que criaram tormentas quando dos seus antigos discursos: a França é uma terra cristã. As outras religiões são "convidadas", e serão acolhidas dignamente, se forem sensatas, reservadas, gentis, não ostensivas”.

Que a França é um país historicamente católico, disto sabemos. Tanto que é considerada “la fille ainée de l’Église”. Que tenha convidado outras religiões a se instalarem no país, disto nunca tive notícias. Ocorre que os imigrantes trazem suas religiões a tiracolo. No caso dos árabes, este contrabando se complica, pois o Islã é uma religião expansionista e intolerante. O muçulmano não aceita as regras do país que o hospeda. Quer impor as suas. Daí o conflito.

Não há religiões “convidadas” na França. País algum convida uma religião. O que há são imigrantes que, se um dia foram convidados – em função da escassez de mão-de-obra no pós-guerra –, hoje são indesejados. Tarik Ramadan afirmava, em artigo que citei na última crônica: “Eles (os suíços) se recusam a reconhecer que o Islã é hoje uma religião suíça e européia”.

Ora, que existam muçulmanos na Europa, isto não se pode negar. Daí que o Islã seja uma religião suíça ou européia vai uma longa distância. O cristianismo, através de Constantino, se instalou na Europa. O mesmo não ocorreu com o islamismo. O cristianismo, por sua vez, se se instalou no continente, viu-se constrangido a abandonar a idéia de Estado teocrático. O único Estado teocrático na Europa hoje é o Vaticano, se é que pode chamar-se de Estado.

O Islã não concebe um Estado laico. Não merece a Europa.

09 dezembro 2009

Tarde piaram os suíços

Janer Cristaldo


Eu chegava em Lisboa, dia 29 do mês passado, quando algo ocorreu na Europa, mais precisamente na Suíça. Cidadãos conclamaram um plebiscito para decidir se seria permitida a ereção de minaretes nas mesquitas construídas para culto dos imigrantes. Dava-se como certo que a maioria da população rejeitaria a proibição. Mesmo assim, analistas temiam que pelo menos 30% da população votasse contra os minaretes, o que azedaria as relações com o universo muçulmano. Aconteceu então o insólito: 57 % dos suíços votaram contra os minaretes.

Preponderou a argumentação do líder político Oskar Freysinger, que denunciou o avanço do Islã na Europa. “Em nome da tolerância, não se deve introduzir a intolerância na Suíça. O pensamento muçulmano não vê o mundo como nós e escapa a todo controle democrático”. Freysinger desmontou os argumentos de adversários desta iniciativa, que temiam medidas de represálias. Os petrodólares permaneceriam na Suíça mesmo se a medida passasse, pois os Estados muçulmanos conhecem bem as vantagens de aplicar no país.

«Se a vida é insuportável para os muçulmanos, eles podem muito bem apanhar suas coisas e voltar aos países de origem», disse um delegado romanche. Um outro evocou a «erradicação do cristianismo» com a construção dos minaretes. Não me parece que a construção de minaretes possa erradicar o cristianismo da Europa. Mas tampouco posso conceber Genebra ou Zurique com minaretes sobrepondo-se às catedrais. Da mesma forma, é de supor-se que os países árabes não admitiriam a proliferação indiscrimanada de catedrais em seus territórios.

Mas o problema não reside nisto. Por um lado, mesquita é o lugar onde o crente reza e ponto final. No Saara argelino, vi mesquitas que sequer tinham paredes ou teto. Eram vazios no deserto. Se os crentes ali rezavam, era lugar de oração. Minarete já é uma ostentação de poder. Sem falar que você tem de agüentar cinco vezes por dia a voz esganiçada – e amplificada - do muezim conclamando os brutos à prece. Verdade que na Suíça esta conclamação não existe. Mas quem diz que quando a Suíça estiver crivada de minaretes, os cabeças-de-toalha não irão exigir o direito à conclamação à prece?

Por outro lado, os muçulmanos não aceitam as regras dos países para os quais migram e querem impor as suas. Suas mesquitas são madrassas, escolas de islamismo e ódio ao Ocidente. Insistem na poligamia, no casamento forçado, na ablação do clitóris, no véu e no feriado às sextas-feiras. Nada tenho contra a poligamia. Mas se um homem pode ter quatro mulheres, por que uma mulher não pode ter quatro homens? E se um imigrante em países ocidentais pode ser legalmente polígamo, por que não pode o cidadão ocidental? Quando existem duas ou mais legislações distintas em um país, não temos mais um país, mas dois ou mais países.

Quanto à ablação do clitóris, se estes animais alimentam medos em relação à mulher, melhor que voltem a seus estreitos universos mentais. Nos dias em que estive em países muçulmanos, aceitei suas regras. Não bebi álcool, não entrei em mesquitas com calçados, tampouco olhei para as mulheres locais, o que é considerado ofensivo. Se eles quiserem viver na Europa, que respeitem as regras do continente que os acolhe.

A decisão dos suíços está tentando países como Dinamarca, Alemanha ou Holanda a pensar no mesmo plebiscito. Que a meu ver é urgente. A França, muito politicamente correta, com complexo de culpa da guerra argelina e já entregue à invasão islâmica, olha com espanto para o país vizinho. O mesmo não pensam Portugal e Espanha, onde « los moros » não gozam de simpatia alguma.

O mesmo não pensa Tarik Ramadan, filho de imigrantes nascido em Genebra, que considera ser o islamismo uma religião européia. Ocorre que não é. Se o cristianismo aclimatou-se à Europa, o mesmo não se pode dizer do Islã. Para Ramadan, a UDC – partido que promoveu o plebiscito - pretendia inicialmente promover uma campanha contra os métodos islâmicos tradicionais para abater animais, mas temeu esbarrar na sensibilidade dos judeus suíços, e se voltou então contra os minaretes, eleitos como alvo mais adequado.

Ramadan sofisma. Não é uma questão de abate de animais o que move os suíços a repelir minaretes. E sim o totalitarismo de uma religião intolerante, que até considera que quem nela não crê deve ser exterminado. O mesmo criam os seguidores da Bíblia, e aí está a Inquisição como prova. Mas o cristianismo civilizou-se pelo menos um pouco e hoje até seus sacerdotes praticam tranquilamente o homossexualismo. No Islã, esta prática continua sendo punida com prisão e morte.

Ramadan continua sofismando:

“Todos os países europeus escolhem símbolos ou temas específicos por meio dos quais os muçulmanos locais são perseguidos. Na França, é o lenço ou a burca; na Alemanha são as mesquitas; na Grã-Bretanha, a violência; na Dinamarca, os quadrinhos; na Holanda, o homossexualismo - e assim por diante. É importante enxergar além desses símbolos e compreender o que está de fato acontecendo na Europa como um todo e na Suíça em particular: enquanto países europeus e seus cidadãos passam por uma crise de identidade real e profunda, a nova visibilidade dos muçulmanos europeus se mostra problemática - e assustadora”.

Nada disso. Muçulmano algum está sendo perseguido. Pelo contrário, gozam de todos as benesses das sociais-democracias européias que os acolhem, de benefícios sociais que jamais teriam em seus países de origem. Mulher alguma é proibida de usar véu ou burka na França. Apenas não pode usar na escola. Como identificar uma aluna de burka ou com véu que lhe cubra o rosto? Na Itália, os muçulmanos chegaram a exigir o uso de véu nos documentos de identidade. Ora, como identicar um rosto com véu?

Se a violência é quinhão dos árabes na Inglaterra – como também em vários países da Europa – pretenderá Ramadan que esta violência seja ignorada? Quem condenou os quadrinhos na Dinamarca? Foram os mulás, que não admitem a reprodução da imagem do profeta. Mas não tiveram a ousadia de condenar as enciclopédias que desde há muito a reproduzem. Quanto ao homossexualismo, façam-me o favor. Em pleno século XXI, não se pode condenar alguém à prisão ou à morte por uma questão de preferência sexual.

Ao proibir minaretes, os suíços estão rejeitando uma visão medieval do mundo e o totalitarismo inerente ao Islã, a uma filosofia de Estados teocráticos. Tarde piaram os suíços. A meu ver, deveriam ter rejeitado há muito até mesmo as mesquitas. Em Estados democráticos, não se pode aceitar filosofias, partidos ou religiões que neguem a democracia.

07 dezembro 2009

Palhaço de CTG traduz Fierro

Janer Cristaldo

Na ilha de Santa Catarina corre uma antiga piada, que já devo ter contado. Qual é o menor circo do mundo? São as bombachas. Só cabe um palhaço dentro. Verdade que os ilhéus não gostam muito dos habitantes do Estado vizinho. Mas não deixam de ter razão. Porque afinal não têm idéia do que seja um gaúcho. Conhecem apenas os palhaços de CTG, que gozam de prebendas no Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Gigolôs da gauchidade, criaram do gaúcho uma visão romântica e totalmente falsa. Que rende muito dinheiro e prestígio. Prestígio pelo menos entre gente inculta. Como esta gente é sempre maioria, o prestígio rende até mesmo poder.

De um pobre diabo marginalizado pela sociedade de sua época, fizeram uma espécie de herói, o tal de centauro dos pampas. O gaúcho, para os cetegistas, é um homem todo virtudes. Uma moça já perdeu o título de prenda destes circos por ter engravidado sem casar. Homossexualismo, ni pensar. Covardia, muito menos. O gaúcho, ou é valente ou não é gaúcho. Foge à condição de ser humano. É uma espécie de deus sem jaça, muito mais perfeito que o bíblico Jeová, que afinal era um assassino de mão cheia.

