17 março 2008

O que são os EUA?

Em DST's, sexo, moraleiros&negócios, o autor diz:

"A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e "valores cristãos", ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem - cuidado com a palavra - tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta !"

O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois "eram muito cristãos". O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.
Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.
Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é "mais", o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei... Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, "liberdades". Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de "hipocrisia".
Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas... "Como aqui pode ser chamado de 'país da liberdade' se não me deixam andar na rua?" Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos "cidades carolas" como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.
Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: "Como? A droga não é proibida?" Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou "inferindo", chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido a existência da 2ª...
Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos... Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?
A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente... De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois uma certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo "raciocínio organicista" que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianômami.
Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a "liberdade de proibir", o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta "ditadura da maioria", como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.
Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.
Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico - ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda...). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais "burocratizadamente" porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.
O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de "engenharia social" típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.
Em suma (baita pretensão...), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.
Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um "equilíbrio perfeito", harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, "o troço" acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.
____________

PS: Quanto aos "30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST", nada encontrei, por enquanto... Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve...

13 comentários:

Raphael disse...

É como você disse, Anselmo. Todas essas diversidade e aparentes contradições na cultura americana derivam da própria liberdade intrínseca aos Yanques.

Raphael disse...

diversidades*

Raphael disse...

Quanto aos custos da liberdade e limites que ela precisa, lembrei-me desse texto que escrevi há algum tempo:

Sobre A Liberdade E Os Fascistas


O site nazista Valhalla88 foi censurado. Até ai, nenhum motivo aparente para revolta. Mas o motivo existe. Sob o pretexto de impedir a difusão de uma ideologia considerada genocida – devido às milhares de mortes conseqüentes do Nacional Socialismo – a hipocrisia ganha força.

Fico me perguntando, qual é o critério para julgar o que é e o que não é uma forma de pensamento aceitável? De acordo com os censores, essa ideologia matou milhões e, por isso, todo símbolo que remeta a ela, toda idéia, toda simpatia deve ser suprimida. Pergunto de novo, então é assim? Pois então tudo bem, aliás, nada bem. É melhor que entremos em pânico porque há centenas de partidários de um regime ainda mais genocida que o nazismo infestando, nesse exato momento, o distrito federal e todo o âmbito político e artístico no país! Esses sujeitos são mais conhecidos por comunistas, apesar de ultimamente alguns preferirem ser chamados de socialistas. Essa outra versão dos Kamaradas conseguiu a façanha de matar (e continua matando) ainda mais gente, muito mais, que o nazismo. Nazismo matou quantos? Seis, oito, dez milhões? Os números são incertos, mas vão por ai. Os números do comunismo também são incertos, a diferença é que eles variam na casa de três dígitos. Comunismo matou, no mínimo, por volta de cem milhões. No entanto, ninguém se preocupa em impedir sua difusão medonha.

Claro, não pretendo contar quem matou mais ou menos como justificativa para os regimes. Porém os números, nesse caso, são fatores importantes. Se o nazismo é demoníaco porque matou seis milhões de judeus, comunismo, que matou cem milhões de pessoas deveria ser ainda mais horrível. As pessoas deveriam tremer, esconder seus filhinhos, trancar as portas frente a simples menção da palavra.

Imagino o que vai acontecer agora se eles quiserem ser coerentes com suas idéias de “ideologias aceitáveis”. Vão prender os comunistas da câmara? Vão banir os “grandes” autores brasileiros? Vão prender Niemeyer e todos os outros que professam abertamente sua admiração por Stalin, Lênin e genéricos?

Quem crê na inverdade de uma crença não pode censurá-la. É o mesmo que assumir a falta de argumentos para refutá-la racionalmente. Se desejamos anular a influência fascista com alguma decência é preciso permitir que ela seja expressada e defendida livremente (contanto que não praticada) ao invés de, como se costuma fazer, reprimi-la com métodos igualmente fascistas.

A verdadeira sociedade livre deve permitir todas as formas de pensamentos, mesmo aqueles que vão de encontro com as leis. Enquanto idéias permanecerem só no campo das idéias e não dos atos, nenhum crime é cometido. Fosse de outra forma, nada nunca teria mudado, nenhuma lei ridícula ou costume primitivo teria deixado de existir ou melhorado, já que seria crime contestar a mentalidade da época dos mesmos. Tudo permaneceria estático, E, em todo caso, qualquer sociedade livre tem a obrigação de se basear principalmente na frase de Voltaire, que disse, e mantenham isso em mente: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”.


Por Raphael L. Piaia

Anônimo disse...

rafhael,
sugiro mandar confeccionar um adesivo com as figuras de Hitler e Stalin, lado a lado, com a legenda "Vivas a esses Herois da Humanidade". Por exemplo. Qual seria a reação dos "patrulheiros"?

Raphael disse...

Provavelmente só riscariam Hitler do adesivo...

a.h disse...

Concordo contigo, Raphael.

a.h disse...

E desculpe-me pela demora em responde-lo.

Heitor Abranches disse...