Terá sido esta cultura de “machos” que relegou ao oblívio um dos mais profundos ensaios jamais escrito no Rio Grande do Sul sobre as origens do gaúcho. Falo de Gaúchos e Beduínos, de Manoelito de Ornellas, que vê as raízes deste personagem não nos portugueses que desciam de São Paulo, como pretendem certos intelectuais da universidade, mas no mundo árabe. Ornellas era homossexual. Anátema seja.

Esta idealização do gaúcho tem suas origens em O Gaúcho, ridículo romance de José de Alencar, escritor nordestino do século XIX, que jamais deve ter visto um gaúcho de perto. Não contente em mistificar este personagem que é mais uruguaio e argentino do que brasileiro, Alencar também falseou a imagem dos bugres, em Iracema e Ubirajara. Mesmo assim, é até hoje considerado um dos grandes vultos da literatura nacional. E depois há quem me pergunte porque não morro de amores pela literatura feita neste país.

Um leitor de Uruguaiana me envia artigo de um destes palhaços, publicado há alguns meses na Zero Hora, de Porto Alegre, louvando sua própria tradução de Martín Fierro. Ora, os cetegistas sempre ignoraram solenemente o Martín Fierro. Imitavam as sextilhas de Hernández, faziam uns poemetos que eram um triste arremedo do grande poema latino-americano, mas jamais citavam o poeta argentino.

Sempre houve, entre os donos da cultura no Rio Grande do Sul, uma ojeriza a qualquer coisa que cheirasse ao Plata. Por estas razões, não foi publicado em vida de seu autor o mais autêntico – e certamente o único - romance gaúcho, Memórias do Coronel Falcão, de Aureliano Figueiredo Pinto. “Tem espanholismos”, alegaram os donos da cultura. Como se o gaúcho não fosse produto, antes de mais nada, de uma cultura hispânica. O gaúcho do Rio Grande do Sul é apenas uma extensão – e muito pequena – do gaúcho platino.

Esta cultura cetegista inclusive se apropriou da palavra como gentílico de todo aquele que nasce no Rio Grande do Sul. Como se gaúchos fossem pessoas que nasceram no asfalto e que jamais viram vacas ou cavalos de perto. Que sem jamais ter montado em um cavalo, se locomovem com carros ou motos. Como se gaúchos fossem pessoas que nasceram dançando valsas e comendo chucrute. Ou dançando tarantelas e comendo pizzas.

Falava do palhaço que pretendeu traduzir Fierro. Não vou citar seu nome, não quero poluir meu blog. Mas terei de citar algumas bobagens que escreve.

“Não há gaúcho no Rio Grande do Sul que desconheça Martín Fierro, a saga de José Hernández” – começa o palhaço. Ora, se por gaúcho hoje se entende quem nasce no Rio Grande do Sul – tanto que o turquinho Pedro Simon é chamado pela imprensa de senador gaúcho – podemos afirmar serenamente que a maior parte desta população sedizente gaúcha jamais ouviu falar de Fierro. Já ministrei um curso sobre Fierro na Universidade de Passo Fundo, cidade que se gaba de sua gauchidade, e meus alunos jamais haviam ouvido falar do poema. E há muito professor nas universidades gaúchas que até pode ter ouvido falar de Hernández, mas não consegue continuar o “Aqui me pongo a cantar”. O palhaço cetegista, já na primeira fase de seu artigo, profere uma tremenda bobagem.

Escreve ainda o clown: "Aliás, o nosso Estado está de certa forma intimamente ligado ao poema. Para começar, o poeta iniciou a escrevê-lo quando estava exilado no Brasil, mais precisamente em Santana do Livramento. O próprio sobrenome do herói é abrasileirado – “Fierro” está mais próximo de “ferro” do que de “hierro”... De resto, a escritora argentina Olga Latour de Botas provou em livro que existiu de fato no Uruguai um bandoleiro que teria sido a inspiração de Hernández: chamava-se Martín Fiero... e andava com capangas brasileiros, muito “conectado” com o Rio Grande do Sul..."

Para começar, se o poema está ligado ao Rio Grande do Sul, isto é mero acidente. Perseguido pelas tropas legalistas na Argentina, Hernández buscou asilo do outro lado da Fronteira. Não há mérito algum nosso na criação do poema argentino. E Fierro não é palavra abrasileirada coisa nenhuma. No Diccionario de la Lengua Española, da Real Academia Española, fierro consta como uma variante de hierro: (del lat. Ferrum) Hierro, úsase hoy en América y en algunas partes de España. O “tradutor” que pretende traduzir o poema começa por não saber a origem do sobrenome do personagem. Continua o bruto:

"Martín Fierro não era o herói “sans peur et sans réproche” de um Rolando ou de um Olivério. Ele passa o tempo todo cheio de autocomiseração, acusando todo mundo, embriagando-se e matando e, quando perseguido pela Justiça, sempre põe as culpas na autoridade. Não compreendeu o índio, nem mesmo tendo vivido com eles quando foi rejeitado pelos brancos seus iguais.

"E com certeza tampouco compreendeu o negro, pois matou um sem motivo, e quando trovou com outro sempre destacou que o adversário era negro. Quando muito amenizava o epíteto –negro –, chamando-o de “moreno”.

"Por isso e por outras razões Martín Fierro não é o meu herói predileto. Chora demais, não demonstra arrependimento pelo que fez e sua relação com Cruz é marcada por uma efusão emocional em tudo distante da alma do gaúcho. Como se não bastasse, em nenhum momento sente falta de mulher..."

Ocorre que Hernández não pretendeu criar nenhum herói mítico. Limitou-se a descrever um tipo humano, com suas fraquezas e virtudes, sem nenhum retoque. Hernández era de uma época em que negro era chamado de negro. Ou pretenderia o “tradutor” que, há mais de século, Hernández falasse em afrodescendente? Sempre houve uma certa hostilidade entre negros e brancos na geografia do gaúcho, a tal ponto que, ainda há pouco – e não duvido que até hoje -, nas cidades da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, havia bailes de negros e bailes de brancos. Por uma especial deferência dos brancos, os negros podiam dançar uma música, a “valsa dos negros”, no baile dos brancos. Os negros retribuíam na mesma moeda, permitindo aos brancos uma dança. Mas Fierro matou em legítima defesa. Ou pretenderia o “tradutor” que Fierro não defendesse seu pelego?

Estuve un poco imprudente,
Puede ser, yo lo confieso,
Pero el me precipitó,
Porque me cortó primero,
Y a más me cortó la cara,
Que es un asunto muy serio.


Fierro matou um negro como podia ter matador um branco. Aliás, os matou em sua briga com “la polecía”, junto a Cruz. Matou ainda em uma pulpería “un gaucho que hacia alarde de guapo y de peliador”:

Se tiró al suelo; al dentrar
le dió un empellón a un vasco
y me alargó un medio frasco
diciendo: “Beba, cuñao.”
“Por su hermana”, contesté,
“que por la mía no hay cuidao.”


Quantas vezes não morreram maulas na campanha rio-grandense por terem proferido uma palabra que soa a insulto? Tenho casos até em minha familia. O gaúcho não é nenhum ser civilizado, e já ouvi falar de muitos assassinatos por razões passionais. Que, aliás, mesmo no universo urbano eram considerados direito do marido, sob a eufemística alegação de “legítima defesa da honra”. E não foram só estas as mortes de Fierro. No confronto com a policía, quando encontra Cruz, mata vários de seus contendores. É claro que o “tradutor” não fará nenhuma objeção às fanfarronadas de Jayme Caetano Braun, em Bochincho. Afinal, comem no mesmo cocho.

Talvez quem ouça - não creia,
Mas vi brotar no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha


Quanto aos índios, mesmo tendo se refugiado entre eles, Fierro os via como um povo hostil. Buscou refúgio entre eles fugindo da polícia, que o havia recrutado para matá-los.

El que maneja las bolas,
el que sabe echar un pial,
o sentar en un bagual
sin miedo de que lo baje,
entre los mesmos salvajes
no puede pasarlo mal.


É clássica na gauchesca platina a imagem da cativa, a branca raptada pelos índios, vide o soberbo poema de Esteban Echeverria, La Cautiva. E é para defender uma cautiva que Fierro mata um índio.

Era una infeliz mujer
Que estaba de sangre llena,
Y como una Madalena
Lloraba com toda gana;
Conocí que era Cristiana
Y esto me dio mayor pena.

(...)

Toda cubierta de sangre
Aquella infeliz cautiva
Tênia dende abajo arriba
La marca de los lazazos;
Sus trapos echos pedazos
Mostraban la carne viva.

Alzó los ojos al cielo,
En sus lágrimas bañada;
Tenía las manos atadas,
Su tormento estaba claro;
Y me clavó una mirada
Como pidiéndome amparo.

Yo no sé lo que pasó
En mi pecho en ese instante;
Estaba el índio arrogante
Com una cara feroz:
Para entendernos los dos,
La mirada fue bastante.

(...)

En tamaña incertidumbre,
Em trance tan apurado,
No podia por de contado
Escapar-me de outra suerte,
Sino dando al índio muerte
O quedando allí estirado.


Fierro arrisca sua vida para defender uma cativa branca, e o insigne “tradutor” fala de “ranço colonialista, racista, preconceituoso e etnocida que às vezes permeia o belo poema de José Hernández”. Talvez já tenha se acostumado à idéia da moderna antropologia, para a qual é perfeitamente permissível aos selvagens espancar e matar mulheres e crianças. Pelo jeito, já se imbuiu dessa idéia tão encontradiça no Rio Grande do Sul, de que espancar e matar mulheres é perfeitamente legal, digno e justo.

Cabe também lembrar que a prática da degola é uma das mais antigas tradições gaúchas. Escritores e historiadores do Rio Grande do Sul não gostam de tocar no assunto. Erico Verissimo, considerado um grande intérprete da gauchidade – pelo menos para quem não sabe o que é um gaúcho – passou a vol d’oiseaux pelo assunto. Distante da literatura do Erico, e sem falar que jamais me aprofundei em sua obra, perguntei a especialista no assunto onde Verissimo aborda o assunto. Está em O Tempo e o Vento, em Incidente em Antares, em O Resto é Silêncio, e também no conto Os Devaneios do General. Sempre para se referir ao comportamento dos coronéis autoritários ou algo assim.

Quer dizer, o gaúcho que degola é um anjo de candura, a soldo de homens maus. Ora, a prática da degola foi corriqueira entre gaúchos. Segundo o folclorista pendurado nas tetas do Estado, Adão Latorre, a quem se atribui a degola de 300 pica-paus, em Hulha Negra, Bagé, às margens do Rio Negro, não pode ser gaúcho. Verdade que há quem conteste esta versão, dizendo que 300 seriam as baixas totais do inimigo, e apenas 23 “patriotas” teriam sido degolados. Mas não ouvi ninguém contestar a degola de 250 maragatos, pelo pica-pau Cherengue, no Combate do Rio Preto, em represália à degola do Rio Negro.

É óbvio, segundo a ótica do cetegista, que nem Adão Latorre nem Cherengue eram gaúchos. Gaúcho é um santo homem cheio de virtudes. Onde se viu um santo degolar? Com uma diferença. Latorre e Cherengue são personagens históricos e não entes de imaginação, como Fierro.

“Oscilando entre a depressão e o ódio, Martín Fierro é um homem perigoso, bipolar diríamos hoje” – continua o animal. Como se um personagem de mais de século pudesse ser definido por conceitos ianques contemporâneos. Além do mais, não há depressão nem ódio no poema. Fierro canta suas desdichas, que é o que tinha para cantar. E nutre um grande apreço pela humanidade. Quanto ao inimigo... bom, tem de combatê-lo.

Como se um personagem pudesse ser perigoso. Suponho que o sedizente tradutor não goste de ler Homero, afinal na Odisséia Édipo casa com a mãe, comportamento absolutamente condenável num galpão de CTG. Certamente abominará o belíssimo Família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, no qual o personagem-título esfaqueia a própria mãe. Deve odiar Dostoievski, afinal Raskolnikov mata uma velhinha e se arroga o direito ao crime. Shakespeare, ni pensar.

Certamente, detestará ler a Bíblia, onde o bom deus dos judeus e cristãos manda massacrar, arrasar, degolar, destruir cidades, matar tudo que respire. Só o santo homem Moisés mandou degolar três mil judeus. Nem Adão Latorre nem Cherengue ousaram tanto. Em sua estreiteza mental, o “tradutor” pratica, certamente sem saber, um zdanovismo rasteiro, eivado de stalinismo. O gaúcho não é humano, mas um arquétipo do bem. Ora, realismo socialista é coisa dos anos 30, mas parece só agora ter chegado a Porto Alegre.

“Mas o poema Martín Fierro, sim, é o meu poema predileto”. Se o conhecia desde a infância, como declara, porque pensa em traduzi-lo só depois de velho? E, sem ter jamais traduzido sequer uma canção de ninar, como pretende traduzir poesia? Mais ainda, um dos poemas de mais difícil tradução do continente?

O “tradutor” dedica sua tradução a seu filho. “A ele eu dedico este trabalho com a esperança de que ele continue o meu esforço em defesa da cultura gaúcha e o transmita ao meu neto e aos bisnetos que possam vir. Isto é amor”. Ora, se por cultura gaúcha este senhor entende essa cultura farsesca de CTGs, isto nada tem a ver com Hernández.

Fierro é poesia. CTG é palhaçada, parasitismo estatal. Para este clown, Fierro não é gaúcho porque, pelas circunstâncias da vida, teve de matar alguns inimigos. Seria gaúcho se se pendurasse nas tetas do Estado, sustentando seus luxos com a contribuição compulsória de quem paga impostos, se se fantasiasse com uniforme de gaúcho nos fins de semana e freqüentasse esses lucrativos circos que exploram a credulidade de rio-grandenses ignorantes, que sequer têm a idéia do que um dia foi o gaúcho.

04 novembro 2009

Taleban da Uniban têm medo de coxas

Janer Cristaldo


Gosto de citar uma frase que Roberto Arlt, considerado o Dostoievski argentino, coloca na boca de um de seus personagens:: “A revolução, a faremos com os jovens. São estúpidos e entusiastas”.

Em minha vida, encontrei não poucos jovens maduros e sensatos e tive imenso prazer em confraternizar com eles. Mas, no geral, tenho de concordar com Arlt. E vou mais longe: estúpidos, entusiastas e senis. Prova disto é o recente episódio ocorrido em São Bernardo do Campo, no campus da Universidade Bandeirantes de São Paulo (Uniban).

Uma estudante do primeiro ano de Turismo quase foi linchada por uma multidão de estudantes no prédio onde estuda, por estar usando um minivestido. O fato ocorreu na semana passada e ganhou repercussão nesta semana pelo site YouTube, onde foram publicados vídeos que registraram o episódio. Leio na Folha de São Paulo:

Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa! Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22). Michele Vedras (nome fictício inventado por ela em um blog) só conseguiu sair da escola sob escolta de cinco soldados da PM, duas mulheres inclusive, que tiveram de usar spray de pimenta para conter os mais exaltados e abrir caminho entre a massa. Vídeos do ataque circulam pela rede, um deles intitulado "A Puta da Uniban". (...) Presos na sala de aula, a turma e o professor ouviam os estudantes lá fora gritando. "Solta ela, professor! Deixa pra nós. Vamos estuprar!"

Mas em que país estamos? Certamente não é neste Brasil, onde a minissaia vige desde os anos 60 e fio dental nas praias não escandaliza mais ninguém. Mulher pelada está nas capas de todas as revistas, expostas publicamente nas bancas de jornais. O que gera efeitos curiosos. Os membros da Opus Dei, a organização aquela à qual pertence um dos líderes do PSDB, Geraldo Alckmin, quando andam pelas ruas trocam de calçada ao ver um quiosque. Para não ver as mulheres peladas. Malucos religiosos, entende-se. Mas... universitários? Em um campus?

Em minhas universidades, lá nos anos 60 – isto é, há meio século - vivi cercado de minissaias e ninguém se espantava com isto. Quando professor, nos anos 80, minhas aluninhas não se furtavam de exibir o fundo de suas coxas aos professores. Eu lecionava na UFSC, onde muitos professores eram filhotes de padres, que das mulheres mantiveram distância em suas juventudes. Os ex-seminaristas subiam pelas paredes. Eu, que com mulheres sempre mantive um bom convívio, nem ligava. Para perplexidade de minhas discípulas. Certo dia, em plena aula, uma delas perguntou: “o professor não se comove quando mostramos as coxas?”

Comoção nenhuma. “Estou aqui para dar aulas, não para olhar calcinhas – respondi -. Vocês podem mostrar o que quiserem, isso não perturba minha aula. Agora, se for lá em casa...” Semana seguinte, algumas atrevidas estavam lá em casa. Mas isto já é outra história.

Estou perplexo. Que a União e Estados caloteiem seus credores, que senadores e deputados e governadores roubem, que ministros sejam corruptos, que acadêmicos transformem seus estudos no Exterior em turismo pago pelo contribuinte, com isto já estamos acostumados. Faz parte do cotidiano da nação. Mas é insólito que universitários quase estuprem uma colega só porque ela mostra as coxas. Segundo uma universitária entrevistada pela Folha, os colegas da moça tentavam enfiar o aparelho celular no meio de suas pernas, para tirar fotos.

Com o assalto ao erário, com a extorsão do contribuinte, com a corrupção de “nossos” representantes, já me acostumei. (Ponho nossos entre aspas porque meus representantes não são. Já faz quase três décadas que não voto). Mas por essa eu não esperava. Que isso aconteça na Arábia Saudita, no Dubai, no Afeganistão, no Paquistão, até que entendo. Foi em Riad, creio, que a mulher de um diplomata brasileiro foi esbofeteada pela Polícia Moral por ter entrado em um shopping com o rosto descoberto. O Itamaraty, tão valente quando se trata de defender Chávez ou Zelaya, nem chiou.

Entendo até no Vaticano. Mas no Vaticano, apenas impediriam a entrada da moça. Nem cardeais nem bispos nem a Guarda Suíça tentariam enfiar celulares entre as pernas de uma turista de minissaia. O Vaticano, com todo seu obscurantismo, consegue ser mais moderno que os universitários da Uniban. A atitude destes alunos é típica dos taleban. Daqueles baitas machos que não temem explodir-se em nome de Alá, mas que se mijam de medo ao ver o rosto de uma mulher.