Gosto muito do conceito de reflexividade para a analise das sociedades, ou seja, as sociedades estao vivas e reagem aqueles que as olham. Estaria-se no paradigma quantico onde o observador interfere na experiencia. Os Estados Unidos conseguiu ser este Edem que abriga tantas esperancas por quase 200 anos recebendo pessoas fugindo da opressao e do totalitarismo em todo o mundo. Ele e o bastiao da liberdade. Hoje, a luta contra o terrorismo desafia as proprias instituicoes americanas e ameacam a tensao entre republica e imperio. O fato e que o liberalismo vale para os liberais. Nao se pode permitir que os inimigos da liberdade se aproveitem das instituicoes democraticas para destrui-las. Nao existem regras no combate aos inimigos da liberdade. Assim como Gramsci acredita que deve se buscar a contradicao dialetica gerada pelas proprias instituicoes burguesas para destrui-las tambem cabe as instituicoes burguesa e liberais se adaptar identificando seus inimigos e destruindo-os sem perder a propria essencia. Este e sem duvida um grande desafio.

a.h disse...

HEITOR,

ACHO que definiste bem um problema atual dos EUA (mas, não só deles...) ao manter um ponto de tensão entre a liberdade aos seus cidadãos e a repressão aos seus inimigos. Isto não seria nada fácil para nenhum país, mas como se desenvolve nos EUA, em casos bem específicos como nos Patriot Acts, todos antiamericanistas enrustidos ou mais explícitos se jogam, hipocritamente, a revelar a ameaça de "totalitarismo".

Concordo contigo nas tuas observações e, especialmente, na repressão aos seus inimigos.

Creio, no entanto, que houve um sério problema quanto ao argumento da administração Bush ao endossar o conceito da "guerra preemptiva". E veja que, talvez, diferente de ti, tenho apreço pela administração Bush...

André disse...

É, depende de quem faz a guerra preemptiva. Se isso vale pra todo mundo, vamos ter problemas sérios um dia.

a.h disse...

Isto, enquanto o sistema de defesa balístico não estiver em plena operação: http://execoutcomes.wordpress.com/2007/12/19/ballistic-missile-defense-new-scenarios/

André disse...

Os americanos não vão se arriscar a querer saber se um sistema BMD funciona. Só se não tiverem escolha, claro, se um dia alguém resolver se suicidar e lançar um míssil contra eles.

Um dia a Rússia monta o sistema dela e tudo se equilibra de novo, todo mundo volta a ficar com medo de todo mundo, se bem que já é assim.

Essas coisas no final são uma extensão da estratégia nuclear, onde tudo é muito bonito no papel, mas os riscos são altos demais e é tudo meio loucura. Calculada, mas loucura é. Existe uma seqüência lógica e até "idéias" de que o lado atingido primeiro consiga, quem sabe, lançar um contra-ataque devastador antes que o primeiro atacante lance a segunda onda, ou contra-contra-ataque, dele (e é claro que esse outro lado também acha que dá conta de lançar a primeira e a segunda ondas, e quem sabe até uma terceira, antes de qualquer reaçãozinha da vítima), essas coisas.

André disse...

O que vai acontecer é que as guerras vão continuar bastante convencionais, exceto por países querendo atingir os satélites dos outros com mísseis baseados em terra e tendo os seus satélites abatidos de volta da mesma maneira, coisas assim, que já são possíveis.

E, no futuro distante, satélites também terão armas, canhões de alta energia, mísseis e sei lá o que mais.

Em 2007, a China contribuiu muito para aumentar o lixo espacial, que já era um problema sério, abatendo um satélite velho dela com um míssil. Poderia ter reorientado ele pra cair no mar ou tê-lo abatido na órbita mais baixa, que não fosse usada por ninguém e que serve exatamente pra isso, mas preferiu encher de lixo logo a área mais utilizada. Basta qualquer um destruir cinco ou seis satélites na faixa mais utilizada da órbita para que ela fique infestada de lixo (o que, naquelas alturas e velocidades, seria letal para os outros). Cada satélite destruído libera milhares de pedaços com tamanho mais do que suficiente para danificar gravemente todos os outros que estão lá em cima. O mundo inteiro já está tendo problemas com os destroços chineses, que avariaram um monte de satélites comerciais e militares de gente que não tinha nada a ver com a história. E um dia pode até acabar caindo um ou outro por causa do que eles fizeram. As agências espaciais todas sabem que os chineses fizeram isso de propósito, claro. Foi uma irresponsabilidade, mas a China não liga.

Tudo isso é notícia velha e esse poder não é novidade, mas ninguém faz isso exatamente pq é ruim pra todo mundo, pelo menos da maneira como os chineses fizeram.

Mês passado, os americanos abateram um deles com muito mais eficiência e rapidez, de forma limpa, na altitude certa, sem criar problemas pra ninguém que eles não são bestas, e ainda aproveitaram pra mandar o recado pra China, que talvez estivesse a fim de sujar mais um pouco o espaço. Além do mais, os americanos podem ter um monte de satélites que os chineses poderiam atingir, mas a China tem poucos, então vai ficar quieta. É chato, mas de vez em quando vc tem q mostrar que tem força, pq todo mundo adora provocar --- e também quer tirar uma casquinha.

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