Os universitários da Uniban, pelo jeito, têm medo de coxas. Logo das coxas, esse território tão lindo e harmonioso de uma mulher.

Além de estúpidos, são senis.

30 outubro 2009

A falta que faz um Napoleão



Janer Cristaldo



Entre 9 de fevereiro e 9 de março de 1807, Napoleão Bonaparte constituiu na França um sinédrio – conselho judeu de 71 membros – que sucedeu à Assembléia de Notáveis, que tinha por função oficializar as medidas de secularização em matéria de decisões doutrinárias, do ponto de vista da lei judaica. Ao sinédrio e aos notáveis, o imperador fez doze perguntas:

1. É lícito aos judeus casar-se com várias mulheres?
2. O divórcio é permitido pela lei judaica? O divórcio é válido sem que seja pronunciado pelos tribunais e em virtude de leis contrárias ao Código francês?
3. Uma judia pode casar-se com um cristão e uma cristã com um judeu? Ou a lei pretende que os judeus se casem apenas entre eles?
4. Aos olhos dos judeus, os franceses são irmãos ou são estrangeiros?
5. Em um ou outro caso, quais são as relações que a lei judiaprescreve para com os franceses que não são de sua religião?
6. Os judeus nascidos na França e tratados pela lei como cidadãos franceses vêem a França como sua pátria? Sentem a obrigação de defendê-la? Sentem-se obrigados de obedecer às leis e de seguir todas as disposições do Código Civil?
7. Quem nomeia os rabinos?
8. Qual jurisdição de polícia exercem os rabinos entre os judeus? Qual polícia judiciária é exercida entre eles?
9. Estas formas de eleição, esta jurisdição de polícia são desejadas por suas leis ou apenas consagradas pelo uso?
10. Há profissões que são proibidas pela lei dos judeus?
11. A lei dos judeus os proíbe de praticar usura com seus irmãos?
12. Ela proíbe ou permite praticar usura com estrangeiros?

A França vivia então um problema, as queixas permanentes dos departamentos do Leste contra os créditos dos judeus. Napoleão queria saber se os judeus que tinham nacionalidade francesa eram franceses ou estrangeiros que viviam sonhando com as colinas de Sion. É uma boa pergunta a se fazer aos judeus que vivem hoje no Brasil.

Leio no noticiário on line que a Justiça brasileira ordenou ao Ministério da Educação que marque outro dia - que não o sábado - para que 21 alunos de um colégio judaico de São Paulo façam o Enem. A prova está marcada para 5 e 6 de dezembro - sábado e domingo.

O sábado é o shabat, dia em que os judeus descansam. Do pôr do sol da sexta ao pôr do sol do sábado, não trabalham, não dirigem e não escrevem. Mais ainda: não acendem fogões, não ligam computadores, não portam qualquer objeto. Nem mesmo guarda-chuva. Aqui em meu bairro, majoritariamente judeu, quando chove aos sábados, os filhos de Israel, apesar de bem trajados, portam capas de plástico, dessas que se compram a cinco reais nas bancas de jornais.

Vendo que seus alunos perderiam o Enem, o colégio Iavne apresentou a ação judicial. Na primeira instância, a Justiça não viu motivo para mudar a data. O colégio recorreu. E o Tribunal Regional Federal deu razão à escola. O juiz Mairan Maia escreveu que o MEC deveria permitir que a prova fosse resolvida pelos alunos do Iavne "em dia compatível com o exercício da fé". Seria um exame com "o mesmo grau de dificuldade. Ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa."

Onde estes senhores pensam que estão? Em Israel, onde o shabat é sagrado? Neste Brasil laico, nem mesmo o domingo, dia sagrado para os católicos desde Constantino, é dia em que qualquer atividade seja interditada. Israel é um Estado teocrático e os judeus brasileiros estão querendo impor seus dogmas a um Estado laico. A decisão do juiz Mairan Maia abre portas para que os muçulmanos exijam não fazer vestibular nas sextas-feiras, seu dia sagrado. Mais um pouco, e teremos vestibular em datas diferentes para católicos, judeus e muçulmanos. E também para os seguidores da Igreja Adventista, que descansam nos sábados.

Está faltando um Napoleão nestes trópicos, para bem dividir as águas. Os judeus com cidadania brasileira precisam decidir se respeitam as regras do país onde escolheram viver ou se preferem seguir regras escritas na Judéia há cinco mil anos.

16 outubro 2009

1531: Deus x Correggio

Cliquem nas imagens ao lado para ampliá-las.

Figura 1

- Título: Nossa Senhora de Guadalupe
- Autor: O famosíssimo e eterno Deus Todo-Poderoso, onisciente, onipotente e onipresente, o ser mais perfeito de todo o universo - aliás, sua obra mais célebre.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: Pigmentos divinos desconhecidos que simulam tinta terrena desgastada pelo tempo, esmaecida, fosca. O substrato é um tecido com propriedades impressionantes: é fibra de cacto quando observado por criaturas de sotaina, e linho e cânhamo quando observado por criaturas de jaleco.
- Estilo: Jeová, o ser mais perfeito do universo, optou por um estilo tosco-pueril indígena a macaquear o maneirismo pré-barroco europeu. Não quis fazer algo muito surpreendente para não tirar a liberdade das gentes de não acreditar e, assim, valorizar a fé no absurdo, como gostava Tertuliano. O tema é sublime, transcendental. Deus retrata ao mesmo tempo a mãe e a filha.

Figura 2

- Título: Júpiter e Io
- Autor: Correggio, um reles mortal nascido em Reggio Emilia, Itália. Teve apenas uns trinta anos para desenvolver suas habilidades pictóricas.
- Ano da obra: 1531
- Técnica: A ordinária tinta a óleo sobre tela.
- Estilo: Renascentista para uns, maneirista para outros. O tema pagão, de um erotismo repugnante, retrata a absurda fecundação de uma mulher por um deus em forma de nuvem. Como se sabe, mulheres engravidam, no máximo, de deuses em forma de pomba.

14 outubro 2009

Ministro não pode?

A prisão do cineasta Roman Polanski na Suíça, 31 anos após ter admitido ter relações sexuais com uma menina de13 anos nos Estados, acabou sobrando para o atual ministro da Cultura e Comunicação francês, Frédéric Mitterrand - sobrinho do titio -, acusado por declarações feitas em um livro há quatro anos. (Sobrinho do titio, porque François Mitterrand era popularmente conhecido como Tonton, Titio). La Mauvaise Vie, publicado em 2005, no qual Frédèric fala de suas experiências sexuais com rapazes na Tailândia, foi bem aceito pelo público, com cerca de 190 mil exemplares vendidos.

Em um momento de sinceridade inusitada em um homem público, escreveu Frédéric Mitterrand : "Eu paguei por meninos. (...) Evidentemente, eu li o que foi escrito sobre o comércio de meninos aqui. (...) A miséria ambiente, a cafetinagem generalizada, as montanhas de dólares que isso produz quando os meninos não ganham senão migalhas, a droga que faz devastações, as doenças, os detalhes sórdidos de todo este tráfico. Mas isto não me impede de lá voltar. Todos esses rituais de feira de efebos, de mercado de escravos, me excitam enormemente. Não se pode julgar tal espetáculo de um ponto de vista moral, mas isto me agrada além do razoável. A profusão de jovens muito atraentes e ao mesmo tempo disponíveis me põe em um estado de desejo que não tenho mais necessidade de refrear nem de ocultar. O dinheiro e o sexo – estou no centro de meu sistema – aquele que funciona porque sei que não serei recusado".

Mitterrand, diga-se lá o que dele se quiser dizer, bem que merecia o Nobel de honestidade, se tal prêmio existisse. Admitiu fazer o que milhares de franceses e tantos outros europeus fazem na Tailândia. Seu crime foi tomar a defesa de Roman Polanski. Marine le Pen, na televisão France 2, o acusa de ter descrito – há quatro anos – a forma de que faz turismo sexual e o prazer que tem em pagar meninos tailandeses.

É a nova hipocrisia que toma conta da Europa e mesmo do Brasil. Se as pessoas fazem turismo gastronômico, porque não turismo sexual? Viajamos em busca de prazeres. Se alguém viaja em busca de boa comida, por que não viajar em busca de mulheres? Ou meninos? Ou, neste século XXI, alguém no Ocidente tem algo contra a homossexualidade? Homossexualismo, hoje, só crime em alguns países muçulmanos, onde quase todos os crentes são homossexuais mas não admitem que o sejam.

Mitterrand é acusado pelo porta-voz do Partido Socialista, Benoît Hamon, que considerou chocante este episódio de seu livro : "No momento em que a França se une à Tailândia para lutar contra este flagelo que é o turismo sexual, eis que um ministro do governo explica que ele próprio é um consumidor".

E daí? Não se pode mais viajar em busca de sexo? Nos anos 70, o grande atrativo dos países escandinavos era a oferta sexual. Alguém denunciou Suécia ou Dinamarca por tais chamamentos? Nada disso. A Escandinávia, na época, entronizou as prostitutas na condição de assistentes sociais beneméritas. Porque demonizar a Tailândia?

O argumento é associar homossexualismo à pedofilia. Em que consiste a pedofilia? No caso da denúncia do Partido Socialista, é ter relações com alguém que tenha menos cinco anos que o acusado. É a estúpida filosofia ianque. Relações com adolescentes é mercado reservado para adolescentes. Não se está falando, no caso, de relações com criancinhas. Mas de relações de um homem adulto que faz sexo com meninos de quatorze ou quinze anos. Os franceses parecem esquecer que na vizinha Espanha, a idade de consenso sexual é treze anos.

Ministro de Estado não pode ser consumidor de sexo? Pelo jeito, o que é permissível a cidadãos comuns, não o é a homens públicos. Em meus dias de jovem, quando optei por viver na Suécia, tenho de admitir que fui em busca de sexo. Não era exatamente turismo, era uma opção de vida. E daí? Sou por acaso um criminoso por gostar daquilo que todo mundo gosta?

Considero de uma franqueza extraordinária a confissão de Frédéric Mitterrand. Fugiu à hipocrisia de seu tio, o François, que além de seu passado nazista, manteve vida dupla, tripla ou quádrupla, com suas amantes. Ou mesmo Giscard d’Estaing, que hoje insinua, em uma ficção inusitada, relações com a vaca louca britânica.

Milhares de europeus vão à Tailândia em busca de sexo. Por que um ministro não pode? Fréderic penitencia-se do aspecto turismo sexual e, a meu ver, penitencia-se à toa, já que lei alguma pode, em sã consciência, condenar um turista por relacionar-se com pessoas dos países que visita. Quanto ao aspecto pedofilia, o “indigitado réu” afirma que falou de rapazes genericamente. Que não se relacionou com nenhuma criança, mas com pessoas adultas. Só o que faltava, em pleno século XXI, em um França que teve como expressão de sua cultura homens como André Gide, Marcel Jouhandeau, Jean Genet, condenar o homossexualismo de alguém. E inclusive Simone de Beauvoir, que nunca se privou do bom esporte com suas discípulas.

Thomas Mann, em Morte em Veneza, cria uma versão masculina da adolescência erótica, com Tadzio. Tadzio tem quatorze anos e espicaça o desejo do senil Aschenbach. O barão Wilhelm von Gloeden, em Taormina, fotografa adolescentes nus com um realismo que Visconti jamais ousaria. Segundo as más línguas, a fama dos meninos de von Gloeden teria feito até mesmo Nietzsche rumar à Sicília. A título de ilustração, segue uma rápida mostra dos meninos do fotógrafo alemão: http://tinyurl.com/yjhte3l

Em 1920, Gide publicou Corydon, livro que defende abertamente a legitimidade e dignidade do homossexualismo. Em Os Frutos da Terra, canta abertamente o amor à Nathanael. Alertado certa vez por amigos de que se expunha excessivamente buscando meninos em mictórios públicos, declarou tranqüilamente: “meu Nobel me dá cobertura”. Jouhandeau, em suas obras, nunca escondeu suas preferências por efebos. Genet, que foi expulso do exército por ser flagrado em atos homossexuais, fez a apologia do homossexualismo em Diário de um Ladrão, Nossa Senhora das Flores, Querelle.

No que de dependesse de Benoît Hamon, porta-voz do Partido Socialista, que considerou chocantes as confidências de Mitterrand em seu livro, e de Marine le Pen, que denunciou o ministro, Oscar Wilde seria queimado em efígie por suas relações com o jovem Bosie. Artistas como Clark Gable, Cary Grant, Gary Cooper e até mesmo o insuspeito Humphrey Bogart, deveriam ser jogados ao fogo do Hades. E mesmo divas como Greta Garbo, Marlene Dietrich e Edith Piaf, que não foram indiferentes ao chamado amor sáfico. Que dizer então da poetisa americana Mercedes Acosta, que teve a suprema ventura de participar da cama destas três musas? O Banquete, de Platão, onde vemos as investidas do jovem Alcibíades em cima de Sócrates, deveria ser queimado na Praça da Bastilha.

Bernard-Henri Lévy, no Libération, fala de “uma nova ordem moral que, há quinze dias, parece virar as cabeças que acreditávamos imunizadas contra o moralmente correto tão caro a nossos Pais e Mães do Pudor. (...) A nova Brigada dos costumes vigia. Triste época”.

Triste mesmo. Na arte e no universo dos artistas, pode. O que não pode é no mundo dos políticos e nos preciosos instrumentos de Estado. É espantoso que nesta França de 2009 políticos empunhem bandeiras da Idade Média.

13 outubro 2009

Ciência confirma a Igreja - Nossa Senhora de Coromoto

- Reportagem do mui respeitado jornal Zenit - O Mundo visto de Roma
- Página 8 do jornal venezuelano Versión Final
- Reportagem em Blog isento intitulado 'Ciência Confirma a Igreja'

A mídia mundial agora se ocupa, mais que de qualquer outro assunto, das surpreendentes descobertas na minúscula imagem de Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela.

A notícia, primeiramente lida em um jornal católico venezuelano confiabilíssimo, que três páginas antes trata Chávez como um grande estadista, elogiando-o por aumentar seu arsenal bélico para se prevenir contra a Colômbia de Uribe, e em blogs católicos daqui e de outros locais da América Latina, causou profunda comoção no mundo científico, a ponto de unir cientistas, que agora consideram a imagem barroco-indígena cucaracha, ótima para filtrar água, uma prova incontestável do sobrenatural.

Os cientistas, que se dedicam por vezes a derrubar teses e modelos consagrados, porque, entre outros motivos, a ciência os premia se provarem que uma verdade científica aceita por centenas de anos não é verdade em todas as situações, ou simplesmente não é verdade, neste caso se renderam desconcertados à pesquisa encomendada pelo clero venezuelano, sabidamente o clero mais cético da região mais cética do mundo.

O Papa da ciência, o único com autoridade concedida pelo Sumo-Cientista para definir o que é certo e o que é errado no mundo científico, exigiu dos cientistas da Itália, China, Japão, dos EUA, que se unissem e desistissem de quaisquer contra-provas. Decretou que estão proibidas novas análises e o cientista que discordar será excomungado da comunidade científica, instituição tão infalível que se disser que algo inexplicado é inexplicável, é porque não dá para explicar mesmo. Se não é explicado hoje, não o será jamais.

Os olhos da imagenzita tosca - como tudo que é do período rococó e indígena - são borrados e disformes, mas quando os ampliamos nos deparamos com olhos perfeitos, fotográficos (ao lado, imagem retirada do jornal venezuelano), com reflexo de cílios, iris perfeita e uma silhueta de alguma coisa que só pode ser um índio a querer agarrar à força a Mãe de Deus.

A imagenzinha do bugre está contida na pupila, bem definida como um desenho feito no PaintBrush. E algo que não aparece nas reportagens, uma injustiça: essa mesma Nossa Senhora de Coromoto chorou óleo perfumado em 2003. Gosta mesmo de agradar cucarachos!

Impressionante, deveras, mas nada comparável ao índio perfeito visto nos olhos da Virgem de Guadalupe, imperatriz das Américas.

Não é fruto da imaginação daqueles que procuram imagens em vidraças manchadas. É evidente que é um índio. E há também um unicórnio na pálpebra e uma revoada de corvos no supercílio. Observem a imagem abaixo.


01 outubro 2009

Melhor estivesse no Madame Tussauds

Trecho do PowerPoint que recebi sobre o corpo de Bernadette Soubirous:

"(…) …tantos anos depois de sua morte, por seu corpo corre ainda sangue líquido. É algo Sobrenatural e todo o sobrenatural é obra de DEUS. O caso é que a Igreja decidiu pô-la numa urna de cristal em Lourdes, para a veneração de todos os que ali acodem. Hoje, Santa Bernadette teria 165 anos de idade."

Todo sobrenatural é obra de um deus? E por que não de um ET brincalhão? Ou por que não de Pierre Imans, o designer de manequins que reconstruiu o rosto e mãos de Bernadette com cera a pedido da Igreja, para os fiéis não ficarem chocados?

Foram necessárias fotografias para ele chegar às feições porque, embora o cadáver estivesse meio preservado por sais de cálcio(?), o rosto estava escuro, desfigurado, os olhos afundados, estava sem a ponta do nariz, trechos do corpo sem pele. Basta ver as fotos de Bernadette para entender que o artista que se celebrizou pelos manequins de loja deu de presente ao cadáver da camponesa uma rinoplastia para aproximá-la do ideal estético greco-romano, pagão, como toda iconografia católica.

Para vermos bonecos que pareçam vivos basta ir ao Madame Tussauds, aquele famoso museu de cera. Pelo menos não vêm recheados com um cadáver. E figuras como Shakespeare, que lá também parecem vivas, foram muito mais importantes para a humanidade do que uma camponesa que afirmou que a mãe de Jesus, a quem é dado um tratamento meio de segunda classe a partir dos trinta anos do filho - este nem se digna a lhe receber durante uma pregação, quando ela manifesta esse desejo -, nasceu sem herdar o pecadilho de Adão e Eva. Parece coisa de São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, que sabia até o número de penas que um anjo tinha. As coisas passam a ser ou a não ser de acordo com pronunciamentos papais, de teólogos e de santinhos.

Esse culto à morte, essa fixação necrófila com glotes, cabeças, dedos, esse circo de horrores católico, é grotesco. Exumaram recentemente os restos de Joana D'Arc, perante os quais tantos se ajoelharam e obtiveram milagretes e curas, e acharam um fêmur de gato, uma costela humana e um trapo de múmia egípcia com uns 2500 anos de idade. Como bem disse Carlos Esperança, "O carbono 14 faz pior às relíquias católicas do que o CO2 ao aquecimento global". E, por séculos, diversos sagrados prepúcios de Cristo (circuncidado, como bom judeu) estiveram espalhados por igrejas italianas, e foram sumindo um a um, até o último ser roubado em 1983, após uma procissão com centenas de devotos católicos. O Sagrado Prepúcio era bom para fazer mulheres estéreis engravidar. É para rir!

Para um ser omni-tudo, o milagre do corpo incorrupto de Bernadette Soubirous foi tão mal feito, tão pela metade, que foi preciso um artista de bonecos para não deixar o resultado repulsivo. Da próxima vez que se invoque Zeus, Odin, Baal. Quem sabe o cadáver não ficará mais bonitinho, como o da Santa Evita Perón?

"por seu corpo corre ainda sangue líquido" - Mentiras "bem intencionadas", para variar...

------------

Voltando à Joana D'Arc

Por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana que teriam pertencido a uma santa que matou cristãos ingleses em nome de Jesus sob as ordens do próprio criador do universo transmitidas por anjos?

O seu deus estaria endossando milhares de coisas apenas no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana D'Arc; desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira - imaginem que tipo de relíquia apareceria por aí - até o assassínio em nome de um deus.

Há, claro, a hipocrisia da Igreja que não coloca a mão no fogo pela autenticidade das relíquias mas às vezes reluta em submetê-las à análise de cientistas, reconhece sua falsidade mas não as retira dos altares ou tenta inibir que fiéis façam promessas perante elas. A própria Catholic Encyclopedia diz, no site, que muitas relíquias são comprovadamente falsas mas como o povo, por tradição, está acostumado a venerá-las, a coisa é, digamos, tolerada.

------------

San Genaro

O Catholic Encyclopedia não diz que o "milagre" de San Genaro é falso. Diz, contudo, que a mesma liquefação tem lugar em várias outras relíquias nas vizinhanças de Nápoles ou em relíquias Itália afora trazidas dessa cidade. Acontece o mesmo com o suposto sangue de João Batista, de Santo Estevão, São Pantaleão, Santa Patrícia, São Nicolau de Tolentino, São Luis Gonzaga e muitos outros. O site cita um ou outro como "probably a pure fiction".

Pois bem... O mesmo patrão da Catholic Encyclopedia é o patrão das igrejinhas ao redor de Nápoles que também fazem seus milagres de liquefação. O patrão sabe mas deixa o rebanho crédulo lá estupefato perante a "ficção" porque, afinal, é tradição...
Só por isso?

Folha publica deputado comunista e mentiroso

Janer Cristaldo


O deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-China, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-ministro da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais, celebrou ontem na Folha de São Paulo os 60 anos da revolução chinesa, que estão sendo comemorados hoje na China.

Segundo o velho comunista, a revolução “mudou a história dessa grande nação asiática e influencia de forma decisiva as estratégias geopolíticas e econômicas da atualidade. Hoje, a contribuição da China para o crescimento mundial é superior à dos EUA e sua economia é considerada mais aberta que a do Japão pelos padrões internacionais. E, se podemos dizer que a China de economia agrária corresponde a um país de passado remoto, vale dizer também que a China dos produtos de baixo valor agregado já pertence ao passado recente, uma vez que se amplia a presença de mercadorias de alta tecnologia na pauta de exportações chinesas”.

E prossegue: “O que chama a atenção na revolução chinesa de 1949 é o fato de a construção da nova China ter se dado sobre base econômica extremamente atrasada, o que tornou desafios e conquistas ainda mais surpreendentes. Nos anos que precederam a conquista do poder pelo Partido Comunista, a atividade industrial moderna representava 10% da produção nacional, contra 90% da agricultura e da indústria artesanal. Era uma base "pobre e inexpressiva", como costumam definir os próprios chineses. A reforma agrária posta em marcha pelo governo revolucionário golpeou a estrutura feudal e dos senhores da guerra e liberou a força produtiva de 300 milhões de camponeses, que puderam ter acesso à terra e dedicar-se com entusiasmo à produção”.

Não bastasse isto, continua: “O Estado aboliu oficialmente atividades consideradas degradantes, como a dos eunucos e a das concubinas, e desenvolveu campanha contra o comércio e o uso do ópio. Em 1952, a produção industrial chinesa já havia aumentado 77,6% em relação a 1949, ano da revolução. Os salários dos trabalhadores tiveram ganho de 70%, e a renda dos agricultores, um aumento de 30% em relação ao período anterior”.

Só esqueceu um pequeno detalhe. O Livro Negro do Comunismo debita a Mao 65 milhões de cadáveres em tempos de paz. Em Mao, a História Desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday, os autores falam em 70 milhões. 65 ou 70, não se tem notícia na História de homem que, sozinho, tenha matado tanto. Entre 58 e 61, no Grande Salto para a Frente, 28 milhões de chineses morreram de fome. Segundo Jung Chang, foi a maior epidemia de fome do século XX - e de toda história registrada da humanidade. A China produzia carne e grãos, mas Mao exportava estes produtos para a União Soviética, em troca de armas e tecnologia nuclear. Segundo o Grande Timoneiro, como era chamado Mao, as pessoas "não estavam sem comida o ano todo - apenas seis ou quatro meses".

Aldo Rebelo é uma flor de eufemismos quando fala do Grande Salto: “A partir daí, a China conheceu uma fase de turbulências marcada por dois movimentos: o primeiro, o Grande Salto à Frente, de caráter voluntarista, buscava alcançar resultados econômicos acima das possibilidades reais e das condições do país. A economia chinesa declinou rapidamente por três anos consecutivos, e o povo viu-se ante grandes dificuldades”. Como militante comunista, informações não lhe hão de faltar. Omitiu acintosamente os 28 milhões de chineses que morreram de fome durante o Grande Salto.

Para Mao, morrer fazia parte da vida. Era preciso que as pessoas partissem para dar lugar às que chegavam. Claro que jamais lhe ocorreu perguntar se alguma pessoa aceita partir antes do devido tempo. "Vamos considerar quantas pessoas morreriam se irrompesse uma guerra - diz Mao -. Há 2,7 bilhões de pessoas no mundo. Um terço poderia se perder; ou um pouco mais, poderia ser a metade. Eu digo que, levando em conta a situação extrema, metade morre, metade fica viva, mas o imperialismo seria arrasado e o mundo inteiro se tornaria socialista."

A partir de 1953, foi imposto o confisco em todo o país, a fim de extrair mais alimentos para financiar o Programa de Superpotência. A estratégia era simples: deixar para a população apenas o suficiente para que permanecesse viva e tomar todo o resto. Segundo Chang, Mao via vantagem práticas nas mortes em massa. "As mortes trazem benefícios", disse em 1958. "Elas podem fertilizar o solo". Os camponeses receberam ordens para plantar sobre os túmulos. Usar luto foi proibido e até mesmo derramar lágrimas, pois segundo Mao a morte deveria ser celebrada.

O homem que brilha sobre o Leste – este é o significado de Tse Tung - não se contentou em matar e torturar. Procurou também humilhar a inteligência. Em 1966, durante o Grande Expurgo, fez arrastar e maltratar professores e funcionários da universidade de Pequim diante da multidão. "Seus rostos foram pintados de preto e puseram chapéus de burros em suas cabeças. Forçaram-nos a ajoelhar-se, alguns foram espancados e as mulheres foram sexualmente molestadas. Episódios semelhantes se repetiram em toda a China, provocando uma cascata de suicídios."

Os Guardas Vermelhos invadiram casas onde queimaram livros, cortaram pinturas, pisotearam discos e instrumentos musicais - conta-nos Yung Chang - destruindo tudo em geral que tivesse a ver com cultura. Confiscaram objetos valiosos e espancaram seus donos. Ataques sangrentos a residências varreram a China, fato que o Diário do Povo saudou como "simplesmente esplêndido". Muitos dos que sofreram os ataques foram torturados até a morte em seus lares. Alguns foram levados para câmaras de tortura improvisadas em antigos cinemas, teatros e estádios. Guardas Vermelhos vagando pelas ruas, fogueiras de destruição e gritos das vítimas: esses eram os sons e as cenas das noites do verão de 1966.

Que um tirano mate, isto nada tem de original. Faz parte de sua estratégia para manter-se no poder. O que mais me causa espécie em Mao foi um episódio de seu regime que bem demonstra a insanidade de homens que se atribuem poderes absolutos. Sigo ainda o relato de Yung Chang. "Um dia, Mao teve a brilhante idéia de que uma boa maneira de manter os alimentos seguros era se livrar dos pardais, pois eles comiam grãos. Então designou esses passarinhos como uma das Quatro Pragas que deveriam ser eliminadas, junto com ratos, mosquitos e moscas, e mobilizou toda a população para sacudir paus e vassouras e fazer uma algazarra gigantesca, a fim de assustar os pardais e impedi-los de pousar, de tal modo que eles cairiam de fadiga, seriam capturados e mortos pelas multidões".

Vi certa vez um documentário sobre esta insânia. Milhares de chineses perseguiam pardais por ruas, árvores e telhados, businando, batendo latas e tambores. Que Mao matasse, até que se entende. O mais difícil de entender é ver um líder levando milhões de chineses a matar pássaros... no grito. O problema é que estes pássaros, além de comer grãos, eliminavam muitas pragas, "e não é preciso dizer que muitas outras aves morreram na farra da matança. Pragas que eram mantidas sob controle pelos pardais e outros pássaros floresceram, com resultados catastróficos. Os argumentos dos cientistas de que o equilíbrio ecológico seria afetado foram ignorados".

Resultado da Grande Matança de Pardais: o governo chinês acabou pedindo, em nome do internacionalismo socialista, que os russos enviassem 200 mil pardais do leste da União Soviética assim que possível. E durante anos houve quem cultuasse no mundo todo - e principalmente entre nós - como salvador da humanidade, este assassino ridículo.

A Folha de São Paulo – jornal onde gostei de trabalhar – já não é mais o que era. Além de dar colunas a um senador corrupto, a um deputado corrupto e a um jornalista bolsa-ditadura, publicou ontem esta excrescência de um deputado comunista e mentiroso.

O que não deixa de ser uma redundância. Ou alguém conhece algum comunista que não seja mentiroso?

24 setembro 2009

O Centro da Bíblia

A maioria de meus amigos e parentes é católica. Pois bem, recebi um e-mail de um católico apostólico romano praticante com o qual travo discussões amenas sobre religião que não raro terminam num “cada um com sua fé ou não-fé” ou em um “há mais mistérios entre os céus e a terra do que pressupõe a vossa vã filosofia”. Se Hamlet, aquele homicida alienado e vingativo que palestrava com a alma penada do pai, cria nisso, quem sou eu para discordar? Não há Raios Gama, UVA, UVB, fótons, ondas eletromagnéticas, entre o céu e a terra?

Vejamos o e-mail perturbador que quase abalou minha não-fé, um PowerPoint com imagens de pôr-do-sol e música singela com piano:

-----------------------------

- Qual é o capítulo mais curto da Bíblia? Salmo 117;
- Qual o capítulo mais comprido da Bíblia? Salmo 119;
- Qual o capítulo que está no centro da Bíblia? Salmo 118;
- Há 594 capítulos antes do Salmo 118. Há 594 capítulos depois do Salmo 118. Se somar estes dois números totalizam 1188;
- Qual é o versículo que está no centro da Bíblia? Salmo 118:8. Este versículo diz algo importante sobre a perfeita vontade de Deus para nossas vidas. A próxima vez que alguém te disser que deseja conhecer a vontade de Deus para sua vida e que deseja estar no centro da Sua Vontade, indique a ele o centro de Sua Palavra, Salmo 118:8 - "Melhor é colocar sua confiança no Senhor teu Deus que confiar nos homens".

Agora, diga, seria isto apenas uma casualidade?
DEUS TE ABENÇÕE HOJE E SEMPRE!

-----------------------------

Se essa inconcebível proeza matemática, essas contas decimais, cabalísticas, são um sinal divino, então, católicos, urge que se convertam ao protestantismo o quanto antes.

Em um site de estatísticas bíblicas onde se fala em 1189 capítulos, não se vê Tobias, Judite, Macabeus e outros livros da bíblia católica. Logo, no Calhamaço de Embustes que meu amigo considera ser o livro verdadeiro, aquele do qual não se pode tirar nem acrescentar uma única vírgula, não há esse "easter egg" divino.

Em compensação, há uma mensagem muito mais interessante, possivelmente escondida pelo próprio Coisa Ruim.

Centro da Bíblia Católica:

Temos 1074 capítulos no Velho Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/OT-Statistics-NAB.htm

E 260 capítulos no Novo Testamento. http://catholic-resources.org/Bible/NT-Statistics-Greek.htm

E atenção (rufar de tambores).... o número é par, 1334! Logo, o capítulo que está bem no meio da bíblia católica, bem no meiozinho, é o nada.

Sejamos benévolos e consideremos o centro os dois capítulos que ficam ao lado desse capítulo inexistente. Cheguei, com duas contas simples (acessem o primeiro link), a I Macabeus, capítulos 4 e 5! Temos exatamente 666 capítulos antes, a partir do Gênesis, e 666 capítulos depois, até o Apocalipse.

O número da besta, ho ho ho!

Para quem gosta de ver provas do metafísico em números, simetrias, coincidências e acontecimentos pouco comuns, pouco prováveis, isto deve ser um prato cheio! Devemos reconhecer que o acaso favorece mais os protestantes do que os católicos, mas como estes estão sempre corretos e os primeiros são hereges, tudo não passa de uma coincidenciazinha e não devemos ser supersticiosos, claro! Ratio divinus est!

Destaquei os trechos mais edificantes do Centro da Bíblia Católica! Um deleite espiritual!

I Macabeus, 4

(...)
10. Gritemos agora para o céu para que ele se apiade de nós, que se lembre da Aliança com nossos antepassados e queira hoje esmagar esse exército aos nossos olhos.
(...)
14. Travou-se a batalha, mas os inimigos, derrotados, puseram-se em fuga através da planície.
15. Os últimos tombaram todos sob a espada, enquanto eram perseguidos até Gazara e as planícies de Iduméia, de Azot e de Jânia. E sucumbiram cerca de três mil.
(...)
23. Judas voltou para pilhar o acampamento, e seus homens apoderaram-se de muito ouro, prata, jacinto, púrpura marinha, e de grandes riquezas.
24. Ao voltarem, cantavam hinos e elevavam ao céu os louvores do Senhor, porque ele é bom e sua misericórdia é eterna.
...)
30. Tendo ante os olhos esse poderoso exército, rezou nestes termos: Sede bendito, Salvador de Israel, vós que quebrastes a força do poderoso pela mão do vosso servo Davi e entregastes os exércitos estrangeiros nas mãos de Jônatas e do seu escudeiro.
31. Entregai esse exército ao poder do povo de Israel e confundi nossos inimigos com suas tropas e sua cavalaria.
32. Inspirai-lhes o terror, fazei derreter seu orgulho audaz. Que eles sejam sacudidos e pisados.
33. Derribai-os sob a espada dos que vos amam e que todos aqueles que conhecem vosso nome cantem vossos louvores.
34. Travou-se então o combate, e do exército de Lísias tombaram cinco mil homens, que sucumbiram diante deles.
(...)
36. Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos.


I Macabeus, 5

(...)
3. Por eles perseguirem desse modo Israel, Judas atacou os filhos de Esaú na Iduméia, junto de Acrabatan, infligiu-lhes uma grande derrota, esmagou-os e apoderou-se de seus despojos.
(...)
5. Foram rechaçados em suas torres, onde ele os sitiou e os exterminou, queimando as torres com todos os que ali se achavam.
6. Em seguida atacou os amonitas, entre os quais ele descobriu um forte exército e numeroso povo, sob a chefia de Timóteo.
7. Travou com eles numerosos combates; foram aniquilados aos seus olhos e despedaçou-os.
8. Apoderou-se da cidade de Jazer e de seus arrabaldes e voltou depois à Judéia.
(...)
28. Judas mudou de caminho e atravessou o deserto para alcançar Bosor de improviso. Tomou a cidade, mandou passar a fio de espada todos os homens, apoderou-se dos espólios e incendiou a cidade.
29. Na mesma noite partiu e atacou a fortaleza.
(...)
68. Judas voltou para Azot, na terra dos estrangeiros, derrubou seus altares, queimou seus ídolos, sujeitou suas cidades à pilhagem e em seguida voltou para a terra de Judá.


LINDO!

18 setembro 2009

Desde o fundo do poço a uma vida plena de graça

Janer Cristaldo


Senhor pastor:

Houve época em que cri em um deus onipotente e salvador e muitas vezes a ele orei por minha salvação, pela salvação de meus próximos e mesmo da humanidade. Foram meus dias de adolescência, pastor. Justo naqueles dias, fui assaltado pelo clamor, não dos povos – como fala o Livro – mas pelo clamor da carne, clamor tirano, imperioso e impossível de ser domado. Por melhores propósitos que fizesse, acabava dominado pelos ditos prazeres da carne. Dizem que a carne é fraca, pastor. Nada disso, a carne é forte. Fraco é o espírito, que sempre acaba cedendo à carne.

Entrava em pânico, via à minha frente as chamas eternas do Hades, onde tudo é choro e ranger de dentes. Me sentia condenado ao convívio com demônios. Arrependia-me, fazia atos de contrição, confessava meus pecados a sacerdotes e recebia a absolvição. Por um dia ou dois, conseguia viver sem pavores. Mas não mais que um dia ou dois. No terceiro, eu já estava pecando de novo. As noites de tempestade eram noites de pavor. Talvez fosse megalomania. Mas cada raio que caía, eu sentia que era dirigido a mim.

Eu era pobre, pastor. Filho de camponeses, nunca tive facilidades em minha infância. Muito menos na adolescência. Fiz minhas universidades mal tendo dinheiro para o restaurante universitário. Vivi em repúblicas abomináveis, pequenos apartamentos, sem grana suficiente para tomar um vinho decente. A bebida mais ao alcance de minha boca era a mais barata, a cachaça. Ainda adolescente, tomei grandes porres de cachaça. Naqueles dias de pouca grana, bebia muito e bebia mal. Em minha juventude, pastor, eu estava no fundo do poço. O senhor Jesuis era um encosto em minha vida, despacho de catimbó feito a Exu, praga rogada por urubu para infernar meus dias.

Foi quando então, pastor, durante três dias e três noites, li atentamente a Bíblia. Foram dias em que quase não comi. À noite, pegava um cavalo em pêlo, sem freio nem buçal, e saía a galopar nas madrugadas, olhando o céu estrelado e esperando ouvir daquele universo magnífico alguma resposta. Não ouvi nada, pastor. Foram três dias e três noites decisivas em minha vida. A partir da leitura do Livro, tornei-me ateu. Aquele deus proposto pelas Escrituras, que se pretendia criador daquele firmamento esplêndido e cravejado de estrelas, que só vemos na pampa ou no deserto, sempre longe das cidades, não me convencia. Aquele deus matava e exterminava, mandava matar e exterminar. Não me servia.

Disse então a mim mesmo: sai de mim, Coisa Ruim! Me larga, ó Espírito Castrador, sai de minha vida, ó Supremo Estraga-prazeres! Desapareçam de minha vida vocês três, o Pai, o Filho e o Paráclito. E a Mãe também, antes que me esqueça. E todos os santos do céu e todos os padres de todas as igrejas. Xô, Espírito Imundo, xô, Assassino de Povos. Ouste, Pai das Doenças e Exterminador de Nações. Rua de minha alma, ó velho Deus castrado!

Então, pastor, tudo mudou em minha vida. Saí do fundo do poço, rumo à luz do bocal. Mulheres começaram a cair-me dos céus, justo daqueles céus mudos aos quais eu pedia perdão por meus pecados. Como perdera a noção de pecado, nunca mais pequei. Tornei-me um santo homem e procurei imitar os bíblicos patriarcas. Curti plenamente os prazeres que tanto apraziam ao rei Davi, ao rei Salomão, à Sulamita. Verdade que nunca consegui sustentar setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas fiz o que estava a meu modesto alcance.

Por mais de quarenta anos, as mulheres me caíram nos braços como o maná caiu do alto por quarenta anos para saciar a fome do Povo Eleito. Comecei minha vida afetiva com duas, às quais muito amei. Por circunstâncias dos dias, perdi uma. Vivi quatro décadas de muito carinho e cumplicidades com a segunda. Fui feliz em meu casamento. Divórcios, separações, o espírito do ciúmes, amargura, traições, nunca rondaram minha existência.

Quando minha amada partiu, não acusei deus algum, afinal não acreditava em nenhum. Estas duas primeiras amadas logo se multiplicaram por dois, cinco, dez, vinte, cinqüenta. Não saberia dizer quantas, nunca contei. Mas digamos que a metade da “listina” de Leporello. Corri atrás delas com a hybris de um fauno grego, para compensar os dias de vacas magras e sem leite de minha juventude. Após deixar de crer no tal de deus, minha vida foi uma profusão de prazeres. Corri nu atrás de valquírias nuas pelos bosques de Estocolmo, em plena luz da meia-noite. Isto, pastor, teu deus não confere aos mortais, exceto se forem majestades apaniguadas pelo Senhor. Isto é ventura só concedida pelos deuses lúbricos do Valhala. Tack tack, Odin!

Uma vez descrente, apesar de pobre consegui educar-me. Fiz duas faculdades, três pós-graduações no Exterior, viajei por todos os países da Europa, por mais alguns do Leste europeu, pela África, Estados Unidos, Canadá e América Latina. Nasci nos peraus do Upamaruty, em um rancho de pau-a-pique e fiz doutorado em Paris. Consegui escapar de meu pequeno mundinho e sai a navegar pela vastidão do anecúmeno. Au bord’elle, la Seine, conheci uma peoniana adorável, a quem dediquei minha tese. Havia também Úrsula, uma polonesa, que me sussurrava: “mon ours tropical”. Música para meus ouvidos.

Não cheguei a amar a filha de Faraó, muito menos moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, como o sábio rei Salomão. Mas tive namoradas lindas em várias cidades do mundo. Desde suecas a francesas. Desde macedônias até mesmo a turcomenas e usbeques, passando por polonesas e russas. Adorei a turcomena. Era de Achkhabad, palavra que soava deliciosamente à minha fome de exotismo. Uma vez ateu, fascinou-me a idéia de ouvir mulheres gemendo em línguas que desconheço. E as ouvi. Paris sempre foi pródiga em estrangeiras de todos azimutes e não recusei o que a cidade generosamente me oferecia. Tive do bom e do melhor, como dizem suas ovelhas, senhor pastor. Mas só depois que deixei de crer.

Ateu, fui abençoado com dinheiro e vida confortável. De camponês tosco, tive acesso a línguas, à filosofia, à literatura, à música erudita, a óperas, em suma, ao dito mundo da cultura. De Teixeirinha passei a Mozart, de Luiz Gonzaga a Bizet. Abandonei a cachaça e passei a cultivar bons vinhos e bons uísques. Do mondongo fui promovido ao foie gras, do arroz com feijão às andouilletes. Curti a boa gastronomia da Espanha, França, Itália, Alemanha, Portugal. Percorri as cidades mais esplendorosas do Ocidente. Vivi em três prestigiosas capitais da Europa e em quatro grandes capitais de meu país.

Perambulei por paisagens magníficas, que me fizeram chorar. A beleza extrema sempre me provoca lágrimas. Andei pelo deserto, por oueds, montanhas, dunas, fjords, rias e ventisqueros. Chorei nos Andes, chorei nos Alpes, chorei no Saara, chorei nas costas da Noruega, chorei no Estreito de Magalhães. Chorei também em Santorini. De Madri, saí chorando. Eu estava em uma bodega, tudo era cores, dança, música, canções, madriles lindas, muito vinho, odores de assado bom, os sons rascantes de uma língua que adoro.

Quando me dei conta que, dali a duas horas, estaria voltando ao Brasil, chorei como um terneiro desmamado. Fui chorando até o aeroporto. Não porque estivesse voltando ao Brasil. Mas porque estava abandonando a festa. Dentro de pouco eu estaria voando, espremido num assento apertado, rumo a um país sin flamenco ni cante hondo, sin bailaoras ni cantaores, sin cochinillos ni lechales. Na bodega, continuariam todos cantando e dançando, comendo e bebendo. Muito chorei em minha vida, pastor. Raras vezes de tristeza. O mais das vezes, foi por deslumbramento, perplexidade ante a beleza. Felicidade também nos faz chorar. Choro também com certas árias de Nabucco, Carmen, Don Giovanni, Norma.

Depois que abandonei o tal de Deus, senhor pastor, passei a viajar quase todos os anos à Europa. Quando nele acreditava, só conseguia ir de Dom Pedrito a Ponche Verde. Fiz pelo menos cinco travessias divinas do Atlântico – com perdão pelo trocadilho – de navio. Sabe, pastor? Aqueles navios cheios de Emmas Bovarys sedentas para conhecer o mundo e experimentar emoções outras que não as medíocres emoções proporcionadas pelo Charles. Vivi grandes momentos, “ao quente arfar das vibrações marinhas”, como canta o poeta. Fiz cruzeiros também divinos pelo Mediterrâneo, pelo Báltico, pelo mar do Norte e pelo mar Negro, pelo Egeu, pelo Adriático e pelos Canales Fueguinos.

Durante pelo menos uns trinta anos, sempre celebrei a bona-chira nos mais antigos e acolhedores restaurantes da Europa, com minha Baixinha adorada. Agora que ela partiu, ora a celebro com minha filha, ora com alguma namorada. E com meus amigos. Bastou-me abandonar Deus, pastor, e minha vida se tornou repleta de bênçãos, que me caíam dos céus em catadupas.

Fui salvo por minha descrença, pastor. Quando cria em Deus, era um adolescente fodido e sem nenhum vintém. Não tinha nem como convidar uma amiga para um bom jantar. Bastou-me deixar de crer e a vida se tornou linda. Cheguei aos sessenta jovem e cultivando minhas antigas amadas. Não tenho carro, nem nacional nem importado, como ostentam vossos crentes, é verdade. Mas isto é opção minha. Com carro não se vai longe. Ora, eu gosto de ir longe.

Sem ser rico, vivo bem. Não tenho contas em vermelho, nem nome sujo na praça, nem problemas na justiça. Jamais fiz empréstimos. Não sei o que seja um cheque sem fundo. Muito menos problemas familiares. Hoje, minhas únicas dívidas são luz, água e condomínio. Vivo em bairro bom, prédio ótimo, apartamento confortável. Ano passado, regalei uma antiga namorada com uma viagem a Paris, Barcelona e Madri. Com uma noite em Bruxelas, só para curtir um café que adoro.

À minha filha – doravante designada Primeira-Namorada – dei de presente os fjords noruegueses, o sol da meia-noite, Estocolmo e o arquipélago de Estocolmo e de novo Paris. Na próxima primavera européia, estou combinando um giro pela Itália com uma amiga da Finlândia. Neste novembro próximo, partirei com a Primeira Namorada rumo a Madri e às ilhas Canárias. Madri porque não concebo ir a Espanha sem visitar Madri. Ilhas Canárias, porque quero passear entre os vulcões de Lanzarote e comer carnes assadas no calor das lavas.

Por vários anos vivi soterrado no fundo do poço. O senhor Jesuis sempre foi um atraso em minha vida. Tudo só se tornou lindo, divino e maravilhoso quando o abandonei. Sei que o senhor pastor, por questões de fé, não pode gozar dos prazeres que gozei e gozarei ainda.

Seja como for, felicidades, senhor pastor.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...